INÍCIO

13 janeiro 2021

AS VACINAS QUE PRECISAMOS


As vacinas que precisamos
Informações deliberadamente falsas colocam em suspensão nossa condição de memória e de percepção e chega-se ao ponto absurdo de alguém afirmar que não vemos e ouvimos o que estamos vendo e ouvindo.

Por Edson Luiz André de Sousa, psicanalista* / Publicado em 8 de janeiro de 2021


O método é por demais conhecido. Usar uma posição de poder, de ascendência sobre outra pessoa para colocar em dúvida a percepção de realidade deste outro. Isto tem um nome preciso, se chama abuso. Em 1944 George Cukor dirigiu o filme Gaslight baseada na peça de teatro de Patrick Hamilton. Neste filme um marido cria situações de manipulação com sua esposa (Ingrid Bergman) fazendo-a acreditar que estava enlouquecendo: esconde objetos dela e a acusa de perda de memória, a assusta com sons noturnos, coloca permanentemente em dúvida a leitura que ela faz da realidade. Victor Santoro em 1994 publica um estudo sobre este tema com o livro “Gaslighting: how to drive your enemies crazy”.




Estamos vivendo isto de forma alucinada diariamente. Informações deliberadamente falsas colocando em suspensão nossa condição de memória e de percepção e que chega ao ponto absurdo de alguém se autorizar a dizer algo do estilo “ você não está vendo isto que está vendo”, “você não está ouvindo isto que você está ouvindo”. É enlouquecedor, como mostra muito bem o filme. Como se a palavra deste abusador pudesse ser mais confiável que a percepção do próprio sujeito.

Assim, nem 200 mil mortos são suficientes para demover alguns de que estamos em uma pandemia gravíssima; nem 200 mil mortos são suficientes para convencer alguns de que é preciso tomar os cuidados para não se contaminar e não contaminar os outros, na maioria das vezes seus familiares e amigos mais próximos; nem 200 mil mortos são suficientes para que alguns tenham o mínimo apreço pela vida e possam celebrar uma vacina como uma conquista do conhecimento, da ciência e que se vacinar mais do que uma obrigação é uma escolha pela vida. Mas não, escolhem o sacrifício, embotados que estão nesta cegueira.

Parábola dos cegos. Pieter Bruegel, o Velho, 1568. Têmpera a cola sobre tela de linho 
(86 × 154 cm). Museu de Capodimonte, Nápoles.

Na tela de Pieter Bruegel , a parábola dos cegos, de 1568 vemos esta situação assustadora que estamos vivendo em nosso país: um cego conduzindo alguns outros para o abismo a sua frente. Assustador na medida em que mesmo que não escolhemos estar nesta fila, este que foi escolhido para conduzir um país, impõe com violência sua percepção, e o que é mais assustador debochando destes que ainda cairão. Milhares já despencaram no desfiladeiro. Mais de 50 países no mundo já começaram a vacinação com um plano emergencial e como prioridade. E aqui, um dos países com uma das melhores experiências no mundo em campanhas de vacinação, nenhum vacina aplicada ainda. Quantas vidas a mais serão jogadas neste abismo?

A vacina chega como uma esperança mas se não houver uma politica clara da importância de que todos se vacinem, demoraremos muito mais para sairmos desta pandemia.

Estamos todos muitos cansados em ter que permanentemente reafirmar o óbvio. Uma energia imensa gasta para reagir contra esta violência. Já estamos em queda há muito tempo neste precipício. É urgente recuperar nossa memória e confiar nela. Um torturador jamais poderia ser celebrado em pleno congresso nacional. No Chile no final de 2019 a apresentadora Tonka Tomicic em um programa ao vivo na TV pediu para um advogado se retirar do estúdio por relativizar a tortura no país. Disse ela “ Não se pode compartilhar o espaço televisivo com uma pessoa que está negando parte da história do Chile”.

O que dizer de um dos apoiadores de Trump que invadiram o Congresso Nacional vestindo uma camiseta fazendo uma apologia ao nazismo com uma menção a Auschwitz? Se isto é tolerado em um coletivo indica de que a mensagem é compartilhada por muito mais gente. Claude Lanzmann, no seu documentário Shoah, sobre os campos de extermínio nazistas mostrou esta cumplicidade de muitos destes “cidadãos comuns” que mesmo com os campos de concentração na cara, fechavam os olhos. Contrariamente a praticamente todos as democracias no mundo que imediatamente se pronunciaram veementemente contra a invasão do Capitólio, aqui o capitão coloca em suspeita o processo eleitoral nos EUA e também no Brasil, já ameaçando sobre o que vai acontecer em 2022.

Pode ser que esta seja uma das últimas apostas que temos: lutar pelo bem mais precioso que temos: a vida. Se a vida não for prioridade neste país, teremos que fazer o luto pelo fim trágico desta nação. Este é o princípio maior que deveria conduzir a todos. independentemente de suas posições políticas, estéticas, psíquicas. Vamos precisar de muitas outras vacinas para continuar respirando e sonhando com um país melhor para viver.

*Edson Luiz André de Sousa – Psicanalista. Analista membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA). Professor titular do Instituto de Psicologia da UFRGS. Doutorado e Pós-Doutorado na Universidade de Paris VII. Autor entre outros de “ Uma invenção da utopia”, Lumme Editora, SP.

Artigo publicado no site

































IMPOSTOS EM ATHENAS

SOMENTE OS ATHENIENSES MAIS RICOS PAGAVAM IMPOSTOS

Introdução 

Segundo Lyttkens (1992) um cidadão ateniense no século IV poderia estar sujeito a três tipos de tributação de propriedade, dependendo da quantidade de sua riqueza: liturgias militares, liturgias dos festivais, e um imposto de guerra, a eisphora. Destes, apenas a eisphora era formalmente um imposto.
Na Atenas clássica, era considerado um dever e uma honra para um cidadão rico
realizar serviços para o estado. Ao realizar a assim chamada Iiturgia, um cidadão comprometia-se a desempenhar e administrar certas funções para o bem comum. A trierarquia era uma liturgia militar: comissionar e comandar um navio de guerra por um ano. As outras liturgias diziam respeito às festas religiosas e a mais conhecida era encenar uma produção dramática  (choregia).

Berço da democracia

Na Athenas antiga, apenas as pessoas mais ricas pagavam impostos diretos, e estes impostos eram usados para financiar as despesas nacionais mais importantes da cidade-estado: a marinha e honrarias aos deuses. Embora hoje possa parecer surpreendente para nós, a maioria dos contribuintes principais não apenas pagava com satisfação, mas gabava-se do quanto pagou. (A)

A Atenas antiga era uma cidade totalmente moderna 
em suas grandes necessidades de financiamento público. 
(Leo von Klenze via Wikimedia Commons).




Um vislumbre da Athenas clássica 
(imagens de diferentes sites)

O dinheiro era tão importante para os antigos atenienses quanto para a maioria das pessoas hoje, então o que explica essa reação entusiástica a uma grande cobrança de impostos? A elite financeira ateniense se sentiu assim porque obteve um retorno inestimável: o respeito público dos outros cidadãos de sua democracia.




ΛΟΚΡ-ΩΝ. Cabeça de Athena com helmo corintio
Lokroi Epizephyrioi, ca. 350-300 aC (1)

ELIS, Olympia. 134th-143rd Olympiad. Circa 244-208 BC. AR Drachm (17mm, 4.70 g, 2h). Eagle flying right, holding and tearing at hare / Thunderbolt, with double volutes above and wings below. Elis Hoard group III; BCD Olympia 241.

(2, 3)

Moeda de Athenas, com cabeça de Athenas usando capacete, brinco e colar; tiara ornamentada com espiral e três folhas de oliveira. Reverso: ΑΘΕ. coruja em pé, com a cabeça voltada pra frente; no campo superior esquerdo um ramo de oliveira com duas folhas e uma baga. 
Attica, tetradracma de Athenas (c. 430-410 a.C.). 


Necessidades modernas, finanças modernas

A Athenas nos séculos V e IV a.C. tinha uma população de300.000 pessoas livres e escravizadas. A economia se concentrava principalmente no comércio internacional, e Athenas precisava gastar grandes somas de dinheiro para manter as coisas funcionando, desde o apoio à defesa nacional até as inúmeras fontes públicas de água potável por toda a cidade.

Grande parte dessa receita vinha de fazendas de propriedade pública e minas de prata que eram alugadas àqueles que pagavam mais, entretanto Athenas também tributava importações e exportações de bens e cobrava taxas de imigrantes e prostitutas, bem como multas impostas aos perdedores em muitos processos judiciais ao longo do ano. Em geral, não havia impostos diretos sobre a renda ou a riqueza.

À medida que Athenas se tornava uma potência internacional, desenvolveu uma grande e cara marinha de várias centenas de navios de guerra de madeira de última geração chamados trirremes, τριήρης, triērēs, que significa literalmente três bancos de remadores (em três diferentes posições). As trirremes custavam muito dinheiro para construir, equipar e tripular, e as elites financeiras atenienses eram as que pagavam para que isso acontecesse (A).








Autor desconhecido

autor desconhecido

Reconstrução de uma trirreme ateniense

Galpões e docas do Pireu em Athenas 
(Ilustração Sam Maning)



As trirremes eram a tecnologia naval militar mais avançada e cara do mundo antigo no Mediterrâneo, e os ricos atenienses as financiavam do próprio bolso. (Marsyas via Wikimedia Commons, CC BY)

Como qualquer nação atual, os gregos da Athenas clássica comercializavam e mantinham confrontos como seu concorrentes pelo mercado do mediterrâneo, uma vez que eles se dedicavam ao "comercio internacional". Eles produziam muitos produtos como bens de consumo e alimentos além de bebidas e óleo, como cita Cartwright (2018)

From 600 BCE trade was greatly facilitated by the construction of specialised merchant ships and the diolkos haulway across the isthmus of Corinth. Special permanent trading places (emporia), where merchants of different nationalities met to trade, sprang up, for example, at Al Mina on the Orontes river (modern Turkey), Ischia-Pithekoussai (off the coast of modern Naples), Naucratis in Egypt, and Gravisca in Etruria. From the 5th century BCE, Athens’ port of Piraeus became the most important trading centre in the Mediterranean and gained a reputation as the place to find any type of goods on the market.
Trade goods included: cereals, wine, olives, figs, pulses, eels, cheese, honey, meat (especially from sheep and goats), tools (e.g.: knives), perfumes, fine pottery, especially Attic and Corinthian wares.


O 1% superior dos proprietários de terras, do sexo masculino apoiava a segurança ou a salvação de Athenas, chamada de “soteria”, Σωτηρία, realizando um tipo especial de serviço público chamado “leitourgia”, ou liturgia. 

Na mitologia grega, Soteria (grego antigo: Σωτηρία) era a deusa ou espírito (daimon) da segurança e salvação, libertação e preservação do mal (não confundir com Eleos, a personificação da piedade, misericórida ou clemência).

Soteria também era um epíteto da deusa Perséfone, que significa libertação e segurança. Esses festivais eram realizados em muitas cidades gregas desde o século 3 a.C. Eles também homenageavam o salvador (Sôter) de um perigo, e podiam ser dedicados a todos os deuses ou a apenas um (principalmente Zeus Soterios) (4). A deusa Soteria tinha um santuário e uma estátua em sua homenagem na cidade de Patrae, que se acredita ter sido fundada por Eurypylos da Tessália.

As Soteria mais famosas da antiguidade foram as realizadas em Delfos. Eles foram instituídos para comemorar a vitória sobre o invasor celta Brennus (279 a.C). Eles eram compostos por esportes e competições musicais. Muitas cidades foram convidadas para a Soteria de Delfos. Em 246 a.C, a confederação etólia reorganizou as festividades para igualá-la a outros jogos antigos, como os  jogos de Pítia, por exemplo.

Os ricos proprietários serviam como um comandante de trirremes, ou “trierarca”. Trierarca (em grego clássico: τριήραρχος; triērarchos) era o título dos oficiais que comandavam um trirreme (triēres) na Grécia Clássica.  Esse proprietário rico pessoalmente financiava os custos operacionais de um trirreme durante um ano inteiro e até mesmo liderva a tripulação em missões militares. 

Este serviço público não era barato. Para financiar sua liturgia como um trierarca, um contribuinte rico gastava o que um trabalhador qualificado ganhava em 10 a 20 anos de pagamento fixo, mas em vez de se esquivar dessa responsabilidade, a maioria a abraçou. 

Em algumas cidades, como Atenas, o trierarca era um cidadão que arcava com o valor em dinheiro para  pagar a manutenção e armamento do navio, o que implicava que devia serem pessoas de largas posses, pois as despesas podiam ascender a um talento por ano (τάλαντον, talanton: "escala", "balança" segundo a literatura era uma unidade da antiga da Mesopotâmia para grandes quantidades de massa, sendo criada na Suméria, e consolidada por volta do Século XXIII a.C. Foi usado por povos de toda a antiguidade com poucas variações de peso tanto na Grécia, como em Roma, Egito, Israel, Babilônia, Suméria e Acádia.), e um talento grego pesava 20,04 Kg de ouro (5), o equivalente hoje a R$ 4.200.000,00 (6).
 
Mapa da estrutura política da Grécia no período arcáico (750-490 a.C.)

No final do século IV, devido aos elevados custos, era comum em Atenas um navio ter, não um, mas vários trierarcas, que partilhavam entre si as despesas do navio. O posto de trierarca estava associado ao conceito de trierarquia (τριηραρχία; triêrarkhía), que basicamente consistia na convocação dum cidadão para tomar a seu cargo o comando e todas as despesas dum trirreme, incluindo a sua tripulação, tendo-o em condições de combater, durante um período de tempo pré-estabelecido, normalmente um ano. A trierarquia cujo funcionamento se conhece melhor foi a de Athenas do século IV a.C., que possivelmente foi instituída pela lei naval de Temístocles de 483−482 a.C.

Mediterrâneo povos dominantes e rotas de colonização e comércio 

O comando de navios de guerra não era a única responsabilidade dos cidadãos ricos com a defesa nacional. Quando Athenas estava em guerra, o que acontecia com frequência, os ricos tinham que pagar contribuições em dinheiro chamadas “ἰσφορά, eisphora” para financiar a milícia de cidadãos. Essas contribuições eram baseadas no valor de sua propriedade, não em sua renda, o que as tornava, de certa forma, um imposto direto sobre a riqueza. 
A eisphora (em grego antigo ἰσφορά, literalmente “pagamento, contribuição"), possivelmente foi instituída no sec. V a.C. (A data da criação desse imposto direto, não se sabe com certeza. Tucídides relata que no outono de 428 a.C., frente da perspectiva de fazer face ao sítio de Mitilene, “os atenienses pagaram eles mesmos, então pela primeira vez, um imposto extraordinário (eisphora) de duzentos talentos"). Essa taxa, era um imposto excepcional sobre o capital arrecadado por uma pólis (cidade) para fazer frente às despesas inerentes a uma guerra em curso ou iminente. Há referências relativas sobretudo a eisphora em Athenas, no século IV a.C., ainda que também esteja testemunhada em outros locais na Grécia.  


Para agradar aos deuses

Para os antigos atenienses, o poderio militar físico era apenas parte da equação. Eles também acreditavam que a salvação do estado de ameaças externas dependia de uma fonte de defesa menos tangível, mas igualmente crucial e cara: o favor dos deuses (A).

Para manter esses protetores divinos poderosos, mas inconstantes e temperamentais, ao seu lado, os atenienses construíram templos elaborados, realizaram grandes sacrifícios e organizaram festivais religiosos públicos animados. Esses shows massivos apresentavam extravagâncias musicais e apresentações teatrais que contavam com a presença de dezenas de milhares de pessoas e eram extremamente caros para realizar.

Assim como aconteceu com os trierarcas, os atenienses mais ricos pagavam por esses festivais cumprindo as liturgias dos festivais. Servir como líder de coro, por exemplo, significava pagar pelo treinamento, custos e despesas de manutenção de grandes grupos de artistas por meses a fio.


Orgulho de estar pagando

Nos E.U.A. hoje, estima-se que um em cada seis dólares de impostos não seja pago. Grandes corporações e cidadãos ricos fazem tudo o que podem para minimizar sua cobrança de impostos. Os atenienses teriam ridicularizado tal comportamento.

No Brasil atual, segundo o levantamento, o percentual de evasão fiscal das empresas no País gira em torno de 25% de seu faturamento. O estudo é relevante ao apontar os tributos mais sonegados (INSS, ICMS e IR, nessa ordem), os setores que mais deixam de pagar impostos (indústria, comércio e serviços, também nessa ordem) e as práticas mais comuns para transgredir a lei (venda sem nota, venda com “meia” nota, “calçamento de nota”, duplicidade de numeração da nota, distribuição disfarçada de lucros, etc.). Segundo o IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação) ) informou aos jornais, o índice de sonegação fiscal médio no Brasil seria de 25,05% do faturamento das empresas. Vários especialistas consultados pelo jornal atribuíram a elevada evasão tributária à alta carga de impostos no Brasil, em torno de 36% do PIB.
O que leva a uma perda de renda para o pais de R$ 417 bilhões por ano com impostos, devido às sonegações de empresas. Esse montante poderia ser aplicado em pesquisa, saúde, educação. A maior corrução esta em mão privadas e não na política como querem fazer você acreditar (7). 

Nenhum membro da elite financeira da Athenas antiga se orgulhava de enganar o equivalente ateniense da Receita Federal. Exatamente o oposto era verdade: eles pagavam, e até se gabavam em público, honestamente, de que muitas vezes pagavam mais do que o exigido quando serviam como trierarca ou líder de coro.

Claro, nem todo membro dos super-ricos de Athenas se comportava como um campeão patriótico. Alguns atenienses tentaram escapar de suas liturgias alegando que outras pessoas com mais propriedades deveriam arcar com o custo em vez de si mesmas, mas essa tentativa de fuga do serviço público nunca se tornou a norma, uma vez que esse pagamento servia exatamente para salvar a pólis e para o transporte seguro de mercadorias no mar Mediterrâneo.

Então, qual era o raciocínio por trás desse orgulho cívico e pagador de impostos? Os antigos atenienses não estavam apenas abrindo suas carteiras para promover o bem comum. Eles esperavam obter um alto retorno na estima pública com os investimentos em sua comunidade que seus impostos representavam.

Esse capital social era extremamente valioso porque a cultura ateniense tinha o dever cívico em alta conta. Se um rico ateniense acumulava sua riqueza, era ridicularizado e rotulado de "homem ganancioso" que "pede emprestado aos hóspedes que ficam em sua casa" e "quando vende vinho a um amigo, ele o vende aguado!"

Riqueza social, não riqueza monetária

As recompensas sociais que o pagamento dos impostos rendiam aos ricos tinham vida longa. Um liturgista que financiou o coro de um drama premiado poderia construir para si um monumento espetacular em uma localização conspícua e privilegiada no centro da cidade para anunciar sua excelência a todos os que chegavam para sempre (A).

O Monumento Corágico de Lysicrates perto da Acrópole de Atenas.
Este foi erguido pelos coragós Lysicrates, patrono de muitas apresentações teatrais no Teatro de Dionísio, para comemorar a entrega do primeiro prêmio na 111ª Olimpíada, 335 a.C. ou 334 a.C., a uma das as apresentações que ele patrocinou. O choragos era o patrocinador que custeava e supervisionava a formação do coro de dança dramático (das crianças do estilo Acamantis) 
segundo uma inscrição encontrada:

«Λυσικράτης Λυσιθείδου Κικυνεύς εχορήγει
Ακαμαντίς παίδων ενίκα θέων ηύλει
Λυσιάδας Αθηναίος εδίδασκε Ευαίνετος ήρχε»



A estrutura circular, erguida sobre um alto pódio quadrado, é um dos primeiros monumentos gregos construídos segundo a ordem coríntia. Suas esculturas em friso retratam episódios do mito de Dionísio, (como os piratas transformados em golfinhos), o deus cujos ritos evoluíram para o teatro grego. Originalmente, servia de suporte para o tripé de bronze que foi dado como prêmio. Encontra-se agora no seu pequeno jardim na Rua Tripodon ("Rua dos Tripés"), que segue a linha da antiga rua do nome, que conduzia ao Teatro de Dioniso e outrora foi revestida com monumentos corágicos, dos quais as fundações foram descobertas em escavações durante a década de 1980. (8)

Acima de tudo, os ricos atenienses pagavam seus impostos porque ansiavam pelo sucesso social que vinha de seus compatriotas identificando-os publicamente como cidadãos que são bons porque são úteis. Ganhar o título honroso de um cidadão útil pode soar inofensivo hoje, mas escrito em uma carta para uma congregação hebraica em Rhode Island em 1790, George Washington proclamou que ser "útil" era uma parte inestimável do plano divino para os Estados Unidos.

Da mesma forma, os atenienses infundiram essa designação com imenso poder. Ser um contribuinte rico, bom e útil para seus concidadãos contava ainda mais do que dinheiro no banco. E esse serviço público inestimável lucrou todos os atenienses ao manter viva sua democracia século após século. 
(Modificado e ampliado de Beth Daley).

Bibliografia 

Lyttkens, Carl Hampus. (1992) Effects of the taxation of wealth in Athens in the fourth century B. C., Scandinavian Economic History Review, 40:2, 3-20.






















Only the richest ancient Athenians paid taxes 
and they bragged about it
Beth Daley

In ancient Athens, only the very wealthiest people paid direct taxes, and these went to fund the city-state’s most important national expenses – the navy and honors for the gods. While today it might sound astonishing, most of these top taxpayers not only paid happily, but boasted about how much they paid. 
Money was just as important to the ancient Athenians as it is to most people today, so what accounts for this enthusiastic reaction to a large tax bill? The Athenian financial elite felt this way because they earned an invaluable payback: public respect from the other citizens of their democracy.
Modern needs, modern finances
Athens in the fifth and fourth centuries B.C. had a population of free and enslaved people topping 300,000 individuals. The economy mostly focused on international trade, and Athens needed to spend large sums of money to keep things humming – from supporting national defense to the countless public fountains constantly pouring out drinking water all over the city.

From 600 BCE trade was greatly facilitated by the construction of specialised merchant ships and the diolkos haulway across the isthmus of Corinth. Special permanent trading places (emporia), where merchants of different nationalities met to trade, sprang up, for example, at Al Mina on the Orontes river (modern Turkey), Ischia-Pithekoussai (off the coast of modern Naples), Naucratis in Egypt, and Gravisca in Etruria. From the 5th century BCE, Athens’ port of Piraeus became the most important trading centre in the Mediterranean and gained a reputation as the place to find any type of goods on the market.
Trade goods included: cereals, wine, olives, figs, pulses, eels, cheese, honey, meat (especially from sheep and goats), tools (e.g.: knives), perfumes, fine pottery, especially Attic and Corinthian wares.

Much of this income came from publicly owned farmland and silver mines that were leased to the highest bidders, but Athens also taxed imports and exports and collected fees from immigrants and prostitutes as well as fines imposed on losers in many court cases. In general, there were no direct taxes on income or wealth.

As Athens grew into an international power, it developed a large and expensive navy of several hundred state-of-the-art wooden warships called triremes – literally meaning three-rowers. Triremes cost huge amounts of money to build, equip and crew, and the Athenian financial elites were the ones that paid to make it happen.

The top 1% of male property owners supported the saving or salvation of Athens –called “soteria” – by performing a special kind of public service called “leitourgia,” or liturgy. They served as a trireme commander, or “trierarch,” who personally funded the operating costs of a trireme for an entire year and even led the crew on missions. This public service was not cheap. To fund their liturgy as a trierarch, a rich taxpayer spent what a skilled worker earned in 10 to 20 years of steady pay, but instead of dodging this responsibility, most embraced it.

Running warships was not the only responsibility the rich had to national defense. When Athens was at war – which was most of the time – the wealthy had to pay contributions in cash called “eisphorai” to finance the citizen militia. These contributions were based on the value of their property, not their income, which made them in a sense a direct tax on wealth.

To please the gods

To the ancient Athenians, physical military might was only part of the equation. They also believed that the salvation of the state from outside threats depended on a less tangible but equally crucial and costly source of defense: the favor of the gods.

To keep these powerful but fickle divine protectors on their side, the Athenians built elaborate temples, performed large sacrifices and organized lively public religious festivals. These massive spectacles featured musical extravaganzas and theater performances that were attended by tens of thousands of people and were hugely expensive to throw.

Just as with trieremes, the richest Athenians paid for these festivals by fulfilling festival liturgies. Serving as a chorus leader, for example, meant paying for the training, costumes and living expenses for large groups of performers for months at a time.

Proud to be paying

In the U.S. today, an estimated one out of every six tax dollars is unpaid. Large corporations and rich citizens do everything they can to minimize their tax bill. The Athenians would have ridiculed such behavior.

None of the financial elite of ancient Athens prided themselves on scamming the Athenian equivalent of the IRS. Just the opposite was true: They paid, and even boasted in public – truthfully – that they often had paid more than required when serving as a trierarch or chorus leader.

Of course, not every member of the superrich at Athens behaved like a patriotic champion. Some Athenian shirkers tried to escape their liturgies by claiming other people with more property ought to shoulder the cost instead of themselves, but this attempted weaseling out of public service never became the norm.

So what was the reasoning behind this civic, taxpaying pride? Ancient Athenians weren’t only opening their wallets to promote the common good. They were counting on earning a high return in public esteem from the investments in their community that their taxes represented.

This social capital was so valuable because Athenian culture held civic duty in high regard. If a rich Athenian hoarded his wealth, he was mocked and labeled a “greedy man” who “borrows from guests staying his house” and “when he sells wine to a friend, he sells it watered!”
Social wealth, not monetary riches

The social rewards that tax payments earned the rich had long lives. A liturgist who financed the chorus of a prize-winning drama could build himself a spectacular monument in a conspicuous downtown location to announce his excellence to all comers for all time.

Above all, the Athenian rich paid their taxes because they craved the social success that came from their compatriots publicly identifying them as citizens who are good because they are useful. Earning the honorable title of a useful citizen might sound tame today – it didn’t boost Pete Buttigieg’s presidential campaign even though he describes his political role as “trying to make myself useful” – but in a letter to a Hebrew congregation in Rhode Island written in 1790, George Washington proclaimed that being “useful” was an invaluable part of the divine plan for the United States. So, too, the Athenians infused that designation with immense power. To be a rich taxpayer who was good and useful to his fellow citizens counted even more than money in the bank. And this invaluable public service profited all Athenians by keeping their democracy alive century after century.




NEOLIBERALISMO APLICADO NO BRASIL


Por que o governo  brasileiro impõe um modelo que está dando errado no mundo todo?
Maria Lúcia Fatorelli
(2/abril/2019)

Parábola dos cegos. Pieter Bruegel, o Velho, 1568, 
Têmpera a cola sobre tela de linho (86  × 154 cm)
Museu de Capodimonte, Nápoles.


Ao contrário de “resolver” problemas das contas públicas, a proposta de reforma da Previdência entregue por Bolsonaro ao Congresso representa graves danos às contas públicas:

Dano às contas públicas I: A “economia” de R$ 1 trilhão que Guedes quer fazer corresponde ao valor que deixará de ser pago sob a forma de benefícios da Previdência e Assistência Social, ou seja, deixará de chegar às mãos das pessoas que usam o valor que recebe em consumo que movimenta a economia de forma virtuosa, fazendo retornar recursos ao próprio governo, sob a forma de tributos.
Dano às contas públicas II: Na “Capitalização”, a contribuição previdenciária que atualmente é paga por empregados e empregadores deixará de chegar aos cofres públicos! Assim, em vez de melhorar as contas públicas, a Capitalização vai significar um rombo às contas públicas, o que pode ser usado no futuro como justificativa para mais perdas de direitos!
Dano às contas públicas III: O governo não apresentou o cálculo do custo de transição para o modelo de Capitalização. Em alguns países esse custo chegou a superar o valor do PIB anual! Como apreciar essa PEC sem o devido conhecimento de seus graves danos às contas públicas?

A PEC 06/2019 segue recomendações de organismos estrangeiros como o FMI e Banco Mundial, segundo os quais seria necessário fazer tal “reforma” para que a economia volte a crescer. Nada mais falso, já que a falta de crescimento da economia não decorre de um suposto excesso de investimentos sociais, mas sim, da falta deles. O desenvolvimento socioeconômico do Brasil está amarrado principalmente devido à atuação do Sistema da Dívida e danos decorrentes da política monetária do Banco Central, como antes mencionado.
A reforma da Previdência é a repetição de modelo indicado pelo BIS (Banco Central dos bancos centrais) em vários países, mas muitos deles já estão voltando atrás.

Por que o Brasil se submete a orientações contrárias aos interesses da sociedade brasileira?
A PEC 6/2019 representa graves danos também aos direitos sociais e destrói o modelo de solidariedade (no qual toda a sociedade contribui e é beneficiária de um conjunto de proteção social que vai muito além da aposentadoria), e visa entregar a nossa Previdência Social para bancos, os únicos que irão ganhar com a administração do regime de “Capitalização”.

Estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), demonstra que dentre 30 países que enveredaram pelo caminho da capitalização, 18 já se arrependeram e voltaram atrás, devido ao elevado custo de administração, riscos do mercado e resultados negativos que prejudicaram as contas públicas, prejudicaram a classe trabalhadora e só beneficiaram bancos que receberam as contribuições, as taxas de administração, e não tiveram que se responsabilizar pelo pagamento de qualquer benefício.

Por que o governo quer impor modelo que está dando errado no mundo todo e só beneficia bancos?

A seguir, um breve resumo dos danos provocados pela PEC 06/2019:
1. Fim da solidariedade: cada trabalhador(a) terá uma conta individual, na qual depositará a contribuição definida, porém, os bancos que irão administrar essas contas não terão obrigação alguma de pagar benefício futuro, que dependerá do comportamento do mercado financeiro e poderá ser ZERO, deixando a classe trabalhadora totalmente sem proteção. O governo também não dá garantia alguma a esse modelo. É cada um por si! Esse modelo foi implantado no Chile e quebrou! Aposentados idosos estão se tornando mendigos e se suicidando!

2. Insustentabilidade: A arrecadação do INSS que hoje compõe as receitas da Seguridade Social deixará de ser paga por aqueles trabalhadores e trabalhadoras que optarem por esse regime de “Capitalização”, comprometendo a sustentabilidade das atuais aposentadorias.

3. Incerteza total: A PEC 06/2019 desconstitucionaliza as regras gerais para futuros servidores e segurados do INSS, e prevê que tais regras serão definidas posteriormente em Lei Complementar (que exige número menor de votos para ser aprovada), e não mais na Constituição.

4. Adiamento da Aposentadoria: No mínimo aos 65 para homens e 62 para as mulheres, mas a PEC está cheia de gatilhos que elevarão essa idade mínima para muito além disso.

5. Exigência de mais tempo de contribuição: No mínimo 20 anos (INSS), inclusive para trabalhadores e trabalhadoras rurais, ou 25 anos (servidores públicos), mas quem não quiser perder muito ao se aposentar terá que contribuir por 40 anos!

6. FIM DA APOSENTADORIA: Essa combinação de idade mínima avançada e contribuição mínima de até 40 anos significa o fim do direito à aposentadoria para aquelas pessoas mais vulneráveis, afetadas pela informalidade e pelo desemprego, e dentre estas sobressaem as mulheres.

7. Regras de Transição inaceitáveis: Exigência de 35/30 anos de contribuição, e mais a Regra 86/96, que sobe até chegar a 105/100 em 2033, ou seja, a soma da idade e do tempo de contribuição do trabalhador terá que dar 105, e da mulher 100!

8. Aumento da Contribuição Previdenciária: A PEC 6/2019 contém gatilhos para permitir o aumento da contribuição previdenciária do regime de servidores públicos, sem limite, o que configura confisco!

9. Fim da multa do FGTS no caso de demissão.

10. Fim das aposentadorias especiais para algumas categorias, como professores(as), bombeiros civis, vigilantes, entre outras que exercem atividades desgastantes e/ou de alto risco. Será exigida idade mínima de 60 anos e tempo de contribuição de 30 anos, para professores de ambos os sexos.

11. Redução para míseros R$ 400,00 no benefício (BPC) aos idosos miseráveis maiores de 60 anos, chegando a um salário mínimo somente a partir dos 70 anos. Adicionalmente, para ter acesso ao benefício, não se poderá ter patrimônio superior a R$ 98 mil, ou seja, basta ter uma pequena casa para perder o benefício.

12. Fim do Abono Salarial para quem ganha mais de 1 salário mínimo mensal. Com a mudança, 91,5% do total de pessoas que hoje podem receber o abono irão perder o benefício.

13. Redução da Aposentadoria por incapacidade permanente para 60%. Esse percentual só será maior para aquele(a) trabalhador(a) que ficou inválido(a) que já tiver mais de 20 anos de contribuição. Nesse caso, eleva-se 2% por ano de contribuição que exceder 20 anos. O benefício somente será de 100% no caso de invalidez causada pelas atividades do trabalho.

14. Redução do valor da Pensões por morte para 60%. Se houver dependentes, acrescenta-se 10% por dependente adicional. O valor será 100% somente no caso de morte causada pelas atividades do trabalho.

15. Redução de até 80% no caso de benefícios acumulados: Se uma pessoa recebe uma aposentadoria e passar a receber uma pensão, por exemplo, ela terá de escolher o benefício de maior valor, e sofrer uma redução de até 80% nos demais.

16. Danos extensivos a Estados e Municípios: As regras estabelecidas valem para todos os entes federados.

Por tudo isso, toda a sociedade deve participar das mobilizações e pressão sobre os parlamentares pela rejeição dessa PEC.
É preciso ter clareza de que neste momento só existem dois lados: o lado dos bancos que irão lucrar muito com essa PEC 6/2019 e o lado da Nação brasileira, que será fortemente sacrificada com essa destruição da Seguridade Social.

Maria Lúcia Fatorelli
Maria Lúcia F. trata no Extra Classe de temas ligados à questão tributária no país. Auditora fiscal aposentada da Receita Federal, a colunista foi presidente do Sindicato Nacional da entidade e é Coordenadora Nacional da Auditoria Cidadã da Dívida desde a fundação do movimento no ano 2001, com diversos livros publicados no país e exterior. Atuou como membro da Comissão de Auditoria Integral da Dívida Pública do Equador, assessora técnica da CPI da Dívida Pública na Câmara dos Deputados e do Comitê da Verdade sobre a Dívida Pública, instituído pelo Parlamento Grego para realizar auditoria da dívida pública da Grécia.



leitura complementar




Nova Vulgata - Bibliorum Sacrorum Editio - Vatican.va



Parábola dos cegos

Livro Mateus, capítulo 15 - Versículos de 1 a 20.

1. Então alguns fariseus e mestres da lei, vindos de Jerusalém, foram a Jesus e perguntaram:
2. “Por que os seus discípulos transgridem a tradição dos líderes religiosos? Pois não lavam as mãos antes de comer!”
3. Respondeu Jesus: “E por que vocês transgridem o mandamento de Deus por causa da tradição de vocês?
4. Pois Deus disse: ‘Honra teu pai e tua mãe’ e ‘Quem amaldiçoar seu pai ou sua mãe terá que ser executado’
5. Mas vocês afirmam que, se alguém disser ao pai ou à mãe: ‘Qualquer ajuda que eu poderia dar já dediquei a Deus como oferta’,
6. não está mais obrigado a sustentar seu pai. Assim, por causa da sua tradição, vocês anulam a palavra de Deus.
7. Hipócritas! Bem profetizou Isaías acerca de vocês, dizendo:
8. “ ‘Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.
9. Em vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens’”.
10. Jesus chamou para junto de si a multidão e disse: “Ouçam e entendam.
11. O que entra pela boca não torna o homem impuro; mas o que sai de sua boca, isto o torna impuro”.
12. Então os discípulos se aproximaram dele e perguntaram: “Sabes que os fariseus ficaram ofendidos quando ouviram isso?”
13. Ele respondeu: “Toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada pelas raízes.
14. Deixem-nos; eles são guias cegos. Se um cego conduzir outro cego, ambos cairão num buraco”.
15. Então Pedro pediu-lhe: “Explica-nos a parábola”.
16. “Será que vocês ainda não conseguem entender?”, perguntou Jesus.
17. “Não percebem que o que entra pela boca vai para o estômago e mais tarde é expelido?
18. Mas as coisas que saem da boca vêm do coração, e são essas que tornam o homem impuro.
19. Pois do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias.
20. Essas coisas tornam o homem impuro; mas o comer sem lavar as mãos não o torna impuro.”

15
1 Tunc accedunt ad Iesum ab Hierosolymis pharisaei et scribae dicentes:
2 “ Quare discipuli tui transgrediuntur traditionem seniorum? Non enim lavant manus suas, cum panem manducant ”.
3 Ipse autem respondens ait illis: “ Quare et vos transgredimini mandatum Dei propter traditionem vestram?
4 Nam Deus dixit: "Honora patrem tuum et matrem" et: "Qui maledixerit patri vel matri, morte moriatur".
5 Vos autem dicitis: “Quicumque dixerit patri vel matri: Munus est, quodcumque ex me profuerit,
6 non honorificabit patrem suum”; et irritum fecistis verbum Dei propter traditionem vestram.
7 Hypocritae! Bene prophetavit de vobis Isaias dicens:
8 "Populus hic labiis me honorat,
cor autem eorum longe est a me;
9 sine causa autem colunt me
docentes doctrinas mandata homi num" ”.
10 Et convocata ad se turba, dixit eis: “ Audite et intellegite:
11 Non quod intrat in os, coinquinat hominem; sed quod procedit ex ore, hoc coinquinat hominem! ”.
12 Tunc accedentes discipuli dicunt ei: “ Scis quia pharisaei, audito verbo, scandalizati sunt? ”.
13 At ille respondens ait: “ Omnis plantatio, quam non plantavit Pater meus caelestis, eradicabitur.
14 Sinite illos: caeci sunt, duces caecorum. Caecus autem si caeco ducatum praestet, ambo in foveam cadent ”.
15 Respondens autem Petrus dixit ei: “ Edissere nobis parabolam istam ”.
16 At ille dixit: “ Adhuc et vos sine intellectu estis?
17 Non intellegitis quia omne quod in os intrat, in ventrem vadit et in secessum emittitur?
18 Quae autem procedunt de ore, de corde exeunt, et ea coinquinant hominem.
19 De corde enim exeunt cogitationes malae, homicidia, adulteria, fornicationes, furta, falsa testimonia, blasphemiae.
20 Haec sunt, quae coinquinant hominem; non lotis autem manibus manducare non coinquinat hominem ”.


(Vulgata latina, Evangelium secundum Matthaeum, 15:1-20)