INÍCIO

19 dezembro 2024

ISRAEL ESTADO GENOCIDA

ISREAL ESTADO GENOCIDA

Artigo de Intercept Brasil
(16/out/2024)

Em um ano, Israel matou mais de 186 mil palestinos e aniquilou a infraestrutura de Gaza. Ao contrário do que a mídia hegemônica afirma, não se trata de uma "resposta ao ataque do Hamas" de 7 de outubro.

COM TOTAL APOIO do governo Biden nos EUA, Israel está travando uma impiedosa guerra de extermínio contra os 400 mil palestinos que restam no norte da Faixa de Gaza, enquanto o governo de Benjamin Netanyahu estaria avaliando um plano para anexar o território. Desde 1º de outubro, não entram alimentos, água, nem medicamentos no norte, as forças israelenses vêm conduzindo uma campanha de intensos ataques aéreos, e forças terrestres invadiram e cercaram grande parte da região. 

Ao mesmo tempo em que ordena os habitantes a fugirem para o norte, Israel intensificou os ataques contra Deir Al-Balah, uma cidade na região central de Gaza que não sofreu a destruição em grande escala praticada pelos israelenses em outros lugares da Faixa. Centenas de milhares de palestinos fugiram para a cidade nos últimos meses. No começo da manhã de segunda-feira, Israel bombardeou um acampamento lotado para pessoas desabrigadas, no terreno do hospital Al Aqsa, envolvendo os civis em um imenso anel de fogo. Um vídeo da cena mostrou os pacientes, alguns ainda aparentemente em macas, com acesso intravenoso, sendo queimados vivos, enquanto outras pessoas do acampamento tentavam desesperadamente extinguir o fogo com pequenos baldes de água. 

“Juro por Deus que vi pessoas queimando na minha frente. Por Deus, ninguém podia fazer nada. O homem, a mulher e a menininha queimando na minha frente, juro por Deus. Queimaram na minha frente, na minha frente. Suas almas foram embora na minha frente, na frente de nós, na frente de todos os nossos olhos”, disse Saleh Al-Jafarawi, um jornalista palestino independente que filmou o massacre. “Ninguém podia fazer nada, ninguém conseguia avançar e retirá-los. Nós tentamos, mas não podíamos, o fogo estava tão forte que ninguém conseguia avançar e tirá-los do fogo. Eles foram queimados vivos. Seus corpos foram carbonizados. Esse é um crime que nunca vimos e ninguém nunca viu igual”, acrescentou, em um vídeo publicado em seu perfil no Instagram. “Juro por Deus que as cenas ficarão em nossas memórias, ficarão em nossos corações para sempre. Nunca esqueceremos a cena que presenciei hoje: a cena de uma criança queimando no coração do fogo e ninguém conseguia ajudá-lo.”


Pelo menos quatro pessoas morreram, e outras 70, a maioria mulheres e crianças, ficaram feridas, muitas com graves queimaduras de terceiro grau. Imagina-se que o número de mortos aumente drasticamente, uma vez que as autoridades de saúde informaram que muitos dos feridos estão em estado crítico. O hospital já estava funcionando muito acima da capacidade, e vários pacientes estão sendo tratados no chão, ou nos corredores. “Já estamos lidando com uma superlotação pelos incidentes com vítimas em massa, e o nível geral de trauma que costumamos receber, e então acrescentamos aí pacientes com queimaduras significativas, de grande extensão. Infelizmente, o destino deles está selado, nem chegarão à UTI. Eles vão morrer. Muitas crianças, muitas mulheres com queimaduras significativas morrem. Essa é a realidade aqui, na prática”, disse à rede Al Jazeera o Dr. Mohammed Tahir, um cirurgião do Reino Unido que é voluntário no Hospital Al Aqsa. “Está um espetáculo de terror aqui. Já não parece real. Honestamente, eu às vezes sinto que não é a vida real, que isso possa continuar e se permita que esse nível de sofrimento aconteça no mundo. É inimaginável.” 

Desde janeiro, Israel já atacou acampamentos dentro e fora do hospital pelo menos sete vezes. 

Os militares israelenses chamaram a incineração de civis em barracas no hospital de ataque “de precisão” contra “terroristas que estavam trabalhando em um complexo de comando e controle que foi estabelecido no local previamente conhecido como Hospital de Mártires Al-Aqsa, em Deir al-Balah”. As Forças de Defesa Israelenses, que prometeram continuar com esses ataques, não forneceram nenhuma comprovação de suas alegações sobre o uso do hospital pelo Hamas. Esse padrão de justificar ataques contra civis e locais protegidos sob alegação de que estariam sendo usados como escudos humanos ou centros de comando pelo Hamas tem sido uma marca registrada da guerra genocida de Israel, uma narrativa letal que vem sendo reiteradamente repetida pelas principais autoridades dos EUA.

Um relatório recente de uma comissão independente da ONU concluiu que “as forças de segurança israelense afirmaram que mais de 85% dos principais estabelecimentos de saúde em Gaza estariam sendo usados pelo Hamas para operações terroristas, mas não forneceram provas para fundamentar essa alegação”. A comissão acusou Israel de crimes de guerra por seus ataques contra hospitais, clínicas, ambulâncias e profissionais de saúde. “Os ataques contra estabelecimentos de saúde são um elemento intrínseco do ataque mais amplo das forças de segurança israelenses contra os palestinos em Gaza e a infraestrutura física e demográfica de Gaza, e também dos esforços para expandir a ocupação”, acusava o relatório. “A Comissão considera que Israel implementou uma política deliberada para destruir o sistema de saúde de Gaza.”

Gaza: “Um inferno sem fim”

A cobertura da imprensa internacional sobre o genocídio dos palestinos na Faixa de Gaza se reduziu nas últimas semanas, quando as atenções se voltaram para uma possível guerra entre Israel e Irã. O Pentágono anunciou no domingo que os EUA estão enviando sistemas de defesa antimíssil THAAD para Israel, e destacando cerca de 100 soldados estadunidenses para operá-los, no caso de um contra-ataque iraniano contra o esperado ataque israelense no Irã. A vice-presidente dos EUA, Kamala Harris, afirmou recentemente no programa 60 Minutos que o Irã era o “maior adversário” dos EUA, um posicionamento que contradiz as conclusões de diversas análises da inteligência e do Pentágono. No mês em que Israel começou sua guerra franca contra o Líbano, aumentaram também as operações de matança em grande escala em Gaza, um recado claro de que o objetivo de Israel é eliminar qualquer vestígio da vida, da arquitetura e da cultura que existiam antes dos ataques de 7 de outubro. 

O governo Biden, após um verão de promessas de que um acordo para encerrar a guerra estaria em vista, afastou-se de qualquer discussão sobre um cessar-fogo em Gaza. Tanto o presidente Joe Biden quanto Kamala Harris já deram repetidas declarações afirmando o direito de Israel à autodefesa, e se voltaram para o Irã como o centro das atenções na região. “Eles querem chegar a 5 de novembro (data das eleições nos EUA) com o mínimo de atrito possível”, disse Jasmine El-Gamal, ex-funcionária do Pentágono, em entrevista ao Drop Site News. “Então, mesmo que estejamos literalmente observando o extermínio de pessoas, de crianças, diante dos nossos olhos, seja lentamente, pela falta de comida, seja porque o sistema de saúde foi completamente dizimado, seja porque eles estão sendo simplesmente bombardeados até virar pó, é um recado muito claro de que eles não irão mexer nisso de agora até as eleições.”

No domingo, em uma publicação no X, Harris não mencionou os violentos ataques militares de Israel no norte e no centro de Gaza. “A ONU relata que nenhum alimento entrou no norte de Gaza em quase duas semanas. Israel precisa urgentemente fazer mais para facilitar o fluxo de ajuda aos necessitados”, escreveu Harris. “Os civis devem ser protegidos e ter acesso a alimentos, água e medicamentos. O direito internacional humanitário precisa ser respeitado.”

El-Gamal, ex-diretora de países para políticas da Síria e do Líbano na Secretaria de Defesa, durante o governo Obama, diz que alguns altos funcionários que estruturam as políticas dos EUA na região abraçaram as guerras de Israel como uma oportunidade para alterar 

o cenário político no Líbano e no restante do Oriente Médio, enquanto outros reconhecem a guerra como um campo minado político onde a campanha eleitoral de Harris deve evitar pisar por enquanto. “Então você tem esse favorecimento político, estratégico, diplomático e militar para que Israel basicamente tenha carta branca em Gaza e no Líbano”, diz. “A contínua assistência bélica a Israel é vista como defesa de Israel. É a narrativa deles, e eles estão se prendendo a ela.”

Poucas horas antes do bombardeio do acampamento no hospital Al-Aqsa por aviões de guerra, tanques israelenses bombardearam uma escola administrada pela ONU que abrigava pessoas desabrigadas no campo de refugiados de Nuseirat. Pelo menos 22 pessoas foram mortas no ataque, e mais de 80 ficaram feridas. A escola iria servir como local de vacinação contra a poliomielite na segunda-feira. “Gaza é um inferno sem fim. Isso tudo não pode se tornar o novo normal. A humanidade precisa prevalecer”, escreveu Philippe Lazzarini, comissário da UNRWA, em uma publicação no X.

A principal operação israelense no norte de Gaza, que começou nove dias atrás para limpar os habitantes da região, tem sido especialmente violenta. As forças israelenses já cercaam e isolaram diversas áreas, incluindo Jabaliya, Beit Hanoun, e Beit Lahia, e tanques israelenses chegaram aos arredores da Cidade de Gaza. As operações de Israel no norte de Gaza alimentaram especulações de que as FDI já estejam colocando em prática um plano promovido por um grupo de oficiais militares israelenses da reserva, liderados pelo Major-General Giora Eiland, conhecido como o plano de “render-se ou morrer de fome”. Os palestinos do norte, segundo o plano, teriam uma semana para saírem, e os que permanecessem seriam considerados combatentes pelas forças israelenses. Muitos moradores do norte se recusam a sair, em parte porque consideram que nenhum lugar em Gaza é seguro, e todos os palestinos são tratados, em regra, como alvos legítimos por Israel.

A assessoria de imprensa do governo de Gaza emitiu uma declaração de que cerca de 300 palestinos foram mortos no recente cerco israelense no norte, e que existem relatos de dezenas de corpos pelas ruas. Casas, escolas, abrigos para deslocados, todos foram atacados e destruídos. Anas al-Sharif, correspondente da Al Jazeera, um dos poucos jornalistas que não deixou o norte de Gaza desde o início do ataque israelense há mais de um ano, disse na sexta-feira: “sem exagero, esses são os dias mais difíceis da guerra de Israel em Gaza”.

Israel emitiu três novas ordens de deslocamento no começo deste mês, ordenando todos os civis no norte de Gaza a fugirem para o sul, ao mesmo tempo em que impedia que eles saíssem em segurança. Desde então, tanques e soldados israelenses invadiram e cercaram diversas áreas, especialmente o campo de refugiados de Jabaliya, onde as pessoas estão ilhadas e impossibilitadas de se moverem em meio ao bombardeio incessante e aos ataques terrestres. Na segunda-feira, Israel bombardeu um centro de distribuição de alimentos no campo, matando pelo menos 10 pessoas, e ferindo 30.

“Estávamos ficando no hospital Al-Yemen Al-Saeed, mas ele foi bombardeado. Cerca de 20 pessoas foram mortas. Não sei o que fazer, podemos morrer a qualquer momento. As pessoas estão morrendo de fome. Tenho medo de ficar, mas também tenho medo de sair”, disse um motorista da organização Médicos sem Fronteiras, preso no campo de Jabaliya.

As tropas israelenses ergueram barricadas e barreiras de areia bloqueando todas as saídas da cidade, e os soldados e quadricópteros israelenses atiram em qualquer um que se mova. “Qualquer pessoa que se aproxima dessas barricadas é alvejada sem aviso prévio”, disse ao Drop Site News um morador de Jabaliya. “Uma família inteira foi alvejada quando tentava se deslocar e deixar o campo, foram alvejados a sangue frio.”

As forças israelenses estariam demolindo e explodindo as casas deixadas para trás pelos moradores que conseguiram fugir. Tanques e escavadeiras também invadiram o cemitério Saftawi, no norte da Cidade de Gaza, no domingo, e exumaram inúmeros corpos, segundo Mada Masr.

“Devido ao cerco de ocupação israelense no campo de Jabaliya, a maioria dos ferimentos causados pelos tiros e bombas da ocupação levaram à morte, pois não há recursos médicos disponíveis para efetivamente tratar os feridos”, disse Hossam Shabat, correspondente da Al Jazeera, em uma publicação online. Shabat relatou que o Crescente Vermelho havia parado de atuar em Jabaliya devido à falta de combustível, uma vez que Israel emitiu outra ordem de expulsão. “O exército de ocupação israelense bombardeou civis enquanto fugiam dessas áreas. Os ataques não pararam”, disse ele, em 12 de outubro.

No domingo, pelo menos cinco crianças foram mortas em um ataque de drone israelense enquanto brincavam perto de um café no campo de refugiados Al-Shati, localizado na costa, a oeste de Jabaliya. Ao comentar o ataque no domingo, Bisan Owda, jornalista vencedora do prêmio Emmy, disse, chorando: “essas crianças estavam jogando futebol na rua no campo de refugiados de Shati (…) elas estavam jogando no meio dos escombros de lugares parcialmente destruídos, porque são crianças e não sabem como enfrentar isso sem brincar, e foram mortas”. “Elas morreram, como milhares de crianças antes delas. Essas pessoas não deixaram o norte da Faixa de Gaza, não só porque têm o direito de permanecer ali, mas também porque as pessoas não estão seguras no sul.”

Israel continuar a atacar jornalistas palestinos em Gaza Mohamed al-Tanani, cinegrafista da TV Al-Aqsa, foi morto enquanto fazia uma reportagem no campo de refugiados Jabaliya, e seu colega, Tamer Labad, ficou ferido. Na semana passada, o cinegrafista Fadi al-Wahidi, da Al Jazeera, foi baleado no pescoço e ficou paralisado, e Ali Al-Attar sofreu ferimentos graves quando estilhaços de um ataque israelense em Deir Al-Balah perfuraram sua cabeça.

Na semana passada, Israel emitiu ordens de evacuação para três hospitais do norte de Gaza, Kamal Adwan, Indonésio e Al-Awda, com ameaças de que enfrentariam “o mesmo destino do hospital al-Shifa, com destruição, mortes e prisões”.

O combustível que alimenta os geradores de energia está se esgotando em meio ao bloqueio de Israel, o que coloca os pacientes da UTI em especial risco. Um médico da UTI do hospital Indonésio enviou na segunda-feira um vídeo que mostrava pacientes inconscientes em leitos hospitalares. “Esse paciente não tem mais salvação e vai morrer. A situação é muito, muito, muito difícil”, dizia o médico. “Eles atingiram uma escola perto da nossa divisão agora, dá para ouvir a explosão”, disse em uma mensagem de áudio que acompanhava.

No hospital Kamal Adwan, os pacientes e integrantes da equipe que tentaram fugir não conseguiram fazê-lo. “O hospital vem sendo atacado diretamente há cinco dias por drones, bombas de fumaça, e projéteis de artilharia prto do hospital, no telhado do hospital, e através das janelas”, disse ao Drop Site News a Dra. Eid Sabah, diretora de enfermagem do hospital. “Bombardeios e matanças estão acontecendo por toda parte. O medo e o terror se espalharam por todas as ruas e vielas. O hospital está em péssimo estado.”

A agência da ONU para refugiados palestinos, UNRWA, publicou no domingo uma foto dos restos carbonizados de seu centro de saúde em Jabaliya. “O campo de Jabaliya tem sido a região mais atingida, com relatos de famílias presas em áreas onde há operações militares em curso. O acesso humanitário a Jabaliya continua sendo negado. Estabelecimentos e profissionais de saúde #NãoSãoAlvos, escreveu a UNRWA.

“Nas últimas duas semanas, mais de 50 mil pessoas foram desalojadas da região de Jabaliya, que está isolada, enquanto outras permanecem presas em suas casas em meio ao aumento dos bombardeios e combates. Um cerco militar que priva os civis dos meios essenciais de sobrevivência é inaceitável”, disse em um comunicado, no domingo, Muhannad Hadi, Coordenador Humanitário do UNOCHA, o Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários. “As operações militares mais recentes no norte de Gaza obrigaram ao fechamento de poços de água, padarias, postos de saúde e abrigos, assim como a suspensão dos serviços de proteção, tratamento de desnutrição e espaços temporários de educação. Ao mesmo tempo, os hospitais receberam um grande fluxo de lesões por trauma (…) Os civis não podem ser obrigados a escolher entre fugirem ou morrerem de fome.”


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E segue o massacre de palestinos a pretexto de exterminar o Hamas", escreveu na última segunda-feira (23) em suas redes sociais o jornalista Ricardo Noblat. A postagem lhe rendeu, nos comentários, diversas acusações de antissemitismo. Não é um episódio isolado. O histórico conflito envolvendo Israel e Palestina ganhou novas proporções com o ataque surpresa do Hamas no dia 7 de outubro e se tornou pauta de um debate mundial. Com a crescimento do debate, vieram também as denúncias de antissemitismo.

Acusações desse tipo geraram inclusive um conflito diplomático. No dia 9 de outubro, ao anunciar o cerco à Faixa de Gaza, o ministro da Defesa israelense Yoav Galant afirmou: "Não haverá eletricidade, nem alimentos, nem combustível. Estamos lutando contra animais e agimos em conformidade". Nas redes sociais, o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, criticou a fala e a equiparou aos discursos nazistas. Israel o acusou de antissemitismo e, desde então, as relações entre os dois países estão estremecidas.

Um levantamento realizado pela Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getulio Vargas (FGV) atesta a mobilização dos brasileiros em torno do tema antissemitismo. Foi identificado um aumento significativo da discussão sobre o assunto desde o início do conflito. Na plataforma X (antigo Twitter), entre 7 e 24 de outubro, houve 231 mil menções aos termos antissemitismo e antissemita (inclusive nas grafias anti-semitismo e anti-semita).

"Observamos um aumento constante nesse debate. Antes do início do conflito em 7 de outubro, a média diária de menções sobre antissemitismo ficava entre 200 e 300. Após o ataque do Hamas, ela sobe. Não ficou abaixo de 8 mil nem um dia. As menções sobre antissemitismo entraram no debate público brasileiro e, mesmo com oscilações, se mantêm em um patamar constante", disse à Agência Brasil, o sociólogo e pesquisador da FGV, Victor Piaia.

Mas o que é antissemitismo? Criticar Israel é antissemitismo? A Agência Brasil levantou essas questões com quatro pesquisadores que estudam o conflito histórico que envolve Israel e Palestina. Há um consenso de que críticas Israel e sobretudo à política do governo israelense não podem ser consideradas manifestações de antissemitismo à priori.

"Críticas ao Estado de Israel e às ações de Israel no território da Palestina como as feitas pelo Gustavo Petro não são antissemitas. Há críticas que contém elementos de antissemitismo. Mas não é o caso da maioria das manifestações que temos observado nos últimos dias. Mesmo a comparação com as práticas nazistas, dizer que a Faixa de Gaza é um campo de concentração ou um gueto, que está se fazendo um massacre, são críticas cabíveis ao Estado de Israel", diz Bruno Huberman, pesquisador e professor do curso de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Natalia Calfat, cientista política e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), avalia que os principais questionamentos feitos a Israel no presente debate surgem em decorrência do caráter expansionista do sionismo e da política empreendida sob o governo liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Ela observa que críticas aos assentamentos israelenses são ressoadas inclusive por judeus.

"O que existe hoje é uma tentativa de enquadramento de toda crítica ao sionismo enquanto antissemitismo. É uma manobra diversionista que desloca a discussão, deslegitima as críticas e viola os princípios do debate democrático. Isso não significa dizer que não haja antissemitismo nem que não haja críticas a Israel acompanhadas de antissemitismo. Elas certamente existem, mas nem sempre é o caso e é preciso que haja clareza na diferenciação entre antissionismo e antissemitismo".

A socióloga Sabrina Fernandes, pesquisadora da Universidade de Guadalajara (no México), observa que o antissemitismo aparece no discurso de pessoas que confundem Israel com o povo judeu no geral. Ela avalia que as críticas ao governo e ao Estado de Israel são produzidas a partir de variadas orientações ideológicas e avaliações críticas.

"Isso significa que enquanto uma maioria tem a capacidade de criticar políticas específicas do governo de Netanyahu, ou criticar a política de Estado colonial que vai muito além de um governo ou outro, sem fazer referências negativas ou discriminatórias ao povo judeu, toda vez que Israel recebe exposição negativa, aparecem sim incidentes de falas e ataques antissemitas", diz ela.

O historiador e antropólogo Michel Gherman, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que o antissemitismo surgiu no final do século 19 e se baseia na ideia de que os judeus formam uma corporação, um grupo fechado poderoso, com capacidade para decidir o destino do mundo através de um projeto secreto. "É uma perspectiva conspiracionista que aparece na crise da modernidade. E esse discurso adota a premissa de que o judeu é uma pessoa que não é daqui, ele é de fora. Você vai ter desenvolvimentos dessa perspectiva. Uns vão falar em expulsão, outros em perseguição e em extermínio como no caso dos nazistas".

Gherman avalia que as críticas a Israel, por mais duras que sejam, não são necessariamente antissemitas. Ainda assim, ele é uma voz divergente entre os pesquisadores ouvidos pela Agência Brasil, pois vê o antissemitismo bastante presente no debate atual.

"Críticas muito duras podem ser até ofensivas, não legítimas, perigosas. Mas pra gente chamar de antissemita, a gente precisa entender se elas acionam essa ideia conspiracionista de que há um projeto corporativo judaico de dominação do mundo. E isso tem aparecido nas redes sociais, vindo inclusive de analistas do conflito que dizem que há um plano de Israel para exterminar o povo palestino e controlar aquela região. Mesmo que eles não falem de judeus e sim de Israel, há uma mesma gramática do antissemitismo. Está presente uma perspectiva de conspiração e de domínio", avalia.

Ele concorda que as acusações de antissemitismo têm sido usadas de forma indiscriminada, o que acaba deixando o conceito em crise. Mas o pesquisador alerta que o crescimento do antissemitismo no mundo a partir de 2010 tem sido apontado em diferentes estudos. No Brasil, embora não existam tantos casos, também tem sido notado um aumento recente.

Segundo um levantamento do Observatório Judaico dos Direitos Humanos do Brasil, o avanço das ocorrências coincide com a maior atividade de grupos neonazistas, que se sentiram fortalecidos com discursos adotados durante o governo anterior, liderado por Jair Bolsonaro. Entre 2019 e 2022, foram 55 casos de antissemitismo e 114 de neonazismo. Ao longo desse período, o número de episódios de um ano sempre foi superior ao do ano anterior. A maior parte dos casos (52%) envolveu autores extremistas e bolsonaristas.
Tecnologia europeia

De acordo com Bruno Huberman, o antissemitismo nunca fundamentou uma política de Estado no Brasil e nunca foi uma prática largamente disseminada no país. "O racismo opera em todo o mundo, embora de forma particular em cada território. No Brasil, negros e indígenas são subjugados. Eu, por exemplo, sou judeu. Mas não sou subjugado ou perseguido no Brasil por ser judeu. Aqui, o antissemitismo nunca foi algo estrutural. Na Europa foi estrutural e a gente pode ver até que, em algum sentido, ainda é".

Huberman observa que o antissemitismo, como as demais formas racismo, serve para subjugar um grupo étnico-racial a partir de algumas identidades particulares. Mas chama a atenção que, originalmente, ele foi direcionado aos judeus em países europeus. "O racismo é uma tecnologia de dominação criada na Europa. A gente não vê, por exemplo, antissemitismo contra os judeus que viviam na África ou na Ásia. Então tem a ver com as formas de dominação e de exploração que os europeus implementaram no mundo e estão relacionadas com acumulação de riqueza e com as situações coloniais".

Na Europa, os judeus passaram a ser responsabilizados por todos os males da sociedade na primeira metade do século 20. "Na França, eles eram taxados de traidores da nação. Em alguns locais, como na Alemanha, o antissemitismo fundamenta uma política do Estado. E os judeus começaram a ser sistematicamente exterminados", explica Huberman.
Crítica ao sionismo

O movimento sionista surgiu como forma de resolver a questão do antissemitismo através da formação de um Estado-Nação exclusivamente dos judeus. A proposta acaba ganhando força após o fim da Segunda Guerra Mundial.

"Havia divergência entre os judeus. Essa não foi a única proposta para lidar com o antissemitismo. Mas esse projeto sionista avançou através da colonização da Palestina por várias décadas até a criação do Estado de Israel em 1948. Então o Estado de Israel representa esse projeto nacionalista de parcela dos judeus. Quando se critica esse projeto, você não está sendo antissemita", diz Bruno Huberman.

Sabrina Fernandes observa que, historicamente, o sionismo teve várias vertentes, mas a que domina levou à formação de Israel como um estado étnico-nacional, voltado para um povo específico. "Habitantes não-judeus não gozam das mesmas liberdades e proteções", afirma. Ela avalia que os palestinos e outros povos que vivem em áreas ocupadas por Israel - como a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e as Colinas do Golã - sofrem práticas discriminatórias. "Ocorre também no próprio território oficial de Israel onde moram palestinos e outros não-judeus que são tratados como cidadãos de segunda categoria".

 

Palestinians gather at the site of Israeli strikes on houses, as the conflict between Israel and Palestinian Islamist group Hamas continues, in the northern Gaza Strip October 23, 2023. REUTERS/Anas al-ShareefPalestinos em meio aos escombros de prédios destruídos por bombardeios na Faixa de Gaza REUTERS/Anas al-Shareef - Reuters

De acordo com a socióloga, a propaganda sionista busca apresentar Israel como a única possibilidade de vida segura para os judeus. "Existe uma vasta discussão política e teórica sobre a necessidade de delinear muito bem as diferenças entre antissemitismo e antissionismo e a realidade é que a maioria dos antissionistas, incluindo judeus antissionistas, fazem um esforço para explicar as diferenças. O problema é que o esforço sionista de alegar que são a mesma coisa também é contínuo", diz.

Gherman não vê as fronteiras entre o antissionismo e o antissemitismo tão definidas. Para ele, eventualmente elas se misturam. "A ideia de antissionismo pode ter a ver com a percepção de que a solução do Estado Nacional judaico na Palestina não foi satisfatória ou produziu, por exemplo, exclusão de parte da população local. Antissionismo também pode ser a ideia de que os judeus não são dignos de um Estado ali no Oriente Médio. Posso discordar disso tudo e discordo em parte, mas nada disso é antissemitismo", pontua.

"Porém, o antissionismo baseado na ideia de que Israel é uma corporação, que domina o mundo, que degenera a região, que degenera o mundo, que convence o mundo através da propaganda, que tem influência em Hollywood, isso tudo é antissemitismo. Dizer que os judeus inventaram, em conjunto com as potências mundiais, a ideia de nacionalidade judaica para dominar aquela região também mobiliza a gramática antissemita", acrescenta o historiador.

Para Bruno Huberman, essa visão conspiracionista não é predominante nas críticas que estão sendo feitas. "Obviamente vão ter algumas pessoas que vão confundir o judaísmo com o Estado de Israel e vão dizer, por exemplo, que os israelenses dominam o mundo pelos bastidores. E dessa forma mobiliza formas de racismo tradicionalmente usadas contra os judeus. Mas, muitas vezes, o que se busca com acusações de antissemitismo é misturar essas coisas como uma forma de silenciamento, de bloquear o debate público. E além disso, quando você fala que toda crítica é antissemitismo há o risco de banalizar o tema. Antissemitismo é uma coisa perigosa, assim como a violência praticada por Israel também é perigosa".
Islamofobia

Se o judeu pode ser alvo de antissemitismo, há consenso entre os pesquisadores que palestinos, por sua vez, têm sido alvos de islamofobia. O debate em torno da questão, no entanto, não tem ganhado a pauta pública no Brasil. Enquanto houve 231 mil menções ao antissemitismo entre 7 e 24 de outubro, o levantamento realizado pela FGV contabilizou apenas 9,9 mil menções aos termos islamofobia e islamofóbico. Houve um pico de 1,6 mil menções no dia 16 de outubro, dia em que ocorreu o esfaqueamento de uma criança muçulmana em Chicago, nos Estados Unidos.

"As menções à islamofobia, além de serem bem menos numerosas na comparação com as menções ao antissemitismo, não acontecem de forma constante. Você vê alguns picos, mas não atingem a mesma capilaridade", observa Victor Piaia.

Rio de Janeiro (RJ), 19/10/2023 - Manifestantes fazem ato em solidariedade ao povo palestino., na Cinelândia, pelos conflitos entre Israel e o grupo Hamas. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 19/10/2023 - Manifestantes fazem ato em solidariedade ao povo palestino., na Cinelândia, pelos conflitos entre Israel e o grupo Hamas. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil - Fernando Frazão/Agência Brasil.

Ele aponta algumas dificuldades para o avanço desse debate no ambiente virtual. "A dinâmica das redes sociais não favorece argumentos matizados. Os argumentos com menos nuances geram maior engajamento e mobilização. Aqueles com mais nuance tendem a perder espaço para um argumento mais acusatório, mais simplificado, mais direto. O argumento da islamofobia requer camadas. E é interessante notar também que críticas a Israel estão sendo realizadas a partir de outros termos: genocídio, extermínio. A crítica poderia se dar a partir do termo islamofobia, mas a gente observa que ela ocorre por outros termos".

De acordo com Sabrina Fernandes, a islamofobia pode ser notada em discursos que confundem o Islã com grupos fundamentalistas, dentre eles o Hamas. Ela vê um apagamento do que é a relação entre o povo e a religião na Palestina e uma estereotipização que desconsidera que há também cristãos e ateus entre os palestinos, ainda que sejam minoritários.

"O Islã e o Judaísmo podem ser instrumentalizados para projetos políticos extremos e discriminadores. O conflito entre Israel e os palestinos não é entre as religiões. Se trata de um conflito colonial e é por isso que antissionistas precisam ter um compromisso real em combater tanto a islamofobia, quanto o antissemitismo", afirma.

Segundo Bruno Huberman, a islamofobia tem se manifestado principalmente na ideia de que todos os palestinos são terroristas e de que o Hamas é essencialmente terrorista. No mundo, ele observa que os povos islâmicos têm sido vítimas de políticas discriminatórias e anti-imigratórias. São vistos como violentos e bárbaros. Além disso, são estereotipados, apagando as diferenças culturais entre eles.

"As pessoas não sabem, por exemplo, que iranianos, afegãos e paquistaneses não são árabes. De uma forma geral, o racismo opera reduzindo todos esses povos a uma mesma coisa. Na Europa, a islamofobia é considerada por alguns estudiosos como a forma de perpetuação do antissemitismo europeu. À medida que a população judaica se reduziu no continente por causa do holocausto, esse racismo foi se dirigindo aos muçulmanos, de uma forma muito parecida. Eles são culpados por tudo o que é ruim que acontece nas cidades europeias. São discursos que se assemelham".

Natalia Calfat pondera ser possível condenar as ações de grupos extremistas, seus princípios e suas táticas sem ser islamofóbico. "O Hamas é criticado por muitos membros inclusive da comunidade muçulmana. Ainda assim, há quem o critique carregando elementos islamofóbicos, o que em nada contribui para o debate e acirra a intransigência religiosa", avalia.



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