INÍCIO

17 março 2021

TIBETAN INCANTATIONS

Dharmachakra a roda do Dharma, a Lei


 Dharmachakra (Sânscrito) Tibetano chos kyi 'khor lo, Chinês fălún 法輪, "Roda do Dharma" é um símbolo representando o dharma (Lei) no Hinduísmo e nos ensinamentos do Buda sobre o caminho para a iluminação. É também algumas vezes traduzida como roda da doutrina, roda da lei ou roda da vida. Um símbolo parecido é usado no Jainísmo.
(Fonte: Shazz, Esteban, barahona 1)


O símbolo dharma é representado como uma roda de biga (Sânscrito cakram) com oito raios. É o símbolo budista mais antigo conhecido encontrado na arte indiana, surgindo com a primeira iconografia pós-Harapa sobrevivente no tempo do rei Budista Axoca. 

O Dharmachakra tem sido usado por todas as nações budistas como um símbolo a desde então. Na sua forma mais simples, o Dharmachakra é reconhecido globalmente como um símbolo do Budismo que encerra o resumo de todos os ensinamentos do Buda. Os raios representam o Nobre Caminho Óctuplo.
É este símbolo que se encontra na bandeira da Índia, sendo que no pavilhão indiano são 24 raios.

Nos sentenças descritas abaixo, o termo "Correto" é uma tradução da palavra samyañc (Sânscrito) ou sammā (Pāli), que denota plenitude, e coerência, e que possui o sentido de "perfeito" ou "ideal".

Compreensão correta: Compreensão de acordo com as Quatro Nobres Verdades, de maneira a entender as coisas como elas realmente são.
Pensamento correto: O pensamento da renúncia, de desenvolver as nobres qualidades, não tendo má vontade em relação aos outros, não querendo causar o mal (nem em pensamento).
Fala correta: Abster-se de mentir, falar em vão, usar palavras ásperas ou caluniosas. Falar a verdade, ter uma fala construtiva, harmoniosa, conciliadora.
Ação correta: Abster-se de destruir a vida, abster-se de tomar aquilo que não for dado, abster-se da conduta sexual imprópria.
Meio de vida correto: um modo de vida equilibrado, nem perdulário nem mesquinho e que não cause mal a outros seres. Inclui ter uma profissão que não esteja em desacordo com os princípios.
Esforço correto: Abandonar estados prejudiciais e as causas para futuros estados prejudiciais. Cultivar estados benéficos que tenham surgido e condições para futuros estados benéficos.
Consciência correta: Desenvolver consciência do corpo, fala e mente, em linha com o caminho óctuplo. (ver artigo para mais detalhes).
Concentração correta: Estabilidade e foco mental.




Avalokiteshvara mantra

Avalokiteśvara holding a lotus flower. Nālandā, Bihar, India, 9th century CE
(Fonte: Hyougushi, 2, 3)

Namo Ratna Trayaya, Namo Arya Jnana Sagara, Vairochana, Byuhara Jara Tathagataya, Arahate, Samyaksam Buddhaya, Namo Sarwa Tathagate Bhyay, Arhata Bhyah, Samyaksam Buddhe Bhyah, Namo Arya Avalokite shoraya Bodhisattvaya, Maha Sattvaya, Maha Karunikaya, Tadyata, Om Dara Dara, Diri Diri, Duru Duru Itte We, Itte Chale Chale, Purachale Purachale, Kusume Kusuma Wa Re, Ili Milli, Chiti Jvalam, Apanaye Shoha.



Este Bodhisttava tem em hindu o nome de Avalokiteshvara (अवलोकितेश्वर), em tibetano Chenrezig, em mandarim Kwan Yin (觀音) e em japonês Kannon (観音).

Kwan Yin representa a compaixão ou misericórdia de todos os Budas.

Kwan Shih Yin, como é frequentemente chamada, significa literalmente "aquela que considera, vigia e ouve as lamentações do mundo". 

Segundo a lenda, Kwan Yin estava para entrar no céu, porém, parou no limiar ao ouvir os gritos do mundo.

Os símbolos característicos associados a Kwan Yin são um galho de salgueiro, com o qual ela esparge o néctar divino da vida; um vaso precioso, simbolizando o néctar da compaixão e da sabedoria, traços do Bodhisattva; uma pomba representando a fecundidade; um livro ou um pergaminho de orações que ela segura na mão, simbolizando o Dharma (ensinamentos) do Buda ou o sutra (texto budista) o qual Miao Shan, dizia-se, recitava constantemente; e um rosário a adornar o seu pescoço, através do qual ela clamava aos Budas por socorro.

O nome Avalokiteśvara é composto das seguintes partes:

Ava, prefixo verbal que significa "abaixo";
Lokita, particípio passado do verbo lok ("notar, observar, contemplar"), que aqui se usa no sentido ativo (uma irregularidade ocasional na gramática sânscrita); e
īśvara, "senhor", "governador", "soberano" ou "amo". 

De acordo com as regras de sandhi, īśvara derivando em eśvara. Ao combinar estes elementos nos resta: "o senhor que olha para baixo (o mundo)". 

A palavra Loka ("mundo") não está presente no nome, mas se entende como implícita.
OṂ MAŅI PADME HǕṂ. 
The six syllable mantra of Avalokiteśvara written in the Tibetan alphabet.
(Fonte: C. J. Fynn / Wikimedia Commons




Avalokiteshvara (em sânscrito Avalokiteśvara, "Aquele que enxerga os clamores do mundo"; em tibetano Chenrezig), é o/a Bodisatva (bodhisattva) que representa a suprema compaixão de todos os Budas.

Um Bodhisattva é aquela criatura que está adiantada ou pronta para alcançar o estado de BuDda; contudo faz voto de só alcançá-lo plenamente quando nenhum ser estiver mais no samsara, ou na roda de encarnações neste mundo. 

Sendo a compaixão uma virtude central do budismo, Avalokiteshvara tornou-se muito conhecido por budistas e não budistas, sendo comum encontrar inscrições com seu mantra, Om mani padme hum, mesmo em meios não budistas.

A ligação entre Avalokiteshvara e o Buddha Amitaba é expressa por uma parábola que diz que o bodhisattva, ao ver o sofrimento nos infernos, fez o voto de só atingir a iluminação quando os esvaziasse. 

Amitaba então perguntou que castigo ele receberia se falhasse e Avalokiteshvara lhe respondeu que poderia lhe partir a cabeça ao meio se não o fizesse. Imediatamente, Avalokiteshvara começou a retirar os seres dos infernos e trabalhando incessantemente, conseguiu esvaziá-los. Porém, tão logo se apresentou a Amitaba, os infernos estavam repletos, pois apenas os humanos recentemente mortos eram suficientes para enchê-los. 

Amitaba então bateu em sua cabeça e ela se partiu, nascendo em seguida mais cabeças e mais braços, para que Avalokiteshvara pudesse ver e acudir o número imenso de seres presos nos infernos e no samsara. 

Essa pequena história retrata a compaixão providente dos budas, que mesmo diante de nossos compromissos mais estranhos, partir a cabeça, por exemplo, podem extrair benefício a todos. Encontra-se na iconografia budista imagens de Avalokiteshvara com mil braços e mil cabeças.




Bibliografia











16 março 2021

CAPITALISMO E DECRESCIMENTO




Traduzido por Rafael Nolibos e revisado por Rebecca Borges


No parágrafo de abertura de seu livro de 2009, Storms of My Grandchildren (Tempestades dos Meus Netos), James Hansen, a maior autoridade científica do mundo em aquecimento global, declarou: “Planeta Terra, criação, o mundo em que a civilização se desenvolveu, o mundo com padrões climáticos que conhecemos e linhas costeiras estáveis, ​​está em perigo iminente… A conclusão surpreendente é que a exploração contínua de todos os combustíveis fósseis na Terra ameaça não apenas os outros milhões de espécies no planeta, mas também a sobrevivência da própria humanidade — e o prazo é mais curto do que pensávamos.”1

Ao fazer essa declaração, no entanto, Hansen estava falando apenas de uma parte da crise ambiental global que atualmente ameaça o planeta, a saber, as mudanças climáticas. Recentemente, cientistas importantes (incluindo Hansen) propuseram nove fronteiras planetárias, que marcam o espaço operacional seguro para o planeta. Três dessas fronteiras (mudança climática, biodiversidade e ciclo do nitrogênio) já foram cruzadas, enquanto outras, como o uso de água doce e a acidificação dos oceanos, estão emergindo como rupturas planetárias. Em termos ecológicos, a economia agora cresceu a uma escala e intrusão que está ultrapassando as fronteiras planetárias e destruindo os ciclos biogeoquímicos do planeta.2

Portanto, quase quatro décadas depois que o Clube de Roma levantou a questão dos “limites do crescimento”, o ídolo do crescimento econômico da sociedade moderna está mais uma vez enfrentando um desafio formidável.3 O que é conhecido como “economia do decrescimento”, associado à obra de Serge Latouche em particular, emergiu como um grande movimento intelectual europeu em 2008 com a histórica conferência em Paris sobre “Decrescimento Econômico para Sustentabilidade Ecológica e Equidade Social”, e desde então inspirou um renascimento do pensamento Verde radical, como sintetizado pela “Declaração pelo Decrescimento” de 2010 em Barcelona.

Ironicamente, a ascensão meteórica do decrescimento (décroissance em francês) como um conceito coincidiu nos últimos três anos com o reaparecimento da crise econômica e da estagnação em uma escala nunca vista desde os anos 1930. 
O conceito de decrescimento, portanto, nos força a confrontar as questões: O decrescimento é viável em uma sociedade capitalista de crescimento ou morte — e se não, o que isso diz sobre a transição para uma nova sociedade?

De acordo com o site do projeto de decrescimento europeu, “o decrescimento carrega a ideia de uma redução voluntária do tamanho do sistema econômico, o que implica uma redução do PIB.”4 

“Voluntário” aqui aponta para a ênfase em soluções voluntárias — embora não tão individualistas e não planejadas na concepção europeia quanto o movimento de “simplicidade voluntária” nos Estados Unidos, onde os indivíduos (geralmente abastados) simplesmente optam por sair do modelo de mercado de alto consumo. Para Latouche, o conceito de “decrescimento” significa uma grande mudança social: uma mudança radical do crescimento como objetivo principal da economia moderna, em direção ao seu oposto (contração, redução).

Uma premissa subjacente a esse movimento é que, em face de uma emergência ecológica planetária, a promessa de tecnologia verde provou ser falsa. Isso pode ser atribuído ao Paradoxo de Jevons, segundo o qual uma maior eficiência no uso de energia e recursos leva não à conservação, mas a um maior crescimento econômico e, portanto, a mais pressão sobre o meio ambiente.5 

A conclusão inevitável — associada a uma ampla variedade de pensadores político-econômicos e ambientais, não apenas aqueles diretamente ligados ao projeto de decrescimento europeu — é que é necessário que haja uma alteração drástica nas tendências econômicas operantes desde a Revolução Industrial. Como disse o economista marxista Paul Sweezy há mais de duas décadas: “Uma vez que não há como aumentar a capacidade do meio ambiente de suportar os encargos [econômicos e populacionais] colocados sobre ele, segue-se que o ajuste deve vir inteiramente do outro lado da equação. E uma vez que o desequilíbrio já atingiu proporções perigosas, segue-se também que o que é essencial para o sucesso é uma reversão, não apenas uma desaceleração, das tendências subjacentes dos últimos séculos”.6

Dado que os países ricos já são caracterizados por um excesso [overshoot] ecológico, está se tornando cada vez mais aparente que de fato não há alternativa, como enfatizou Sweezy, a não ser uma reversão nas demandas feitas pela economia sobre o meio ambiente. Isso é consistente com o argumento do economista ecológico Herman Daly, que há muito insiste na necessidade de uma economia estável. Daly rastreia essa perspectiva na famosa discussão de John Stuart Mill sobre o “estado estacionário” em seus Principles of Political Economy (Princípios de Economia Política), que argumentava que se a expansão econômica se estabilizasse (como os economistas clássicos esperavam), o objetivo econômico da sociedade poderia então mudar para os aspectos qualitativos da existência, ao invés de mera expansão quantitativa.

Um século depois de Mill, Lewis Mumford insistiu em seu Condition of Man (Condição do Homem), publicado pela primeira vez em 1944, que não era apenas um estado estacionário no sentido de Mill, ecologicamente necessário, mas que também deveria estar ligado a um conceito de “comunismo básico… [que] aplica a toda a comunidade os padrões da família”, distribuindo“ benefícios de acordo com a necessidade” (uma visão que se inspirou em Marx).

Hoje, esse reconhecimento da necessidade de interromper o crescimento econômico em economias sobredesenvolvidas, e até mesmo de reduzi-las, é visto como enraizado teoricamente em The Entropy Law and the Economic Process (A Lei da Entropia e o Processo Econômico) de Nicholas Georgescu-Roegen, que estabeleceu a base da economia ecológica moderna.7

O Decrescimento como tal não é visto, mesmo por seus proponentes, como uma solução estável, mas uma solução que visa reduzir o tamanho da economia a um nível de produção que pode ser mantido perpetuamente em um estado estacionário. Isso pode significar encolher as economias ricas em até um terço dos níveis atuais por um processo que equivaleria a um investimento negativo (uma vez que não só cessaria o novo investimento líquido, mas também apenas alguns, não todos, os estoques de capital desgastado seriam substituídos). Uma economia em estado estacionário, em contraste, realizaria investimentos de reposição, mas ficaria aquém de novos investimentos líquidos. Como Daly define, “uma economia em estado estacionário” é “uma economia com estoques constantes de pessoas e artefatos, mantidos em alguns níveis desejados e suficientes por baixas taxas de ‘rendimento’ de manutenção, isto é, pelos fluxos de matéria e energia os mais baixos possíveis.”8

Desnecessário dizer que nada disso viria facilmente, dada a economia capitalista de hoje. Em particular, a obra de Latouche, que pode ser vista como exemplar do projeto europeu de decrescimento, está repleta de contradições, decorrentes não do conceito de decrescimento em si, mas de sua tentativa de contornar a questão do capitalismo. Isso pode ser visto em seu artigo de 2006, The Globe Downshifted (O Globo Desacelerado), onde ele argumenta de forma complicada:

Para alguns da extrema esquerda, a resposta padrão é que o capitalismo é o problema, deixando-nos presos em uma rotina e impotentes para avançar em direção a uma sociedade melhor. A contração econômica é compatível com o capitalismo? Esta é uma questão-chave, mas é importante responder sem recorrer a dogmas, para que os verdadeiros obstáculos sejam compreendidos…

O capitalismo eco-compatível é concebível em teoria, mas irrealista na prática. O capitalismo exigiria um alto nível de regulamentação para reduzir nossa pegada ecológica. O sistema de mercado, dominado por grandes corporações multinacionais, nunca dará início ao caminho virtuoso do eco-capitalismo por conta própria…

Os mecanismos para opor o poder com poder, como existiam sob as regulações keynesiano-fordistas da era social-democrata, são concebíveis e desejáveis. Mas a luta de classes parece ter colapsado. O problema é: o capital venceu….

Uma sociedade baseada na contração econômica não pode existir sob o capitalismo. Mas capitalismo é uma palavra enganosamente simples para uma longa e complexa história. Livrar-se dos capitalistas e banir o trabalho assalariado, a moeda e a propriedade privada dos meios de produção mergulharia a sociedade no caos. Traria o terrorismo em grande escala… Precisamos encontrar outra saída para o desenvolvimento, o economicismo (a crença na primazia das causas e fatores econômicos) e o crescimento: uma que não signifique abandonar as instituições sociais que foram anexadas pela economia (moeda, mercados, até mesmo salários), mas que os reformula de acordo com princípios diferentes.9

Dessa forma aparentemente pragmática e não dogmática, Latouche tenta fazer uma distinção entre o projeto de decrescimento e a crítica socialista do capitalismo: (1) declarando que “o capitalismo ecologicamente compatível é concebível” pelo menos em teoria; (2) sugerindo que as abordagens keynesianas e ditas “fordistas” de regulação, associadas à social-democracia, poderiam — caso ainda viáveis — domar o capitalismo, empurrando-o para o “caminho virtuoso do ecocapitalismo”; e (3) insistindo que o decrescimento não visa quebrar a dialética do trabalho capital-assalariado ou interferir na propriedade privada dos meios de produção. Em outros escritos, Latouche deixa claro que ele vê o projeto de decrescimento como compatível com a valorização contínua (ou seja, o aumento das relações de valor capitalistas) e que qualquer coisa que se aproxime da igualdade substantiva é considerada fora de alcance.10

O que Latouche defende mais explicitamente em relação ao problema ambiental é a adoção do que ele chama de “medidas reformistas, cujos princípios [da economia de bem-estar social] foram delineados no início do século XX pelo economista liberal Arthur Cecil Pigou [e] trariam uma revolução ”internalizando as externalidades ambientais da economia capitalista.11 

Ironicamente, essa postura é idêntica à da economia ambiental neoclássica — embora distinta da crítica mais radical frequentemente promovida pela economia ecológica, onde a noção de que os custos ambientais podem simplesmente ser internalizados na economia capitalista atual é fortemente atacada.12

“A própria crise ecológica é mencionada” no projeto de decrescimento atual, como observou criticamente o filósofo grego Takis Fotopoulos, “em termos de um problema comum que a ‘humanidade’ enfrenta por causa da degradação do meio ambiente, sem nenhuma menção às implicações desta crise nas diferentes classes, ou seja, ao fato de que as implicações econômicas e sociais da crise ecológica são pagas principalmente em termos da destruição de vidas e meios de subsistência dos grupos sociais mais baixos — seja em Bangladesh ou em Nova Orleans — e muito menos por elites e classes médias.”13

Dado que faz do conceito abstrato de crescimento econômico seu alvo, ao invés da realidade concreta da acumulação de capital, a teoria do decrescimento — na influente forma articulada por Latouche e outros — naturalmente enfrenta dificuldade para confrontar a realidade atual de crise/estagnação econômica, que produziu níveis de desemprego e devastação econômica maiores do que em qualquer época desde 1930. O próprio Latouche escreveu em 2003 que “não haveria nada pior do que uma economia de crescimento sem crescimento”.14 

Mas, diante de uma economia capitalista presa em uma profunda crise estrutural, os analistas europeus do decrescimento têm pouco a dizer. A Declaração pelo Decrescimento de Barcelona declarou simplesmente: “As chamadas medidas anticrise que buscam impulsionar o crescimento econômico irão piorar as desigualdades e as condições ambientais no longo prazo.”15 

Sem querer defender o crescimento, nem romper com as instituições do capital — nem, na verdade, para se alinhar com os trabalhadores, cuja maior necessidade no momento é emprego — os principais teóricos do decrescimento permanecem estranhamente silenciosos em face da maior crise econômica desde a Grande Depressão.

Seguramente, quando confrontado com o “decrescimento real” na Grande Recessão de 2008–2009 e a necessidade de uma transição para o “decrescimento sustentável”, o notável economista ecológico Joan Martinez-Alier, que recentemente assumiu a bandeira do decrescimento, ofereceu o paliativo de “um keynesianismo verde de curto prazo ou um novo acordo verde (Green New Deal)”. O objetivo, segundo ele, é promover o crescimento econômico e “conter o aumento do desemprego” por meio de investimento público em tecnologia e infraestrutura verdes. Isso era visto como consistente com o projeto do decrescimento, desde que o tal keynesianismo verde não “se tornasse uma doutrina de crescimento econômico contínuo”.16 

No entanto, como a classe trabalhadora deveria se encaixar nesta estratégia amplamente tecnológica (baseada em ideias de eficiência energética que analistas de decrescimento geralmente rejeitam) ficou incerto.

Na verdade, em vez de lidar com o problema do desemprego diretamente — por meio de um programa radical que daria às pessoas empregos voltados para a criação de valores de uso genuínos de maneiras compatíveis com uma sociedade mais sustentável — os teóricos do decrescimento preferem enfatizar jornadas de trabalho mais curtas e separar “o direito de receber remuneração do fato de estar empregado” (por meio da promoção de uma renda básica universal). Supõe-se que tais mudanças permitam que o sistema econômico encolha e, ao mesmo tempo, garanta renda às famílias — enquanto mantêm a estrutura subjacente de acumulação de capital e mercados intactos.

Ainda assim, visto de um ponto de vista mais crítico, é difícil enxergar a viabilidade de jornadas de trabalho mais curtas e garantias de renda básica na escala sugerida, exceto como elementos em uma transição para uma sociedade pós-capitalista (na verdade, socialista). Como disse Marx, a regra para o capital é: “Acumule, acumule! Isso é Moisés e os profetas!”.17 

Romper com a base institucional do capitalismo da “lei do valor” ou questionar a estrutura que sustenta a exploração do trabalho (ambas as quais seriam ameaçadas por uma redução acentuada das horas de trabalho e garantias de uma renda básica) significa levantar questões mais amplas sobre a mudança do sistema — questões que os principais teóricos do decrescimento parecem relutantes em reconhecer no momento. Além disso, uma abordagem significativa para a criação de uma nova sociedade teria de fornecer não apenas renda e lazer, mas também precisaria atender à necessidade humana de trabalho útil, criativo e não-alienado.

Ainda mais problemática é a atitude de grande parte da teoria do decrescimento atual em relação ao Sul global. “Decrescimento”, Latouche escreve:

…deve se aplicar tanto ao Sul quanto ao Norte, para que haja alguma chance de impedir que as sociedades do Sul entrem de vez no beco sem saída da economia do crescimento. Onde ainda há tempo, eles devem ter como objetivo não o desenvolvimento, mas o desemaranhamento — removendo os obstáculos que os impedem de se desenvolver de maneira diferente… Os países do Sul precisam escapar de sua dependência econômica e cultural do Norte e redescobrir suas próprias histórias — interrompidas pelo colonialismo, desenvolvimento e globalização — para estabelecer identidades culturais indígenas distintas… Insistir no crescimento no Sul, como se fosse a única saída para a miséria que o próprio crescimento criou, só pode levar a uma maior ocidentalização.18

Na falta de uma teoria de imperialismo adequada e na falha em abordar o vasto abismo de desigualdade que separa as nações mais ricas das mais pobres, Latouche reduz assim todo o imenso problema do subdesenvolvimento a um problema de autonomia cultural e sujeição a um fetiche de crescimento ocidentalizado. Isso pode ser comparado à resposta muito mais fundamentada de Herman Daly, que escreve:

É absolutamente uma perda de tempo, bem como moralmente atrasado, pregar doutrinas de estado estacionário para países subdesenvolvidos, antes que os países sobredesenvolvidos tenham tomado qualquer medida para reduzir seu próprio crescimento populacional ou o crescimento do seu consumo de recursos per capita. Portanto, o paradigma do estado estacionário deve primeiro ser aplicado nos países sobredesenvolvidos… Uma das principais forças necessárias para empurrar os países sobredesenvolvidos em direção a um… paradigma do estado estacionário deve ser a indignação do Terceiro Mundo com o consumo excessivo desses países… O ponto de partida no desenvolvimento de uma economia deveria ser o “teorema da impossibilidade”… que uma economia de alto consumo de massa, no estilo dos EUA, para um mundo de 4 bilhões de pessoas é impossível, e mesmo que por algum milagre isso pudesse ser alcançado, certamente teria vida curta.19

A noção de que o decrescimento, como um conceito, pode ser aplicado essencialmente da mesma forma tanto aos países ricos do centro quanto aos países pobres da periferia representa um erro de categoria, resultante da imposição crua de uma abstração (decrescimento) em um contexto no qual é essencialmente sem sentido, por exemplo, Haiti, Mali ou mesmo, em muitos aspectos, Índia. O verdadeiro problema na periferia global é superar os vínculos imperialistas, transformando o modo de produção existente e criando possibilidades produtivas igualitárias e sustentáveis. É claro que muitos países do Sul com rendas per capita muito baixas não podem se permitir um decrescimento, mas poderiam usar um tipo de desenvolvimento sustentável, voltado para necessidades reais, como acesso à água e saneamento, alimentação, sistema de saúde e educação, etc. Isso requer uma mudança radical na estrutura social longe das relações de produção capitalistas/ imperialistas. É revelador que nos artigos amplamente divulgados de Latouche não haja praticamente nenhuma menção a esses países, como Cuba, Venezuela e Bolívia, onde lutas concretas estão sendo travadas para mudar as prioridades sociais do lucro para as demandas sociais. Cuba, como indicou o Living Planet Report (Relatório Planeta Vivo), é o único país do mundo com alto desenvolvimento humano e uma pegada ecológica sustentável.20

É inegável que o crescimento econômico é o principal responsável pela degradação ecológica planetária hoje. Mas fixar toda uma análise na derrubada de uma “sociedade de crescimento” abstrata é perder toda a perspectiva histórica e descartar séculos de ciências sociais. Por mais valioso que seja o conceito de decrescimento em um sentido ecológico, ele só pode assumir um significado genuíno como parte de uma crítica da acumulação de capital e parte da transição para uma ordem comunitária sustentável e igualitária; aquele em que os produtores associados governam a relação metabólica entre a natureza e a sociedade, no interesse de gerações sucessivas e da própria terra (socialismo/comunismo, assim como Marx definiu).21

O que é necessário é um “movimento co-revolucionário”, para adotar o rico termo de David Harvey, que reunirá a crítica tradicional da classe trabalhadora ao capital, a crítica ao imperialismo, as críticas ao patriarcado e ao racismo e a crítica ao crescimento ecologicamente destrutivo (junto com seus respectivos movimentos de massa).22

Na crise generalizada de nossos tempos, tal movimento abrangente e co-revolucionário é concebível. Aqui, o objetivo seria a criação de uma nova ordem em que a valorização do capital não governasse mais a sociedade. “O socialismo é útil”, escreveu E.F. Schumacher em Small is Beautiful (O Negócio é ser Pequeno), precisamente por causa da “possibilidade que ele cria para a superação da religião da economia”, isto é, “a tendência moderna para a quantificação total em detrimento da apreciação de diferenças qualitativas”.23

Em uma ordem sustentável, as pessoas nas economias mais ricas (especialmente aquelas nos estratos de renda mais alta) teriam que aprender a viver com “menos” em termos de mercadorias para reduzir as demandas per capita sobre o meio ambiente. Ao mesmo tempo, a satisfação das necessidades humanas genuínas e os requisitos de sustentabilidade ecológica poderiam se tornar os princípios constitutivos de uma nova ordem, mais comunitária, voltada para a reciprocidade humana, permitindo a melhoria qualitativa, até mesmo a plenitude.24

Tal estratégia — não dominada por produtivismo cego — é consistente em fornecer às pessoas um trabalho que valha a pena. A luta ecológica, entendida nesses termos, deve ter como objetivo não apenas o decrescimento em abstrato, mas mais concretamente a desacumulação — uma transição de um sistema voltado para a acumulação de capital sem fim. Em seu lugar, precisamos construir uma nova sociedade co-revolucionária, dedicada às necessidades comuns da humanidade e da terra.


Notes

1. James Hansen, Storms of My Grandchildren (New York: Bloomsbury, 2009), ix.

2. Ver Johan Röckstrom, et al., “A Safe Operating Space for Humanity,” Nature 461 (September 2009): 472–75; John Bellamy Foster, Brett Clark, and Richard York, The Ecological Rift (New York: Monthly Review Press, 2010), 13–19.

3. Donella Meadows, Dennis H. Meadows, Jørgen Randers, and William W. Behrens III, The Limits to Growth: A Report for the Club of Rome’s Project on the Predicament of Mankind (New York: Universe Books, 1972).

4. “What is Degrowth?” http://degrowth.eu.

5. Ver John Bellamy Foster, Brett Clark, and Richard York, “Capitalism and the Curse of Energy Efficiency,” Monthly Review 62, no. 6 (November 2010): 1–12.

6. Paul M. Sweezy, “Capitalism and the Environment,” Monthly Review 41, no. 2 (June 1989): 6.

7. Herman E. Daly, Beyond Growth (Boston: Beacon Press, 1996), 3–4; John Stuart Mill, Principles of Political Economy (New York: Longmans, Green and Co., 1904), 452–55; Lewis Mumford, The Condition of Man (New York: Harcourt Brace and Jovanovich, 1973), 411–12; Nicholas Georgescu-Roegen, The Entropy Law and the Economic Process (Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 1971).

8. Herman E. Daly, Steady-State Economics (Washington, D.C.: Island Press, 1991), 17.

9. Serge Latouche, “The Globe Downshifted,” Le Monde Diplomatique (English edition), January 13, 2006, http://mondediplo.com.

10. Serge Latouche, “Would the West Actually be Happier with Less?: The World Downscales,” Le Monde Diplomatique (English edition), December 12, 2003, http://mondediplo.com and “Can Democracy Solve All Problems?” International Journal of Inclusive Democracy 1, no. 3 (May 2005): 5, http://inclusivedemocracy.org.

11. Latouche, “The Globe Downshifted.”

12. Ver, por exemplo, Martin O’Connor, “The Misadventures of Capitalist Nature,” in Martin O’Connor, ed., Is Capitalism Sustainable? (New York: Guilford Press, 1994), 126–33.

13. Takis Fotopoulos, “Is Degrowth Compatible with a Market Economy?” The International Journal of Inclusive Democracy 3, no. 1 (January 2007), http://inclusivedemocracy.org.

14. Latouche, “Would the West Actually be Happier with Less?”

15. “Degrowth Declaration Barcelona 2010,” Second International Conference on Economic Degrowth for Ecological Sustainability and Social Equity, March 28–29, 2010, Barcelona, http://degrowth.eu.

16. Joan Martinez-Alier, “Herman Daly Festschrift: Socially Sustainable Economic Degrowth,” October 9, 2009, http://eoearth.org.

17. Karl Marx, Capital, vol. 1 (London: Penguin, 1976), 742.

18. Serge Latouche, “Degrowth Economics,” Le Monde Diplomatique (English edition), November 2004, http://mondediplo.com.

19. Daly, Steady-State Economics, 148–49.

20. World Wildlife Fund, Living Planet Report, 2006, http://panda.org.

21. Ver John Bellamy Foster, Marx’s Ecology (New York: Monthly Review Press, 2000), 163–70.

22. David Harvey, The Enigma of Capital (New York: Oxford University Press, 2010), 228–35.

23. E.F. Schumacher, Small is Beautiful (New York: Harper and Row, 1973), 254–55.

24. Sobre o conceito de plenitude, ver Juliet Schor, Plenitude (New York: Penguin, 2010); Foster, Clark, and York, The Ecological Rift, 397–99.



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Movimento não é saudosista, nem anticivilizatório. Mas sustenta: sem rever padrões de consumo e produção, “progresso” resultará em desigualdade e devastação

Por Alan Bocato-Franco

Pouco frequente, ainda, no Brasil, um debate tomou corpo e expandiu-se rapidamente nos últimos anos, em paralelo ao desconforto com o capitalismo e seus impasses. Trata-se da ideia de “decrescimento”. “Outras Palavras” abordou-o em diversos textos, no passado — mas deu-lhe destaque especial em 10 de outubro. Um artigo do cientista político catalão Vicenç Navarro criticava “algumas teorias” do decrescimento. Em sua opinião, elas acabam reduzindo-se a um ambientalismo elitista e antissocial, ao sugerirem, diante de países em crise, a continuação das políticas de “austeridade”, que geram mais desemprego e desindustrialização.

O artigo de Navarro gerou importante polêmica, na seção de comentários dos leitores. “Outras Palavras” convidou um dos polemistas, Alan Bocato-Franco, a escrever uma réplica. O resultado foi melhor que a encomenda. Muito mais que polemizar com Navarro — com quem, aliás, parece compartilhar pontos de vista –, Alan traça, no texto a seguir, um importante panorama sobre a origem, sentido e história das teorias do “decrescimento”.

É algo de enorme atualidade, num país que precisa encontrar uma síntese entre duas posições igualmente indispensáveis. Por um lado, as críticas cada vez mais frequentes a símbolos antes intocáveis do “progresso” — por exemplo, o automóvel, as grandes obras viárias e a multiplicação de projetos de geração de energia, desacompanhada de uma análise séria sobre o consumo de eletricidade. Por outro, a ênfase na redistribuição de riqueza e na necessidade de assegurar condições de vida dignas à ampla maioria da população — o que exige, por exemplo, muito mais infra-estrutura (portanto, obras…) de transporte público, saneamento ou urbanização das periferias. (A.M.)


O movimento pelo decrescimento tem sido alvo de crítica recorrentes e repetitivas. De modo geral, acusam-no de tratar o crescimento econômico apenas em termos quantitativos, sem considerar suas variantes qualitativas. Além disso (ou por isso), afirma-se que seus defensores são malthusianos, porque propõem que a população e o consumo global sejam estabilizados, se não reduzidos. Seriam os decrescentistas saudosistas de um estilo de vida pré-civilizatório, por não reconhecerem que o progresso tecnológico libertou a população humana dos limites biofísicos da natureza e nos apresentou o progresso? Este artigo tem como objetivo dialogar com essas críticas.

A questão do crescimento

Há, no decrescimento, uma defesa explícita pelo aumento das atividades econômicas que fortalecem a saúde humana e a diminuição das que intoxicam a sociedade. Defende as atividades que causam impactos menos acentuados e a diminuição das que degradam o ambiente de modo acelerado. Defende ainda o aumento das que fortalecem a autonomia das pessoas, estreitam seus laços e distribuem renda e a diminuição das que alienam, fragilizam as relações sociais e geram exclusão. Mas os decrescentistas reconhecem que mesmo para as atividades econômicas qualitativamente diferenciadas os limites biofísicos do planeta persistem. Certamente a humanidade terá uma maior margem de manobra. Mas os limites ao crescimento econômico continuarão existindo.

A partir disto, a qualidade do crescimento econômico é relevante, mas secundário. O ponto principal é o paradigma do crescimento ilimitado. O decrescimento coloca em questão o modelo de sociedade, e as teorias de desenvolvimento que o sustentam, que tem o crescimento como condição fundamental para a “harmonia” socioeconômica ou, em outras palavras, a ausência de crise. Para o decrescimento, uma sociedade organizada sob o paradigma do crescimento ilimitado está fadada ao fracasso, pois é impossível crescer indefinidamente seja qual for a qualidade desse crescimento.

População, consumo e tecnologia

O decrescimento reconhece como verdadeira a equação I=PAT formulada por Ehrlich. Essa referência aparece de modo pontual e periférico em algumas publicações do decrescimento (1). Ela nada mais diz que o impacto ambiental (I) tem relação direta com o tamanho da população (P), sua afluência ou consumo (A) e a tecnologia (T). Com base nela, os decrescentistas aceitam a conclusão de que a redução de (A) por suficiência e sobriedade, bem como a de (T) pelo progresso tecnológico não determinam a redução indefinidamente do impacto sem que a população seja estabilizada ou diminua.

Dessas três variáveis, o decrescimento foca sua crítica no consumo. E por isso, seus partidários são acusados de negligenciarem os avanços tecnológicos. A verdade é que o decrescimento não nega que estratégias como reciclagem, diversificação da matriz energética e ecoeficiência sejam essenciais e devam ser estimuladas. Mas não as vê como soluções salvadoras do crescimento econômico ilimitado. Desta forma, reconhece a tecnologia sem a ingenuidade de acreditar que seu avanço seja prova de que a sociedade não deve se libertar da “gaiola do consumismo” (2). De modo que somente numa sociedade fora do paradigma do crescimento, que tem como base o consumismo, a tecnologia ganha alguma eficácia para conciliar atividade econômica e capacidade de carga do planeta.

Já a variável população está muito pouco presente na literatura e nos debates sobre o decrescimento (3). A redução da população é categoricamente entendida como uma falsa solução (4). Quando se trata de uma eventual regulação da população, ela deve ser igualitária e democrática, em vez de violenta e desumana, conforme propunha Malthus. Os decrescentistas rejeitam a limitação do número de filhos e assumem uma transição demográfica por meio da emancipação das mulheres, da alfabetização e da democracia (5).

Diferentes raízes

O decrescimento não tem uma única raiz. Podem ser identificadas até seis fontes intelectuais do movimento (6) como: 1) ecológica; 2) pós-desenvolvimentista e anti-utilitarista (7); 3) sentido da vida e bem viver (8); 4) bioeconômica (9); 5) democrática (10) e; 6) justiça (11). Uma das influências intelectuais é Ivan Illich, que figura em duas dessas seis fontes (2 e 5). Uma das inspirações buscadas nesse autor está no processo de “coisificação” que consiste na transformação da percepção das necessidades reais em produtos manufaturados de massa. Ou seja, as necessidades reais das pessoas transformam-se na necessidade por produtos industriais: a sede se converte na necessidade de um refrigerante, a mobilidade se reduz à necessidade de se ter um carro e a saúde se transforma na necessidade de tomar remédios e suplementos comprados numa farmácia. Assim, a indústria passa a deter um monopólio radical sobre as necessidades humanas. A técnica industrial cria as necessidades fictícias para as pessoas, e sugere que apenas os bens e serviços produzidos por ela são capazes de atender essas necessidades.

Uma das críticas feitas pelo decrescimento e inspiradas em Illich recai sobre a hegemonia do sistema de saúde pautado numa abordagem industrial, individual, privatista e heteronômica. Isso não significa negar os avanços da medicina científica. Aponta-se, isto sim, a apropriação perversa da medicina pela indústria, que transforma a primeira em mero produto destinado ao consumo. Ao denunciar este processo, o decrescimento pretende contribui para a democratização do acesso à medicina científica. Mais do que isto, denuncia a supremacia da prática médica em detrimento às outras formas de conhecimento e práticas de cuidado com a saúde. Isto implica em entender a saúde individual e coletiva a partir de múltiplas perspectivas. É ampliar o leque das possibilidades de cuidados, de modo que ao mesmo tempo aumenta-se a autonomia do indivíduo em cuidar de si, naquilo que for adequado. Em outros casos, defende-se acesso democrático ao serviço especializado.

Diferentes correntes

Sobre o tema do decrescimento, existem dezenas de livros, centenas de artigos acadêmicos, muitos blogs, inúmeros coletivos de experimentação prática, grupos de discussão, de pesquisa e de formação em países dos hemisférios Norte e Sul (12), inclusive o Brasil (13) que se auto-reconhecem como parte do movimento pelo decrescimento. Todos à sua maneira e entendimento vêm contribuindo para a construção das múltiplas identidades e entendimentos sobre o decrescimento. Há inclusive uma sistematização (14), que não abrange a totalidade dessa diversidade, que reconhece ao menos duas “vertentes” que se complementam: o decrescimento à francesa, que foca sua crítica à modernidade; e o decrescimento sustentável, mais alinhado com a disciplina Economia Ecológica. Assim, este é um movimento ainda em processo de formação e significação, sendo que qualquer crítica dirigida a ele baseada em apenas um único autor constitui um erro precário.

A novidade

Ao reconhecer e divulgar suas fontes intelectuais, o decrescimento assume que o debate que provoca não é novo (15). Desta forma, o decrescimento ao mesmo tempo, incorpora e articula movimentos e autores que já empreenderam criticas à modernidade, ao desenvolvimentismo, ao consumismo, à democracia, à impossibilidade de generalização do padrão de consumo dos países e das classes ricas e às desigualdades ecológica e social.

Mas o decrescimento abre perspectivas radicalmente novas, quando denuncia que, sem superar o paradigma do crescimento ilimitado, o crescimento das economias já desenvolvidas irá agravar as desigualdades globais. Além de explicitar que todas as teorias de desenvolvimento, sejam quais forem, tratam de como provocar mais crescimento econômico. Ademais, o decrescimento retoma o debate sobre a autonomia da sociedade com relação ao Estado e sobre a influência da razão contábil e instrumental das grandes burocracias públicas ou privadas. Assim, os decrescentistas rejeitam as falsas soluções que se focam apenas na gestão e na escolha dos tipos de recursos. Mais que isto, os decrescentistas buscam provocar mudanças de sentido, não só dos meios, mas também dos fins (16). Em suma, a novidade está no entendimento de que sem modificar a essência do modelo socioeconômico e dos valores pessoais não haverá saída.


Alan A. Boccato-Franco nasceu em São Roque/SP e mora em Brasília. Estudou biologia, programas de reforma agrária, trabalha no Ministério do Meio Ambiente e desenvolve uma dissertação no Centro de Desenvolvimento Sustentável-UnB sobre o decrescimento e a economia solidária. Procura simplificar a vida e é angoleiro. Além de fazer a gestão do blog decrescimentobrasil.blogspot.com.


Notas

1. KERSCHNER, C. Economic de-growth vs. steady-state economy. Growth, Recession or Degrowth for Sustainability and Equity?, v. 18, n. 6, p. 544–551, abr. 2010;

MARTINEZ-ALIER J. Environmental justice and economic degrowth: An alliance between two movements. Capitalism, Nature, Socialism, v. 23, n. 1, p. 51–73, 2012.

SORMAN, A. H.; GIAMPIETRO, M. The energetic metabolism of societies and the degrowth paradigm: analyzing biophysical constraints and realities. Degrowth: From Theory to Practice, v. 38, n. 0, p. 80–93, jan. 2013.

XUE, J.; ARLER, F.; NÆSS, P. Is the degrowth debate relevant to China? Environment, Development and Sustainability, v. 14, n. 1, p. 85–109, 2012.

2. JACKSON, T. Prosperity without growth: economics for a finite planet. London: Earthscan, 2009.

3. A questão da população, sobretudo relacionada às ideias de Ehrlich, considerado por alguns como um autor malthusiano, não é sequer citada em diversos livros sobre o decrescimento, em edições especiais de revistas acadêmicas dedicadas exclusivamente ao decrescimento ele tampouco figura entre as raízes intelectuais do movimento. Para verificação veja:

BAYON, D. et al. Decrecimiento : 10 preguntas para comprenderlo y debatirlo. [Mataró]: Ediciones de interveción cultural/El Viejo Topo, 2011.

DEMARIA F et al. What is degrowth? from an activist slogan to a social movement. Environmental Values, v. 22, n. 2, p. 191–215, 2013.

FLIPO, F. Conceptual roots of degrowth Proceedings of the First International Conference on Economic De-Growth for Ecological Sustainability and Social Equity. Paris: Research & Degrowth, Telecom Sud-Paris, 2008

KALLIS, G.; KERSCHNER, C.; MARTINEZ-ALIER, J. (EDS.). Special Section: The Economics of Degrowth. Ecological Economics, v. 84, n. 0, p. 172–269, dez. 2012.

LATOUCHE, S. Pequeno Tratado do Decrescimento Sereno. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.

LATOUCHE, S. La apuesta por el decrecimiento ¿cómo salir del imaginario dominante? Barcelona: Icaria, 2009.

MARTINEZ-ALIER, J. et al. Sustainable de-growth: Mapping the context, criticisms and future prospects of an emergent paradigm. Ecological Economics, v. 69, n. 9, p. 1741–1747, 2010.

TAIBO, C. En defensa del decrecimiento : sobre capitalismo, crisis y barbarie. Madrid: Los Libros de la Catarata, 2009.

4. Ver a subseção “Uma falsa solução: reduzir a população” do livro Pequeno tratado do decrescimento sereno, de Latouche (2009) – citado acima.

5. Ver o capítulo “El decrecimiento, ¿es malthusiano?” do livro Decrecimiento: 10 preguntas para comprenderlo y debatirlo, de Bayon e colaboradores (2011) – citado acima.

6. DEMARIA e colaboradores (2013) – citado acima

7. Algumas referencias desta fonte intelectual são: os criticos do desenvolvimento das décadas de 1970 e 1980, como Latouche, Arturo Escobar, Gilbert Rist, Helena Norberg-Hodge, Majid Rahnema, Wolfgang Sachs, Ashish Nandy, Shiv Visvanathan, Gustavo Esteva, François Partant, Bernard Charbonneau e Ivan Illich. Inclui também os críticos inspirados por Marcel Mauss como Alain Caillé e outros membros do MAUSS. Além de outros autores como Karl Polanyi e Marshall Sahlins.

8. Algumas referencias desta fonte intelectual são Henry David Thoreau, Pierre Rabhi, Mongeau, Schumacher, Kumarappa e Easterlin.

9. Georgescu-Roegen, Herman Daly, Donella Meadows, Kenneth Boulding, E. F. Schumacher, Howard T. Odum e Elizabeth C. Odum

10. Algumas referências desta fonte intelectual são: Ivan Illich, Jacques Ellul e Cornelius Castoriadis.

11. Uma das referências desta fonte intelectual é Paul Aries

12. Demaria e colaboradores (2013) – citado acima

13. BOCCATO-FRANCO, A. A. O decrescimento no Brasil. In: LÉNA, P.; NASCIMENTO, E. P. DO (Eds.). Enfrentando os limites do crescimento: sustentabilidade, decrescimento e prosperidade. Rio de Janeiro: Garamond, 2012. p. 269–288.

14. Martínez-Alier e colaboradores (2010) – citado acima

15. Para verificação: Latouche (2009); Bayon e colaboradores (2011) e Martínez-Alier e colaboradores (2010) – citados acima.

16. KALLIS, G. In defence of degrowth. Ecological Economics, v. 70, n. 5, p. 873–880, 2011.




Discussão

Ecologia e crescimento


Ao longo do tempo, os seres humanos tem modificado a capadicade de carga do meio ambiente.

Pesquisadores tem desenvolvido métodos para estimar o impacto ambiental das populações com
relação ao uso de recursos per capita, entre elas a equação de Ehrlich.

Segundo Paul R. Ehrlich, biólogo da Stanford Univ. o crescimento sem limites da população humana e o hiperconsumo são incompatíveis com a finitude dos recuros naturais.



E agora vamos ver qual o significado da equação:
I = Total Impact é o Impacto Ambiental na Terra
P = Population é a População, entendida como número dos indivíduos
A =Affluence é o consumo médio de cada indivíduo
T = Technology é a tecnologia útil disponível

O aumento das três, duas ou até uma só das variáveis P, A e T​ provoca o crescimento do impacto ambiental.

É uma equação simples mas engenhosa, e muito sensível.
Se a população aumenta, aumenta também o impacto ambiental.
Se aumenta o consumo per capita, ou a tecnologia disponível utilizada, aumenta o impacto ambiental também.
Se todos as 3 variáveis aumentam simultaneamente, o impacto ambiental dispara.

A equação de Ehrlich torna-se particularmente importante num sistema como o nosso.
Um cidadão médio dos Estados Unidos:
Consome 121 quilogramas/ano de hamburger
Gasta 575 litros/dia de água
O que dá 215 metros cúbicos (m³)/ano.
Acumula 800 quilogramas/ano de lixo.
Produz 20 toneladas/ano de dióxido de carbono.

Enquanto um cidadão de Ruanda produz 200 kg de dióxido de carbono. 
Do ponto de vista energético, só para dar um exemplo, seriam precisos 1.100 cidadãos do Ruanda para consumir o equivalente que somente um cidadão médio dos norte-americano (EUA)

O que significa isso?













13 março 2021

UNIVERSOS DA IMAGEM



















A AVENTURA DE UM FOTÓGRAFO

A aventura de um fotógrafo
Ítalo Calvino

Com a chegada da primavera, os habitantes das cidades, às centenas de milhares, saem aos domingos levando o estojo a tiracolo. E se fotografam. Voltam satisfeitos como caçadores com o embornal repleto, passam os dias esperando com doce ansiedade para ver as fotos reveladas (ansiedade a que alguns acrescentam o prazer sutil das manipulações alquímicas na câmara escura, vedada às instruções dos familiares, exalando um cheiro acre dos ácidos), e somente quando põem os olhos nas fotos parecem tomar posse tangível do dia passado, somente então aquele riacho alpino, aquele jeito do menino com o baldinho, aquele reflexo de sol nas pernas da mulher adquirem a irrevogabilidade daquilo que já ocorreu e não pode mais ser posto em dúvida. O resto pode se afogar na sombra incerta da lembrança.

Convivendo com os amigos e colegas, Antonino Paraggi, não-fotógrafo, percebia um crescente isolamento. A cada semana descobria que às conversas daqueles que glorificam a sensibilidade de um diafragma ou discorrem sobre o número de dins se unia a voz de alguém a quem até ontem ele havia confidenciado, certo de que os partilhasse, seus sarcasmos em relação a uma atividade para ele tão pouco excitante e tão desprovida de imprevistos.

Como profissão, Antonino Paraggi exercia funções administrativas nos serviços de distribuição de uma empresa produtiva, mas sua verdadeira paixão era a de comentar com amigos os acontecimentos pequenos e grandes desenredando o fio das razões gerais dentro dos emaranhados particulares; ele era em suma, por atitude mental, um filósofo, e punha toda a sua obstinação em conseguir explanar até os fatos mais afastados de sua experiência. Agora sentia que alguma coisa na essência do homem fotográfico lhe escapava, o apelo secreto que fazia com que novos adeptos continuassem a se listar sob a bandeira dos diletantes da objetiva, alguns gabando os progressos de suas habilidades técnicas e artísticas, outros ao contrário atribuindo todo o mérito à excelência do aparelho que haviam adquirido, capaz (a ouvir-se o que diziam) de produzir obras-primas mesmo se entregue as mãos ineptas (assim eram declaradas as deles, pois, quando o orgulho era forte, em exaltar as virtudes dos engenhos mecânicos, o talento subjetivo aceitava ser humilhado na mesma proporção). Antonino Paraggi entendia que nem um nem outro motivo de prazer eram decisivos: o segredo estava em outra coisa.

É preciso dizer que essa busca na fotografia das razões de uma insatisfação sua – como quem se sente excluído de alguma coisa – era em parte também um truque de Antonino consigo mesmo, para evitar levar em consideração outro, e mais visível, processo que o andava separando dos amigos. O que estava acontecendo era que os conhecidos de sua idade estavam todos se casando, constituindo família, enquanto Antonino ia ficando solteiro. Entre os dois fenômenos ocorria também um vínculo indubitável, na medida em que muitas vezes a paixão pela objetividade nasce de modo natural e quase fisiológico como efeito secundário da paternidade. Um dos primeiros instintos dos pais, depois de pôr um filho no mundo, é o de fotografá-lo; e dada a rapidez do crescimento torna-se necessário fotografá-lo com frequência, pois nada é mais transitório e irrecordável de que uma criança de seis meses, rapidamente apagada e substituída pela de oito meses e, depois, pela de um ano; e toda a perfeição que aos olhos dos pais um filho de três anos pode ter atingido não é suficiente para impedir que suceda a ela, destruindo-a, a nova perfeição dos quatro, só restando o álbum fotográfico como lugar onde todas essas perfeições fugazes se salvam e se justapõem, cada uma aspirando a um absoluto próprio incomparável. Na mania dos pais novatos de enquadrar a prole na mira para reduzi-la à imobilidade do preto-e-branco ou do diapositivo colorido, o não-fotógrafo e não-procriador Antonino via principalmente uma fase da corrida para a loucura que aquele instrumento preto abrigava. Mas suas reflexões sobre a ligação iconoteca-família-loucura eram rápidas e reticentes; senão ele compreenderia que na realidade quem corria o perigo maior era ele, o solteirão.

No círculo de amizades de Antonino se costumava passar os fins de semana fora da cidade, em bando, seguindo um hábito que para muitos deles vinha desde os anos de estudante, e que se estendera até às noivas e depois às esposas e à filharada, assim como às babás e governantes, e em alguns casos aos parentes por aliança e aos novos conhecidos de ambos os sexos. Mas, como a continuidade da convivência e dos hábitos nunca havia cessado, Antonino podia fingir que nada tinha mudado com o passar dos anos e que aquele ainda era o bando de rapazes e moças de outra época, em vez de um conglomerado de famílias em que ele permanecia o único solteiro sobrevivente.

Cada vez com mais frequência, nessas saídas para as montanhas ou para o mar, no momento da foto de grupo familiar ou interfamiliar, pedia-se a intervenção de um operador de fora, até mesmo de um passante que se prestasse a apertar o botão do aparelho já posto em foco e apontado para a direção desejada. Nesses casos Antonino não podia recusar seus préstimos: recolhia a máquina das mãos de um pai ou de uma mãe que corriam para se colocar na segunda fila enfiando o pescoço entre duas cabeças ou para se acocorar entre os menores; e concentrando todas as suas forças no dedo indicado para o uso, apertava o gatilho. Nas primeiras vezes um irrefletido enrijecimento dos braços desviava a mira, que pegava mastros de embarcações ou agulhas de campanários, ou decapitava vovôs e titios. Foi acusado de fazer de propósito, censurado por um gênero desagradável de brincadeira. Não era verdade: sua intenção era sempre emprestar o dedo como dócil instrumento da vontade coletiva, mas ao mesmo tempo de se utilizar da posição momentânea de privilégio para advertir fotógrafos e fotografados do significado de seus atos. Assim que a ponta do dedo alcançou a condição desejada de destaque em relação ao resto de sua pessoa e individualidade, enquadrando nesse meio tempo pequenas cenas de conjunto bem- sucedidas. (Alguns sucessos casuais tinham bastado para lhe dar desenvoltura e confiança com as objetivas e os fotômetros.)

– … Porque, uma vez que você começou – perorava -, não há nenhuma razão para parar. O passo entre a realidade que é fotografada na medida em que nos parece bonita e a realidade que nos parece bonita na medida em que foi fotografada é curtíssimo. Se você fotografa Pierluca enquanto ele está fazendo o castelo de areia, não há razão para não fotografá-lo enquanto está chorando porque o castelo desmoronou, e depois enquanto o ama, o consola fazendo-o encontrar no meio da areia uma casquinha de concha. É só você começar a dizer a respeito de alguma coisa: “Ah, que bonito, tinha era que tirar uma foto!”, e já está no terreno de quem pensa que tudo que não é fotografado é perdido, que é como se não tivesse existido, e que então para viver de verdade é preciso fotografar o mais que se possa, e para fotografar o mais que se possa é preciso: ou viver de um modo o mais fotografável possível, ou então considerar fotografáveis todos os momentos da própria vida. O primeiro caminho leva à estupidez, o segundo à loucura.

– Você vai ficar louco e estúpido – diziam-lhe os amigos -, e ainda por cima chato.

– Para quem quer aproveitar tudo o que passa na sua frente – explicava Antonino mesmo se ninguém o estivesse mais ouvindo -, o único modo de agir com coerência é tirar pelo menos uma foto por minuto desde quando abre os olhos de manhã até quando vai dormir. Só assim os rolos de filme constituirão um diário fiel de nossas jornadas, sem que nada fique excluído. Se eu fosse me meter a fotografar, iria até o fim nesse caminho, à custa de perder a razão com isso. Já vocês ainda pretendem estar fazendo uma escolha. Mas qual? Uma escolha no sentido idílico, apologético, de consolação, de paz com a natureza, a nação, os parentes. Não é apenas uma escolha fotográfica, a de vocês; é uma escolha de vida, que os leva a excluir os contrastes dramáticos, os cernes das contradições, as grandes tensões da vontade, da paixão, da aversão. Acham assim que estão se salvando da loucura, mas caem na mediocridade, no estupor.

Uma certa Bice, ex-cunhada de alguém, e uma certa Lydia, ex-secretária de outro, pediram-lhe se, por favor, batia um instantâneo delas enquanto jogavam bola entre as ondas. Acedeu, mas, como nesse meio tempo havia elaborado uma teoria contra os instantâneos, apressou-se em comunicá-la às duas amigas:

– O que é que leva vocês, moças, a retirar da movimentada continuidade de sua jornada essas fatias temporais da espessura de um segundo? Jogando a bola uma para a outra estão vivendo no presente, mas mal a divisão dos fotogramas se insinua entre os gestos de vocês já não é o prazer do jogo que as impulsiona e sim o de se reverem no futuro, de se encontrarem novamente daqui a vinte anos num cartãozinho amarelo (sentimentalmente amarelado, mesmo se os processos modernos de fixação o preservarem inalterado). O gosto pela foto espontânea natural colhida ao vivo mata a espontaneidade, afasta o presente. A realidade fotografada assume logo um caráter saudoso, de alegria sumida na asa do tempo, um caráter comemorativo, mesmo se é uma foto de anteontem. E a vida que você vive para fotografar já é desde o princípio comemoração de si mesma. Achar que o instantâneo é mais verdadeiro que o retrato posado é um preconceito…

Assim dizendo, Antonino saltitava no mar em volta das duas amigas para pôr em foco os movimentos do jogo e excluir do enquadramento os reflexos ofuscantes do sol na água. Numa disputa pela bola Bice, que se lançava sobre a outra já submersa, foi apanhada com o traseiro em primeiro plano voando por sobre as ondas. Antonino, para não perder esse ângulo, jogara-se na água de través mantendo a máquina erguida e por pouco não se afogara.

– Saíram todas muito boas, e essa então está sensacional – elas comentaram alguns dias depois, arrancando as provas uma das mãos da outra. Haviam marcado encontro com ele na loja do fotógrafo. – Você é ótimo, tem que fazer outras para nós.

Antonino havia chegado à conclusão de que era preciso voltar às personagens em pose, com atitudes representativas de sua situação social e de seu caráter, como no século XIX. Sua polêmica antifotográfica só podia ser levada adiante do interior da caixa preta, contrapondo fotografia a fotografia.

– Eu gostaria de ter um daquelas máquinas de sanfona – disse ele às amigas –, montada num tripé. Vocês acham que ainda se encontra alguma?

– Bom, quem sabe se em algum ferro-velho…

– Vamos procurar.

As amigas acharam divertida a caça ao objeto curioso: juntos vasculharam mercados de bugigangas, interpelaram velhos fotógrafos ambulantes, seguiram-nos até seus quartinhos escuros. Naqueles cemitérios de material fora de uso jaziam colunatas, biombos, fundos pintados com paisagens esfumadas; tudo o que evocava um velho estúdio de fotógrafo Antonino comprava. No fim conseguiu por a mão numa máquina- caixão, com disparador de pêra, parecia funcionar perfeitamente. Antonino a comprou com um sortimento de chapas. Ajudado pelas amigas, instalou, num cômodo de sua casa, o estúdio, todo de objetos antiquados, fora dois refletores modernos. Agora estava satisfeito.

– Tem que partir novamente desse ponto – explicou às amigas. – No modo como nossos avôs posavam, na convenção segundo a qual se dispunham os grupos, havia um significado social, um costume, um gosto uma cultura. Uma fotografia oficial ou matrimonial ou familiar ou escolar dava o sentido do quanto cada papel ou instituição tinha em si de sério e importante, mas também de falso e forçado, de autoritário, hierárquico. Este é o ponto: tornar explícitas as relações com o mundo que cada um de nós traz consigo, e que hoje se tende a esconder, a tornar inconscientes, achando que desse modo vão desaparecer, enquanto, ao contrário…

– Mas quem é que você vai mandar posar?

– Venham amanhã e eu vou começar a fazer fotos de vocês como estou dizendo.

– Mas me diga: aonde é que você quer chegar? – falou Lydia tomada de uma desconfiança súbita. Só agora, no estúdio instalado, via que naquilo tudo havia um ar sinistro, ameaçador. – Nem por sonhos vamos servir de modelo para você! Bice soltou risadinhas com ela, mas no dia seguinte voltou à casa de Antonino, sozinha. Estava vestida de linho branco, com bordados coloridos nas beiradas das mangas e dos bolsos. Trazia os cabelos divididos por uma risca e puxados sobre as têmporas. Ria um pouco de soslaio, inclinando a cabeça para o lado. Antonino, fazendo-a entrar, estudava, naqueles seus modos um pouco afetados, um pouco irônicos, quais eram os traços que definiam seu verdadeiro caráter.

Mandou-a sentar numa poltrona grande e meteu a cabeça debaixo do pano preto que guarnecia o aparelho. Era uma daquelas caixas com a parede posterior de vidro, onde a imagem se espelha já quase como uma chapa, espectral, um pouco leitosa, separada de qualquer contingência no espaço e no tempo. Antonino teve a impressão de estar vendo Bice pela primeira vez. Tinha uma docilidade, em seu modo um pouco pesado de baixar as pálpebras, no jeito de estender o pescoço para a frente, que prometia alguma coisa de oculto, assim como seu sorriso parecia se ocultar por trás do próprio ato de sorrir.

– Pronto, assim, não, a cabeça mais pra lá, levanta os olhos, não abaixa. – Antonino estava perseguindo dentro daquela caixa alguma coisa de Bice que subitamente lhe parecia preciosíssima, absoluta. – Agora está fazendo sombra, vem mais para a luz, não, estava melhor antes.

Havia muitas fotografias possíveis de Bice e muitas Bices impossíveis de fotografar, mas aquilo que ele buscava era a fotografia única, que contivesse tanto umas quanto as outras.

– Não estou pegando você. – Sua voz saía sufocada e lamentosa de sob a capa preta. – Não estou mais pegando você, não consigo pegar.

Liberou-se do pano e se levantou. Estava errando tudo desde o princípio. Aquela expressão, aquele acento, aquele segredo que lhe parecia estar ali a ponto de colher no rosto dela era algo que o estava arrastando para as areias movediças dos estados de ânimo, dos humores, da psicologia: ele também era um daqueles que vão atrás da vida que foge, um caçador do inalcançável como os disparadores de instantâneos.

Tinha que seguir o caminho oposto: visar um retrato todo em superfície, patente, unívoco, que não se furtasse à aparência convencional, estereotipada, à mascara. A mascara, sendo antes de mais nada um produto social, histórico, contém mais verdade do que qualquer imagem que se pretenda “verdadeira”; traz consigo uma quantidade de significados que se revelarão pouco a pouco. Não era exatamente com essa intenção que Antonino tinha construído o circo daquele estúdio?

Observou Bice. Tinha que partir dos elementos exteriores de seu aspecto. No modo de se vestir e de se arrumar de Bice, pensou, era reconhecível a intenção um pouco nostálgica, um pouco irônica, difundida no gosto daquele momento, de evocar a moda de trinta anos antes. A fotografia deveria acentuar essa intenção; como é que não tinha pensado nisso?

Antonino foi procurar uma raquete de tênis; Bice tinha que ficar em pé, de três quartos, com a raquete embaixo do braço, compondo o rosto com uma expressão de cartão sentimental. Para Antonino, de sob o manto preto, a imagem de Bice – no que tinha de ágil e adequado àquela pose e no que tinha de inadaptado e quase incongruente e que a pose acentuava – pareceu muito interessante. Fez com que mudasse varias vezes de posição, estudando a geometria das pernas e dos braços em relação a raquete e a um elemento do fundo. (No cartão-postal ideal que ele tinha em mente devia haver a rede da quadra de tênis, mas não se podia pretender demais e, Antonino se contentou com uma mesa de pingue-pongue.)

Mas ainda se sentia em terreno seguro: será que não estava procurando fotografar lembranças ou, até, vagos ecos de lembrança que afloravam futura, à maneira dos fotógrafos de domingo, não o estava levando a tentar uma operação igualmente irreal, ou seja, a dar um corpo à lembrança pra que esta substituísse o presente diante de seus olhos?

– Mexa-se, por que fica aí parada? Levante essa raquete, que diabo! Faça como se estivesse jogando tênis! – Enfureceu-se de repente. Havia compreendido que só exasperando as poses se podia atingir uma estranheza objetiva; só fingindo um movimento capturado pela metade se podia dar a impressão do parado, do não-vivo.

Bice se prestava docilmente a executar suas ordens mesmo quando se tornavam imprecisas e contraditórias, com uma passividade que era também um declarar-se fora do jogo, e, contudo, de certo modo insinuando, nesse jogo não seu, os movimentos imprevisíveis de uma sua misteriosa partida. Aquilo que Antonino agora esperava de Bice dizendo-lhe para por as pernas e os braços assim e assado, não era tanto a simples execução de um plano quanto a resposta dela à violência que ele estava lhe fazendo com seus pedidos, uma imprevisível resposta agressiva a essa violência que ele estava cada vez mais inclinado a exercer sobre ela.

Era como nos sonhos, pensou Antonino, contemplando mergulhado na escuridão aquela improvável tenista filtrada no retângulo de vidro: como nos sonhos quando uma presença vinda da profundidade da memória se adianta, dá-se a reconhecer, e logo depois se transforma em algo inesperado, em alguma coisa que mesmo antes da transformação já assusta porque não se sabe em que poderá se transformar.

Estava querendo tirar fotos de sonhos? Esta suspeita o fez calar, escondido naquele refugio de avestruz, a pêra do disparador na mão, como um idiota; e enquanto isso Bice, deixada por sua própria conta, continuava numa espécie de dança grotesca, imobilizado-se em exagerados gestos tenísticos, esquerda, drive, levantando algo a raquete ou abaixando-a até o chão como se o olhar que saía daquele olho de vidro fosse a bola que ela continua a rechaçar.

– Chega, que palhaçada é essa? Não é assim que eu estava pensando. – E Antonino cobriu a maquina com um pano, começou a passear pelo cômodo. Era daquela roupa a culpa de tudo, com suas evocações tenísticas e pré bélicas… Era preciso admitir que em roupa de passeio uma foto como ele descrevia não podia ser feita. Tinha que haver uma certa solenidade, uma certa pompa, como as fotos oficiais das rainhas. Só com um vestido de noite Bice se tornaria um tema fotográfico, com um decote que assinala uma fronteira nítida entre o branco da pele e o escuro do tecido sublinhado pelo reluzir das jóias, uma fronteira entre uma essência de mulher atemporal e quase impessoal em sua nudez e a outra abstração, esta social, do vestido, símbolo de um papel igualmente impessoal, como o drapeado de uma estatua alegórica.

Aproximou-se de Bice, começou a desabotoá-la no pescoço, no peito, a fazer o vestido escorregar por sobre o ombro. Vieram-lhe à lembrança certas fotografias de mulher do século XIX, em que do branco do cartão emerge o rosto, o pescoço, a linha dos ombros descobertos e todo o resto se esvai no branco.

Aquele era o retrato fora do tempo e do espaço que ele agora ele estava querendo: não sabia muito bem como fazer, mas estava decidido a conseguí-lo. Colocou o refletor por cima de Bice, aproximou a máquina, manobrou por baixo do pano para regular a abertura da objetiva. Olhou. Bice estava nua.

Fizera o vestido deslizar até os pés; por baixo não trazia nada; dera um passo para frente; não, um passo para trás que era como um avançar inteirinha dentro do quadro; estava reta, parada diante da máquina, tranqüila, olhando para a frente, como se estivesse sozinha.

Antonino sentiu a visão dela lhe entrar pelos olhos e ocupar todo o campo visual, tirá-lo fora do fluxo das imagens casuais e fragmentárias, concentrar tempo e especo numa forma finita. E, como se essa surpresa de visão e impressionar a chapa fossem dois reflexos ligados entre si, apertou imediatamente o disparador, recarregou a máquina, disparou, pôs outra chapa, disparou, continuou a trocar a chapa e disparar, tartamudeando, sufocado pelo pano:

– Pronto, agora sim, agora está bom, pronto, de novo, agora estou pegando você, de novo.

Não tinha mais chapas. Saiu de sob o pano. Estava contente. Bice estava diante dele, nua, como que esperando.

– Agora você pode se vestir disse ele eufórico, mas já com pressa -, vamos sair. Ela olhou para ele desnorteada.

– Agora peguei você – disse ele.

Bice desandou a chorar.

Antonino descobriu no mesmo dia que estava apaixonado por ela. Começaram a viver juntos, e ele comprou aparelhos mais modernos, teleobjetivas, acessórios aperfeiçoados, instalou um laboratório. Tinha até dispositivos para poder fotografá-la a noite enquanto dormia. Bice despertava debaixo do flash, contrariada; Antonino continuava a tirar instantâneos dela que se desenredava do sono, dela que se irritava com ele, dela que tentava inutilmente voltar a dormir afundando o rosto no travesseiro, dela que se reconciliava, dela que reconhecia como atos de amor essas violências fotográficas.

No laboratório de Antonino, coberto de películas e provas, Bice surgia de todos os fotogramas, como na reticula de uma colméia surgem milhares de abelhas que são sempre a mesma abelha; Bice em todas as atitudes, ângulos, maneiras. Bice posando ou colhida à revelia, uma identidade esmigalhada numa poeira de imagens.

– Mas que obsessão é essa por Bice? Não pode fotografar outra coisa? – era a pergunta que continuamente ouvia dos amigos, e dela também.

– Não se trata simplesmente de Bice – respondia. – É uma questão de método. Qualquer pessoa que você resolva fotografar, ou qualquer coisa, você tem que continuar a fotografá-la sempre, só ela, a todas as horas do dia e da noite. A fotografia só tem sentido se esgotar todas as imagens possíveis.

Mas não dizia o que realmente importava para ele: colher Bice no caminho quando ela não sabia que estava sendo vista por ele, tê-la sob o disparo de objetivas escondidas, fotografá-la não só sem ser visto, mas sem vê-la, surpreendê-la como era na ausência de seu olhar, de qualquer olhar. Não que quisesse descobrir qualquer coisa em particular; não era um ciumento no sentido corrente da palavra. Era uma Bice invisível que queria possuir, uma Bice absolutamente sozinha, uma Bice cuja presença pressupunha a ausência dele e de todos os outros.

Pudesse ou não ser definida como ciúme, era em suma uma paixão difícil de suportar. Bice logo o largou. Antonino caiu numa crise depressiva. Começou a fazer um diário: fotográfico, claro. Com a máquina pendurada no pescoço, afundado numa poltrona, disparava compulsivamente com o olhar no vazio. Fotografava a ausência de Bice.


Recolhia as fotos num álbum: viam-se cinzeiros cheios de tocos de cigarros, uma cama desfeita, uma mancha de umidade na parede. Veio-lhe a idéia de compor-lhe um catalogo de tudo o que no mundo existe de refratário à fotografia, de deixando sistematicamente fora do campo visual não só das máquinas mas dos homens. Em cima de cada objeto passava dias inteiros, gastando rolos completos, a intervalos de horas, de maneira a acompanhar as mudanças de luz e sombra. Um dia se fixou num canto do quarto totalmente vazio, com um tubo de calefação e mais nada: teve a tentação de continuar a fotografar aquele ponto e só aquele até o fim de seus dias.

O apartamento estava largado ao abandono, papéis e jornais velhos jaziam amarfanhados pelo chão, e ele os fotografava. As fotos nos jornais também eram fotografadas, e uma ligação indireta se estabelecia entre sua objetiva e a de longínquos repórteres fotográficos. Para produzir aquelas manchas negras, a lente de outras objetivas havia localizado batidas policiais, carros carbonizados, atletas em corrida, ministros, acusados.

Antonino agora sentia um prazer particular em retratar os objetos domésticos enquadrados por um mosaico de telefotos, violentas manchas de tinta nas folhas brancas. Do interior de sua imobilidade se pilhou a invejar a vida do repórter fotográfico que se mexe seguindo os movimentos das multidões, o sangue derramado, as lágrimas, as festas, o delito, as convenções da moda, a falsidade das cerimônias oficiais; o repórter fotográfico que documenta os extremos da sociedade, os mais ricos e os mais pobres, os momentos excepcionais que, no entanto, ocorrem a qualquer momento em qualquer lugar.

“Quer dizer que só o estado de exceção tem algum sentido?” perguntava Antonino a si mesmo. “Será o repórter fotográfico o verdadeiro antagonista do fotógrafo dominical? Seus respectivos mundos se excluem? Ou então um dá sentido ao outro?” E assim pensando se pôs a reduzir a pedaços as fotos com Bice acumuladas nos meses de sua paixão, a arrancar as tiras de provas presas nas paredes, a despedaçar o celulóide de negativos, a furar os dispositivos, e amontoava os resíduos dessa metódica destruição sobre jornais estendidos no chão.

“Talvez a verdadeira fotografia total”, pensou, “seja um monte de fragmentos de imagens privadas, sobre o fundo amarrotados dos massacres e das coroações”. Dobrou as pontas dos jornais num enorme embrulho para jogá-lo no lixo, mas primeiro quis fotografá-lo. Dispôs as pontas de modo que se vissem bem duas metades de fotos de jornais diferentes que por acaso no embrulho estavam se encaixando. Até abriu mais um pouco o pacote para destacar um pedaço de papel brilhante de uma ampliação rasgada. Acendeu um refletor; queria que em sua foto pudessem reconhecer as imagens meio emboladas e despedaçada e ao mesmo tempo se sentisse sua irrealidade se sombras casuais de tintas, e ao mesmo tempo ainda sua concretude de objetos carregados de significado, a força com que se agarravam à atenção que tentava expulsá- las.

Para conseguir colocar tudo isso numa fotografia era preciso conquistar uma habilidade técnica extraordinária, mas só então Antonino poderia parar de fotografar. Esgotadas todas as possibilidades, no momento em que o círculo se fechava sobre si mesmo. Antonino entendeu que fotografar fotografias era o único caminho que lhe restava, aliás, o único caminho que ele havia obscuramente procurado até então. 


CALVINO, Ítalo. A Aventura de um Fotógrafo. In: Os Amores Difíceis. São Paulo, Companhia das Letras, 1992. p. 51-64.








Todo mundo pelo menos uma vez, ao caminhar pela rua viu algo e pensou “preciso registrar essa cena!”. Entretanto, mesmo que você fotografe somente por hobby e gosta de publicar cenas de rua em suas redes sociais, é bem importante saber que existem leis que determinam o que pode ou não ser registrado para evitar dores de cabeça no futuro.

Na prática, tudo que é objeto e está na rua pode ser fotografado. Pessoas já são um outro assunto. O que você precisa saber ao fazer fotografias na rua, no Brasil:

1) Qualquer pessoa pode tirar foto de qualquer lugar, paisagem ou obras expostas em locais públicos a qualquer momento, desde que não tenha cometido nenhuma infração ou ato ilegal para obter a tal fotografia (então capriche nas fotos de obras de arte itinerantes, em época de final de ano elas vivem espalhadas por aí!). Mas lembre-se de não fazer uso comercial de tais fotos, pois de maneira geral, a lei de direitos autorais protege as criações artísticas de uso comercial não autorizado.


2) Essa talvez seja a maior dúvida ao fotografar pessoas na rua. Você não pode fotografar somente uma pessoa sem a autorização prévia. Mas essa regra não se aplica quando é uma pessoa aleatória no meio de outras que estão passando pelo local. Neste caso você não precisa sair pedindo autorização para fotografar as pessoas, mas é educado e de bom tom fazer quando sua foto for ter fins comerciais, afinal, imagine abrir uma revista e ver uma foto sua que você nem fazia ideia que existia. Ninguém gostaria de uma surpresa como esta!

3) Tenha em mente que um lugares abertos ao público são bem diferentes de lugares que sejam público. Não é porque o lugar é aberto ao público, que ele também necessariamente precisa ser público. Um exemplo disso são museus, teatros, clubes, shoppings e alguns parques. Neste tipo de lugar cada um tem uma política de privacidade, portanto, nossa recomendação é se informar sempre.

4) Você pode divulgar sua foto seja na internet, exposições e livros, de imagens de pessoas desde que sejam em espaços públicos ou com fins culturais. A divulgação é proibida quando constitua ofensa à honra, reputação ou simples decoro da pessoa retratada. Se o foco for uma pessoa em particular não pode ser exposto, publicado ou lançado no comércio sem o seu consentimento.

5) Não menos importante, Use o senso comum. Como viu, você não precisa sair pedindo autorização para fotografar as pessoas na rua, porém seguir o bom senso é fundamental. Todos temos um senso comum do que é normal e daquilo que “invade” a nossa privacidade. Por exemplo, fotografar uma pessoa no interior de sua casa pela janela não é adequado. Quando a sua fotografia infringe a privacidade do outro você seria anti ético e passível de punição, então tenha cuidado, analise a cena antes de fotografar e tenha certeza que está dentro dos padrões.

Bons cliques!

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