AFORISMOS E SENTENÇAS
AFORISMOS, SENTENÇAS, CRÔNICAS, E TEXTOS POLÍTICOS, FILOSÓFICOS E ALEATÓRIOS PARA REFLEXÃO E FINS ESPECÍFICOS
I
Como já dizia Erasmo:
“As paixões não são apenas pilotos que conduzem ao porto da sabedoria os que a ele se dirigem; no caminho da virtude, são aguilhões e esporas que ex- citam a fazer o bem, por mais que isso desagrade a Sêneca, esse estóico em- pedernido que proíbe formalmente ao sábio toda paixão. Agindo assim, faz do homem uma estátua de mármore, sem inteligência e vazia de todo senti- mento humano...Quem não fugiria com horror, como de um monstro e um espectro, de um homem surdo a todos os sentimentos da natureza, sem ne- nhuma paixão, tão inacessível ao amor e à piedade quanto o mais duro ro- chedo ou um mármore de Paros, a quem nada escapa, que não se engana nunca, que vê tudo com olhos de lince, que mede tudo com o esquadro, que não perdoa nada, que é o único razoável, o único rei, o único livre, o único tudo... que não faz questão de ser amado, que não ama ninguém, que ousa zombar dos próprios deuses, que condena como insensato tudo o que não faz na vida, e de tudo escarnece? Tal é o retrato do animal que passa por um sá- bio perfeito... Que cidade quereria fazer dele seu magistrado, que exército o desejaria por general? Digo mais, que mulher suportaria um tal marido, que anfitrião convidaria tal hóspede, que criado poderia tolerar tal patrão? Não seria preferível escolher ao acaso entre os mais loucos um louco capaz de comandar ou de obedecer aos loucos, amado por seus semelhantes, que cons- tituem a maioria, tolerante com uma mulher, jovial com seus amigos, conviva encantador, bom companheiro, enfim, a quem nada de humano fosse alheio?"
E também Nietzsche
"Destruir as paixões e os desejos, só por causa de sua tolice e para evitar suas conseqüências desagradáveis, parece-nos hoje uma manifestação aguda de tolice.
Não admiramos mais os dentistas que extraem os dentes para evitar que incomodem mais.
(...) No que se refere ao remédio receitado por todos esses médicos da alma que preconizam uma cura radical e dura, é permitido nos perguntarmos: será a vida tão dolorosa e importuna a ponto de ser vantajoso trocá-la por uma maneira estóica e petrificante de viver? Não nos sentimos suficientemente mal para precisarmos estar mal ao modo estóico?."
Heráclito de Efesus
“Estão iludidos os homens quanto ao conhecimento das coisas visíveis, mais ou menos como Homero, que foi mais sábio que todos os helenos. Pois o enganaram meninos que matando piolhos lhe disseram: o que vimos e pegamos é o que largamos, e o que não vimos nem pegamos é o que trazemos conosco.”
(Heráclito de Éfeso, fragmento 56)
O Solilóquio da solidão de Ricardo II.
(William Shakespeare)
“Não importa onde, mas que nenhum homem me fale de consolo. Falemos de tumbas, de vermes, de epitáfios, falemos de nossos testamentos. Ou não? Pois que temos a legar senão nossos corpos depostos sobre o chão? Nossas terras, nossas vidas, e tudo o mais, pertencem à morte e nada podemos dizer que nos pertence. Exceto a morte e esse pequeno modelo de terra estéril/que serve de argamassa e cobre nossos ossos. Pelo amor de Deus, sentemo-nos no chão/para contar histórias soturnas de reis mortos: como uns foram depostos, alguns trucidados na guerra, alguns perseguidos pelos fantasmas que haviam destronado, alguns envenenados pelas companheiras, alguns mortos dormindo, todos assassinados. Pois dentro da coroa oca que cinge a têmpora mortal de um rei, a morte mantém a sua corte, e fica lá, grotesca, zombando/do poder, sorrindo à sua pompa, permitindo ao rei um fôlego, uma pequena cena, na qual pode monarquizar, ser temido, matar com um olhar e se encher de orgulho enorme e inútil.E quando o vê assim, acomodado, ela atravessa o muro do castelo com um alfinete mínimo, e adeus, Rei!/Cobri vossas cabeças, e não zombai da carne e do sangue,/tratando-os com solene reverência; fora do respeito, a tradição, a forma, o dever da cerimônia:/Eu me alimento de pão, como vós outros, sinto necessidades,provo a angústia, preciso de amigos. Assim enclausurado,/como podeis dizer a mim que eu sou um rei?”
(William Shakespeare)

Nenhum comentário:
Postar um comentário