Quem tem medo do professor
de história?
Na Europa, mais um professor de história morto a facadas. Por aqui, grupos de extrema-direita fazem lista de professores que supostamente "apoiam o Hamas" (em geral, trata-se de pessoas que, como nós, têm uma visão crítica em relação ao maniqueísmo da mídia). Nos últimos anos, tornou-se corriqueiro vermos docentes sendo demitidos e censurados simplesmente por dizerem verdades triviais, como a de que a ditadura militar foi uma ditadura.
Afinal, o que pode fazer um professor de história? Somos mesmo tão poderosos? Nos poucos minutos semanais com nossos alunos podemos mesmo convencê-los a se tornarem guerrilheiros? A verdade é que esses grupos têm da minha profissão uma expectativa maior do que...eu mesmo. Eu sempre tive objetivos modestos com as minhas aulas. Na universidade, espero que meus alunos sejam mais críticos, leiam e tenham noções gerais sobre a historiografia que eu trabalho; quando trabalho fora da universidade, quero apenas que as pessoas tenham gosto pela história e, talvez, leiam algum livro. Bom, a verdade é que se alguém ler alguma coisa eu já fico muito satisfeito...
Em contraste, a expectativa da sociedade sobre nós é outra: querem que sejamos heróis, gurus, profetas e tudistas com um posicionamento rápido sobre qualquer assunto. Recentemente, uma amiga foi criticada por cobrar pelo trabalho dela, como se professora fosse obrigada a fazer voto de pobreza; outro amigo foi cobrado por postar uma foto viajando, como se professor não pudesse descansar.
O que nos entristece é vermos professores/as adoecendo seja pela cobrança, seja pela censura. A solução para esse problema passa pela sociedade nos enxergar pelo que nós realmente somos: trabalhadores/as. Por isso, a nossa mensagem de hoje é: nos chamarem de “heróis” ou de “doutrinadores” são duas faces da mesma moeda! Aqueles que esperam que sejamos “tudistas” e aqueles que cobram que façamos “voto de pobreza” agem por uma lógica semelhante a dos que nos chamam de “doutrinadores”: nenhum deles nos reconhece pelo que somos, isto é, trabalhadores/as. Por isso, no dia de hoje, dispensamos mensagens fofas; deem nossa parte em direitos.
Texto de
Daniel Gomes de Carvalho,
@historiapirata
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