INÍCIO

21 novembro 2025

FORGETFULNESS

FORGETFULNESS

(Billy Collins)

(Vídeo do poema)

Billy Colins reads his poem: “Forgetfulmess”


The name of the author is the first to go
followed obediently by the title, the plot,
the heartbreaking conclusion, the entire novel
which suddenly becomes one you have never read,
never even heard of,

as if, one by one, the memories you used to harbor
decided to retire to the southern hemisphere of the brain,
to a little fishing village where there are no phones.

Long ago you kissed the names of the nine Muses goodbye
and watched the quadratic equation pack its bag,
and even now as you memorize the order of the planets,

something else is slipping away, a state flower perhaps,
the address of an uncle, the capital of Paraguay.

Whatever it is you are struggling to remember,
it is not poised on the tip of your tongue,
not even lurking in some obscure corner of your spleen.

It has floated away down a dark mythological river
whose name begins with an L as far as you can recall,
well on your own way to oblivion where you will join those
who have even forgotten how to swim and how to ride a bicycle.

No wonder you rise in the middle of the night
to look up the date of a famous battle in a book on war.
No wonder the moon in the window seems to have drifted
out of a love poem that you used to know by heart.


“Forgetfulness” do poeta americano Billy Collins, um poema brilhante e melancólico. Conhecido por seu tom acessível, humor sutil e profunda reflexão sobre a experiência humana comum, Collins capta aqui a universal e peculiar sensação do ato de esquecer que se torna mais e mais presente a medida que o tempo passa.

(Ouvi esse poema há 18 anos no YouTube e desde então volto a ele, tão intenso, melancólico e belo ele é). 


Tradução


Esquecimento


O nome do autor é o primeiro a partir,
seguido obedientemente pelo título, pela trama,
pela conclusão comovente, pelo romance inteiro
que subitamente se torna um que você nunca leu,
sobre o qual nunca ouviu falar,

como se, uma a uma, as memórias que você outrora abrigava
resolvessem se aposentar no hemisfério sul do cérebro,
para um pequeno vilarejo de pescadores onde não há telefones.

Há muito tempo você beijou os nomes das nove Musas, adeus
e viu a equação quadrática fazer as malas,
e mesmo agora, enquanto você decora a ordem dos planetas, algo mais está escapulindo, uma flor-símbolo de um estado, talvez,
o endereço de um tio, a capital do Paraguai.

Seja o que for que você está lutando para lembrar,
não está pairando na ponta da sua língua,
nem mesmo espreitando num canto obscuro do seu baço.

Ele flutuou rio abaixo por um escuro rio mitológico
cujo nome começa com um L, até onde você se recorda,
bem a caminho do próprio oblívio, onde você se juntará àqueles
que sequer se lembram de como nadar e como andar de bicicleta.

Não é de surpreender que você se levante no meio da noite
para procurar a data de uma batalha famosa num livro sobre guerra.
Não é de surpreender que a lua na janela pareça ter vagado para fora de um poema de amor que você outrora sabia de cor.




Análise

Billy Collins é um mestre em transformar o banal em filosófico com um toque de leveza. O grande desafio aqui foi preservar sua voz única: um equilíbrio preciso entre o coloquial e o literário, o humor e a melancolia.

1. Título e Estrutura

“Forgetfulness” foi traduzido como “Esquecimento”. Optei pelo substantivo que define o estado/processo, em vez de uma tradução mais concreta como “Esquecer”, pois o poema trata da condição gradual e abstrata da perda de memória.

2. Tom e tradução usando dicionário

Collins usa um registro formal (“harbor”, “obediently”) mesclado a coloquialismos (“pack its bag”, “slipping away”). 

Tentei buscar o mesmo efeito em português:
“used to harbor” → “outrora abrigava” (um tom levemente mais poético para “harbor”).
“pack its bag” → “fazer as malas” (expressão coloquial equivalente que mantém a personificação).
“slipping away” → “escapulindo” (palavra que capta a ação furtiva e gradual).


3. Imagens Centrais e Desafios

“the southern hemisphere of the brain”: A imagem é genial. O “hemisfério sul” soa como um lugar distante, inacessível, um exílio interior (para os povos colonizadores do norte). Mantive a imagem geográfica literal, “hemisfério sul do cérebro”, pois sua força está justamente na estranheza e na precisão pseudo-científica, uma vez que não existe realmente um hemisfério sul no cérebro, somente na poesia.

“a little fishing village where there are no phones”: Esta é a metáfora central para a inacessibilidade das memórias perdidas. Traduzi de forma direta, “um pequeno vilarejo de pescadores onde não há telefones”, preservando a ideia de um refúgio isolado e pacífico, mas irremediavelmente desconectado.

“dark mythological river whose name begins with an L”: O ápice do humor e da melancolia. A referência ao rio do esquecimento na mitologia grega o Rio Λήθη Lḗthē, |Lithi|, é propositalmente obscurecida. O poeta “quase” se lembra, o que é tragicômico. 
A manutenção da letra “L” é crucial, pois é o que todo leitor com um vestígio de cultura clássica irá buscar, assim como o narrador. A tradução “cujo nome começa com um L” mantém perfeitamente essa ironia.

4. Ritmo e Fluxo

O poema de Collins é narrativo, quase uma prosa poética. Minha tradução buscou manter a cadência fluida e conversacional, utilizando orações longas e pontuação similar para guiar o leitor pela espiral de esquecimentos. A quebra de versos foi respeitada para manter o mesmo ritmo pausado e reflexivo.

5. Pontos de Destaque na Tradução

“the heartbreaking conclusion” → “a conclusão comovente”. “Heartbreaking” pode ser “comovente” ou “arrasadora”. Escolhi “comovente” por ser um termo mais abrangente e suave, adequado ao tom do poema, embora outro significado exista.
“poised on the tip of your tongue” → “pairando na ponta da sua língua”. É uma expressão idiomática equivalente em português, essencial para manter a ideia universal da memória prestes a surgir.

“obscure corner of your spleen” → “canto obscuro do seu baço”. O baço, na teoria humoral antiga, estava associado à melancolia. Manter “baço” em vez de trocar por “mente” ou “cérebro” preserva a referência erudita e o caráter inusitado da imagem. Na teoria humoral antiga, a associação entre o baço e a melancolia (ou bílis negra/atrabile) foi desenvolvida por Hipócrates e, posteriormente, amplamente sistematizada por Cláudio Galeno. 
De acordo com essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos (humores): sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra (ou atrabile). Cada humor estava associado a um órgão específico. A bílis negra era produzida ou atraída para o baço. O desequilíbrio desse humor, quando em excesso, era considerado a causa do temperamento melancólico, que se manifestava como tristeza, introspecção e, em casos extremos, doenças mentais. Embora a ideia central da teoria dos humores tenha origem com Hipócrates, foi Galeno quem a expandiu e formalizou a relação entre os humores, os órgãos e os temperamentos humanos, incluindo a ligação do baço à melancolia.

“well on your own way to oblivion” → “bem a caminho do próprio oblívio”. A palavra “oblívio” é a escolha perfeita: é poética, formal e carrega o peso da aniquilação da memória, muito mais do que “esquecimento”.

A tradução de “Forgetfulness” buscou ser um espelho fiel do original: um texto que é, ao mesmo tempo, inteligente, comovente e ironicamente memorável. Mas demorou muito tempo, isso me mostrou que eu não sirvo para ser tradutor, pois procura muito tempo por um termo que substitua o original inglês, de forma perfeita.
O maior característica nesta versão é permitir que o leitor brasileiro experimente a mesma sensação que o poeta quer passar, quando lido e entendido em Inglês. Ao ser lido na língua original, provoca um sorriso de reconhecimento seguido por um calafrio existencial, ao nos vermos refletidos naquele que esquece até o nome do rio que leva tudo embora.






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