INÍCIO

18 outubro 2021

VIVO DE RESTOS

VIVO DE RESTOS

Vivo de restos 
Restos que recolho 
Restos do mundo
Restos que encontro 
jogados aqui e ali..

Restos de afeto 
Restos de olhares 
Restos do que sobra do dia 
Restos do que encontro na noite 

Restos de flores 
Restos de perfumes 
Restos de comida 
Resto de odores …

Seria minha alma um resto? 
Será meu corpo uma sobra? 
Por um nefasto acaso do destino 
Vivo um resto de existência

Restos de imagens 
O que sobrou depois da festa 
Daqueles que vivem integralmente 
Migalhas que caíram da mesa dos abastados
Mil-folhas jogadas no chão 

Um aperto de mão 
Um adeus, 
Um resto de palavra 
Um cumprimento 
O resto é quase o vazio 
O resto é o anúncio do vácuo 
Do que sobra 
Que fica 

Com esses restinhos vou vivendo 
Restos de sonhos 
Incompletos porque solitários 
Porque restos 
Resto de um olhar que se alonga 
Como a sombra com o restinho do dia. 

O resto é menos que a metade 
Pode ser menos que um quarto 
Pode ser tudo descartado 
Mas sempre in-completo
Im-perfeito 

Restos que não são 
Restos vazios 
Restos de tempo 
Resto afeto
Restos de olhar 

Eu um resto de matéria 
Sou uma sombra 
Um resto da luz 
Que ilumina os velórios 
Sou o final, 
O ponto de fuga dos cantos
O resto das lágrimas 
De desejos não realizados

O sobrou dessa divisão 
Injusta, a revelia 



Perdido palimpsesto
Resto de memória 
Manifesto funesto
Silencioso














(18/X/2021; 03h16min)









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