INÍCIO

23 outubro 2023

O NEOLIBERALISMO PARALISA E MATA



Existe um filme de Luis Buñuel que se chama “O anjo exterminador”. Nele, vemos um grupo de burgueses que vai para uma espécie de salão de recepção e simplesmente não consegue mais sair. Não há nenhum impedimento físico, nenhuma restrição, a não ser aquela vinda de suas próprias vontades. Quando tentam

 


sair eles subitamente param, perdem a força de vontade e permanecem paralisados. A impotência vai até o desespero, cenas de violência e degradação aparecem, até que, da mesma forma como foi natural entrarem no salão, eles saem.



Existe um sintoma fundamental na ordem geopolítica mundial. Trata-se do conflito palestino. Ele é como o filme de Buñuel: diante dele todos param e preferem nada fazer, até que explode algo terrível, como os ataques perpetrados pelo Hamas semana passada, e seguem-se ações que têm, no fundo, um só objetivo, a saber, continuar a não fazer nada de real, continuar a não procurar abrir caminho algum para resolver o conflito. A reação consiste apenas em mobilizar porta-aviões, exército, discursos de força, catástrofes humanitárias para esconder o dado elementar: a comunidade internacional não está disposta a resolver problema algum na Palestina.

Façamos um exercício elementar de projeção. O que acontecerá depois das ditas “ações militares” israelense em Gaza? O Hamas será destruído? Mas o que significa exatamente “destruição” aqui? Ao contrário, não foi exatamente assim que o Hamas cresceu, a saber, depois das ações inaceitáveis de punição coletiva e de indiferença internacional? E mesmo se os líderes do Hamas forem mortos, não aparecerão outros grupos alimentados pela espiral cada vez mais brutal de violência? Seria importante partir do dado histórico de que todas as tentativas de aniquilar militarmente o Hamas só aumentaram sua força, pois tais ações militares criaram o quadro narrativo ideal para que ele aparecesse, aos olhos de grande parte dos palestinos, como representante legítimo da resistência à ocupação. Quer dizer, só há uma maneira de vencer o Hamas e esta maneira não passa pela vitória militar, seja lá o que isso possa significar.

Permitam-me colocar claramente o que penso e que venho escrevendo há quase vinte anos na imprensa nacional: o Hamas não será destruído porque ele tem um sócio que precisa dele para sobreviver, e esse sócio é Benjamin Netanyahu. As ações feitas por Netanyahu e seu governo de extrema-direita, com o beneplácito de potências internacionais, só têm um efeito possível: fortalecer os sentimentos que alimentam o Hamas. Um pouco de sensatez e de análise histórica do conflito nos levaria rapidamente a essa conclusão. A solução está em outro lugar. E, bem, aqui escreve alguém (e isto é fácil de checar via internet) que nunca deixou de criticar o Hamas e seu projeto. Não tenho ilusão alguma a respeito do que são os interesses de grupos fundamentalistas religiosos. Falei em mais de uma vez que os palestinos têm dois problemas para resolver: um é a política colonial do Estado de Israel, o outro é o Hamas. Continuo pensando o mesmo. Mas, como no filme de Buñuel, a saída desertou da vontade de quem pode resolver o conflito, a saber, a comunidade internacional com seu sistema de pressão.

UM PROBLEMA EXTREMAMENTE COMPLEXO?

Durante anos fomos massacrados com a eterna ideia de que este era um conflito “extremamente complexo” ou de que suas causas deveriam ser procuradas em alguma espécie de “ódio milenar entre povos semitas” e coisas do gênero. No entanto, não há nada de complexo no conflito palestino. O direito internacional, representado pela ONU (diga-se de passagem, a mesma instituição que criou o Estado de Israel), reconhece à Palestina o estatuto jurídico de “território ocupado”, ocupação considerada totalmente ilegal pelas resoluções 242 e 338 há mais de cinquenta anos. Ou seja, Israel deve respeitar a lei internacional e devolver os territórios ocupados. Como se não bastasse, há os Acordos de Oslo, que definem um caminho claro para a paz e a resolução do conflito. Israel deve respeitar tais acordos internacionais, o que até agora não ocorreu. Inclusive, o atual primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, nunca escondeu sua recusa em aceitá-lo.

No entanto, os palestinos efetivamente se engajaram nessa via. Durante décadas, a Organização pela Libertação da Palestina (OLP) levou a cabo ações diretas, inclusive ataques a civis, e manteve um discurso claramente contrário à partilha que criaria dois Estados na Palestina histórica. E, no entanto, há mais de 30 anos, a OLP abriu mão das ações armadas, mostrando a disposição dos palestinos a uma solução negociada para o conflito. Há de se entender esse ponto: os palestinos que se engajaram em um processo pacífico de negociação foram traídos. Se os Acordos de Oslo fossem respeitados, não haveria Hamas. Qualquer solução começaria por mostrar aos palestinos que a via diplomática pode trazer resultados efetivos.

E aqui seria importante recuperar a verdadeira razão pela qual esse processo de paz fracassou. Ele fracassou porque o então primeiro-ministro de Israel, Itzak Rabin, foi assassinado, não por um membro do Hamas, não por um palestino, mas por um colono judeu. Enquanto Rabin e o então líder da OLP, Yasser Arafat, tentavam colocar em prática o plano, colonos afrontavam o exército israelense em processos de desocupação de assentamentos, rabinos ultraconservadores faziam discursos incendiários contra o governo e víamos na televisão campanhas publicitárias feitas por organizações judaicas fundamentalistas que conclamavam os judeus do mundo, com armas em punho, a impedirem a entrega de terras aos palestinos. O final deste processo foi o assassinato de Rabin.

Desde então o processo de paz acabou. Pois havia um problema de difícil resolução, esse sim um problema extremamente complexo. Há uma ambiguidade maior no cerne da concepção israelense de nação. Por um lado, ela é assentada na criação de um Estado moderno e laico onde haveria espaço inclusive para os árabes (embora em número controlado). Mas, de outro lado, a concepção israelense de nação é assombrada por fantasmas religiosos e comunitaristas no interior dos quais um messianismo redentor se mistura perigosamente com a tentativa de criar vínculos orgânicos entre nação, Estado e povo. O resultado é o paradoxo gritante de um Estado que se pretende moderno e tem um bizantino Ministério das Questões Religiosas, com suas cortes rabínicas, seu Departamento de banhos rituais e sua Divisão de assuntos sobre enterros. Na verdade, um espectro ronda o Estado de Israel: o espectro do teológico-político.

Do lado de Israel, ficou claro que o avanço do processo de paz só seria possível por meio de uma confrontação com este núcleo teológico-político que sempre serviu de alimento para uma parte de seu imaginário como nação. No entanto, isso seria simplesmente a morte da direita israelense com seu comunitarismo indisfarçável e seus partidos religiosos. Para ela, continuar o processo de paz seria levar o país a uma guerra civil. Tratava-se então de adiar o processo de paz ad infinitum. E a melhor maneira para isso era alimentando a popularidade de um grupo fundamentalista islâmico. Foi assim que a direita israelense e o Hamas cresceram juntos a partir do final do governo Rabin. Um precisa do outro para existir.

Por isso, não há outra forma de descrever o que o governo Netanyahu faz agora a não ser como um experimento suicida. Pois ele acredita que a única coisa capaz de unificar o país é a guerra. Mas para funcionar, essa guerra deve ser infinita, sem fim, criando uma situação de exceção permanente. Uma sociedade fraturada como a israelense encontra na guerra um ponto forçado de união. Através da guerra permanente, toda voz contestadora é constrangida, a crítica dura ao apartheid de fato, à política tipicamente colonial do Estado israelense para com os palestinos é associada, de forma desonesta, ao antissemitismo. O que não significa ignorar expressões de antissemitismo real que aparecem em situações de guerra e que devem ser combatidas.

Eu insistiria que estamos diante de um experimento suicida porque guerras dessa natureza não podem ser vencidas, elas servem apenas para militarizar a sociedade em todos seus poros (como denunciou de forma precisa a socióloga israelense Eva Illouz no caso de sua sociedade), destruindo sua substancialidade. A única possibilidade de realmente vencer a guerra seria através do puro, simples e impensável extermínio de fato dos palestinos. Pois eles simplesmente nunca aceitarão serem tratados como um povo inexistente ou que deve ser deslocado completamente para o leste do Rio Jordão. Tentar aprofundar nessa via significará colocar o mundo inteiro em risco, levar as populações dos países árabes à ebulição, com o aumento generalizado da insegurança mundial. Há uma ilusão colonial típica que está sendo mais uma vez atualizada aqui. Terra e liberdade são elementos completamente conjugados. Os povos sabem que não há autonomia sem autoctonia. Não há comunidade humana que aceite seu próprio desterro de maneira passiva.

Pode-se dizer que o conflito palestino é mais complexo que uma situação colonial clássica, porque há uma contestação sobre quem tem direito à autoctonia. No entanto, o direito internacional, mais uma vez vale a pena lembrar, é claro: a autoctonia dos palestinos na Cisjordânia, na Faixa de Gaza e em Jerusalém Oriental não tem nenhuma possibilidade de ser contestada e a comunidade internacional tem a obrigação de defendê-la e pressionar para sua efetivação imediata.

No entanto, não me escapa o fato de que o mundo caminha para uma situação na qual só se governa através da generalização de situações de crise. Uma verdadeira vontade de resolução do conflito passaria por uma intervenção da ONU e o uso de força militar internacional como elemento mediador, mas sequer um comunicado conjunto o Conselho de Segurança é capaz de aprovar. A tentativa do governo brasileiro foi louvável, embora serviu apenas para mostrar o fim de fato da ONU. Desde a invasão norte-americana no Iraque, feita sem acordo da ONU, a única instituição capaz de mediar conflitos bélicos deixou de existir. Cada vez mais, entramos na era do medo como afeto político central. Estados procuram, na verdade, perpetuar as ditas ameaças terroristas como forma de consolidar uma política de contínua vigilância, de intervenção policial extensa e de bloqueio de contestações efetivas. Isto é um fenômeno mundial de mudança de paradigma de governo que vem sendo denunciado há pelo menos duas décadas de forma sistemática por todos os lados. Com esse conflito e seus desdobramentos, ele poderá ainda ser mais aprofundado.


Vladimir Safatle é professor titular do Departamento de Filosofia da USP.



O capitalismo neoliberal mata a todos 

Este viernes 20 de octubre en Gaza ha sido asesinada la poeta, novelista, bioquímica y activista feminista HIBA ABU NADA, despedazada por una bomba israelí..
La noche anterior, refugiada en la casa donde moriría, escribió:

Si morimos, sepan que estamos satisfechos y firmes, y digan al mundo, en nuestro nombre, que somos personas justas, del lado de la verdad 
(...).
La noche en la ciudad es oscura, excepto por el brillo de los misiles; silenciosa, excepto por el sonido del bombardeo; aterradora, excepto por la promessa tranquilizadora de la oración; negra, excepto por la luz de los mártires.
Buenas noches”.


















22 outubro 2023

O NEOLIBERALISMO MATA

NEOLIBERALISMO E “MORTE ANTECIPADA”

Márcio Pochmann





Filho de pai escocês, que era mineiro de carvão, o economista do mainstream neoliberal e ganhador do Nobel em 2015, Angus Deaton expõe a sua mea culpa, oferecendo uma crítica mordaz ao próprio neoliberalismo.

Tem questionado as teorias da chamada “revolução da credibilidade”, sobre as quais parcela dos profissionais assumidos do "mercado" e porta-vozes do dinheiro impulsionaram e impulsionam graves e profundas consequências sobre a vida e mortes para milhões de pessoas no mundo.

A identificação das “mortes por desespero” na meia-idade que tem atormentado e avançado sobre a população estadunidense, colocou o professor emérito da Universidade de Princeton em destaque ao questionar o quanto a formação e práticas profissionais em economia têm se distanciado do estudo sobre o bem-estar da população.

A diferença de A. Deaton em relação aos que professam o receituário neoliberal é que ele mudou as próprias opiniões mediante a conscientização acerca da dominância dos mercados e do dinheiro e seus efeitos negativos para a classe trabalhadora.

Em grande medida, a crítica foca a forma imprudente com que o neoliberalismo busca aliviar as restrições ao fluxo de capital especulativo em todo o mundo, o que tem favorecido a prevalência de crises financeiras e a elevação da desigualdade em favos dos ricos, poderosos e privilegiados nas últimas três décadas. O erro econômico gerado pela globalização neoliberal, com ênfase na livre circulação de bens, capitais e empregos, produziu, em consequência, a epidemia de "mortes por desespero".

Na maioria das vezes, a perda da vida antecipada é levada pelo alcoolismo, overdoses de opiáceos e suicídio que se generaliza no quotidiano da classe trabalhadora americana submetida à realidade rebaixada do padrão de vida. Contribuiu para isso, o desemprego e a precarização laboral banalizadas pela perda do sentido da vida imposta pelo abandono do antigo sonho almejado do "American way of life".

No estudo de A. Deaton, que comparou a esperança de vida dos formados no ensino superior com o restante da população estadunidense, tornou evidente a queda na expectativa de vida do andar de baixo da sociedade. No ano de 2021, por exemplo, os formados nas faculdade dos EUA viviam, em média, 8,5 anos a mais do que aqueles com nível de escolaridade inferior, enquanto em 1992, a diferença era de apenas 2,6 anos. 

Em apenas três décadas, a queda na expectativa de vida da população trabalhadora com menos escolaridade declinou 3,3 vezes se comparada com a do segmento de nível universitário. A diminuição da expectativa de vida nas comunidades que foram ficando para trás diante do avanço da desindustrialização estadunidense revelou o quanto o triunfalismo da recuperação econômica desde a recessão da COVID 19 se mostrou falsa.

Além de defender o fim da fixação do dinheiro como medida do bem-estar humano, A. Deaton acredita que a reindustrialização reforça o movimento sindical e a sociedade organizada em torno da defesa do salário mínimo, combate à pobreza e permite os cuidados com a saúde da população que mais precisa.

A retomada do estímulo fiscal como resposta à economia neoliberal, ditada como evolução darwiniana da competição pela sobrevivência, assume a centralidade, pois do contrário, as mortes antecipadas tendem a continuar. E o que dizer sobre a classe trabalhadora brasileira?















Fonte

https://x.com/marciopochmann?s=21&t=qvn2gjel3c-_i6Y1GISK9w





HOJE NA HISTÓRIA 


Modern Priests of Antinous commemorate his death on 28 Oct, but many scholars say 22 Oct, 23 Oct, 24 Oct or 30 Oct was when he "plunged into the Nile" (Hadrian's words) in October of 130 AD. 

The important thing is that Antinoos truly lived. 

He is not a myth or a legend.













21 outubro 2023

A PAIXÃO DE CRISTO

A PAIXÃO DE CRISTO (2004)

No filme “A Paixão de Cristo” de 2004 o diretor Mel Gibson, 

A Paixão de Cristo, por vezes referida como A Paixão; (Latin: Passio Christi) é um filme bíblico estadunidense de 2004, do gênero drama épico, dirigido por Mel Gibson e estrelado por Jim Caviezel como Jesus Cristo. O filme retrata a Paixão de Jesus, em grande medida de acordo com os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, do Novo Testamento. Inspira-se também na Sexta-Feira das Dores, e na obra A Dolorosa Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo em conjunto com outros escritos devocionais atribuídos à mística e visionária Anna Catarina Emmerich, beata da Igreja Católica. O filme abrange principalmente as 12 horas finais da vida de Jesus Cristo, começando com a agonia no jardim de Getsêmani, a insônia e agravo da Virgem Maria, mas terminando com uma breve descrição de sua ressurreição.

Sinopse do filme 

O filme começa em Getsêmani quando Jesus ora a Deus e é tentado por Satanás, enquanto os seus apóstolos Pedro, Tiago e João estão dormindo. Satanás apareceu em forma humana, dizendo: “Não é certo para um homem morrer por seus pecados”. Depois do suor de Jesus tornar-se como sangue e pingar no chão, uma cobra sai de Satanás. Jesus ouve seus apóstolos chamando-o, em seguida, ele pisa na cabeça da serpente, e o diabo desaparece. 
Depois de receber trinta moedas de prata, um dos outros apóstolos de Jesus, Judas, se aproxima com os guardas do templo e trai Jesus com um beijo na bochecha. Enquanto os guardas se movem para prender Jesus, Pedro corta a orelha de Malco, mas Jesus cura o ouvido. Como os apóstolos fogem, os guardas do templo prendem Jesus e o levam para o Sinédrio.
O sinédrio, συνέδριον, synedrion, em grego antigo, assembleia sentada, donde assembleia, é a associação de 20 ou 23 juízes que a Lei judaica ordena existir em cada cidade. O Grande Sinédrio era uma assembleia de juízes judeus que constituía a corte e legislativo supremos da antiga Israel. O Grande Sinédrio incluía um chefe ou príncipe (Nasi), um sumo-sacerdote (Cohen Gadol), um Av Beit Din (o segundo membro em importância) e outros 69 integrantes que se sentavam em semicírculo. Antes da destruição de Jerusalém em 70 EC.

João conta à Maria e Maria Madalena da prisão de Jesus, enquanto Pedro segue Jesus à distância. Caifás detém julgamento sobre a objeção de alguns dos outros sacerdotes, que são expulsos do tribunal. Aqui já há clara ilegalidade no processo de julgamento. 

Quando questionado por Caifás se ele é o filho de Deus, e Jesus responde: “Eu sou”, Caifás fica horrorizado e rasga suas vestes, e Jesus é condenado à morte por blasfêmia. Pedro, que secretamente assiste, é confrontado e três vezes nega conhecer Jesus, mas foge chorando depois de lembrar que Jesus havia predito, que ele negaria-o. Enquanto isso, Judas arrependido tenta devolver o dinheiro para ter Jesus libertado, mas é recusado pelos sacerdotes. Atormentado por demônios, ele foge da cidade e se enforca com uma corda que ele encontra em um burro morto.
Caifás leva Jesus a Pôncio Pilatos, Governador ou prefeito, em latim: praefectus da província romana da Judeia entre os anos 26 e 36, para que seja condenado à morte. 

Pilatos, depois de questionar Jesus e não encontrar falha alguma nele, manda que levem-no à corte de Herodes. Depois de Jesus ser novamente absolvido e devolvido, Pilatos oferece-o à multidão que já se aglomerava ali. Pilatos diz que ele vai castigar Jesus e, em seguida, irá libertá-lo. 
Ele, então, tenta libertar Jesus dando ao povo uma opção de libertá-lo ou um criminoso chamado Barrabás. 
Para sua consternação, a multidão exige ter Barrabás libertado e Jesus morto. Em uma tentativa de apaziguar a multidão, Pilatos ordena que ele fosse punido, mas não morto. Jesus é brutalmente açoitado e zombado com uma coroa de espinhos pelos soldados romanos. 

No entanto, Caifás, com o apoio da multidão, continua a exigir que Jesus seja crucificado, e que Barrabás seja liberto. Pilatos lava as mãos e, relutantemente, ordena a crucificação de Jesus.
Ao início da Via Dolorosa de Jesus para o Calvário, Maria o encontra e o conforta, e este retribui-lhe dizendo: “Veja, mãe, eu farei tudo novo” e prossegue. Simão de Cirene é obrigado  a carregar a cruz com Jesus. 

O constrangimento de carregar a cruz imposto pelos soldados romanos a esse desconhecido Simão de Cirene (atual Líbia) faz surgir um paralelo entre esse Simão de Cirene e Simão Pedro, que teria se vangloriado dizendo que seguiria Jesus até a prisão e até a morte (Lucas 22:33) quando na verdade o negou, enquanto um anônimo Simão, de origem desconhecida, nada tendo dito em favor de Jesus, tocou em algo “impuro” para os judeus, o sangue de Jesus, durante o período de uma festa religiosa importante, a Páscoa.
Segundo a tradição, após ajudar Jesus a carregar a cruz, Simão volta pra Cirene e conta o acontecido para sua família. Rufo, que foi um jovem rejeitado pelo Sinédrio da época, após seu pai contar todo o ocorrido, como este conhecia a Torá dos judeus, ele identifica que o homem que seu pai ajudou a carregar a cruz, era o Messias; tornando-se, desta forma, uma das primeiras famílias gentias evangelizadas após a crucificação. Simão de Cirene, por vezes, é identificado como “Simão que tinha por sobrenome Niger”, em latim: Niger é negro, de Atos 13:1.

Verônica enxuga o rosto de Jesus com seu véu. Jesus é então crucificado. Ao pender da cruz, Jesus pede perdão para aqueles que fizeram isso com ele e redime um criminoso crucificado ao lado dele, por ter se arrependido. 

O tempo sobrenaturalmente muda após isso: o sol se escurece e há trevas por toda a parte. Ao bradar Jesus ao céu “Pai, em Tuas mãos entrego o meu Espírito” exala seu último suspiro ao morrer, uma única gota de chuva cai do céu, provocando um terremoto que destrói o templo e rasga o pano que cobre o Santo dos Santos em dois, para o horror de Caifás e os outros sacerdotes. 
Aos soldados, fora dado a ordem de quebrar as pernas do condenado, uma prática conhecida como crurifragium, que objetivava acelerar a morte numa crucificação.

A lança (do grego: λογχη, lonke) só é mencionada no Evangelho de João (João 19:31–36) e em nenhum dos outros evangelhos sinópticos. Segundo João, os romanos pretendiam quebrar as pernas de Jesus, mas não o fizeram, pois perceberam que Jesus já estava morto e, portanto, não havia razão para quebrarem suas pernas. Para certificarem-se de sua morte, um legionário romano, tradicionalmente chamado de Longinus, furou-lhe o flanco esquerdo: “Contudo um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água.”João 19.

Satanás é mostrado gritando agonizante na derrota. Jesus é descido da cruz e é abraçado por sua mãe e amigos. No final, a tumba se abre e Jesus ressuscita dos mortos e sai do túmulo.

A parte tudo isso, enquanto Jesus é brutalmente espancado, com um chicote de três pontas, o filme apresenta uma cena em que um personagem misterioso aparece carregando um bebê. 

A Bíblia nos conta que antes de ir para cruz, como já lemos, Cristo foi submetido a flagelação. 
A palavra latina presente nestes textos bíblicos, Mateus 27.26; Lucas 23.16, 22; João 19.1, é flagellum, do latim flagellum, chicote, diminutivo de flagrum, provavelmente originária do Proto-Indu-Europeu, significando golpear, açoitar.

Um flagelo, usado pra açoitar, do latim, flagrum; diminutivo: flagellum, consiste em uma corda ou tiras de couro, com bolas de metal, ossos e pontas de metal.

A palavra é mais comumente considerada derivada do francês antigo escorgier, chicotear remontando ao latim vulgar, excorrigiare: o prefixo latino ex- fora, mais corrigia, lingua, correia, ou neste caso: chicote. Alguns estudiosos o conectam ao latim: excoriare, “esfolar”, construído com duas partes latinas, ex-, fora e corium, pele.

Para tal flagelação eram usados os chicotes romanos chamados de Azorrague, em latim: flagrum, termo de origem controversa, é que é sinônimo de açoite, espécie de chicote ou látego, usado para a aplicação de flagelo em condenados, cujas correias, possuíam metais ou ossos perfuro cortantes.

O médico legista, Frederick Zugibe, em seu livro “A crucificação de Jesus”, analisa as cenas finais da vida de Cristo, afirma: “a conclusão é a de que Jesus Cristo teria recebido 39 chibatadas, o que era previsto na chamada Lei Mosaica, o que equivale na prática a 114 golpes, já que o chicote tinha três pontas ou “línguas, correias”. 

As conseqüências médicas de uma surra tão violenta são hemorragias, acúmulo de sangue e líquidos nos pulmões e possível laceração no baço e no fígado. A vítima também sofre tremores e desmaios. “A vítima dessa violência fica reduzida a uma massa de carne, exaurida e destroçada, ansiando por água”, diz o legista F. Zugibe.

No filme, enquanto isso acontece, uma cena paralela é mostrada. Uma cena terna e ao mesmo tempo enigmática e bizarra.






A cena é estranha, sombria e misteriosa, muito embora o personagem misterioso não diga uma só palavra. Seu aspecto sinistro, e a aparência no mínimo invulgar e incomum, do bebê levanta muitos questionamentos. Ainda mais sinistro, e algo grotesco, é o sorriso da criatura.

Um sorriso de desdém, escárnio e sadismo. Desdém pois parece que essa figura considera algo, (desdém do latim: disdignare, que significa considerar indigno); escárnio pois parece zombar da cena (escárnio é a ação de zombar ou fazer pouco de alguém, uma demonstração de desprezo e ridicularização) e sádico, pois o prazer dele é visivelmente dependente do sofrimento físico ou moral infligido a outrem. Seu prazer vem de fazer ou ver o outro sofrer. Mas esse mesmo bebê que sorri malevolamente, está no colo de um outro ser igualmente bizarro.

Esse trecho, a meu ver, tem um significado que poucos conseguem entender ou alcançar, no momento. Acontece que Jesus Cristo está sendo açoitado e Satanás aparece como um “bebê” para mostrar a Jesus e aos presentes, que até mesmo “o Diabo” cuida de seu filho, enquanto “Deus” permite que seu único filho seja cruelmente humilhado. Uma tentativa de quebrar a convicção do sacrifício de Cristo.

Quem carrega o “bebê” é o próprio Diabo que tem uma aparência andrógina, já que os Anjos não têm gênero. É certamente uma cena com um significado muito forte.

Há uma outra possibilidade, o Deus, aparece carregando no colo o seu outro filho, já que tudo o q existe foi criado por esse Deus. Quem seria seu outro filho? O primeiro, o anjo caído, Lúcifer, estrela da manhã, a próprio origem do mal, que olha com desdém toda cena.  


Parafilia (?)

Seria uma parafilia o sorriso maldoso da criatura? As parafilia são conhecidas como “interesses sexuais invulgares”. As parafilia são definidas clinicamente como “qualquer outro interesse sexual intenso e persistente que não o interesse na estimulação genital ou carícias preparatórias consensuais com parceiros humanos, fenotipicamente normais e fisicamente adultos”.

Esse conceito engloba um conjunto de preferências e condutas sexuais que se desviam do que é geralmente aceito por uma determinada sociedade, num dado momento histórico-cultural. É um tema em que coabitam fortes influências legais e morais.

Parafilias são meras preferências sexuais que se desviam da norma, enquanto que perturbações parafílicas são consideradas uma doença mental, marcada por um grau de descontrole, com marcado impacto na saúde, vida relacional do indivíduo ou risco de dano para terceiros, sendo que em grande parte dos casos estas fantasias acarretam grande sofrimento ao indivíduo. 

É característica essencial e transversal às perturbações parafílicas o fato do indivíduo atuar de acordo com os seus impulsos sexuais com uma pessoa que não o permite, ou os impulsos sexuais e fantasias provocarem mal-estar clinicamente significativo ou défice social (Araújo, s/d).

Ora, o Diabo, na forma humana visível, apresentada no filme, tira seu prazer do sofrimento da parte humana do filho de Deus. Ele ri de Deus que permite seu lado humano sofrer e ser morto, numa alusão cruzada da disposição de Deus em permitir o sofrimento ao homem, mesmo esse sendo seu filho. E ao gênero humano que segundo o mito da criação também é uma criatura feita por Deus. 

Ele sabe que a parte humana sofrerá e morrerá. Teoricamente até mesmo Deus é sádico, uma vez que permite o sofrimento, podendo cessá-lo quando quiser. O que fica patente ao permitir o mal, a dor e o sofrimento desde a origem doe todos os seres. Deus permite que a forma humana sofra terríveis dores físicas e psicológicas, e experimente a morte. Ou como um amigo meu professor de História, argumentou, tanto o bem incarnado, a ideia de Deus, quanto o mal incarnado, o demônio, satã, são humanos.

“Um Deus onipotente e onisciente e onipresente que tivesse criado o universo que habitamos, seria necessariamente mau, e a indiferença dessa divindade seria equivalente à maldade para uma divindade criadora que tudo sabe e tudo pode. Mas essa divindade que centenas de milhões de pessoas acreditam está para além da indiferença e da maldade. Ela exige do homem uma adoração e um amor sem nenhuma reciprocidade, numa dinâmica que beira à loucura de uma relação de cativeiro. O modelo mais famoso para esse abuso é sem dúvidas o Livro de Jó. Ali encontra-se o arquétipo resumido no dito popular: “O Senhor age de formas misteriosas”, um mecanismo explanatório que não explica nada, mas finge que soluciona o problema empurrando-o para debaixo do tapete. Imagine se um sujeito qualquer tratasse uma ou mais pessoas da forma como o Senhor trata suas criaturas. Ele certamente seria visto como um sádico que comete graves abusos, e com toda a razão. Pense em alguém tratando seus filhos da maneira que Deus trata a sua criação. Imagine agora que todas as criaturas sensíveis, capazes de sentir dor e prazer, estão submetidas ao crivo de uma divindade que as criou para terem uma existência breve, permeada de dores profundas e inevitáveis, das quais a única escapatória é a busca constante de estados positivos efêmeros que, no caso de animais mais complexos, logo desaparecem para dar lugar ao tédio. Todas as evidências que a natureza e a vida humana nos deram até hoje mostram que Deus não é bom, nem misterioso. Deus é um abusador cósmico, e nós todos somos suas vítimas.”(Olsewski, 2022).

Eis aqui as palavras do próprio Deus de Abraão, Isaac e Jacó:

Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus; eu te cingirei, ainda que tu não me conheças; Para que saiba desde o nascente do sol, e desde o poente, que fora de mim não há outro; eu sou o Senhor, e não há outro. Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas.” 

Ainda que Ele não explicitasse que o mal é de sua responsabilidade nas Escrituras, a sua maldade continuaria sendo evidente a qualquer um. Para vê-la, basta observarmos o mundo humano e animal e tentarmos encaixar a suposta onibenevolência divina nele, não cabe. É uma tarefa impossível. Mas o crente não se importa com essa impossibilidade, justamente porque o Deus dele é o “Deus do impossível”, frase que o crente nem se dá conta do quão sem sentido é. É por isso que, no fundo, teodiceias sempre foram criadas para os céticos, ainda que fossem “céticos religiosos”, por assim dizer. Citando Cioran:

“O problema do mal só perturba realmente alguns delicados, alguns céticos, revoltados pela maneira como o crente se conforma com ele ou o escamoteia. É para esses então que, em primeiro lugar, se dirigem as teodiceias, tentativas de humanizar Deus, acrobacias desesperadas que fracassam e se comprometem no seu próprio terreno, desmentidas a cada instante pela experiência. Embora procurem convencê-los de que a Providência é justa, não o conseguem.” (Olsewski, 2022).











É um filme bastante peculiar que vale a pena ser assistido, prestando bastante atenção em cada detalhe.




Fonte

Inspirado em Dioran Machado via Twitter (X)






19 outubro 2023

THE CITY IN THE SEA

The City in the Sea

Edgar Allan Poe 
1809 – 1849


Lo! Death has reared himself a throne
In a strange city lying alone
Far down within the dim West,
Where the good and the bad and the worst and the best
Have gone to their eternal rest.
There shrines and palaces and towers
(Time-eaten towers and tremble not!)
Resemble nothing that is ours.
Around, by lifting winds forgot,
Resignedly beneath the sky
The melancholy waters lie.


No rays from the holy Heaven come down
On the long night-time of that town;
But light from out the lurid sea
Streams up the turrets silently—
Gleams up the pinnacles far and free—
Up domes—up spires—up kingly halls—
Up fanes—up Babylon-like walls—
Up shadowy long-forgotten bowers
Of sculptured ivy and stone flowers—
Up many and many a marvellous shrine
Whose wreathed friezes intertwine
The viol, the violet, and the vine.
Resignedly beneath the sky
The melancholy waters lie.
So blend the turrets and shadows there
That all seem pendulous in air,
While from a proud tower in the town
Death looks gigantically down.


There open fanes and gaping graves
Yawn level with the luminous waves;
But not the riches there that lie
In each idol’s diamond eye—
Not the gaily-jewelled dead
Tempt the waters from their bed;
For no ripples curl, alas!
Along that wilderness of glass—
No swellings tell that winds may be
Upon some far-off happier sea—
No heavings hint that winds have been
On seas less hideously serene.


But lo, a stir is in the air!
The wave—there is a movement there!
As if the towers had thrust aside,
In slightly sinking, the dull tide—
As if their tops had feebly given
A void within the filmy Heaven.
The waves have now a redder glow—
The hours are breathing faint and low—
And when, amid no earthly moans,
Down, down that town shall settle hence,
Hell, rising from a thousand thrones,
Shall do it reverence.


18 outubro 2023

PALAVRAS NÃO SÃO INOCENTES

AS PALAVRAS NÃO SÃO INOCENTES



As palavras não são inocentes 
Texto de Carlos Matos Gomes (1)

Guerra e Terrorismo
A propaganda de Israel e dos seus aliados (cúmplices) desenvolveram um dicionário específico para apresentar a situação em Gaza. Os porta-vozes de Israel e dos Estados Unidos foram treinados para o utilizar e difundir. Estão a fazê-lo e a servirem-no em doses maciças.

Massacre dos Inocentes.
Por Guido Reni (1611/12), atualmente na Pinacoteca Nazionale de Bolonha.

Israel está em guerra com o Hamas, garantem. É falso, o estado de Israel está em guerra com os palestinianos desde 1948, o Hamas foi criado em 1987. É um conhecimento de cultura geral. Sem investigação muito aprofundada é fácil saber que ocupação da Palestina foi e está a ser conduzida pelos judeus herdeiros dos movimentos terroristas desde os anos trinta do século vinte, quando começaram a lutar contra os ingleses, que tinham mandato da Sociedade da Nações de protetorado na Palestina desde o final da I Grande Guerra e que se manteve até ao final da II Guerra Mundial, quando os ingleses entregaram formalmente a Palestina à ONU, recém criada e aos Estados Unidos e à URSS para a condução prática do imbróglio do que fazer com os judeus sobreviventes do Holocausto. Esses movimentos lutaram através da imposição do terror para expulsar os palestinianos das suas terras e casas, sem olhar a meios.

Alessandro Magnasco (1667 - 1749). Massacre dos inocentes. Alessandro, também chamado il Lissandrino (o Alexandrino), pintor do Rococó italiano. 


O Exército de Israel, que se esconde debaixo da inocente, mas falaciosa designação de Forças de Defesa de Israel (IDF na designação anglo saxónica), tem antepassados que é fácil conhecer e que os jornalistas e comentadores só não apresentam porque esse conhecimento é inconveniente para versão da Verdade Única que deve ser imposta. O mais antigo e direto é o Haganá, uma organização de judeus sionistas, a primeira a utilizar o terrorismo na Palestina. Como é comum nas histórias dos movimentos terroristas, o Haganá, que também agiu como instrumento dos ingleses, sofreu várias dissidências, cada uma mais radical que a organização-mãe. Uma, o Irgun, comandado por Menhachem Begin, que chegaria a primeiro ministro de Israel, realizou a célebre operação de terror contra o Hotel Rei David, que matou 91 pessoas, na maioria quadros ingleses. Outra das dissidências designava-se Lehi, e os ingleses referiam-na como o Stern Gang. Estas organizações foram responsáveis pelo afundamento do navio Patria, com 1600 judeus, que o Reino Unido estava a transferir para as ilhas Maurícias. As organizações de judeus sionistas preferiram matar outros judeus (duas centenas morreram afogados) a deixar que fossem para um local que não a de povoar a “sua Palestina”. Todos estes “respeitáveis” movimentos sionistas se reconverteram de terroristas em Força de Defesa de Israel .

O “Exército de Israel” tem como base ideológica o sionismo e percebe-se assim melhor que o final de “cada ato de defesa” contra os palestinianos se tenha traduzido na conquista mais território, que irá até conseguirem criar a “Grande Palestina”, uma invenção dos sionistas com recurso a mirabolantes interpretações bíblicas.

O objetivo do Exército de Israel nesta operação em Gaza é, numa primeira fase, “limpar o território” dos seus habitantes, criar um espaço vazio, sem habitantes (no men land), para justificar a ocupação por israelitas, numa segunda fase. Não há nenhuma guerra contra o Hamas, que é apenas o mais recente movimento de resistência palestiniana, mas um ataque aos palestinianos de Gaza (que elegeram o Hamas para o seu governo) com a finalidade de deslocar um povo através do terror, porque a alternativa apresentada por Israel à sua fuga será a chacina!

O Hamas é apenas mais um dos vários movimentos organizados de resistência, como foram a OLP, a Fatah, a Frente Popular de Libertação da Palestina, as intifadas. Todas refletem a parcialidade e a violência da injustiça inicial da distribuição de terras da Palestina patrocinada pela ONU com a criação do Estado de Israel, o tal que tem o direito de tudo poder fazer para se “defender”: palestinianos, com 70% da população, tiveram direito a 45,4% do território, os judeus, com 30% da população, tiveram direito a 53,5% do território. Jerusalém seria partilhada. Os sentimentos resultantes de uma violação, de um assalto à mão armada, de uma ocupação não se destroem à bomba, mesmo que de fósforo, nem à metralhadora, nem com carros de combate, nem com F16!

Israel tem o direito de se defender — Todos têm o direito de se defender, mesmo os recém-chegados! A questão não é de direito, é de análise da realidade: tem sido e continua a ser Israel quem ataca para impor o seu modelo de sociedade. Os palestinianos são quem se defende e defende o direito de permanecer num território que nunca abandonaram! Não saíram da sua terra para atacar os judeus, alguns dos quais (os descendentes dos que não foram procurar outros destinos que de Damasco os levaram até à Rússia e à Península Ibérica) habitaram a Palestina em boa convivência com os palestinianos até um judeu austríaco pregar o sionismo no final do século dezanove e, meio século mais tarde, as potências europeias vencedoras da Segunda Guerra Mundial despacharem os judeus para uma terra onde se governassem e que até esteve para ser Angola.

O ataque do Hamas aos colunatos junto à fronteira de Gaza é um terrível ato de terror que merece a mais forte condenação, pois atingiu pacíficos civis que estavam em suas casas ou a divertir-se. A afirmação dos evangelistas ao serviço da verdade única contém vários sofismas (mentiras):

Os colunatos, que substituíram os Kibutz, militarizando-os e eliminando os princípios de socialismo e de vida em comum que os distinguiu no início, são instalações militares e todos os seus membros (incluindo as famílias) são militares e cumprem funções dentro da manobra militar do Estado e das Forças Armadas. São sentinelas, postos de observação e primeira linha de combate. Desempenham, com as diferenças de tempo e lugar, o importante papel na manobra militar que as aldeias estratégicas desempenharam na guerra colonial portuguesa em Angola, Guiné e Moçambique. Ou o papel dos colonatos criados com portugueses idos da Metrópole para se instalarem em zonas de fronteira da guerra. Esteve prevista instalação de um milhão de colonos na região da barragem de Cabora Bassa, para servirem de barreira, em conjunto com a albufeira ao avanço da FRELIMO. São condenáveis todas as mortes violentas. Sem falsos moralismos, mas há violências mais condenáveis que outras, e há violências condenáveis e violências aceitáveis e há violências que merecem operações mediáticas e há violências silenciadas. Existem com certeza cenas de violência na Ucrânia tanto o mais chocantes do que a do ataque do Hamas ao colunato! Há violências desculpáveis, as dos nossos e violências condenáveis, as dos outros! Há violências cuja exploração e condenação é mais vantajosa para o desenvolvimento de dada a uma estratégia do que outras. Estamos em plena manobra de ação psicológica. A velha Psico da guerra colonial!

Para os portugueses, em particular para alguns dos ditos “especialistas militares” a classificação de terroristas e de ações terroristas devia ser muito cuidadosa, se o conhecimento da História fosse considerado fator indispensável à análise do presente. Em 1972 Marcelo Caetano, chefe do governo, afirmou ao general Spínola, governador e comandante-chefe na Guiné, que preferia uma derrota honrosa do que negociar com terroristas. Um afirmação que Marcelo Caetano iludiu, procurando conversações com o PAIGC, em Londres, com o MPLA através de um assessor da embaixada de Roma, e com a Frelimo através do engenheiro Jardim, que conduziu ao 25 de Abril de 1974 e ao reconhecimento dos “terroristas” como os únicos interlocutores viáveis para a independência das colónias, e que passaram a ser os políticos com quem os governos portugueses vieram a manter relações baseadas no mutuo respeito.

O governo de Israel optou pela política de Caetano afirmar que não negoceia com terroristas. A diferença é que o sionistas que dominam a máquina militar de Israel consideraram os palestinianos animais, seres que devem ser eliminados pelos homens do povo eleito, com que não podem conviver, nem negociar, embora os palestinianos sejam semitas, como os judeus. Os nazis só tinham classificado os judeus como sub-humanos e decidiram para eles a solução final das câmaras de gás. Imagina-se o que preparam os israelitas para os animais palestinianos!

O último sofisma é a introdução do Irão como base desta resistência dos palestinianos. É o inimigo do momento, como anteriormente já foram o Líbano, o Egito, a Síria, até a Jordânia, criados à medida dos interesses da grande estratégia dos EUA. O Irão foi há muito erigido como o objetivo principal e final da estratégia americana de destabilização do Médio-Oriente, que começou com a invasão do Iraque. Israel é a principal base dos EUA no Médio Oriente. É um clássico dos espetáculos de boxe: colocar um lutador em cada canto. Também é um princípio da propaganda de Goebbels: iluminar e referir apenas um inimigo, dar-lhe um rosto e um nome. Agora o que está a dar é apresentar o Hamas como o desafiador do campeão Israel! Resta, silenciada, realidade: a violência de 75 anos imposta por colonos vindos de fora anos sobre uma comunidade autóctone. Mas resta um problema sério: os Estados Unidos terão capacidade para lutar simultaneamente no Médio Oriente contra o Irão e na Eurásia contra a Rússia, na Ucrânia? Com que apoio dos EUA podem contar aqueles que fazem guerras em seu nome? Esta é a pergunta que fazem Netanyahu e Zelesnki. É de ucranianos e de palestinianos a carne que está a sofrer os efeitos do dilema dos Estados Unidos que prometeram apoio eterno e incondicional à Ucrânia e a Israel!

Desmontar as falácias do discurso de apresentar o vilão como vítima não significa a concordância com os métodos do Hamas, que reproduzem os do seu inimigo e devem merecer o mesmo repúdio, nem a preferência pelos valores e tipo de sociedade que propõe. Mas tão só a de recusar a parcialidade do discurso dominante, as grosseiras mentiras em que assenta e a comparar as soluções do sionismo para Gaza com a experiências portuguesas na guerra colonial contra organizações consideradas terroristas, mas que concentravam em si as ansias de afirmação dos seus povos, entidades portadoras de uma cultura e com direito a viver segundo os seus costumes na terra que desde sempre e sem hiatos ocuparam.

Gaza não pode ser um gigantesco massacre de Wiriamu. Mas há quem defenda que sim.









Fonte















16 outubro 2023

MEDO DO PROFESSOR DE HISTÓRIA

Quem tem medo do professor 
de história?

Na Europa, mais um professor de história morto a facadas. Por aqui, grupos de extrema-direita fazem lista de professores que supostamente "apoiam o Hamas" (em geral, trata-se de pessoas que, como nós, têm uma visão crítica em relação ao maniqueísmo da mídia). Nos últimos anos, tornou-se corriqueiro vermos docentes sendo demitidos e censurados simplesmente por dizerem verdades triviais, como a de que a ditadura militar foi uma ditadura.

Afinal, o que pode fazer um professor de história? Somos mesmo tão poderosos? Nos poucos minutos semanais com nossos alunos podemos mesmo convencê-los a se tornarem guerrilheiros? A verdade é que esses grupos têm da minha profissão uma expectativa maior do que...eu mesmo. Eu sempre tive objetivos modestos com as minhas aulas. Na universidade, espero que meus alunos sejam mais críticos, leiam e tenham noções gerais sobre a historiografia que eu trabalho; quando trabalho fora da universidade, quero apenas que as pessoas tenham gosto pela história e, talvez, leiam algum livro. Bom, a verdade é que se alguém ler alguma coisa eu já fico muito satisfeito...

Em contraste, a expectativa da sociedade sobre nós é outra: querem que sejamos heróis, gurus, profetas e tudistas com um posicionamento rápido sobre qualquer assunto. Recentemente, uma amiga foi criticada por cobrar pelo trabalho dela, como se professora fosse obrigada a fazer voto de pobreza; outro amigo foi cobrado por postar uma foto viajando, como se professor não pudesse descansar.

O que nos entristece é vermos professores/as adoecendo seja pela cobrança, seja pela censura. A solução para esse problema passa pela sociedade nos enxergar pelo que nós realmente somos: trabalhadores/as. Por isso, a nossa mensagem de hoje é: nos chamarem de “heróis” ou de “doutrinadores” são duas faces da mesma moeda! Aqueles que esperam que sejamos “tudistas” e aqueles que cobram que façamos “voto de pobreza” agem por uma lógica semelhante a dos que nos chamam de “doutrinadores”: nenhum deles nos reconhece pelo que somos, isto é, trabalhadores/as. Por isso, no dia de hoje, dispensamos mensagens fofas; deem nossa parte em direitos.

Texto de 

Daniel Gomes de Carvalho, 

@historiapirata











15 outubro 2023

SAUDADE

Soneto da Saudade

(Autor desconhecido)


Quando o tempo, indômita frieza

Tiver de neve, teus cabelos feitos

Olhando esses retratos, com certeza

Teu coração há de chorar no peito.



Terás saudades, sentirás tristezas

Verás em cinzas, sonhos desfeitos

E a esperança velhinha, com avareza, 

Colhendo as pétalas de um amor perfeito.



E irás folhando, relembrando a vida

Quando essa página amarelecida

Há de mostrar esse soneto meu.


Procurarás no arquivo da memória.

O vulto de meu nome, a minha história

Que o vendaval do tempo escureceu.

14 outubro 2023

ECLIPSE SOLAR 14 OUT 2023

ECLIPSE ANULAR DO SOL 
14/X/2023



Nos eclipses solares,  que torna a observação do breve desaparecimento do Sol tão emocionante é que ele só é visível para aqueles que estão diretamente no caminho da chamada umbra da Lua, ou seja, a parte mais escura da sombra de dentro da qual todo o disco do Sol é obscurecido. 

O território total capaz de estar dentro umbra a cada eclipse não é muito grande, são áreas entre 150 quilômetros e 250 quilômetros de extensão. Quem estiver na região onde umbra se desloca, conseguirá enxergar o fenômeno. Apenas uma pequena porcentagem do hemisfério iluminado da Terra é capaz de aproveitar a experiência ao vivo.

Hoje teremos um eclipse solar anular. Este eclipse ocorre quando a Lua, que está na maior distância da Terra e está alinhada entre a Terra e o Sol.
Por esta razão a Lua não consegue cobrir toda a área observada do Sol e poderemos ver um anel perfeito ao redor da Lua, um anel dourado ou anel de fogo. 

Este eclipse, como tos, apresenta as sombras da umbra e penumbra e será visível para observadores sortudos em partes da América do Norte, América Central e América do Sul, todavia, ao longo de uma pequena região, com aproximadamente 209 km de largura e que atravessa os Estados Unidos, México, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Colômbia e segue em direção ao sul do Brasil até se estender pelo Oceano Atlântico, o eclipse será perfeitamente anular (faixa laranja na figura a seguir).


O eclipse de hoje, começa em seu primeiro contato com a Terra, às 15h 3,7m UT, a parte central do eclipse está em 17h 36,5m UT e o último contato com a Terra é às 20h 55,2 UT (USNO, 2023). Lembre-se de que UT é o horário universal e você deve convertê-lo para o horário local.









Eclipse solar (várias fontes) 

O eclipse começará na parte da manhã no dia de hoje, 14 de Outubro, ao nascer do sol, e será primeiro observado na costa oeste dos Estados Unidos, no amanhecer, ou seja, o Sol estará ainda abaixo do horizonte. Com o passar das horas, o eclipse começa a ser visto nos outros países do continente americano, já mais alto no horizonte. 

Por fim, o eclipse será visto por último no Brasil, durante o pôr do Sol. Assim, algumas regiões não poderão ver o eclipse até o final, pois este momento pode ocorrer quando o Sol já tiver se posto. O eclipse também pode ser observado, mas não na sua totalidade, e por apenas um pequeno espaço de tempo, na costa oeste da África.

O eclipse poderá ser observado em todo o território brasileiro na sua parcialidade. 

Já a anularidade poderá ser observada nas regiões Norte e Nordeste, começando no Estado do Amazonas, passando pelo Pará, Tocantins, Maranhão, Piauí, Ceará, uma pequena parte de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba. As capitais estaduais Natal (Rio Grande do Norte) e João Pessoa (Paraíba) são as únicas que estão no caminho da anularidade.

Assim, é importante que você saiba quando a fase de anularidade ou a fase de máxima cobertura do Sol ocorrerá. Quanto mais a leste você estiver, mais proximo do horizonte oeste ocorrerá a anularidade, e quanto mais ao oeste você estiver, mais próximo do horizonte leste a anularidade ocorrerá. Assim, a fase de anularidade ocorre com o Sol em diferentes alturas conforme a posição geográfica. Lembre-se, também, de que a observação do eclipse será tanto melhor conforme o local que você escolher. Um local sem obstáculos, como edificações ou montanhas, seria o ideal. Por fim, as condições climáticas durante o eclipse também podem influenciar na observação, de forma que o fenômeno será melhor observado onde não houver nuvens.

















































Fontes





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Ed.-San José, C.R. : Ministerio de Educación Pública. 

Adolfo Constenla Umaña. 1996. Poesía Tradicional Indígena Costarricense. 

1. Ed.-San José, C.R Editorial Universidad de Costa Rica. 


Andes, C. U. D. L. (2022, 29 abril). Recomendaciones para mirar el eclipse 


Betancur Montoya, José Rodrigo. 2006. "Marcadores solares en la cultura de San Agustín". En: Boletín de Antropología Universidad de Antioquia, 

Vol. 20, N.o 37, pp. 184-205. 

Cuartas Restrepo, Pablo, Arango Arias, Leidy Y., Izquierdo Peña, Manuel 

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Cosmovisões 3 (1): 283-314. 

Inter-Tropical Convergence Zone. (2022). National Oceanic and Atmospheric 


Jubier, X. (2023). United States of America - Mexico - Brazil - Annular 

Solar Eclipse of 2023 October 14 - Xavier Jubier. 1991-2022 by 


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Time and Date. 2023. Eclipse Map - 14 October 2023. 


ASE 20231014_pg01.html 

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