INÍCIO

10 janeiro 2023

BRASIL E OS GOLPES DA EXTREMA DIREITA

BRASIL: CRÔNICA DE UM JULGAMENTO ANUNCIADO

Por Atílio A. Borón *
Publicado em espanhol em Página/12, em 9/1/2023. Tradução: Gabriel E. Vitullo


O que aconteceu no Brasil é algo inédito na história daquele país. Mas, paradoxalmente, era algo previsível. Havia muitos sinais de que a direita radical, neofascista ou neonazista não estava disposta a permitir que a posse de Lula como novo presidente do Brasil se consumasse de forma ordenada e em paz. Indícios claros de que apostava num golpe militar, pelo que bateram à porta dos quartéis e acusaram publicamente os militares de covardes por não “resgatarem o país” das garras do comunismo e sua mortífera arma: a “ideologia de género”.

O mesmo que se fez no Chile nos meses finais do governo de Salvador Allende. A receita é a igual, “made in America”: mobilizar um segmento da “sociedade civil”, ganhar as ruas, precipitar a intervenção militar e derrubar o governo indesejável. Por isso o que aconteceu estava presente no desastroso “clima da época” alimentado pelo declínio inexorável dos Estados Unidos como superpotência mundial e sua recarregada virulência.

O sinal dessa revolta bolsonarista guarda uma semelhança notável com o que aconteceu quase exatamente dois anos atrás no Capitólio dos Estados Unidos. Nesse país ocorreu no dia 6 de janeiro, no Brasil no dia 8. A coincidência não é acidental, dada a existência de uma internacional neofascista muito ativa e bem financiada, cujo guru ideológico e organizacional é Steve Bannon, ex-assessor de Donald Trump. Mas as coincidências não param por aí. O objetivo era o mesmo: demonstrar como um grupo determinado e relativamente pequeno (no Brasil, umas quatro mil pessoas) pode tomar à vontade a sede dos três poderes do Estado e, se certas condições amadurecerem, fazer com que as Forças Armadas dêem um passo a frente e executem a reedição do infausto golpe de 1964. Por isso o que aconteceu é um ensaio, um teste. Certamente voltarão com tudo para tentar criar uma situação que acabe por tornar inevitável a mediação militar.

É claro que isso depende muito do que o governo Lula fizer. Para começar, terá de decretar a intervenção federal do Distrito Federal, cujo governo foi cúmplice necessário dada sua passividade perante os revoltosos. Também terá que substituir a direção dos serviços de inteligência do Estado, que não souberam – ou não quiseram – prever esta situação e alertar as autoridades sobre o perigo que se aproximava. E o mesmo terá que ser feito com as Forças Armadas. Por outro lado, o presidente Lula terá que se convencer de que terá que mobilizar e organizar sua base eleitoral e retomar o controle das ruas e das praças. Caso contrário, a estabilidade do seu governo poderá ficar seriamente comprometida. Nem as instituições nem os vários órgãos do aparato do Estado respondem a ele como manda a Constituição. Seu único resseguro é a mobilização popular.

Mencionamos acima o “clima de época” em que o ocorrido deve ser enquadrado. Relembremos: em 2021 aconteceu o do Capitólio; 2022 foi pródigo em eventos semelhantes. Em julho, milhares de manifestantes no Sri Lanka invadiram a residência oficial e o escritório do presidente e atearam fogo no escritório do primeiro-ministro. O sinal político não era reacionário, mas a forma do protesto sim. Em dezembro foi desarticulada uma tentativa neonazista de ocupar violentamente o Bundestag e vários parlamentos dos Landers alemães. Em setembro se deu a tentativa frustrada de magnicídio contra Cristina Fernández de Kirchner, ainda longe de ser esclarecida; em dezembro, a destituição de Pedro Castillo no Peru; agora a tentativa no Brasil. E antes, não devemos esquecer, talvez inaugurando este ciclo, o sangrento golpe neofascista na Bolívia.

O óbvio mas sistematicamente negado “déficit democrático” dos sistemas políticos que se pretendem democracias (e não o são!) se combina com os efeitos da crise capitalista e com os efeitos enlouquecedores das placas tectônicas do sistema internacional na Ucrânia e em Taiwan. E isso, politicamente falando, é dinamite. Desarmar essa bomba-relógio exigirá muita habilidade política, inteligência e força, para tomar decisões difíceis que certamente provocarão acalorados debates. Espero que Lula demonstre que tem essas virtudes.


*Atilio Alberto Borón é sociólogo, politólogo, catedrático e escritor argentino. Doutor em Ciência Política pela Universidade de Harvard. Professor consultor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires e pesquisador adscrito ao IEALC de referida faculdade.







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