INÍCIO

11 julho 2021

O ARREPENDIMENTO DE LUFT


Sobre o arrependimento 
de Lya Luft

Roberto Romano Da Silva

A responsabilidade de uma pessoa aumenta na medida de suas informações intelectuais. Quando alguém chega ao ponto de escrever livros destinados ao público, sua capacidade de compreensão de fenômenos sociais, econômicos, políticos, ideológicos deve ser mais ampla e profunda. Se tal pessoa decide, apesar de conhecer bem a cena em que os interesses se movem, apoiar alguém que faz o elogio da tortura, despreza as mulheres, odeia os homossexuais, debocha de quilombolas e de indígenas, temos duas razões.

Ou possui a mesma ideologia assassina ou é covardemente cúmplice. Até hoje se discute a opção de Heidegger pelo nazismo. Tratando-se de um filósofo poderoso, a opção não permite desculpas. No máximo é possível relativizar sua atitude para tentar colher em seus livros algo útil para entender a tragédia humana. Não sou rigorista. Todo mundo erra.

Mas existe graduação nos erros. Dizer não existir alternativa na eleição de 2018 não exime de responsabilidade, agrava. Existia sim alternativa. Livremente a escritora optou pelo pior. Ela, com certeza, conhece as teses de Sartre e de toda a filosofia sobre a liberdade. Ninguém apertou seus dedos para que aplicasse na urna eletrônica o número de Bolsonaro.

Aceite que errou, confesse. Mas não queira enganar os outros seres humanos com sofismas. Havia coisa menos ruim na falta de coisa melhor como ela diz. E cá para nós, entre um professor de filosofia e um fascista, a escolha no rumo do melhor não era tão árdua.

Bastava pensar que, para além dos erros, o partido de Haddad nunca prometeu matar oponentes, nunca desprezou negros, índios, mulheres, nunca elogiou a ditadura e o assassino Ustra. Volto a Sartre: a desculpa da escritora é evidência clara de má fé. Que ela e todos releiam O Ser e o Nada. 


Arrependimento 
1. 
Pesar ou lamentação pelo mal cometido; compunção, contrição… "foi grande o arrependimento do assassino"

2. 
Negação ou desistência de algo feito ou pensado em tempos passados.

O arrependimento posterior ao delito é previsto no artigo 16 do Código Penal, que possui a seguinte redação: "Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de um a dois terços". O instituto tem natureza jurídica de causa obrigatória de diminuição de pena (de um a dois terços), analisado na terceira fase do cálculo da pena.

Certamente há delitos cujo dano é tão grande que nenhum arrependimento pode sanar, ainda mais quando se tem conhecimento, quando se pode refletir e decidir baseado no conhecimento que dispõe. 

Aristóteles diz no livro II da Ética a Nicamaco:

Virtude, então, é de dois tipos, virtude intelectual e virtude do caráter. A virtude intelectual surge e cresce principalmente através do ensino; e é por isso que essa necessita de tempo e experiência. A virtude do caráter é resultado do hábito; de onde origina o seu nome, uma ligeira variação de ethos (1103a 15, tradução livre).

A virtude moral então, segundo Aristóteles, não é inata. O ser humano nasce apenas com a potencialidade de desenvolver-se moralmente. A qualidade das ações praticadas por cada um vai terminar por dar a direção do desenvolvimento do caráter.

Existe, em Aristóteles, uma aproximação indispensável entre o caráter que se desenvolve, na direção de tornar a pessoa moralmente correta, e a qualidade das ações praticadas. Esta qualidade moral dos atos, quando repetida em uma determinada direção, tenderá em resultar em um caráter específico. 

2 As virtudes de caráter, então, são formadas principalmente pelo hábito.

3 Entender como as ações se constituem no caminho da virtude é necessário pois, como o próprio Aristóteles afirma: “[...] nos tornamos justos praticando atos justos, temperantes praticando atos temperantes, corajosos praticando atos corajosos” (1103b 1, tradução livre).

Lya luft
I.


Por que tanta surpresa com o voto de Lya Luft em Bolsonaro?

Bolsonaro cogitou metralhar a petralhada. Falou em arrobas para se referir ao peso de negros e em matar 30 mil para que o Brasil começasse a melhorar. Afirmou que ter filho gay é falta de porrada e que pelo voto não se muda nada. Sempre elogiou a sanguinolência dos militares durante a ditadura. Vociferou: "As minorias têm que se curvar às maiorias". E Lya Luft foi lá e apertou o 17.Respeito a inteligência da escritora, por isso tenho certeza de que levou em conta todas essas informações na hora de escolher o voto. Seu direito, faz parte da democracia que agora ela mesmo assume estar em perigo ou já ter ido pro brejo. "Parece que vivemos uma ditadura branca, uma coisa estranha, onde ele [Bolsonaro] decreta e tem que ser como ele quer. Mesmo em assunto em que ele não entende [novo coronavírus], quando estão morrendo milhares de pessoas. Essas distrações dos líderes na sua própria cobiça, a distração do sofrimento das pessoas, estão me deixando muito muito entristecida, é preciso cuidar das pessoas", disse à Folha a autora de "Perdas e Ganhos". Parece se dar conta do quanto estamos perdendo.
Está fazendo bastante barulho a revelação do voto de Lya. Da lembrança que tenho de seus textos, de suas colunas na Veja, imaginava que não seria eleitora do Boulos. Para alguns, parece espantoso descobrir que uma escritora bem conhecida vota em alguém que nunca escondeu a paixão pelo que há de pior no ser humano (o ídolo de Bolsonaro é um torturador, não custa lembrar). Entendo a surpresa, mas a história está cheia de escritores abraçados à carnificina e ao autoritarismo.

Rachel de Queiroz defendia a ditadura militar. Gabriel García Márquez morreu passando pano para os crimes contra a humanidade cometidos por Fidel Castro. Jorge Luis Borges, que sempre me pareceu um palerma político, vivia sob o quepe dos oficiais argentinos que sequestravam, matavam e jogavam corpos de opositores no mar. O francês Céline é mais lembrado pela afeição ao nazismo do que por seus livros.É bobagem pensar que arte e cultura são coisas de esquerda, como muitos insistem em vociferar. É coisa de gente. Sendo assim, nessas áreas encontramos pessoas de todo o espectro político. Se por acaso os pensamentos progressistas parecem maioria, que bom, são eles que podem fazer do mundo um lugar mais humano, mais plural, mais democrático. Um mundo livre até para outro artista cravar seu voto em quem ataca tudo isso. Entendo o arrependimento de Lya, só não compreendo o tom de surpresa com o governo que ajudou a eleger.


II.


Meu pai dizia que existem três doenças incuráveis: o mau hálito, a chatice e a ingenuidade. Vou me fiar por essa provocação jocosa do dr. Lincoln Ricci para analisar este arrependimento de Lya Luft.

Lya, aos 81 anos de idade, decide dar uma entrevista em sua residência em Gramado para se dizer arrependida. Também fala de afetos e luto, temas de seu último livro. Deve haver alguma conexão entre esses temas, imagino. A frase que solta o arrependimento cita Bolsonaro. Diz a escritora: “Te confesso que votei e me arrependi. Votei na falta de coisa melhor e me arrependi muito. Não conhecia direito. Queria uma trégua do PT, era muita esculhambação, corrupção, não foi uma base boa. Votei nele e me arrependi em seguida.” Total irresponsabilidade. Eu seria muito ingênuo se acreditasse em tal candura para mudar de posição. E acho que está na hora de abrirmos um debate sobre tais arrependimentos. Por um motivo simples: não se trata de real penitência, mas de autodefesa. Vou explicar.

Lembro quando li nas redes sociais as conclusões absurdas de Lya Luft. Cheguei a escrever para ela. Não poderia imaginar que uma escritora que tratava de temas tão delicados e intimistas pudesse enveredar para o discurso do ódio que alimentou a construção do gabinete do ódio. A escritora continuou postando bobagens e ataques infundados. Portanto, não se trata de um arrependimento em relação à busca e ao posicionamento político, mas um arrependimento de ser responsável pela posse do mais desastrado e despreparado presidente da nossa história. Gente assim, está saindo às ruas – ou às entrevistas – às pencas. Li um estudo recente que demonstra que muitos dos arrependidos continuam pregando um governo forte, de direita ou extrema-direita, ofensivo, duro, que não cede em nada. Jair teria se revelado frágil e sem foco. Daí a troca de pele dos arrependidos.

Em minha leitura, Lya é parte desse agrupamento que não se alinha ao pensamento democrático. É gente assim que nos leva ao fundo do poço desde 2015. E precisamos colocar os pingos nos “is”. Não apenas em relação às celebridades, mas também, aos intelectuais.

Antes de ingressar na abordagem sobre intelectuais, vou dar uma colher de chá à escritora. A mente humana faz interpretações de dois tipos, ao menos: a lógica-racional e a intuitiva. A conclusão lógica é aquela em que olhamos para algo e tentamos encadear fatos. Podemos errar no encadeamento de dados ou fatos, mas há uma leitura verossímil na interpretação lógica. Já a outra maneira de concluir é a intuitiva. O pensamento intuitivo é aquele que permite entender a realidade instantaneamente, sem a mediação da lógica ou da análise.

Na prática, o intuitivo olha para uma situação e tira uma conclusão de que nem sempre tem relação direta com o que ele viu. Esse pensamento estaria relacionado com a região onde está a glândula pineal. O pensamento racional domina a mente a partir dos 18 anos de idade, lembremos. Portanto, a dominação racional nas escolhas humanas exige um amadurecimento da mente. Antes, decidimos intuitivamente, mergulhados em emoções. Este é o motivo do Estatuto da Criança e Adolescente definir a adolescência até os 18 anos de idade.


Li um texto sem assinatura que afirma que há 4 tipos de pensamento intuitivo: o pensamento intuitivo emocional, o mental, o psíquico e o espiritual. O emocional detecta subitamente os principais traços de personalidade dos outros, ou o estado emocional em que se encontram. O pensamento intuitivo mental encontra respostas para um problema imediatamente, sem analisá-lo. Ele pode ser útil na tomada de decisões imediatas, mas não é bom conselheiro político. Acredito que esse seja o caso de Lya Luft. O pensamento intuitivo psíquico elege uma forma de superação de uma dificuldade pessoal, sem fundamentos concretos. Quase uma fuga da realidade, muitas vezes, enveredando para o misticismo. Já o pensamento intuitivo espiritual estaria vinculado às “revelações”, a experiência mística bruta.

Como afirmei, um atenuante ao erro grosseiro e irresponsável do ponto de vista social de Lya Luft seria ser acometida, como ficcionista, pela intuição mental, aquela que encontra uma resposta sem refletir. Uma resposta mágica. Problema que acomete 10% dos brasileiros. Esse tipo de irresponsabilidade parece se alimentar da expiação. Após o erro se revelar desastroso para a vida de muita gente, bastaria admitir o erro e uma borracha mágica limparia seu engano. As vidas destruídas por seu erro não apagariam, mas, já é pedir demais, não? Não dá para se admitir tal expiação mágica, tão irresponsável quanto o erro original cometido. É necessária educação política para que não criemos mais brasileiros com tal deseducação cívica e democrática. Política, lembremos, tem origem no cuidado com a Pólis.

Para terminar esse texto-alerta ou texto-indignação, citarei de relance (é preciso um texto mais acabado para tratar desse tema) sobre os intelectuais responsáveis por parte da tragédia atual, arrependidos ou não. Vou me apoiar, aqui, nos ensaios de Rodrigo Castelo Branco. Rodrigo, professor do UniFOA, vem se dedicando ao estudo do pensamento social-liberal no Brasil. O social-liberalismo – como o nome já entrega – é uma terceira via após o fracasso da agenda neoliberal (fracasso admitido até pelo FMI). O social-liberalismo é a pedra de toque do lulismo e esteve plasmado na famosa Agenda Perdida, que orientou, de fato, as políticas adotadas por Palocci (não a tal Carta ao Povo Brasileiro). Esse documento é fácil de encontrar na internet.

Ruy Braga (USP) é um dos autores que percebe nitidamente o social-liberalismo ingressando no governo federal pelas mãos do lulismo. Já José Luís Fiori (UFRJ) sustenta que essas teses ingressaram no Brasil pelo governo FHC. O fato é que estão aqui presentes, como o Covid19.

Rodrigo aponta o IETS, Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, como centro irradiador do social-liberalismo tupiniquim. E destaca os intelectuais dessa cepa: André Urani, Francisco Ferreira, Marcelo Neri, Ricardo Henriques, Ricardo Paes de Barros e Rosane Mendonça. As principais teses do social-liberalismo se alinham à identificação das causas da pobreza em nosso país e a agenda para sua superação. Em resumo, haveria uma primeira causa que seria a condição original (características natas) dos pobres, vinculados à etnia, inteligência e renda. Mas, essa condição original seria perpetuada em função da falta de aptidão por déficit educacional. Em suma: pela educação viria a salvação. A proposta é um pouco mais sofisticada. Os social-liberais sugerem um coquetel de políticas compensatórias vinculando:
a) políticas de transferência de renda;
b) democratização da educação;
c) democratização da terra;
d) democratização do crédito. 

Estão vendo o lulismo aí?

Mais: os social-liberais sugerem que para aplicar esse receituário seria importante adotar políticas focalizadas, ou seja, limitadas aos públicos mais marginalizados. Essa sugestão provocou um forte debate entre petistas logo no início do governo Lula. Maria Conceição Tavares fez uma dura crítica à agenda social-liberal de Palocci porque destruiria a promoção de políticas públicas universais. Vou dar um exemplo: se as cotas corrigem a desigualdade de acesso à universidade, não corrige a que afeta crianças negras. Qualquer estudioso da educação brasileira sabe que a carreira estudantil vai estreitando dramaticamente para as crianças e adolescentes negros. São poucos que chegam ao final do ensino médio. Esse processo seletivo imoral não foi atacado.

Pior: tivemos o ingresso pesado das empresas de oferta de apostilas pré-fabricadas na educação pública. Mesmo tendo os melhores livros didáticos distribuídos gratuitamente para redes públicas, 25% dos municípios paulistas torram dinheiro público com essas apostilas.

O social-liberalismo plasmado na Agenda Perdida é outra porta aberta para a desgraça atual. Lya Luft, ao menos, se diz arrependida. Pode ajudar outros a seguirem este caminho. Já os social-liberais continuam aí, oferecendo lives e sugestões à Globonews.

Rudá Ricci, Sociólogo e Doutor em Ciências Sociais (UNICAMP), é o Presidente do Instituto Cultiva

















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