INÍCIO

14 outubro 2023

LGBTQIA+ SINASEFE

INTRODUÇÃO

Nenhuma forma de preconceito jamais deve ser tolerada! Especialmente num ambiente sindical, que por excelência é o espaço organizado para combate a opressões de qualquer natureza, que aviltam segmentos da classe trabalhadora. 


Neste sentido, a LGBTfobia – o ódio à pessoas que não seguem o padrão cis-heteronormativo de sexualidade – jamais deve ser tolerada e sempre deve ser combatida no âmbito do SINASEFE, com efeitos dentro e fora do sindicato. A presente Tese é uma manifestação de organização e de resistência de servidoras/es LGBTQIA+ que atuam dentro das seções sindicais do SINASEFE, ainda que tão invisibilizadas/os/es em suas existências e demandas.

Neste ano de 2023, o SINASEFE realizará seu Congresso Estatuinte, o 35º CONSINASEFE, momento em que se revê o Estatuto que rege a entidade sindical. Na 181ª Plenária Nacional, realizada no último mês de junho, conseguimos garantir um espaço na programação do Congresso para discutir a questão LGBTQIA+ e o movimento sindical, uma oportunidade para colocarmos na pauta a criação da Coordenação LGBTQIA+ no âmbito do SINASEFE e dizermos de uma vez que “não somos invisíveis”.

BREVE HISTÓRICO

A sigla que designa a população que se identifica fora do espectro cis-heterossexual possui algumas variações, de acordo com a perspectiva política adotada. 
Em nosso texto-manifesto, publicado na página do SINASEFE em agosto passado[1], decidimos utilizar o formato LGBTQIA+ (que engloba lésbicas, gays, bissexuais, transexuais/travestis/transgêneros, queer/questionando, intersex, assexuais/arromânticos/agêneros e mais), numa forma de incluir toda população que não se identifica com o padrão cis-heteronormativo, representando a pluralidade da sexualidade humana.

Temos hoje um padrão de cis-heteronormatividade segundo o qual um homem com robustez física (“militaris”, o guerreiro), socialmente responsável (“pater familias”, o profissional bem-sucedido e pai de família) ostenta uma vida sexual intensa (“virtus”, e sempre insertiva). O homem ocidental médio do século XXI é basicamente o mesmo do Império Romano: pleno de direitos e a quem o/a outro/a deve se submeter como alguém inferior[2]. Legitima-se, assim, a cultura do patriarcado. Em nome dela, todo ser humano cuja existência ousa questionar este padrão deve arcar com as consequências. 

CONJUNTURA

A LGBTfobia (o ódio a pessoas que não se encaixam no padrão cis-heteronormativo) muitas vezes se manifesta em piadinhas que ficam ainda piores diante do cenário atual em que vivemos. Este ódio se evidencia absurdamente no Brasil, e o avanço de pautas da extrema-direita, conservadora e preconceituosa, é facilmente perceptível. Os discursos de ódio, o cerceamento e desvios de recursos para políticas específicas e outras formas de manifestações realizadas no obscuro e funesto governo Bolsonaro em muito fortaleceram aquelas e aqueles que até então não tinham a coragem de se apresentar abertamente como nossos inimigos.

Neste cenário, parlamentares em todas as esferas exasperam o erário na criação e aprovação de ideias como datas comemorativas de um suposto “orgulho hétero” e/ou de apologia a valores conservadores. Tempo e dinheiro são gastos em projetos que só contribuem para o aumento da violência e do preconceito contra a comunidade LGBTQIA+ no país.

O número de mortes de pessoas LGBTQIA+ no Brasil é um dos maiores do mundo. E, em se tratando da população T (composta por travestis, transexuais e transgêneros), os números são ainda mais alarmantes. De acordo com o “Dossiê de Mortes e Violências LGBTI+ no Brasil em 2022”, da ONG Observatório de Mortes e Violências contra LGBTI+ no Brasil, registraram-se no ano passado 273 mortes violentas de pessoas em dissidência sexual ou de gênero no país, sendo 228 assassinatos cuja causa principal foi o ódio a sujeitos nesta condição[3].

Termos como “viado”, “bicha”, “maricona”, “traveca”, “sapatão”, “mulher-macho”, “machuda”; expressões como “que desperdício”, “é uma pena”, “essa nunca teve um homem de verdade”; perguntas em entrevistas de trabalho como “você é casado?” “tem filhos?” são exemplos de comentários e questionamentos que fazem parte do cotidiano de milhares de trabalhadoras/es e estudantes LGBTQIA+ e de outras identidades de gênero em nossas Instituições Federais de Ensino (IFEs).

O agravante é que este perverso e desumano cenário social também está enraizado em espaços que nasceram para promover a igualdade, o respeito e a defesa dos Direitos Humanos, como o sindicato. Nesse processo de tensões, conflitos e contradições que se impõe a nós, profissionais da Educação, a tarefa de trabalhar a convergência desses dois movimentos: o LGBTQIA+ e o sindical.

NOSSA EXISTÊNCIA

Com essa compreensão, um grupo de pessoas LGBTQIA+ que são membras de seções sindicais do SINASEFE garantiu o espaço de uma mesa temática dentro da programação do 35º CONSINASEFE, com o objetivo de debater assuntos ligados ao tema dentro do sindicato e pontuar a importância da participação de companheiras/os que se identificam como LGBTQIA+ na base do SINASEFE e, juntas/os, defendermos a criação da Coordenação LGBQTIA+ no sindicato.

Tal Tese parte do princípio de que a inclusão de pastas específicas sobre o tema deve ser considerada um avanço para nosso sindicato, visto que essa inserção vem sendo um processo lento e que ainda está em construção. Do ponto de vista sindical, as reflexões sobre gênero e diversidades sexuais ainda são recentes e não abarcam de maneira uniforme as diferentes organizações. Tem-se apontado em todas as nossas Plenárias que hoje se discutem as questões do machismo, do racismo e do fascismo em nosso sindicato, e faz-se necessário aprofundar essa discussão, mas as questões da LGBTfobia continuam sendo invisibilizadas, como que varridas para debaixo do tapete. O movimento sindical precisa compreender e abraçar a pluralidade do conjunto da classe trabalhadora, ou seja, a/o trabalhador/a jamais deve ser discriminado por um aspecto da sua existência, seja sua identidade de gênero ou sua sexualidade. Somente será possível avançar na pauta da inclusão das minorias e combate às opressões promovendo a igualdade e a inclusão da diversidade na defesa dos Direitos Humanos e no combate ao preconceito, o que justifica a criação de uma Coordenação LGBTQIA+ na estrutura do SINASEFE. 

Se hoje conseguimos nos levantar contra o preconceito e a discriminação, é necessário termos a clareza que ainda persiste o desrespeito à diversidade, e esse desrespeito às vezes transforma-se em violência verbal, física e/ou simbólica, podendo se reverter em empecilho até para a ascensão profissional. Não podemos mais dar espaço, nessa quadra da história, para que a LGBTfobia seja naturalizada nos nossos espaços de trabalho e de militância sindical! A população LGBTQIA+ já demonstra fartamente competência para ocupar espaços de disputa do movimento sindical.

Por essas razões – e tantas outras que não cabem no curto espaço – vimos nos manifestar, por meio desta Tese, pela criação da Coordenação LGBTQIA+ do SINASEFE, que se encarregará de reposicionar esta pauta no âmbito do sindicato e responder a uma demanda cada vez maior na luta contra as opressões. 

A Coordenação LGBTQIA+ do SINASEFE teria por atribuições: combater a LGBTfobia em todas as suas manifestações, principalmente no âmbito de trabalho e na luta sindical; estabelecer a representatividade LGBTQIA+ na Direção Nacional do SINASEFE; impulsionar a representatividade nas seções sindicais do SINASEFE no país inteiro; acolher e encaminhar denúncias de vítimas de LGBTfobia; propor atividades específicas de formação para a diversidade; complementar ações da Coordenação de Combate às Opressões; dar visibilidade à população LGBTQIA+ dentro do sindicato. A criação da Coordenação LGBTQIA+ do SINASEFE será demonstração do efetivo compromisso do sindicato com a batalha para superar o sistema capitalista, etapa fundamental para que possamos reconstruir as relações humanas na sociedade, no trabalho e no movimento sindical.


PROPOSTAS E ENCAMINHAMENTOS

Criação da Coordenação LGBTQIA+ do SINASEFE.

Que, no primeiro semestre de 2024, seja priorizada a realização do I Encontro LGBTQIA+ do SINASEFE, preterido em 2023. 

Que o SINASEFE se comprometa com o respeito a companheiras/os LGBTQIA+ no âmbito do sindicato.


[2] CORBIN, Alain; COURDINE, Jean-Jacques; VIGARELLO, Georges (orgs). História da virilidade. Vol. 1. A invenção da virilidade, da antiguidade às Luzes. Petrópolis: Vozes, 2013.

HITCHCOCK

ALFRED HITCHCOCK









 

TEMPUS FUGIT






 

TRABALHO

MAIS UM DIA DE TRABALHO 














 

GAROTOS PODRES

A INTERNACIONAL 
(Garotos podres)





A internacional

De pé, ó vítimas da fome
De pé, famélicos da terra
Da idéia a chama já consome
A crosta bruta que a soterra

Cortai o mal bem pelo fundo
De pé de pé não mais senhores
Se nada somos em tal mundo
Sejamos tudo ó produtores

Senhores patrões chefes supremos
Nada esperamos de nenhum
Sejamos nós que conquistemos
A terra mãe livre e comum

Para não ter protestos vãos
Para sair desse antro estreito
Façamos nós com nossas mãos
Tudo o que a nós nos diz respeito

O Crime do rico a lei o cobre
O estado esmaga o oprimido
Não há direitos para o pobre
Ao rico tudo é permitido

A opressão não mais sujeitos
Somos iguais todos os seres
Não mais deveres sem direitos
Não mais direitos sem deveres

Abomináveis na grandeza
Os reis da mina e da fornalha
Edificaram a riqueza
Sobre o suor de quem trabalha

Todo o produto de quem sua
A corja rica o recolheu
Queremos que nos restituam
O povo quer só o que é seu

Nós fomos de fumo embriagados
Paz entre nós guerra aos senhores
Façamos greve de soldados
Somos irmãos trabalhadores

Se a raça vil cheia de galas
Nos quer à força canibais
Logo verás que as nossas balas
São para os nossos generais

Pois somos do povo os ativos
Trabalhador forte e fecundo
Pertence a terra aos produtivos
Ó parasita deixa o mundo

Ó parasita que te nutres
Do nosso sangue a gotejar
Se nos faltarem os abutres
Não deixa o sol te fulgurar
P
Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A internacional

Bem unidos façamos
Nesta luta final
Uma terra sem amos
A internacional.






Canção escrita por Eugène Pottier, um trabalhador do setor de transportes e membro da Comuna de Paris, em Junho 1871.

Inicialmente era cantada ao ritmo da Marselhesa e só em 1888 recebeu música própria, composta por Pierre Degeyter, um operário anarquista.



Arriba parias de la Tierra!

¡En pie famélica legión!

Atruena la razón en marcha:

es el fin de la opresión.



Del pasado hay que hacer añicos.

¡Legión esclava en pie a vencer!

El mundo va a cambiar de base.

Los nada de hoy todo han de ser.

Estribillo: (dos veces seguidas pero con melodía diferente)

Agrupémonos todos

en la lucha final.

El género humano

es la internacional.

Ni en dioses, reyes ni tribunos,

está el supremo salvador.

Nosotros mismos realicemos

el esfuerzo redentor.

Para hacer que el tirano caiga

y el mundo esclavo liberar

soplemos la potente fragua

que el hombre libre ha de forjar.

Estribillo

La ley nos burla y el Estado

oprime y sangra al productor;

nos da derechos irrisorios,

no hay deberes del señor.

Basta ya de tutela odiosa,

que la igualdad ley ha de ser:

"No más deberes sin derechos,

ningún derecho sin deber".




BRASIL




De pé! Ó vítimas da fome
De pé! famélicos da terra
A indolente razão ruge e consome
A crosta bruta que a soterra!
De pé! De pé não mais senhores!
Se nada somos em tal mundo,
Sejamos todos, ó produtores!

Refrão:
Bem unidos, façamos,
Nesta luta final.
Uma terra sem amo,
A Internacional!

Messias, Deus, chefes supremos,
Nada esperamos de nenhum!
Sejamos nós que conquistemos
A terra mãe livre e comum!
Para não ter protestos vãos,
Para sair deste antro estreito,
Façamos nós por nossas mãos,
Tudo que a nós nos diz respeito

Refrão:
Bem unidos, façamos,
Nesta luta final.
Uma terra sem amo,
A Internacional!

Crime de rico, a lei o cobre,
O Estado esmaga o oprimido,
Não há direitos para o pobre,
Ao rico tudo é permitido
À opressão não mais sujeitos!
Somos iguais todos os seres:
Não mais deveres sem direitos
Não mais direitos sem deveres!

Refrão:
Bem unidos, façamos,
Nesta luta final.
Uma terra sem amo,
A Internacional!




Abomináveis na grandeza
Os reis das minas e da fornalha
Edificaram a riqueza
Sobre o suor de quem trabalha,
Todo o produto de sua
A corja rica o recolheu!
Querendo que ela restitua,
O povo só quer o que é seu.

Refrão:
Bem unidos, façamos,
Nesta luta final.
Uma terra sem amo,
A Internacional!

Fomos do fumo embriagados!
Paz entre nós, guerra aos senhores!
Façamos guerra de soldados!
Somos irmãos, trabalhadores,
Se a raça vil cheia de galas,
Nos quer a força canibais,
Logo verá que as nossas balas
São para os nossos generais.

Refrão:
Bem unidos, façamos,
Nesta luta final.
Uma terra sem amo,
A Internacional!

Somos os povos dos nativos.
Trabalhador forte e fecundo.
Pertence a terra aos produtores
Ó parasita deixa o mundo!
O parasita que te nutres
Do nosso sangue a gotejar,
Se nos faltarem os abutres,
Não deixa o sol te fulgurar!

Refrão:
Bem unidos, façamos,
Nesta luta final.
Uma terra sem amo,
A Internacional!





Fonte















10 outubro 2023

REPÚBLICA DE CURITIBA

Interessante para entender o contexto da luta em que se insere o companheiro Renato Freitas


O caminho que levou Curitiba a virar a capital da direita

Fabio Victor

Cidade por décadas reconhecida como modelo de urbanismo e com papel progressista na redemocratização, Curitiba emergiu na última década, com a Lava Jato e a maior votação proporcional de Bolsonaro em uma grande capital, como polo da direita brasileira. Pendor conservador tem longa tradição por lá, ligada à imigração europeia, ao pujante movimento integralista local e, mais recentemente, à influência do jornal Gazeta do Povo e do ex-morador Olavo de Carvalho.

***

No auditório da Câmara Municipal de Curitiba, o vereador Eder Borges (PP) abre o evento festejando o público. “Casa cheia. A direita está viva, mais viva do que nunca”, afirma, sob aplausos. “Essa cerimônia tem um simbolismo especial, porque a direita brasileira começou a existir por causa do professor Olavo de Carvalho.”

Na noite de 25 de abril passado, o parlamento curitibano abriu as portas para uma sessão de homenagem ao polemista que se tornou a principal referência intelectual dos eleitores de Jair Bolsonaro. Olavo de Carvalho, o “guru do bolsonarismo”, havia morrido um ano antes, aos 74 anos, nos Estados Unidos.

A ideia da homenagem foi de Borges, autor do projeto de lei aprovado pela Câmara de Vereadores que concedeu cidadania honorária a Olavo, a lei acabou vetada pelo prefeito Rafael Greca (PSD). Um dos representantes mais histriônicos da direita radical curitibana, Borges já teve o mandato cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral (depois recuperado) por publicar uma fotomontagem que associava estudantes e educadores ao comunismo.

A mesa foi composta de outros quatro homens brancos de meia-idade. Eles estavam à frente de um mural representando a formação de Curitiba: as pessoas pintadas são todas brancas e de olhos azuis (em 2019, a vereadora petista Professora Josete sugeriu incluir no painel negros e indígenas, que também construíram a cidade, mas a proposta nem foi apreciada).

Por mais de duas horas, admiradores e ex-alunos deram depoimentos derramados sobre como o homenageado mudou suas vidas. Olavo viveu por cerca de cinco anos em Curitiba, de 2000 a 2005, deu incontáveis cursos presenciais e construiu na cidade uma rede de alunos e admiradores em um momento histórico preliminar ao renascimento da direita brasileira.

Mesmo sem formação superior, lecionou inclusive em universidades locais. A PUC-PR, uma delas, informou que Olavo “nunca possuiu vínculo empregatício com a instituição” e foi  “convidado por uma instituição parceira para uma participação pontual no curso “in company” gestão de assuntos públicos, em 2004”. A Universidade Tuiuti do Paraná, onde Olavo também teria lecionado, não respondeu.

Geovani Moretto, atual coordenador dos cursos de filosofia e ciências sociais da PUC-PR, recorda que desde aquela época Olavo “tinha um grupo muito fiel, como todo dogmático tem”. “Criou uma espécie de seita. Os cursos livres dele não tinham hora para acabar, às vezes os debates se estendiam até altas horas.” Moretto ensaiou conhecer esses cursos, mas desistiu sem nem começar, depois de uma experiência curiosa.

“Um amigo marcou de encontrar Olavo e pediu para eu ir junto. Todo sábado à tarde ele ia a um bar fumar charuto e tomar uísque. Quando chegamos, a primeira coisa que ele perguntou foi onde a gente fazia filosofia”, narra Moretto. “Falamos que na PUC. Então vocês não fazem filosofia, vocês têm consciência disso, né?, ele disse de cara. Um colega perguntou onde então teria filosofia no Brasil. Não tem curso de filosofia no Brasil, ele rebateu. Mas então o que tem de filosofia no Brasil?, perguntamos. Aí ele apontou para ele.”

Primogênita dos oito filhos do polemista, Heloísa de Carvalho, que era rompida com o pai, afirma que uma das explicações para o período curitibano é que Olavo foi ajudado financeiramente por alunos milionários da cidade, sobretudo Guilherme Almeida, herdeiro da construtora CR Almeida.

Em mais de uma ocasião Olavo definiu os paranaenses como os seus melhores alunos, “notavelmente mais humildes e interessados em aprender”. Três filhos do escritor continuam a viver na cidade. Dois deles foram procurados pela reportagem, mas não responderam às mensagens.

No fim da homenagem, Eder Borges e um dos seus convidados anunciaram o desejo de criar uma entidade (o Instituto Pró-Ocidente) para manter aceso o legado de Olavo. “A esquerda dominou o Ocidente por causa da escola de Frankfurt. Precisamos criar a escola de Curitiba”, concluiu Borges.

Quatro meses depois, em 25 de agosto, o mesmo espírito animou os centenas de presentes a um centro de eventos na capital paranaense para a primeira edição do Foro de Curitiba. O trocadilho com o Foro de São Paulo, reunião de representantes da esquerda latino-americana, é um dos apelos de marketing para atrair outra boa leva de órfãos do governo derrotado em outubro de 2022.

A estrela do evento foi o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O primogênito do ex-presidente defende um projeto para retomar o poder perdido para o PT. Conta ter aprendido com Olavo a usar “um pouquinho da estratégia do lado de lá”. “Não tem outro caminho a não ser pela política.”

Aconselha evitar redes sociais, “senão você vai ser banido”. “Um pouquinho de inteligência. Manda na tua rede de WhatsApp. Não precisa atacar ninguém, não precisa ofender ninguém [...]. Não tem que ter ruptura, pancada, cabeça de ninguém na bandeja não, gente.”

A temperança vinda de um Bolsonaro choca alguns. Um homem berrou da plateia: “Mas se continuar assim daqui três anos seremos escravos! Ninguém entende isso! O senhor tem que dar uma palavra de esperança que isso mude”.

“A palavra que eu estou dando, comandante, é de organização. Não espere de mim pegar uma espada e enfiar na cabeça dos outros. Não posso fazer isso. Não vou defender isso”, respondeu Flávio.

“Quando nós pegaremos em armas?”, questionou aos gritos o “comandante”. “O caminho que eu estou defendendo é o da política. O senhor tem outro caminho, pode ficar à vontade”, retrucou o senador e foi aplaudido.

Ambos os eventos seriam espasmos naturais da derrota da extrema direita nas eleições, passíveis de ocorrer em outras cidades brasileiras: Bolsonaro, afinal, teve 58,2 milhões de votos e venceu em 13 estados e no Distrito Federal, contra 60,3 milhões de Lula, ganhador nos outros 13.

Um exame mais detalhado dos números revela, no entanto, que há algo diferente em Curitiba. Entre as principais capitais brasileiras, ou as com mais de 1 milhão de habitantes (lá vivem 1,7 milhão), foi a que deu a maior votação proporcional a Bolsonaro no segundo turno de 2022, 64,78%, mais que os 62,4% obtidos pelo candidato no Paraná como um todo.

É um raro caso em que, tendo vencido no estado, o candidato do PL se saiu melhor na capital que no interior. Em São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Santa Catarina, todos estados em que Bolsonaro ganhou, ocorreu o inverso, sua votação na capital foi menor e, em São Paulo e Porto Alegre, ele foi até derrotado por Lula.

Quem também teve uma votação melhor em Curitiba que no interior foi o senador Sergio Moro, ex-juiz nascido em Maringá que comandou a Operação Lava Jato, baseada na capital. Aqui chega-se a outra força motriz elementar do fenômeno que transformou a cidade das araucárias na capital da direita brasileira.

Ao investigar casos de corrupção na Petrobras durante governos petistas, Moro e os procuradores da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol à frente, guiaram a onda conservadora que derrubou Dilma Rousseff, impediram Lula de ser candidato em 2018 e pavimentaram a estrada que levou a Bolsonaro. Com o capitão reformado eleito, Moro largou a toga, virou ministro da Justiça e, após romper com o aliado, foi fazer política na arena adequada. Dallagnol seguiu o mesmo caminho.

Entre as duas aventuras, eclodiu a chamada Vaza Jato: a revelação de mensagens dos integrantes da operação descortinou descalabros processuais e uma ação coordenada entre o juiz e os procuradores da força-tarefa, levando o STF a anular os processos contra Lula (e boa parte das ações da Lava Jato). Para quem circulava no mundo jurídico curitibano, não foi surpresa. Moro sempre trabalhara em conjunto com o Ministério Público e a Polícia Federal.

Bem antes da reviravolta, e pouco antes de ser preso, Lula se referiu ao grupo como República de Curitiba, numa alusão à República do Galeão, que agiu para a derrubada de Getúlio Vargas em 1954. Paulo Generoso, empresário que hoje vive nos EUA e é sócio de Eduardo Bolsonaro, batizou com a expressão um movimento de apoio à Lava Jato, reunindo mais de 1 milhão de seguidores em redes sociais.

O estrago causado pela Vaza Jato respingou na capital paranaense. O ministro Gilmar Mendes, do STF, afirmou em entrevista em maio: “Curitiba gerou Bolsonaro. Curitiba tem o germe do fascismo. Inclusive todas as práticas que desenvolvem. Investigações à sorrelfa e atípicas. Não precisa dizer mais nada”. Foi um pandemônio.

Gilmar pediu escusas em rede social. “Usei uma metonímia que merece explicitação. Jamais quis ofender o povo curitibano. Não foi Curitiba o gérmen do facismo; foi a assim chamada “República de Curitiba” (Operação Lava Jato e os juízes responsáveis por ela na capital paranaense).”

Curitiba gerou o ovo da serpente.  

A própria escolha de Curitiba como sede da operação foi uma artimanha dos seus líderes, como aponta a juíza federal Fabiana Alves Rodrigues no livro “Lava Jato: Aprendizado Institucional e Ação Estratégica na Justiça”. Moro, escreveu ela, agiu estrategicamente para manter em Curitiba os casos da operação, omitindo o local de vários fatos criminosos. Foi um dos motivos para a anulação dos processos contra Lula.

Moro trata a acusação como “questões jurídicas muito específicas”. “O próprio STF afirmou a competência de Curitiba, depois é que mudou de posição, a meu ver influenciado pela política”, disse o senador.

A consolidação de cidade como epicentro da direita lavajatista reflete, segundo Moro, “essa inspiração que as pessoas têm de mais integridade da política”. “É um sentimento que nos últimos anos vem sendo atacado, mas que permanece ali latente, pronto para aflorar. E gera um sentimento de orgulho nos curitibanos e paranenses, por ver que Curitiba se tornou um epicentro mundial de combate à corrupção.”

O ex-juiz aponta também a força do agronegócio no Paraná, inclusive na região metropolitana de Curitiba, como propulsora do fenômeno. “É um meio em que essas ideologias conservadoras, os costumes liberais da economia estão mais presentes, né? O retrato do empreendedorismo, de uma economia brasileira que deu certo.”

Moro se recusou a responder sobre outros temas. Indagado quanto à possibilidade de ter o mandato cassado, encerrou a entrevista. Dallagnol não respondeu às mensagens da reportagem. Com o mandato de deputado federal cassado e em tese inelegível, filiou-se ao partido Novo junto com a esposa, Fernanda, que poderá concorrer em seu lugar à Prefeitura de Curitiba em 2024.

Fundador do instituto Paraná Pesquisas, o economista Murilo Hidalgo relata que levantamentos recentes da empresa mostraram Dallagnol como favorito na corrida à Prefeitura de Curitiba, e Moro na mesma posição para o governo estadual em 2026.

Para Hidalgo, a capital paranaense “é mais Lava Jato do que Bolsonaro”. “O curitibano é conservador: contra o aborto, a favor da família, do trabalho, da propriedade. Mas isso não tem nada a ver com ser antidemocrático.”

O Paraná Pesquisas, que foi contratado pelo PL na última eleição (mas atende partidos e políticos de vários matizes), cresceu graças à parceria com a Gazeta do Povo, iniciada em 1992. Segundo Hidalgo, é impossível entender a cidade sem entender o jornal. “Curitiba retrata a Gazeta, e a Gazeta retrata Curitiba.”

Guilherme Döring Cunha Pereira retrata ambos. Presidente do Grupo Paraense de Comunicação, que reúne, além da Gazeta do Povo, retransmissoras da TV Globo, rádios e um jornal popular, liderou a guinada conservadora da Gazeta em meados da década passada.

Comprado em 1962 pelo pai de Guilherme, Francisco Cunha Pereira, e um sócio, a Gazeta virou o principal diário do Paraná nos anos 1970. Era um jornal de extração conservadora "light". Com a morte de Francisco, os filhos Guilherme e Ana Amélia assumem, e inicia-se uma gradativa transição que ressalta os valores morais do novo comandante.

Doutor em direito pela USP, Guilherme Cunha Pereira é numerário da Opus Dei, como se chamam os fiéis celibatários da corrente ultraconservadora da Igreja Católica que se dedicam a trabalhos apostólicos e de formação.

Vive em uma casa comunitária da prelazia e, conforme revelou à reportagem em entrevista na sede do grupo de comunicação, é adepto das penitências chamadas “mortificações corporais” da Opus Dei, o cilício e as disciplinas.

O cilício é uma corrente de metal colocada ao redor da coxa com pontas viradas para dentro, comprimindo a carne, para machucar. Ele o usa diariamente por duas horas (menos em dias de festa). As disciplinas são pequenos chicotes, com os quais Cunha Pereira se fustiga uma vez por semana.

Crítico do que considera ativismo judicial do STF, o executivo ministra cursos online sobre liberdade de expressão, obrigatórios aos jornalistas que entram na Gazeta (15 aulas de uma hora e meia) e gratuitos para o público em geral. Gratuitos em termos: só é possível se cadastrar se o interessado ticar na caixinha “quero receber por e-mail reportagens em defesa da liberdade, da vida e de virtudes.”

Estes últimos quesitos estão nos cursos e na base das “convicções” da Gazeta, um conjunto de princípios em que o jornal defende “a vida desde a concepção”, “o valor da família” e “a importância do casamento”, entre muitos outros.

A partir de 2015, a Gazeta reforçou sua orientação antipetista, com editoriais criticando o partido e mais tarde estimulando o voto em Bolsonaro sem citar o nome do candidato. Um ano antes, o jornal extinguira sua edição diária impressa; hoje é 100% digital. Cunha Pereira, que se define como um “democrata de centro-direita”, diz que nunca pediu voto em Bolsonaro nem nunca visitou o agora ex-presidente.

A Gazeta, no entanto, tem como colunistas alguns dos mais fervorosos bolsonaristas, casos do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e dos jornalistas Alexandre Garcia, Rodrigo Constantino, Guilherme Fiuza e Luis Ernesto Lacombe, entre outros.
Moro e Dallagnol também integram o time. Ainda hoje um defensor fervoroso da Lava Jato, Cunha Pereira despreza críticas à operação. “Pode ter tido efeitos políticos, mas nunca enxerguei motivação política, continuo a vendo como essencialmente técnica”, afirma. “Tenho esperança de ajudar o Brasil a recuperar o legado da Lava Jato.”
Antes de ruir o castelo lavajatista, a operação e seus líderes cristalizaram uma imagem heroica pelo país, mas sobretudo em Curitiba. Moro e Dallagnol eram aplaudidos nas ruas e em restaurantes, carros circulavam com adesivos em apoio à Lava Jato e militantes acampavam em frente à 13ª Vara da Justiça Federal, no centro da capital, pedindo o impeachment de Dilma e exaltando a operação.

“A Lava Jato vem ocupar, na identidade cultural curitibana, o espaço que no passado foi de cidade modelo de planejamento urbano, que fica vazio com a saída de cena de Jaime Lerner”, interpreta Ricardo Costa de Oliveira, professor titular de sociologia da UFPR (Universidade Federal do Paraná).

Oliveira se refere ao arquiteto, engenheiro e urbanista que foi prefeito de Curitiba e governador do Paraná por vários mandatos, do fim da ditadura ao começo do século 21, e por longos anos a figura mais influente e representativa da política curitibana, símbolo de uma cidade moderna e organizada.
Rafael Greca, atual prefeito curitibano, é uma das crias de Lerner. Hoje no PSD de Gilberto Kassab, assim como o governador Ratinho Jr, Greca virou à direita a reboque da onda que assolou o Paraná e o Brasil. Disse que, certa feita, tinha vomitado ao sentir cheiro de pobre e elaborou projeto prevendo multa para quem doasse comida a moradores de rua sem autorização da prefeitura (depois retirou a multa do texto).

Amigos dizem que votou em Lula no segundo turno, e progressistas o têm como um bom gestor. Para direitistas radicais, é tido como de esquerda. Greca não quis dar entrevista.

Oliveira também observa que houve uma sintonia étnico-racial do curitibano com o líder da extrema direita. “Quando surge Bolsonaro, com olho claro, sobrenome italiano, a identificação com o fenótipo europeu é automática.” Isso apesar de quase um quarto da população curitibana ser de pretos e pardos, parcela comumente invisibilizada pela mística de “cidade europeia” com suas vastas comunidades de descendentes do Leste Europeu, de japoneses, árabes e judeus.

“Aqui em Curitiba tem um memorial ucraniano, um polonês, um alemão, um japonês, vários italianos, bairro, clubes, tem uma mesquita linda, o Museu do Holocausto. Mas não tem monumento à história dos pretos”, observa o advogado Luiz Carlos da Rocha, o Rochinha, que foi advogado de Lula e é filho de Espedito Rocha, um negro pernambucano que se radicou em Curitiba e virou um líder sindical histórico, além de artista escultor.

A visão de uma cidade de descendentes de europeus trabalhadores serviu também para plasmar a busca por uma identidade local. É nela que está assentado o ensaio “Um Brasil Diferente”, do crítico Wilson Martins, que apaga o papel de negros e indígenas na formação do Paraná e enaltece a contribuição da imigração europeia.

O fecho do livro fala por si. “Assim é o Paraná. Território que, do ponto de vista sociológico, acrescentou ao Brasil uma nova dimensão, a de uma civilização original construída com pedaços de todas as outras. Sem escravidão, sem negro, sem português e sem índio, dir-se-ia que a sua definição humana não é brasileira. [...] Assim é o Paraná. Terra que substituiu o sempre estéril heroísmo dos guerreiros pelo humilde e produtivo heroísmo do trabalho quotidiano e que agora, entre perturbada e feliz, se descobre a si mesma e começa, enfim, a se compreender.”

Anos antes de Martins escrever “Um Brasil Diferente”, a busca sôfrega por uma identidade própria produziu o paranismo, movimento surgido nos anos 1920 que, nas palavras do prefeito Rafael Greca no livro “Curitiba, Luz dos Pinhais”, foi “uma reação ética e estética ao apequenamento da nossa terra diante de São Paulo e de outras regiões do Brasil e do mundo”. Dalton Trevisan criou a lendária revista Joaquim em parte como reação ao paranismo.

Era uma época conturbada. Quando defende que Olavo de Carvalho “se aproveitou mais do conservadorismo curitibano do que o contrário”, o professor Geovane Moretto tem amparo histórico. Quase um século antes da Lava Jato, Curitiba e o Paraná tiveram, nos anos 1930, um pujante movimento integralista, a versão brasileira do fascismo italiano.

Em 1955, quando Plínio Salgado, fundador da Ação Integralista Brasileira, concorreu à Presidência, terminou apenas em quarto, com 8,2% dos votos (atrás de Juscelino Kubitschek, Juarez Távora e Adhemar de Barros). Mas o líder integralista teve no Paraná sua melhor votação em todo o país (24%) e terminou em primeiro em Curitiba (Adhemar foi o segundo, JK ficou em quarto).

A resistência à ditadura militar (1964-1985) e a mobilização pela abertura democrática marcaram um período progressista no Paraná. Em 1982, José Richa foi eleito governador pelo MDB, partido de oposição à ditadura, e governou inclusive com quadros egressos do velho partidão, o PCB. A Boca Maldita, reduto no centro curitibano, recebeu o primeiro grande comício das Diretas Já no país, em 12 de janeiro de 1984.
Os contrapontos de esquerda na terra da Lava Jato são em sua maioria do PT, como o deputado estadual Renato Freitas e a deputada federal Carol Dartora. Ela foi a primeira negra eleita vereadora da cidade em 2020 e, dois anos depois, a segunda pessoa mais votada na capital para a Câmara dos Deputados (atrás apenas de Dallagnol). “Curitiba não é só conservadora, é uma cidade muito complexa, aberta ao novo e à modernização”, afirma Dartora, que tenta se viabilizar como candidata do partido à prefeitura no ano que vem.

A noite virou outra trincheira da minoria. Durante a pandemia, o Bek’s Bar foi notícia por rejeitar a presença de eleitores de Bolsonaro. Dona do local, cujas paredes têm bandeiras do MST e a frase “fora, bolsonaristas”, Giovanna Lima assumiu o lugar após a morte do pai. “Ele votava na esquerda, mas não revelava, para não perder clientes. Honro sua memória, mas sou diferente, acho que nestes tempos não dá mais para fazer isso.”

O jornalista Rogério Galindo foi demitido da Gazeta do Povo em 2018, segundo ele, as discordâncias políticas influíram, o que Cunha Pereira refuta, atribuindo a “questões de gestão”. Em 2019, fundou com dois sócios o jornal digital Plural. “O Plural nasceu porque Curitiba tem muitas vozes, mas os jornais insistiam em amplificar sempre as mesmas”, diz Galindo. “A gente busca diversificar o debate, não queremos pregar para convertidos.”
Sempre há a arte como espaço libertário e transgressor. Curitiba abriga desde 1992 um dos principais festivais de teatro do país. Seus parques têm espaços culturais admiráveis, como o museu Oscar Niemeyer, a Ópera de Arame e a Pedreira Paulo Leminski.

Para não mencionar a vigorosa cena literária da cidade, que mescla contemporâneos como Luci Collin, Giovana Madalosso e Caetano Galindo a cults como Valêncio Xavier (1933-2008) e Manoel Carlos Karam (1947-2007) e aos consagrados Dalton Trevisan, Paulo Leminski (1944-1989) e Cristóvão Tezza.

Leminski afirmou que Curitiba era “uma cidade em que a sexualidade, o Eros da vida, é reprimido”, em que vigora “a “mística do trabalho”, herança equivocada dos imigrantes alemães, italianos e polacos”. Mas o "polacolocopaca" também dizia que jamais conseguira morar em outro lugar por muito tempo.

Numa ode ao seu modo ao torrão natal, escreveu o poema "Curitibas", que decerto faria corar muitos conservadores. 

“Conheço esta cidade/ como a palma da minha pica./ Sei onde o palácio/ Sei onde a fonte fica/ Só não sei da saudade /A fina flor que fabrica / Ser, eu sei./ Quem sabe,/ esta cidade me significa.”











08 outubro 2023

PIRAMIDION

O PIRAMIDION

Pirâmide gif

No mito egípcio da criação na forma heliopolitana da religião egípcia antiga, Benben era o monte que surgiu das águas primordiais Nu sobre as quais a divindade criadora Atum se estabeleceu. 
O piramidion que um dia encimou as pirâmides e obeliscos, se tornou a pedra Benben, a pedra sagrada que representa o Monte que surgiu das águas primordiais.

As pirâmides sofreram uma evolução desde o seu surgimento, com as primeiras e mais antigas sendo construídas de tijolos de barro secos ao sol, e posteriormente sendo substituído por blocos de pedras. Mas todas elas um dia tiveram assentado em seu topo um piramidion, uma pirâmide em miniatura representando a pedra sagrada ou o monte Benben.

Tijolos de barro com palha secos ao sol.






Heliópolis 
Heliópolis, egípcio, Jwnw, Iunu; jwnw, que significa: os Pilares; em grego antigo: Ἡλιούπολις, Hēlioúpοlis, literalmente:  Cidade do Sol. Era uma importante cidade do antigo Egito. Foi a capital do 13º provincia ou distrito Heliopolita do Baixo Egito e um importante centro religioso. Agora está localizado em Ayn Shams, um distrito no nordeste do Cairo. Heliópolis é uma das cidades mais antigas do antigo Egito, ocupada desde o Egito pré-histórico. Ela se expandiu muito durante os Reinos Antigo e Médio, mas hoje está quase totalmente destruída, seus templos e outros edifícios foram destruídos para a construção do Cairo medieval. A maior parte das informações sobre a cidade antiga vem de registros sobreviventes.

A pedra Benben, em homenagem ao monte, era uma pedra sagrada no templo de Rá em Heliópolis (Annu ou Iunu). Era o local onde os primeiros raios de sol ao nascer do Sol pela manhã tocavam o mundo, a criação. Acredita-se que tenha sido o protótipo para obeliscos posteriores, e os cumes das grandes pirâmides foram baseados no seu design. A pedra angular (a ponta da pirâmide) também é chamada de piramidion. No antigo Egito, os piramidions provavelmente eram dourados para brilhar à luz do sol. Muitas pedras Benben, geralmente esculpidas com imagens e inscrições, são encontradas em museus ao redor do mundo. 

A divindade pássaro Bennu, que provavelmente foi a inspiração para a fênix que conhecemos, era venerada em Heliópolis, onde se dizia que vivia na pedra de Benben ou no salgueiro sagrado. Segundo estudiosos, a ligação entre o benben, a fênix e o sol pode muito bem ter sido baseada na aliteração: o nascer, weben, do sol enviando seus raios em direção ao benben, no qual vive o pássaro bennu. A Enunciação 600, § 1652 dos Textos da Pirâmide fala de Atum quando você se levantou, como o benben, na Mansão do Bennu em Heliópolis.

A pedra superior de uma pirâmide real no Reino Antigo (por volta de 2613-2160 aC) e no Reino Médio (por volta de 2040-1750 aC) é chamada de piramidion. No Novo Império (por volta de 1550-1070 aC), tornou-se prática que os túmulos tivessem pequenas pirâmides de tijolos (ladrilhos) acima deles, sobre as quais eram colocadas pequenos piramidions, pedaços de pedra relativamente pequenos em forma de pirâmide. Após o Novo Império, a prática parece ter desaparecido, embora tenha reaparecido brevemente na 26ª Dinastia (664-525 aC) em Abidos. O piramidion de Wedjahor data desse período. Cada face do piramidion é decorada com uma figura do chacal Anúbis, abaixo da qual está uma figura de Wedjahor adorando diferentes deuses. As faces oeste e leste mostram formas do deus sol (sem surpresa: a forma da pirâmide é um símbolo solar), enquanto as outras faces mostram a forma de Osíris e Anúbis. Há, portanto, claramente um aspecto do objeto que é de natureza solar, enquanto outro trata da morte e da vida após a morte.

Mapa mostrando antigas pirâmides e a pirâmide negra de Dahshur.

A mídia 

O piramidion de Amenemhat III é a pedra angular que uma vez coroou a Pirâmide Negra em Dashur, no Egito. Fabricado por volta de 1850 a.C., no final da 12ª Dinastia durante o Império Médio, permaneceu praticamente intacto e agora está localizado no Museu Egípcio no Cairo.
É uma pequena pedra em forma de pirâmide que representa o bnbn ou a montanha primordial, a primeira a emergir do mar na criação do mundo, a baía do deus Atum.


O piramidion de Amenemhat III (décima segunda dinastia) é descrita em Ann. du Service des Antiquités XXX, 105 e seguintes, e III, 206 e seguintes. “É esculpido com uma regularidade singular e foi polido como um espelho... A face leste é ocupada por um belo disco alado flanqueado por dois Uraeus (cobras); entre as duas asas está gravado um grupo formado... por dois olhos, das três laudes e do disco não alado" (em cujo centro está marcado o centro do círculo): "Cada face, corresponde a uma das quatro casas do mundo (pontos cardeais), é consagrada à divindade que protege aquela casa. Aqui você reconhecerá imediatamente a disposição normal de um ponto central, rodeado por quatro guardiões dos quatro quadrantes. As linhas gravadas nas quatro faces do piramidion são diálogos entre o falecido ou seu sacerdote e as divindades guardiãs das respectivas casas: no Oriente, por exemplo: Abra a face do Rei Nimārī (nome do rei como filho de Ra, o Sol) para permitir que o Rei Amenemhat se levante como deus, senhor da Eternidade e indestrutível. Assim fala o sacerdote, e o deus Harmakhis, guardião da casa oriental, responde: Harmakhis disse: Eu dei o excelente horizonte ao rei do sul e do norte que recebe a herança das duas terras, aqui ele se dirige diretamente o rei, para que você possa se juntar a ele; assim me agradou. E o horizonte toma a palavra por sua vez. O horizonte disse que você descanse nele; assim me agradou. E da mesma forma nas outras casas. A isto deve-se acrescentar que o hieróglifo do piramidion, bnbn.t (também a ponta de um obelisco), na combinação bnbn.tj torna-se um epíteto do Deus Sol, “Ele, o da pirâmide”.

O rei morto é assim aceito ao mesmo tempo pelas quatro faces ou pelo aspecto quádruplo do Sol, e se identifica com o Sol, enquanto os dois reinos, o norte e o sul, são chamados de o Céu e a Terra, cuja herança ele recebe. o próprio piramidion, que representa não apenas o túmulo, mas também a encarnação cósmica ou morada do rei ressuscitado, torna-se agora um membro do corpo místico do Sol. Como se poderia dizer, o ápice da pirâmide, que é também o Sol, é arquitetonicamente o único princípio sobre o qual todo o resto do edifício é construído e que existe de forma mais eminente.  Bnbn.t é também a ponta de um obelisco, que corresponde ao Pilar do Sol.

A Pirâmide Negra de Dashur foi a primeira pirâmide construída por Amenemhat III (do Reino Médio do Antigo Egito) durante o início de seu reinado. Infelizmente, o faraó não atendeu aos avisos da história e, portanto, esta pirâmide está agora num estado bastante precário. É conhecida como Pirâmide Negra devido à cor do núcleo de tijolos de barro revelado pelos blocos de revestimento perdidos, mas era conhecida pelos Antigos Egípcios como “Amenemhat é poderoso e perfeito”, um nome que deve ter parecido cada vez mais irônico à medida que a estrutura começou desmoronar logo após sua construção.

The pyramidion, carved out of single piece of basalt (often called black granite), is mostly intact apart from a broken corner. With a height of 1.40 metres (4.6 ft) and base length 1.85 metres (6.1 ft), it weighs around 4.5 tonnes (9,900 lb). The bottom edges are undercut to keep the block in position atop the pyramid.


Some 5 years after De Morgan’s work in October 1900 the above pyramidion was
found in the vicinity of the pyramid temple, and in excellent condition. Arnold gives the calculable angle as 54° 30’. Arnold would comment on the condition of the pyramidion; “The good state of preservation of the surface gives rise to astonishment when one consider that the top of the pyramid has demonstrably been exposed to wind and weather up to the Armarna period, i.e. almost 500 years. The erasure of the Amun name in the royal cartouches shows, however, that the pyramidion in the Armarna period was not yet a discarded block in the temple rubble, but was still standing as a monument. For it can hardly be assumed that the persecutors of the Amun name also tampered with shattered monuments that were to be regarded as destroyed anyway. On the other hand, the question arises as to how Akhenaten’s emissaries could know that the pyramidion, when it was still in its place 75m above the pyramidal foot contained the Amun name, and how they could have climbed a rather steep pyramid if it hadn‟t already lost part of its casing.”
The good condition of the pyramidion concerned O. Firchow, who suggested that it may not have been fitted and that the pyramid was unfinished. Arnold would counter that the completeness of the rest of the pyramid complex, rather suggested that it was finished. The condition of the pyramidion is a concern to me; might we not expect more damage to it if it was dislodged and tumbled some 75m? If fitted it had a 1 in 4 chance of being found in the temple area; but the possibility cannot be discounted that the pyramidion always resided inside the temple; protected and easily found by Akhenaten’s men who had easy access to erase the Amun element
out of the cartouches. If we accept De Morgan’s view that the pyramid resembled the Bent pyramid, then it is likely that any pyramidion that capped this upper section would display a shallower angle. (Hamilton, 2020)

O texto acima diz que: “Cerca de 5 anos após o trabalho de De Morgan, em outubro de 1900, o pyramidion da foto acima foi encontrado nas proximidades do templo da pirâmide e em excelentes condições. Arnold fornece o ângulo calculável como 54°30’. Arnold comentaria sobre a condição do pyramidion: “O bom estado de preservação da superfície causa espanto quando se considera que o topo da pirâmide esteve comprovadamente exposto ao vento e às intempéries até o período Amarna, ou seja, quase 500 anos. O apagamento do nome Amon nas cartuchas reais mostra, no entanto, que a pirâmide do período Amarna ainda não era um bloco descartado nos escombros do templo, mas ainda permanecia como um monumento. Pois dificilmente se pode presumir que os perseguidores do nome Amun também mexeram em monumentos destruídos que, de qualquer maneira, seriam considerados destruídos. Por outro lado, surge a questão de como os emissários de Akhenaton poderiam saber que o pyramidion, quando ainda estava em seu lugar 75m acima da base piramidal, continha o nome de Amon, e como eles poderiam ter escalado uma pirâmide bastante íngreme se ela já não tivesse perdido parte de seu invólucro. O bom estado do pyramidion preocupou O. Firchow, que sugeriu que este pode não ter sido encaixado em seu local definitivo e que a pirâmide estava inacabada. Arnold é contrário diz que a integridade do resto do complexo da pirâmide sugeriria que a pirâmide estava concluída. A condição do pyramidion é uma preocupação para mim; não poderíamos esperar mais danos se ele fosse desalojado e tombasse cerca de 75 metros? Se instalado, tinha 1 chance em 4 de ser encontrado na área do templo; mas não se pode descartar a possibilidade de que o pyramidion sempre tenha residido dentro do templo; protegido e facilmente encontrado pelos homens de Akhenaton que tiveram fácil acesso para apagar o elemento Amon dos cartuchos. Se aceitarmos a visão de De Morgan de que a pirâmide se assemelhava à pirâmide curvada (bent pyramid), então é provável que qualquer pyramidion que cobrisse esta seção superior apresentaria um ângulo mais raso.

Gallery number: Central Hall, Ground Floor.
Período: Reino Médio (Middle Kingdom) 
Dinastia: XII dinastia - (1842 - 1794 a.C.) 
Tamanho: altura: 140 cm, Max largura: 185 cm 
Local da descoberta: Dahshur 
Material: Basalto (polido) (museudocairo)



Capstone (Pyramidion) of the Black Pyramid at Dashur (1850 BC), also known as Pyramid of King Amenemhat III (1860-1814 BC), 12th Dynasty during Middle Kingdom, ancient Egypt. It was discovered in 1900 AD, during archaeological excavations, by then-director of Department of Antiquities Gaston Maspero, on the east side of pyramid of Amenemhat, a grey block was found sticking out of the sand, which, upon closer inspection, was decorated with beautiful inscriptions. After excavation, pyramidion was transported to the Egyptian Museum in Cairo. Capstone carved out of single piece of basalt (black granite), mostly intact apart from a broken corner. With a height of 1.40m and base length 1.85m, it weighs around 4.5 tonnes. Bottom edges are undercut to keep block in position atop the pyramid. Four upper faces were polished and inscribed. Side which pointed to east is adorned with a winged sun disk flanked by two uraei. Below, two wedjat represent eyes of king himself. Further down, three nefer signs stand for beauty or perfection. Finally, a sun disk represents god Ra, from which throne name of Amenemhat "Ni-maat-re" extends to right and his personal name "Imen-em-hat" to left. As a whole, composition reads: "Amenemhat beholds perfection of Ra". (archeohistories)






Inscriptions

The four upper faces were polished and inscribed. The side which pointed to the east is adorned with a winged sun disk flanked by two uraei. Below, two wedjat represent the eyes of the king himself. Further down, three nefer signs stand for beauty or perfection. Finally, a sun disk represents the god Ra, from which the throne name of Amenemhat "Ni-maat-re" extends to the right and his personal name "Imen-em-hat" to the left. As a whole, the composition reads: "Amenemhat beholds the perfection of Ra".

Along the bottom of the four upper faces, two lines of inscriptions run:

Eastern Face

No topo há um disco solar 


The eastern commences with: (top row) “Words spoken, may the sight be open to the king of upper and lower Egypt, the lord of the two lands, Nimaatre, so he may see the lord of the horizon and his crossing of the upper sky. May it be given the appearing to the Son of Ra, Amenemhat, as a god, lord of everlasting and indestructible. (bottom row) Word spoken, by the sovereign, I have given the beautiful horizon, the Two Ladies (Nekhbet and Wadjet), and he who takes the inheritance of the two lands, so you may rest upon it, which pleases the sky. Word spoken by the horizon: may you rest upon it, which please the sky”.


Northern Face

The northern commences with: (top row) “Word spoken, higher is the Ba of the king of upper and lower Egypt, Nimaatre, than the height of Orion as it joins the Duat. Ra-Horakhty, he makes firm, the Son of Ra, of his body, Amenemhat, who is in the midst of the northern starry sky, and Neith who is content concerning it”. (bottom row - starting from the centre proceeding to the left) The living Horus, great of might, the Two Ladies (Nebty), who inherited the two lands, the golden Horus - enduring of life, the Son of Ra - Amenemhat, given life, like Ra, forever. (back to the center proceeding to the right) The living Horus, great of might, the Two Ladies, who inherited the two lands, the golden Horus, enduring of life, the king of Upper and Lower Egypt, Nimaatre, given life, like Ra, forever”.


Western Face

The western commences with: (top row) ”… the great one, the ribs of Osiris, lord of the Thinite nome, that are under the feet of the good god, the lord of the two lands and of doing, the son of Ra, of his body, Amenemhat. Ptah, who is south of his wall, the lord of truth and the beloved Ankhtawy (the living two lands)… (bottom row) Word spoken by Ptah, given all life, stability, power, to the good god, the golden Horus - enduring of life, Nimaatre. Words spoken by Sokar-Osiris, lord of all the living god, of…”


Southern Face

The southern commences with: (top row) ”Words spoken by, Imiut/Anubis, he who has upon his mountain, and behind the king of upper and lower Egypt, the lord of doing Nimaatre, united with the western desert inside the great shrine. The lord of good offering, who is in it and given it, his inheritance. The lord of eternity and for everlasting. (bottom row) Word spoken by Imuit/Anubis, I have given all places, good, pure and the spirit of the beautiful west to the king of upper and lower Egypt, the lord of the two lands, Nimaatre, commanding to him, may you rest the upon it, word spoken by the beautiful west, may you rest the upon it”.

The name of the god Amen in Amenemhat's cartouches has been erased. If this was done during the reign of Akhenaten in the 18th Dynasty, the pyramidion may have laid on the ground since c. 1350 BC. The relative lack of damage raised the question whether or not it had ever been on top of the pyramid.






A rare intact pyramid capstone; it is one of the few known in existence. The capstone belonged to the Black Pyramid, which was built by King Amenemhat III, c 1850-1800 BC.

The hand carving shows a solar disc with two cobras and outstretched wings (sign of protection) on each side. Below are two eyes (which refers to “seeing”) and below that is the hieroglyph for “beauty” and finally below that is the hieroglyph for the “sun disc of Ra” (the ancient Egyptian deity of the sun). Put that all together and it reads: “Seeing the beauty of Ra”.

Now we move to the left, which reads: “The Son of Ra, Amenemhat (in cartouche), given life forever.”

Now go back to the center and read right: “King of Upper and Lower Egypt, Nimaatre (in cartouche), given life forever.”

The second line reads from right to left: “May the face of the king of Upper and Lower Egypt, Nimaatre, be opened so that he may see the Lord of the Horizon (Horakhty, Horus of the Horizon) when he crosses the sky; may the Lord of the Horizon cause the Son of Ra, Amenemhat, to shine as a god, lord of eternity and indestructible.”

The third line reads from right to left: “The Lord of the Horizon has said: I have given the beautiful horizon of the Two Ladies (Nebty) and Itjijautawy (He who inherited the Two Lands), so that you may unite with the horizon; the horizon has said that you rest upon it, which pleases me.”

Tradução 

Um raro cume de pirâmide intacto; é um dos poucos conhecidos que existem. A pedra angular pertencia à Pirâmide Negra, que foi construída pelo Rei Amenemhat III, c 1850-1800 AC. 

A escultura manual mostra um disco solar com duas cobras e asas estendidas (sinal de proteção) de cada lado. Abaixo estão dois olhos (que se referem a “ver”) e abaixo deles está o hieróglifo para “beleza” e finalmente abaixo está o hieróglifo para o “disco solar de Rá” (a antiga divindade egípcia do sol). Junte tudo isso e lê-se: “Vendo a beleza de Rá”. 

Agora vamos para a esquerda, onde se lê:  “O Filho de Rá, Amenemhat (na cartucha), dado vida para sempre.” Agora volte ao centro e leia à direita: “Rei do Alto e Baixo Egito, Nimaatre (na cartucha), dado vida para sempre.” A segunda linha diz da direita para a esquerda: “Que a face do rei do Alto e Baixo Egito, Nimaatre, seja aberta para que ele possa ver o Senhor do Horizonte (Horakhty, Hórus do Horizonte) quando ele cruzar o céu; que o Senhor do Horizonte faça com que o Filho de Rá, Amenemhat, brilhe como um deus, senhor da eternidade e indestrutível.”

A terceira linha diz da direita para a esquerda: “O Senhor do Horizonte disse: Eu dei o belo horizonte das Duas Senhoras (Nebty) e Itjijautawy (Aquele que herdou as Duas Terras), para que você possa se unir ao horizonte; o horizonte disse que você descansa sobre ele, o que me agrada.”


Fonte