TUNGA, SEMPRE O DESENHO.
A. Paim MSc, BSc, M.M.
Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, conhecido como Tunga nasceu no ano de 1952, em Palmares, PE, e faleceu em 2016, no Rio de Janeiro, RJ), filho do poeta e escritor Gerardo Mello Mourão e de Léa de Barros Carvalho, foi criado num ambiente artisticamente privilegiado.
Guignard morou na residência de seus avós maternos, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Orientado pelo Senador pernambucano Barros Carvalho, pintou no teto da sala de jantar uma paisagem de Olinda, sem nunca ter ido a Pernambuco. O famoso quadro Léa e Maura, conhecido como “As gêmeas de Guignard”, do acervo do Museu Nacional de Belas Artes, retrata a mãe de Tunga e sua irmã Maura.
Tunga nasceu de fato no Rio de Janeiro, mas seu pai quis homenagear o sogro e o registrou em Palmares, em Pernambuco. Tunga formou-se em Arquitetura pela Universidade Santa Úrsula. Iniciou sua carreira na década de 1960 com desenhos e esculturas, abordando temas ousados em séries como O Perverso e Charles Fourier.
Foi editor da Revista Nove (1969-71) e colaborador de Malasartes (1976).
Na década de 1980, produziu instalações que exploravam forças invisíveis com materiais como ímãs, cobre e borracha. Criou obras icônicas, como Trança (1983) e Xifópagas Capilares (1984). Desenvolveu o conceito de "instaurações", ações que ativavam suas obras.
Em 1997, publicou Barroco de Lírios, livro que faz um retrospecto de suas principais criações. Suas obras evoluíram, incorporando elementos como sinos e mondrongos (indivíduos feios ou disformes), apresentados em instalações como True Rouge (1997) e Tríade Trindade (2001). (1)
Sua erudição e formação filosófica se refletiu em uma produção artística que envolve o cruzamento de pesquisas em diferentes áreas do conhecimento, apresentando interfaces com a literatura, filosofia, psicanálise, teatro, ciências exatas e biológicas. Trata-se de uma obra potente, profunda e autorreferente que nega o tempo linear e se apoia fortemente na materialidade, topologia, simbologias e processos de transformação e metamorfoses.
Foi o primeiro artista contemporâneo e o primeiro brasileiro a expor no pátio da pirâmide do icônico Museu do Louvre em Paris (2005) e recebeu a honraria Chevalier des Arts et des Lettres, já teve sua obra exposta na 40ª Bienal de Veneza, na Itália; na X Bienal de Havana, em Cuba; na X Documenta de Kassel, na Alemanha; e, na V Bienal de Lyon, na França e na Segunda Bienal do Mercosul.(WP).
True Ruge
Sua primeira mostra individual, intitulada “Museu da Masturbação Infantil”, aconteceu em 1974, dando então prosseguimento à sua produção até sua morte em 2016. O silenciar do artista, a descontinuidade de sua prática, contudo, não nos parece deixar diante de uma obra inacabada. A razão para essa afirmativa certamente está no modo como o artista operava e estruturava sua poética. Sua plásti-ca, caracteristicamente híbrida, desenvolveu-se a partir de um jogo inteligente, dinâmico, erótico e cujo sentido manteve-se sempre em aberto. É a lógica dessa poética que se visa expor aqui, ou seja, sua constituição estrutural, a partir da fisicalidade de sua produção e de sua aura constituidora de sentidos, que o artista criava para compor sua arte.
No contato com a produção artística de Tunga, algo que se percebe logo é a recorrência a determinados elementos que constituem, então, seu vocabulário plástico. Muitas vezes tais elementos aparecem envolvidos em um ar de mistério, de sentido duvidoso, mas certamente contribuem para a compreensão do conjunto dessa produção artística. De todo modo, aquilo que produz e as instaurações que encerra não devem ser considerados separadamente. Na analise, sentidos dispares se articulam, pois elementos retornam em diversas peças e em momentos diferentes. Vemos então, muitas vezes, tranças, pêlos e cabelos, garrafas, cálices, sinos e dedais, mas também agulhas e ímãs. Tudo isso constitui, uma produção singular do artista, cuja pura visualidade não permite encerrar a análise. Parece haver algo mais do que o olhar seja capaz de assegurar.
O que se opera então? Suas hibridações nos revelam a cada momento mais um lance. O jogo é intrigante e carregado de dúvidas, pois não se fecha. A dúvida é a semente que germina no espírito do expectador-fruidor, que assim, completa a obra.
Tunga, portanto, explora espaço físico, mas também imagético e eles se conectam. É a partir desse "lugar" de sua arte que vislumbramos o sentido de sua poética.
As proposições de Tunga possuem formas tradicionais e diferenciadas. No rol de suas criações vemos a base e a essência estrutural da linguagem artística o desenho, mas também a escultura, a performance, a instalação e até produção textual, além é claro de suas instaurações.
Então, além da materialidade de sua produção plástica ele acrescenta ainda conteúdos que retira de narrativas misteriosas. Nesse sentido, a imagética constituída a partir dessas narrativas integram sua poética. Curiosamente, percebe-se que esses escritos possuem aparência de caráter científico, pois correspondem a cartas, depoimentos, registros de descobertas e de pesquisas, dentre outros. Apreende-se então que para se vislumbrar o sentido dessa obra devemos nos ater à aura que o artista constitui ao redor de suas peças (Cesário, 2018). Assim procedendo, Tunga nos mostra com maestria o que é o desenho, suas três fontes e sua interpretação calçada no entendimento do expectador-fruídor.
DESENHO O QUE É?
Desenho é a representação de seres, objetos etc. (reais ou imaginados) feita sobre uma superfície bidimensional, por meios gráficos, com instrumentos e materiais apropriados como carvão, tinta, ou lápis (grafite).
Assim, o desenho é a arte, ou a técnica de representar, ou criar formas, utilizando materiais como lápis, carvão, pincel, caneta etc. Diferencia-se da pintura e da gravura, por ser considerado tanto como processo quanto como resultado artístico final. É uma obra bidimensional composta por pontos, linhas, formas planas e volumes.
Desta forma, o desenho pode ser definido como a interpretação de qualquer realidade, visual, emocional, intelectual, ou outra, através da representação gráfica sobre um suporte. Da mesma forma que todo tipo de atividade artística, por trás do desenho existe uma larga gama de teoria e diversas técnicas (seduc).
Etimologia
Vamos conhecer agora as vertentes grega e latina para a ação de desenhar. A arte grega era baseada em valores estéticos que reverenciavam a perfeição da figura humana, do homem e dos deuses. Os gregos buscavam representar o mundo de forma mais próximo possível de um ideal do que consideravam perfeito. E em suas obras de arte, como no desenho, na música, na poesia, na esculturas e na arquitetura buscavam o belo e o bem que refletiam a vida em perfeita harmonia.
Para os gregos antigos a palavra "desenho, desenhar" era: γράφω, gráphō, do verbo γράφειν, graphein, que significa tanto desenhar, pintar, riscar uma superfície, quanto escrever, grafar, descrever.
Γραφή, graphé, γραφῆς, graphes, do grego antigo, desenho, pintura, escrever, uma escrita, palavras (texto), descrição sobre um suporte normalmente papiro, pergaminho ou papel.
A palavra γράφειν "graphein" é simplesmente o presente infinitivo ativo grego do verbo que significa arranhar, esculpir ou escrever (γράφειν) com um instrumento sobre uma superfície. Desta forma graphé, é um elemento formador de palavras modernas que significa "instrumento para gravação; aquilo que escreve, marca (uma superfície) ou descrever; algo escrito, grafia (texto), do grego graphos, escrita, escritor (como em autographos: escrito com a própria mão), do graphe, escrita, a arte de escrever, produzir uma escrita (substantivo), de graphein, escrever, expressar por caracteres escritos, também é desenhar, representar por linhas desenhadas.
Como vimos γράφω, γραφή, γράφειν, grapho, graphé, graphein, significa tanto escrita como pintura, desenho, escrever, descrever com palavras escritas. Esse fato, aponta para uma possibilidade ontológica, e por si só seria razão teórica para um estudo estético-filosófico que deixo para outra ocasião.
Já para os latinos a palavra Desenho vem do vocábulo: Designare, “marcar, apontar, traçar”, formado por "de", para fora, mais "Signare", marcar, apontar, registrar, projeto, plano ou propósito; de Signum, sinal, marca. O desenho é uma forma de arte que consiste na transferência de imagens e criações da observação e imaginação do artista para uma superfície ou suporte.
O vocábulo, desenho, do latim designare, designar (designas tu, designatum, designado), marcar, traçar, notar, desenhar, indicar, designar, dispor, ordenar, projetar corrobora a superação de um pretenso ato meramente físico ou imitativo.
A palavra desenho, como sabemos, quando derivada do latim, passa ao italiano disegno, vocábulo surgido em meados dos anos mil e quatrocentos, e que deu origem aos provincianismos usados em outras línguas tais como dessin, em francês, diseño, em espanhol, design, em inglês e o nosso, desenho (em português).
As palavras em italiano e português conservaram, basicamente, um sentido mais amplo ligado ao conceito originário, aquele que se referia não só a um procedimento, um ato de produção de uma marca, de um signo (de-signo), como também, e principalmente, ao pensamento, ao desígnio que essa marca projetava.
Em outras línguas, como o inglês, a existência de outras expressões como "drawing" com outra raiz etimológica “especializou” o sentido de cada um dos dois termos não apenas pela sua existência arraigada nos hábitos e usos presentes no quotidiano da língua, que não se dão isoladamente, diga-se, mas pelas ligações destas práticas com as necessidades do fazer, do conjunto das atividades humanas que se encontram presentes e produtivas num determinado universo sócio-cultural (Martins, 2007).
Diga-se ainda que outras expressões latinas sob as quais se pode encontrar o significado de desenhar estão, as de figura, scribo, conceptio, conceptionis.
A palavra italiana conserva até hoje esse conjunto de acepções: desenho, projeto, idéia. Disegnare é “representare l”ímmagene di qualcosa per mezzo di linee e segni (...) senza ausílio di righe, squadre o altri strumenti”, é “ideare nelle linee essenziali, abozzare nella mente”, é “avere in animo, proporsi”, é indicare, designare”. Disegnare é “formare, raffigurare”, é “ideare nelle linee essenziali; abozzare nella mente”, é “schema, abbozzo di un texto”, é “piano, propósito, intenzione” (Martins, 2007).
Desenhar é “representar a imagem de algo por meio de linhas e sinais (…) sem auxílio de réguas, esquadros ou outras ferramentas”, é “conceber em linhas essenciais, esboçar na mente”, é “ter em mente, propondo”, é “indicar, designar”. Desenhar é “formar, representar”, é “conceber em linhas essenciais; esboçar na mente”, é “esquema, esboço de um texto”, é “plano, propósito, intenção.”
Não há, portanto, como separar, no uso, que fazemos em nossa língua, da palavra desenho do próprio ato de formar, eventualmente representar, figurar por meio da observação da realidade ou da imaginação, e, ainda, do ato de pensar, estudar, planejar, determinar, projetar, designar, o ato físico de riscar delinear, criar uma marca sobre uma superfície, ato que transporta, mesmo enquanto puro arabesco, rabisco ou caligrafia, um sentimento, um elemento anímico. Essa separação não é possível, em nossa língua, e em outras, tanto hoje como no passado, porque a natureza, a essência do ato de desenhar integra essas ações que as palavras e outros artifícios interdependentes de linguagem e pensamento procuram frequentemente apartar. (Martins, 2007).
Segundo a artista Betty Edwards (2021), autora do livro “Desenhando com o lado direito do cérebro”, uma pessoa é capaz de aprender a desenhar em um período curto. Para isso, é preciso desenvolver cinco componentes básicos, formados pela capacidade de:
1) Percepção das bordas
2) Percepção dos espaços
3) Percepção dos relacionamentos
4) Percepção de luzes e sombras
5) Percepção do todo (gestalt)
A autora acrescenta ainda duas habilidades adicionais a estas, consideradas avançadas, para que o desenho seja criativo e expressivo:
6) Desenhar de memória
7) Desenhar a partir da imaginação
Edwards (2021) destaca que, quando estamos aprendendo uma habilidade global, o início é mais árduo, até compreendermos cada uma das técnicas e, posteriormente, sermos capazes de integrá-las no ato de desenhar. Assim, essas habilidades abrangem todos os três tipos de desenho existentes: o desenho de observação, o desenho criativo (da imaginação, de memória) e o desenho enquanto desenho ou desenho abstrato
TIPOS DE DESENHO
Existem três tipos básicos de desenho:
1) Desenho de observação ou desenho propriamente dito
2) Desenho da imaginação ou desenho criativo
3) Desenho enquanto desenho ou desenho abstrato
1) O desenho propriamente dito, ou desenho de observação
Este tipo de desenho se faz na tentativa de representar o que vemos no mundo, nesse caso, o mundo invade nossa mente e escolhemos um ente, uma realidade, um fato, para representar sobre uma superfície qualquer que seja ela. Em vista disso, esse tipo de desenho é a minha reação através de uma linha, de um traço, de claro escuro, de cores e volumes.
O Desenho de Observação apresenta conceitos básicos: Enquadramento, Composição, Perspectiva e Proporções e é, sobretudo um meio para se adquirir o domínio sobre os fundamentos do desenho sobre a percepção visual e sobre o espaço no qual se desenvolve, seja ela bi ou tridimensional. No exercício do desenho de observação desenvolve-se o pensamento analógico e concreto, o senso de proporção, espaço, volume e planos. A sensibilidade e a intuição são espicaçadas enquanto se passa a apreciar melhor os outros elementos da linguagem gráfica: textura, linha, cor, estrutura, ponto e composição.
O desenho de observação a mão livre se assemelha ao processo de uma fotografia. A escolha na fotografia consiste no recorte de alguma realidade. O fotógrafo é responsável pela escolha do ângulo, enquadramento, perspectiva, etc. O desenhista de observação também escolhe todas essas característica com a diferença de que é capaz de, dentro de uma mesma paisagem escolher que informações mostrar e de que forma serão mostradas, usando de uma dentre uma infinidade de possibilidades.
2) O desenho da imaginação ou criativo
Este tipo de desenho representa o que não existe no mundo. Representa o que eu imagino. Representa o que eu não vejo mas que quero que exista. Sabendo fazer o primeiro tipo de desenho ou se aproximando dele, podemos imaginar algo ou alguma coisa que não está ali, e representar como se ela estivesse ali efetivamente.
O desenho da imaginação ou criativo depende apenas da imaginação do autor. Isto é, tudo surge somente a partir da criatividade de quem desenha, não sendo necessária a representação de nenhuma realidade pré-existente. Os desenhos abstratos, por exemplo, são exemplos de desenhos criativos livres.O desenho criativo é o tipo de desenho no qual o artista tem mais liberdade para ousar e experimentar com sua imaginação. Os elementos até podem existir no mundo real, mas o artista tem a liberdade de alterar a realidade de acordo com as suas ideias, sua percepção do mundo e o impacto que pretende gerar no expectador da obra. Veja por exemplo a obra Garden of earthly delights, do artista Hieronymus Bosh (Jeroen van Aken, Hertogenbosch, c. 1450 - 1516). Nesta obra o artista usa elementos reais, existentes mas de forma totalmente nova e surreal.
(Fonte: man)
Detalhes da obra de Hieronimus Bosh, Garden of earthly delight. Observe o desenho de imaginação onde essas realidades só existem na mente do artista e na tela onde pintou (publicdomain).
3) O desenho enquanto desenho
Esse terceiro e último tipo de desenho é uma mistura de tudo o que você viveu e vive, de tudo o que você pensa, daquilo que você vê e quer ver, daquilo que você viu e através da linha realiza, e que não existe a não ser enquanto desenho. Esse tipo de desenho não é instrumento de alguma coisa, mas é em si alguma coisa, como todo os tipos de desenho tem uma linguagem, este possui uma complexidade e qualidades internas; ele é regido pela linha e esta pode ser grossa ou fina, reta ou curva. Esse desenho se aproxima de uma instalação, de uma peça musical, ou de uma escultura.
Instalação é um tipo de obra que utiliza o espaço como elemento fundamental. É como se o desenho ganhasse o espaço e o espaço (tridimensional) passa a ser parte do desenho. É uma linguagem relacionada à arte contemporânea e, na maior parte das vezes é montada em espaços de arte, como museus e galerias, entretanto, pode também ser realizada ao ar livre, ou em um sitio específico (site specific).
Neste tópico vamos abordar duas técnicas importantes de desenho que nos auxiliam muito na representação da realidade.
Desenhos mais antigos do mundo, feitos há mais de 30 mil anos na caverna de Chauvet, França. (diversas fontes: 1, 2, 3)
(Foto:Valmir Manoel Mendes Junior)
Gravuras rupestres, Ribeirão Bonito, SP. (USP)
Pintura rupestre Colômbia.
Cuevas de los sueños olvidados
Existem várias técnicas de desenho, e a escolha dos materiais utilizados está relacionada com cada uma dessas técnicas, e com que fidedignidade queremos representar a realidade.
Fonte





















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