INÍCIO

10 março 2025

SAPATEIRO, NÃO VÁ ALÉM DO SAPATO

NE SUTOR ULTRA CREPIDAM
Não (vá) sapateiro além das sandálias

I.

Ne sutor ultra crepidam ou Sutor, ne ultra crepidam, inicialmente registrada como: ne supra crepidam sutor iudicaret, é uma expressão em língua latina que significa, literalmente, “sapateiro, não [vá] além da sandália (sapato)”, usado para alertar as pessoas a evitarem emitir ou transmitir alguma opinião, ou julgamento que comporte conhecimento além de sua especialização.

Casa de Giorgio Vasari ( -, em Florença. Apeles está escondido atrás de sua pintura, ouvindo os comentários dos apreciadores de sua obra.

Origem
A frase está registrada no Livro 35 da Naturalis Historia Plínio, o Velho (23-79 d.C), como ne supra crepidam sutor iudicaret (“um sapateiro não deve julgar além de sua sandália, ou sapato”), “Que o sapateiro não julgue além da sandália”.
Segundo Plínio, essa expressão é atribuída à Apeles de Kos pintor grego do século IV a.C (370-306 a.C).

Supostamente, Apeles, depois de terminar uma obra, colocava as novas pinturas em exibição pública e se escondia atrás delas para ouvir e agir de acordo com sua recepção. 
Em uma ocasião, um sapateiro (em latim sutor) notou que uma das sandálias (crepides, a) em uma pintura tinha o número errado de tiras. Apeles prontamente corrigiu a forma, retocando a pintura. 

O sapateiro ficou muito feliz quando, no outro dia, tendo retornado, encontrou o erro corrigido. Animado com o fato de que sua observação produziu resultado, julgou-se no direito de ampliar sua perspectiva e, assim, apontar outros (supostos) defeitos que ele também considerou presentes na pintura. Começou, então, a criticar as pernas e o cabelo da figura pintada. 

Nesse momento, Apeles, em sua justa reserva, sai de seu esconderijo, afinal, ele era o autor da obra, ele a desenhou e a pintou, a obra era dele; indignado, aconselhou-lhe que “ne supra crepidam sutor iudicaret”, “um sapateiro não deve julgar além do sapato”, i.e., o sapateiro devia limitar suas opiniões aos sapatos e/ ou sandálias, objetos de seu conhecimento, e não além, conselho este, que, tendo Plínio ouvido, registrou, e assim, tornou-se um dito proverbial desde então.

O ensaísta inglês William Hazlitt cunhou o termo “ultracrepidanismo”, como usado pela primeira vez publicamente numa animosa carta para William Gifford, o editor de A Análise Trimestral:

1819 HAZLITT Letter to W. Gifford Wks. 1902 I. 368. (…)You have been well called an Ultra-Crepidarian critic”. (…) Oxford English Dictionary 2nd ed.


II.

A expressão de Apeles, narrada por Plínio, foi incorporada pelos romanos e transformou-se em provérbio para se referir a todos aqueles que opinavam sobre assuntos diante dos quais não tinham domínio. Mais tarde no século XVIII, o escritor inglês Willian Hazlit (1778-1830) cunhou, a partir da expressão de Apeles, o termo “ultracrepidanismo”. Termo este que é ainda hoje usado.

ULTRACREPIDARISMO

Segundo Costa (2022), “a expressão “sutor, ne ultra crepidam” descreve o comportamento daqueles que se sentem inclinados a opinar, sem condições objetivas, sobre os mais diversos temas. 

Por que isto é relevante hohe? É relevante porque, como mostraremos, um dos principais problemas que enfrentamos durante a pandemia de Sars-Cov-2 (COVID-19) e desde então temos enfrentado e tem sido um método empregado pela extrema direita, a saber, a desinformação e, por consequência, o negacionismo, estes tem sua origem nesse tipo de comportamento ultracrepidário.” 

Para isso, mostraremos que a desinformação e o negacionismo fazem parte de um contexto mais amplo no qual há várias engrenagens funcionando simultaneamente. São estas engrenagens que, de certo modo, impulsionam as pessoas a serem ultracrepidárias, gerando, assim, o fenômeno que chamaremos de falsa paridade epistêmica. (Costa, 2022).

CONSTRUÇÃO DA DESINFORMAÇÃO 

Construção da desinformação segundo Costa (2022).

Começaremos com a definição de “falsa paridade epistêmica”.
A falsa paridade epistêmica ocorre quando alguém, mesmo não sendo especialista sobre um assunto, se sente encorajado a dar opiniões. O problema central não está propriamente no fato de alguém se sentir encorajado a emitir opiniões sem ter domínio sobre o assunto. E sim, este é o ponto central, está no fato daquele que emite as suas opiniões acreditar que aquilo que fala está em paridade com aquilo que um especialista diz. (Costa, 2022)
Em resumo, o problema da falsa paridade epistêmica descreve os casos nos quais um leigo acredita, de forma equivocada, que suas opiniões têm o mesmo peso informacional daquelas proferidas pelo especialista. Traduzindo para o contexto da pandemia, podemos, então, descrever os casos nos quais pessoas leigas acreditam que suas opiniões sobre o Sars-Cov-2 (suas formas de contágio, de tratamento, etc) teriam o mesmo peso informacional e rigor das opiniões proferidas pelos especialistas.(Costa, 2022).

O que poderia levar as pessoas acreditarem nesta 
falsa paridade epistêmica? 

Há várias causas, dentre essas variadas causas, todas elas complexas, chamaremos a atenção para a existência, por assim dizer, de algumas engrenagens da desinformação: distância epistêmica, grupos de aceitação e dissenso aparente.

Distância epistêmica 
Distância epistêmica refere-se ao fato de que, para certos assuntos, sobretudo àqueles que têm uma natureza técnica, há uma distância epistêmica entre o que o especialista diz e o que o leigo acredita. O especialista, a exemplo do infectologista, é aquela figura cuja afirmações são (ou deveriam ser) amparadas em evidências. Dessa forma, qualquer afirmação que o especialista profere o compromete, enquanto especialista, com uma base evidencial. O leigo, por outro lado, é alguém que além de não se comprometer com evidências, não domina as técnicas e práticas da ciência (ou do assunto técnico em questão). Há, naturalmente, uma distância epistêmica entre o especialista e o leigo. Aquilo que ambos dizem não pode, a rigor, ter o mesmo peso informacional, afinal, o compromisso que ambos assumem sobre o que é dito é diametralmente diferente

Quando há uma distância epistêmica e quando não há uma estratégia de divulgação científica, isto é, um modo eficiente e objetivo de explicar para o leigo aquilo que o assunto técnico exprime, ocorre então o fenômeno da aceitação de grupo

Aceitação de grupo
A aceitação de grupo diz respeito ao fato de que, se o leigo não orienta suas afirmações e informações naquilo que o especialista diz, porque não as compreendem, então, ele as orientará de alguma forma. 
Como? Possivelmente pelo grupo de aceitação (ou convívio) (grupos de WhatsApp, Facebook, Instagram, enfim redes sociais, propositalmente desregularas, programadas para obter engajamento e gerar dinheiro para as bigtechs. 
E este é o ponto. O grupo de aceitação (ou convívio) refere-se, como o próprio nome diz, ao convívio que as pessoas estabelecem entre si. Este convívio tende a ser fomentado com base em afinidades, inclusive ideológicas. Nesse sentido, o convívio de um grupo de leigos tende a ser com outros leigos, ou seja, com pessoas que também possivelmente não têm nenhuma formação ou educação científica. O que ocorre com isso, portanto, é que a existência do grupo orienta aquilo que os próprios membros acreditam e dizem. Se o grupo é formado por leigos que possuem posições distorcidas, elas serão mantidas e reafirmadas pelos testemunhos do próprio grupo. O especialista, neste caso, é alguém de fora do grupo que terá pouco ou nenhum impacto sobre os membros. Dentro dessa característica, há grupos que tem educação para entender mas opta por disseminar a desinformação, gerando o q se chama de “Fake News”, dentre desse grupo temos os políticos eleitos democraticamente que desacreditam do sistema eleitoral que os elegeu, políticos que produzem uma visão distorcida sobre assuntos que melhorariam a vida do trabalhador etc…

Soma-se a este fenômeno à existência de dissenso aparente, temos, então, as engrenagens da desinformação e do negacionismo. 

Dissenso aparente
O Dissenso aparente diz respeito aos casos nos quais se cria um dissenso sobre um tema. Este dissenso é aparente, pois, da perspectiva evidencial e do especialista (com base nos procedimentos da ciência, baseado em evidências robustas e corroborada pelos pares), não há motivos para ele ocorrer (Costa, 2022). 
Um exemplo recente que se tornou clássico, e claro como cristal, diz respeito ao uso de medicamentos notoriamente não comprovados para o tratamento da Sars-Cov-2 (Severe Acute Respiratory Syndrome CoronaVirus 2). 
O que significa medicamentos não comprovados? Significa que não há testes, experimentos randomizarmos, experimentos controlados, e experimentos de campo utilizando essa droga contra o tratamento da COVID-19). 
Esses medicamentos foram intensamente testados para outras doenças e são inócuos para o tratamento ou prevenção da COVID-19. E o que é pior, apresentam efeitos colaterais danosos ao organismo quando não prescritos de forma criteriosa para as patologias para as quais foram desenvolvidos.
A cloroquina e a hidroxicloroquiba são medicamentos extensamente utilizados para a prevenção e o tratamento da malária. E, da mesma forma, são medicamentos usados em doenças autoimunes como artrite reumatoide e lúpus eritematoso sistêmico, etc. Ou seja, são medicamentos consagrados para tratar uma doença causada por um protozoário, o Plasmodium falciparum (Plasmodium spp), e não para vírus, i.e., para patologias cujo agente não é um vírus. 

Ciclo do vírus SARS-CoV-2, modificado de Delfosse (2020).

Fonte da figura Delfosse (2020).

Mesmo que se façam todo tipo de teste para tentar comprovar sua ação contra agentes virais, não surgirá daí nenhuma corroboração da hipótese de que essas duas drogas e seus derivados dificultem, evitem, ou possam de alguma forma inibir a replicação do vírus Sars-CoV2. Essas drogas não podem dificultar a adesão do vírus ao receptor desse vírus nas células humanas e, por isso não evitam sua endocitose, em consequência não impedem sua replicação no citoplasma das células humanas. 

Órgãos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), e órgãos regionais oriundas de pesquisas sérias desenvolvidas por universidades mundo a fora, afirmaram reiteradamente, com bases em estudos, que medicamentos como Cloroquina são ineficazes no tratamento da Sars-CoV-2. Contudo, houve uma tentativa deliberada de se criar um dissenso sobre o tema com objetivos políticos. Este dissenso aparente reforça, da perspectiva do leigo, aquilo que ele e seu grupo de aceitação acreditam. Como consequência, há um afastamento da figura do especialista como fonte de afirmações confiáveis, fomentando, assim, o fenômeno da desinformação. (Costa, 2022).

Diante de tudo isso, a falsa paridade epistêmica, isto é, a ideia equivocada de que em alguns casos o que acreditamos pode estar em paridade com aquilo que o especialista diz, surge no contexto no qual diversas engrenagens estão operando simultaneamente
Neste contexto, o combate à desinformação é essencialmente um combate ao funcionamento dessas engrenagens. A desinformação e sua consequência, o negacionismo, não é um fenômeno isolado, restrito a indivíduos pontuais no seio da sociedade. Pelo contrário. Diz respeito à existência de grupos (de aceitação), formado essencialmente por leigos, que reforçam entre si suas crenças, afastando a figura do especialista como fonte de conhecimento e informação.

Fonte





(Continuará…)



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