INÍCIO

30 junho 2022

HOMOSSEXUALIDADE EM PLATÃO

A HOMOSSEXUALIDADE EM PLATÃO
Leia o artigo original na Revista Lado A







Symposium de Platão. Anselm Feuerbach; Google Cultural Institute.

Platão nasceu na Grécia, em 427 antes de Cristo, viveu oitenta anos e escreveu inúmeras obras, sob forma dialogada, em que Sócrates corresponde, geralmente, ao principal interlocutor. No diálogo “O banquete”, Platão trata do amor, mediante os diálogos dos partícipes de uma ceia, que intervém sucessivamente, cada qual expondo a sua teoria a respeito. Assim, manifestam-se (pela ordem) Faidros, Pausânias, Erixímacos, Aristófanes, Agatão (o anfitrião), Sócrates e Alcebíades.

Recorte da obra: A escola de Athenas de Rafael Sanzio. Detalhe de Platão, apontando para cima, o mundo das ideias (hiperurânia) e Aristóteles mostrando as coisas existentes, a realidade.

Busto de Platão

Resenho aqui os argumentos dos intervenientes relativos à homossexualidade, desiderato para o qual servi-me da tradução publicada em 1952, pela Companhia Espasa-Calpe, de Buenos Aires, na Coleção Austral. Há inúmeras traduções em português, publicadas no Brasil, pelo que, o leitor interessado facilmente acederá ao texto original.

A antigüidade grega, a que pertenceu Platão, caracterizava-se pelo politeísmo, crença em inúmeros deuses, a cada um atribuindo-se a responsabilidade por certos fenômenos, como o deus Amor, responsável pelo sentimento de afeição entre as pessoas; assinalava-se, ainda, pela bissexualidade masculina, em que aceitavam-se as relações sexuais de homens com mulheres e com homens, e pela pederastia, relacionamento entre o erastes e o erômenos: aquele, mais velho de 25 anos, procurava um moço de entre 12 e 15 anos (o erômenos), a quem, sob a aprovação dos respectivos pais, servia de amigo e educador até os seus 18 anos, quando a relação passava a ser de amizade, exclusivamente, sem conteúdo sexual que, de resto, não compreendia penetração anal e sim o coito interfemural (fricção do pênis entre as coxas, junto da genitália).

A assim chamada homossexualidade grega encarnava um costume altamente moral de finalidade educadora; a intimidade física entre o erastes e o erômenos verificava-se no âmbito de uma relação, antes de tudo, formadora do caráter do mais moço, em que o mais velho desempenhava um papel significativo na transmissão de valores. Nada disto se reproduziu nas demais sociedades, ao longo da história, e não se reproduz nas sociedades homofóbicas: longe de encarnar uma simples forma de satisfação genital, a pederastia grega encarnou uma elevada espécie de relacionamento humano que muitos autores verberaram por ignorarem o seu aspecto educador ou, mais provavelmente, por entenderem-no como licença institucionalizada à penetração anal (o que, na verdade, não o caracterizava).

Na Grécia antiga, a homossexualidade não equivalia ao que modernamente designa-se por este vocábulo: na atualidade, ele indica a atração de homens por homens e a sua conseqüência propriamente sexual, a penetração do pênis no reto, ao passo que na Grécia antiga a cópula homossexual considerava-se desprezível e somente se admitia entre um grego e um escravo, respectivamente nos papéis de ativo e passivo.

O advento do cristianismo provocou a censura da homossexulidade, o fim da pederastia grega, e a instauração da homofobia que por séculos vem caracterizando as sociedades ocidentais.

Autor da primeira fala do texto de Platão, Faidros, reputa o Amor como o mais antigo dos deuses e o que mais benefícios propicia aos homens, o mais apto para felicitar o ser humano e torná-lo virtuoso, durante a sua vida e após a sua morte, “pois, diz ele, não conheço vantagem maior para um jovem do que ter um amante virtuoso”. O Amor inspira o que é necessário para levar-se uma vida honrosa, a saber, a vergonha do mal e o desejo do bem: se um Estado ou um exército se compusessem apenas de amantes e de amados, não haveria povo que professasse tanto horror ao vício e apreciasse tanto a busca da virtude.

“Homens unidos assim, ainda que poucos, poderiam vencer aos demais”: nenhum deles desejaria ser observado pelo seu amante, em rendição ou em debandada; ao contrário, “preferiria morrer mil vezes a abandonar em perigo o seu bem-amado e deixá-lo sem auxílio”. Por isto, “unicamente os amantes são os que sabem morrer um pelo outro”, trate-se de homens ou de mulheres, como foi o caso de Aquiles, que defendeu Pátroclo, vingou-o à custa da própria vida e morreu-lhe sobre o corpo, abnegação pela qual os deuses tributaram-lhe mais honras do que a qualquer outro homem.

A seguir, Pausânias distingue dois tipos de amor, o popular e o celestial, dos quais o primeiro inspira baixezas, “reina entre os maus, que amam sem seleção tanto às mulheres quanto aos jovens, o corpo mais que a alma”, que aspiram unicamente “ao gozo sensual”, para cuja obtenção lhes são indiferentes os meios, contanto que obtenham os seus propósitos.

Por sua vez, o amor celestial inspira exclusivamente o amor aos homens, especificamente aos jovens, cuja inteligência principia a desenvolver-se, ou seja, os adolescentes. “O seu objeto não é o de aproveitar-se da imprudência de um jovem amigo e seduzi-lo para deixá-lo depois, e, rindo-se da sua vitória, correr em busca de outro qualquer; unem-se com o pensamento de não separarem-se mais e de passarem toda a vida com o que amam”.

Acerca das relações sexuais entre os amantes (masculinos), pondera que na Élida e na Beócia, “é bom conceder os seus favores a quem nos ama; a ninguém, jovem nem velho, isto parece mal”, enquanto na Jônia e nas regiões submetidas ao domínio dos bárbaros [os persas], tal costume reputa-se vergonhoso e proscrito, juntamente com a filosofia e a ginástica: “É porque os tiranos, indubitavelmente, não querem que entre os seus súditos surjam indivíduos de grande valor, nem amizades nem uniões vigorosas, que são as que forma o Amor”. Assim, “nos Estados em que se considera vergonhoso conceder os seus favores a quem nos ama, procede esta severidade da iniqüidade dos que a estabeleceram, da tirania dos governantes e da covardia dos governados”.

Já em Atenas, preferia-se amar às claras a fazê-lo à socapa, e aos homens virtuosos e generosos, ainda que menos bonitos; reputava-se belo conquistar-se o afeto do amante e humilhante não o obter, propósito para o qual admitiam-se todos os meios: súplicas, lágrimas, juras, baixezas, que em outras circunstâncias, seriam vexatórias, e que, no caso do amante, “quadram-lhe maravilhosamente”.
Todos, naquela cidade, achavam-se persuadidos de ser louvável “amar e ser amigo do amante”.

Não é honroso, prossegue Pausânias, concederem-se favores sexuais a um homem vicioso e por maus motivos, sendo-o, em contrapartida, fazê-lo por boas causas, a um homem praticante da virtude. É homem vicioso o amante que ama o corpo, de preferência à alma: “seu amor não poderá ser duradouro, pois ama algo que não dura”, “porém o amante de uma bela alma permanece fiel por toda a vida porque ama o que é duradouro”; por isto, os costumes induzem a que se examine a pessoa (nos seus caráter e comportamento), antes de comprometer-se com ela.

Também considerava-se decoroso um indivíduo servir sexualmente a quem o amava, retribuindo o primeiro, se desejasse adquirir conhecimento e instrução, ao segundo, se capaz, este, de infundir-lhe ciência e virtude. É honroso, destarte, amar, na busca do melhoramento pessoal, por meio da amizade, o que é “benéfico para os particulares e para os Estados e digno de ser o objeto dos seus principais estudos, pois obriga o amante e o amado a zelar por si próprios a fim de esforçarem-se por ser mutuamente virtuosos”.
Toma a palavra Aristófanes, que explica a origem da homossexualidade (masculina e feminina) e da heterossexualidade: havia, antanho, três tipos de seres humanos, dos quais, um correspondia aos homens; outro, às mulheres, e um terceiro, a uma criatura mista, masculina e feminina, denominada de andrógino.

Todos os humanos apresentavam-se como duplos, dotados de quatro braços, outro tanto de pernas e duas faces em uma só cabeça, até Júpiter desmembrá-los, transformando-os em criaturas singulares: a partir de então, cada metade procura a outra, que lhe corresponde; ao se encontrarem, copulam entre si, uma metade masculina com a feminina, ou duas masculinas ou duas femininas, o que originou, respectivamente, os heterossexuais, as tríbades e os gueis.

“Os homens procedentes da separação dos homens primitivos, buscam, de igual maneira, o sexo masculino. Enquanto são jovens amam aos homens, desfrutam dormindo com eles, com estar em seus braços e são os mais destacados dentre os adolescentes e os adultos, como se possuíssem uma natureza muito mais viril. Sem razão alguma, acusa-se-os de não terem pudor, e não é por falta de pudor que procedem assim; é porque possuem uma alma corajosa e valor e caráter viris, que buscam aos seus semelhantes, e a prova disto é que, com a idade, mostram-se mais aptos para o serviço do Estado do que os outros. Quando chegam à idade viril, amam, por sua vez, aos adolescentes e jovens, e se se casam e têm filhos, não é por seguir os impulsos da sua natureza, senão porque a lei constrange-os a tal. O que eles querem, é passar a vida em celibato, juntos uns dos outros”.

Quando um destes homens encontra outro, ou a sua metade, “a simpatia, a amizade e o amor” despontam em ambos, “de maravilhosa maneira”, sem que os prazeres voluptosos pareçam corresponder à causa disto.

Graças ao amor, prossegue Aristófanes, os homens e as mulheres serão felizes se encontrarem a sua metade e tornarem ao seu primitivo estado de união que, se correspondia ao melhor, o que mais se aproximar dele deve equivaler, necessariamente, também ao melhor.

Concluída a fala de Aristófanes, reúne-se Alcebíades ao grupo de comensais, para alarme de Sócrates, que bradou ao anfitrião: “Socorro, Agatão! O amor deste homem é-me um verdadeiro apuro. Desde que passei a amá-lo, não posso observar nem falar a nenhum outro jovem, sem que, por despeito ou zelos, entregue-se a excessos incríveis”.
Após enaltecer as qualidades de Sócrates, observa Alcebíades: “Vede o ardente interesse que Sócrates demonstra pelos belos mancebos e adolescentes e com que paixão busca por eles, e até que ponto eles o cativam”.

Supondo Alcebíades que Sócrates interessava-se pela sua beleza, acreditou que, cedendo-se-lhe sexualmente, ele comunicar-lhe-ia o seu conhecimento: tentou seduzi-lo em diversas circunstâncias, fracassadamente, até resolver expor-lhe os seus intuitos: “Penso que tu és o único amante digno de mim e parece-me que não te atreves a revelar-me os teus sentimentos. Da minha parte, posso assegurar-te que seria bem pouco razoável se não buscasse comprazê-lo nesta ocasião, como em qualquer outra em que pudesse ficar-lhe agradecido, por mim próprio, como por meus amigos. Não tenho maior empenho do que aperfeiçoar-me o quanto seja-me possível e não vejo ninguém cujo auxílio para isto possa ser-me mais proveitoso do que o teu.”

Respostou-lhe Sócrates, ponderando-lhe que trocariam valores desiguais, o da beleza física pela aquisição da sabedoria, após o que, Alcebíades apressou-se a abraçá-lo e passaram juntos a noite. A seguir, Sócrates desdenhou-lhe da beleza e insultou-a, o que originou queixas de Alcebíades, das quais, e dos abundantes elogios que formulou a Sócrates, resultou, da parte dos comensais, a impressão de que prosseguia enamorado dele.



SOBRE O AUTOR
Redação Lado A
A Revista Lado A é a mais antiga revista impressa voltada ao público LGBT do Brasil, foi fundada em Curitiba, em 2005, pelo jornalista Allan Johan e venceu diversos prêmios. Curta nossa página no Facebook: http://www.fb.com/revistaladoa
















II



A HOMOSSEXUALIDADE NA GRÉCIA ANTIGA E SUAS REPRESENTAÇÕES NA ARTE

Leia a matéria original no site: 






É importante ressaltar de início que a sociedade grega não distinguia entre desejo e comportamento sexual com base no gênero de seus participantes. É, portanto, impossível conceber a ideia de duas sexualidades distintas: a hetero e a homossexualidade. Tampouco, é possível referir-se a uma bissexualidade. Para o grego antigo, tais demarcações são inexistentes, há apenas uma única tendência do desejo: “por aqueles que são belos qualquer que seja o seu sexo” (FOUCAULT, Michael). Para os propósitos desse trabalho, contudo, tais demarcações serão utilizadas. E, ainda, o termo homossexualidade deve ser entendido, a menos que especificado o contrário, como a relação entre dois homens.

O amor homossexual na Grécia Antiga teve seus aspectos muito explorados por filósofos e poetas – como Heródoto, Platão, Ateneu, dentre outros –, foi representado em diversas pinturas de cerâmicas e encontra-se presente, ainda, em alguns mitos da civilização.

A forma mais difundida e socialmente significativa da relação sexual íntima entre membros do mesmo sexo ocorria entre adultos e adolescentes, conhecida como pederastia.

Não se conhece precisamente sobre as relações homossexuais envolvendo mulheres na sociedade grega, porém existem exemplos que datam de 630-560 A.C na Grécia, época da poetisa Safos, da Ilha de Lesbos, que escreve obras que são considerados uns dos primeiros documentos acerca da lesbianidade. Seus poemas sobre o amor sexual, emocional e platônico entre ela e outras mulheres e a sua propagação através dos séculos, deram origem ao termo que designa o relacionamento entre duas mulheres.

A maior parte dos vestígios pictóricos que sobrevivem da Grécia Antiga se encontra na vasta produção de vasos que possuíam funções tanto decorativas quanto utilitárias. Foi apenas após os períodos Protogeométrico e Geométrico, que as cerâmicas gregas passaram a retratar figuras humanas, aderindo também à representação de temas românticos e eróticos, tanto homossexuais quanto heterossexuais. É do período clássico, portanto, que datam a maioria das cerâmicas encontradas.

Dentre esses temas, os motivos mais comuns em vasos são geralmente interpretados como o cortejo de jovens por homens ou, em casos menos frequentes, por outros jovens. É comum a representação de homens mais velhos oferecendo presentes a um mais novo – entre os presentes oferecidos são vistos lebres, veados, coroas, flores, mantos, e até mesmo bolsas de moedas, sugerindo que a linha divisória entre a doação de presente e a prostituição pode ser tênue. A conquista também ocorria através da demonstração de habilidades, principalmente habilidade musical. A progressão do mero cortejo ao contato físico é retratada em grande variedade: toques no queixo, nos ombros, nas nádegas e carícias no órgão genital.

Muitos dessas cerâmicas incluíam também pequenos registros enaltecendo a beleza do garoto ou jovem, nomeando-o ou não, representado na pintura. Não sendo tão comum, contudo, esses tipos de inscrições em objetos com representações femininas, possível indicador de que a expressão de admiração pela beleza masculina era mais comum na sociedade grega.

Desenvolvimento:

Como já estabelecido, os desejos sexuais na Grécia, não eram delimitados pelos gêneros aos quais se dirigiam. Para os gregos, não se tratava de classificar os prazeres como bons ou maus, permitidos ou interditados; a moral sexual grega era medida na intensidade dos prazeres – ou seja, a preocupação consiste em manter-se num equilíbrio; o cidadão grego deveria ser mestre de seus desejos – e na conformidade destes às normas sociais.

Acadêmicos alegam que esta sociedade era altamente polarizada em parceiros – tanto em relações hetero quanto homossexuais – “ativos” e “passivos”, o ”penetrador” e o ”penetrado”. Polarização esta que era associada com os papeis sociais de dominação e submissão. O papel de dominação era assumido pelos cidadãos gregos – por definição homens livre e maiores de idade nascidos na Grécia – enquanto o de submissão era assumido pelas mulheres, os escravos, as prostitutas, jovens rapazes e estrangeiros. Assim, de acordo com este ponto de vista, qualquer atividade sexual onde um homem penetrasse um inferior social seu era tida como normal, enquanto ser penetrado por este, era considerado potencialmente vergonhoso.

O papel ativo estava associado com a masculinidade que por sua vez estava associada a status sociais mais elevados e a idade adulta, enquanto o papel passivo era associado a feminilidade, ligada a status sociais mais baixos e a juventude. Tais características, ainda, eram baseadas nas ideias de calor corporal. Segundo Richard Sennett:


“Na Grécia, acreditava-se que ‘macho’ e ‘fêmea’ constituíam dois pólos de um continuum corporal (…). Detendo-se sobre a visão helênica, Laqueur afirma que ela, ‘no mínimo, estabelece tamanha correspondência entre os sexos, que os limites entre macho e fêmea são de grau, e não de espécie (…) o corpo tem um único sexo’. Precariamente aquecidos, fetos masculinos tornam-se homens afeminados; fetos femininos excessivamente aquecidos dão origem a mulheres masculinizadas.”  (RICHARD SENETT – CARNE E PEDRA)

Ainda, as relações extraconjugais, ao menos teoricamente, eram direito apenas do homem. O status do homem livre era, por essência o de pertencimento apenas a si próprio, “o casamento não o liga sexualmente.” (FOUCAULT, Michael). A esposa – e mulheres no geral -, por outro lado, ocuparia seu lugar em relação ao marido; um lugar de submissão, que presta serviço ao homem:


“As cortesãs, nós as temos para o prazer, as concubinas, para os cuidados de todo o dia, as esposas, para ter uma descendência legítima e uma fiel guardiã do lar.”

Foucault apud Demóstenes

Existem, contudo, poucos registros a respeito de como as mulheres viam tais práticas extraconjugais.

Em Atenas, o ato de pederastia era um rito de passagem para a vida adulta e formação moral para os jovens, que combinava sua preparação para o futuro e o amor metafísico, só conhecido entre dois homens.

O menino mais novo (denominado também como o amado ou erômeno), que teria entre 12 e 18 anos, era conquistado por seu amante (o homem mais velho, chamado de erastes), que normalmente não fazia parte de sua família. O amante tinha o papel de educar, proteger, amar e agir como um exemplo para seu amado, e mesmo depois de alguns anos e terminadas as relações sexuais entre ambos, com a maioridade do amante, permaneciam os laços de amizade.

“O seu objetivo não é o de aproveitar-se da imprudência de um jovem amigo e seduzi-lo para deixá-lo depois, e, rindo-se da sua vitória, correr em busca de outro qualquer; unem-se com o pensamento de não separar-se mais e de passarem toda a vida com o que amam”.(Platão)




Apesar de serem aceitáveis as relações de pederastia que aspiravam a formação do jovem – caracterizada como um amor celestial e metafísico – a pederastia carnal, que amasse mais o corpo que a alma, era muito mal vista pela sociedade clássica. É homem vicioso o amante que ama o corpo: “seu amor não poderá ser duradouro, pois ama algo que não dura”, “porém o amante de uma bela alma permanece fiel por toda a vida (…).” (Pausânias)

Quanto às práticas sexuais, no caso da pederastia, incluíam tanto penetração anal (o jovem assumindo o papel de passivo) quanto penetração interfemural (fricção do pênis entre as coxas, junto da genitália).

Em Esparta, a pederastia também fazia parte da educação, sendo recomendado aos jovens da aristocracia que tivessem amantes do mesmo sexo. O hábito mais usual era a pederastia na qual os mais velhos deviam ensinar aos mais jovens os métodos do sexo.

Nos ginásios, local de convívio social e treinamento de atletas espartanos, era mais comum a formação de relações entre jovens de idades mais aproximadas. Porém, ainda nesses casos, a diferença entre os papeis do eraste e do erômero tinha a idade como fator decisivo.

Vários registros pictóricos retratam tais situações














Como iguais, os dois jovens normalmente não assumiam os papéis típicos de dominação e submissão:

“Sexo entre homens habitualmente ocorria com ambos os parceiros de pé. Assim, abstendo-se mutuamente da penetração, os amantes masculinos eram iguais, a despeito de sua diferença de idade. Nessa posição, diz Aisquines, fazem amor como concidadãos — na superfície do corpo, cujo valor equivale às superfícies do espaço urbano.” (RICHARD SENNETT- CARNE E PEDRA)

No exército, o estabelecimento de relações eróticas entre seus membros era estimulada pelos comandantes que acreditavam que, com isso, o exército se fortaleceria; jamais um amante abandonaria o outro no campo de batalha. Nesses casos, o papel de ativo era assumido por aquele de fisionomia mais “máscula”, enquanto o papel de passivo era representado pelo mais “afeminado”:

“Baseados na fisiologia do corpo, os gregos distinguiam claramente ‘afeminação’ do que chamamos ‘homossexualidade’. Corpos masculinos ‘frágeis’ (em grego, malthakoí) agiam como mulheres e ‘desejavam intensamente ser submetidos por outros homens a um papel ‘feminino’ (isto é, receptivo), no intercurso sexual’. Eles pertenciam às zonas de calor intermediário, entre os muito machos e as muito fêmeas.” (RICHARD SENNETT – CARNE E PEDRA)

Homens afeminados, durante o ato sexual, comportavam-se como mulheres: “a mulher freqüentemente inclinava-se, oferecendo suas nádegas a um homem de pé, ou ajoelhado, atrás dela” (SENNETT, Richard), curvando-se e, assim, subordinando-se.

Em se tratando de homossexualidade feminina, por sua vez, uma suposta tribo de mulheres guerreiras que teriam habitado as margens de um rio na Ásia Menor, chamada Amazonas, cujas normas permitiam relações heterossexuais somente uma vez por ano objetivando a procriação. Dos nascidos destas relações, as meninas eram mantidas na tribo e os meninos ou eram mortos ou enviados às tribos de seus pais. As relações sexuais entre as Amazonas tinham fundamentos religiosos segundo os quais o sexo entre mulheres desenvolveria nessas mulheres guerreiras aquelas qualidades essencialmente consideradas masculinas.

Na ilha Lesbos, a poetisa Safo, constrói belos versos que enalteciam a homossexualidade feminina. Era reconhecida e elogiada por sua beleza por renomados como Platão e Sócrates, sendo que, grande parte de sua obra foi destruída pelos posteriores cristãos, que acreditavam tratar-se de grave ameaça à moralidade, da qual se intitulavam guardiões. Safo e suas alunas tornaram-se símbolo de independência sexual feminina.

Não há, contudo, muitos registros nas artes visuais das práticas homossexuais femininas, apenas a poesia e outros registros escritos relatam tais práticas.

Conclusão:

Apesar do que poderia-se presumir, a vida sexual dos gregos, seja em relações homossexuais ou heterossexuais, era influenciada por diversos protocolos sociais, que indicavam desde a escolha do parceiro, até a consumação do ato sexual. E mais do que isso, sua vida sexual era assunto público, passível de ser discutido politicamente quanto à sua moralidade.

Diversos de seus hábitos sexuais entrariam em atrito com as concepções atuais, assim como escandalizaram a mentalidade cristã – o primeiro texto de que se tem notícias punindo severamente quaisquer práticas homossexuais aponta para o início do século VI d.C., cuja lei é de autoria de um imperador cristão. A homossexualidade foi tratada nos mesmos termos que o adultério: sujeita à pena de morte.

É inegável que algumas de suas práticas, como a da pederastia são e devem ser condenáveis – a sexualização precoce de jovens muito lhes é prejudicial ao desenvolvimento físico e mental – ou ainda sua visão condescendente que rebaixava a mulher e os aspectos ligados ao feminino. Contudo, é também no mínimo curioso o quanto a Antiguidade possuía da liberdade sexual – pelo menos referindo-se à sexualidade masculina – que muitos lutam para alcançar hoje.



Bibliografia:



DOVER, K.J. Greek Homossexuality. Cambridge: Havard University Press, 1989.

MICHAEL, Foulcault. Históra da Sexualidade (vol 2): O uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 1984.

SENNETT, Richard. Carne e Pedra. Rio de Janeiro: Editora Record, 2003.

ULLMAN, Reinholdo. Amor e Sexo na Grécia Antiga. Rio Grande do Sul: EDIPUCRS, 2005.

Trabalhos acadêmicos:

FERNANDES, Thiago. Desvendando a Homossexualidade na Grécia e Roma Antiga Através da Pintura e Literatura, 2014.



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