CAPITALISMO: UMA MÁQUINA DE FABRICAR DESIGUALDADE
"O Capital no século XXI":
documentário mostra o crescimento das desigualdades no mundo
O freio ao capitalismo sem limites depende, antes de tudo, da mobilização cidadã, segundo o economista Thomas Piketty.
Lula e Piketty encontro na Escola de Economia de Paris
O economista francês Thomas Piketty (Clichy 07/V/1971) é um economista francês que se tornou figura de destaque internacional com seu livro "O Capital no século XXI" Éditions du Seuil, (2013). Sua obra mostra que, nos países desenvolvidos, a taxa de acumulação de renda é maior do que as taxas de crescimento econômico. Segundo Piketty, tal tendência é uma ameaça à democracia e deve ser combatida através da taxação de fortunas. Lançado nos EUA pela editora da Universidade de Harvard, o livro ganhou espaço ampliado na rede mundial e passou a frequentar as páginas dos principais jornais e revistas ao redor do mundo. Elevado à categoria de “obra imprescindível” para compreender a economia nos tempos atuais. tornou-se um best seller. ele conseguiu romper a barreira do público especializado e encontrou seu nicho também junto aos leigos e aos não-economistas.
“Defendo o controle do capital e a superação do capitalismo. Só assim nos projetaremos no século XXI.”
A frase é do mais lido e debatido economista do mundo, o francês Thomas Piketty, no documentário “Le Capital au XXIe siècle”, que está passando em Paris há algumas semanas.
O filme resume, em imagens de filmes de ficção, cenas de documentários e entrevistas em diversos países – 400 anos de capitalismo e as principais teses do livro homônimo, best-seller mundial lançado em 2013. A obra transformou Thomas Piketty no mais respeitado crítico do sistema capitalista.
Por que o capitalismo precisa ser superado? Simplesmente porque como seu denso livro de mil páginas demonstra em detalhes, o sistema capitalista é, por natureza, uma máquina de fabricar desigualdades.
https://youtu.be/RPOqpBhwgco
Millionaires for Humanity
No ritmo atual, segundo o economista, as sociedades ocidentais reproduzirão em pouco tempo as abissais desigualdades de um século atrás. Elas haviam sido atenuadas, com maior ou menor intensidade, graças à luta dos trabalhadores e sindicatos e também a políticas de Estado, como o New Deal de Franklin Roosevelt, que lançou numerosos projetos públicos subvencionados pelo Estado federal, reformas financeiras e regulamentação, com o objetivo de superar a crise econômica e social de 1929.
Recém-eleitos, Trump e Macron – como Reagan fizera na década de 1980 – deram verdadeiros presentes fiscais, diminuindo os impostos dos milionários. Menos egoístas, 83 milionários do mundo assinaram, há duas semanas, uma carta aberta publicada no site « Millionaires for Humanity » pedindo para pagar mais impostos, a fim de financiar parte dos estragos da crise do Covid-19. Eles querem que os mais ricos paguem mais, « imediatamente », « de maneira permanente », a fim de contribuir com a retomada da normalidade econômico-social pós-Covid-19.
Essa carta foi publicada antes da reunião dos ministros de Finanças do G20 e da cúpula europeia extraordinária sobre a retomada do crescimento da União Europeia. No texto, eles pedem que os governos « aumentem os impostos de gente como nós. Imediatamente, substancialmente e de maneira permanente. »
Nenhum milionário brasileiro assinou a carta.
Brasil tem desigualdade da Belle Époque europeia
Realizado por Justin Pemberton e Thomas Piketty, o documentário tem entrevistas com especialistas como o economista Joseph Stiglitz (Prêmio Nobel de Economia), o economista francês Gabriel Zucman, o cientista político Ian Bremmer, a jornalista do “Financial Times”, Gillian Tett, além do próprio Piketty.
O filme faz uma retrospectiva da evolução das sociedades ocidentais em direção a patamares cada vez menores de desigualdade. O crescimento de uma classe média no pós-guerra, as conquistas sociais dos trabalhadores e a criação do salário mínimo permitiram grandes avanços.
Na Belle Époque (nos anos 1910), 1% da população que detinha os maiores patrimônios possuía mais de 60% do capital privado nacional na Europa, contra 45% nos Estados Unidos. Nessa época, 90% da população não possuía praticamente nada.
Segundo Piketty, o Brasil atual é um país, do ponto de vista da repartição da renda e do patrimônio, ainda mais desigual do que a Europa de antes da Primeira Guerra [1914-1918]. Os 50% mais pobres no Brasil em termos de renda têm apenas 10% da renda total,enquanto os 10% mais ricos têm mais de 50% do total. Se olharmos a propriedade, é ainda mais grave. Os 50% mais pobres têm 2% ou 3%, enquanto os 10% mais ricos têm 70% a 80%.
Ele estima que as elites brasileiras cometem um erro histórico ao não promover uma distribuição de renda eficaz. Segundo Piketty, uma política de redistribuição de renda traria certamente crescimento econômico ao país. Ele pensa que as políticas sociais implantadas nos governos do PT foram financiadas pela classe média e não pelos mais ricos pois não houve uma reforma tributária para estabelecer impostos mais progressivos.
Mas, como ouvi Fernando Henrique Cardoso afirmar na Maison de l’Amérique Latine, em janeiro de 2019, « no Brasil, as pessoas não veem com bons olhos a melhor distribuição das riquezas ».
Será que foi por isso que ele preferiu nem tentar entrar neste terreno polêmico ? Como foi mostrado em reportagens, no governo de FHC uma criança morria de fome a cada cinco minutos no Brasil.
Hoje, o Brasil não tem muita chance de sair do atual modelo pois Bolsonaro é visto por Piketty como um “Trump piorado”.
O economista afirmou recentemente em entrevista que a crise atual pode contribuir para uma mudança da ideologia dominante no sistema econômico, na Europa, nos EUA, e mesmo no Brasil, indo em direção de uma economia mais igualitária, mais social e mais sustentável.
«Espero que esse choque nos conduza nessa direção. Mas vai depender da mobilização de cada um».
Depende, antes de tudo, da mobilização cidadã.
Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de «Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, a autora lançou « A tortura como arma de guerra, da Argélia ao Brasil: Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional.
O CAPITAL NO SÉCULO XXI
“Paris School of Economics”: antes e depois da crise
Na França, por exemplo, em 2007 foi criada oficialmente uma escola de economia independente da estrutura das universidades públicas existentes naquele país. A medida gerou muita polêmica à época, em razão da natureza bastante conservadora e privatista dessa nova instituição e de seu próprio projeto fundador.
Bastante identificada com o pensamento hegemônico ortodoxo e monetarista naquele período, a escola resolveu ser conhecida por sua sigla em inglês. Ou seja, ela já nascia com um verdadeiro tapa na cara da tradição acadêmica e intelectual francesa. A estratégia foi pegar carona em uma conhecida congênere inglesa. Inspirando-se na original britânica do conservadorismo em economia, a nova faculdade deu-se o nome de “Paris School of Economics” (PSE), em analogia explícita à “London School of Economics” (LSE).
No momento da inauguração da instituição, seu diretor era um professor chamado Thomas Piketty - sim, o mesmo autor do campeão de vendas aqui comentado. No entanto, por uma impressionante ironia da História, a partir do segundo ano de sua existência, a PSE passou a conviver com a crise financeira de 2008 nos Estados Unidos e a importação de seus efeitos para o espaço da União Européia. Com isso, o corpo de professores, pesquisadores e alunos da nova faculdade passa a vivenciar esse processo de metamorfose ambulante, em busca de um novo paradigma explicativo da dinâmica econômica. Da noite para o dia perceberam-se órfãos do modelo que inspirou sua própria criação.
Assim, esse é o contexto mais amplo em que surge uma obra com um título bastante sugestivo, como o “O Capital no século XXI”. Piketty não tem suas bases de formação intelectual como economista na tradição deixada por Karl Marx. Aliás, ele deixa isso muito bem claro na introdução de seu livro. Porém, o fato é que uma das linhas de pesquisa que o francês empreendeu em anos mais recentes foi a busca de compreensão do fenômeno da acumulação de capital e da distribuição da renda e da riqueza na sociedade capitalista. E o instrumental que os modelos neoclássicos oferecem para esse fim não estava à altura das expectativas de Piketty. Em razão dessa lacuna, ele vai buscar nas proposições de Marx alguma luz para empreender sua pesquisa.
Uma das principais conclusões propostas pelo economista francês reside na forma como se manifesta o processo de concentração de renda e de riqueza ao longo das etapas do processo econômico. Sua base de dados é bastante extensa, envolvendo diversos países de diferentes continentes. Para os Estados Unidos, por exemplo, ele trabalha com informações estatísticas de um século. Já para alguns países europeus, ele opera com dados para um horizonte temporal de 140 anos. Um universo amplo o bastante para bem fundamentar suas conclusões.
Intervenção do Estado para reduzir desigualdade
As explicações de matriz conservadora procuravam assegurar que o processo econômico capitalista levaria a uma melhoria das condições de vida da população e que, a longo prazo, haveria uma tendência inequívoca à redução das desigualdades de renda e de riqueza. Desde que os agentes econômicos fossem deixados à ação livre das forças de oferta e de demanda, os mercados se ajustariam por si mesmos e o ponto de equilíbrio “ótimo” seria “naturalmente” atingido. Todo e qualquer tipo de intervenção do Estado seria mal visto, uma vez que só viria a provocar desarranjo e perturbação em uma tendência à maximização do bem estar de todos os setores envolvidos.
As pesquisas de Piketty, no entanto, caminham em sentido oposto. A partir de suas bases de dados, o que se verifica é uma tendência ao aprofundamento da desigualdade social e econômica ao longo do processo de produção e acumulação de capital. Tanto nos ciclos de expansão e crescimento quanto de retração da atividade econômica, o capitalismo incorpora e reproduz o gene da concentração de renda e de riqueza. Sempre que deixado à deriva para buscar seus caminhos de maximização de lucros via mercado, o sistema proporciona a ampliação da parcela do capital no resultado da atividade econômica, em detrimento da parte correspondente ao restante dos atores sociais – em especial, os que vivem da venda de sua força de trabalho como garantia de sobrevivência.
Em razão dessa tendência endógena do próprio sistema capitalista, o economista francês termina por corroborar algumas das teses que há muito vêm sendo defendidas por pensadores que nunca se alinharam com a visão da ortodoxia e do monetarismo. Piketty reconhece que apenas a intervenção do setor público é capaz de atenuar ou reorientar essa natureza perversa do capital, qual seja o aprofundamento dos níveis de desigualdade. Assim, as alternativas passariam pelo estabelecimento de políticas públicas corretivas dessa inércia rumo à concentração de poder e de riqueza. Isso significa uma maior tributação sobre a riqueza, em especial a financeira. Como o capital tem uma trajetória intrínseca que provoca exclusão e agravamento da desigualdade, caberia ao Estado intervir pela incidência de impostos para reorientar prioridades, reduzir as disparidades e promover maior de isonomia e inclusão.
Piketty avança na agenda, alertando inclusive para os riscos de natureza política e social. Assim, segundo o pesquisador, o capitalismo no século XXI traz extrema desigualdade, a ponto de eventualmente se converter em uma ameaça para as instituições democráticas. A esperança é que a leitura de seu livro sirva como um estímulo à adoção de medidas na direção sugerida. Propostas como a taxação das transações financeiras ou o imposto sobre as grandes fortunas já estão na mesa há muito tempo. Falta apenas a vontade política de implementá-las.
Piketty´s carrer
Após obter seu PhD, Piketty ensinou de 1993 a 1995 como professor assistente no Department of Economics at the Massachusetts Institute of Technology.
Em 1995, ingressou no French National Centre for Scientific Research (CNRS) como pesquisador, e em 2000 tornou-se professor (directeur d'études) na EHESS.
Piketty ganhou o prêmio de melhor jovem economista da França em 2002 e, segundo lista de 11 de novembro de 2003, é membro do conselho de orientação científica da associação À gauche, en Europe, fundada por Michel Rocard e Dominique Strauss-Kahn (membro do partido socialista, ex-diretor do FMI).
Em 2006, Piketty tornou-se o primeiro chefe da Paris School of Economics (Escola de Economia de Paris) que ajudou a fundar (PSE), criada nos moldes na LSE, London School of Economics and Political Sciences (Londres) criada em 1895.
Ele saiu depois de alguns meses para servir como conselheiro econômico da candidata do Partido Socialista Ségolène Royal durante a campanha presidencial francesa. Piketty voltou a lecionar na EHESS e na Escola de Economia de Paris em 2007. Ele é colunista do jornal francês Libération e ocasionalmente escreve artigos para o Le Monde.
Em abril de 2012, Piketty foi coautor, juntamente com 42 colegas, de uma carta aberta em apoio ao então candidato do partido socialista à presidência da França, François Hollande. Hollande venceu a disputa contra o titular Nicolas Sarkozy em maio daquele ano. Piketty não ficou impressionado com a gestão de Hollande, mais tarde descrevendo-o como "sem esperança".
Em 2013, Piketty ganhou o prêmio bienal Yrjö Jahnsson, para economistas com menos de 45 anos que "fez uma contribuição em pesquisa teórica e aplicada que é significativa para o estudo da economia na Europa".
Em janeiro de 2015, ele rejeitou a ordem da Legião de Honra francesa, afirmando que recusou a nomeação por não achar que cabia ao governo decidir quem é o honrado.
Em 27 de setembro de 2015, foi anunciado que ele havia sido nomeado para o Comitê Consultivo Econômico do Partido Trabalhista Britânico, convocado pelo Chanceler Shadow John McDonnell e subordinado ao líder do Partido Trabalhista Jeremy Corbyn. A nomeação de Piketty, que já havia aconselhado Lord Wood, principal conselheiro político do ex-líder do Partido Trabalhista Ed Miliband, de que as taxas de impostos poderiam ser aumentadas acima de 50% para ganhos acima de um milhão de libras sem impactar a economia, foi vista como um golpe particular para a liderança do Partido Trabalhista devido ao seu grande sucesso no mundo editorial convencional.
Sobre esta nomeação, ele afirmou que estava muito feliz em participar e auxiliar o Partido Trabalhista na construção de uma política econômica que ajude a resolver alguns dos maiores problemas que as pessoas enfrentam no Reino Unido e que houve uma oportunidade brilhante para o Partido Trabalhista construir fresca e nova economia política que exporá a austeridade pelo fracasso que tem sido no Reino Unido e na Europa. Em junho de 2016, ele renunciou ao seu cargo no Labour's Economic Advisory Committee (Comitê Consultivo Econômico do Trabalho), citando preocupações sobre a fraca campanha que o partido havia feito no referendo da UE.
Em 2 de outubro de 2015, Piketty recebeu um doutorado honorário da Universidade de Joanesburgo e em 3 de outubro de 2015 ele proferiu a 13ª Conferência Anual Nelson Mandela na Universidade de Joanesburgo.
Em 11 de fevereiro de 2017, foi anunciado que ele havia se juntado à equipe de campanha do socialista Benoît Hamon na corrida presidencial deste último.
Ele se encarregou dos assuntos da UE e, mais precisamente, do Tratado de Estabilidade Fiscal (ou TECG), enquanto Julia Cagé foi responsável pela plataforma econômica e fiscal do candidato.
Piketty expressou sua opinião de que o TSCG deveria ser renegociado a fim de introduzir uma assembleia da zona do euro, composta por membros dos parlamentos da UE, um "governo democrático", disse ele, em comparação com o sistema atual, que ele vê como um "huis clos" ( uma "discussão privada a portas fechadas", um arranjo na câmera). Tal mudança atualmente requer a aprovação unânime de todos os membros da UE, e Piketty sugeriu que uma mudança nas regras pode ser necessária, dizendo que se países representando 80% da população da UE ou do PIB ratificarem um tratado, ele deve ser aprovado. Ele também é a favor de uma (credible and bold basic income) "renda básica credível e arrojada", que é uma das principais propostas de Benoit Hamon, embora suas visões sobre o assunto sejam diferentes. O apelo em que Piketty e outros pesquisadores econômicos defendem sua versão da renda básica foi criticado como não "universal", uma crítica que ele respondeu em seu blog.
Sua pesquisa econômica concentra-se principalmente nas desigualdades de riqueza e no uso de capital no século XXI. Piketty tem laços de longa data com a London School of Economics e concluiu seus estudos de doutorado na universidade no início dos anos 1990. Em adição às suas pesquisas, Piketty também ensina para alunos de pós-graduação na LSE. Sua abordagem de ensino e pesquisa é interdisciplinar e ele esteve envolvido no ensino do novo mestrado em Desigualdades e Ciências Sociais na London School of Economics.
O CAFEZINHO
“Não se diminui a desigualdade sem mexer no coração da riqueza”
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu nesta terça-feira (3) com o economista Thomas Piketty, na Escola de Economia de Paris. O autor de “O Capital no século XXI” tem coordenado um laboratório de estudos sobre a desigualdade no mundo e aproveitou a passagem do ex-presidente por Paris para convidar Lula a apresentar a experiência brasileira no combate à miséria. (Instituto Lula).
A obra do economista o consagrou como um dos mais influentes de sua geração. Além disso, contribuiu para que temas como desigualdade e concentração de renda e riqueza alcançassem o centro do debate mundo afora.
Lula e Piketty (03/III/2020)
A obra do economista o consagrou como um dos mais influentes de sua geração. Além disso, contribuiu para que temas como desigualdade e concentração de renda e riqueza alcançassem o centro do debate mundo afora.
Em 2018, Piketty foi um dos intelectuais que assinaram o manifesto internacional em defesa da libertação do ex-presidente, à época mantido preso político em Curitiba.
A questão da desigualdade tem sido central na agenda de Lula nos últimos meses. “Quero agradecer a oportunidade de fazer o debate de uma coisa que me é muito cara. Nós temos que expor a desigualdade como um problema político, uma questão de dignidade humana. Não haverá diminuição da desigualdade se a gente não mexer no coração da riqueza”, avaliou. O encontro reuniu pesquisadores da desigualdade em todo o mundo, em especial na América Latina e Brasil.
“É muito difícil compreender o Brasil se não levar em conta os 350 anos de escravidão. Somos uma sociedade escravagista, embora a escravidão formalmente tenha sido extinta. Ela existe na economia brasileira. Existe no patrimonialismo. A elite brasileira nunca efetivamente se deu conta da necessidade de elevar a qualidade de vida dos mais pobres”, expôs o ex-presidente Lula.
Lula refletiu ainda sobre os desafios práticos para a implementação de políticas para redução da desigualdade durante os anos em que esteve à frente da Presidência. “Para fazer uma reforma você precisa saber pra que e para quem. E ter consciência da correlação de forças na sociedade e nas instituições”, pontuou. “Quando ganhei as eleições, em 2002, o Congresso Nacional tinha 513 deputados. Eu tinha apenas 91. De 88 senadores, tínhamos apenas 14. Quando Dilma ganha, os deputados caíram de 91 pra 72 e os senadores para seis. E essa maioria trabalha pela manutenção do status quo, ou por sua agenda própria”.
Para Lula, essa lógica provocou uma perda de força no Estado. “Criou-se um mecanismo onde a sociedade privada vai dirigindo o Estado”.
O ex-presidente também fez uma exposição dos programas sociais como o Bolsa Família, Luz Para Todos e ProUni, que marcaram o legado dos governos petistas, e de como essas medidas incentivaram a economia, mesmo gerando incômodo em setores da elite. “Fazer transferência de renda foi uma decisão contra tudo e contra todos. Contra os chamados especialistas. Quando tomamos a decisão de criar o programa fome zero, muita gente no Brasil escrevia que era melhor investir em estradas, em infraestrutura. Meu argumento era: o povo não come cimento. O povo come feijão e arroz e é disso que ele está precisando agora”.
“Não existe explicação humanitária um cidadão ter 100 bilhões de dólares na sua conta e 100 milhões de pessoas não terem o que comer. Não sei quanto tempo vou viver. Mas se eu puder quero ajudar a criar indignação com a concentração de renda no mundo”, propôs Lula.
Ao final, Piketty anunciou que o encontro deve ser o primeiro de uma importante colaboração sobre o tema da desigualdade. “Foi muito interessante. Temos que garantir que continuemos em contato nesse intercâmbio e vamos tentar ir ao Brasil com nossa equipe para aprofundar esse debate”, disse o economista.
A questão da desigualdade tem sido central na agenda de Lula nos últimos meses. “Quero agradecer a oportunidade de fazer o debate de uma coisa que me é muito cara. Nós temos que expor a desigualdade como um problema político, uma questão de dignidade humana. Não haverá diminuição da desigualdade se a gente não mexer no coração da riqueza”, avaliou. O encontro reuniu pesquisadores da desigualdade em todo o mundo, em especial na América Latina e Brasil.
“É muito difícil compreender o Brasil se não levar em conta os 350 anos de escravidão. Somos uma sociedade escravagista, embora a escravidão formalmente tenha sido extinta. Ela existe na economia brasileira. Existe no patrimonialismo. A elite brasileira nunca efetivamente se deu conta da necessidade de elevar a qualidade de vida dos mais pobres”, expôs o ex-presidente Lula.
Lula refletiu ainda sobre os desafios práticos para a implementação de políticas para redução da desigualdade durante os anos em que esteve à frente da Presidência. “Para fazer uma reforma você precisa saber pra que e para quem. E ter consciência da correlação de forças na sociedade e nas instituições”, pontuou. “Quando ganhei as eleições, em 2002, o Congresso Nacional tinha 513 deputados. Eu tinha apenas 91. De 88 senadores, tínhamos apenas 14. Quando Dilma ganha, os deputados caíram de 91 pra 72 e os senadores para seis. E essa maioria trabalha pela manutenção do status quo, ou por sua agenda própria”.
Para Lula, essa lógica provocou uma perda de força no Estado. “Criou-se um mecanismo onde a sociedade privada vai dirigindo o Estado”.
O ex-presidente também fez uma exposição dos programas sociais como o Bolsa Família, Luz Para Todos e ProUni, que marcaram o legado dos governos petistas, e de como essas medidas incentivaram a economia, mesmo gerando incômodo em setores da elite. “Fazer transferência de renda foi uma decisão contra tudo e contra todos. Contra os chamados especialistas. Quando tomamos a decisão de criar o programa fome zero, muita gente no Brasil escrevia que era melhor investir em estradas, em infraestrutura. Meu argumento era: o povo não come cimento. O povo come feijão e arroz e é disso que ele está precisando agora”.
“Não existe explicação humanitária um cidadão ter 100 bilhões de dólares na sua conta e 100 milhões de pessoas não terem o que comer. Não sei quanto tempo vou viver. Mas se eu puder quero ajudar a criar indignação com a concentração de renda no mundo”, propôs Lula.
Ao final, Piketty anunciou que o encontro deve ser o primeiro de uma importante colaboração sobre o tema da desigualdade. “Foi muito interessante. Temos que garantir que continuemos em contato nesse intercâmbio e vamos tentar ir ao Brasil com nossa equipe para aprofundar esse debate”, disse o economista.
LULA, GRÉCIA ANTIGA E ALGUMAS LIÇÕES DE PIKETTY
(10/II/2017)
Por Miguel do Rosário
Estou cansado, muito cansado, dessa agenda política baseada exclusivamente na histeria interessada dos meganhas e da mídia. Cansado também dessa degradação ideológica em que o Brasil mergulhou, por culpa de uma imprensa irresponsável, cuja única razão de ser é justificar a terrível desigualdade econômica do país.
O discurso contra a corrupção é, na verdade, um diabólico diversionismo em relação ao principal problema nacional, que é a desigualdade de renda, que deve ser enfrentada com investimentos crescentes em educação, de um lado, e uma tributação mais eficiente sobre a renda e o capital.
Por isso a mídia plutocrática, em sintonia com as castas da burocracia, elegeram Sergio Moro como seu heroi. Aliás, toda a cúpula da Lava Jato pensa da mesma forma. Provavelmente, não tem consciência do papel que exerce, com seus discursos demagógicos que, no fundo, são puramente autoritários e falaciosos.
Em sua obra antológica sobre a desigualdade, Thomas Piketty fala da concentração da renda no mundo, analisando suas origens e evolução. Em países muito avançados socialmente, como os escandinavos, os 10% mais ricos recebem cerca de 25% da renda nacional (aí somando a renda de capital com renda de trabalho). Nos Estados Unidos, que é visto por Piketty como um país mais desigual, especialmente se comparado à Europa, os 10% mais ricos recebem mais de 50% da renda nacional, sendo que os 1%, sozinhos, ficam com mais de 20%.
Piketty então faz uma especulação: diz que se a renda dos 10% mais ricos chegasse a 90% da renda nacional, e a dos 1%, a mais de 50%, isso geraria, provavelmente, uma revolução, “a menos que um aparato peculiarmente repressivo exista para evitar que isso aconteça”.
Ele observa que o grau de concentração do capital, quando atinge um nível muito elevado, é fonte de “profundas tensões”, que dificilmente podem se reconciliar com o sufrágio universal.
Lembrei-me imediatamente do golpe no Brasil e das “profundas tensões”. Entretanto, logo a seguir, Piketty faz uma outra observação ainda mais pertinente: “de fato, se tal extrema desigualdade é ou não sustentável depende não apenas da efetividade do aparato de repressão, como também, e talvez principalmente, do aparato de justificação. Se as desigualdades são justificadas, (…) então é perfeitamente possível que a concentração de renda atinja recordes históricos.”
Por isso a mídia plutocrática, em sintonia com as castas da burocracia, elegeram Sergio Moro como seu heroi. Aliás, toda a cúpula da Lava Jato pensa da mesma forma. Provavelmente, não tem consciência do papel que exerce, com seus discursos demagógicos que, no fundo, são puramente autoritários e falaciosos.
Em sua obra antológica sobre a desigualdade, Thomas Piketty fala da concentração da renda no mundo, analisando suas origens e evolução. Em países muito avançados socialmente, como os escandinavos, os 10% mais ricos recebem cerca de 25% da renda nacional (aí somando a renda de capital com renda de trabalho). Nos Estados Unidos, que é visto por Piketty como um país mais desigual, especialmente se comparado à Europa, os 10% mais ricos recebem mais de 50% da renda nacional, sendo que os 1%, sozinhos, ficam com mais de 20%.
Piketty então faz uma especulação: diz que se a renda dos 10% mais ricos chegasse a 90% da renda nacional, e a dos 1%, a mais de 50%, isso geraria, provavelmente, uma revolução, “a menos que um aparato peculiarmente repressivo exista para evitar que isso aconteça”.
Ele observa que o grau de concentração do capital, quando atinge um nível muito elevado, é fonte de “profundas tensões”, que dificilmente podem se reconciliar com o sufrágio universal.
Lembrei-me imediatamente do golpe no Brasil e das “profundas tensões”. Entretanto, logo a seguir, Piketty faz uma outra observação ainda mais pertinente: “de fato, se tal extrema desigualdade é ou não sustentável depende não apenas da efetividade do aparato de repressão, como também, e talvez principalmente, do aparato de justificação. Se as desigualdades são justificadas, (…) então é perfeitamente possível que a concentração de renda atinja recordes históricos.”
O que é a imprensa brasileira senão um “aparato de justificação” da desigualdade?
Eu acrescentaria o que são as instituições brasileiras senão instrumentos da manutenção das desigualdades?
Piketty não pode usar dados do Brasil, porque as nossas castas burocráticas, talvez por um astuto interesse de classe, não quiseram, não puderam, ou não se interessaram em lhe repassar dados detalhados sobre a renda no Brasil. O governo brasileiro, que nunca percebeu a importância da batalha de ideias, também não se empenhou em convencer as castas a fazê-lo.
Mas os índices que existem sobre o Brasil mostram que somos um dos países mais desiguais do mundo, embora tenhamos melhorado um pouco durante a era petista.
Ora, é muito sintomático que as políticas públicas que permitiram ao país reduzir um pouco sua desigualdade, amenizando as tensões sociais, sejam agora demonizadas ou mesmo deliberadamente alvos de destruição em massa por parte de um governo profundamente reacionário e dos setores que o apoiam.
Não é preciso ser nenhum gênio da economia ou política para prever que as tensões sociais vão continuar se aprofundado. O status quo então terá de elevar os investimentos em repressão, de um lado, e de “justificação”, de outro. A Lava Jato é um instrumento que mistura um pouco de repressão, na medida em que aterroriza a classe política, mas sobretudo de justificação, visto que suas lideranças ventilam discursos demagógicos que põem a corrupção como principal mal do Brasil, e não a desigualdade.
A classe política não é boba. Ela entende muito bem os recados ideológicos da Lava Jato. Quando o procurador-geral da República viaja a Davos, posando de estadista, e diz que a Lava Jato é “pró-mercado”, eles compreendem perfeitamente o significado oculto da expressão. Ela quer dizer: a Lava Jato é de direita, neoliberal, privatista, quer destruir empresas nacionais para entregar nossas riquezas para potências estrangeiras.
A polarização gera uma onda de estupidez política sem igual. Por exemplo, a dicotomia entre empresa pública versus empresa privada. Mais uma vez, a imprensa é culpada, porque ela fez do Brasil sua Coreia do Norte particular. Foram tantos anos de campanhas de desinformação, de jornalismo histérico, que o brasileiro médio não sabe que o primeiro mundo é cheio de empresas públicas extremamente eficientes, que existem, nos EUA, na Europa, no Japão, programas sociais abrangentes desde sempre, que a tributação nos países ricos incide sobre quem ganha mais, que Roosevelt instituiu um imposto de herança de 75% nos Estados Unidos, na década de 30. Em seu desespero para manipular a opinião pública, fazendo-lhe odiar qualquer medida de esquerda, a imprensa brasileira se tornou pior do que a Fox americana, e os governos petistas, por ignorância e covardia, não entenderam a gravidade do que estava acontecendo.
A parte da culpa que cabe à esquerda, em especial aos partidos políticos, foi também não ter feitos debates públicos sobre a relação entre ideologia, economia e regime político, para que as pessoas entendessem que é possível conciliar um regime democrático, capitalista, com liberdade de imprensa e de empreendimento, com soluções autenticamente socialistas, como uma educação e uma saúde públicas de qualidade, com programas sociais, estatais modernas, eficientes. São assim as economias avançadas, ou por acaso a Nasa, os metrôs de Nova York, Paris, Londres, as petroleiras da Noruega, as universidades europeias e chinesas, não são estatais, não são eficientes, e não são estratégicas para o desenvolvimento, para a mobilidade urbana, para o bem estar de seus respectivos países? Se a imprensa não mostra, o presidente da república tinha de vir à TV cobrir esse lacuna, ou os partidos políticos. Não adianta ficar só no discurso, só no blablá, mostrando Lula na TV. Tem que oferecer informação.
Entretanto, tenho observado, em minhas leituras, que a acusação de “ignorância” que se faz a governos populares carrega também um tanto de preconceito elitista contra a própria democracia, que é justamente o regime em que pessoas mais simples, mais intuitivas, menos experientes, assumem o poder.
Um dos livros que estou lendo é sobre as Origens da Democracia na Grécia Antiga, escrito por acadêmicos norte-americanos. Eles usam muitas fontes antigas, escritores e filósofos da antiguidade, e sempre precisam alertar ao leitor sobre o preconceito aristocrático presente nesses textos. Revoluções democráticas são vistas com maus olhos pelos intelectuais da época, justamente porque não são lideradas por… intelectuais. Aliás, o caráter profundamente antidemocrático, autoritário e, por fim, totalitário, que as revoluções comunistas assumem, não teria sido porque foram lideradas por intelectuais?
Plutarco, por exemplo, escrevendo sobre Sólon, o legislador ateniense que criou as primeiras leis democráticas da Grécia Antiga, menciona um escritor antigo, Anarcássis, que assim se expressa sobre as vicissitudes vividas pelas lideranças políticas da Ática: “Na Grécia, discorrem os sábios, mas decidem os ignorantes”.
Esta é uma máxima tipicamente aristocrática: a decisão dos “ignorantes”, na verdade, eram decisões democráticas, tomadas pela massa comum dos cidadãos, a maioria deles pobres.
Estas passagens me forçam, por isso mesmo, a fazer uma ponderação nas minhas próprias críticas ao erros do PT e de Lula/Dilma. Eu mantenho minha crítica sobre seus erros, sobretudo na esfera da política, em particular da comunicação política direta com a população, que foi abandonada. Mas talvez eu mesmo esteja incorrendo em outro erro, abraçando uma visão paternalista ou condescendente em relação ao povo, como se fosse possível, a Lula ou Dilma, “educar” politicamente o povo. Democracias não nascem de cima para baixo. Elas nascem de um longo processo de aprendizado popular, no qual a cultura democrática, que é baseada sobretudo na autoconfiança do povo, amadurece, desenvolve-se e, por fim, contamina todas as instituições e classes sociais, em especial as de baixo.
Neste sentido, Lula nunca teve esse poder, ou mesmo essa pretensão aristocrática, professoral, de “educar politicamente” o povo. Provavelmente, isso nem passou pela cabeça do presidente, que, por isso mesmo, talvez tenha sido a nossa liderança mais genuinamente democrática. Lula aceitava e entendia a sociedade brasileira como ela era, sem pretender, como querem intelectuais, sejam liberais, conservadores ou progressistas, mudá-la de cima para baixo. Ele tentou, ao contrário, mudá-la de baixo para cima, dando condições econômicas para que os setores mais vulneráveis da população conquistassem o mínimo conforto necessário para desenvolver um pensamento político autônomo.
Mas obviamente não deu tempo. O próprio povo entendeu que o tempo era curto e concedeu a Lula vários mandatos sucessivos. Então veio o golpe. Que ocorreu porque os setores políticos antidemocráticos, e aí talvez devemos incluir até mesmo a esquerda, mas em especial os ultrarricos e se partido, a mídia, não tinham paciência de aguardar que a cultura democrática tivesse mais alguns anos de consolidação.
Se não houvesse golpe e não houvesse, em especial, essa operação de guerra chamada Lava Jato, que destruiu as empresas de construção pesada que tocavam as grandes obras de infra-estrutura do país, Dilma iria inaugurá-las, essas obras: refinarias, usinas, siderúrgicas, portos, estradas, ferrovias. Lula ganharia as eleições em 2018 e novamente em 2022.
Piketty adverte ainda que uma análise sócio-econômica deve entender a profunda separação entre os 10% que ganham mais e os 1% do topo da pirâmide. Mesmo esses 1% também devem ser divididos. Há uma elite ainda mais ínfime, o milésimo percento, os 0,001%. Quando falamos em classe média, damos vazão a uma abstração um tanto idiota, porque não há sentido em comparar quem ganha 5 a 10 mil reais por mês, e aquele que aufere alguns milhões.
O campo progressista falhou em fazer entender essa diferença. Outro erro foi não ter explorado a profunda desigualdade existente dentro do serviço público. Um posicionamento progressista e democrático nessa esfera teria valido, ao governo federal, o apoio de uma grande massa de servidores públicos, de todas as instâncias. O golpe teria sido evitado.
A diferença entre os salários das castas e o simples mortais do serviço público é positivamente criminosa. Mas não adianta agora chorar o leite derramado. O campo progressista deveria patrocinar, com urgência, estudos e pesquisas, mostrando essas diferenças, fazendo comparações com o resto do mundo. Isso é fazer política! Os deputados federais do campo popular, assim como algumas universidades, tem acesso a recursos para levar adiante esse tipo e pesquisa. Por que não o fazem?
Por fim, eu gostaria de externar algumas reflexões sobre o que eu considero erros conceituais da esquerda, que tem consequências políticas e eleitorais muito negativas.
Não é só a Lava Jato e a campanha midiática que explica a derrota eleitoral do PT em 2016, por exemplo. Outros fatores, de ordem mais geral, talvez tenham influído.
Eu quero falar sobre alguns lugares-comuns que dizem muito sobre os erros, no meu ponto-de-vista que tem vitimado a esquerda e a conduzido por trilhas erradas, cada vez mais longe do bom senso popular – e isso não só no Brasil.
Por exemplo, a meritocracia. Há alguns dias, as redes sociais progressistas (que são enormes, por isso ganhamos quatro eleições presidenciais consecutivas) se encheram de festa pela conquista do primeiro lugar no concurso da faculdade de medicina da USP, por Bruna Sena, uma menina negra, pobre, moradora da periferia.
Rapidamente, os meios de comunicação tentaram, como sempre fazem nestes casos, manipular o seu exemplo como um símbolo da “meritocracia”. A jovem, revelando uma astúcia política que é cada vez mais comum nas novas gerações, respondeu, com visível irritação, que a “meritocracia é uma falácia”. Com honestidade quase doída, ela disse que o seu desempenho aconteceu porque recebeu “apoio”. A resposta dela, numa entrevista a um site, é um caso de estudo tão interessante que vale reproduzir um trecho:
A meritocracia é uma falácia. Eu consegui porque tive ajuda. Não dá para igualar as pessoas que não tiveram as mesmas oportunidades. Eu me esforcei muito, sim, mas não consegui só por causa disso, eu tive muito apoio. E é isso que a gente tem que dá para quem não tem oportunidade. A gente perde muitos gênios por aí, inclusive nas favelas porque não podem estudar. E eu fiquei com muito medo de que minha postagem servisse de argumento para a meritocracia. E eu vi comentários que se baseavam nisso. Mas eu sabia que ia acontecer. Eu quero frisar bem que a questão importante é a oportunidade. Eu consegui porque tive oportunidade. Eu tenho visto minha história como apoio à meritocracia e fico muito triste com isso.
Entende-se porque ela passou em primeiro lugar. Ela é brilhante – e progressista. Ela usou a expressão “meritocracia” conforme esta tem sido manipulada pelo pensamento dominante para enganar o povo e não lhe dar oportunidade, sob a “justificação” de que ele só não ascende socialmente porque lhe faltam méritos e esforço.
Ela comunicou-se perfeitamente. Mas há um erro profundo na teoria da moça, que é a teoria da esquerda, hoje em dia: que é de aceitar o significado negativo e enganoso ao termo “meritocracia” que a direita lhe conferiu.
Meritocracia não é uma falácia. É uma coisa boa. O pobre, na verdade, é o único que pode entender a meritocracia em sua acepção mais pura, mais verdadeira, e Bruna é um exemplo disso.
A falácia não está na meritocracia, que deve ser estimulada, e incorporada ao ideário progressista, e sim na alegação de que é possível algum tipo de meritocracia sem que haja, antes, uma oferta equânime e justa de oportunidades.
A gravidade desse erro, no meu ponto-de-vista, é porque o pobre, o cidadão comum, sem grandes posses, quer a meritocracia, quer viver num mundo meritocrático, porque ele sabe que a única maneira de ascender socialmente, é através de seu esforço pessoal, de seu trabalho, de seu empenho e determinação. Essa é a ideia na qual ele precisa acreditar, porque ele também sabe que apenas se acreditar, com todas as suas forças, em si mesmo, poderá efetivamente conseguir o que deseja. Se tiver uma oportunidade, ótimo, mas ele não pode esperar isso. Ele tem que lutar com que tem a mão.
A esquerda que não oferece esse estímulo ao pobre, que não lhe mostra a meritocracia como uma virtude, comete um erro. Ela perde o pobre para a igreja evangélica. Além disso, será uma esquerda hipócrita, uma esquerda herdeira, elitizada, que não vê a meritocracia como uma virtude tão importante porque seus filhos já tem oportunidades – e esta talvez seja a explicação antropológica para o olhar blasé da esquerda para a meritocracia. O pobre, no entanto, entende a importância central da meritocracia para sua vida, para seus filhos. Isso não quer dizer, naturalmente, que ele não entenda igualmente a necessidade de apoio, de oportunidades, para que esta meritocracia possa se materializar.
O que eu quero enfatizar é que, para o pobre, a meritocracia é um valor moral, que precisa ser incutido profundamente no espírito de seus filhos para que elas possam ascender socialmente. Por isso mesmo ele irá procurar as instituições sociais ou políticas que legitimem esses valores que ele já possui em si mesmo.
A esquerda precisa ser meritocrática, porque este é um conceito profundamente positivo, progressista, popular, desde que seja explicado ao povo que o rico não é rico por causa de seus “méritos”, e sim porque ele teve mais oportunidades. O que não quer dizer que o filho do rico ou da classe média também não precisem de “méritos”, caso queiram um lugar à luz do sol. Chico Buarque teve as melhores oportunidades do mundo, mas ninguém lhe negará o mérito próprio que o levou a se tornar o que se tornou.
Entretanto, é óbvio que existe uma tensão histórica entre meritocracia e democracia. O poder, numa democracia, não pertence ao especialista mais renomado, ao jurista mais respeitado, ao intelectual mais inteligente, e sim àquele que tem mais votos. Mas esse é seu mérito: ter mais votos, e isso não é pouca coisa.
Outro erro comum da esquerda é dar uma conotação negativa ao termo “pragmatismo”. Este é um assunto importante porque a crise política que levou a esquerda brasileira, em especial o PT, à uma derrota política histórica, produziu também a seguinte falácia: a de que um dos culpados foi o pragmatismo ou o excesso de pragmatismo. Daí, a crise política, que poderia levar a esquerda às reflexões necessárias sobre seus erros, cede às suas franjas extremistas e infantis, segundo as quais ela não deveria ter feito “alianças” com ninguém.
Balela! A aliança do PT com o centro foi necessária, inteligente e pragmática. Se os aliados se revelaram corruptos, isso não é culpa da aliança em si. E não existe “excesso de pragmatismo”, que é uma expressão absurda, sem sentido. Pragmatismo é sempre bom e o seu excesso, melhor ainda.
Pragmatismo também é saber a hora, por exemplo, de refazer alianças, ou de rompê-las.
O PT errou porque esqueceu de se comunicar com o povo, de fazer uma “aliança política” com a população. Ele fez políticas públicas inéditas, históricas, em benefício do povo, mas esqueceu que era preciso estabelecer uma comunicação direta, constante, entre o governo, o partido e o povo. Isso não foi “excesso de pragmatismo”, isso foi a mais absoluta falta de pragmatismo.
O golpe aconteceu porque o PT não foi pragmático. Foi um partido que hiperidealizou as alianças com a mídia, com o centro, com os setores conservadores da sociedade.
Se a esquerda quiser voltar ao poder, evidentemente não poderá cair na falácia, vendida espertamente pela mídia, de que não precisa se aliar. Precisa sim, mas com pragmatismo, ou seja, cultivando a força das ruas, dos movimentos sociais, da imprensa alternativa, para se posicionar de maneira mais confortável e soberana perante as alianças necessárias que terá de estabelecer com setores do centro.
Neste sentido, a irritação principal da militância, em torno do possível apoio do PT a candidatura de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara, não era contra o “pragmatismo” do partido, mas exatamente pelo oposto, porque não era uma posição pragmática: o partido perderia ainda mais base social, ou seja, incorreria no mesmo erro de Dilma, que abandonou completamente o fator “base social” de seu cálculo político na montagem de seu ministério. Sem base social, sem votos, de que vale o PT? Nada. Então a estupidez monstruosa do partido, em especial dos quadros que ocupavam posições de poder no governo, foi perder a sua base social. Sem esta força, perderam a única coisa que poderiam oferecer ao centro. Para ter base social, é preciso governar para o povo, falar ao povo, ouvir o povo, estar junto ao povo o tempo inteiro. Se tivesse agido assim, não teria havido o golpe.
A esquerda brasileira, se quiser se recuperar, precisa ir além do esquerdismo vulgar. Ela precisa recuperar valores que sempre foram queridos ao povo, e que foram inventados, lá atrás, pela própria esquerda, ou pelo campo progressista que lhe correspondia, como a meritocracia, a liberdade individual, o pragmatismo. Se a esquerda torcer o nariz para estas virtudes, perderá o povo, e voltará ao cercadinho acadêmico e elitista em que o sistema adora vê-la. Aliás, quando a esquerda dá mostras de se “comportar”, ou seja, de ocupar este cercadinho confortável e seguro, a grande mídia passa a tratá-la com uma doçura impressionante. Muitos quadros da ultra-esquerda, nos partidos, na academia, sentem isso na pele. A grande imprensa adora uma esquerda acadêmica, “esquerdista”, castrada, com voz fina, disposta a cantar na festa dos poderosos. Setores medrosos da burguesia, que não se identificam com os exageros conservadores, até porque estes não lhes interessam, são facilmente atraídos por essa esquerda de butique, que não oferece riscos, porque não ganha eleições, não ameaça o status quo.
Por outro lado, a esquerda pragmática, esta é tratada como inimiga de classe pelos setores mais reacionários do capital, porque eles sabem que ela pode despertar o interesse do próprio… capital, em especial o capital produtivo, o capital industrial, o capital da construção civil. Daí a Lava Jato. Ela também é a vingança do capital não-produtivo, do capital estrangeiro, do capital midiático, contra o capital industrial, que se aliou ao PT para ampliar seu poder econômico e político.
A Lava Jato passou a criminalizar qualquer relação entre o PT, Lula, e as grandes empresas, como se fosse possível a um governo, a um partido de massas, tocar adiante uma administração sem ouvir, sem negociar, sem estabelecer parcerias, com os setores estratégicos do capital nacional. Claro, a mídia, associada aos setores golpistas e reacionários da burocracia, à meganhagem, insuflará no ouvido do homem comum a palavrinha mágica: olha, é corrupção! Olha essa obra, custou bilhões! Olha esse operador aqui, ganhou milhões! É muito fácil insuflar a inveja de uma classe média que se esfola dia e noite para pagar um dos custos de vida mais caros do planeta.
O PT, naturalmente, e isto sim foi um erro, deveria ter levado adiante essas parcerias sem jamais esquecer de se comunicar diretamente com a população. Uma Copa do Mundo, uma Olimpíadas, jamais poderiam ser levadas adiante sem um projeto popular progressista, que oferecesse uma narrativa original, popular e inteligente, ao mundo. Não fazer isso fez parte do pacote de estupidez e inacreditável ausência de criatividade que caracterizou o governo Dilma. A mesma coisa vale para os projetos de infra-estrutura, como as hidrelétricas, que deveriam vir acompanhados de ousadas, ou mesmo revolucionárias campanhas em prol das populações indígenas. Tudo isso é comunicação, é política, é acumulação de forças para as batalhas no parlamento, nas ruas, na mídia, nos tribunais.
Piketty não pode usar dados do Brasil, porque as nossas castas burocráticas, talvez por um astuto interesse de classe, não quiseram, não puderam, ou não se interessaram em lhe repassar dados detalhados sobre a renda no Brasil. O governo brasileiro, que nunca percebeu a importância da batalha de ideias, também não se empenhou em convencer as castas a fazê-lo.
Mas os índices que existem sobre o Brasil mostram que somos um dos países mais desiguais do mundo, embora tenhamos melhorado um pouco durante a era petista.
Ora, é muito sintomático que as políticas públicas que permitiram ao país reduzir um pouco sua desigualdade, amenizando as tensões sociais, sejam agora demonizadas ou mesmo deliberadamente alvos de destruição em massa por parte de um governo profundamente reacionário e dos setores que o apoiam.
Não é preciso ser nenhum gênio da economia ou política para prever que as tensões sociais vão continuar se aprofundado. O status quo então terá de elevar os investimentos em repressão, de um lado, e de “justificação”, de outro. A Lava Jato é um instrumento que mistura um pouco de repressão, na medida em que aterroriza a classe política, mas sobretudo de justificação, visto que suas lideranças ventilam discursos demagógicos que põem a corrupção como principal mal do Brasil, e não a desigualdade.
A classe política não é boba. Ela entende muito bem os recados ideológicos da Lava Jato. Quando o procurador-geral da República viaja a Davos, posando de estadista, e diz que a Lava Jato é “pró-mercado”, eles compreendem perfeitamente o significado oculto da expressão. Ela quer dizer: a Lava Jato é de direita, neoliberal, privatista, quer destruir empresas nacionais para entregar nossas riquezas para potências estrangeiras.
A polarização gera uma onda de estupidez política sem igual. Por exemplo, a dicotomia entre empresa pública versus empresa privada. Mais uma vez, a imprensa é culpada, porque ela fez do Brasil sua Coreia do Norte particular. Foram tantos anos de campanhas de desinformação, de jornalismo histérico, que o brasileiro médio não sabe que o primeiro mundo é cheio de empresas públicas extremamente eficientes, que existem, nos EUA, na Europa, no Japão, programas sociais abrangentes desde sempre, que a tributação nos países ricos incide sobre quem ganha mais, que Roosevelt instituiu um imposto de herança de 75% nos Estados Unidos, na década de 30. Em seu desespero para manipular a opinião pública, fazendo-lhe odiar qualquer medida de esquerda, a imprensa brasileira se tornou pior do que a Fox americana, e os governos petistas, por ignorância e covardia, não entenderam a gravidade do que estava acontecendo.
A parte da culpa que cabe à esquerda, em especial aos partidos políticos, foi também não ter feitos debates públicos sobre a relação entre ideologia, economia e regime político, para que as pessoas entendessem que é possível conciliar um regime democrático, capitalista, com liberdade de imprensa e de empreendimento, com soluções autenticamente socialistas, como uma educação e uma saúde públicas de qualidade, com programas sociais, estatais modernas, eficientes. São assim as economias avançadas, ou por acaso a Nasa, os metrôs de Nova York, Paris, Londres, as petroleiras da Noruega, as universidades europeias e chinesas, não são estatais, não são eficientes, e não são estratégicas para o desenvolvimento, para a mobilidade urbana, para o bem estar de seus respectivos países? Se a imprensa não mostra, o presidente da república tinha de vir à TV cobrir esse lacuna, ou os partidos políticos. Não adianta ficar só no discurso, só no blablá, mostrando Lula na TV. Tem que oferecer informação.
Entretanto, tenho observado, em minhas leituras, que a acusação de “ignorância” que se faz a governos populares carrega também um tanto de preconceito elitista contra a própria democracia, que é justamente o regime em que pessoas mais simples, mais intuitivas, menos experientes, assumem o poder.
Um dos livros que estou lendo é sobre as Origens da Democracia na Grécia Antiga, escrito por acadêmicos norte-americanos. Eles usam muitas fontes antigas, escritores e filósofos da antiguidade, e sempre precisam alertar ao leitor sobre o preconceito aristocrático presente nesses textos. Revoluções democráticas são vistas com maus olhos pelos intelectuais da época, justamente porque não são lideradas por… intelectuais. Aliás, o caráter profundamente antidemocrático, autoritário e, por fim, totalitário, que as revoluções comunistas assumem, não teria sido porque foram lideradas por intelectuais?
Plutarco, por exemplo, escrevendo sobre Sólon, o legislador ateniense que criou as primeiras leis democráticas da Grécia Antiga, menciona um escritor antigo, Anarcássis, que assim se expressa sobre as vicissitudes vividas pelas lideranças políticas da Ática: “Na Grécia, discorrem os sábios, mas decidem os ignorantes”.
Esta é uma máxima tipicamente aristocrática: a decisão dos “ignorantes”, na verdade, eram decisões democráticas, tomadas pela massa comum dos cidadãos, a maioria deles pobres.
Estas passagens me forçam, por isso mesmo, a fazer uma ponderação nas minhas próprias críticas ao erros do PT e de Lula/Dilma. Eu mantenho minha crítica sobre seus erros, sobretudo na esfera da política, em particular da comunicação política direta com a população, que foi abandonada. Mas talvez eu mesmo esteja incorrendo em outro erro, abraçando uma visão paternalista ou condescendente em relação ao povo, como se fosse possível, a Lula ou Dilma, “educar” politicamente o povo. Democracias não nascem de cima para baixo. Elas nascem de um longo processo de aprendizado popular, no qual a cultura democrática, que é baseada sobretudo na autoconfiança do povo, amadurece, desenvolve-se e, por fim, contamina todas as instituições e classes sociais, em especial as de baixo.
Neste sentido, Lula nunca teve esse poder, ou mesmo essa pretensão aristocrática, professoral, de “educar politicamente” o povo. Provavelmente, isso nem passou pela cabeça do presidente, que, por isso mesmo, talvez tenha sido a nossa liderança mais genuinamente democrática. Lula aceitava e entendia a sociedade brasileira como ela era, sem pretender, como querem intelectuais, sejam liberais, conservadores ou progressistas, mudá-la de cima para baixo. Ele tentou, ao contrário, mudá-la de baixo para cima, dando condições econômicas para que os setores mais vulneráveis da população conquistassem o mínimo conforto necessário para desenvolver um pensamento político autônomo.
Mas obviamente não deu tempo. O próprio povo entendeu que o tempo era curto e concedeu a Lula vários mandatos sucessivos. Então veio o golpe. Que ocorreu porque os setores políticos antidemocráticos, e aí talvez devemos incluir até mesmo a esquerda, mas em especial os ultrarricos e se partido, a mídia, não tinham paciência de aguardar que a cultura democrática tivesse mais alguns anos de consolidação.
Se não houvesse golpe e não houvesse, em especial, essa operação de guerra chamada Lava Jato, que destruiu as empresas de construção pesada que tocavam as grandes obras de infra-estrutura do país, Dilma iria inaugurá-las, essas obras: refinarias, usinas, siderúrgicas, portos, estradas, ferrovias. Lula ganharia as eleições em 2018 e novamente em 2022.
Piketty adverte ainda que uma análise sócio-econômica deve entender a profunda separação entre os 10% que ganham mais e os 1% do topo da pirâmide. Mesmo esses 1% também devem ser divididos. Há uma elite ainda mais ínfime, o milésimo percento, os 0,001%. Quando falamos em classe média, damos vazão a uma abstração um tanto idiota, porque não há sentido em comparar quem ganha 5 a 10 mil reais por mês, e aquele que aufere alguns milhões.
O campo progressista falhou em fazer entender essa diferença. Outro erro foi não ter explorado a profunda desigualdade existente dentro do serviço público. Um posicionamento progressista e democrático nessa esfera teria valido, ao governo federal, o apoio de uma grande massa de servidores públicos, de todas as instâncias. O golpe teria sido evitado.
A diferença entre os salários das castas e o simples mortais do serviço público é positivamente criminosa. Mas não adianta agora chorar o leite derramado. O campo progressista deveria patrocinar, com urgência, estudos e pesquisas, mostrando essas diferenças, fazendo comparações com o resto do mundo. Isso é fazer política! Os deputados federais do campo popular, assim como algumas universidades, tem acesso a recursos para levar adiante esse tipo e pesquisa. Por que não o fazem?
Por fim, eu gostaria de externar algumas reflexões sobre o que eu considero erros conceituais da esquerda, que tem consequências políticas e eleitorais muito negativas.
Não é só a Lava Jato e a campanha midiática que explica a derrota eleitoral do PT em 2016, por exemplo. Outros fatores, de ordem mais geral, talvez tenham influído.
Eu quero falar sobre alguns lugares-comuns que dizem muito sobre os erros, no meu ponto-de-vista que tem vitimado a esquerda e a conduzido por trilhas erradas, cada vez mais longe do bom senso popular – e isso não só no Brasil.
Por exemplo, a meritocracia. Há alguns dias, as redes sociais progressistas (que são enormes, por isso ganhamos quatro eleições presidenciais consecutivas) se encheram de festa pela conquista do primeiro lugar no concurso da faculdade de medicina da USP, por Bruna Sena, uma menina negra, pobre, moradora da periferia.
Rapidamente, os meios de comunicação tentaram, como sempre fazem nestes casos, manipular o seu exemplo como um símbolo da “meritocracia”. A jovem, revelando uma astúcia política que é cada vez mais comum nas novas gerações, respondeu, com visível irritação, que a “meritocracia é uma falácia”. Com honestidade quase doída, ela disse que o seu desempenho aconteceu porque recebeu “apoio”. A resposta dela, numa entrevista a um site, é um caso de estudo tão interessante que vale reproduzir um trecho:
A meritocracia é uma falácia. Eu consegui porque tive ajuda. Não dá para igualar as pessoas que não tiveram as mesmas oportunidades. Eu me esforcei muito, sim, mas não consegui só por causa disso, eu tive muito apoio. E é isso que a gente tem que dá para quem não tem oportunidade. A gente perde muitos gênios por aí, inclusive nas favelas porque não podem estudar. E eu fiquei com muito medo de que minha postagem servisse de argumento para a meritocracia. E eu vi comentários que se baseavam nisso. Mas eu sabia que ia acontecer. Eu quero frisar bem que a questão importante é a oportunidade. Eu consegui porque tive oportunidade. Eu tenho visto minha história como apoio à meritocracia e fico muito triste com isso.
Entende-se porque ela passou em primeiro lugar. Ela é brilhante – e progressista. Ela usou a expressão “meritocracia” conforme esta tem sido manipulada pelo pensamento dominante para enganar o povo e não lhe dar oportunidade, sob a “justificação” de que ele só não ascende socialmente porque lhe faltam méritos e esforço.
Ela comunicou-se perfeitamente. Mas há um erro profundo na teoria da moça, que é a teoria da esquerda, hoje em dia: que é de aceitar o significado negativo e enganoso ao termo “meritocracia” que a direita lhe conferiu.
Meritocracia não é uma falácia. É uma coisa boa. O pobre, na verdade, é o único que pode entender a meritocracia em sua acepção mais pura, mais verdadeira, e Bruna é um exemplo disso.
A falácia não está na meritocracia, que deve ser estimulada, e incorporada ao ideário progressista, e sim na alegação de que é possível algum tipo de meritocracia sem que haja, antes, uma oferta equânime e justa de oportunidades.
A gravidade desse erro, no meu ponto-de-vista, é porque o pobre, o cidadão comum, sem grandes posses, quer a meritocracia, quer viver num mundo meritocrático, porque ele sabe que a única maneira de ascender socialmente, é através de seu esforço pessoal, de seu trabalho, de seu empenho e determinação. Essa é a ideia na qual ele precisa acreditar, porque ele também sabe que apenas se acreditar, com todas as suas forças, em si mesmo, poderá efetivamente conseguir o que deseja. Se tiver uma oportunidade, ótimo, mas ele não pode esperar isso. Ele tem que lutar com que tem a mão.
A esquerda que não oferece esse estímulo ao pobre, que não lhe mostra a meritocracia como uma virtude, comete um erro. Ela perde o pobre para a igreja evangélica. Além disso, será uma esquerda hipócrita, uma esquerda herdeira, elitizada, que não vê a meritocracia como uma virtude tão importante porque seus filhos já tem oportunidades – e esta talvez seja a explicação antropológica para o olhar blasé da esquerda para a meritocracia. O pobre, no entanto, entende a importância central da meritocracia para sua vida, para seus filhos. Isso não quer dizer, naturalmente, que ele não entenda igualmente a necessidade de apoio, de oportunidades, para que esta meritocracia possa se materializar.
O que eu quero enfatizar é que, para o pobre, a meritocracia é um valor moral, que precisa ser incutido profundamente no espírito de seus filhos para que elas possam ascender socialmente. Por isso mesmo ele irá procurar as instituições sociais ou políticas que legitimem esses valores que ele já possui em si mesmo.
A esquerda precisa ser meritocrática, porque este é um conceito profundamente positivo, progressista, popular, desde que seja explicado ao povo que o rico não é rico por causa de seus “méritos”, e sim porque ele teve mais oportunidades. O que não quer dizer que o filho do rico ou da classe média também não precisem de “méritos”, caso queiram um lugar à luz do sol. Chico Buarque teve as melhores oportunidades do mundo, mas ninguém lhe negará o mérito próprio que o levou a se tornar o que se tornou.
Entretanto, é óbvio que existe uma tensão histórica entre meritocracia e democracia. O poder, numa democracia, não pertence ao especialista mais renomado, ao jurista mais respeitado, ao intelectual mais inteligente, e sim àquele que tem mais votos. Mas esse é seu mérito: ter mais votos, e isso não é pouca coisa.
Outro erro comum da esquerda é dar uma conotação negativa ao termo “pragmatismo”. Este é um assunto importante porque a crise política que levou a esquerda brasileira, em especial o PT, à uma derrota política histórica, produziu também a seguinte falácia: a de que um dos culpados foi o pragmatismo ou o excesso de pragmatismo. Daí, a crise política, que poderia levar a esquerda às reflexões necessárias sobre seus erros, cede às suas franjas extremistas e infantis, segundo as quais ela não deveria ter feito “alianças” com ninguém.
Balela! A aliança do PT com o centro foi necessária, inteligente e pragmática. Se os aliados se revelaram corruptos, isso não é culpa da aliança em si. E não existe “excesso de pragmatismo”, que é uma expressão absurda, sem sentido. Pragmatismo é sempre bom e o seu excesso, melhor ainda.
Pragmatismo também é saber a hora, por exemplo, de refazer alianças, ou de rompê-las.
O PT errou porque esqueceu de se comunicar com o povo, de fazer uma “aliança política” com a população. Ele fez políticas públicas inéditas, históricas, em benefício do povo, mas esqueceu que era preciso estabelecer uma comunicação direta, constante, entre o governo, o partido e o povo. Isso não foi “excesso de pragmatismo”, isso foi a mais absoluta falta de pragmatismo.
O golpe aconteceu porque o PT não foi pragmático. Foi um partido que hiperidealizou as alianças com a mídia, com o centro, com os setores conservadores da sociedade.
Se a esquerda quiser voltar ao poder, evidentemente não poderá cair na falácia, vendida espertamente pela mídia, de que não precisa se aliar. Precisa sim, mas com pragmatismo, ou seja, cultivando a força das ruas, dos movimentos sociais, da imprensa alternativa, para se posicionar de maneira mais confortável e soberana perante as alianças necessárias que terá de estabelecer com setores do centro.
Neste sentido, a irritação principal da militância, em torno do possível apoio do PT a candidatura de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara, não era contra o “pragmatismo” do partido, mas exatamente pelo oposto, porque não era uma posição pragmática: o partido perderia ainda mais base social, ou seja, incorreria no mesmo erro de Dilma, que abandonou completamente o fator “base social” de seu cálculo político na montagem de seu ministério. Sem base social, sem votos, de que vale o PT? Nada. Então a estupidez monstruosa do partido, em especial dos quadros que ocupavam posições de poder no governo, foi perder a sua base social. Sem esta força, perderam a única coisa que poderiam oferecer ao centro. Para ter base social, é preciso governar para o povo, falar ao povo, ouvir o povo, estar junto ao povo o tempo inteiro. Se tivesse agido assim, não teria havido o golpe.
A esquerda brasileira, se quiser se recuperar, precisa ir além do esquerdismo vulgar. Ela precisa recuperar valores que sempre foram queridos ao povo, e que foram inventados, lá atrás, pela própria esquerda, ou pelo campo progressista que lhe correspondia, como a meritocracia, a liberdade individual, o pragmatismo. Se a esquerda torcer o nariz para estas virtudes, perderá o povo, e voltará ao cercadinho acadêmico e elitista em que o sistema adora vê-la. Aliás, quando a esquerda dá mostras de se “comportar”, ou seja, de ocupar este cercadinho confortável e seguro, a grande mídia passa a tratá-la com uma doçura impressionante. Muitos quadros da ultra-esquerda, nos partidos, na academia, sentem isso na pele. A grande imprensa adora uma esquerda acadêmica, “esquerdista”, castrada, com voz fina, disposta a cantar na festa dos poderosos. Setores medrosos da burguesia, que não se identificam com os exageros conservadores, até porque estes não lhes interessam, são facilmente atraídos por essa esquerda de butique, que não oferece riscos, porque não ganha eleições, não ameaça o status quo.
Por outro lado, a esquerda pragmática, esta é tratada como inimiga de classe pelos setores mais reacionários do capital, porque eles sabem que ela pode despertar o interesse do próprio… capital, em especial o capital produtivo, o capital industrial, o capital da construção civil. Daí a Lava Jato. Ela também é a vingança do capital não-produtivo, do capital estrangeiro, do capital midiático, contra o capital industrial, que se aliou ao PT para ampliar seu poder econômico e político.
A Lava Jato passou a criminalizar qualquer relação entre o PT, Lula, e as grandes empresas, como se fosse possível a um governo, a um partido de massas, tocar adiante uma administração sem ouvir, sem negociar, sem estabelecer parcerias, com os setores estratégicos do capital nacional. Claro, a mídia, associada aos setores golpistas e reacionários da burocracia, à meganhagem, insuflará no ouvido do homem comum a palavrinha mágica: olha, é corrupção! Olha essa obra, custou bilhões! Olha esse operador aqui, ganhou milhões! É muito fácil insuflar a inveja de uma classe média que se esfola dia e noite para pagar um dos custos de vida mais caros do planeta.
O PT, naturalmente, e isto sim foi um erro, deveria ter levado adiante essas parcerias sem jamais esquecer de se comunicar diretamente com a população. Uma Copa do Mundo, uma Olimpíadas, jamais poderiam ser levadas adiante sem um projeto popular progressista, que oferecesse uma narrativa original, popular e inteligente, ao mundo. Não fazer isso fez parte do pacote de estupidez e inacreditável ausência de criatividade que caracterizou o governo Dilma. A mesma coisa vale para os projetos de infra-estrutura, como as hidrelétricas, que deveriam vir acompanhados de ousadas, ou mesmo revolucionárias campanhas em prol das populações indígenas. Tudo isso é comunicação, é política, é acumulação de forças para as batalhas no parlamento, nas ruas, na mídia, nos tribunais.
POST SCRIPTUM
Todos temos certeza que Piketty tocou no ponto fulcral do problema. Depois de 400 anos de acumulação do capital, desde o início do capitalismo, e agora na fase do neoliberalismo totalitário (Chile está aí para não nos deixar mentir) o capitalismo se mostrou a fonte de suas proprias crizes que levam a tristeza, a morte e à acumulação da riqueza nas mão de poucos que tem estômago para explorar seus irmãos.
Por que temos certeza que Thomas Piketty acertou na sua análise? Porque aqui no Brasil onde a midia e os institutos conservadores e retrógrados que estudam modos de manutenção do status quo, se arvoram em defender o capital dos ataques. Estão mostrando sua cara.
Publicações apareceram detratando e afirmando que o autor da obra "O capital no século XXI" usou dados errados, deturpou os dados, fez inferências vãs.
Dá para ver que estão desesperados. E chegará um dia que nem todos os institutos e toda mídia golpista e a serviço da produção da pobreza, e todas as instituições de estado como congressos e câmaras de deputados não conseguirá mais conter a onda de desespero que eles mesmo possibilitaram.
E a classe média hipócrita achando que um dia será elite. Pensem, apedeutas: não riqueza suficiente no planeta todo para que todas as classes médias do planeta cheguem a ser elite. A elite é a suprema exploradora. E mesmo assim, estão fazendo o trabalho sujo da elite ignara, torpe e boçal. Um pouco de humanidade e de humildade seria suficiente para reconhecer o papel de trabalhadores que a classe média desempenha, se achando elite. Somente a luta justifica a vida. E o objetivo da vida é conseguir para todos os trabalhadores condições dignas e salários que os possibilitem viver com felicidade e alegria junto aos seus, sua família, seus ente queridos. É tão pouco o que traz dignidade: educação para os filhos, creches, postos de saúde e segurança pública.
A elite extrativista brasileira não pensa além de seu umbigo. Não vê que se todos os trabalhadores tiverem poder econômico mínimo esse dinheiro será investido aqui mesmo? Gerando mais trabalhos e mais serviços? Mas não, nem um centavo a a mais sai do seu bolso. Mesmo do bolso do governo que retira de todos. Retira mais dos pobres do que dos ricos. Esse limiar que fica claro na obra de Piketty esta chegando rápido. E então nada conterá o rompimento da barragem... São séculos de exploração e de vida de quinta categoria. São centenas de anos sendo caçados e empurrados para a periferia. E a classe média como turiferários desse monstro ganancioso que é a elite, permanece gravitando ao redor recebendo migalhas.
(6/XI/2020)
Bibliografia





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