INÍCIO

08 março 2022

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


8 de MARÇO
DIA INTERNACIONAL DA MULHER

E. Muybridge. Woman walking and opening a parasol,1887.

O #8deMarço é uma luta em defesa da vida das mulheres, contra a fome, a carestia, a violência, o desemprego e em defesa do SUS e dos serviços públicos gratuitos e de qualidade. É momento de reconstrução do País e de dar um basta aos retrocessos impostos por Bolsonaro.

Conheça Clara Zetkin, a feminista antifascista que impulsionou o Dia Internacional da Mulher
Por Caue Ameni 

Diferente de outras datas comemorativas criadas pelo comércio, o Dia Internacional da Mulher foi criado por uma socialista alemã fervorosa: Clara Zetkin, autora do livro Como nasce e morre o fascismo, que a editora Autonomia Literária tem a honra de trazer ao Brasil (publicado no Brasil em 2019).

No inicio do século 20, o incipiente movimento feminista começa a se organizar no interior das fábricas na Europa e nos EUA visando deflagrar uma campanha dentro do movimento socialista para reivindicar melhores condições de trabalho — que eram ainda piores que a dos homens proletarizados, chegando a ter jornadas de 16h por dia, seis dias por semana.

Enquanto crescia o movimento no interior das fábricas, a marxista Clara Zektin propôs, em agosto de 1910, na Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, a criação de uma jornada de manifestações anualmente, a fim de paralisar as fábricas para chamar a atenção da sociedade às demandas feministas. A conferência, realizada em Copenhague, Dinamarca, reuniu mais de 100 mulheres de 17 países que pertenciam a sindicatos, partidos socialistas, associações de trabalhadoras e as 3 primeiras mulheres eleitas no parlamento da Finlândia. A proposta de Zetkin foi aprovada e assim se celebrou pela primeira vez na Áustria, Dinamarca, Suíça e Alemanha o Dia Internacional da Mulher.
Quem foi Clara Zetkin?

Socialista, marxista e feminista, Clara Zetkin nasceu em Königshain-Wiederau, Alemanha, em 5 de julho de 1857. Estudou direito e começou a ter contato com movimentos operários alemães em 1874. Quatro anos depois, inicia sua militância no Partido dos Trabalhadores Socialistas (SAP), que se converte no Partido Social-democráta Alemão (SPD) em 1890. Zetkin torna-se uma das principais referência dentro da organização.


Clara Zetkin


Em 1882, Zetkin se exila na Suíça e França por causa da proibição do governo Bismack em manter os movimentos comunistas na legalidade. Em Paris, é uma das criadoras da Internacional Socialista e começa a editar livros na clandestinidade. Sua principal luta foi pelo sufrágio feminino, reivindicado por uma ótica marxista de classe, e a denuncia certeira sobre os perigos que a ascensão do fascismo traria à humanidade.

Principais passagens em vida foram

1891: Com sua amiga íntima, Rosa Luxemburgo, assassinada em Berlin em 1919, editou entre 1891 e 1917 o jornal “Die Gleichheit” (A Igualdade), uma revista bimensal para mulheres operárias.

1907: Naquele ano, 10.500 mulheres formavam parte do SPD e criaram a primeira Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em Stuttgart, Alemanha, onde fundaram a Internacional Socialista das Mulheres, cuja Zetkin se tornou a Secretária Internacional.

1916: Durante a Primeira Guerra Mundial, foi abertamente antibelicista e presa diversas vezes por ser contrária a guerra. Essa posição a leva romper com o SPD e no mesmo ano se torna uma das fundadoras do Partido Socialdemocrata Independente Alemão (USPD).

1919: Participa da Revolução Alemã e se une ao Partido Comunista Alemão (KPD).

1920: Entrevista Lenin e publica seu famoso artigo “Lenin sobre a questão feminina”. Zetkin se torna esse ano deputada do KPD no Congresso da República de Weimar.

Entre 1921 e 1933 ocupa diferentes postos dentro da esquerda alemã, tanto nos órgãos do partido como no Comitê Internacional Socialista.

1933: Diante da chegada dos nazistas ao poder se exila na União Soviética.

Clara Zetkin morre aos 76 anos em Moscou, capital russa, em 20 de junho de 1933. Em sua vida pessoal, teve filhos com o revolucionários russo Ossip Zetkin, que faleceu em 1889. 
Posteriormente, se casou com o pintor alemão Georg Friedrich Zundel, 18 anos mais jovem que ela, até o divorcio que aconteceu em 1927.





10 características do fascismo

Em 1923, ao observar a conjuntura internacional e a ascensão do fascista Benito Mussolini na Itália, Clara Zetkin elabora uma das primeiras, e mais profundas análises sobre o fascismo:

1) O surgimento do fascismo está intrinsecamente atado à crise do capitalismo e ao declínio de suas instituições. Esta crise é caracterizada por uma escalada de ataques à classe trabalhadora, enquanto as camadas sociais intermediárias são espremidas e rebaixadas ao proletariado:

“As raízes do fascismo estão, de fato, na dissolução da economia capitalista e do Estado burguês… A guerra destruiu a economia capitalista a partir de suas bases. Isso é evidente não apenas pelo empobrecimento assustador do proletariado, como também pela proletarização de amplas massas pequeno e médio burguesas”.

2) A ascensão do fascismo é baseada na incapacidade do proletariado resolver a crise social capitalista pela tomada do poder para reorganização da sociedade. Esta incapacidade da liderança da classe trabalhadora gera desmoralização entre os trabalhadores e das forças sociais que vislumbravam o proletariado e o socialismo como uma solução para a crise.

Essas forças sociais, indica Zetkin, acreditavam que “o socialismo pudesse acarretar uma transformação completa. Essas expectativas foram dolorosamente destroçadas… Perderam sua fé não apenas nos líderes reformistas, como no próprio socialismo”.

3) O fascismo possui um caráter de massas, com apelo especial às camadas pequeno-burguesas ameaçadas pelo declínio da ordem capitalista.

O declínio capitalista resulta na “proletarização de amplas massas pequeno e médio burguesas, na situação de calamidade entre os pequenos camponeses e na aflição melancólica da "intelligentsia". (…) O que pesa acima de tudo sobre eles é a falta de segurança para sua subsistência básica”.

4) Para conquistar o apoio dessas camadas, o fascismo faz uso de demagogia anticapitalista:

“As massas aos milhares se juntaram ao fascismo. Ele se transformou em um asilo para todos os desabrigados políticos, os socialmente desenraizados, os destituídos e desiludidos… A pequena-burguesia e as forças sociais intermediárias inicialmente vacilam entre os poderosos campos históricos do proletariado e da burguesia. São levadas a simpatizar com o proletariado por conta das dificuldades em suas vidas e, em parte, pelos desejos nobres e ideais elevados em seus espíritos, na medida em que este aja de forma revolucionária e apresente perspectivas de vitória. Sob a pressão das massas e de suas necessidades, e influenciados por essa situação, até mesmo os líderes fascistas são forçados a, minimamente, flertar com o proletariado revolucionário, ainda que não possuam por ele qualquer simpatia”.

5) A ideologia fascista eleva a nação e o Estado acima de todos os interesses e contradições de classes:

“O que as massas não esperavam mais da classe proletária revolucionária e do socialismo, agora esperam que seja atingido pelos elementos mais capazes, fortes, determinados e impetuosos de todas as classes sociais. Todas essas forças deveriam unir-se em uma comunidade. E essa comunidade, para os fascistas, é a nação… O instrumento para atingir os ideais fascistas é, para eles, o Estado. Um Estado forte e autoritário que será sua própria criação e ferramenta obediente. Este Estado estará suspenso acima de todas as diferenças de classe e partido”.

6) A ideologia do nacionalismo chauvinista é utilizada pelos líderes fascistas como cobertura para incitar o militarismo e a guerra imperialista:

“As forças armadas da Itália fascista eram apenas para defender a pátria. Esta era a promessa. Mas o aumento do exército e a aquisição de armamentos estão dirigidos a grandes aventuras imperialistas… Centenas de milhões de liras foram aprovadas para a indústria pesada construir as mais modernas maquinas e impiedosos instrumentos de morte”.

7) Uma característica fundamental do fascismo é o uso da violência organizada levada à frente por tropas de choque contrárias à classe trabalhadora, com o fim de esmagar toda atividade proletária independente.

Na Itália, as forças de Mussolini ocuparam-se do “terror direto, sanguinário”, indica Zetkin. Partindo de áreas do interior, os fascistas “atacaram os trabalhadores rurais, de quem as organizações foram devastadas e incineradas, enquanto seus líderes eram assassinados”. Mais tarde “o terror fascista estendeu-se ao proletariado das grandes cidades”.

8) A ideologia do racismo e o bode expiatório racista é central na mensagem do fascismo. Mesmo que esse aspecto ainda não estivesse inteiramente nítido em 1923, Zetkin lembra como na Alemanha “o programa fascista é esgotado pela frase: "porrada nos judeus".

9) A certa altura, setores importantes da classe capitalista passaram a apoiar e financiar o movimento fascista, encarando isso como uma maneira de conter a ameaça da revolução proletária:

“A burguesia não pode mais confiar nos meios de força regulares de seu Estado para garantir sua dominação de classe. Para tal, ela precisa de um instrumento de força extralegal e paramilitar. Isto lhe foi oferecido pelo aglomerado heterogêneo que constitui a turba fascista. Os capitalistas patrocinam abertamente o terrorismo fascista, apoiando-o com dinheiro e de outras maneiras”.

10) Uma vez no poder o fascismo tende a se burocratizar e se distanciar dos apelos demagógicos de antes, levando a um ressurgimento das contradições e conflitos de classes:

“Existe uma contradição flagrante entre o que o fascismo prometeu e aquilo que entregou às massas. Toda conversa sobre como o Estado fascista colocará o interesse da nação acima de tudo, uma vez exposta aos ventos da realidade, estoura como uma bolha de sabão. A "nação" revelou ser a burguesia; o ideal fascista de Estado revelou-se como o vulgar e inescrupuloso Estado burguês… As contradições de classe são mais poderosas do que todas as ideologias que negam a sua existência”.

***

A análise completa sobre a natureza do fascismo e como é possível derrotá-lo, estará livro Como nasce e morre o fascismo.



1. Como começou

O Dia Internacional das Mulheres teve origem no movimento operário e se tornou um evento anual reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Suas sementes foram plantadas em 1908, quando 15 mil mulheres marcharam pela cidade de Nova York exigindo a redução das jornadas de trabalho, salários melhores e direito ao voto. Um ano depois, o Partido Socialista da América declarou o primeiro Dia Nacional das Mulheres.

A proposta de tornar a data internacional veio de uma mulher chamada Clara Zetkin, ativista comunista e defensora dos direitos das mulheres.

Ela deu a ideia em 1910 durante uma Conferência Internacional de Mulheres Socialistas em Copenhague. Havia 100 mulheres, de 17 países, presentes, e elas concordaram com a sugestão dela por unanimidade.

A data foi celebrada pela primeira vez em 1911, na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça. E seu centenário foi comemorado em 2011 — então, neste ano, estamos tecnicamente comemorando o 111º Dia Internacional das Mulheres.

Mas o Dia Internacional das Mulheres só foi oficializado em 1975, quando a ONU começou a comemorar a data.

E se tornou uma ocasião para celebrar os avanços das mulheres na sociedade, na política e na economia, enquanto suas raízes políticas significam que greves e protestos são organizados para aumentar a conscientização em relação à contínua desigualdade de gênero.


2. Por que 8 de março?

Evento do Dia Internacional das Mulheres em Bogotá, na Colômbia, em 2021.


A proposta de Clara de criar um Dia Internacional das Mulheres não tinha uma data fixa.

A data só foi formalizada após uma greve em meio à guerra em 1917, quando as mulheres russas exigiram "pão e paz" — e quatro dias após a greve o czar foi forçado a abdicar, e o governo provisório concedeu às mulheres o direito ao voto.

A greve das mulheres começou em 23 de fevereiro, pelo calendário juliano, utilizado na Rússia na época. Este dia corresponde a 8 de março no calendário gregoriano, e é quando é comemorado hoje.


3. Por que as pessoas usam a cor roxa?

CRÉDITO, GETTY IMAGES Legenda da foto,
A cor roxa é frequentemente associada à data, pois significa "justiça e dignidade"


Roxo, verde e branco são as cores do Dia Internacional das Mulheres, de acordo com o site oficial. "Roxo significa justiça e dignidade"
Verde simboliza esperança. Branco representa pureza. 
As cores se originaram da União Social e Política das Mulheres (WSPU, na sigla em inglês) no Reino Unido em 1908", afirmam.


4. Como é comemorado o Dia Internacional das Mulheres?

Centro de vacinação em Roma, na Itália, ofereceu mimosas às mulheres no ano passado.

O Dia Internacional das Mulheres é um feriado nacional em muitos países, incluindo a Rússia, onde as vendas de flores dobram durante três a quatro dias ao redor de 8 de março.
Na China, muitas mulheres recebem meio dia de folga no 8 de março, conforme recomendado pelo Conselho de Estado.
Na Itália, o Dia Internacional das Mulheres, ou La Festa della Donna, é comemorado com a entrega de botões de mimosa. A origem desta tradição não é clara, mas acredita-se que tenha começado em Roma após a Segunda Guerra Mundial. Nos EUA, março é o Mês da História das Mulheres. Todos os anos, um pronunciamento presidencial homenageia as conquistas das mulheres americanas.
Neste ano, as comemorações vão continuar sendo um pouco diferentes por causa da pandemia de covid-19 e eventos virtuais devem ocorrer em todo o mundo, incluindo o da ONU.


5. Qual é o tema de 2022?



No ano passado, Kamala Harris tomou posse como a primeira mulher, primeira negra e primeira asiático-americana vice-presidente dos EUA


A ONU anunciou que seu tema para 2022 é "Igualdade de gênero hoje para um amanhã sustentável". Seus eventos vão reconhecer como mulheres ao redor do mundo estão respondendo às mudanças climáticas.
Mas há também outros temas. O site do Dia Internacional das Mulheres, que diz que foi criado para "fornecer uma plataforma para ajudar a gerar mudanças positivas para as mulheres", escolheu o tema #BreakTheBias e está pedindo às pessoas que imaginem "um mundo livre de vieses, estereótipos e discriminação".


6. Por que precisamos disso?
Grupos de mulheres no México transformaram grades em memorial improvisado para vítimas de feminicídio.

Testemunhamos um retrocesso significativo na luta global pelos direitos das mulheres no ano passado. O ressurgimento do Talebã em agosto mudou a vida de milhões de mulheres afegãs, meninas foram banidas do ensino médio, o Ministério para Assuntos da Mulher no país foi dissolvido e muitas mulheres foram instruídas a não voltar ao trabalho.
No Reino Unido, o assassinato de Sarah Everard por um policial em serviço reacendeu os debates sobre a segurança feminina.
A pandemia de covid-19 também continua a ter impacto nos direitos das mulheres. De acordo com o Global Gender Gap Report 2021 do Fórum Econômico Mundial, o tempo necessário para acabar com a disparidade global de gênero aumentou em uma geração, de 99,5 anos para 135,6 anos.

Um estudo de 2021 da ONU “Mulheres” com base em 13 países mostrou que quase 4,5 em cada 10 mulheres, (45%), relatou que ela própria ou uma mulher que conhecem sofreram alguma forma de violência durante a pandemia.
Isso inclui o abuso que não é físico, sendo o abuso verbal e a negação de recursos básicos os mais comuns relatados.
Apesar das preocupações com o coronavírus, passeatas ocorreram em todo o mundo no Dia Internacional das Mulheres no ano passado.
No México, grupos de mulheres transformaram grades de metal, erguidas para proteger o Palácio Nacional, em um memorial improvisado para as vítimas de feminicídios.
Em paralelo, mulheres na Polônia realizaram protestos em todo o país após a introdução de uma proibição quase total do aborto em janeiro de 2021.

Ativistas do direito ao aborto comemoram conquista na Colômbia em 2022.

Ativistas do direito ao aborto comemoram conquista na Colômbia em 2022.



Há muito a fazer na América Latina em 
termos de igualdade de gênero.


Nos últimos anos, porém, houve avanços, especialmente no que se refere à liderança feminina.

Kamala Harris se tornou a primeira mulher, a primeira negra e a primeira asiática-americana vice-presidente dos EUA em 2021.

No mesmo ano, a Tanzânia empossou sua primeira presidente mulher, Samia Suluhu Hassan, enquanto Estônia, Suécia, Samoa e Tunísia tiveram primeiras-ministras mulheres pela primeira vez na história.

Em janeiro de 2022, Xiomara Castro tomou posse como a primeira mulher presidente de Honduras.

Em 2021, a Nova Zelândia aprovou licença remunerada para mulheres (e seus parceiros) que sofreram aborto espontâneo ou em caso de natimorto. Em 2020, o Sudão criminalizou a mutilação genital feminina.

E não podemos deixar de falar no impacto da campanha #MeToo, denunciando experiências de assédio e agressão sexual. Começou em 2017, mas agora é um fenômeno global.

Em janeiro de 2022, um professor universitário no Marrocos foi condenado a dois anos de prisão por comportamento indecente, assédio sexual e violência depois que estudantes universitárias quebraram o silêncio sobre os favores sexuais que ele havia exigido em troca de boas notas, uma série de escândalos deste tipo manchou a reputação das universidades marroquinas nos últimos anos.
No ano passado, também houve avanços em relação ao aborto em vários países. 

Em fevereiro de 2022, a Colômbia descriminalizou o aborto nas primeiras 24 semanas de gestação.

Nos EUA, enquanto isso, os direitos ao aborto foram restringidos em alguns estados, com no Texas, que proibiu procedimentos a partir de seis semanas de gravidez.




Requiém à Rosa Luxemburgo: atualidade das suas teorias econômica e de ação política 100 anos após sua morte 


Marlon de Souza (*)

Há exatos 100 anos Rosa Luxemburgo foi assassinada. Jornalista, uma das mais importantes intelectuais marxistas, desenvolveu algumas obras clássicas de Teoria da Ação Política e de Teoria de Economia Política. A atualidade do pensamento de Luxemburgo deriva do rigor teórico que aplicou a Economia e pelas similitudes do contexto histórico em que ocorreu o seu ativismo político de esquerda na Alemanha, período em que concomitantemente emergiu o nazismo.



Rosa Luxemburgo (1871-1919)
Rosa Luxemburgo (nascida Rozalia Luksenburg; em polonês, Róża Luksemburg) (Zamość, 5 de março de 1871 - Berlim, 15 de janeiro de 1919) foi uma filósofa e economista marxista polaco-alemã. Tornou-se mundialmente conhecida pela militância revolucionária ligada à Social-Democracia da Polônia (SDKP), ao Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) e ao Partido Social-Democrata Independente da Alemanha (USPD). Participou da fundação do grupo de tendência marxista do SPD, que viria a se tornar mais tarde o Partido Comunista da Alemanha (KPD). Em 1915, após o SPD apoiar a participação alemã na Primeira Guerra Mundial, Luxemburgo fundou, ao lado de Karl Liebknecht, a Liga Espartaquista. Em 1° de janeiro de 1919, a Liga transformou-se no KPD. Em novembro de 1918, durante a Revolução Espartaquista, ela fundou o jornal Die Rote Fahne (A Bandeira Vermelha), para dar suporte aos ideais da Liga (WP).


Por esta última razão as metodologias analíticas dispostas por Luxemburgo são proficientes à interpretação da conjuntura atual e para a elaboração de alternativas para a oposição as práticas de modos fascistas em ascensão no Brasil e na defesa da democracia. Importante chamar a atenção que sempre que se exerce comparativos de períodos históricos é necessário fazê-lo com observação crítica as especificidades da época pretérita e da atualidade porque a história nunca se repete na sua integralidade.

Retrato de Rosa Luxemburg com 12 anos de idade.



1907

Retrato de Rosa Luxemburg 
feito entre 1895-1905

Rosa Luxemburg e Louise Kautski

Rosa Luxemburg e Kostja Zetin em 1909

Rosa Luxemburgo (centro) entre os líderes no Congresso Socialista Internacional, Amsterdã 1904.


Além disso, a pertinência de análise do pensamento de Luxemburgo é constata pelo presente autor deste artigo que estudou no ensino médio e superior em uma instituição educacional luterana em Joinville, Santa Catarina, Sul do país que difunde a cultura da Alemanha. A Revolução Alemã (1918/1919) é ocultada, ao menos até os anos de 1990, e este evento que marcou a história daquele país sequer consta nos livros didáticos e nas aulas de História. Sobre aquele período no Brasil, é enaltecido Otto Von Bismarck como o estadista que com a política da força unificou o império germânico edificando o Estado alemão e erguendo o 2º Reich (1871/1918) até a “passagem para a República de Weimar”.

Coerência de teoria e prática

Entre os biógrafos de Rosa Luxemburgo existe uma unanimidade de que não há um mínimo de distanciamento entre as proposições teóricas de Luxemburgo e da sua ação. Seu ativismo político é marcado pela redação de teses, artigos, publicações analíticas políticas e econômicas em jornais, críticas a partidários, a autoridades políticas, a governos e outros teóricos marxistas, mas também pronunciamentos públicos, debates, intervenções orais em congressos e ações de massa.

Na orelha da recém biografia lançada pela editora Boitempo no Brasil Rosa Luxemburgo Pensamento e Ação, escrita pelo alemão Paul Frölich e originalmente publicada em Paris às vésperas da 2ª Guerra Mundial, quando a esquerda tentava sobreviver ao nazifascismo, Michael Löwy, sociólogo nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP) diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) na capital da França onde vive desde 1969 – afirma que “a vida e a obra de Rosa Luxemburgo se caracterizam pela extraordinária unidade entre pensamento e ação, teoria e prática, conhecimento científico e compromisso com a luta dos oprimidos.”

Além da grandeza da obra intelectual de Rosa Luxemburgo cujo legado teórico está à altura de Trotsky e Lênin (de quem foi contemporânea e com quem conviveu) é importante destacar que ela protagoniza duas revoluções; a Russa de 1905 e a Alemã de 1918/1919. Na história do movimento operário, da formulação do pensamento socialista e enquanto teórica da revolução Luxemburgo é singular pelas suas características pessoais.

O professor de Economia e professor da Universidade de São Paulo (USP) Paul Singer (um dos principais teóricos do socialismo no Brasil falecido em abril de 1988) afirma na apresentação de Acumulação do Capital vol.1, na publicação da editora Abril Cultural de 1981, que “apesar de uma intelectual Luxemburgo tinha profunda identificação com as massas trabalhadoras, uma total dedicação com os oprimidos e explorados, um ódio mortal à injustiça, um desprezo aos burocratas acomodados que, a pretexto de servir aos trabalhadores deles se servem”.

Teoria e ação política

Pertencia a minorias oprimidas, era judia, sua família era relativamente próspera, nasceu em 5 de março de 1805 no vilarejo de Zamosc na Polônia que estava então sob domínio russo. Quando ela tinha ainda três anos o pai levou os filhos para Varsóvia para proporcionar melhor estudo. Ainda no ginásio a jovem Luxemburgo ingressa no partido de oposição Proletariat. Logo a polícia identifica sua atividade e para evitar a prisão foi para o exílio em Zurique no ano de 1889.

Nos sete anos que passa na Suíça ela inicia seu estudo na universidade local em Economia Política e se integra a outros exilados. Zurique concentrava naquele momento um número expressivo de exilados do império czarista, revolucionários, inclusive alguns proeminentes líderes da social-democracia russa como Georges Plekhanov, Vera Sassunlitch e Paul Axeirod.

Em 1893, o partido Proletariat se reorganiza após inúmeras baixas devido a prisões e condenações em massa e se fundi com a Liga Operária Polonesa e dois agrupamentos menores para formar o Partido Socialista Polonês (PPS), cujo órgão de imprensa era o Sprawa Robotnicza (Causa Operária), que tinha na direção intelectual Rosa Luxemburgo e que fora fundado por Leo Jogiches. Ela foi delegada do partido no Congresso Internacional que foi realizado em Zurique. No mesmo ano ela apresentou um amplo relatório, no qual ela delineou a perspetiva estratégica do partido.

É em 1897 que Rosa Luxemburgo é aprovada doutora em Economia Política cuja a tese que defendeu para o doutoramento é “O Desenvolvimento Industrial da Polônia”. Depois de passar alguns meses na França migra para a Alemanha, onde adquire cidadania após um casamento de aparência com Gustav Lübeck. Em pouco tempo passa a frequentar os círculos de grandes líderes da social-democracia alemã (o Partido Social Democrata da Alemanha (SPD) era já na época o maior partido socialista do mundo) onde tem contato com lideranças de peso como August Bebel, Paul Singer, Franz Mehring e onde inicia a grande amizade com o líder socialista Karl Kautsky.

Neste período Rosa Luxemburgo passa a ser colaboradora de vários órgãos de imprensa partidária e na revista Neue Zeit, a mais importante revista teórica do partido, dirigida por Kautsky. É neste momento que o SPD passava pelo profundo e colossal debate teórico sobre reformismo na social-democracia alemã. Este debate se estende até os dias atuais por todos os países inclusive no Brasil.

No interior do SPD o debate se caracterizava pelos marxistas ortodoxos que defendiam o socialismo científico, as proposições de Marx para a economia e da revolução como estratégia central da ação política. Do outro lado estavam os revisionistas, que propunham a revisão das ideias de Marx e postulavam um socialismo ético, termo cunhado pela própria Rosa Luxemburgo para caracterizar pejorativamente a política que tem no seu centro a denúncia das injustiças sociais a partir das debilidades morais e éticas do capitalismo. Os marxistas ortodoxos faziam a denúncia do modelo do sistema econômico capitalista a partir da descrição da reprodução da concentração do capital.

Quando se observa o fenômeno da social-democracia alemã neste período é possível estabelecer um paralelo comparativo por analogia ao que ocorreu e ocorre com outros partidos de esquerda e centro esquerda brasileiros e no mundo. Após 12 anos de estar na ilegalidade a partir de 1890 quando ocorrem mudanças na legislação o Partido da Social-Democrata da Alemanha (SPD) supera as restrições e inicia um ciclo de crescimento eleitoral e organizacional. Sindicatos e cooperativas são constituídos por todo o país. Há um evidente fortalecimento do movimento operário. De um reduzido grupo de ousados militantes, o partido social democrata se transforma numa organização de massa, com seus parlamentares, intelectuais e burocratas.

Isto provoca mudanças profundas na prática política do partido, qual passa a se distanciar cada vez mais da ideologia originária do seu programa. Esta questão foi apontada por Eduardo Berstein, que era adepto de Friedrich Engels de quem foi também seu testamentário. Berstein publica este debate em uma série de artigos na Neue Zeit, em 1897 e 1898 e posteriormente no livro Os Pressupostos do Socialismo e as Tarefas da Social-Democracia vindo a público em 1899.

O economista brasileiro Paul Singer descreve que a tese de Berstein era a de que o capitalismo estava desenvolvendo uma série de mecanismos de adaptação, que evitariam as crises no futuro, tornando sua evolução pacífica e contínua. Ainda de acordo com Singer, Bernstein propunha uma “revisão” das formulações de Karl Marx, sua conclusão era de que o programa socialista não deveria enfatizar a implantação revolucionária do socialismo, mas a multiplicação das pequenas conquistas diárias e o grande efeito que a soma teria sobre as condições de vida da classe trabalhadora.

Rosa Luxemburgo notoriabiliza-se enquanto intelectual quando lança-se neste debate teórico com uma série de artigos publicados na Leipzeiger Volskseitung, entre 1898 e 1899, mais tarde editados em livro sob o título Reforma ou Revolução, hoje uma clássico da teoria política traduzido para inúmeras línguas. Contra a posição de Bersntein e em defesa da ortodoxia de Marx se ergueram Plekhanov e Kautsky e as teses revisionistas foram derrotadas em um congresso do partido.

Ainda de acordo com Singer, importante considerar que, no entanto, Rosa Luxemburgo como desenvolvedora do pensamento de Marx manejando com maestria a lógica dialética reconhecia as mudanças do capitalismo e defendia que cabia aos marxistas reavaliarem permanentemente sua tática, “sem cair nas ilusões propagadas pela apologética acadêmica sobre as futuras virtudes do capitalismo regulado”.

Singer conta que para Luxemburgo as lutas por reformas não se opunham, como alternativa a revolução, mas, pelo contrário, constituía a única maneira do proletariado se educar politicamente para travar o grande combate final quando chegasse o momento. Mas Rosa Luxemburgo ressaltava com veemência que se o crescimento operário proporcionava possível a conquista por reformas, ao mesmo tempo não alteravam o caráter básico do capitalismo, nem resolviam suas contradições.

Paul Singer é conclusivo e afirma categoricamente que “a via pacífica para o socialismo pela acumulação de reformas foi sempre cortada por crises, quando não pelo nazifascismo, exatamente como Rosa Luxemburgo equacionou”. Em Reforma ou Revolução (p.66) Luxemburgo aponta que as elaborações de Bernstein em defesa da reforma como estratégia “condena o proletariado à inação nos momentos mais decisivos da luta e, por conseguinte, à traição passiva quanto à sua própria causa”.

Ela dedica suas melhores energias para combater e fazer da luta contra o reformismo a principal meta de sua atividade política. A defesa da democracia no seio da revolução também é uma marca da sua obra. Em A Revolução Russa (p.35-36) pondera que “a vida pública dos Estados de liberdade limitada é tão pobre, tão esquemática, tão infecunda, precisamente porque, excluindo a democracia, ela fecha a fonte viva de toda a riqueza e de todos os progressos intelectuais”.

Teoria Econômica

O método de análise de Rosa Luxemburgo subordinava as lutas nacionais a luta maior pelo socialismo, de modo que cada conjuntura nacional deveria ter sua base material, suas condições sociais inseridas na conjuntura internacional rigorosamente analisadas. Ela extrai desta metodologia e de formulações a partir da obra de Marx uma teoria do imperialismo.

Mas a principal obra teórica de Rosa Luxemburgo é A Acumulação do Capital, também considerada uma das mais importantes da Economia Política marxista. Aqui está presente a economista e onde se encontra um alto nível de erudição. Neste trabalho Luxemburgo descreve que em modos de produção não capitalistas “o momento determinante de reprodução são as necessidades de consumo da sociedade”, como quer que estejam determinadas. No capitalismo, esse mesmo momento consome a forma de realização da mais-valia como forma imprescindível à acumulação do capital.

Neste livro Luxemburgo faz desenvolvimentos de teorias de Marx e Smith, além de outros teóricos da Economia Política. Para ela "o capital constante (que Smith chama de fixo e na tradução pesada de Loewenthal aparece como capital preso ou imobilizado) é, pois, colocado no mesmo plano do dinheiro e não integra absolutamente o produto total da sociedade (sua "renda bruta"): ele não existe como parte do valor do produto total. Como não existe não é objeto de discussão, é evidente que partindo da circulação, do intercâmbio mútuo do produto total assim formado, só se consegue assim chegar à realização dos salários (v) e da mais-valia (m), jamais porém, à reposição do capital constante, sendo que o prosseguimento da reprodução se mostra, pois, impossível”.

Análises posteriores como na obra Teoria da Dinâmica Econômica de Michal Kalecki, baseados nos modelos esquemáticos de Rosa Luxemburgo, generalizam o raciocínio do déficit orçamentário do Estado, que constituiria hoje em dia parcela cada vez mais expressiva da demanda efetiva que possibilita acumular o capital.

Rosa Luxemburgo (centro) entre os líderes no Congresso Socialista Internacional, Amsterdã 1904.


República Alemã proclamada duas vezes

É fundamental ter claro o contexto histórico político em que Rosa Luxemburgo estava inserida. Em 1915, após o SPD apoiar a participação alemã na 1ª Guerra Mundial, Luxemburgo fundou, ao lado de Karl Liebknecht, a tendência marxista Liga Espartaquista.

Rosa Luxemburgo tinha uma posição irredutível contra a guerra. Desde o início do século XIX defendeu em um Congresso da Internacional Comunista em Paris a posição antimilitarista que manteria até o fim da sua vida. Para ela os ataques armados entre as potências imperialistas advém de conjunturas de características favoráveis a processos revolucionários ou pré-revolucionários.

Em 1917 em outro congresso da Internacional, Luxemburgo apresentou uma emenda assinada também por Lênin e Martov (que logo viria a ser o líder do partido Menchevique) onde afirma que, se existe a ameaça de que inicie uma guerra, é obrigação da classe trabalhadora e de seus representantes parlamentares, sob a coordenação da Internacional Comunista, fazer todos os esforços para evitar os conflitos armados. Ainda discorria que se a guerra iniciasse e se multiplicasse era obrigação da classe trabalhadora encerrar o mais rápido possível e aproveitar a crise gerada com o conflito para mobilizar o povo com o objetivo de se “precipitar a queda da dominação capitalista”.

Este discurso era uma conclamação para o levante revolucionário que veio a ocorrer alguns anos a frente em 1919 pelo Partido Comunista da Alemanha (KPD) a organização política qual Rosa Luxemburgo integrava e havia fundado. Já no início da 1ª Guerra Mundial em 1914 no dia 2 de dezembro, na sessão do Reichstag (parlamento federal da Alemanha) que votava o Orçamento de Guerra (o crédito de guerra) Karl Liebknecht foi o único deputado que votou contra, sua posição o elevou a uma estatura internacional.

Em 1915 Rosa Luxemburgo foi presa em Frankfurt após fazer um discurso contundente em que mobilizava os soldados para que desertassem e parassem de combater seus próprios compatriotas, os trabalhadores de seu próprio país e aderissem a uma greve geral para que tomasse tamanha proporção ao ponto de aglutinar inclusive o lado oposto do espectro político e sobrepusesse as fronteiras da Alemanha.

No final da 1ª Guerra Mundial, com a Alemanha derrotada, a deterioração da sustentação política social da monarquia, os comunistas, sobretudo Luxemburgo e Liebknecht, propunham a tomada do poder e o desencadeamento da ruptura revolucionária a exemplo da Revolução Russa. Os sociais-democratas vinham constituindo uma aliança com a monarquia e apoiavam o enquadramento dos comunistas e da insurreição que se constituía no país, sendo que o movimento revolucionário era em sua maioria formado pelo operariado.

Meses antes no dia 9 de novembro de 1918 (o fim da guerra foi decretado oficialmente no dia 11 de novembro) o chanceler do Reich Príncipe Max Von Baden anunciou pessoalmente a renúncia do imperador Guilherme 2º. O imperador sequer havia sido consultado previamente, mas acatou o seu próprio afastamento logo em seguida ao anúncio proferido pelo chanceler. Desta forma terminou oficialmente o Império Alemão.

O momento era de convulsão social. Após este episódio as pessoas se reuniam em Berlim, se aglomeravam em outras cidades do interior e os rumores de que os comunistas iriam proclamar a república se disseminavam por todos os lugares. No entanto, o deputado social-democrata Philipp Scheidemann se adiantou em relação ao Partido Comunista da Alemanha (KPD) e ao meio dia em Berlim, do dia 9 de novembro, proclamou a república de uma sacada do Reichstag (parlamento federal alemão).

Poucos instantes depois, no mesmo dia 9 de novembro, às 16 horas, no castelo de  Stadtschlos em Berlim (residência dos reis da Prússia – símbolo da monarquia alemã) o comunista Karl Liebknecht também proclamou a república para uma multidão tão grande quanto a que aplaudira horas antes o social-democrata Scheidemann.

Historiadores consideram que a monarquia transmitiu o poder aos sociais-democratas para “negociarem a paz”. O fato é que o social-democrata líder do SPD Friedricht Ebert assume a presidência do governo, membros do SPD assumem posições do Estado alemão; ministérios, instituições estatais, funções diretivas da polícia.

Os revolucionários passam a ocupar fábricas, sedes de jornais e a formar conselhos, prisões são tomadas e no mesmo dia em que a república da Alemanha é proclamada Rosa Luxemburgo é libertada depois de quase 4 longos anos de prisão e imediatamente se junta ao processo revolucionário. Em novembro de 1918, durante o desencadeamento da Revolução Alemã, Rosa Luxemburgo funda o jornal diário Die Rote Fahne (A Bandeira Vermelha), para compartilhar os ideais políticos da Liga Espartaquista, editado pela própria Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.

Em seus artigos publicados no Die Rote Fahne é possível se constatar seu reposicionamento às suas críticas a Revolução Russa e passa claramente a defender a Revolução na Alemanha devido ao acúmulo de força da classe trabalhadora e a conjuntura favorável a revolução. Singer relata que neste momento Luxemburgo avalia que a convocação de eleição naquele contexto seria defender a dominação da elite econômica, “em seu lugar exige todo poder aos sovietes, aos conselhos de trabalhadores e soldados”.

A reivindicação da eleição naquele contexto, passa na opinião de Luxemburgo ser “a defesa do capitalismo”, e ela passa a defender a insurreição revolucionária a exemplo da Russa “devido ao avanço do proletariado ao poder para expropriar os meios de produção e assim instaurar o seu domínio”. Para Singer “Rosa Luxembrugo crê que a Revolução de 9 de novembro deverá logo superar seu estágio republicano burguês para entrar em seu estágio socialista”.

De 16 a 20 de dezembro de 1918 foi realizado o 1º Congresso dos Conselhos de Trabalhadores e Soldados de Berlim. No dia anterior Rosa Luxemburgo redige proposições publicadas no Die Rote Fahne que eram quatro medidas que deveriam ser tomadas em caráter de urgência:

1) derrubar o gabinete de Elbert-Haase

2) exigir o desarmamento de toda as tropas da frente que não  reconheçam incondicionalmente o poder supremo dos conselhos de trabalhadores  e soldados.

3) Promover o desarmamento de todos os oficiais da guarda branca, constituindo a guarda vermelha.

4) rejeitar a Assembleia Nacional como um atentado à revolução.

Mas entre os 489 delegados do Congresso, 288 eram do Partido Social-Democrata (SPD), 80 do Partido Social-Democrata Independente (USPD), e apenas 10 da Liga Espartaquista. O Congresso apoiou a convocação de eleições para a Assembleia Nacional e delegou até a eleição todo poder legislativo e executivo ao já formado governo social-democrata.

A orientação política de Ebert e de seu governo era o do estabelecimento de uma democracia política burguesa, o que era exatamente que Luxemburgo e os comunistas queriam derrubar. No final de 1918 a Liga Espartaquista e outros grupos radicais de esquerda fundam o Partido Comunista da Alemanha (KPD). No congresso de fundação do KPD Rosa Luxemburgo faz um discurso onde afirma o programa partidário: “Precisamos preparar de baixo para cima, dar aos conselhos de trabalhadores e soldados tal poder que, quando o Governo Ebert-Scheneidemann ou qualquer outro que se lhe assemelhe for derrubado, isto seja então apenas o ato final. Assim, a conquista do poder não deve ser feita de uma vez, mas progressivamente, aos nos infiltrarmos no estado burguês, até que tenhamos todas as posições e defendamos com unhas e dentes”.

A conjuntura de convulsão já havia tomado a proporção de deflagração ao ponto de que direita e a esquerda haviam tomado as ruas em atos de confrontos físicos. Os soldados que retornaram da guerra passaram a apoiar grupos de extrema direita e formaram milícias paramilitares, os Freikorps. O Governo social-democrata concede liberdade de ação aos Feikorps, forma a guarda branca com antigos oficiais monarquistas e desencadeia uma repressão brutal aos comunistas, principalmente em Berlim onde os revolucionários tinham maior força.

A partir do dia 29 de dezembro de 1918, o social-democrata Gustav Noske (que seria nomeado ministro da Defesa) – linha dura e descrito como sanguinário – a pedido do presidente social-democrata Friedricht Ebert assume o comando das tropas contra-revolucionárias às portas da capital. No dia 4 de janeiro de 1919, o chefe de polícia de Berlim Emil Eichhorn – que era considerado um democrata e homem honesto – é demitido pelo Governo Central por acusações falsas e infames. Eichorn recusa-se a passar o cargo e a direção do Partido Social Democrata Independente da Alemanha (USPD) convoca uma ato político em seu apoio. O Partido Comunista adere e milhares de manifestantes marcham até a sede da Polícia e impedem a deposição de Eichorn.

Mobilizados com esta vitória política parcial, os comunistas e a social-democracia independente e os delegados revolucionários tentam derrubar o Governo de Freidricht Ebert. No dia 5 de janeiro após uma grande manifestação os revolucionários passam a ocupar todas as redações dos jornais. A liberdade de imprensa é o álibi utilizado para a intervenção militar. O Governo social-democrata reprime barbaramente os revolucionários e coloca as cabeças a prêmio de seus antigos partidários Rosa Luxemburgo e Karl Liebnecht e Wihlelm Piek (que em 1949 viria a ser presidente da República Democrática Alemã).

Traição e covardia marcam o assassinato de Rosa Luxemburgo

Em 15 de janeiro de 1919 a caçada humana chega ao fim. De acordo com o Dossiê Rosa Luxemburgo publicado no DISPUT neste janeiro de 2019 em uma edição alusiva ao centenário, em texto assinado por Ronald Friedmann, membro da Comissão Histórica do Die Linke, Dr. em Filosofia pela Universidade de Potsdam, afirma que Liebnecht e Rosa são presos no seu último esconderijo, o Hotel Éden em Berlim. Foram ali mesmo barbaramente espancados.

O DISPUT é um periódico do Partei Die Linke – Partido A Esquerda – editado pela sua comissão executiva na edição alusiva ao centenário. Segundo o relato de Friedmann (que também é formado em História da América Latina pela Universidade de Wilhelm Pieck e que trabalhou no Ministério das Relações Exteriores da República Democrática da Alemanha) Rosa Luxemburgo foi arrastada para dentro de um carro com golpes e chutes para  supostamente levá-la ao centro de detenção de Moabit. Ela ficou inconsciente após ser atingida com a coronhada de um rifle e depois foi morta com um tiro na cabeça no local que hoje é a Budapester Strasse em Berlim. Seu corpo foi jogado a apenas algumas centenas de metros de distância no Canal Landwehr, no Rio Spree, perto da ponte Cornelius. Seu cadáver só foi encontrado meses depois.

Karl Liebnecht depois de levar chutes na cabeça e desmaiar foi levado arrastado até um carro e transportado até o Tiergarten (um grande parque em Berlim – uma espécie de zoobotânico) onde foi executado a tiros. O dossiê publicado pelo Die Linke relata ainda que os próprios assassinos entregaram o corpo de Liebnecht no necrotério como “um homem desconhecido”.

A publicação do Die Linke traz ainda a compilação de documentos que não deixam dúvidas de que a execução de Karl Liebnecht e Rosa Luxemburgo foi planejada e tinha o consentimento do Governo social-democrata – partido qual ambos haviam integrado em um passado recente e compartilhado ideais.

Segundo a publicação meio século depois do assassinato, em maio de 1970, foi encontrado um relato na propriedade de um dos diretamente responsáveis pelo assassinato de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht; “Não pude realizar a ação sem o consentimento de Noske, com Ebert ao fundo, […] está claro. Mas muito poucas pessoas entenderam porque nunca fui interrogado ou acusado. Como um cavalheiro, deixei a atuação do SPD na época, mantendo minha boca fechada por 50 anos em cooperação” (tradução livre do alemão).

O dossiê do Die Linke assinado por Friedman reporta que “o general Wilhelm Groener disse de maneira mais geral, mas não menos clara, em  suas Memórias da Vida que a execução de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foi realizada com a anuência do governo social democrata: `No início de 1919, fomos autorizados a confiar em nós mesmos para fazer as malas e limpar  Berlim. Todas as medidas agora e mais tarde levada a cabo em estreita consulta com o comando do exército, mas a gestão e a responsabilidade do governo e o povo levou logo para o ministro da Defesa Noske, que, seguindo os passos de Ebert (presidente do Governo da Alemanha), estava tomando uma aliança firme com os  oficiais designados” (tradução livre do alemão).

No último dia 15 de janeiro de 2019, milhares de pessoas realizaram uma manifestação silenciosa pelas ruas de Berlim em homenagem aos lutadores do povo Karl  Liebknecht e Rosa Luxemburgo.

Naquele mesmo dia 15 e janeiro de 1919 poucas horas antes de serem assassinados a edição do Red Flag trazia em suas páginas o último artigo de Karl  Liebknecht que afirmava que os Espartaquistas haviam sido derrotados, os trabalhadores revolucionários de Berlim foram espancados, cem dos seus melhores haviam sido abatidos, na prisão centenas dos mais fiéis foram afogados, mas “nós não fugimos (…) estamos aqui e ficamos! E a vitória será nossa. (…) E se ainda vamos viver, será para alcançar o nosso programa (…). Apesar de tudo!” (tradução livre do alemão).

Assassinato

Em 15 de janeiro de 1919, Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e Wilhelm Pieck, líderes do Partido Comunista da Alemanha, são presos e levados para interrogatório no Hotel Eden, em Berlim. Embora os detalhes das mortes de Luxemburgo e Liebknecht sejam desconhecidos, a versão mais aceita é a de que tenham sido retirados do hotel por grupos paramilitares, os Freikorps. Luxemburgo e Liebknecht foram escoltados para fora do prédio, sendo espancados até ficarem inconscientes. Pieck conseguiu fugir, enquanto Luxemburgo e Liebknecht foram levados - cada um em um veículo militar. O primeiro carro, com Rosa Luxemburgo, virou antes da ponte denominada Corneliusbrücke, em uma pequena rua paralela ao curso d'água conhecido Landwehrkanal. Ela foi baleada e jogada, agonizante, nas águas geladas de janeiro do Landwerkanal. Seu companheiro de luta, Karl, seguiu no outro jipe, que cruzou a Corneliusbrücke e entrou em uma das ruas desertas do parque Tiergarten. Ele, então, foi obrigado a caminhar e, a seguir, baleado pelas costas. Morto, foi entregue como indigente em um posto policial. Dois meses mais tarde, Jogiches foi morto pelo mesmo grupo. O corpo de Rosa Luxemburgo só foi encontrado no final de junho. Seus assassinos jamais foram condenados. Somente em 1999, uma investigação do governo alemão concluiu que os paramilitares haviam recebido ordens e dinheiro dos governantes social-democratas para matar Luxemburgo e Liebknecht. Os corpos de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foram enterrados no Cemitério Central de Freidrichsfelde, em Berlim. Todos os anos, socialistas e comunistas se reúnem no local, na segunda segunda-feira de janeiro, para homenageá-los (WP).




(*) Marlon de Souza é Bacharel em Comunicação Social – jornalista, especialista em Jornalismo Econômico. Venceu o Prêmio de Jornalismo Econômico da Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC).







Fonte







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FELIZ DIA DA MULHER TODOS OS DIAS!

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06 março 2022

EXTREMISMOS

A PERIGOSA EXTREMA DIREITA 
QUE VEM DA UCRÂNIA

Por Milton Blay 

Como todas as segundas e quartas-feiras, estou aqui para comentar a atualidade internacional. E hoje (29 de julho de 2021), vamos tratar de um assunto muito importante para nós, brasileiros, onipresente na TV Democracia: a extrema-direita.

No dia 31 de maio, na Avenida Paulista, a manifestação pró-Bolsonaro, contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF), chamou a atenção por conta de um novo símbolo. Além das bandeiras do Brasil, Estados Unidos e Israel, sempre presentes, havia uma outra, vermelha e preta. Ao centro, um tridente branco, semelhante ao que aparece no brasão da bandeira ucraniana.





Pravy Sektor. Setor Direito ou Setor da Direita é um partido e um movimento político ucraniano de extrema-direita, neofascista e ultranacionalista, criado em novembro de 2013, como uma confederação paramilitar de várias organizações nacionalistas, no contexto da Euromaidan, em Kiev.

Na ocasião, o embaixador da Ucrânia no Brasil, Rostyslav Tronenko, afirmou que aquela era uma “bandeira histórica”, que simbolizava a terra fértil do país (em preto) e “o sangue que os ucranianos derramaram na luta pela sua soberania”, em vermelho. Já o tridente, significava a Santíssima Trindade, uma forma de lembrar o príncipe Vladimir, do século 10, que levou o cristianismo à Ucrânia.

A verdade é muito diferente: essa bandeira foi apropriada por um grupo de extrema-direita muito atuante no país desde 2013, o Pravy Sektor, Setor de Direita, que reúne movimentos ultra-nacionalistas e paramilitares ucranianos.

A atuação mais célebre do Pravy Sektor aconteceu em 2014, quando o grupo ultradireitista participou da onda de protestos que derrubou o então presidente Viktor Yanukovych, um aliado da Rússia.

Naquele ano, em entrevista à BBC, um dos integrantes do Pravy Sektor afirmou que a ideia mais popular entre seus integrantes era a de uma “nação única” e “limpa”. Ou seja, branca, similar ao ideal de Adolf Hitler.

Recentemente, os integrantes de setores da extrema-direita têm participado de grupos paramilitares que lutam, na região leste do país, contra separatistas russos.

Por que eu decidi falar do assunto nesse nosso espaço de política internacional? Porque a Ucrânia tornou-se para a extrema-direita o que a Síria foi para o Estado Islâmico. A Ucrânia é hoje o campo de formação e treinamento da extrema-direita mundial.

Ali, militantes do mundo inteiro estudam táticas de ação e técnicas, com o objetivo de formar redes internacionais. Uma vez formados, esses militantes nazifascistas vão lutar contra os russos no leste da Ucrânia ou regressam aos seus países com a missão de criar células locais. Entre os estrangeiros que receberam treinamento está a conhecida Sara Fernanda Giromini, conhecida como Sara Winter, do movimento 300 do Brasil, (Um dos grupo neofascistas brasileiro).

A Ucrânia é hoje o principal polo da extrema-direita mundial. Quatro mil estrangeiros de mais de 35 países já receberam treinamento militar e doutrinamento ideológico.

Bandeiras do grupo paramilitar Azov. 

Uma dessas milícias, o Regimento Azov, criado em 2014, abertamente neonazista, transformou-se num Estado dentro do Estado ucraniano. 

E mais: estendeu tentáculos por toda a Europa e mundo afora. Tem apoios importantes na extrema-direita Suíça.

Prova de que o neonazismo revolucionário se internacionaliza: O terrorista responsável pelos massacres em duas mesquitas na Nova Zelândia, em março de 2019, usava um colete à prova de balas com o símbolo do Regimento Azov. No manifesto que escreveu justificando os atentados, o terrorista disse ter sido formado na Ucrânia.

Os massacres chamaram a atenção para o perigo que a extrema-direita na Ucrânia representa sobretudo para a Europa e EUA, seja por causa de possíveis atentados terroristas cometidos por pequenas células ou pelos chamados lobos solitários, ou então porque, ao regressarem aos seus países, os estrangeiros têm por missão criar organizações neonazistas, como o grupo 300 do Brasil.

O Brasil conta 334 células nazistas em atividade, de acordo com uma pesquisa feita por Adriana Abreu Magalhães Dias, antropóloga da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
(Esse número atualmente está em 530 células ou grupos declaradamente fascistas, conforme pesquisa recente de Adriana Dias (g1)).

A maioria dos grupos se concentra nas regiões Sul e Sudeste e se dividem em até 17 movimentos distintos, entre hitleristas, supremacistas, separatistas, de negação do Holocausto ou seções locais da Ku Klux Klan (KKK).

A pesquisa mostra que há registros de grupos localizados em Fortaleza, João Pessoa, Feira de Santana (BA) e Rondonópolis (MT). Porém, o Estado com mais células é São Paulo, com 99 grupos, sendo 28 só na capital. Santa Catarina vem logo atrás com 69 células, seguido do Paraná (66) e Rio Grande do Sul (47).

Há exemplos também de estados que estavam sem registros de atividades até pouco tempo, como Goiás, que hoje já possui seis grupos nazistas. As células são compostas por três a 40 pessoas.

Em suas pesquisas sobre a ascensão da extrema direita, a antropóloga também identifica mais de 6.500 endereços eletrônicos de organizações nazistas em língua portuguesa e dezenas de milhares de neonazistas brasileiros em fóruns internacionais. Sempre que um companheiro de armas é morto em combate, organiza-se cerimônias com tochas, um simbolismo emprestado ao supremacista branco KKK. Isso explica a presença das tochas no ato do grupo bolsonarista liderado por Sara Winter, em frente ao STF.

Notório militante político de extrema-direita na Itália e em outros países da Europa, Francesco Fontana esteve no Brasil, entre outubro e novembro de 2015, para encontrar um grupo de simpatizantes.

Ligado à CasaPound, movimento neofascista italiano, o militante ganhou fama por ser um dos primeiros estrangeiros a lutar na guerra civil da Ucrânia, em 2014. Em maio daquele ano, ele juntou-se ao Batalhão Azov para combater os separatistas pró-Rússia.

Fontana também integrou a organização paramilitar nacional-socialista Misanthropic Division (MD), que ganhou força com o acirramento dos conflitos na Crimeia e criou ramificações na Rússia, Bielorrússia, Alemanha, Argentina, Brasil e nos Estados Unidos.

Fontana era responsável por cooptar pessoas para a Misanthropic. Buscava guerrilheiros urbanos, talvez mercenários, para lutar na Ucrânia , segundo afirmações do delegado Paulo César Jardim.

Hoje, no Ocidente, o terrorismo de extrema-direita é considerado mais perigoso que o jihadismo islamita.Muitos se perguntam como Azov é financiado? O movimento recebe centenas de milhares de euros do governo de Kiev para programas de apoio político e militar, além de incentivo ao patriotismo da juventude – crianças com nove anos recebem treino militar, num Campo de Verão neo-nazista.

De modo invariável, o recrutamento de crianças soldado implica um programa de treino que as familiarize com a utilização de armas automáticas ligeiras. Os instrutores militares fazem parte dos paramilitares do Batalhão Azov destacados para o Campo.

O movimento Azov tem uma forte presença nas redes sociais, várias revistas e uma rádio.

Nos últimos anos, os torneios de artes marciais MMA) têm servido para recrutar, confraternizar e criar ligações entre os movimentos de extrema-direita. Militantes europeus participam de torneios de MMA organizados por figuras e grupos ligados ao Movimento Azov ucraniano.

O número de combatentes estrangeiros que já lutaram na guerra que opõe o Estado ucraniano aos separatistas pró-russos é assustador: quase 18 mil, originários da Suécia, Estados Unidos, Israel, Itália, Dinamarca, Alemanha, França, Portugal, do movimento neonazista russo e até do Brasil.

Depois de ter participado do movimento Femen, Sara Giromini tornou-se um ícone do fascismo militante e chegou até a dividir palanque com Jair Bolsonaro.









Coda 

Entre os grupos extremistas que se desenvolveram no Brasil os neonazistas são a maioria. 
Adriana explica que eles têm semelhanças entre si: "Eles começam sempre com o masculinismo, ou seja, eles têm um ódio ao feminino e por isso uma masculinidade tóxica. Eles têm antissemitismo, eles têm ódio a negro, eles têm ódio a LGBTQIAP+, ódio a nordestinos, ódio a imigrantes, negação do holocausto".

Reportagens identificam que o principal combustível para a explosão do número de células neonazistas no Brasil vem das redes. 

Durante meses de investigação em grupos privados de compartilhamento de material extremista, jornalistas flagraram mensagens de ódio, compartilhamento de vídeos exaltando Adolf Hitler e manifestações que extrapolaram as redes sociais.

Na reportagem em vídeo (aqui) você pode ver casos em que:

1) Um grupo de extremistas atacou clientes de um bar antifascista na Zona Oeste de São Paulo, onde uma suástica havia sido pixada dias antes;

2) Um jovem armado que atirou contra manifestantes e recebe uma campanha de apoio para que fique livre

3) Ataques a um rapaz negro que "respondeu" a um vídeo de um jovem que usa um capacete que diz ser da "Legião Hitlerista" e faz a saudação nazista.

4) Ataques a uma moça e seu namorado, que é negro. 

5) A prisão de um homem acusado de pedofilia, quando policiais encontraram uma imensa coleção de material nazista em sua casa. 

Os núcleos nazistas se concentravam na região Sul do Brasil, mas a antropóloga Adriana Dias relata que as células se espalharam para as cinco regiões do país. Ela destaca a região Centro-Oeste e Sudeste, com destaque para Minas Gerais e Rio de Janeiro.


Fontes









NEOFASCISMO UKRANIANO


Guerra Civil na Ucrânia é mais do que militar

Acabam de completar-se sete anos do atentado a uma sede sindical em Odessa, na Ucrânia. No dia 2 de maio de 2014, um incêndio no edifício de cinco andares da Federação Regional de Sindicatos de Odessa deixou 42 pessoas mortas, sendo 32 sufocadas e outras 10 que faleceram ao pular do edifício. O fogo foi iniciado por militantes do chamado Euromaidan, movimento de extrema direita composto por diversas organizações, inclusive algumas abertamente inspiradas no nazismo.

De lá pra cá, o conflito no interior da Ucrânia escalou até o ponto de se tornar uma guerra civil aberta e territorialmente localizada. Ao leste do país se formaram a República Popular de Donetsk e a República Popular de Lugansk, ambas na região de Donbass. Há exatos sete anos, em 12 de maio de 2014, veio a independência dessas repúblicas, após referendo em que mais de 80% da população local afirmou sua intenção de não fazer mais parte da Ucrânia. Ainda que setores da mídia insistam em reduzir esses movimentos como pró-Rússia, assim como no caso dos sindicalistas de Odessa, eles são muito mais do que isso

No final de março e início de abril deste ano, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, intensificou as provocações militares na região de Donbass, empregando ataques por drones, que inclusive vitimaram um garoto de cinco anos, Vladik Shikov, residente de Donetsk.

Mas além do conflito militar, é na economia e na questão social que também podem ser encontradas respostas. “A Ucrânia atravessa uma forte crise econômica, que gera problemas sociais”, afirmou Alexey Albu, um sobrevivente do incêndio do sindicato de Odessa, que atualmente vive na República Popular de Lugansk.

Segundo Albu, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e outros credores demandam a aplicação de uma fórmula já conhecida do público brasileiro: as contrarreformas neoliberais. “Como resultado desta política econômica, as tarifas de gás e eletricidade aumentaram significativamente, conduzindo ao aumento dos preços e ao empobrecimento da população”, afirmou Albu, que também é membro da organização política Borotba, que organizou movimentos anti-Maidan – como ficaram conhecidas as manifestações contra a extrema direita em 2014.

Quando se olha para alguns dados econômicos, isso parece ser plausível. De 2013 a 2021, a taxa de crescimento do PIB ucraniano passou por uma curva negativa que superou a marca de -15% durante o ápice da guerra, voltou a crescer entre os anos de 2017 e 2019, e afundou novamente no início da pandemia, em meados de 2020. O índice de desemprego também é bastante cruel. Mesmo durante o período de recuperação, a taxa da população empregada no país atingia 69%, em 2019, e caiu para 64,8% em janeiro de 2021. O salário médio, apesar de ter crescido este ano comparado ao ano passado, ainda não chegou aos patamares de 2017-2018, na época de recuperação.

Ver tambem:



Neonazistas estavam em marcha desenfreada na Ucrânia, advertiu The Nation

Por Hora do Povo Publicado em 1 de março de 2022


A Ucrânia pós-Maidan, sublinha Lev Golinkin, “é a única nação do mundo a ter uma formação neonazista [abertamente] em suas forças armadas”.

A revista norte-americana The Nation, em artigo assinado pelo escritor Lev Golinkin, ucraniano de nascença e que em criança emigrou para os EUA, agora republicado, advertiu que cinco anos após a revolta de Maidan, “o antissemitismo e o ultranacionalismo de inclinação fascista estão em marcha desenfreada”.

Golinkin lembrou que a derrubada do então presidente Yanukovych teve “aplausos e apoio do Ocidente” e que aqueles que denunciaram “o lado sombrio do levante” foram chamados de “marionetes de Moscou e idiotas úteis”.

Segundo o escritor, a euforia inicial do Ocidente se defrontou com “pogroms neonazistas contra os ciganos, ataques desenfreados a feministas e grupos LGBT, proibições de livros e glorificações patrocinadas pelo Estado de colaboradores nazistas”.

Conforme o escritor, “a defesa padrão” do regime de Kiev por parte do establishment em Washington e capitais europeias “é apontar que a extrema direita da Ucrânia tem uma porcentagem menor de assentos no parlamento do que suas contrapartes em lugares como a França”.

Esse é “um argumento espúrio”, ele enfatizou: “o que a extrema direita da Ucrânia não tem em números nas pesquisas, compensa com coisas com as quais Marine Le Pen só poderia sonhar – unidades paramilitares e rédea solta nas ruas”.

A Ucrânia pós-Maidan, sublinha Golinkin, “é a única nação do mundo a ter uma formação neonazista em suas forças armadas”. “O Batalhão Azov foi inicialmente formado pela gangue neonazista Patriotas da Ucrânia”.

“Andriy Biletsky, o líder da gangue que se tornou comandante do Azov, escreveu uma vez que a missão da Ucrânia é ‘liderar as raças brancas do mundo em uma cruzada final… contra os Untermenschen liderados pelos semitas’. Biletsky é agora deputado no parlamento da Ucrânia. “Untermenschen” (sub-homens) é o termo com que os nazistas, na era de Hitler, chamavam judeus e eslavos.

A incorporação do Batalhão Azov – que foi acusado de abusos de direitos humanos, incluindo tortura, pela Human Rights Watch e pelas Nações Unidas – se deu no outono de 2014.

Entre os meios de comunicação ocidentais que em algum momento já chegaram a reportar as credenciais nazistas do Azov, estão New York Times, USA Today , The Daily Beast , The Telegraph e Haaretz.

Em janeiro de 2018, o Azov lançou sua unidade nacional de patrulha de rua Druzhina, cujos membros juraram fidelidade pessoal a Biletsky e se comprometeram a “restaurar a ordem ucraniana” nas ruas.

Golinkin registra ainda que o próprio Azov “orgulhosamente postou um vídeo da unidade dando as boas-vindas aos representantes da OTAN”.

O escritor observa que o Azov não é a única formação de extrema-direita a obter apoio norte-americano. Em dezembro de 2014, a Anistia Internacional acusou o batalhão Dnipro-1 de crimes de guerra, incluindo ‘usar a fome de civis como método de guerra’ [era a primeira fase da campanha de limpeza étnica contra falantes de russo no Donbass].

O senador John McCain – aliás, um dos incentivadores do golpe de Maidan em pessoa, visitou e elogiou o Dnipro-1. Antes, ele fora pessoalmente à Praça Maidan insuflar à derrubada do governo constitucional e, atuante como poucos, dois anos antes encontrara tempo para se reunir com vários ‘combatentes da liberdade de Obama’ na Síria, um deles, o depois Califa do Estado Islâmico

Golinkin considera “particularmente preocupante” a campanha de Azov para “transformar a Ucrânia em um centro para a supremacia branca transnacional”. A unidade recrutou neonazistas da Alemanha , Reino Unido, Brasil , Suécia e América.

É dele a informação de que em outubro de 2018 o FBI prendeu quatro supremacistas brancos da Califórnia que teriam recebido treinamento do Azov.

LAÇOS NAZIS-GOVERNO

As duas organizações neonazistas – Partido Social-Nacional da Ucrânia (mais tarde renomeado Svoboda) e Patriotas da Ucrânia , cujos membros acabariam por formar o núcleo do Azov – tiveram como cofundador o na época presidente do parlamento saído do golpe de Estado de Maidan, Andriy Parubiy.

Apesar de se considerar atualmente um fascista “moderado”, Parubiy não renega o passado e em uma entrevista em 2016 asseverou que “seus valores” não mudaram.

Fazem parte da autobiografia de Parubiy fotos em que marcha com o símbolo neonazista wolfsangel usado pelas Nações Arianas (e copiado das SS).Comboio da 2ª Divisão Panzer Das Reich com o símbolo (idêntico ao do Batalhão Azov, que mudou somente as cores) em destaque (Reprodução)

“Ainda mais perturbadora é a penetração da extrema direita na aplicação da lei. Pouco depois de Maidan, os EUA equiparam e treinaram a recém-fundada Polícia Nacional, no que pretendia ser um programa marcante de apoio à democracia ucraniana”.

Da polícia à justiça ucraniana, os apologistas das suásticas e de “esmagar os insetos” estão por toda a parte – o que explica “por que os neonazistas operam impunemente nas ruas”, assinalou o autor.


GLORIFICAÇÃO DOS COLABORACIONISTAS

“Não são apenas os militares e as gangues de rua: a extrema direita da Ucrânia sequestrou com sucesso o governo pós-Maidan para impor uma cultura intolerante e ultranacionalista sobre a terra”, frisou Golinkin.

“Em 2015, o parlamento ucraniano aprovou uma legislação tornando dois grupos paramilitares da Segunda Guerra Mundial, a Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) e o Exército Insurgente Ucraniano (UPA), heróis da Ucrânia, e tornou crime negar seu heroísmo”.

Ele acrescenta que a OUN “colaborou com os nazistas e participou do Holocausto, enquanto a UPA massacrou milhares de judeus e mais de 70.000 a 100.000 poloneses por sua própria vontade”.

Como expressão dessa revisão histórica, no verão de 2019 “o parlamento ucraniano apresentou uma exposição comemorativa da proclamação de cooperação da OUN em 1941 com o Terceiro Reich (imagine o governo francês instalando uma exposição celebrando o Estado de Vichy!)”.

MARCHAS À LUZ DE TOCHAS

“Marchas à luz de tochas em homenagem a líderes da OUN/UPA como Roman Shukhevych (comandante de um batalhão auxiliar do Terceiro Reich) são uma característica regular da nova Ucrânia”, acrescenta Golinkin.

A recuperação se estende “até a SS Galichina, uma divisão ucraniana da legião nazista a Waffen-SS; o diretor do Instituto de Memória Nacional proclamou que os combatentes da SS eram ‘vítimas de guerra’”.

Previsivelmente – destacou -, a celebração dos colaboracionistas nazistas “foi acompanha por um aumento do antissemitismo total”.

“‘Judeus Fora!’”, cantaram milhares – parafraseando o tristemente célebre “Juden Raus!” da Alemanha nazista – durante uma marcha em janeiro de 2017 em homenagem ao líder da OUN, Bandera. (No dia seguinte, a polícia negou ter ouvido qualquer coisa antissemita.)”, registrou o autor.

“Naquele verão, um festival de três dias em homenagem ao colaboracionista nazista Shukhevych culminou com o bombardeio de uma sinagoga. Em novembro de 2017, saudações nazistas foram relatadas quando 20.000 marcharam em homenagem à UPA. E em abril passado, centenas marcharam em Lvov com saudações nazistas coordenadas em homenagem à SS Galichina; a marcha foi promovida pelo governo regional de Lvov”.

Esse nauseante revisionismo inclui desde ruas renomeadas em homenagem a carniceiros de judeus, até campos de doutrinação para crianças, onde são inculcadas desde cedo na ideologia fascista, com farto financiamento pelo governo de Kiev.

“Dentro de alguns anos, uma geração inteira será doutrinada a adorar os perpetradores do Holocausto como heróis nacionais”, espantou-se Golinkin.


PROIBIÇÕES DE LIVROS

O Comitê Estadual de Radiodifusão e Televisão da Ucrânia está reforçando a glorificação dos novos heróis da Ucrânia ao banir a literatura “antiucraniana” que vai contra a narrativa do regime saído do golpe de Estado.

“Em janeiro de 2018, a Ucrânia ganhou as manchetes internacionais ao banir ‘Stalingrado’ do premiado historiador britânico Antony Beevor por causa de um único parágrafo sobre uma unidade ucraniana massacrando 90 crianças judias durante a Segunda Guerra Mundial”.

“Em dezembro, Kiev baniu The Book Thieves do autor sueco Anders Rydell (que, ironicamente, é sobre a supressão da literatura pelos nazistas) porque ele mencionou que tropas leais a Symon Petliura (um líder nacionalista do início do século 20) massacraram judeus”.

Fascismo (guia)


ANTISSEMITISMO

“Sem surpresa, a glorificação dos perpetradores do Holocausto liderada pelo governo foi uma luz verde para outras formas de antissemitismo”, denuncia o autor.

“Nos últimos três anos, houve uma explosão de suásticas e runas da SS nas ruas da cidade, ameaças de morte e vandalismo em memoriais do Holocausto, centros judaicos, cemitérios, túmulos e locais de culto, o que levou Israel a dar o passo incomum de exortar publicamente Kiev a enfrentar a epidemia”.

Funcionários do regime de Kiev “fazem ameaças antissemitas sem repercussões”. Estes incluem: um general dos serviços de segurança prometendo eliminar os zhidi (um termo ucraniano pejorativo de judeu); um deputado do parlamento fazendo um discurso antissemita na televisão; um político de extrema-direita lamentando que Hitler não acabou com os judeus; e um líder ultranacionalista prometendo limpar Odessa de zhidi .

Nos primeiros anos após Maidan, as organizações judaicas se abstiveram de criticar Kiev, mas em 2018 os incidentes antissemitas cresceram tanto que grupos judeus se decidiram “a quebrar o silêncio”.

Segundo relatório anual sobre o antissemitismo (2019) do governo israelense, no período a Ucrânia teve “mais incidentes do que todos os estados pós-soviéticos juntos”. “O Congresso Judaico Mundial, o Museu Memorial do Holocausto dos EUA e 57 membros do Congresso dos EUA condenaram veementemente a glorificação nazista de Kiev e o anti-semitismo concomitante”.

A propósito, parece que isso não é mais problema. Pelo segundo ano consecutivo, só dois países no mundo inteiro votaram contra a resolução (aprovada por larga margem) que condena a glorificação do nazismo: Estados Unidos e Ucrânia.

POGROMS DE CIGANOS

Uma onda letal de pogroms anti-Roma varreu a Ucrânia, evocando “a década de 1930: bandidos armados atacam mulheres e crianças enquanto arrasam seus acampamentos. Pelo menos um homem foi morto, enquanto outros, incluindo uma criança, foram esfaqueados”.

“Duas gangues por trás dos ataques – C14 e National Druzhina – se sentiram confortáveis ​​o suficiente para postar orgulhosamente vídeos de pogrom nas mídias sociais”, denuncia Golinkin.

O que não é surpreendente, considerando que “a Druzhina Nacional faz parte do [Batalhão] Azov, enquanto o neonazista C14 recebe financiamento do governo para programas ‘educacionais’”.

ATAQUES À IMPRENSA

Desde o golpe de Maidan, assassinatos e perseguição de jornalistas tornaram-se frequentes na ‘nova Ucrânia’. Oles Buzina foi morto a tiros em 2015, e Pavel Sheremet, assassinado por um carro-bomba um ano depois.

O que não impediu que em maio de 2016, Myrotvorets, um site ultranacionalista com links para o governo, publicasse os dados pessoais de milhares de jornalistas que obtiveram credenciamento de rebeldes apoiados pela Rússia no leste da Ucrânia. Myrotvorets rotulou os jornalistas de “colaboradores terroristas”.

O então ministro do Interior Arsen Avakov elogiou o site que anunciava publicamente aberta a estação de caça aos jornalistas: “Esta é a sua escolha de cooperar com as forças de ocupação”. O Myrotvorets permanece operacional hoje.

APARTHEID IDIOMÁTICO

Golinkin assinalou que a Ucrânia “é extraordinariamente multilíngue: além dos milhões de ucranianos orientais de língua russa, há áreas onde o húngaro, o romeno e outras línguas são predominantes. Esses idiomas foram protegidos por uma lei regional de idiomas de 2012”, contra a qual o governo saído de Maidan passou a trabalhar dia e noite.

Essa lei foi derrubada pela Suprema Corte da Ucrânia em 2018 e no lugar Kiev “impôs uma lei draconiana que obrigaria o uso do ucraniano na maioria dos aspectos da vida pública” – quando são milhões os falantes de russo, em áreas que habitam há séculos.

Várias regiões aprovaram legislação que proíbe o uso do russo na vida pública. As cotas impõem o uso ucraniano na TV e no rádio. (Isso seria semelhante a Washington forçar a mídia em espanhol a transmitir principalmente em inglês.)

Não foi apenas a Rússia que ficou indignada – também outros países, como Hungria, Romênia, Bulgária e Grécia, que têm ligações com populações que vivem no mosaico de povos que é a Ucrânia.

CEGUEIRA INTENCIONAL

Esses exemplos são apenas uma pequena fração da queda da Ucrânia em direção à intolerância e ao reforço dos grupos extremistas. “Este resultado facilmente previsível está em contraste marcante com o entusiasmo de Washington sobre a ‘Revolução da Dignidade’”.

“O nacionalismo é exatamente o que a Ucrânia precisa”, proclamou um artigo da New Republic da historiadora Anne Applebaum, cuja celebração surgiu na época em que a Ucrânia deu sinal verde para a formação de paramilitares de supremacia branca.

Apenas quatro meses após o ensaio de Applebaum, a Newsweek publicou um artigo intitulado “Voluntários nacionalistas ucranianos cometendo crimes de guerra ‘estilo ISIS’”, registra Golinkin.

O autor assinala como, em ensaio após ensaio, os chefes de política externa de Washington negaram a crescente influência da extrema direita ucraniana. (“Curiosamente, os mesmos analistas denunciam veementemente o crescente nacionalismo na Hungria, Polônia e Itália como altamente perigosos”.)

É de Golinkin a observação de que talvez os formuladores de Washington “tenham se iludido ao pensar que a fase de extrema-direita de Kiev iria desaparecer”.

Mas, concede, “mais provavelmente, eles simplesmente adotaram a estratégia de que ‘o inimigo do meu inimigo é meu amigo’”.

De qualquer forma – acrescenta -, as ramificações vão muito além da Ucrânia.

E continua: “O apoio dos Estados Unidos à revolta de Maidan, juntamente com os bilhões que Washington afunda na Kiev pós-Maidan, deixam claro: a partir de fevereiro de 2014, a Ucrânia se tornou o mais recente projeto de expansão da democracia de Washington. O que permitimos na Ucrânia envia luz verde a outros”.

“Ao tolerar gangues e batalhões neonazistas, distorções do Holocausto encabeçadas pelo Estado e ataques a LGBT e ciganos, os Estados Unidos estão dizendo ao resto da Europa: ‘Estamos na boa com isso’”. “As implicações – especialmente em um momento de renascimento global da extrema-direita – são profundamente perturbadoras”, conclui Golinkin.

Com Zelensky, nada mudou fundamentalmente e ele logo assumiu às claras o estelionato eleitoral: eleito em grande medida por acenos à paz e à população falante de russo, após o primeiro cerco da turba fascista em Kiev passou a recitar a cartilha da “Ucrânia da Otan” e histericamente russófoba, e em seu governo os Acordos de Minsk foram congelados.

Como frisou o embaixador russo junto à ONU, Vasily Nebenzya, “o poder real na Ucrânia é dos radicais e dos neonazistas e não de Zelensky”. O diplomata russo denunciou ainda o presidente ucraniano “vem sendo manipulado pelos extremistas e não tem capacidade de resistir a esses radicais”.


Extremismo

Ucrânia: digitais da indústria de armas na guerra


Temos ouvido pouco ou quase nada sobre o papel da indústria de armas na promoção da guerra na Ucrânia. Os nomes Raytheon, Dassault, Lockheed Martin, Boeing, Northrop, Bell Helicopter, Nexter Systems etc. não deveriam estar nas manchetes? O acadêmico Jonathan Ng nos mostra, em artigo para o site de notícias Truthout, muitos dos detalhes dos lobbies da indústria armamentista que ajudaram a corrida armamentista que configurou as guerras da Ucrânia ao Iêmen. Ng chega mesmo a mostrar a Ucrânia como grande exportadora de armas.


Segue a íntegra do artigo.

Indústria de armas vê o conflito na Ucrânia como uma oportunidade, não uma crise

Por Jonathan Ng

Em fevereiro, uma fotografia do presidente russo, Vladimir Putin, curvado sobre uma mesa de 4 metros, com o presidente francês Emmanuel Macron circulou pelo mundo. As notícias sobre a extensa mesa e o suntuoso jantar de sete pratos lembraram uma história de Lewis Carroll. Mas o encontro deles foi terrivelmente sério. Macron chegou para discutir a escalada da crise na Ucrânia e a ameaça de guerra. Em última análise, conversa deles naufragou sobre a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), rendendo pouco mais do que a bizarra fotografia .

O encontro foi surreal, contudo, por outro motivo. No ano passado, Macron, o principal negociador de paz da União Europeia (UE), liderou uma ambiciosa campanha de venda de armas, explorando as tensões para fortalecer o comércio francês. A imprensa especializada chegou a relatar que ele esperava vender caças Rafale para a Ucrânia, invadindo o “antigo bastião da indústria russa”.

Macron não está sozinho. As empresas fornecedoras de armas para a OTAN abraçam abertamente a crise na Ucrânia como sólidos negócios. Em janeiro, o CEO da Raytheon, Greg Hayes, citou “tensões na Europa” como uma oportunidade, dizendo: “Tenho a firme expectativa de que teremos algum benefício”. Da mesma forma, o CEO Jim Taiclet da Lockheed Martin destacou os benefícios da “grande competição pelo poder” na Europa para os acionistas.

Em 24 de fevereiro, a Rússia invadiu a Ucrânia, atacando cidades com artilharia e despachando tropas através da fronteira. O estrondo sônico de caças encheu o ar, enquanto civis inundavam as estradas em Kiev, tentando fugir da capital. E o valor das ações dos fabricantes de armas disparou.

O conflito crescente sobre a Ucrânia dramatiza o poder do militarismo e a influência dos empreiteiros de defesa. Um impulso implacável para conquistar mercados - entrelaçado com o imperialismo - impulsionou a expansão da OTAN, enquanto inflamava guerras da Europa Oriental ao Iêmen.

Vendendo a OTAN

O atual conflito com a Rússia começou na esteira da Guerra Fria. O declínio dos gastos militares estrangulou a indústria de armas nos Estados Unidos e em outros países da OTAN. Em 1993, o vice-secretário de Defesa William Perry convocou uma reunião solene com executivos. Fontes internas a chamaram de “A Última Ceia”. Em uma atmosfera carregada de equívocos, Perry informou a seus convidados que golpes iminentes no orçamento militar dos EUA exigiam a consolidação da indústria. Seguiu-se uma onda frenética de fusões e aquisições, à medida que a Lockheed, Northrop, Boeing e Raytheon adquiriam novos músculos e empresas menores pereciam em meio à escassez do pós-guerra.

Enquanto a demanda doméstica encolhia, os empreiteiros de defesa corriam para garantir novos mercados estrangeiros. Em particular, eles se voltaram para o antigo bloco soviético, considerando a Europa Oriental como uma nova fronteira de acumulação. “A Lockheed começou a olhar para a Polônia logo após a queda do muro”, lembrou o veterano vendedor Dick Pawlowski. “Havia fabricantes de armas inundando todos esses países.” Os fabricantes de armas tornaram-se os lobistas mais agressivos para a expansão da OTAN. O guarda-chuva de segurança não era simplesmente uma aliança formidável, mas também um mercado tentador.

No entanto, os lobistas enfrentaram um grande obstáculo. Em 1990, o secretário de Estado, James Baker, havia prometido ao líder soviético Mikhail Gorbachev que, se ele permitisse que uma Alemanha reunificada se juntasse à OTAN, a organização não se moveria “um centímetro sequer para o leste”. No entanto, os lobistas permaneceram esperançosos. A União Soviética havia se desintegrado desde então, o triunfalismo da Guerra Fria prevaleceu e os interesses estabelecidos agora pressionavam pela expansão. “Os fabricantes de armas veem bonança ao vender a expansão da OTAN”, noticiou o New York Times em 1997. Mais tarde, o jornal observou que “a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte – primeiro para a Polônia, Hungria e República Tcheca e depois possivelmente para mais de um dezenas de outros países – ofereceria aos fabricantes de armas um mercado novo e extremamente lucrativo”.

Novos membros da aliança significavam novos clientes. E a OTAN literalmente exigia que eles comprassem equipamentos militares ocidentais.

Lobistas invadiram Washington, D.C., festejando os legisladores em estilo real. O vice-presidente Bruce Jackson da Lockheed tornou-se o presidente do Comitê dos EUA para Expandir a OTAN, uma organização em defesa da causa da expansão. Jackson narrou as refeições extravagantes que ele ofereceu na mansão da luminar republicana Julie Finley, que ostentava “uma adega infinita”.

“Educar o Senado sobre a OTAN era nossa missão principal”, ele informou ao jornalista Andrew Cockburn. “Recebíamos quatro ou cinco senadores todas as noites e bebíamos o vinho de Julie.”

A pressão do lobby foi implacável. “As corporações mais interessadas são as corporações de defesa, porque elas têm um interesse direto na questão”, observou o embaixador romeno Mircea Geoană. A Bell Helicopter, a Lockheed Martin e outras empresas até financiaram a máquina de lobby da Romênia durante sua candidatura à adesão à OTAN.

Em última análise, os formuladores de políticas renegaram sua promessa a Gorbachev, admitindo Polônia, Hungria e República Tcheca na OTAN em 1999. Durante a cerimônia, a secretária de Estado, Madeleine Albright, – que cooperou diretamente com a campanha de Jackson – os recebeu com um caloroso “Aleluia”. Ominosamente, o arquiteto intelectual da Guerra Fria, George Kennan, previu o desastre. “Tal decisão pode inflamar as tendências nacionalistas, antiocidentais e militaristas na opinião russa”, advertiu Kennan.

Poucos ouviram. O ex-secretário adjunto de Defesa Chas Freeman descreveu a mentalidade dos formuladores de políticas: “Os russos estão caídos, vamos dar-lhes outro chute”. Saboreando a vitória, Jackson (Lockheed) foi igualmente truculento: “‘F***-** a Rússia’ é uma longa e orgulhosa tradição na política externa dos EUA”. Mais tarde, ele se tornou presidente do Comitê para a Libertação do Iraque, que abriu caminho para a invasão de 2003, a maior distribuição de dinheiro à indústria na história recente.

Em duas décadas, 14 países da Europa Central e Oriental aderiram à OTAN. A organização existia originalmente para conter a União Soviética, e alarmadas as autoridades russas monitoravam seu avanço. Em retrospecto, a expansão do pós-guerra beneficiou os fabricantes de armas, aumentando seu mercado e estimulando o conflito com a Rússia.

Ucrânia na mira

As tensões atingiram um novo patamar em 2014, quando os Estados Unidos apoiaram a derrubada do presidente Viktor Yanukovych da Ucrânia. Yanukovych se opunha à adesão à Otan, e as autoridades russas temiam que sua deposição colocaria o país sob o guarda-chuva estratégico da organização. Em vez de aplacar suas preocupações, o governo Obama manobrou para colocar a Ucrânia em sua esfera de influência. A secretária de Estado adjunta, Victoria Nuland, coordenou a mudança de regime com impetuosa confiança. Nuland distribuiu biscoitos abertamente aos manifestantes e, mais tarde, encerrou uma interação diplomática com “f***-** a UE”. No auge da revolta, o senador John McCain também se juntou aos manifestantes. Ladeado por líderes do Partido fascista Svoboda, McCain defendeu a mudança de regime, declarando que “a América está com vocês”.

Nessa altura, os membros da OTAN recém-admitidos haviam comprado quase US$ 17 bilhões em armas norte-americanas. Instalações militares, incluindo seis postos de comando da OTAN, multiplicaram-se por toda a Europa Oriental. Temendo uma expansão ainda maior, a Rússia anexou a Península da Crimeia e interveio na região de Donbas, alimentando uma guerra feroz e interminável.

Os porta-vozes da OTAN argumentaram que a crise justificava a expansão. Na realidade, a expansão da OTAN foi um fator-chave para a crise. E a conflagração foi um presente para a indústria de armas. Em cinco anos, as principais exportações de armas dos Estados Unidos aumentaram 23%, enquanto as exportações francesas registraram isoladamente um salto de 72%, atingindo seus níveis mais altos desde a Guerra Fria. Enquanto isso, os gastos militares europeus atingiam níveis recordes.

À medida que as tensões aumentavam, o comandante supremo da Otan, Philip Breedlove, inflava descontroladamente as ameaças, chamando a Rússia de “uma ameaça existencial de longo prazo para os Estados Unidos”. Breedlove chegou até a falsificar informações sobre movimentos de tropas russas nos dois primeiros anos do conflito, enquanto discutia táticas com colegas para “alavancar, persuadir, convencer ou coagir os EUA a reagir”. Um membro sênior da Brookings Institution concluiu que ele pretendia “incitar os europeus a aumentar os gastos com defesa”.

Ele atingiu seu objetivo. O Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo registrou um salto significativo nos gastos militares europeus – embora os gastos russos em 2016 tenham igualado apenas um quarto do orçamento europeu da OTAN. Naquele ano, Breedlove renunciou ao cargo antes de ingressar no Center for a New American Security, um think tank belicista inundado por fundos da indústria de armas.

A corrida armamentista continuou. Depois que as negociações europeias travaram, a Rússia reconheceu duas repúblicas separatistas na região de Donbas antes de invadir a Ucrânia em fevereiro. Justificando a operação sangrenta, Putin acusou erroneamente as autoridades ucranianas de genocídio. No entanto, seu foco era geopolítico. “É um fato que nos últimos 30 anos temos tentado pacientemente chegar a um acordo com os principais países da OTAN”, disse ele. “Em resposta às nossas propostas, invariavelmente enfrentamos enganos e mentiras cínicas ou tentativas de pressão e chantagem, enquanto a aliança do Atlântico Norte continuou a se expandir apesar de nossos protestos e preocupações. Sua máquina militar está se movendo e, como eu disse, está se aproximando de nossa fronteira”.

Em retrospecto, três décadas de lobby da indústria provaram ser mortalmente eficazes. A OTAN engoliu a maior parte da Europa Oriental e provocou uma guerra na Ucrânia, mais uma oportunidade de acumulação. Os membros da Aliança ativaram o Artigo 4, mobilizando tropas, contemplando retaliação e avançando em direção à beira do Armagedom.

No entanto, mesmo com o aumento dos orçamentos militares, os fabricantes de armas europeus - como seus colegas norte-americanos – necessitavam que os mercados estrangeiros superassem as restrições fiscais e os custos de produção. Eles precisam de clientes para financiar sua própria formação militar: guerras estrangeiras para financiar a defesa doméstica.

Iêmen em chamas

Os fabricantes de armas encontraram a oportunidade de venda perfeita no Iêmen. Em 2011, uma revolução popular derrubou Ali Abdullah Saleh, que havia monopolizado o poder por duas décadas. Seu comparsa, Abdu Rabbu Mansour Hadi, tornou-se presidente no ano seguinte, depois de vencer facilmente as eleições: ele era o único candidato. Frustrado pela intriga de elite, outro levante ejetou Mansour Hadi em 2015.

Naquele ano, o príncipe Salman tornou-se rei da Arábia Saudita, mas o poder concentrou-se nas mãos de seu filho, Mohammed bin Salman, que temia que a revolta ameaçasse arrebatar o Iêmen da esfera de influência da Arábia Saudita.

Meses depois, uma coalizão liderada pela Arábia Saudita invadiu o país, deixando um enorme rastro de carnificina. "Não havia nenhum plano", enfatizou um oficial da inteligência dos EUA. "Eles simplesmente bombardeavam qualquer coisa que se parecesse com um alvo."

A guerra imediatamente atraiu os fabricantes da OTAN, que apoiaram os agressores. Eles exploram o conflito para sustentar a capacidade industrial, financiar o desenvolvimento de armas e alcançar economias de escala. Em essência, a coalizão liderada pela Arábia Saudita subsidia o acúmulo militar da OTAN, enquanto o Ocidente inflama a guerra no Iêmen.

Os estadistas ocidentais perseguem as vendas com entusiasmo perverso. Em maio de 2017, Donald Trump visitou a Arábia Saudita em sua primeira viagem ao exterior como presidente, a fim de detalhar os detalhes de um pacote de armas de US$ 110 bilhões. Seu genro, Jared Kushner, chegou de antemão para discutir o pacote. Quando as autoridades sauditas reclamaram do preço de um sistema de radar, Kushner imediatamente ligou para o CEO da Lockheed Martin para pedir um desconto. No ano seguinte, Mohammed bin Salman visitou a sede da empresa durante uma turnê pelos Estados Unidos. Os consultores de defesa, magnatas de Hollywood e até Oprah Winfrey deram as boas-vindas ao jovem príncipe.

Os norte-americanos, porém, não estavam sozinhos. A coalizão liderada pela Arábia Saudita é também o maior mercado de armas para a França e outros membros da OTAN. E, como explica o Ministério das Forças Armadas da França, as exportações são “necessárias para a preservação e o desenvolvimento da base tecnológica e industrial de defesa francesa”. Por outras palavras, membros da OTAN, como a França, exportam a guerra para manter a sua capacidade de empreendê-la.

O Presidente Macron nega que a coligação, uma aliança imponente que inclui a Arábia Saudita, o Egito, a Jordânia, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait, o Barém, o Catar, o Sudão e o Senegal, utilize armas francesas. Mas as estatísticas são sugestivas. Entre 2015 e 2019, a França concedeu € 14 bilhões em licenças de exportação de armas para a Arábia Saudita e € 20 bilhões em licenças para os Emirados Árabes Unidos. O CEO da Nexter Systems, Stéphane Mayer, elogiou o desempenho dos tanques Leclerc no Iêmen, gabando-se de que eles "impressionaram muito os líderes militares da região". Em suma, enquanto Macron nega que a coalizão negocie armamento francês no Iêmen, os industriais locais citam seu uso como argumento de venda. Com efeito, a Anistia Internacional informa que a sua administração mentiu sistematicamente sobre a sua política de exportação. Reservadamente, as autoridades compilaram uma "lista muito precisa de materiais franceses implantados no contexto do conflito, incluindo munições".

Recentemente, Macron tornou-se um dos primeiros chefes de Estado a se encontrar com Mohammed bin Salman após o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi. Como a viagem de Trump, a missão diplomática de Macron era uma missão de vendas. No final, Macron fechou um acordo com os Emirados Árabes Unidos para 80 caças Rafale. O CEO da Dassault Aviation chamou o contrato de “o mais importante já obtido pela indústria aeroespacial militar francesa”, garantindo seis anos de trabalho para um pilar de sua base industrial.

A política francesa é típica do envolvimento da Otan no Iêmen. Enquanto denunciavam, todos os produtores ocidentais equipavam aqueles que conduziam a guerra. Autoridades espanholas adulteram documentos oficiais para ocultar a exportação de armamento letal. A Grã-Bretanha tem violado repetidamente o seu próprio embargo de armas. E os Estados Unidos não respeitaram consistentemente os congelamentos de exportação.

Até mesmo os países da OTAN na Europa Oriental exploram a guerra. Enquanto esses membros da aliança absorvem armas ocidentais, eles despejam alguns de seus antigos equipamentos soviéticos no Oriente Médio. Entre 2012 e julho de 2016, a Europa Oriental concedeu à região pelo menos 1,2 bilhão de euros em equipamento militar.

Ironicamente, um dos principais exportadores de armas da Europa Oriental é a Ucrânia. Enquanto o Ocidente corre para armar Kiev, sua classe dominante tem vendido armas no mercado negro. Um inquérito parlamentar concluiu que, só entre 1992 e 1998, a Ucrânia perdeu impressionantes 32 bilhões de dólares em ativos militares, enquanto oligarcas pilhavam o seu próprio exército. Nas últimas três décadas, eles equiparam o Iraque, os talibãs e grupos extremistas em todo o Oriente Médio. Mesmo o ex-presidente Leonid Kuchma, que conduziu conversações de paz na região de Donbas, vendeu ilegalmente armas durante o mandato. Mais recentemente, as autoridades francesas investigaram Dmytro Peregudov, o ex-diretor do conglomerado de defesa do estado, por embolsar US$ 24 milhões em comissões de vendas. Peregudov residia em um castelo com campos de vinhas, enquanto administrava as extensas propriedades que adquiriu após seus anos de serviço público.

Os Senhores da Guerra

Kuchma e Peregudov não são exceções. A corrupção é endêmica em uma indústria que depende da porta giratória proverbial. A porta giratória não é simplesmente uma metáfora, mas uma instituição, convertendo o lucro privado em política pública. Seu movimento perpétuo significa a reprodução social de uma elite que reside nas alturas dominantes de um complexo industrial-militar global. Os principais corretores do poder, desde os Mitterrands e Chiracs, em França, aos Thatchers e Blairs, na Grã-Bretanha, e aos Gonzálezes e Bourbons, em Espanha, lucraram pessoalmente com o comércio de armas.

Nos Estados Unidos, a indústria emprega cerca de 700 lobistas. Quase três quartos trabalhavam anteriormente para o governo federal — a maior porcentagem para qualquer indústria. O lobby gastou US$ 108 milhões apenas em 2020, e suas fileiras continuam a aumentar. Nos últimos 30 anos, cerca de 530 funcionários do Congresso em comitês militares deixaram o cargo para empresas de defesa. Veteranos da indústria dominam a administração Biden, incluindo o Secretário de Defesa, Lloyd Austin, da Raytheon.

A porta giratória reforça a composição de classe do Estado, ao mesmo tempo em que mina sua legitimidade moral. Enquanto uma elite gira o escritório, os membros isolam a formulação de políticas da influência democrática, mancham o governo com a corrupção e confundem o lucro corporativo com o interesse nacional. Em 2005, 80% dos generais do exército com três estrelas ou mais se aposentaram para ir para os fabricantes de armas, apesar dos regulamentos existentes. (A Lei de Autorização de Defesa Nacional proíbe os altos oficiais de fazer lobby no governo por dois anos após deixar o cargo ou alavancar contatos pessoais para garantir contratos. Mas o cumprimento da lei é notoriamente fraco.) Mais recentemente, a Marinha dos EUA iniciou investigações contra dezenas de oficiais por laços corruptos com o empreiteiro de defesa Leonard Francis, que firmou contratos com grandes subornos, refeições luxuosas e festas sexuais.

Encharcados nessa cultura corrosiva, os intelectuais da OTAN agora falam abertamente sobre a perspectiva de "guerra infinita". O General Mike Holmes insiste que trata-se de “não perder. É permanecer no jogo, obter um novo plano e continuar a perseguir os seus objetivos.” No entanto, aqueles imersos em sua realidade brutal certamente discordam. As Nações Unidas informam que pelo menos 14.000 pessoas morreram na Guerra Russo-Ucraniana desde 2014, e mais de 377.000 morreram no Iêmen.

Na verdade, a doutrina da guerra infinita não é tanto uma estratégia, mas uma confissão, reconhecendo o metabolismo violento de um sistema que requer conflito. Como uma elite autosselecionada propõe a expansão da OTAN, o acúmulo militar e o imperialismo, devemos abraçar o que os senhores da guerra mais temem: a ameaça da paz.

O autor agradece a Sarah Priscilla Lee, do Learning Sciences Program da Northwestern University, pela revisão deste artigo.


Jonathan Ng recebeu seu Ph.D. em história na Northwestern University pesquisando o intervencionismo dos EUA na América Latina. No verão de 2019, realizou trabalhos no Ministério das Relações Exteriores do Chile. Atualmente, Ng trabalha como bolsista de pós-doutorado na Universidade de Tulsa.

Publicado originalmente em Truthout / Tradução por César LocatelliG