O DESTINO DOS DIAS
Todos temos a ideia de que somente existe um dia no qual morreremos.
Todos os dias morrem ao nascer.
No momento em que o sol se levanta no horizonte o único fato certo é que ele vai morrer no oeste algum tempo depois.
Todos os dias no momento do nascimento do sol ele se inscreve na duração, e assim inicia seu processo de morte; e o resto do dia é um ritual de despedida para o seu sepultamento.
E quando ele é sepultado, ao por do sol, naquela luz difusa, misto de tristeza e esperança, gesta-se um outro novo dia que trará a morte justamente ao nascer do sol.
Tudo que chamamos de vida é sono.
Tudo que chamamos de sonho é esperança
E esperança é a duração; de que o sol nasça de novo.
Estar desperto é sombra e morte;
A sombra que sonha o homem...
A obra de arte, o gesto, nasce da morte;
A arte nasce da morte de todos os dias e seu destino é imaginar o nosso sonho de vida.
A imagem é uma realidade de outra dimensão que se materializa ou se apresenta a essa nossa dimensão através de uma de suas arestas.
Todavia nunca poderemos abarcar dela todo o sentido, todo o seu ser.
Seu referente é a nossa realidade, nossa percepção do que seja realidade, um recorte do sonho, da morte.
A imagem como a vejo é aquele ponto onde uma esfera de cristal toca uma placa de mármore.
Dela (esfera) não poderíamos ver senão um ponto.
O ponto que a esfera toca o plano da superfície fria do mármore.
A imagem é a morte da realidade é o sonho do que supomos ser a realidade. Mesmo se a imagem fosse holográfica ela seria ainda o cruzamento de diferentes dimensões com diferentes propriedades.
A vida da imagem é a morte.
A imagem vive da morte.
A imagem é esse movimento da vida para a morte.
Do sono para o despertar, do sonho para a realidade.
Sua existência é a morte mas o que vemos é a vida.
Por isso não podemos fotografar a mesma realidade mais de uma vez.
Nem mesmo se fotografássemos a morte da morte.
O que estaríamos fotografando seria de outra natureza.
Estamos num beco sem saída.
Os dias nascem para a morte como todo na natureza.
E tudo que podemos fazer é esse ritual de velar seus momentos e sepultá-los no final de sua existência.
(Dezembro de 2015)
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