"Muitas decisões de política externa e doméstica foram militarizadas; muitas missões militares foram politizadas".
"Não é tempo de 'acrobacias'. É tempo de liderança".
(Almirante 4 estrelas da reserva, ex-chefe do Estado-Maior conjunto das Forças Armadas dos EUA durante os Governos Busch e Obama, criticando clara e diretamente, em artigo de Jornal, sem subterfúgios retóricos, a má condução das forças armadas pelo presidente da república e por seu ministro da defesa - um general da reserva. Opinião de um militar da reserva sem nenhuma pretensão político-eleitoral própria, preocupado apenas em não dispersar as Forças Armadas em assuntos políticos internos)
"Na cultura militar, não existe propaganda nem discussão política sobre preferência de candidatos e partidos dentro dos quartéis. Quando o cidadão coloca a farda e representa a instituição, ele tem compromisso institucional e constitucional. Seu compromisso é com a Nação. As Forças Armadas são instituições permanentes do Estado brasileiro e não participam nem se confundem com governos, que são passageiros, com projetos de poder, com disputas partidárias, com discussões e disputas entre Poderes ou autoridades, que naturalmente buscam definir seus espaços e limites. No jogo político, muitas vezes os atores são levados por interesses de curto prazo, influenciados por emoções, limitados por suas convicções. Isso é normal no ambiente democrático."
(General 3 estrelas, ex-subchefe do comando de operações do exército e de força de paz no Haiti e Congo, ex-integrante da campanha e do governo, em cargo político, do presidente do Brasil, fazendo "acrobacias" e "lutando" contra os fatos para vender uma narrativa. Opinião de um militar da reserva cheio de pretensões político-eleitorais próprias, tentando disfarçar que as Forças Armadas, por irresponsabilidade dele e de seus colegas, está sendo usadas para um projeto político interno de um celerado)
(por Cel Marcelo Pimentel)
Barões e saltimbancos
(Carlos R Winckler)
Em 1977 estreou a peça infantil, Os Saltimbancos, uma adaptação do conto "Os músicos de Bremen" dos irmãos Grimm com letras e musicas adaptadas por Chico Buarque. Em uma pincelada a peça trata das relações entre elite e povo, na qual uma gata, um cachorro, um jumento e uma galinha explorados pelos donos, fogem para tentar a vida como músicos.
Ao ler o manifesto Somos Muitos/Estamos Juntos na FSP, no ESP e no Globo, publicado no dia 30/04, me veio à memória uma das composições adaptadas por Chico Buarque:
Todos juntos somos fortes
Somos flecha somos arco
Não há nada pra temer
E no mundo dizem que são tantos
Saltimbancos como nós
Vejamos.
Mais que um manifesto antibolsonarista, nas palavras de Antonio Prata, um dos signatários e organizadores, é um manifesto pela civilização, pelo respeito à democracia e contra "qualquer governo que pratique desmandos". Artistas, religiosos, intelectuais, políticos à esquerda e à direita o assinam. Tudo muito genérico no esforço de não melindrar ninguém - pois lá estão entre outros FHC, Lobão, Luciano Huck, compenetrados e muito sensíveis no seu papel de democratas de primeira hora, ansiosos para colher os louros, em que pese o apoio ao golpe de 2016, a responsabilidade, no mínimo pela omissão, pelo desastre de 2018.
Bolsonaro não é mencionado e nem há uma mísera palavra de ordem capaz de galvanizar a população como Fora Bolsonaro! Nem sussurram Impeachment! Nada sobre perdas de direitos sociais, nada sobre os trabalhadores. Nada sobre o desastre desde a "Ponte para o Futuro". Constam três linhas sobre a crise econômica, social e sanitária. Compreende-se que um manifesto não é um programa detalhado, mas esse é digno dos antigos concursos de misses, onde as beldades diziam: "desejo a paz mundial!" Nem isso há mais com o protagonismo feminista.
O manifesto tem alguma utilidade. Compromete, em certa medida, golpistas com um mínimo de valores civilizatórios. As personalidades de esquerda que assinaram, o fizeram na condição de indivíduos, na esperança em estabelecer pontes com esses setores, dada a gravidade do momento.
Esse é um dos tantos manifestos que se seguirão.
Onde residem os riscos?
Há um esforço, evidenciado pelos editoriais da mídia conservadora, em dissociar politica da economia, vale a critica aos "desmandos de qualquer governo", em dar continuidade ao projeto liberal - com alguns remendos como admitem trânsfugas liberais, mas nem isso aparece no manifesto.
O baronato brasileiro, tal como o barão de Os Saltimbancos, dono de uma pousada, exige gravata, dados pessoais e proíbe a entrada de mendigos e animais. Histrionicamente maquiado pretende neutralizar as classes populares e seus lideres. Acham que uma simples assinatura de Lula, que se recusou a assinar nos termos apresentados, daria um toque popular ao manifesto. Dilma foi convidada depois da publicação. Corteses esses senhoritos.
Armou-se uma tempestade com a negativa de Lula em assinar. Se ao menos se respeitasse minimamente as décadas de lutas dos trabalhadores. Houve quem dissesse - Reinaldo Azevedo - que o PT desejava um auto de fé antes de assinar. A nota do PT, assinada por Gleise Hoffman, apontou as responsabilidades dos liberais conservadores. O baronato não admite autonomia politica daqueles que considera subalternos. Há problema, a rigor, que cada campo politico se organize autonomamente e aja conjuntamente em questões tópicas no combate ao fascismo?
No manifesto tenta-se sequestrar a Campanha das Diretas Já (vejam que palavra de ordem!). Quem não se recorda, de geração mais velha, do ataque explícito à ditadura militar e aos efeitos perversos do modelo econômico? Não havia à época também uma Frente Liberal?
Saltimbanco tem igualmente o sentido de bufão. Não é o sentido utilizado na peça. A fúria de escribas bufões, mostra o desconforto em perceber que, ao contrário da década de 80, ocorreu um deslocamento mais denso à esquerda.
Conservadores liberais tentam se recompor depois do desastre eleitoral de 2018, quando foram quase varridos. Enfrentam vários fronts: a ultradireita bolsonarista que encolhe e nem por isso é menos perigosa; a inesperada capacidade de resistência do PT e a maior complexidade da sociedade civil; a possibilidade de transbordamento popular, em manifestações de rua, dada a crescente consciência de que não tem nada a perder, em um contexto de amálgama catastrófico entre pandemia/crise econômica. As manifestações que se avolumam, rompem, em certa medida, com a lógica da politica partidária institucional. Para tanto basta que observemos o que acontece nas ruas nos EUA e no Chile (ocultado pela mídia). A pandemia apenas acelerou processos que mostram a profunda crise do capitalismo como o conhecemos.
Sejamos saltimbancos como tantos nesse mundo, sem cair nos ardis dos barões.
P.S.:
Você pode concordar com todos os argumentos aqui expostos, eles são sustentados por fatos, mas é importante sublinhar que para vencer o fascismo alemão a URSS, independentemente dos fatos, ergueu laços com os países burgueses inimigos desde sempre da revolução bolchevique. Então o que se pode fazer?

Nenhum comentário:
Postar um comentário