DEONTOLOGIA
A deontologia é uma área da filosofia que estuda os deveres e a ética profissional, especialmente no contexto das normas e princípios que regem a conduta de indivíduos em determinadas profissões.
A palavra Deontologia vem do grego δέον, deon, dever, obrigação + λόγος, logos, ciência, na filosofia moral contemporânea, é uma das teorias normativas, segundo a qual as escolhas são moralmente exigidas, proibidas ou permitidas. Portanto inclui-se entre as teorias morais que orientam nossas escolhas sobre o que deve ser feito. É também entendida como a parte da Filosofia que trata dos princípios, fundamentos e sistemas da moral.
Também é, às vezes, descrita como a ética baseada na obrigação ou em regras, porque regras lhe “vinculam a seu dever”.
Desenhos de artistas do renascimento.
Escultura na Grécia clássica.
Assim a deontologia pode ser entendida como ciência do dever, ou ainda estuda da ética baseada em regras que normatizam a conduta de cada um.
Na prática, a deontologia estabelece um conjunto de regras e padrões éticos que orientam o comportamento de profissionais em suas atividades, garantindo que ajam de maneira responsável, justa e respeitosa. Esses princípios são frequentemente codificados em códigos de ética profissionais, que variam conforme a área de atuação (medicina, direito, jornalismo, engenharia, etc.).
Um exemplo clássico de aplicação da deontologia é o juramento de Hipócrates na medicina, que estabelece os deveres dos médicos em relação aos pacientes, como a confidencialidade e a priorização do bem-estar do indivíduo.
Em resumo, a deontologia busca garantir que os profissionais ajam de acordo com valores éticos, promovendo a confiança e a integridade em suas relações com a sociedade.
Deontologia na arte
A deontologia dos artistas plásticos refere-se ao conjunto de princípios éticos e deveres que orientam a conduta desses profissionais em sua prática artística, relação com o público, com o mercado de arte e com a sociedade em geral. Embora não exista um código de ética universalmente formalizado para artistas plásticos, como ocorre em outras profissões, há diretrizes e valores amplamente reconhecidos que norteiam sua atuação.
1. Autenticidade e originalidade
Um dos pilares da deontologia dos artistas plásticos é a valorização da autenticidade e da originalidade alcançada através da criatividade. O artista tem o dever de criar obras que reflitam sua visão única e pessoal, obras que reflitam o zeitgeist e apresentem uma crítica ao status quo do mundo e da sociedade. Assim, a rigor não poderia se falar em arte de “extrema direita, nazifascista, neonazi, ou neofascista”, uma vez que esse tipo de produção é excludente e opressora e está acomodada no bojo de uma ideologia nefasta e não comprometida com o bem comum.
Um dos baluartes da prática artística é a criação livre, e o livre pensamento, podendo o artista apropriar-se de toda produção do pensamento humano existente. A originalidade não só respeita os direitos autorais de outros criadores, mas também contribui para a diversidade e a riqueza da produção cultural. Assim, há espaço para a citação, a super citação, colagens, assemblages e apropriação.
Segundo a enciclopédia (2015) o termo apropriação é empregado pela história e pela crítica de arte para indicar a incorporação de objetos extra-artísticos, e algumas vezes de outras obras de outros artistas, nos trabalhos de arte.
O procedimento remete às colagens cubistas e às construções de Pablo Picasso (1881-1973) e Georges Braque (1882-1963), realizadas a partir de 1912. Nesse momento do cubismo sintético, elementos heterogêneos, recortes de jornais, pedaços de madeira, cartas de baralho, caracteres tipográficos, entre outros, são agregados à superfície das telas. As apropriações, na base das colagens, representam um ponto de inflexão na arte do século XX, na medida em que libertam o artista do jugo da superfície. Desde esse momento, a técnica é largamente empregada em diferentes escolas e movimentos artísticos, com sentidos muito variados. Picasso encontra no novo recurso um instrumento de experimentação inigualável, que tem início na obra: Copo e Garrafa de Suze, 1912.
Apropriações também são feitas por Marcel Duchamp (1887-1968) em seus ready-mades, construídos com a utilização inusitada de elementos da vida cotidiana. Com esse procedimento, Duchamp transforma qualquer objeto escolhido ao acaso em obra de arte, em uma crítica radical ao sistema da arte, em consonância com o espírito do dadaísmo. Objetos utilitários sem nenhum valor estético em si são retirados de seus contextos originais e elevados à condição de obra de arte ao ganhar uma assinatura e um espaço em exposições, museu ou galeria. Por exemplo, a roda de bicicleta que encaixada num banco vira “Roda de Bicicleta, 1913”, ou um mictório que invertido é apresentado como “Fonte, 1917”, ou ainda os bigodes colocados em uma reprodução da Gioconda (Mona Lisa), 1503/1506, de Leonardo da Vinci (1452-1519) que fazem dela um ready-made retificado, o L.H.O.O.Q., 1919, que de acordo com alguns pesquisadores, se lidas tendo o som das letras em francês essas letras formam a frase “Elle lâche au cul”.
Kurt Schwitters (1887-1948) fornece outro exemplo dos rendimentos que têm a apropriação em contexto dadaísta. Neles, a ênfase recai sobre elementos e materiais diversos, sobretudo lixo e sucata, como mostram as obras “Merz, 1919”. “A pintura Merz”, diz ele, não utiliza só a cor e a tela, o pincel e a paleta, senão todos os materiais percebidos pelos olhos e todas as ferramentas necessárias”.
Marcel Duchamp
2. Respeito aos direitos autorais
Os artistas plásticos, por princípio, devem respeitar os direitos autorais, tanto os seus quanto os de outros criadores de obras artísticas (plásticas, fotográficas, escultóricas, performáticas, sonoras). Isso inclui a proteção de suas próprias obras contra uso não autorizado e o reconhecimento adequado de influências ou colaborações. A cópia não autorizada de obras, a falsificação e a apropriação indevida são consideradas violações éticas graves.
3. Transparência no mercado de arte
No contexto do mercado de arte, os artistas têm a responsabilidade de agir com transparência e honestidade, como todo ser humano em sociedade. Isso envolve a autenticidade das obras comercializadas, a clareza nas negociações e a divulgação correta de informações sobre a procedência e a história das peças. Galeristas, curadores e colecionadores também compartilham dessa responsabilidade, mas o artista deve garantir que sua prática esteja alinhada com esses valores.
4. Compromisso com a liberdade de expressão
A liberdade de expressão é um direito fundamental dos artistas plásticos, mas também carrega uma responsabilidade ética. O artista deve equilibrar sua liberdade criativa com o respeito à diversidade cultural, às diferenças individuais e aos direitos humanos. Obras que promovam discurso de ódio, discriminação ou violência contra grupos étnicos e minorias, podem ser consideradas antiéticas e ofensivas, mesmo que estejam amparadas pela liberdade artística.
5. Responsabilidade social e cultural
Os artistas plásticos têm um papel importante na sociedade como agentes de reflexão, crítica e transformação do “status quo”. Suas obras podem influenciar opiniões, questionar normas e inspirar mudanças. Portanto, é ético que o artista considere o impacto social de seu trabalho, buscando contribuir de maneira positiva para a cultura e o debate público.
6. Preservação e conservação do patrimônio artístico
Muitos artistas plásticos também atuam como restauradores ou conservadores de obras de arte do passado. Nesses casos, a deontologia exige que eles respeitem a integridade das peças originais, evitando intervenções que descaracterizem ou deturpem a obra. A preservação do patrimônio artístico é uma responsabilidade compartilhada por todos os envolvidos no campo das artes.
7. Relacionamento com o público e a crítica
O artista plástico deve manter um relacionamento respeitoso e profissional com o público, os críticos de arte, galeristas e outros agentes do meio cultural. Isso inclui estar aberto a críticas construtivas, reconhecer limitações e evitar condutas que possam prejudicar a reputação de colegas ou instituições.
8. Sustentabilidade e responsabilidade ambiental
Com o crescente debate sobre sustentabilidade, muitos artistas plásticos estão adotando práticas mais conscientes em relação ao meio ambiente. Isso envolve a escolha de materiais e técnicas que minimizem o impacto ambiental, bem como a conscientização sobre o descarte adequado de resíduos.
Conclusão
A deontologia dos artistas plásticos, embora menos formalizada do que em outras profissões, é essencial para garantir a integridade, a credibilidade e o impacto positivo da arte na sociedade. Ao seguir princípios éticos como autenticidade, respeito, transparência e responsabilidade social, os artistas não apenas fortalecem sua própria prática, mas também contribuem para o enriquecimento cultural e o bem-estar coletivo. A arte, afinal, é uma expressão humana que transcende o individual, conectando-se ao universal e ao eterno.
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