INÍCIO

03 dezembro 2019

A IMAGEM DE COMO UM POVO SE VÊ NO ESPELHO - ESCRAVOCRATAS E CONSERVADORES

O QUE VEMOS QUANDO 
NOS OLHAMOS NO ESPELHO?

O que vemos no espelho (A. Paim)


“Quando eu uso uma palavra”, disse Humpty Dumpty num tom bastante desdenhoso, “ela significa exatamente o que quero que signifique: nem mais nem menos.” A questão é, disse Alice, “se pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes.” “A questão”, disse Humpty Dumpty, “é saber quem vai mandar. Só isto.” 

(Lewis Carroll, Alice através do espelho)


O que nos define como brasileiros? Lendo a obra do Dr. Jessé Sousa, nos convencemos que a explicação por ele proposta para nos entendermos como brasileiros, e que explica com magnifica exatidão e máxima clareza esta na nossa gênese escravocrata muito mais do que nossa proximidade com a nação que nos colonizou inicialmente.
Essa resposta é dada magistralmente pelo livro de Jessé Souza, intitulado: "A elite do atraso". Segundo esse autor, "A elite do atraso" vem criticar a ideia de Sérgio Buarque que primeiro propôs uma explicação totalizante, que visava 

responder às três grandes questões que desafiam indivíduos e sociedades: 
De onde viemos? Quem somos? Para onde (provavelmente) vamos? Articular essas três questões centrais de modo convincente permitiu que sua visão se tornasse a interpretação oficial do Brasil sobre si mesmo. Assim, esta visão se tornou uma visão hegemônica que respondia muito bem a essas três questões colocadas.

O sucesso da empreitada de Sérgio Buarque se deve ao fato de ele ter logrado, ao modo dos profetas das grandes religiões mundiais, responder às três grandes questões que desafiam indivíduos e sociedades: De onde viemos? Quem somos? Para onde (provavelmente) vamos? Articular essas três questões centrais de modo convincente permitiu que sua visão se tornasse a interpretação oficial do Brasil sobre si mesmo. 
Como se sabe hoje, a Lava Jato se legitima com Sérgio Buarque e seus epígonos; a Rede Globo legitima sua violência simbólica do mesmo modo; ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se legitimam a partir de suas ideias; e intelectuais importantes da esquerda continuam reproduzindo suas supostas evidências e as de seus discípulos (Sousa, 2019).

Assim, Sousa (2019) persegue três eixos temáticos bem definidos. O primeiro eixo é tomar a experiência da escravidão, e não a suposta e abstrata continuidade com Portugal e seu “patrimonialismo”, onde não existia a escravidão, como a semente de toda a sociabilidade brasileira. 
Muitos falaram de escravidão como se fosse um mero “nome”, sem eficácia social e sem consequências duradouras, inclusive Sérgio Buarque e seus seguidores. Compreender a escravidão como conceito é muito diferente. É perceber como ela cria uma singularidade excludente e perversa. Uma sociabilidade que tendeu a se perpetuar no tempo, precisamente porque nunca foi efetivamente compreendida nem criticada. 

O segundo eixo foi perceber como a luta das classes por privilégios e distinções logrou construir alianças e preconceitos que esclarecem, melhor que qualquer outra coisa, o padrão histórico que se repete nas lutas políticas do Brasil moderno. O principal aqui é evitar compreender as classes de modo superficial e economicista, como o fazem tanto o liberalismo quanto o marxismo. Ao perceber as classes sociais como construção sociocultural, desde a influência emocional e afetiva da socialização familiar, abrimos um caminho que esclarece nosso comportamento real e prático no dia a dia como nenhuma outra variável. Essa é uma promessa que faço ao leitor sem medo de fracassar: é possível reconstruir as razões de nossa própria conduta cotidiana, assim como a conduta dos outros que conosco partilham o mundo social, de modo preciso e convincente a partir da reconstrução da herança de classe de cada um (Sousa, 2019). 


A tradição inaugurada por Sérgio Buarque e arrasadoramente influente até hoje não percebe a ação das classes sociais, daí que tenham criado o “brasileiro genérico”, o homem cordial de Sérgio Buarque ou o homem do “jeitinho brasileiro” para um DaMatta. O conflito entre as classes também é distorcido e tornado irreconhecível, sendo substituído por um falso conflito entre Estado corrupto e patrimonial e mercado virtuoso. Ainda que todo o noticiário atual milite contra essa percepção, sem uma desconstrução do sentido velho e de uma reconstrução explícita de um sentido novo, seremos feitos de tolos indefinidamente. É por conta dessa inércia provocada pela força de concepções passadas que pensamos os problemas brasileiros sob a chave do patrimonialismo e do populismo, dois espantalhos criados para tornar possível a aliança antipopular que caracteriza o Brasil moderno desde 1930.
Por fim, o terceiro eixo, é o diagnóstico acurado do momento atual. Se os dois pontos anteriores são importantes, sua eficácia deve ser comprovada por um diagnóstico do momento atual mais profundo e mais veraz que o do “racismo culturalista”, como podemos definir o paradigma que estamos criticando. Esse é o convite que faço ao leitor. Adentrar o espaço de uma aventura do espírito que visa libertá-lo das amarras invisíveis das falsas interpretações críticas. Esse é, afinal, o primeiro passo para que, enfim, não mais repitamos a nossa triste história da exclusão recorrente e golpes de Estado, mas que juntos possamos construir algo verdadeiramente novo (Sousa, 2019).
Desta forma o que seria necessário para se conhecer uma sociedade? Para se conhecer uma sociedade é necessário reconstruir os meandros do processo que permite a reprodução do poder social real. 
O presente não se explica sem o passado, e apenas a explicação que reconstrói a gênese efetiva da realidade vivida pode, de fato, ter poder de convencimento. Essa é, inclusive, a razão da força de convencimento do culturalismo conservador entre nós.

A tese central dessa obra é que o Brasil não vem de Portugal e dos portugueses que aqui chegaram e encontraram os índios e depois os africanos escravisados e por fim vieram os imigrantes, que contribuíram para a amalgamação dessas quatro vertentes (Índios, Europeus ibéricos , Africanos e por fim Europeus) que ao se misturarem deu inicio ao Brasil como o conhecemos hoje. Uma democracia racial vivendo em paz num paraíso tropical.
Essa história ou explicação esta baseada no senso comum e não na ciência. 
O Brasil na realidade vem da própria instituição da escravidão. É ela que tem o potencial de explicar nossa historia de mais de 500 anos, dos quais mais de 300 anos foram dominados pela escravidão. E essa instituição nos moldou. Moldou como nos percebemos como sociedade hoje. Moldou e construiu como o negro se percebe a si mesmo e como os brancos e a classe média vê os negros, os pobres os desempregados e a periferia. A elite e a classe média veem o negro, o pobre e o desempregado como olhos preconceituosos, o que desumaniza e reifica o ser humano, tornando-o objeto exatamente como os escravos eram vistos por mais de 300 anos no Brasil. Para isso basta lembrarmos como o então candidato a vice-presidente da República Hamiltom Mourão se referiu ao Brasil e ao brasileiro médio como um “caldinho cultural” que inclui a “indolência” dos povos indígenas e a “malandragem” dos negros africanos. (“E o nosso Brasil? Já citei nosso porte estratégico. Mas tem uma dificuldade para transformar isso em poder. Ainda existe o famoso "complexo de vira-lata" aqui no nosso país, infelizmente. Nós temos que superar isso. Aí está essa crise política, econômica e psicossocial. Temos uma herança cultural, uma herança em que tem muita gente que gosta do privilégio. Mas existe uma tendência do camarada querer aquele privilégio para ele. Não pode ser assim. Essa herança do privilégio é uma herança ibérica. Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. Eu sou indígena. Meu pai é amazonense. E a malandragem, nada contra, mas a malandragem é oriunda do africano. Então, esse é o nosso cadinho cultural. Infelizmente gostamos de mártires, líderes populistas e dos macunaímas”, declarou. Ora, nessas poucas palavras esta todo o argumento que fala o livro do Jessé Sousa. Ela corrobora "ipsis literis et ipsis verbis" a tese central da obra. Essas ideias não nos são passadas pelo ar ou pelas nuvens como afirma Sousa (2019) mas pelas instituições. 

A ideia que temos de nós mesmos como brasileiros, é construída pelas instituições, sendo a primeira e mais básica a família, depois a escola e o trabalho, a igreja, e assim por diante. A criança, no seio da família de modo afetivo, pré-linguístico, emocional vai absorvendo, amalgamando ao seu eu o que é dito e percebido do mundo social no qual ela esta inserida. 
Assim, a primeira instituição que passou a existir aqui nesse canto do mundo desde o seu achamento, expropriação e exploração, desde o ano ZERO da nossa fundação é a escravidão. 
Assim, as Capitanias Hereditárias foram concebidas como um sistema administrativo implementado pela Coroa Portuguesa no Brasil em 1534, três décadas depois do achamento desta terra. Desta forma o território do Brasil, pertencente a Portugal, foi dividido em faixas de terras e concedidas aos nobres de confiança do rei D. João III (1502-1557). Essas terras poderiam ser passadas de pai pra filho e por isso, foram chamadas de hereditárias. Esse foi o primeiro registro que se tem noticia de grandes proprietários de terras no Brasil colônia.
Os principais objetivos dessas Capitanias foram: povoar a colônia e dividir a administração colonial. As Capitanias Hereditárias, porém, tiveram vida curta e foram abolidas dezesseis anos após sua criação.
Ficou estabelecido pela coroa portuguesa que seriam criadas 15 capitanias e seus 12 donatários, uma vez que uns receberam mais que uma porção de terra e as Capitanias do Maranhão e São Vicente foram posteriormente divididas em duas partes. Desde 1532, o caucasiano, branco, colonizador, estabeleceu um sistema de administração imposta a partir da Europa sobre as novas terras, desconsiderando totalmente os povos originários que aqui existiam ha mais de 15 mil anos.
Cada Capitão Donatário era considerado a autoridade civil máxima, legislativa, judiciária e executiva, ficando responsável por povoar, administrar, proteger o território, fundar vilas e desenvolver a economia local. Por sua parte, a Coroa Portuguesa não dava nenhuma ajuda financeira aos donatários para esse empreendimento. Os donatários, possuíam alguns privilégios jurídicos e fiscais como: escravizar indígenas; cobrar tributos e doar lotes de terra não cultivados, as chamadas sesmarias a quem lhes agradasse;

explorar a região e usufruir de todos seus recursos naturais (donde uma porcentagem pertencia à coroa), desde animais, madeira e minérios. Esse tributo cobrado aos donatários era uma porcentagem de 10% (dízimo) de toda riqueza produzida ou extraída da terra.

Com a escravização dos índios, muitos morreram de enfermidades trazidas pelos europeus, por não possuírem imunidade para aquelas doenças. Estima-se que 300.000 índios foram escravizados até 1641, quando o bandeirantismo de aprisionamento declinou e deu lugar a expedições cada vez maiores em busca de ouro, prata e pedras preciosas. Com a ausência de mão de obra indígena, fez-se necessário trazer outro tipo de mão de obra para esse empreendimento de colonização. Assim, inicia o tráfico de escravos africanos.

Analisando a constituição genética de pessoas que vivem em três capitais brasileiras, os geneticistas Sérgio Danilo Pena professor titular de Bioquímica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Maria Cátira Bortolini da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) estão ajudando a resgatar parte dessa história ainda não de todo esclarecida sobre a origem dos mais de 4 milhões de escravos africanos que chegaram aos portos de Rio de Janeiro, Salvador e Recife e contribuíram para a formação do povo brasileiro.

Durante mais de trezentos anos de tráfico negreiro o trecho da África Ocidental que vai do Senegal à Nigéria possivelmente forneceu muito mais escravos ao Brasil do que se imaginava. A proporção de homens e mulheres capturados nessa região e enviados à força para o Brasil pode ter superado, e muito, os 10% do total estimado anos atrás pelos historiadores norte-americanos Herbert Klein e David Eltis, estudiosos do tráfico de escravos no Atlântico. Os argumentos que agora servem de suporte à revisão dos cálculos, em especial para o Sudeste do Brasil, não são apenas históricos, mas genéticos. 

Esse trabalho analisou genes de um grupo de negros em São Paulo e apontou que 44,5% tinham uma ancestral no Centro-Oeste da África, outros 43%, na região Oeste, e o restante (12,3%), no Sudeste africano. Como o mtDNA tem uma taxa de mutação conhecida, e devido a sua transmissão ser matrilinear, pode-se saber com certeza quase absoluta o local de sua origem. Por isso, esse DNA é chamado de marcador de linhagem. Apesar de ter sido feito em um grupo em São Paulo, o estudo pode ser considerado uma referência para o que ocorreu no resto do Brasil, já que a cidade foi e é até hoje um polo de migração interna no país.

Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizado por João José Reis, professor de História da Universidade Federal da Bahia (UFBA), as regiões Centro-Oeste, Oeste e Sudeste da África contribuíram em graus variados de intensidade, dependendo do período considerado e das conexões comerciais mantidas pelos traficantes de escravos portugueses, brasileiros e africanos dos dois lados do Atlântico. Assim, os portos do Brasil podiam, por vezes, e em certos períodos, se especializar em determinadas direções do fluxo do comércio de pessoas.

Do inicio do século XVI, essas pessoas para cá vieram contra sua vontade, para servirem de escravos à esse Estado nascente. E mesmo dando seu sangue por esse pais, sendo surradas, caçadas, castigadas, exploradas, por mais de 300 anos, ainda hoje não encontram lugar onde possam dizer que é seu e aí construir sua vida e realizar seus sonhos. Mesmo hoje elas são escravizadas, já que a escravidão veste máscaras diferentes, mas não deixa de ter os mesmos efeitos que tinha desde o seu infame inicio em 1529.  



Quais são as precondições para que percebamos que a escravidão é o que nos define como povo e como nação e não a leitura do senso comum de como a sociedade funciona? As respostas a essa pergunta estão aí em nosso meio, em todas as instituições que compõem esse nosso mundo e de onde retiramos elementos que formam nosso caráter e nosso eu mais intimo e que define o nosso caráter. 

O primeiro vislumbre de uma segregação racial e étnica podemos ver nos shoppings de qualquer cidade brasileira. Ao visitarmos esses lugares notamos que existe uma segregação de trabalho. Há tipos de trabalhos que são executados por negros (limpeza das mesas da praça de alimentação, limpeza do chão dos corredores e corrimão das escadas, limpeza dos banheiros, guardadores de carros nos estacionamentos, seguranças internos em frente as lojas). Qualquer pessoa minimamente observadora poderá notar que esses afazeres são desempenhados por pessoas negras na maioria das vezes. Os índios nem chegam a entrar no shopping, muito menos podemos encontrar algum fazendo algum tipo de trabalho nesses locais. Eles são encontrados vendendo artesanato nas ruas durante os finais de semana ou durante a semana nos grandes centros, isso quando não são expulsos por seguranças das prefeituras a pedido dos proprietários de lojas que os consideram sujos além de atrapalharem a circulação das pessoas (brancas, da classe média...).

São as instituições que nos constroem e que nos montam que nos moldam como somos. E a mais basal e primeva instituição na qual surgimos é a família. E é logico pensar que ela nos constrói se não na nossa totalidade, em quase toda ela. Dela retiramos os valores que nos tornam humanos, e isso vai depender do grau de educação dos nossos pais, de onde vieram, o que fazem, como se relacionam. Recebemos isso de graça, afetivamente, de forma passiva. Assim, sobre esse núcleo de valores familiar vamos adicionar os valores aprendidos na escola, depois na rua com os vizinhos, na igreja, no bairro, na cidade, na universidade e no trabalho etc. 
A questão principal é: como essa escravidão continua na sociedade contemporânea? 

Que existiu escravidão todo mundo concorda. Mas isso nos define enquanto passado. Uma pergunta importante que está no nosso horizonte é: qual o peso do nosso passado que está formando o que somos como nação hoje (no presente)? Ou dito de outra forma, o quanto do passado ainda está moldando o nosso presente e que ainda determina nosso agir enquanto seres sociais no Brasil de hoje?
A escravidão foi a realidade mais importante no nosso passado por mais de trezentos anos, para ser mais exato de 1529 a 1888. 

No período desses 300 anos (do sec. XVI ao XIX) foram trazidos para o Brasil mais de 4 milhões de africanos contra sua vontade, sendo que o primeiro navio com africanos escravizados chegou a Capitania de Pernambuco em 1529, como já citado. Nos USA os primeiros escravos africanos chegaram via Santo Domingo à atual Carolina do Sul, fundada pelo explorador espanhol Lucas Vázquez de Ayllón em 1526, ao final da escravidão, mais de 590 mil africanos foram trazidos para a América do Norte.
O Brasil era, no final do século XIX uma verdadeira África. Nesse ponto as  atutoridades brancas iniciaram um processo de branqueamento. Esse processo de  clareamento racial, ou simplesmente branqueamento, é uma ideologia que era amplamente aceita no Brasil entre 1889 e 1914, como a "solução" para o problema do excesso de negros em todo o pais. 
A escravidão só foi oficialmente abolida no Brasil com a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888, pela então regente do império, a Princesa Isabel, em nome de seu pai, o imperador Dom Pedro II, que estava ausente do Brasil em uma viajem a Europa.

A abolição da escravidão 1888 em todo o Brasil, representou para os negros uma história de tragédias, descaso, preconceitos, injustiças e dor. Uma chaga que o Brasil carrega até os dias de hoje, e provavelmente carregará até o fim dos dias. 
Em um artigo publicado na Revista de informações e debates do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), uma das mais perspicazes percepção desse fato  foi feita em 1964 pelo sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995). Em um livro clássico, chamado "A integração do negro na sociedade de classes", ele colocou essa questão sob os holofotes, dizendo: “a desagregação do regime escravocrata e senhorial se operou, no Brasil, sem que se cercasse a destituição dos antigos agentes de trabalho escravo de assistência e garantias que os protegessem na transição para o sistema de trabalho livre. Os senhores foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança dos libertos, sem que o Estado, a Igreja ou qualquer outra instituição da sociedade brasileira assumisse encargos especiais, que tivessem por objeto prepará-los para o novo regime de organização da vida e do trabalho. Num dia os negros mesmo que na maior precariedade tinham casa, comida, endereço, família e no outro estava na rua, uma legião de seres humanos transformados em pedintes e dependendo da caridade de estranhos para sobreviver mais um dia. Esse modo de agir dos brancos para com os negros que foram arrancados de seus países na África e trazidos para o Brasil, agora foram jogados na sergeta como se fossem lixo, isso imprimiu à Abolição o caráter de uma espoliação extrema e cruel”.

Uma placa escrita "colored" (ou "de cor") indicando uma sala de espera exclusiva para negros na parada de ônibus da Greyhound Lines, na cidade de Rome, Geórgia, USA, década de 1940.


A escravidão havia chegado ao fim, agora o ex-escravo totalmente livre e igual a todos os cidadãos perante a lei, estava abandonado a própria sorte. Diferente do que aconteceu nos Estados Unidos, com o fim da Guerra da Secessão, a vitória do Norte industrializado sobre o Sul agrícola e conservador, implicou na emancipação total dos escravos e eles foram amparados por uma lei, que possibilitou assistência e formas de inserção do negro na sociedade, mesmo que essa sociedade permanecesse num regime de "apartheid".

No Brasil, com o fim da escravidão, os ex-escravos foram abandonados, uma grande maioria expulsos de onde moravam, tiveram que morar nos morros ao redor das cidades, lugares sem nenhuma infraestrutura urbana. 


Segundo Lilian Aguiar (Historiadora) os negros, no dia seguinte a abolição, sem acesso a terra e sem qualquer tipo de indenização por tanto tempo de trabalhos forçados, geralmente analfabetos, vítimas de todo tipo de preconceito, muitos ex-escravos permaneceram nas fazendas em que trabalhavam, vendendo sua força de trabalho em troca da sobrevivência. Aos negros que migraram para as cidades, só restaram os subempregos, a economia informal e o artesanato. Com isso, aumentou de modo significativo o número de ambulantes, empregadas domésticas, quitandeiras sem qualquer tipo de assistência ou garantia; muitas ex-escravas eram tratadas como prostitutas. Os negros que não moravam nas ruas passaram a morar, quando muito, em míseros cortiços, onde eram extorquidos. O preconceito e a discriminação e a ideia permanente de que o negro só servia para trabalhos duros e sujos, ou seja, serviços pesados, onde era usado com um animal de carga, deixaram sequelas desde a abolição da escravatura até os dias atuais.

FINAL DO SÉCULO XIX INÍCIO DO SÉCULO XX


Simpatizantes da ideologia de Branqueamento acreditavam que a raça negra iria avançar culturalmente e geneticamente, ou até mesmo desapareceria totalmente, dentro de algumas gerações de miscigenação entre brancos e negros. Esta pseudociência (eugenia) ganhou o apoio da ideologia do racismo cientifico desembocando, assim, no chamado Darwinismo social. 
Ela está embasada na teoria de Darwin da seleção natural aplicada a  sociedade ou a raça humana. Combinando-se essas duas ideias, a conclusão (racista-eugenista) a  que se chegou foi de que o branco possuía o sangue superior e inevitavelmente iria clarear as demais raças.
O antropólogo e médico carioca e diretor do Museu Nacional, João Baptista de Lacerda (1846-1915), foi um dos principais expoentes da tese do embranquecimento no Brasil do inicio do sec. XX, tendo participado, em 1911, do Congresso Universal das Raças, que ocorreu em Londres, UK. 

Esse congresso reuniu intelectuais do mundo todo para debater o tema do racialismo e da relação das raças com o progresso das civilizações. Baptista de Lacerda apresentou no evento o artigo “Sur les métis au Brésil” (“The Metis, or half-breeds, of Brazil” Os mestiços ou meia-cruza (híbridos) do Brasil).

O texto apresentado por Lacerda tratou da miscigenação racial no Brasil e do processo de branqueamento da população mestiça. Logo no início de sua conferência, Lacerda chamou a atenção para o fato de que, tanto do ponto de vista social quanto os portugueses teriam feito de suas escravas as suas concubinas, permitindo que o “intercurso sexual” entre brancos e negros se tornasse natural no Brasil e, em consequência, que a população mestiça crescesse rapidamente (Lacerda, 1911a, p. 377-378). De acordo com Lacerda, o cruzamento entre negros e brancos, ao contrário da opinião de muitos escritores, não teria gerado um mestiço de qualidade inferior no Brasil. 
Embora fossem descritos como moralmente voluptuosos e pouco afeitos ao trabalho braçal, Lacerda entendia que os mestiços do Brasil eram “intensamente inteligentes” e teriam “disposição para as letras, para a ciência e para a política”. Muitos deles teriam, inclusive, gerado descendentes que se tornaram proeminentes políticos, poetas, pintores, escultores, músicos, advogados, médicos e engenheiros, com reconhecido domínio técnico e habilidade profissional (Lacerda, 1911a, p. 380-381). No final da apresentação, Lacerda enunciaria sua principal tese acerca do resultado da miscigenação no Brasil. Segundo ele, o cruzamento racial tenderia a fazer com que negros e mestiços desaparecessem do território brasileiro em menos de um século, ou seja, antes mesmo do final do século XX, possibilitando o branqueamento da população. 
Em sua compreensão, esse processo deveria ocorrer por três motivos principais. Em primeiro lugar, devido à “seleção sexual”, os mulatos procurariam sempre encontrar parceiros que pudessem “trazer de volta seus descendentes para o tipo branco puro”, removendo os aspectos característicos da “raça negra”, inclusive o atavismo. Além disso, a crescente entrada de imigrantes europeus no país, somada aos problemas sociais, e o abandono que os negros foram obrigados a enfrentar desde a abolição, traziam a perspectiva futura de uma nação inteiramente branca. E num tom comemorativo, concluía que o Brasil caminhava para ser “um dos principais centros da civilização do mundo”. Em poucas décadas, continuava ele, o país seria “o grande mercado de riquezas da América, explorando todas as indústrias, empregando todas as facilidades de transportes para o comércio estrangeiro e intracontinental, com uma ampla e ativa população empreendedora, que ocupará as grandes cidades da costa e se estenderá pelo interior e pelos longos rios da América do Sul” (Lacerda, 1911a, p. 382). Como se pode perceber, os argumentos defendidos por Lacerda estavam em íntima sintonia com as estratégias do governo brasileiro de promover o país na Europa. O esforço da política internacional brasileira no início do século XX consistia em "vender" uma imagem positiva sobre o país, visando atrair imigrantes e investimentos estrangeiros para modernizar o comércio e expandir a economia nacional. Não por coincidência, o jornal “Le Brésil”, publicado em Paris, veiculou em suas colunas a íntegra do trabalho apresentado pelo diretor do Museu Nacional (Souza & Santos, 2012)
Apesar de defender a miscigenação em seu artigo e de afirmar que a miscigenação seja positivo, ele estava supondo que os fatores ou traços constantes na raça branca seriam em algum sentido superiores e sobrepujariam as outras raças, terminando por se impor sobre as demais. 

Esse pensamento fica claro em um outro trecho do referido artigo, no qual afirma: “A população mista do Brasil deverá ter pois, no intervalo de um século, um aspecto bem diferente do atual. As correntes de imigração europeia, aumentando a cada dia mais o elemento branco desta população, acabarão, depois de certo tempo, por sufocar os elementos nos quais poderia persistir ainda alguns traços do negro.” Há nesse trecho a clara determinação de suprimir o elemento negro da jovem nação brasileira.


HOJE

Vemos um padrão repetitivo na sociedade brasileira, onde as elites e a classe média são preconceituosas, escravocratas, conservadoras, ignorantes, sem nenhuma visão de nação, nem de altruísmo em relação ao menos favorecidos e com uma ideia  de meritocracia absurda e sem sentido. 
Para termos uma ideia da presença marcante, infame e efetiva dessa instituição, mesmo nos dias de atuais, (2016) o Brasil foi o primeiro país da América a ser condenado em corte internacional, pelo trabalho compulsório e o tráfico de pessoas. A corte internacional considera a escravização de seres humanos um crime contra a humanidade. Mesmo a legislação sendo clara na definição desse desse ato delituoso. O que nos dá uma boa ideia de que ainda essa instituição está presente e é ainda pensada como uma alternativa ao trabalho assalariado nas mente de uma grande parcela da população. 

Há apenas dois anos atrás (2017), com uma portaria publicada no Diário Oficial, o Ministério do Trabalho do governo Michel Temer (PMDB) desmontou, de uma só vez, todas políticas de combate à escravidão existentes no Brasil. Políticas  públicas construídas a duras penas nos últimos treze anos, que tinham o claro objetivo de inclusão e de restituir a dignidade aos trabalhadores escravizados. Esse documento publicado no Diário Oficial reduz o escopo da lei,  altera o conceito de trabalho escravo, e dificulta a fiscalização em todo o território nacional. Eis aí, publicado no DOU mais um indício claro de que essa instituição chamada escravidão moldou e contínua moldando o que somos hoje. De acordo com as novas regras, só pode ser considerado trabalhador em situação de escravo aquele que é impedido de ir e vir pelo empregador. Ou seja, “condições degradantes” foram excluídas do conceito, mesmo o trabalhador executando atividades em troca de alimento e moradia. Os empregados resgatados, que tinham direito a seguro-desemprego, serão reavaliados conforme a nova definição do termo. Estes exemplos são de uma clareza cristalina do que nos forma como nação. Uma nação que ainda repousa na instituição da escravidão. 
Todos esses dados nos mostram que no Novo Mundo a escravidão era uma instituição amplamente distribuída desde o norte até o sul e no Brasil ainda continua, dado o pouco tempo da abolição dos escravos.
reforma trabalhista, votada no Senado Federal, banaliza o trabalho escravo e dificulta o seu combate, de acordo com especialistas que atuam na erradicação desse crime no país.
Ainda que a reforma não altere a forma como o trabalho escravo é caracterizado pela legislação, o texto traz várias mudanças na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) que afetam o combate ao crime. Entre elas, estão a ampliação da terceirização, a contratação de autônomos de forma irrestrita, e a possibilidade de aumentar a jornada de trabalho e de reduzir as horas de descanso.

Com a chegada de Bolsonaro a presidência da república temos verificado que esse resíduo racista, escravocrata e conservador, reapareceu de forma assustadora em todos os escalões da administração federal. Além disso, seu ministro da economia tem se mostrado um "entreguista" vendendo tudo que foi acumulado nos últimos 30 anos e um rentista que trata o Estado brasileiro como uma empresa privada. Qualquer pessoa de bom senso pode ver para onde isso levará a população brasileira. E estamos vendo ao vivo o que esta acontecendo no Chile de hoje. Nós seremos o que o Chile é hoje.  
(03/XII/2019)


BIBLIOGRAFIA

SOUZA, Jessé. A elite do atraso. Edição revista e ampliada: Da escravidão a Bolsonaro. Rio de Janeiro, Estação Brasil, 2019.

SENNETT, Richard. A corrosão do caráter. Consequencias pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro, Editora Record, 1999. 

ECO, Umberto. O fascismo eterno. Rio de Janeiro, Editora Record, 2018.

SILVA, Juremir Machado da. 1964. Golpe midiático - civil - militar. Porto Alegre, Editora Sulina, 2018. 


SOUZA, Vanderlei Sebastião de & 
SANTOS, Ricardo Ventura. O Congresso Universal de Raças, Londres, 1911: contextos, temas e debates. Bol. Mus. Para. Emílio Goeldi. Cienc. Hum., Belém, v. 7, n. 3, p. 745-760, set.-dez. 2012

http://www.afoiceeomartelo.com.br/posfsa/Autores/Neto,%20Jose%20Paulo/O%20que%20e%20marxismo.pdf

https://escolakids.uol.com.br/historia/as-consequencias-do-fim-da-escravidao-no-brasil.htm

https://congressoemfoco.uol.com.br/eleicoes/mourao-diz-que-pais-herdou-indolencia-do-indio-e-malandragem-do-negro/

https://www.portalsaofrancisco.com.br/historia-do-brasil/expedicoes-colonizadoras




ARTE AGORA 

Selfportrait. 
Nicolas, serigrafia sobre papel craft , 2017.





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