A passagem inexorável do tempo é um dos conceitos mais enigmáticos e universais enfrentados pela humanidade. Jornadas começam e terminam, ciclos se completam, e a dança entre inícios e conclusões molda a essência da experiência humana. Esse momento de término de um período ou lapso de tempo para algo novo e desconhecido, passando pelo inicio é um momento sagrado. O momento da iniciação onde se dá um passo no novo caminho. Um caminho todo a ser desbravado está, então, a nossa frente.
Neste contexto, a figura da divindade romana Janus torna-se profundamente simbólica. Frequentemente representado com duas faces, uma voltada para a frente e a outra para trás, o Deus bifronte, personifica a dualidade do tempo, olhando simultaneamente para o passado e para o futuro. (modif. historiablog).
Jano, Deus dos começos e das portas, Deus da prima hora do dia e primeiro mês do ano.
Esta representação única é um símbolo de transições, limiares e passagens. Muitas vezes estas duas faces são caracterizadas por uma de aspecto jovem e outra com aspecto mais velha, um testemunho dos ciclos da vida, dos começos e dos fins, das aberturas e dos encerramentos. Em muitas representações artísticas, Janus é retratado segurando um cajado, símbolo da autoridade e do poder de guiar, e uma chave, representando sua função de guardião das portas e passagens.
Jano, em latim: Iānvs é o deus romano das mudanças e transições, dos começos e das portas, como pode ser visto nas citações "Jano tem poder sobre todos os começos (…)" e “Em poder de Jano estão os inícios”, em relação às mudanças (inícios, começos), e nas citações "(…) Duas portas haver, bélicas ditas,/Que santo horror defende e o cru Mavorte:/Barras, ferrolhos cem de bronze as trancam;/Sempre ao limiar de sentinela Jano" e "(…) Então deposta a guerra,/Se amolgue a férrea idade; a encanecida/Fé com Vesta, os irmãos Quirino e Remo/Ditem leis; Jano trave as duras portas/Com trancas e aldrabões",[3] em relação às tradições (leis).
A figura de Jano é associada a portas (entrada e saída), bem como a transições, limiares, portais e começos. A sua face dupla também simboliza o passado e o futuro. Jano é o deus dos inícios, das decisões e escolhas. O maior monumento em sua glória se encontra em Roma e tem o nome de Iānvs Geminus ("gêmeos Jano").
Os meses do ano, como podemos conhecer estudando a história de Roma, também estão associados a deuses específicos, por exemplo, o nome do mês de janeiro, palavra que chegou em nossa língua no século XIII, remonta ao latim Januarius mensis ou apenas Januarius, que significava “mês consagrado ao deus Jano”, uma entidade que, na mitologia romana, era responsável pelos começos, pelas passagens e pelos portais.
Janus era um Deus bifronte, isto é, de duas caras em algumas representações, apresentava um roto feminino delicado e outro masculino barbado.
Etimologia
O nome do deus Iānus, que significa em latim: passagem em arco, porta, deriva do proto-itálico *iānu, porta, em última análise, do proto-indo-europeu *ieh₂nu passagem. É cognato do sânscrito yāti, ir, viajar.
Iānus seria então um nome de ação expressando a ideia de ir, passar, formado na raiz *yā- < *y-eð2- tema II da raiz *ey- go da qual eō, ειμι. Outros estudiosos modernos se opõem a uma etimologia indo-européia de Dianus ou da raiz *yā-.
De Ianus derivou ianua, porta, e daí a palavra inglesa janitor, zelador, latim, ianitor.
Ianus era o deus romano das mudanças e transições, inícios, portas e portais. Era ele que abria o ano, e o seu primeiro mês e até hoje relembramos no nome dado ao primeiro mês em sua homenagem: janeiro, do latim januarius, o qual foi acrescentado ao calendário por Numa Pompílio (715-672 a.C.), sucessor de Rômulo.
Apesar de ser um Deus e ter um culto ele não tinha um sacerdote específico ou Flamen. Um flamen (plural flamines) era um sacerdote da antiga religião romana que foi designado para uma das quinze divindades com cultos oficiais durante a República Romana. Os mais importantes deles foram os três flamines maiores (ou "sacerdotes maiores"), que serviam aos importantes deuses romanos Júpiter, Marte e Quirino. Os doze restantes eram os flamines minores ("sacerdotes menores"). Dois dos menores serviram a divindades cujos nomes são agora desconhecidos; entre outras estão divindades sobre as quais pouco se sabe além do nome. Durante a era imperial, o culto de um imperador deificado (divus) também tinha um flamen.
Os quinze flamen republicanos eram membros do Pontifício Colégio, que administrava a religião patrocinada pelo Estado. Quando o cargo de flamen estava vago, um pontifex poderia servir como substituto temporário, embora se saiba que apenas o Pontifex Maximus substituiu o Flamen Dialis, um dos flamines maiores. Flamen Dialis era o sumo sacerdote de Júpiter. O termo Dialis está relacionado a Diespiter, uma antiga forma latina do nome Júpiter.
Como divindade guardiã das portas, era geralmente apresentado com duas cabeças, pois todas as portas se voltam para dois lados, o lado que deixamos para trás ao adentrar em um novo espaço ou recinto, e aquele que se descortina a nossa frente. Frequenteme um dos rostos era um rosto de uma figura jovem, algumas vezes feminino e o outro um rosto masculino e com barba.
Em tempo de guerras as portas principais dos templos em sua homenagem permaneciam abertas. Em tempo de paz, eram fechadas. Só foram fechadas, porém, uma vez no reinado de Numa e outra no reinado de Augusto. A sua face dupla também simboliza o passado e o futuro, é o deus dos inícios, das decisões, das escolhas e dos fins, do dualismo relativo de todas as coisas, sendo absoluto somente a Divindade.
Jano tinha o poder de olhar ao mesmo tempo para o passado e para o futuro, para dentro e para fora, para o exterior e para o interior, para o velho e conhecido e para o novo e desconhecido e por isso veio a nomear o primeiro mês do ano, aquele em que se está na transição entre o velho que acabou e novo que inicia (modif.
veja).
Origem
É possível que Janus tenha uma história muito antiga até mesmo ante de Roma ter se constituído como uma cidade estado poderosa e depois um império mundial.
Acredita-se que Janus e seu culto, suas origens tenham se perdido no tempo e sejam muito antigas, possivelmente pré-romanas. Ele pode ter sido um dos deuses principais das culturas itálicas anteriores à formação de Roma como uma cidade-estado. Essas raízes arcaicas podem ter lhe dado uma posição estabelecida e fundamental na religião romana desde o início.
Há representações de Janus muito antigas, advindas da civilização Etrusca, que habitaram a península Itálica antes da formação do povo Romano. Assim, provavelmente esse foi um Deus absorvido quando as duas sociedades, Etruscos e Romanos, uniram-se, ainda no início da monarquia de Roma.
Como um deus associado às mudanças, conta o mito que Janus não nasceu como uma Divindade. Antes de ser divinizado, ele foi um grande rei do Lácio, região central da Itália, sendo responsável por desenvolver a agricultura nos primórdios dessa região. Ele também teria sido o primeiro a construir barcos para navegar no rio Jano (nome dado justamente em homenagem a ele) e no Mediterrâneo, o que explica a face do Deus estar representada em algumas embarcações. Seu culto também voltava-se para as colheitas, uma vez que marcava um novo ciclo para a vida agrícola. Para além disso, Janus ainda tinha sua face representada em portas de casas, instituições e até mesmo nos portões principais das cidades, simbolizando as passagens entre um momento e outro, um espaço (selagem) e outro (urbano, civilizado). Em seus templos, costumava-se fechar as portas em tempos de paz, para que essa não escapasse; já nos momentos de guerra, sempre ficavam abertas, para que o conflito chegasse ao fim rapidamente.
A mitologia romana absorveu muitos elementos da mitologia grega à medida que Roma expandiu seu território e influência, entrando em contato com culturas helênicas. Muitas divindades romanas passaram a ser associadas e frequentemente identificadas com seus homólogos gregos: Zeus com Júpiter, Hera com Juno, Afrodite com Vênus, Hermes com Mercúrio, Atena com Minerva, entre outros paralelos divinos (
historiablog). No entanto, Janus é uma notável exceção a essa tendência seja por sua forte presença desde os primórdios romanos, quanto pelo cumprimento de uma função única, pois enquanto muitos deuses gregos e romanos têm funções e domínios semelhantes (como o amor, a guerra, as fontes, o casamento a maternidade, a colheita ou o mar), a esfera de influência de Janus é distinta.
Como deus dos começos, portas e transições, sua função não tinha um paralelo direto na mitologia grega, tornando difícil a sua fusão e sincretismo com qualquer deidade helênica.
Além disso muitos deuses gregos e romanos têm mitos elaborados que narram suas origens, amores, desafios e aventuras, Janus tem uma natureza mais abstrata e menos antropomórfica. A ausência de uma narrativa tradicional o torna menos suscetível a fusões baseadas em histórias compartilhadas.
Janus desempenhou um papel crucial em vários rituais e cerimônias romanas. Templos dedicados a ele, especialmente o famoso “
Ianus Geminus” no Fórum Romano, tinham portas que ficavam abertas em tempos de guerra e fechadas durante a paz, simbolizando a proteção que Janus oferecia à cidade de Roma e seus cidadãos (
historiablog).
Além disso, ele era frequentemente invocado no início de cerimônias religiosas, mesmo antes de outras deidades, reforçando sua conexão com começos e inícios.
O mês de janeiro, ou “Ianuarius” em latim, foi nomeado em homenagem a Janus, simbolizando o limiar entre o ano velho e o novo. Esta associação reflete a natureza transicional de Janus.
Geralmente quando representado em murais e estátuas aparece com uma chave em uma das mãos, e na outra uma vara para mostrar que é o guardião das portas e que preside os caminhos. As suas estátuas apontam muitas vezes com a mão direita o número trezentos, e com a esquerda o de sessenta e cinco, para exprimir a medida do ano. Era invocado em primeiro lugar em qualquer sacrifício e cerimônia a outro deus.
Jano também é um dos mais antigos deuses do panteão romano, filho de Creusa e Apolo, se casou com sua irmã Carmese, e teve um filho chamado Aethex e uma filha chamada Olistene.
Suas lendas são exclusivamente romanas e estão ligadas as origens da cidade. Segundo alguns estudiosos, Jano era uma divindade indígena e em outros tempos havia reinado com Cameses (um rei místico). Para outros, Jano era estrangeiro exilado em Roma; que desejando aumentar o seu poder, navegou até a Itália e se instalou em uma montanha próxima de Roma, e erguido uma cidade. Dele derivam os nomes do monte Janículo e o rio Jano, nomeado em sua homenagem.
Ele é tido como o regente do Lácio, região da Itália Central, foi responsável pela idade de ouro, trouxe dinheiro e agricultura à região. O seu nome está também associado às trocas e colheitas. Foi o inventor das guirlandas, dos botes, e dos navios, e foi o primeiro a cunhar moedas de bronze; por isto que em várias cidades da Grécia, Itália e Sicília, em suas moedas, trazem em um lado um rosto com duas faces e no outro um barco, uma guirlanda ou um navio.
Por isso sua face jovem volta-se para a frente: é a juventude que enxerga o caminho que está por vir, com coragem e garra dá o primeiro passo, pois o passado já passou, está velho e precisa renovar-se.
Janus, portanto, não é apenas uma Divindade que abre ou fecha portas, que preside encerramentos e inícios mas, sobretudo, nos mostra que a vida é repleta de começos, fins e recomeços. Essa é, sem dúvida, uma das maneiras mais belas de enxergarmos a vida e seus ciclos: tudo está em movimento, πάντα ρεί, panta rhei, tudo muda, desde a mais simples forma de vida até as grandes galáxias que movem-se no Cosmos. Todos estão, em seus ritmos próprios, vivendo as mudanças que a Natureza rege.
Pode-se dizer que o princípio da vida é o DEVIR, do latim devenire, chegar, ou seja, o VIR A SER. O conceito de “tornar-se” foi apresentado primeiramente, no século V a.C., pelo filósofo grego Heráclito de Éfeso, Ἡράκλειτος ὁ Ἐφέσιος, que vivei aproximadamente 500 a.C. - 450 a.C. e que identificou a forma do Ser no Devir, i.e., a mudança é a essência do ser, o fluir pelo qual todas as coisas são sujeitas a tempo e transformação. Nada é; tudo está vindo a ser. Nada nem ninguém permanecem estáticos, tudo segue em contínuo fluxo. O pensamento do filósofo grego pode ser definido pela expressão grega:
Πάντα ῥεῖ
Panta rei
Tudo flui
sintetizando a ideia de um mundo em movimento perpétuo, onde a todo momento é um fim é um início. Onde a cada momento se encerra o passado e inicia o futuro.
Essa sentença está em oposição ao paradigma de Parmênides, do imobilismo, onde o ser é igual a ele mesmo desde sempre e para sempre. E o fogo é o emblema do que muda, do que é impermanente e transitório, fluindo do passado para o futuro passando pelo presente, esse limiar, essa transição representada por Janus, o Deus que abriga os inícios e as portas, os portais e as mudanças, as colheitas e a semeadura, os barcos que navegam sobre as ondas sempre novas e renovadas. É ele, o fogo, que ilumina, destrói e reconstrói tudo, mantendo tudo em seu fluxo. É ele que preside o novo que desabrocha, é o fogo que é o elemento do qual deriva tudo o que nos rodeia, é ele que mantém a φυσις, physis, oculta na mudança sem fim.
O “Panta Rei”, tudo flui, explica-se na conhecida imagem do rio que muda a cada segundo, do mesmo modo que a pessoa muda a cada segundo. Sendo assim, uma mesma pessoa não pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois tanto ela quanto o rio já não são mais os mesmos no instante após mergulhar o pé em suas águas.