INÍCIO

21 novembro 2025

ARTE DE JACK BALAS III

A ARTE OUSADA DE JACK BALAS III




Cartografia do desejo: o corpo masculino como mapa

Jack Balas constrói uma pintura que respira sensualidade, mito e viagem interior. Suas imagens, frequentemente homens jovens, atletas, viajantes ou corpos em repouso, não são apenas retratos, mas emblemas de uma masculinidade múltipla, vulnerável e poética. Balas compõe seus trabalhos como quem escreve cartas: camadas de tinta dialogam com mapas, números, frases manuscritas, localidades e símbolos visuais que situam o corpo masculino no espaço vasto do imaginário norte-americano.

Jack Balas

Sua paleta costuma oscilar entre o calor do sudoeste dos Estados Unidos e os azuis amplos do céu e da água, criando atmosferas que evocam liberdade, solidão e descoberta. Em muitas obras, o corpo figura como território físico e emocional, sobre o qual o artista inscreve rastros, coordenadas e textos. Essa fusão entre figuração, cartografia e anotação íntima dá à pintura de Balas uma qualidade diarística, como se cada imagem fosse um capítulo de uma narrativa maior sobre deslocamento, desejo e identidade.

O masculino que Balas representa não é monumental nem distante: é sensível, atento, às vezes melancólico. Seu olhar retira a rigidez dos estereótipos e devolve aos retratados uma complexidade silenciosa. Mesmo quando celebram vigor e beleza, as figuras carregam uma humanidade que se revela nos gestos cotidianos, nos trechos de texto que acompanham as cenas e nos vazios que circundam o corpo.

Essa sobreposição entre imagem e palavra, característica central de sua produção aproxima o artista da tradição da pintura narrativo-poética, mas com um tom muito contemporâneo: íntimo, afetivo e permeado por um senso de deslocamento geográfico e emocional. Em Balas, a pintura é mapa, registro e confissão.

O resultado é uma obra que seduz pela beleza imediata, mas permanece pela profundidade: um convite a atravessar essas geografias do corpo e a pensar o masculino como território aberto, vivo, em constante reinvenção.
















Wess Hempell






















Fonte




FORGETFULNESS

FORGETFULNESS

(Billy Collins)

(Vídeo do poema)

Billy Colins reads his poem: “Forgetfulmess”


The name of the author is the first to go
followed obediently by the title, the plot,
the heartbreaking conclusion, the entire novel
which suddenly becomes one you have never read,
never even heard of,

as if, one by one, the memories you used to harbor
decided to retire to the southern hemisphere of the brain,
to a little fishing village where there are no phones.

Long ago you kissed the names of the nine Muses goodbye
and watched the quadratic equation pack its bag,
and even now as you memorize the order of the planets,

something else is slipping away, a state flower perhaps,
the address of an uncle, the capital of Paraguay.

Whatever it is you are struggling to remember,
it is not poised on the tip of your tongue,
not even lurking in some obscure corner of your spleen.

It has floated away down a dark mythological river
whose name begins with an L as far as you can recall,
well on your own way to oblivion where you will join those
who have even forgotten how to swim and how to ride a bicycle.

No wonder you rise in the middle of the night
to look up the date of a famous battle in a book on war.
No wonder the moon in the window seems to have drifted
out of a love poem that you used to know by heart.


“Forgetfulness” do poeta americano Billy Collins, um poema brilhante e melancólico. Conhecido por seu tom acessível, humor sutil e profunda reflexão sobre a experiência humana comum, Collins capta aqui a universal e peculiar sensação do ato de esquecer que se torna mais e mais presente a medida que o tempo passa.

(Ouvi esse poema há 18 anos no YouTube e desde então volto a ele, tão intenso, melancólico e belo ele é). 


Tradução


Esquecimento


O nome do autor é o primeiro a partir,
seguido obedientemente pelo título, pela trama,
pela conclusão comovente, pelo romance inteiro
que subitamente se torna um que você nunca leu,
sobre o qual nunca ouviu falar,

como se, uma a uma, as memórias que você outrora abrigava
resolvessem se aposentar no hemisfério sul do cérebro,
para um pequeno vilarejo de pescadores onde não há telefones.

Há muito tempo você beijou os nomes das nove Musas, adeus
e viu a equação quadrática fazer as malas,
e mesmo agora, enquanto você decora a ordem dos planetas, algo mais está escapulindo, uma flor-símbolo de um estado, talvez,
o endereço de um tio, a capital do Paraguai.

Seja o que for que você está lutando para lembrar,
não está pairando na ponta da sua língua,
nem mesmo espreitando num canto obscuro do seu baço.

Ele flutuou rio abaixo por um escuro rio mitológico
cujo nome começa com um L, até onde você se recorda,
bem a caminho do próprio oblívio, onde você se juntará àqueles
que sequer se lembram de como nadar e como andar de bicicleta.

Não é de surpreender que você se levante no meio da noite
para procurar a data de uma batalha famosa num livro sobre guerra.
Não é de surpreender que a lua na janela pareça ter vagado para fora de um poema de amor que você outrora sabia de cor.




Análise

Billy Collins é um mestre em transformar o banal em filosófico com um toque de leveza. O grande desafio aqui foi preservar sua voz única: um equilíbrio preciso entre o coloquial e o literário, o humor e a melancolia.

1. Título e Estrutura

“Forgetfulness” foi traduzido como “Esquecimento”. Optei pelo substantivo que define o estado/processo, em vez de uma tradução mais concreta como “Esquecer”, pois o poema trata da condição gradual e abstrata da perda de memória.

2. Tom e tradução usando dicionário

Collins usa um registro formal (“harbor”, “obediently”) mesclado a coloquialismos (“pack its bag”, “slipping away”). 

Tentei buscar o mesmo efeito em português:
“used to harbor” → “outrora abrigava” (um tom levemente mais poético para “harbor”).
“pack its bag” → “fazer as malas” (expressão coloquial equivalente que mantém a personificação).
“slipping away” → “escapulindo” (palavra que capta a ação furtiva e gradual).


3. Imagens Centrais e Desafios

“the southern hemisphere of the brain”: A imagem é genial. O “hemisfério sul” soa como um lugar distante, inacessível, um exílio interior (para os povos colonizadores do norte). Mantive a imagem geográfica literal, “hemisfério sul do cérebro”, pois sua força está justamente na estranheza e na precisão pseudo-científica, uma vez que não existe realmente um hemisfério sul no cérebro, somente na poesia.

“a little fishing village where there are no phones”: Esta é a metáfora central para a inacessibilidade das memórias perdidas. Traduzi de forma direta, “um pequeno vilarejo de pescadores onde não há telefones”, preservando a ideia de um refúgio isolado e pacífico, mas irremediavelmente desconectado.

“dark mythological river whose name begins with an L”: O ápice do humor e da melancolia. A referência ao rio do esquecimento na mitologia grega o Rio Λήθη Lḗthē, |Lithi|, é propositalmente obscurecida. O poeta “quase” se lembra, o que é tragicômico. 
A manutenção da letra “L” é crucial, pois é o que todo leitor com um vestígio de cultura clássica irá buscar, assim como o narrador. A tradução “cujo nome começa com um L” mantém perfeitamente essa ironia.

4. Ritmo e Fluxo

O poema de Collins é narrativo, quase uma prosa poética. Minha tradução buscou manter a cadência fluida e conversacional, utilizando orações longas e pontuação similar para guiar o leitor pela espiral de esquecimentos. A quebra de versos foi respeitada para manter o mesmo ritmo pausado e reflexivo.

5. Pontos de Destaque na Tradução

“the heartbreaking conclusion” → “a conclusão comovente”. “Heartbreaking” pode ser “comovente” ou “arrasadora”. Escolhi “comovente” por ser um termo mais abrangente e suave, adequado ao tom do poema, embora outro significado exista.
“poised on the tip of your tongue” → “pairando na ponta da sua língua”. É uma expressão idiomática equivalente em português, essencial para manter a ideia universal da memória prestes a surgir.

“obscure corner of your spleen” → “canto obscuro do seu baço”. O baço, na teoria humoral antiga, estava associado à melancolia. Manter “baço” em vez de trocar por “mente” ou “cérebro” preserva a referência erudita e o caráter inusitado da imagem. Na teoria humoral antiga, a associação entre o baço e a melancolia (ou bílis negra/atrabile) foi desenvolvida por Hipócrates e, posteriormente, amplamente sistematizada por Cláudio Galeno. 
De acordo com essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos (humores): sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra (ou atrabile). Cada humor estava associado a um órgão específico. A bílis negra era produzida ou atraída para o baço. O desequilíbrio desse humor, quando em excesso, era considerado a causa do temperamento melancólico, que se manifestava como tristeza, introspecção e, em casos extremos, doenças mentais. Embora a ideia central da teoria dos humores tenha origem com Hipócrates, foi Galeno quem a expandiu e formalizou a relação entre os humores, os órgãos e os temperamentos humanos, incluindo a ligação do baço à melancolia.

“well on your own way to oblivion” → “bem a caminho do próprio oblívio”. A palavra “oblívio” é a escolha perfeita: é poética, formal e carrega o peso da aniquilação da memória, muito mais do que “esquecimento”.

A tradução de “Forgetfulness” buscou ser um espelho fiel do original: um texto que é, ao mesmo tempo, inteligente, comovente e ironicamente memorável. Mas demorou muito tempo, isso me mostrou que eu não sirvo para ser tradutor, pois procura muito tempo por um termo que substitua o original inglês, de forma perfeita.
O maior característica nesta versão é permitir que o leitor brasileiro experimente a mesma sensação que o poeta quer passar, quando lido e entendido em Inglês. Ao ser lido na língua original, provoca um sorriso de reconhecimento seguido por um calafrio existencial, ao nos vermos refletidos naquele que esquece até o nome do rio que leva tudo embora.






20 novembro 2025

O CAMINHO

O CAMINHO DA VIDA

Dharmachakra, Roda do Dharma, roda da lei (1). É o símbolo importante não budismo, hinduísmo e jainismo. No budismo, simboliza o ensinamento de Buddha e a jornada de iluminação, com seus oito raios representando o Nobre Camonho Óctuplo. É o símbolo que representa a rota para o fim do sofrimento através da sabedoria, ética e meditação. Representa a lei universal e o ciclo de morte e renascimento (samsara) da qual se pode escapar ao atingir a iluminação. Simboliza a “roda” de ensinamentos que Buddha girou após a sua primeira palestra em Sarnath, referindo-se à disseminação do Dharma. Os oito raios, representa, os componentes do Nobre Caminho Óctuplo que são práticas de sabedoria, ética e meditação para alcançar a iluminação. O centro da roda, representa o Buddha, a comunidade espiritual (Sangha) e o código moral do universo (Dharma). As pontas Sá roda podem simbolizar as várias percepções penetrantes que levam ao despertar espiritual. 


O Dharma: Um Ensinamento Simples e Profundo

O Buddha ensinou que todas as coisas são impermanentes, insatisfatórias e sem um “eu” permanente. Compreender essa verdade não é apenas um exercício intelectual, mas uma porta para a liberdade. O Dharma, a Lei, o Ensinamento, a Verdade tal como o Buddha viu e viveu é, antes de tudo, um método para acordar. Como disse o Abençoado: “Assim como o oceano tem um único sabor, o sabor do sal, também meu ensinamento tem um único sabor: o sabor da libertação.” (Udana 5.5)

O Dharma começa com o reconhecimento da realidade tal como ela é. O Buddha ensinou: “Existe sofrimento, existe a origem do sofrimento, existe a cessação do sofrimento e existe um caminho que conduz à cessação do sofrimento.” (Samyutta Nikaya 56.11). 

Essas Quatro Nobres Verdades são o alicerce de todo o ensinamento e de toda prática. Ao reconhecermos a natureza insatisfatória da existência condicionada, compreendemos que o sofrimento não surge por acaso: ele tem causas, sobretudo o apego, o desejo e a ignorância.

O Caminho Óctuplo é o modo de viver que dissipa a ignorância e cultiva sabedoria, ética e meditação. Como ensinou o Buddha: “Cultivai o Nobre Caminho Óctuplo; este é o caminho que conduz ao fim do sofrimento.” (Dhammapada, verso 273). O treinamento ético acalma as ações; a meditação purifica a mente; a sabedoria corta os enredamentos. Quando estes três elementos funcionam juntos, a mente se torna clara como água tranquila.

Mas o Dharma também é compaixão. O Buddha lembrou aos seus discípulos que a prática não tem valor se não produzir benevolência: “Assim como uma mãe protege seu único filho com a própria vida, assim deve o praticante cultivar um coração sem limites para todos os seres.” (Karaniya Metta Sutta). Viver o Dharma é tornar-se um lugar seguro para o mundo, abandonando o que causa dano e cultivando aquilo que sustenta a paz.

Por fim, o Dharma não é algo para acreditar cegamente, mas para verificar. O Buddha disse: “Não aceiteis meus ensinamentos por respeito a mim. Assim como o ourives testa o ouro queimando-o, cortando-o e esfregando-o, assim também deveis examinar minhas palavras.” (Jñānasāra-samuccaya). A prática é o ponto central: é pela experiência direta, na vida cotidiana, na meditação, no contato com os outros, que a verdade se torna viva.

A existência condicionada refere-se a toda a realidade manifesta, que está sujeita a causas e condições interligadas. Nada existe de forma autônoma e permanente; tudo surge, muda e desaparece dependendo de outros fatores, incluindo a impermanência (anicca), o sofrimento (dukkah) e a ausência de um eu duradouro (anatta). 

Detalhes da existência condicionada:Natureza interdependente: A existência condicionada descreve o fenômeno de que todos os fenômenos (objetos, seres, pensamentos) surgem da dependência de outros fatores, como no conceito de gênese condicionada. A interdependência é fundamental, mostrando que não somos entidades separadas, mas parte de uma grande teia de vida.
Impermanência: Esta existência é inerentemente transitória, instável e em constante fluxo, conhecida como anicca. Nada é permanente; tudo está sujeito à mudança, decadência e morte.
Ausência de um eu permanente: Não existe uma alma ou essência duradoura e imutável (anatta). O que percebemos como um "eu" é, na verdade, uma combinação de fatores (os cinco agregados) que estão em constante mudança, sem um centro fixo.
Sofrimento (Dukkha): A existência condicionada é caracterizada pelo sofrimento ou insatisfação, que surge da impermanência e da nossa tentativa de nos apegarmos a coisas transitórias.O objetivo do budismo: Dissipar a ilusão da existência separada e condicionada é um objetivo central. O caminho para a iluminação (nirvana) envolve a compreensão e a superação desse estado de condicionamento, alcançando uma realidade livre das leis de causa e efeito.

Pequeno glossário 

Anicca significa impermanência, a ideia de que tudo no universo está em constante mudança, mutação e transitoriedade. É uma das três marcas essenciais da existência, juntamente com dukkha  (insatisfação) e anatta (não-eu). Compreender anicca é crucial, pois a resistência a essa verdade é vista como a causa do sofrimento, já que nos apegamos a coisas que são naturalmente efêmeras. 

Dukkha, no budismo, é um termo que se traduz como sofrimento, mas é melhor compreendido como insatisfação, pois abrange uma gama de experiências desagradáveis e impermanentes da vida, desde o óbvio sofrimento físico e mental até a insatisfação sutil de viver em um mundo em constante mudança. É um dos conceitos fundamentais do budismo, a primeira das quatro nobres verdades, e a prática budista visa a cessação de dukkha.

Anatta é um conceito central no budismo que significa "não-eu" (ou "non-self"). Ele nega a existência de uma alma ou eu permanente e imutável, afirmando que um indivíduo é um conjunto de processos (os cinco agregados ou skandhas) em constante mudança, sem uma substância duradoura subjacente. Essa doutrina se diferencia das crenças indianas da época, que postulavam a existência de um atman, ou alma eterna.

No filme “A serpente verde” aparece a seguinte citação, que tentarei explicar a seguir:

(…) “O mal abre quatro caminhos: o inferno, fantasma faminto, besta e asura faz referência a conceitos presentes no budismo, especificamente aos seis reinos da existência (Samsara), que descrevem diferentes estados de sofrimento ou condições de vida condicionados pelo carma. Os quatro caminhos que você mencionou são, na verdade, quatro dos seis reinos, muitas vezes considerados os "maus caminhos" ou estados de sofrimento intenso.”

Os seis reinos são: 

Inferno: O estado de maior sofrimento, caracterizado por raiva e ódio extremos.

Fantasma Faminto (Preta): Um estado de desejo e apego insaciáveis, onde os seres têm fome e sede constantes, mas não conseguem se satisfazer.

Besta (Animal): Um estado de existência governado pelo instinto, ignorância e complacência.

Asura (Asuraville/Deuses Invejosos): Um reino caracterizado por ciúme, inveja, conflito e briga constante, muitas vezes devido ao orgulho e à competitividade.

Humano: O reino que oferece o maior potencial para a prática espiritual e a iluminação, pois equilibra prazer e sofrimento.

Deuses (Deva): Um reino de grande prazer e felicidade, mas que pode levar à complacência e impede a busca pela libertação do Samsara. 

Os três primeiros (Inferno, Fantasma Faminto e Besta) são universalmente considerados os três piores destinos (os “três maus caminhos”). 

O reino dos Asuras é por vezes incluído entre eles ou listado separadamente, resultando em quatro maus caminhos, ou, mais comummente, a lista completa dos seis reinos da existência cíclica (Samsara). 

Esses reinos não são necessariamente locais físicos, mas sim estados mentais e emocionais ou condições de vida que os indivíduos experimentam com base em suas ações (carma), que se originam dos “três venenos” principais: ignorância, apego e aversão.

Análise Preliminar do fragmento sobre os “Quatro Caminhos” no Budismo, no texto acima. 

Que estas breves palavras possam ser sementes de clareza. Que todos os seres encontrem o caminho que conduz ao fim do sofrimento.


Análise Preliminar do fragmento sobre os “Quatro Caminhos” no Budismo, no texto acima. 


Introdução

O fragmento em análise, “O mal abre quatro caminhos: o inferno, fantasma faminto, besta e asura”, constitui uma referência direta e precisa a uma das doutrinas centrais do Budismo: a cosmologia dos Seis Reinos do Samsara (Saṃsāra). Esta doutrina descreve os possíveis destinos do renascimento, condicionados pela lei do carma (karma), que é a consequência ética das ações intencionais. A menção específica a esses quatro reinos os identifica como os “maus caminhos” ou “estados de sofrimento” (durgati), que são resultados preponderantes de ações não-salutares (akuśala-karma) motivadas pelos “três venenos” (triviṣa): ignorância (avidyā/moha), apego (rāga) e aversão (dveṣa).

Uma contextualização doutrinária: 
Os Seis Reinos do Samsara

O Samsara representa o ciclo de nascimento, morte e renascimento, caracterizado pelo sofrimento (duḥkha) inerente a toda existência condicionada. Os seis reinos são uma categorização dessas experiências existenciais. O fragmento cita quatro deles, omitindo os reinos dos Deuses (Deva) e dos Humanos (Manuṣya). Esta omissão é significativa, pois isola os destinos considerados mais dolorosos e menos propícios ao progresso espiritual.

Abaixo, detalha-se a posição de cada um dos reinos mencionados no fragmento:

1. Inferno (Naraka): Este não é um lugar de condenação eterna, como em algumas tradições ocidentais, mas um estado temporário de tormento extremo, resultante principalmente de ações violentas e de ódio profundo. Os seres nos reinos infernais experienciam sofrimentos físicos e mentais intensos, até que o carma negativo que os levou lá se esgote.

2. Fantasma Faminto (Preta): Este reino é dominado pela privação e pelo desejo insaciável. Os pretas são representados com barrigas imensas e gargantas minúsculas, simbolizando uma fome e sede que nunca podem ser saciadas. É um estado de existência resultante do apego excessivo, da ganância e do uso inadequado de recursos.

3. Besta/Animal (Tiryak): A existência animal é caracterizada pela ignorância, pelo medo e pela subjugação aos instintos básicos. A falta de discernimento espiritual (prajñā) é a marca principal deste reino. O sofrimento aqui advém da predação, da exploração pelos humanos e da incapacidade de compreender ou praticar o Dharma.

4. Asura: Este é o reino mais complexo da lista. Os asuras, ou "titãs" / "semideuses", são seres poderosos, mas consumidos pela inveja, competitividade e paranoia. 
Eles estão constantemente em conflito, especialmente com os deuses (Devas), a quem invejam. Este estado surge de ações meritórias misturadas com orgulho, agressividade e ciúme. A sua inclusão entre os "maus caminhos" não é universal, variando entre as diferentes tradições budistas.

O enquadramento doutrinário: 
Os "Quatro maus caminhos"

A afirmação de que "o mal abre quatro caminhos" refere-se diretamente à noção de que ações negativas, impulsionadas pelos três venenos, maduram como renascimentos nesses reinos de intenso sofrimento.

• Inferno está ligado primordialmente ao veneno da aversão (ódio).
• Fantasma Faminto está ligado primordialmente ao veneno do apego (ganância).
• Besta está ligado primordialmente ao veneno da ignorância (estupidez).
• Asura está ligado a uma combinação de ações positivas (que lhes dão poder) com os venenos do apego (à posição) e da aversão (inveja e agressão).

Em algumas escolas budistas, particularmente no Theravada, a lista clássica dos "Três Maus Caminhos" (apāya) inclui apenas Inferno, Fantasma Faminto e Besta. No entanto, em tradições Mahayana e Vajrayana, os Asuras são frequentemente agrupados a esses três, formando os "Quatro Maus Caminhos" ou "Quatro Reinos Ínfimos". A lógica é que, apesar de seu poder, a mente de um Asura é um campo de batalha de emoções perturbadoras, tornando-o um estado de sofrimento psíquico intenso, mesmo que a dor física não seja tão proeminente quanto no Inferno.

Interpretação Psicológica e Soteriológica

É crucial entender, como o próprio fragmento finaliza, que estes reinos não são apenas destinos pós-morte. Eles são, simultaneamente, estados mentais e condições de vida experienciados no aqui e agora.

• Uma pessoa consumida por uma raiva cega vive, nesse momento, uma experiência do reino do Inferno.
• Um indivíduo dominado por um vício ou um desejo compulsivo que nunca pode ser verdadeiramente satisfeito experiencia o estado de Fantasma Faminto.
• Alguém que vive apenas para satisfazer necessidades básicas, sem questionamento espiritual, está imerso no reino da Besta.
• Uma pessoa no ambiente corporativo ou social, obcecada pela competição, pela inveja e pela paranóia de ser traída, vive a realidade dos Asuras.

A soteriológia (doutrina da salvação) budista aponta que o objetivo final é a libertação do Samsara como um todo, transcendendo até mesmo o agradável reino dos Deuses, que, por ser de puro prazer, gera complacência. O reino Humano é considerado o mais precioso, pois nele o sofrimento é palpável o suficiente para motivar a busca espiritual, e a inteligência é aguçada o suficiente para compreender e praticar o Dharma, o caminho que leva ao Nirvana (Nibbāna), a cessação de todo sofrimento.

O fragmento analisado demonstra um conhecimento preciso da cosmologia e psicologia moral budista. A menção aos "quatro caminhos" do mal — Inferno, Fantasma Faminto, Besta e Asura — encapsula a compreensão budista de que estados mentais negativos, quando cultivados, não apenas criam infelicidade imediata, mas também estabelecem as condições para renascimentos em realidades existenciais de sofrimento intenso. Esta doutrina serve, portanto, como um poderoso incentivo ético para a purificação mental, a prática de ações salutares e o cultivo da sabedoria que permite transcender todos os seis reinos do Samsara.


Um textinho da Wikipédia bem claro que vale a pena ler:

O Caminho, ou Dharma tem vários significados, por exemplo: como a lei natural, o dever, o caminho correto ou a missão de vida de uma pessoa. É um conceito central no hinduísmo e no budismo que se refere aos princípios que regem o universo e a conduta correta, tanto para os indivíduos quanto para a sociedade. 
No budismo, Dharma é também o conjunto dos ensinamentos do Budda. 
No hinduísmo e outras tradições pode significar: 
A lei natural: Refere-se à ordem cósmica e aos princípios que regem a natureza, a sociedade e a vida individual. 
Dever e direito: Abrange ideias como dever, direitos, caráter e vocação. 
Missão de vida: É a tarefa, a missão ou o propósito único que cada indivíduo deve cumprir na sua existência. 
Conduta ética: Inclui comportamento moralmente correto, apropriado e digno, em harmonia com as leis naturais e divinas. 
Karma: Cumprir o dharma está ligado ao karma, pois ações corretas levam a um karma positivo, enquanto ações contrárias ao dharma levam a um karma negativo. 
No budismo
Os ensinamentos do Buda: O termo “Dharma” também pode se referir aos ensinamentos e à doutrina do Buda, que visam a libertação do sofrimento.
O caminho para a iluminação: Praticar o Dharma (ou seja, os ensinamentos do Buda) é a maneira de eliminar a ignorância e alcançar a paz interior e a felicidade.
A Roda do Dharma: Simboliza o Caminho Óctuplo, que inclui a compreensão correta, o pensamento correto, a fala correta, a ação correta, o meio de vida correto, o esforço correto, a atenção correta e a concentração correta. (1)


Bibliografia consultada

Textos canônicos 

Dhammapada – diversas traduções disponíveis gratuitamente em:

Samyutta Nikaya – seleção acessível em:

Udana – traduções livres em:

Karaniya Metta Sutta – disponível em português e inglês em:

(Continuará…)