INÍCIO

04 dezembro 2019

A IMAGEM DO DESTINO



O DESTINO DOS DIAS 



Todos temos a ideia de que somente existe um dia no qual morreremos. 

Todos os dias morrem ao nascer. 
No momento em que o sol se levanta no horizonte o único fato certo é que ele vai morrer no oeste algum tempo depois. 
Todos os dias no momento do nascimento do sol ele se inscreve na duração, e assim inicia seu processo de morte; e o resto do dia é um ritual de despedida para o seu sepultamento. 

E quando ele é sepultado, ao por do sol, naquela luz difusa, misto de tristeza e esperança, gesta-se um outro novo dia que trará a morte justamente ao nascer do sol. 

Tudo que chamamos de vida é sono.
Tudo que chamamos de sonho é esperança
E esperança é a duração; de que o sol nasça de novo. 
Estar desperto é sombra e morte;
A sombra que sonha o homem... 

A obra de arte, o gesto, nasce da morte; 
A arte nasce da morte de todos os dias e seu destino é imaginar o nosso sonho de vida. 

A imagem é uma realidade de outra dimensão que se materializa ou se apresenta a essa nossa dimensão através de uma de suas arestas. 
Todavia nunca poderemos abarcar dela todo o sentido, todo o seu ser. 
Seu referente é a nossa realidade, nossa percepção do que seja realidade, um recorte do sonho, da morte. 

A imagem como a vejo é aquele ponto onde uma esfera de cristal toca uma placa de mármore. 

Dela (esfera) não poderíamos ver senão um ponto. 
O ponto que a esfera toca o plano da superfície fria do mármore. 
A imagem é a morte da realidade é o sonho do que supomos ser a realidade. Mesmo se a imagem fosse holográfica ela seria ainda o cruzamento de diferentes dimensões com diferentes propriedades. 
A vida da imagem é a morte. 
A imagem vive da morte. 
A imagem é esse movimento da vida para a morte. 
Do sono para o despertar, do sonho para a realidade. 
Sua existência é a morte mas o que vemos é a vida. 
Por isso não podemos fotografar a mesma realidade mais de uma vez. 
Nem mesmo se fotografássemos a morte da morte. 
O que estaríamos fotografando seria de outra natureza. 

Estamos num beco sem saída. 
Os dias nascem para a morte como todo na natureza. 
E tudo que podemos fazer é esse ritual de velar seus momentos e sepultá-los no final de sua existência. 


(Dezembro de 2015)






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