INÍCIO

26 agosto 2022

PROFESSIOFOBIA


PROFESSIOFOBIA

Por Cel. Luiz Eduardo Pesce de Arruda.
Coronel veterano da Polícia Militar do Estado de São Paulo e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. 
(Artigo publicado em OrbisNews; 25/VIII/2022)


Nestes tempos de pós-modernidade, novas causas e os grupos reivindicantes ganham visibilidade perante a opinião pública. É a “modernidade líquida “ à qual se refere Zygmunt Bauman, onde a vida, as relações sociais, econômicas e de produção são frágeis, fugazes e maleáveis, como os líquidos. Como reflexo disso, a linguagem muda a cada instante, como um caleidoscópio. Surgem novos termos e outros fenecem rapidamente.
Termos racistas, homofóbicos, misóginos são necessariamente abandonados, banidos do cotidiano e das mídias, em respeito à diversidade e aos direitos individuais pois, em uma democracia, os desiguais se completam e dão maior força e vigor à cerzidura social.

Essa efervescência faz também, deste momento, um tempo favorável ao nascimento de neologismos- palavras novas, ou recombinações de palavras existentes, que enriquecem o nosso vocabulário: assim, por exemplo, homo – igual associado com fobos – medo, resulta em homofobia. 

Há dez anos, fora dos laboratórios digitais, quem saberia dizer o significado de metaverso? Ou de pix?
Como lidar com essa sociedade em mudança, com formulações inéditas e visões de mundo tão distintas?
Essencial, de princípio, é praticar a alteridade. Antes de tentarmos interpretar o mundo segundo nossa visão particular, cabe tentar enxergar o mundo pelo olhar do outro. Exercício muito difícil que, no Brasil, teve em São José de Anchieta um modelo. 

Jovem ainda, antes mesmo de sua ordenação, Anchieta, fiel à orientação da Companhia de Jesus que propugnava que os missionários deveriam exprimir-se na língua local, priorizando-a em face de seu próprio idioma natal, encantou-se pelo idioma tupi. 

Meses de convivência com os habitantes originários do planalto de Piratininga permitiram que se expressasse corretamente em tupi. 
Além de se dedicar à alfabetização - das crianças, filhas dos colonos e curumins - Anchieta estudou diligentemente a língua tupi, o que lhe permitiu elaborar a primeira gramática brasileira, a “Artes de Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil”, impressa em 1595 em Coimbra e ainda hoje utilizada como livro didático para o ensino do tupi em nossas universidades.

Escrita em apenas seis meses, a gramática descreveu e sistematizou uma língua “nova”, até então difundida apenas oralmente, o que representou o marco inicial dos estudos linguísticos na luso américa e a segunda gramática de uma língua indígena, antecedida apenas pela obra do frei Alonso de Molina, que publicou sua “Arte de la Lengua Mexicana y Castellana” no México, em 1571.

Foi a alteridade que permitiu a Anchieta apreciar e registrar, igualmente, as primeiras notações musicais colhidas no país e introduzir o teatro no Brasil, com textos em tupi e motivos de edificação moral e religiosa.

Se a alteridade enriquece, o preconceito e a discriminação nos empobrecem e podem ser associados à ignorância, que tem na arrogância a sua irmã gêmea. E aonde uma vai, a outra vai também. 

Por isso mesmo, o Rotary International é o maior patrocinador mundial de intercâmbio de jovens, partindo do princípio de que, imergindo em outras culturas e permitindo-se outros modos de ver o mundo, as pessoas superam as barreiras da incompreensão e da intolerância , promovendo a paz e a justiça entre os povos, sempre respeitando visões de mundo distintas da nossa. Conhecer, antes de formular juízos de valor.

Uma das discriminações ainda não codificadas tem sido a professiofobia, do latim professio – profissão, e do grego fobos – medo. 

O desconhecimento da atividade profissional do outro, a formulação de imagens a partir de estereótipos, a eleição pela mídia de exceções como se fossem regra, tudo isso faz com que as pessoas elaborem uma imagem mental de profissões e de profissionais, atribuindo-lhes características generalizadas.

Se, por vezes, qualidades imerecidas são atribuídas genericamente a todos os profissionais de uma classe, é doloroso, por outro lado, que condutas individuais desviantes sejam tomadas como comuns a todos os membros da classe.

Um grande amigo meu, que é padre católico, erudito e vocacionado, revelou-me, entre chocado e triste, que ao entrar no metrô usando suas roupas clericais (o chamado “clergyman”), sentou-se ao lado de uma criança e próximo a outra. A mãe, assustada, rapidamente retirou as crianças de seus lugares e, tão logo possível, mudou-se de vagão. 

- Será que ela pensa que eu sou pedófilo porque sou padre? – perguntou-me.
Eu o confortei, disse a ele que fui coroinha dos seis aos quatorze anos, convivi com mais de trinta padres e nunca qualquer um deles se portou de modo menos digno para comigo ou meus colegas. Sem dúvida, uns eram mais legais, outros mais chatos, uns cultos outro menos eruditos, mas todos se portaram de modo impecável comigo e com meus colegas.

Para mim, que sou policial militar, é cansativo e desgastante escutar, por exemplo, que a pessoa mudou de opinião sobre a polícia e os militares depois de conversarmos. 
- Não sabia que a Polícia tinha gente estudada – dezenas de pessoas me disseram ao longo da vida, algumas delas ocupando cargos públicos relevantes. E que, inclusive por isso, teriam o dever de saber disso. Poderia dizer-lhes que foi o marechal José Pessoa quem concebeu, pioneiramente, o levantamento detalhado do quadrilátero da futura capital federal e idealizou o projeto do avião, no plano-piloto de Brasília. Ou que o almirante Álvaro Alberto é o pai do programa nuclear brasileiro e da CAPES. Ou que o coronel da FAB Ozires Silva concebeu e criou a EMBRAER. Ou que um capitão da PM de São Paulo, mais tarde professor da Poli, Moisés Szajnbok, concebeu e dirigiu por anos a fio a FUVEST. Ou da contribuição acadêmica de Carlos Magno Nazareth Cerqueira ou Jorge da Silva, ambos coronéis da PMERJ e professores da UERJ, para a compreensão da violência no Brasil.

Dançarinos, militares, pastores, professores, funcionários da FEBEM, pais de santo, políticos, em maior ou menor grau, advogados e jornalistas, todos somos vítimas, em maior ou menor grau, da professiofobia. 

Participei de um processo seletivo, no final de 2021, objetivando trabalhar em uma entidade privada de serviço social, sem fins lucrativos, que busca a capacitação e a promoção do desenvolvimento econômico e competitividade de dado setor da economia.
Tudo correu bem até que o diretor foi informado de que o candidato era coronel da reserva da PM:
- Não quero coronel trabalhando aqui! Eles são todos loucos e bolsonaristas!

Vivemos em uma democracia e temos, sim, coronéis que são bolsonaristas. E temos também coronéis que votam no Lula, na Simone Tebet e no Ciro, só pra citar os mais bem colocados no ranking das pesquisas de opinião para presidente. Temos policiais de direita, de centro e de esquerda. Temos policiais católicos, evangélicos, mórmons, judeus, muçulmanos, de matriz afro e ateus. Se o gestor em pauta conhecesse um pouco da história das instituições, saberia que foi a esquerda militar que deu capacidade a todos os movimentos armados da história da esquerda brasileira, que deixaram o mundo das ideias e se viabilizaram no mundo das ações. Se não houvesse a participação de militares de esquerda, não teria ocorrido a chamada Intentona (nem, em oposição, o Putsch Integralista). Não teria havido a ANL, a campanha do “Petróleo é nosso”, a campanha bem sucedida para impedir o Brasil de enviar tropas à guerra da Coréia, não teriam surgido os grupos armados de enfrentamento ao regime militar.

Nelson Werneck Sodré e Luiz Carlos Prestes, embora coronéis, se vivessem hoje, por certo não votariam em Jair Bolsonaro. Outros votariam, pois as instituições não são monolíticas e seus membros ocupam um amplo espectro de opinião. 
Consideremos que pessoas diferentes compõem quadros profissionais e têm dons inusitados. Basta nos darmos a chance de nos aproximarmos delas e com elas dialogarmos, antes de formular juízos de valor precoces e classificá-las seguindo estreitos cânones, formulados a partir do empirismo e do preconceito.

Bancários são chatos, amantes da rotina e sem criatividade? Meu gerente de banco é um talentoso e reconhecido compositor de música gauchesca.
Professores de zoologia alternam seus dias entre florestas e laboratórios? Paulo Vanzolini, o cantor da vida e das tragédias noturnas da Avenida São João, que o diga!

Conheçamos as pessoas antes de rotulá-las pela profissão que exercem. Isso nos enriquecerá e nos surpreenderá, na maioria das vezes, de modo muito positivo.



Fonte






21 agosto 2022

A CAÇADA AO LEÃO

HADRIANO E ANTINOOS E A CAÇADA AO LEÃO 

Texto de Hernestus (1)



No dia 21 de agosto, com o Sol nos graus finais de Leo, a constelação zodiacal do Leão, comemoramos a Sagrada Caçada ao Leão, quando o imperador Adriano e Antínoo mataram um leão devorador de homens no Egito em agosto de 130 dC.

Os sacerdotes de Antinous celebram o evento com cerimônias rituais no Templo de Antinous em Hollywood/EUA, que também vê os fiéis participando ao vivo on-line da América do Norte e do Sul, Europa e África.

Durante as cerimônias especiais, eles também homenageiam o Sagrado Lótus Rosado de Antínous, o nenúfar rosa (the pink waterlily) que se diz ter nascido espontaneamente do sangue do leão quando respingou nas margens do Nilo.

Flamen Antonius Subia relata em detalhes vívidos os eventos da Caça ao Leão Sagrado: O local é o Egito, em algum lugar no deserto rochoso entre os oásis dispersos a sudeste de Alexandria.

A época é agosto do ano 130 dC. O Sol está prestes a deixar do Signo de Leão e entrar no signo de Virgo, a Virgem, e a constelação de Áquila, a Águia, a constelação dedicada a Zeus está em seu zênite no céu noturno. Exatamente como ocorre agora no céu do hemisfério norte. Alexandria está há 31°12′56″ N, quase a mesma latitude de Porto Alegre que está ao sul 30°1′40″ S.

É a constelação do Imperador. E o Imperador e seu Amado estão viajando pelo Egito quando ouvem relatos terríveis de um leão devorador de homens saqueando o campo à beira da terra cultivada. O "Leão Marousian" foi chamado.

Eles lideram uma expedição de caça ao deserto. Toda a expedição está repleta de simbolismo desde o início, já que o Sol está em Leão nos céus diurnos e a Águia está voando nos céus noturnos e os antigos acreditavam que matar leões era o mesmo que derrotar a própria morte. A caça ao leão era o esporte dos reis.

Quando finalmente o grupo imperial expulsa o devorador de homens, os caçadores e arqueiros recuam e deixam Adriano para se aproximar da fera com seu corcel. Adriano acaba de disparar uma flecha que fere o animal quando, de repente, do nada, o jovem Antínoo cavalga na frente, com as rédeas na mão esquerda, uma lança de ponta de adamantina na mão direita erguida.

Enquanto a comitiva imperial observa com horror, o leão rosnando avança em direção ao menino, fazendo com que seu cavalo em pânico relinche e gire aterrorizado. Mas Antinous mantém o equilíbrio e, julgando instantaneamente a distância e o ângulo, lança sua lança na direção do leão, que rapidamente fecha a distância entre eles.

A lança bate em seu flanco traseiro, causando um ferimento sério, mas não fatal. Enfurecido ainda mais, o leão usa suas presas para puxar a lança e ataca novamente o Menino que está se atrapalhando com sua aljava para preparar um tiro com seu arco. Mas uma flecha já está no ar atrás de Antínoo, e passa zunindo por sua orelha e atinge seu alvo na garganta do leão.

Foi disparada por Adriano, que se aproxima a todo galope e que, mesmo quando a primeira flecha ainda estava no ar, já havia preparado uma segunda flecha, que desta vez penetra em ambos os pulmões.

O leão gira e desaba se contorcendo na poeira, raiva em seus olhos, sangue e saliva escorrendo de sua boca com presas, ofegante enquanto luta para ficar de pé – porque Antínous desmontou e está correndo em direção a ele com uma adaga desembainhada. .

Adriano para seu corcel e desmonta com agilidade e leveza digna de um homem com metade de sua idade, alimentado pela adrenalina e alarme por seu Amado Menino, que enfrenta perigo iminente do leão mortalmente ferido, ainda capaz de cortar uma artéria com um golpe de sua poderosa pata.

Adriano tira seu machado de caça do cinto e o segura alto enquanto se lança nas costas do leão e despacha a fera com um golpe poderoso que divide seu crânio em dois com um estalo assustador e um jorro de sangue vermelho brilhante que banha o homem mais velho , agora ofegante e suando muito, e o homem mais jovem que ainda não mostra nenhuma expressão visível de preocupação, apenas um olhar desvairado de excitação em seus olhos, como se ele nunca tivesse percebido o perigo em que esteve – como se pensasse que está imortal.

Um aplauso sobe do círculo de espectadores quando eles percebem que o leão está morto, aparentemente morto por um único golpe da mão do Imperador. Cortesãos cujos olhos não são habilidosos em caçar mais tarde alegarão que Adriano matou o leão com uma clava.

Enquanto soldados e guarda-costas nervosos correm para se certificar de que tudo está bem, o imperador, sua adrenalina diminuindo tão rapidamente quanto veio, trêmulo envolve um braço manchado de sangue em torno de Antínous e planta sua sandália dourada com sola pontiaguda nos mortos. pescoço do animal e acena para Antínous para fazer o mesmo.

Lá estão eles, banhados em sangue e banhados na adulação do círculo imperial, cada um com um pé no devorador de homens derrotado enquanto o sangue do animal se espalha e cobre as rochas e areia ao redor e algumas flores silvestres que crescem de uma fenda na uma pedra.

Até as flores estão salpicadas de sangue. E essas flores vermelhas serão colhidas pelos membros da comitiva para levar de volta como lembranças para mostrar aos cortesãos invejosos que não foram convidados.

















































Leia o original em Inglês, clicando aqui.


Referências