VIVO DE RESTOS
Vivo de restosRestos que recolho
Restos do mundo
Restos que encontro
jogados aqui e ali..
Restos de afeto
Restos de olhares
Restos do que sobra do dia
Restos do que encontro na noite
Restos de flores
Restos de perfumes
Restos de comida
Resto de odores …
Seria minha alma um resto?
Será meu corpo uma sobra?
Por um nefasto acaso do destino
Vivo um resto de existência
Restos de imagens
O que sobrou depois da festa
Daqueles que vivem integralmente
Migalhas que caíram da mesa dos abastados
Mil-folhas jogadas no chão
Um aperto de mão
Um adeus,
Um resto de palavra
Um cumprimento
O resto é quase o vazio
O resto é o anúncio do vácuo
Do que sobra
Que fica
Com esses restinhos vou vivendo
Restos de sonhos
Incompletos porque solitários
Porque restos
Resto de um olhar que se alonga
Como a sombra com o restinho do dia.
O resto é menos que a metade
Pode ser menos que um quarto
Pode ser tudo descartado
Mas sempre in-completo
Im-perfeito
Restos que não são
Restos vazios
Restos de tempo
Resto afeto
Restos de olhar
Eu um resto de matéria
Sou uma sombra
Um resto da luz
Que ilumina os velórios
Sou o final,
O ponto de fuga dos cantos
O resto das lágrimas
De desejos não realizados
O sobrou dessa divisão
Injusta, a revelia
Perdido palimpsesto
Resto de memória
Manifesto funesto
Silencioso
(18/X/2021; 03h16min)
Nenhum comentário:
Postar um comentário