A CHAMA COMO EMBLEMA DA RAZÃO
O fogo, chama ou a tocha, ao longo da história, tem sido um símbolo poderoso e multifacetado, representando desde a iluminação espiritual até o conhecimento e a razão. No contexto filosófico e cultural, a tocha ou a chama é frequentemente associada à luz que dissipa as trevas da ignorância, simbolizando a busca pelo entendimento e pela verdade. Esse simbolismo remonta à antiguidade, onde a tocha era um elemento central em mitos, rituais e representações artísticas.
Tocha (1)
O HOMEM E O FOGO
Embora as evidências do uso de fogo sejam escassas na arqueologia, há provas de material queimado datado de cerca de 1,5 milhão de anos atrás, afirma o artigo de John Gowlett (2016) publicado no “Philosophical Transactions of the Royal Society”. Assim como pesquisadores do Museu Nacional de História Natural Smithsonian, em Washington D.C., nos Estados Unidos, afirmam que a prática de cozinhar pode datar de há mais de 1,5 milhões de anos. No entanto, as primeiras lareiras ou fogões registrados têm cerca de 790 mil anos. Uma consulta na Enciclopédia Britannica (plataforma de dados voltada para a educação do Reino Unido) relata que as evidências indicam que a primeira utilização controlada do fogo ocorreu há pouco mais de 1,4 milhão de anos. Todavia, a Enciclopédia afirma que somente a partir de 7000 a.C. é que os humanos do período Neolítico desenvolveram técnicas para produzir fogo usando ferramentas produtoras de faíscas e fogo a partir da fricção (através do atrito de dois corpos combustíveis ou objetos orgânicos). Gowlett (2016) afirma que, apesar dos dados disponíveis, ainda há muito a ser estudado e descoberto sobre quando e por que o fogo foi utilizado pela primeira vez.
Almeida (2015) afirma que Heráclito de Éfeso (que viveu entre os anos 540 e 480 a.C.), um filósofo pré-socrático preocupado, em identificar um único princípio explicativo subjacente a todo o cosmos, propôs o fogo como o elemento do qual tudo se originou e ao qual tudo retornará, num processo infinito de desenvolvimento e de eterno retorno. O fogo era e é, na religião, um princípio de purificação, ou de destruição e de geração de poder, ou até mesmo um elemento identificado como uma das divindades do panteão.
O próprio Zeus, rei de todos os deuses, porta um nome cuja etimologia indica a palavra Dyeus, que provavelmente significava “luz”, “brilho”, “luminosidade”, “dia” ou “céu”. Por isto, também os pitagóricos, alguns anos antes de Heráclito, acreditavam que a alma, que tinha origem celestial, era um princípio ígneo, uma partícula do éter que ilumina o fogo divino (1). E Oliveira (2017) nos lembra que “no pensamento ocidental, a escuridão, a sombra e a cor preta assumiram representações simbólicas do mal, da desgraça, da perdição e da morte”; ora, por simetria, o oposto é o bem, a graça, a salvação e a vida. Eis as imagens associadas ao fogo, a chama, a luz.
Uma conceituação presente e comum em quase todas as mitologias é a coincidência de opostos, ou coincidentia oppositorum em latim, ou qualidades contraditórias, é a ambivalência da divindade. É uma ideia que aparece em várias tradições filosóficas, espirituais e místico-religiosas.
O filósofo grego Heraclito usava o termo enantiodromia para se referir à coincidência dos opostos. A palavra “enantiodromia” foi aparentemente cunhada por Stobaeus, Joannes Stobaeus, grego antigo: Ἰωάννης ὁ Στοβαῖος; que viveu no século V d.C., de cidade de Stobi, na Macedônia, foi o compilador de uma valiosa série de extratos de autores gregos. Apesar de Stobaeus supostamente ter cunhado a palavra, o conceito também está implícito nos escritos de Heráclito mil anos antes.
Heráclito formulou-o, Panta rhei, πάντα ρεί, tudo flui, muda e se transforma no seu oposto. O calor vira frio, o dia vira noite, o verão vira inverno, a vida vira morte. Entramos no mesmo rio e ainda assim não somos os mesmos; nós somos e não somos. Depois disso, também é impossível determinar finalmente o que é bom e o que é mau. E qualquer julgamento sobre isso é apenas uma ilusão.
Da vida nasce a morte, da morte a vida, da juventude a velhice, da velhice a juventude, do sono, vigília e da vigília, sono, a corrente de gerar e perecer nunca para. (Zeller. Die Philosophie der Griechen. I. 1856, pág. 456,2.
O próprio Heráclito expressará essa ideia da seguinte maneira:
A natureza também tende ao contrário, e é disto e não do idêntico que obtém o acorde. (Diels. Die Fragmente der Vorsokratiker. 1912).
No fragmento DK 126, por exemplo, Heráclito diz: “coisas frias esquentam, coisas quentes esfriam, coisas úmidas secam e coisas ressecadas ficam úmidas.” O conceito também parece estar implícito em outros de seus ditos, como “a guerra é o pai de todos, o rei de todos” (fr. 53), “eles não sabem que o que difere/oposto concorda consigo mesmo; a harmonia é reflexiva (παλίντροπος, palintropos, usado para um arco composto, ou “em tensão reflexiva”), como o arco e a lira” (fr. 51). Nesses trechos e em outros, a ideia da coincidência dos opostos é claramente articulada no estilo de enigma aforismático característico de Heráclito, assim como o movimento dinâmico de vai e vem entre os dois, gerado especialmente pela oposição e pelo conflito.
A palavra usada por Heráclito foi Enantiodromia, do grego, ἐναντιοδρομία, de ἐναντίος, enantios, opostos e δρόμος, dromos, corrida, pista de corrida. Heráclito exemplifica com um arco e flecha, em que ao puxar a corda do arco em uma direção a flecha é lançada na direção oposta, ou com um objeto que quanto mais forte é atirado, lançado para cima, mais forte é o impacto que causa ao retornar. Assim, o retorno do oposto da força seria uma lei natural do mundo.
Assim, Deus é compreendido como luz e trevas, bem e mal. Nas mitologias, a compreensão é que o princípio do mal é o lado oposto do princípio do bem, a sombra.
A sombra é, naturalmente, aquilo que está excluído da luz. Jung (1972, p. 155) dirá que “o lado claro representa o calor, o seco, o princípio do fogo, o sul; o lado escuro é o princípio frio, negro, úmido, o norte”.
Estas representações simbólicas compreendem os estilos de sensibilidade, “ou seja, o conjunto das imagens e relações de imagens que constitui o capital pensado do Homo sapiens (...) o grande denominador fundamental onde se vêm encontrar todas as criações do pensamento humano”.
Inicialmente, a pessoa tem apenas uma visão caótica, não-diferenciada, de si mesma. Com o desenvolvimento dos lados bom e mau vão-se distinguindo gradualmente um do outro. Em geral, a pessoa reprime o lado mau, provocando o crescimento de uma sombra em seu inconsciente, levando Munanga (1998, p. 56) afirmar que “o racista projeta na vítima a sua própria agressividade”, podemos dizer: o seu lado obscuro, a sua falta de luz, a sua falta de razão. A luz, então, e por extensão a chama, o fogo, a tocha, representa a centelha de tudo o que é positivo, ordenado e racional.
Na mitologia grega, por exemplo, a tocha está ligada à figura do Titã Prometeu, que roubou o fogo dos deuses para entregá-lo aos humanos. O fogo, nesse contexto, não era apenas uma fonte de calor e sobrevivência, mas também um símbolo do conhecimento e da capacidade humana de transformar o mundo através da razão. Prometeu, ao desafiar os deuses, tornou-se um ícone da rebeldia intelectual, da busca pelo progresso, da empatia e da cooperação.
No Iluminismo, movimento filosófico e cultural do século XVIII, a tocha foi retomada como um emblema da razão e da ciência. Filósofos como Voltaire, Rousseau e Kant defendiam a luz da razão como o antídoto para a superstição, o dogma e a tirania. A tocha, nesse período, passou a representar a capacidade humana de questionar, investigar e compreender o mundo de forma crítica e autônoma.
A famosa pintura “A Liberdade Guiando o Povo”, de Eugène Delacroix (abaixo), embora não retrate diretamente uma tocha, captura o espírito de iluminação e libertação que o símbolo carrega.
Ferdinand Victor Eugène Delacroix (1798 - 1863).
Delacroix retratou a Liberdade, como figura alegórica de uma deusa e como uma robusta mulher do povo. O povo onde todos são iguais. O monte de cadáveres funciona como uma espécie de pedestal, do qual a Liberdade se lança, descalça e com o peito desnudo, desvelado, da tela para o espaço do espectador. A meu ver a mãe e a origem da liberdade é a igualdade de todos, é da igualdade que nasce a liberdade. A liberdade usa o barrete frígio (território central da Anatolia, Türkiye atual) que se tornara símbolo da liberdade. Ela segura pelo mastro uma bandeira tricolor, que ocupa o eixo médio da tela.
A DEUSA ATHENA
Além de tudo isso a tocha é um elemento central em cerimônias e eventos que celebram o conhecimento e a união entre os povos. Um exemplo notável é a Tocha Olímpica, que, desde os Jogos da Grécia Antiga, simboliza a paz, a união e a excelência humana. A chama que percorre o mundo antes de cada edição dos Jogos Olímpicos é um lembrete da capacidade humana de superar limites e buscar a harmonia entre os povos através do esforço coletivo.
Assim, a deusa Atena também pode ser evocada na luz que emana da chama da tocha, sendo a luz o emblema da razão, do conhecimento, da estratégia e diplomacia, atributos por excelência da Deusa.
Na literatura e na arte, a tocha também aparece como uma metáfora para a transmissão do conhecimento. A ideia de “passar a tocha” sugere a continuidade do aprendizado e a responsabilidade de cada geração em preservar e expandir o saber acumulado. Essa imagem reforça a noção de que a razão e o conhecimento são bens preciosos que devem ser cultivados e compartilhados.
Segundo Magalhães (2015), em seu artigo para “O Globo”,a chama acompanha os Jogos Olímpicos desde a antiguidade. Mas, curiosamente, a Grécia antiga jamais organizou uma competição antecedida pelo revezamento de tochas, como ocorre na Era Moderna desde Berlim, em 1936.
Segundo a mitologia grega, o primeiro portador da chama foi o Titã Prometeu, que roubou o fogo de Zeus para entregá-lo à humanidade. Zeus era o patriarca dos deuses do Olimpo. Como vingança, ele acorrentou Prometeu ao Monte Cáucaso, onde deveria permanecer por 30 mil anos. Como parte do castigo, Zeus enviava uma águia todos os dias para bicar o fígado de Prometeu. O titã acabou sendo libertado por Hércules.(Magalhães, 2015)
O mito fez com que o fogo ganhasse status de elemento sagrado, e esta é a razão pela qual tochas eram mantidas acesas nos templos. Em Olímpia, onde eram disputadas as Olimpíadas da Antiguidade, uma chama ficava acesa, e sacrifícios eram feitos em honra a Zeus, no templo de Hera. O competidor que ganhasse uma corrida até o local onde se encontravam os sacerdotes recebia como prêmio o direito de transportar a tocha, e acender a chama do altar do sacrifício. (Magalhães, 2015)
Embora não houvesse um revezamento de tochas nas Olimpíadas da Antiguidade, que começaram em 776 a.C., a troca de condutores ocorria em festas religiosas, principalmente nos eventos em homenagem a deusa Atena, quando havia corridas de revezamento com o objeto.
As provas cobriam um percurso de mil metros, entre a muralha da Acrópole e o altar de Prometeu. Os competidores se posicionavam em cinco grupos de 40 pessoas, cada um. (Magalhães, 2015). “Postados a uma distância de 25 metros um do outro, o desafio era correr com uma tocha acesa e passá-la ao companheiro de revezamento sem que ela se apagasse. A vitória pertencia ao grupo cujo último corredor chegasse primeiro ao altar com a tocha acesa”, explica o estudo do Departamento de Linguística, disciplina de Língua e Literatura Grega da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, de Araraquara (SP).
Nas Olimpíadas modernas, o uso de tocha foi retomado nos Jogos de Amsterdã (1928). Mas, só em 1936 (Berlim), as chamas usadas na pira olímpica começaram a vir da Grécia. A cerimônia de acendimento atual conta com atrizes vestidas de sacerdotisas gregas, numa tentativa de reproduzir as cerimônias da antiguidade.
A chama sagrada da tocha olímpica é acesa em frente as ruínas do templo de Hera.
A BUSCA PELA CHAMA PURA
A chama é acesa em frente às ruínas do templo de Hera. O objetivo é obter uma chama considerada “pura”. Uma “sacerdotisa” coloca uma tocha num espelho parabólico que concentra raios de luz do sol até que as chamas sejam acesas, anunciando a realização de uma nova edição das Olimpíadas. As demais chamas são colocadas em lanternas. (Magalhães, 2015)
Em seguida, a chama é transferida para uma urna, que é levada até o local do antigo estádio. Aí, a chama é usada para acender a tocha olímpica, transportada pelo atleta no primeiro percurso, que conduzirá a chama ao longo do trajeto até o estádio onde se realizam os Jogos. (Magalhães, 2015)
O francês Pierre de Frédy (1863-1937), conhecido como Barão de Coubertin, entrou para a história ao conceber os princípios dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, participando da organização da primeira edição em Atenas (1896). Mas na história do movimento olímpico moderno existem muitos outros personagens que ajudaram a transformar o evento num grande espetáculo, como a cerimônia de revezamento da tocha. Os conceitos para a criação do revezamento têm vários responsáveis. Entre esses personagens, encontram-se o arquiteto holandês Jan Wills (1891-1972) e o alemão Carl Diem (1882-1962). (Magalhães, 2015)
Ao conceber o estádio olímpico de Amsterdã (em funcionamento até hoje) para as Olimpíadas de 1928, Wills resolveu construir a pira para manter uma chama acesa em referência ao evento. A pira também foi desenhada por ele, tendo sido acesa na cerimônia de abertura e apagada no encerramento da festa. Na época, um funcionário da empresa de eletricidade de Amsterdã foi até Olímpia buscar a chama para acendê-la no estádio. (Magalhães, 2015)
ACENDIMENTO DA TOCHA
Ainda não havia um programa de revezamento da tocha. Em 1932, durante os Jogos de Los Angeles, uma tocha também foi acesa no Estádio Olímpico, mas seguindo a mesma concepção da edição de Amsterdã. No encerramento, foi lembrada uma citação do Barão de Coubertin: “Que a tocha olímpica siga o seu curso através dos tempos para o bem da humanidade cada vez mais ardente, corajosa e pura”. (Magalhães, 2015)
No mito grego, Prometeu roubou o fogo de Zeus e o deu aos humanos. Esse ato desafiou a autoridade de Zeus, rei dos deuses, que castigou Prometeu, exemplarmente.
Como Prometeu roubou o fogo?
Prometeu invadiu a oficina de Hefesto e Atena no Monte Olimpo, esperou que Hélios, o deus do Sol, surgisse no horizonte acendeu uma tocha no calor do carro do Sol.
Desceu o monte e levou o fogo aos humanos.
Como Zeus castigou Prometeu?
Ordenou que Hefesto pregasse Prometeu ao monte Cáucaso.
Mandou uma águia para devorar o fígado de Prometeu, que tinha a capacidade de se regenerar a cada noite.
O que o fogo trouxe aos humanos?
A luz da civilização e da esperança.
A possibilidade de moldar os metais em ferramentas e utensílios. A possibilidade de ler a noite e em locais escuros. A possibilidade de criar armas mais perigosas e letais.
A possibilidade de criar vasos para carregar água.
A possibilidade de cozinhar e assar a comida.
A possibilidade de aquecer-se à beira das chamas e afugentar predadores.
O que o mito de Prometeu representa?
O mito de Prometeu representa a sabedoria humana conquistada pelo trabalho, pela dor e sofrimento.
Em resumo, a tocha, como símbolo da razão, encapsula a jornada humana em direção à iluminação intelectual e moral. Ela representa a luta contra a ignorância, a defesa da liberdade de pensamento e a crença no poder da razão para transformar indivíduos e sociedades. Seja na mitologia, na filosofia ou na cultura contemporânea, a tocha continua a brilhar como um farol que guia a humanidade em sua busca pela verdade, pela justiça, pela democracia.
Fonte
1. ALMEIDA. João José R.L. de. A luz como metáfora na Teologia e na Filosofia. Cienc. Cult. vol.67 no.3 São Paulo July/Sept. 2015.
2. HESÍODO. Teogonia: A Origem dos Deuses. Tradução de Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 1995.
2. KANT, Immanuel. Resposta à Pergunta: O Que É o Iluminismo?. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1985.
3. DELACROIX, Eugène. A Liberdade Guiando o Povo. Pintura a óleo, 1830. Museu do Louvre, Paris.
4. COURIER, Jean-Pierre. A Tocha Olímpica: História e Significado. Paris: Editions du Sport, 2008.
5. VOLTAIRE. Cândido ou O Otimismo. Tradução de Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, 2009.
6. OLIVEIRA. J. Moreira de. A LUZ CONTRA AS TREVAS: O MAL NAS MITOLOGIAS COMO RAIZ SIMBÓLICA E IMAGINÁRIA DO ETNOCENTRISMO. Revista Memorare, Tubarão, SC, v. 4, n. 2 esp. dossiê II, p.138-164 maio/ago. 2017.







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