Cenas de Verão de 85.



No verão de 1985, em um locação idílica na Normandia, Alexis (Alex) (Félix Lefebvre), um jovem de 16 anos fascinado pela morte, sai com o barco a vela de um amigo, para comemorar as férias, numa tarde de ensolarada. Ele tira a roupa e recosta-se no barco e acaba dormindo. Uma tempestade inesperada se forma, fazendo com que o barco vire e ele se encontra em um péssimo momento, sozinho em mar aberto no começo da tempestade, sem saber como desvirar o barco e sem ninguém para pedir ajuda. Ao longe ele avista um pequeno barco que navega em sua direção, é David (Benjamin Voisin) de 18 anos e um mês. Um jovem extremamente carismático, decidido, afetuoso que vive intensamente cada momento da vida, que o salva do que poderia ser uma tragédia.
Entre os dois rapazes nasce, naquele momento, uma tumultuada história de amor, conduzida por David que parece ter encontrado o amor de sua vida, dando claras razões para que se pense assim.
Após esse incidente, eles ficam muito próximos e Alexis acaba trabalhando na loja da família de David, gerenciada por sua mãe viúva. Os dois acabam desenvolvendo um relacionamento apaixonado tórrido, em segredo. David dá a entender que Alex é o amor de sua vida o Sol de suas manhãs, e faz tudo para reforçar essa imagem. A história prossegue com David tornando Alexis o centro de sua vida, comprando presentes para ele, levando-o em aventuras de moto pelo litoral, ao parque, no cinema e em baladas noturnas.
Esses momentos terminam, instantaneamente quando David encontra uma garota na praia, Kate, começa a flertar com ela abertamente mesmo na frente de Alex. Kate uma garota inglesa que passa férias na cidade. (Pausa): David conhece Kate na praia e naquele mesmo instante começa a flertar com ela, assim, inicia um breve caso de amor com Kate, deixando Alexis totalmente de lado, esquecendo até de sua presença, despertando nele um sentimento de ciúmes.
Depois do passeio de barco dos três, no outro dia, Alexis então, confronta David sobre o que está acontecendo, David reage de forma inesperada, dizendo que tudo estava bem, ambos estavam felizes, e q esse era o problema, mas Alex quer uma explicação do porque, David então diz enfaticamente que está cheio dele, que ele não pertence a ninguém, que ele não tem dono, e que ele quer experimentar mais, viver mais com outras pessoas.
Eles brigam e Alex joga uma pedra que estava em uma das prateleiras em David. Por sorte, ele desvia, mas Alexis derruba prateleiras na loja e sai correndo, pega a bike e volta desolado para casa, e se joga na cama inconformado por perder o amigo dos sonhos, o amor da vida dele. Ao levantar, mais tarde, ele fica sabendo, pela tv David se envolveu em um acidente com a moto e perde a vida. Alex, sente-se culpado, por supostamente ter causado a morte daquele que fora seu maior e mais intenso amor.
A mãe de David não quer ver nem falar com Alexis, a quem ela culpa pela morte de seu único filho. Alexis então pede a ajuda para Kate, a única que conhece ambos garotos. Assim, ele compartilha a história que viveu com David com Kate e implora sua ajuda para que possa ver David uma última vez. Kate tem um amigo que trabalha no necrotério da cidade, e ambos vão ver o corpo de David uma última vez. Disfarçado de mulher, Alexis vai junto com Kate para o necrotério, mas é descoberto e forçado a fugir após ter um surto e tentar abraçar David.
Antes de morrer, David e Alexis fizeram um pacto (ideia de David), ambos prometem que, aquele morresse antes, o outro teria que dançar sobre seu túmulo e agora Alexis se sente obrigado, devido a culpa que sente, a cumprir esse pacto. Na primeira vez que Alexis vai ao cemitério ele tem um outro surto e começa a cavar o solo da sepultura com as próprias mãos, mas volta a si e vai embora. Ao chegar ele lembra que esqueceu de dançar sobre a sepultura e então volta levando um walkman, para dançar sobre a sepultura do amado. É uma cena linda, comovente, de uma perfomance ao som de “Sailing” de Rod Stwart. Seus seus movimentos transcendem tempo e ao espaço, ao desejo, à perda e cheia de um erotismo misturado com dor, a dor de uma perda absoluta. Alexis é preso pela polícia.
Graças a uma assistente social e seu professor de literatura, Alexis consegue escrever sua história e assim recebe uma sentença mais branda do juiz, em seu julgamento.
Enquanto cumpria sua pena de 140 h de serviço social, juntando lixo na praia, Alexis reencontra o rapaz que estava bêbado e que ambos (Alexis e David) resgataram de ser atropelado por carros na cidade e os dois saem juntos no barco de David, o Calypso, iniciando assim uma nova amizade ou uma novahistória de amor.




































“Foi a noite mais bela da minha vida, e foi com meu amigo David.”
Na adolescência tudo se torna mais intenso, interessante e dramático. A mensagem que o filme quer passar com a obsessão de Alex pela morte e sua paixão avassaladora de 6 semanas por David é a de que todos amamos a imagem que temos do outro, não amamos o outro real, com seus defeitos, erros, e idiossincrasias, mas amamos uma imagem edulcorada do outro, uma ideia que fazemos do amor. O amor por si só não pode ser abarcado ou limitado, sendo portanto sublime, i.e., uma experiência transcendental.
A história de Alex tem muito de sua busca por explicações razoáveis para vida e sua obsessão pela morte, pela ideia da morte, não dos cadáveres, o resíduo q sobra da morte.
Assistindo sentimos a agonia e paixão do protagonista, é impossível não se identificar com o personagem, suas dores, seu desejo, seu amor e nisso o filme cumpre seu papel aos moldes de uma tragaria grega.
Claro que tudo acontece com uma rapidez proporia dos anos 1980, e tudo é intenso demais e rápido demais. Ao vivenciarmos a história narrada já estamos esperando a tragédia que é anunciada nas cenas iniciais. O que deduzimos nas cenas iniciais de um jovem sendo conduzido por um policial pelos corredores até sentar e esperar ser chamado para algo (prisão, julgamento?) é que Alex tenha mesmo cometido um homicídio e portanto é um criminoso.
Ao longo do desenrolar da narrativa dessa história de amor de verão, somos conduzidos em uma direção, e nosso sentimento de admiração pelo protagonista se mescla com a repulsa que temos contra quem mata outra pessoa. Mas nada disso é a verdade.
A verdade é que morre o amor recém nascido entre os dois garotos e o sentimento de culpa e desejo que toma conta do protagonista se mistura a um amor ideal que existe apenas no mundo das ideias. Desejo que nos conduz as lágrimas quando ele dança sobre a sepultura do amado na escuridão da noite.
Espero que você se emocione, reflita e se coloque no lugar do outro (do protagonista (do grego πρωταγωνιστής, protagonistes, de πρῶτος, prótos, primeiro e ἀγωνιστής, agonistès, agonista, ator, lutador; ἀγών, ágón, disputa, exposição, combate) ou do antagonista (do grego: ἀνταγωνιστής, antagonistes, oponente, competidor, rival, é um personagem, grupo de personagens, ou uma instituição, que representa a oposição contra a qual o protagonista tem de lutar), ou de ambos para então experimentar todos os sentimentos que a história nos coloca.
A meu ver existem dois protagonistas que lutam cada um a sua maneira contra o antagonista que é o amor em si, um limiar que ambos tem que cruzar. Alexis se entrega totalmente a esse amigo que em sua visão representa o supremo sentimento que ele procurou todo tempo, enquanto David nunca cruza esse limiar ele se deleita em seduzir e amar intensamente alguns, seja homem ou mulher, e quando percebe que o outro alcançou o que buscava ele se desinteressa e parte para outra conquista.
Em algum momento David soube que Alexis era seu verdadeiro amor mas mesmo assim, disse o que disse, e fez o que fez, e talvez por isso o seu final tenha sido trágico.
A sensação de perda e a dor da perda bem como sua racionalização e a busca (talvez) por voltar atrás o levou ao desfecho fatal.
Longe de ser um juízo moral, dicotômico de bem vs mal, de belo vs feio, sublime vs limitado, ele fica sempre no limiar de cruzar esse portal. Talvez esse portal tenha sido cruzado de maneira definitiva quando ele perde a vida ao sair atrás de Alexis.
Mas há todas as possibilidades levantadas pela razão de Alex que não nos dá elementos para saber com certeza se ele saiu para recuperar o amor de sua vida ou para comemorar que tinha se livrado de mais um…
O filme também traz a tona como cada um de nós lida com nossos próprios sentimentos de amor, idealização do outro, paixão, perda, morte e luto, e como se descobrir no mundo e viver essa descoberta é inexorável, profundo, intenso e sublime como uma categoria estética.
Essa experiência transcendental do amor, inspira uma espécie de respeito diante dessa força que nos é própria e que Kant a nomeia como liberdade. A liberdade buscada por David e que encontrou na tragédia final, e que Alexis intuiu e materializou dançando sobre o túmulo de seu amado.
Fonte
Verão de 85: Francois Ozon, Félix Lefebvre, Benjamin Voisin, Jean-Claude_Moireau_2020_