INÍCIO

21 setembro 2015

HAROLDO DE CAMPOS - CANTICUM CANTICORUM



CANTICUM CANTICORUM 


HAROLDO DE CAMPOS


(Texto de Aroldo de Campos, publicado na biblioteca da Folha). 

Desses versos, ato contínuo, migrei para o "Céu Quarto" do "Paraíso" (12, 139-141), onde são louvados Rábano Mauro, 780-ca.856 ("Rabano è qui"/ "Rábano está aqui"), e Joaquim da Fiore, 1130-1210 ("e lucemi dal lato/ il calavrese abate Giovecchino/ di spirito profetico dotato" - "e ao meu lado reluz/ o calábrico Abade Giovacchino/ de espírito profético dotado). O primeiro, Abade de Fulda, ficou célebre por seus "poemas figurados" ("De laudibus sanctae Crucis"), poemas "cruciformes", em cores, com figuras superpostas a letras (há belos exemplos desses "carmina figurata" no catálogo "Poésure et Peintrie", da soberba exposição de poesia visual realizada em Marselha, em 1993, no Centre da la Vieille Charité; um ensaio do saudoso Paul Zumthor, publicado no nº 4 da revista "Change", 1969, "Carmina Figurata: Une Mode Carolingienne" é a melhor introdução sobre o assunto). O segundo é famoso por suas obras teológico-visionárias, entre as quais o "Liber Figurarum", no qual representa a "Árvore da História Humana". Na concepção joaquinita, a cada uma das pessoas da Santíssima Trindade correspondia uma época histórica: a Idade do Pai (de Adão à vinda de Cristo); a do Filho (que o monge calabrês imaginava prestes a se concluir nos anos em que escrevia); a do Espírito Santo, ou Idade da Concórdia, a era futura da Revelação da Verdade e da Paz escatológica.

Desse "Libro delle Figure", possuo uma preciosa edição, em dois volumes, presente magnífico do engenheiro-poeta Erthos Albino de Sousa. Leone Tondelli, organizador da publicação (Società Editrice Internazionale, Turim, 1953), é também autor de um erudito ensaio que constitui o volume explicativo da obra. Nele, examina as origens do "Liber Figurarum" e a sua difusão medieval até Dante. O poeta da "Commedia" exibe vários traços da recepção das idéias do visionário teólogo, cujo radicalismo "trinitarista"foi rejeitado pelo Concílio de Latrão (1215), mas cuja influência pervive, de modo mitigado, em São Boaventura, "Doctor Seraphicus", máximo expoente da chamada "escola franciscana", que introduz Giovacchino a Dante no "Paraíso" (12, 127-141).

Um desses traços joaquinitas é a famosa transformação em água do último "M" da inscrição "Diligite justitiam/ qui judicatis terram" ("Amai a justiça, ó vós que julgais/governais a terra). Essa metamorfose é operada diante dos olhos do magno poeta pela circunvolução das almas dos justos, como se fosse "um grandioso e luminoso quadro ginástico" (Tondelli). Para formar o pescoço ("collo") dessa Águia Imperial, gótico-heráldica (o "M" aquilino é também uma inicial simbólica da Monarquia terrena), desenhada pelas "criaturas santas envoltas em luz" ("dentro ai lumi sante creature, "Paraíso", 13, 76-114), as "beatitudes se deixam "enliriar, ou seja, "amoldar em forma de lírio", "ingigliarsi", como diz Dante, forjando um de seus audaciosos neologismos verbais, enriquecedores do tesouro léxico italiano.

Pois bem, essa transfiguração, que se processa nos versos dantescos, teria sido diretamente inspirada num códice do "Liber Figurarum" pertencente ao Seminário Bispal Urbano de Reggio Emilia (ou noutro, similar, hoje na biblioteca do Corpus Christi College, da Universidade de Oxford). Esse códice contém magníficas figuras e gráficos em cores. As tábuas que o compõem são ricamente ornadas com técnicas de iluminura. As de nºs 5 e 6, por exemplo, representam "águias enliriadas" ou "formadas por lírios", como o "M" metamórfico dantesco. Pois, "Dante não copia a natureza, mas uma imagem estilizada; ou, sem mais: traduz no verso a figura do códice iluminado (Tondelli).


De Kircher a Cortázar

O "Mutus Liber" mostrou-se-me filiável, nesse sobrevôo aventuroso de minha memória icônica, a uma tradição ilustre de escrita pictural, da qual o "Liber Figurarum" joaquinita é apenas um exemplo. Outros muitos se poderiam mencionar, como "Oedipus Aegyptiacus" (1652-1654), do jesuíta Athanasius Kircher (1602-1680), com seus diagramas místicos, suas cartas herméticas e suas pranchas alegóricas, obra variamente abeberada "na sabedoria egípcia, na teologia fenícia, na astrologia caldéia, na cabala hebraica, na magia persa, na matemática pitagórica, na teosofia grega, na alquimia árabe e na filologia latina (Joscely Godwin, "Athanasius Kircher: A Renaissance Man and the Quest for Lost Knowledge", 1979). No cólofon desse tratado, a figura de Harpócrates (versão grega do Horus infantil, o deus-sol egípcio) aparece com um dedo sobre os lábios, como a pedir silêncio aos que fossem capazes de entender sua sigilosa mensagem.

O pensamento de Kircher, como aponta Octavio Paz ("Sor Juana Inés de la Cruz o Las Trampas de la Fe", 1982), exerceu, por seu turno, influência sobre Sor Juana, a monja-poeta mexicana (1651-1695). Em especial sobre "Primero Sueño", poema filosófico-alegórico, onde, entre outras imagens emblemáticas, ocorre a de duas pirâmides antagônicas: uma de sombra (representando o mundo sublunar), outra de luz (representando a região celeste). No frontispício da "Sphynx Mystagoga", de Kircher, vê-se uma figuração "barroca" das pirâmides do Egito, na expressão de J. Godwin). O "Primeiro Sueño" parece inspirar-se na "viagem astronômica" do jesuíta alemão (Karl Vossler "via Paz"), ou seja, no "Itinerarium Extaticum" ou "Inter "(Roma, 1656; Würzburg, 1660 e 1671).

Sor Juana alegoriza no poema a ascenção de alma à "esfera superior", onde é ofuscada por uma visão luminosa; enceguecida, não consegue mais se elevar e o corpo desperta. Isso --explica Paz--, durante o sono (e em sonho), ou seja, num "estado próximo da morte", equivalente à "morte provisória do corpo e à liberação também provisória da alma". Sem temer as censuras de "anacronismo" dos custódios estritos da "leitura de época", limitada ao horizonte de recepção do público do tempo, Octavio Paz vê no magno poema de Sor Juana, para além dos traços estilísticos de Gôngora, uma antecipação do "Coup de Dés" (1897), de Mallarmé, e do "Altazor" (1931), aeroépica do chileno Vicente Huidobro.

A grande obra

Aliás, também na imaginação de outros escritores latino-americanos inscreve-se a miragem mallarmaica da Grande Obra --"L'Oeuvre", da qual o "Lance de Dados" seria apenas um esboço: algo como uma Enciclopédia do Verbo, ao mesmo tempo o espelho do mundo e a sua decifração, manipulada combinatoriamente por um poeta-"operador", que tem traços do Adepto alquímico (ver meu ensaio "A Arte no Horizonte do Provável", no livro do mesmo nome, em especial as referências a J. Scherer, "Le Livre de Mallarmé", 1957). Refiro-me agora a Morelli, o Mallarmé cortazariano em "Rayuela" (1963): "Mi libro se puede leer como a uno le dé la gana. 'Liber Fulguralis', hojas mánticas...". Ou então a Oppiano Licario e à sua "Súmula", Nunca Infusa, de Excepciones Morfológicas", "curso délfico" que permitirá aos discípulos (Cemi e Fronesis) "interpretar a significação do tempo, ou seja, a penetração tão lenta como fulgurante do homem na imagem".

Estou-me reportando a "Paradiso"(1966), do cubano Lezama Lima, e ao seu complemento inacabado, "Oppiano Licario" (1977). O "dom icárico", a única obra de Oppiano, a "Súmula, um manuscrito de cerca de 200 páginas, tendo no centro um poema de oito ou nove páginas, era "o Livro, o Espelho, a Chave". Guardado numa caixa chinesa, acaba sendo destruído por um cão, que, ao tentar refugiar-se de uma enchente, salta na mesa onde está a caixa, abre-a a dentadas e dispersa as folhas na água. Resta apenas o poema. Mas os discípulos devem refazer a festa licárica e reconstruir o "Livro Sagrado", alcançar a união no "Eros estelar", a iluminação. Testamento de Lezama, morto em 1976, seu inconcluso "Oppiano Licario", como a "Súmula Nunca Infusa", que, ao se perder, desemboca no "vazio primordial, se sacraliza", termina em aberto, metáfora enigmática de si mesmo...

Aurora Consurgens

Venho seguindo até aqui, nessa minha leitura personalíssima do "Mutus Liber", uma indicação alternativa de seu erudito comentador, J.J. de Carvalho: leio esse livro ("história do Ser Só que finalmente se encontra com Aquilo Que É Só", ou, ainda, "história da conjunção, da caminhada a dois em busca da integração total"), como uma "obra de ficção". Uma obra intrigante, cujo "anônimo autor buscou reconciliar a produção de significantes estéticos --expressões, portanto, do exercício da livre imaginação-- com símbolos arcanos, inevitavelmente submetidos ao controle de uma tradição iniciática". No caso, é a vertente estética, sobretudo, a que me fala ao olho prazeroso da mente.


E daqui volto ao ponto de partida. Marie-Louise von Franz, que estudou e traduziu o texto alquímico "Aurora Consurgens", considera-o "uma experiência religiosa imediata do inconsciente". Parece-lhe que o enigmático escrito, gravitando em torno da morte, registra, antes de mais nada, o sonho de um moribundo, no qual o passamento, o transe final, é descrito como um casamento místico. Adotando o pressuposto da inadmissibilidade de sua atribuição a São Tomás de Aquino, acaba, no entanto, por referir e comentar longamente uma lenda biográfica, segundo a qual o teólogo, pouco antes de morrer, teria tido crises místicas e visionárias, testemunhadas por seu secretário, Reginaldo de Piperno. Depois duma delas, teria declarado que não podia prosseguir escrevendo, já que seus escritos lhe pareciam "palha" (palea sunt).


Hóspede, pouco tempo mais tarde, dos monges do convento de Santa Maria di Fossa Nuova, o Aquinata, a pedido deles, ter-lhes-ia ministrado um seminário sobre o "Cântico dos Cânticos. "No meio da aula, quando interpretava as palavras 'Vem, meu bem-amado, saiamos para o campo!' ('Veni, dilecte mi, egrediamus in agrum!'), ele morreu". Para M.L. von Franz, o texto "Aurora Consurgens" --"um mosaico, um quebra-cabeças, de citações extraídas da 'Bíblia' e de alguns dos primeiros escritos alquímicos-- seria, em substância, uma paráfrase do "Canticum Canticorum", por muitos séculos atribuído a Salomão, o Rei-Sábio (hoje essa "ficção de autoria" está desfeita; o "Shir Hashshirim", escrito em hebraico tardio por um anônimo, não pode remontar ao reinado salomônico, devendo ser datado de algum momento entre os séculos 5 e 6 antes de nossa era).


E quanto ao projeto de Umberto Eco? Não sei, sinceramente, que fim levou. Há cerca de três anos, em Milão, fiz-lhe uma indagação a esse respeito. Respondeu-me, vagamente, que, dos destinatários de sua carta-convite, pouquíssimos se sentiram estimulados a prestar-lhe colaboração; só a minha lhe chegara com presteza. Mudou de assunto, evasivo. Tenho-me perguntado, desde então, se o amigo Umberto não estará, secretamente, com base nessa "Aurora Consurgente", urdindo uma nova teia fabular, para um outro aliciante e engenhoso relato romanesco, da família de "O Nome da Rosa", "O Pêndulo de Foucault" ou "A Ilha do Dia Anterior". Neste último, aliás, não deixou expresso, em cólofon, que "não se pode escrever senão fazendo um palimpsesto de um manuscrito encontrado" (cito-o no traslado de seu prestimoso turgimão brasileiro, Marco Lucchesi)? O tempo o dirá.



Haroldo de Campos é poeta, ensaísta e tradutor de poesia. 






Fonte




























A ARTE DE COOPERAR

ARTE DE COOPERAR 

Antonio Paim MSc BSc 
(21/IX/2015)

Hoje não há mais cooperação entre quase ninguém... 
muito menos entre os artistas... 
O que existe são indivíduos isolados e um deserto entre artistas ilhas. 
Há algum tempo atrás (até digamos a década de 1980) existia um grande e continuo diálogo entre os artistas. Existia até cooperação na execução das obras. Ninguém sentia-se invadido ou melindrado ou desautorizado por um amigo fazer uma sugestão ou auxiliar na execução de uma obra. 
Neste diálogo entre duas mentes criativas tudo era permito discutir e investigar. 
Discutia-se sobre tudo do mundo, principalmente sobre a arte, seu papel e especialmente sobre o trabalho de cada um. 
Esta época foi muito importante para a produção de uma arte com sintomas universais e universalizante. 
Essas discussões desembocaram na época dos curadores, onde são eles que contam histórias a partir de acervos que eles investigam, discutem e mostram, no capitalismo extremo (neoliberalismo) o curador tem um papel tão ou mais importante do que o próprio artista. 
O papel do artista ficou relegado ao de mero produtor de algo, de um objeto, um bem. 
Hoje vemos a cooptação da arte pelas grandes empresas e empresários milionários. 
Nós os artistas cedemos nossa liberdade de pensar o mudo coletivamente a outros, fazendo arte disfarçada com um arremedo de estética universal. A arte assim, perde seu papel de desestabilizar e abrir uma porta para a discussão. 
Pensar é difícil, e muitas vezes revela o sofrimento que vivemos. Muitas vezes ou quase sempre o ato de pensar criticamente o mundo é bastante complexo e difícil, requerendo muitas mentes para abarcar essa construção do real. E hoje me pergunto: onde estão os artistas que cooperam na investigação do real? Onde estão as obras que são sementes a germinar em nossa memória? 
Não sei. Não estão…
Nada justifica essa perda de momentos de aprendizado e aprofundamento em torno do objeto e da produção artística por parte dos artistas. 
É como se tivéssemos assinado uma carta, não de alforria mas de escravidão, tendo como testemunho e fim último o mercado. E não mais todas as mentes vibrantes dos expectadores e fruidores da obra de arte. A arte tornou-se um bem para poucos, para aqueles endinheirados. 
O que devemos fazer para retomar o campo das discussões em torno do fazer artístico? 
O que se espera de animais racionais, políticos, falantes é a discussão com os pares. 
Organizar pequenos grupos afins que queiram voltar a discutir a arte e que desenvolvem-se como indivíduos. 
Discussões esteticamente guiadas e criticamente embasadas. 
Fomentar grupos de artistas pensantes que queiram aprender a ler os clássicos e a elucidar os conceitos, investigar a realidade social na qual estamos inseridos e produzir obras que a fustigue. 
Essa atitude humilde de que não somos donos da verdade, de que o outro pode contribuir para o enriquecimento da ideia inicial de uma obra, e modificar a proposta estética do trabalho. 
Cooperar junto num mesmo atelier enriqueceria o significado das obras de arte e seria uma luz no firmamento a apontar a direção de um novo tempo onde a arte vale a pena pelo quanto de conhecimento que ela contem. Mas temos q ter em mente que a arte é sempre desestabilizadora, contestatória, revolucionária…



17 setembro 2015

IMAGEM DO PRESENTE SE TORNANDO PASSADO


Eis-me aqui



Inexpugnável, terrível e sublime matéria-onipresente. 

Quero deixar aqui, ante vós, em teu altar, meu quinhão de matéria.
Gostei muito de usá-la !
Fui há muitos lugares que queria que todos os humanos vissem... 
Lugares simples que supunha universais. 
Senti todos os sentimentos, e os que mais deixaram marcas em minha memória foram os sentimentos amorosos e afetivos, abstratos em essência. 
Dei graças por todos os 18.250 nasceres do sol 
E todos os dias encontrei vontade para acordar e sair da cama. 
Fiz muitas pessoas sorrirem e acredito que nunca tenha feito ninguém chorar por algum ato ou mau gesto meu, embora eu tenha chorado por muitas pessoas as quais amei e não fui correspondido. 
Mas isso foram as flores da vida. 
Embora eu tenha visto um deserto durante toda vida eu me esforcei até meu último átomo para criar nesse deserto um oásis, um campo vicejante com flores perfumadas e árvores verdes frondosas, insetos, aranhas, tatuzinhos-de-jardim, formigas, abelhas atarefadas, borboletas. 

Quero deixar aqui essa matéria, que alguém, algum dia irá usar. 
Quero entregar essa matéria que ascendeu muitas fogueiras no passado, vendo as fagulhas subirem para o infinito em noites primaveris. 
Fogueiras que iluminaram e aqueceram. 
Fogueiras geradoras de proximidades. 
Matéria que apertou muitas mãos. 
Que ajoelhou, que meditou, que chorou, que perdeu, que encontrou, e perdeu para sempre, restando só a lembrança daqueles momentos...
Entrego essa matéria, para estar no teu seio e nunca mais partir. 
Para todo sempre estarei colado nesse torrão cujo orbe eu tanto amei. 
Estarei eternamente vendo o desenrolar da nossa história como matéria física e biológica. 

Asseguro que nenhuma outra porção física deste mundo sentiu o perfume dos lírios e de todas as outras flores na primavera e ficou tão feliz por poder ser um com o próprio perfume que também é feito de átomos. Ou que encontrou cores em todos os olhares. 
Muitas  vezes o meu próprio eu se perdeu nas nuances eletromagnéticas dos entes. 
Entrego essa matéria que respirou, andou, correu, nadou, desejou, estudou, que almejou amor, e que conheceu o amor como o meu mais estimado filósofo, que na origem mesmo do "nosso" pensamento disse "Physis kryptesthai philein" (φύςις κρύπτεσθαι φιλει): [o] "surgimento favorece o encobrimento" embora Platão tenha separado "ser" e "aparência", para Heráclito "aparecer" é a forma constitutiva da presença, é o modo como o ser se dá. 
Ele se dá no encobrimento. 
No mesmo dia de minha concepção eu adentrei ao encobrimento, entrando e estando para sempre na physis que "é".
Aqui está minha parte matéria que adentra ao encobrimento, como o sol que declina (se põe) no mar ou atrás das montanhas ou no horizonte sem fim. 
Como dizem as equações quânticas antes do surgimento da matéria não existia nem mesmo o tempo e por isso não haveria tempo nem espaço para a ação de "entes". 
Logo, eu entrego aqui a minha matéria de volta ao universo. 
Agradecido por cada momento que vivi. 
Entrego este "quanta, esse mol" de matéria sei que minhas irmãs as bactérias, que estudei e amei tão profundamente, serão as primeiras, fico feliz por entregar a elas, esta minúscula porção de matéria, já usada a elas que foram as primeiras a chegar nesta Terra. 
Entregar minha matéria ao fogo que foi o primeiro a existir. 
Ele mesmo dando a luz a novas formas de existência e servindo de modelo físico e simbólico para nossa subsistência na terra, claridade razão, entendimento. 
Entrego ao fogo que cria destruindo e destrói criando. 
Aqui está a porção que eu usei todos esses dias, eis aqui o que restou. 
(17/IX/2015)

07 setembro 2015

IMAGEM COMO PASSADO


A IMAGEM COMO PASSADO

A IMAGEM FOI
ELA NÃO É MAIS
ELA É UM VESTÍGIO
UM RESTO
DE LUZ CRISTALIZADA
UM DESEJO REALIZADO
UM VONTADE DE DURAÇÃO 
NO TEMPO E NO ESPAÇO.
A IMAGEM FOI
O QUE EXISTIA E NÃO EXISTE MAIS
SE TORNOU UM ISTO OU UM ISSO. 
UMA COISA, UM OBJETO.
UMA LEMBRANÇA SEM DESTINATÁRIO
UM PORTO DESERTO DO SER.
A LEMBRANÇA DE UMA SOMBRA. 










(2012)




PEQUENA E RESUMIDA BIOGRAFIA

PEQUENA E RESUMIDA BIOGRAFIA

Ele me contou sua história e eu escrevi como havia me contado. Ele disse que eu seria o responsável por escrever a única biografia autorizada a respeito de dele. Eu não sei mais onde ele anda hoje. Mas como se passaram mais de 40 anos resolvi escrever essa linda história. 

(...)
Esta é a única e resumida biografia que escreverei
Sei que não durarei muito tempo.
Essa vida é curta para todos os sonhos, desejos e aspirações.
Nasci no mês de junho no inverno de 1965. Não lembro muito dos meus primeiros anos, apenas alguns fatos que mais parecem retalhos unidos a um longo tecido branco. O que forma uma colcha com umas manchas, um deserto com alguns oásis distantes.

Mais parece um palimpsesto que foi raspado e sobre o que havia antes fora reescrito e desenhado uma outra história tentando corrigir a antiga.

Logo após meu nascimento fui para casa com meus pais. Minha avó paterna e meu pai sempre moraram em uma fazenda; e meus avós maternos sempre trabalharam para outros nunca possuindo a terra onde moravam. 

Lembro que aos dois anos brincava entre as folhas de uma alameda que havia em frente de casa formada por gigantescas árvores de plátanos.
Lindos e perfumados, sua sombra e seus galhos era tudo que eu conhecia do mundo até então. 

Do outro lado da estrada havia uma imensa encerra (mangueira) para o gado, construída de grandes tábua já desgastadas pelo tempo. Eram cinzas pelo efeito do tempo e sobre elas cresciam liquens verde acinzentados. 

Aos três anos andava na margem do lago que havia no sítio e lá tomei banho pelado com os guris que trabalhavam na fazenda com meu pai. Lembro nitidamente que havia um trapiche de madeira e a cor de chá da água calma e profunda parecia me ameacar, me convidava para mergulhar, me entregar a ela, aquele corpo misterioso, um abismo. 

Lá os caras ficavam deitados nus ao sol da tarde no verão. Essa foi a imagem mais fortemente gravada em minha memória a do corpo molhado cheio de gotas e dos músculos ao sol da tarde que terminava. A imagem indelével da beleza do corpo masculino. Havia um grande bosque de eucaliptus ao norte do lago e antes uma fileira de grandes moitas de bambus. Eu via os rapazes indo para o meio dos bambus tirarem uma soneca, se escondendo do sol e do serviço.

Corri entre os infindáveis mal-me-queres (flor-das-almas) nas coxilhas, nas primaveras sempre temendo que de uma hora para outra pudesse aparecer um touro furioso, e ai sim eu teria que correr para valer e me atirar por debaixo da cerca de arame farpado que separavam o campo da estrada. 

Aos cinco anos explorava um riacho que passava calmo, pelo vale, onde ficava minha casa, buscando conchas de caramujos, insetos e rochas. Eu seguia o riacho até que minha casa ficasse pequena e desaparecesse da vista. Ai eu ficava com medo e voltava.

Sentia medo por estar sozinho e voltava correndo, antes que minha mãe me chamasse, pois se isso acontecesse era castigo na certa. 

Meu mundo sempre foi feito de silêncio e pensamento. Uma solidão no mundo verde e na floresta.

Quando chegou a idade de ir para o colégio tive muito medo das outras pessoas, eu era tido como estranho por meus colegas por não falar muito; mas fiz alguns bons amigos nessa primeira experiência escolar. 

Brincava mais com as meninas porque elas me convidavam e conversavam comigo e a maioria dos outros meninos só tentavam me espancar. Embora, sempre que eu revidasse eu vencesse a luta, acabava usando demasiada força, o que só os irritava e se juntavam em maior número para me bater. 

Costumávamos ir, meu irmão e eu, em grupo com outros meninos, a um rio próximo aos trilhos do trem na estrada para a Cidade-dos-meninos, um colégio-internato que ficava nas montanhas, e sempre acabava sozinho pois sempre havia outros que tentavam me afogar ou me bater. 

Um dia tive que correr muito para não ser derrubado dentro da parte mais profunda, até que não ouvi mais as vozes dos meus perseguidores, que me chamavam de "menininha" pelos meus cabelos compridos.

Me escondi em um tronco e fiquei ali, brincando sozinho na areia, e desde então não mais convidei nem fui com grupos tomar banho de rio.

Sentado, ficava observando o rio construir seu caminho meandrando entre pedras e areia e o barranco colorido dos estratos de solo e rochas. Admirava espantado como a água esculpia as rochas e construía as curvas e meandros ora violenta em alguns locais por entre pedras, ora calma e caudalosa em outros, espraiando-se em areias brancas.

Decidi então desenhar os riachos e afluentes desse rio que eu tanto gostava de tomar banho. 

Fiz um cadernos de folhas brancas, peguei caneta, lápis e borracha, coloquei tudo numa mochila improvisada com um saco de pano, cortei um cajado e todo final de semana lá estava eu explorando e desenhando o rio, as flores as rochas, as árvores. 

Assim, o tempo foi passando, longe das pessoas com quem eu gostaria de estar. Mas me resignava pois naturalizei que os outros eram assim, e a melhor forma era manter distância.

Sempre soube que queria ser professor e ensinar aos outros coisas boas e importantes e lindas e edificantes que tornassem a vida melhor.

Lembro que tive um primeiro grande amor que por ela estar em outro estágio de desenvolvimento não me deu muita atenção, o que me levou a ficar pela primeira vez com um amigo da quinta série. 

Essa foi minha primeira paixão homoafetiva, hoje penso. Mas nos separamos quando mudei de colégio. Tive outros amores sem o envolvimento do outro (eram somente amores platônicos de minha parte, eu era muito tímido para falar e o mundo muito preconceituoso para aceitar).

Eu passei para o segundo grau (atual ensino médio) e fui fazer o curso técnico da universidade, na Escola Politécnica. Lá conheci outros dois grandes amores (não importa se somente eu sentia o amor) eles eram meus amigos e isso já me deixava muito feliz. 

Estudava com meu amigo do EM no porão da casa e sempre rolava uma aproximação física, e descobrimentos...

Sempre quis revelar o que para mim era um grande segredo, um segredo mortal pois “pecaminoso” e destrutivo, mas toda vez esbarrei nos preconceitos dos outros.

Meus tios e até meus pais diziam que seria humilhante para eles terem filhos "diferentes". Eles nem ousavam dizer “a” palavra pejorativa.

Então, a única saída era o silêncio. Um silêncio sem fim e amedrontador. Um silêncio duradouro e frustrante.

Com isto, nunca tive o benefício de trocar carinhos com outra pessoa de forma saudável nem construí relações afetivas por medo. 
Medo da condenação, medo de apontarem o dedo em minha direção e me classificarem com nomes terríveis, medo de ser espancado. 

Somente depois da faculdade fui encontrar alguém interessante que treinava comigo na academia. Nos tornamos grandes amigos, amigos inseparáveis por um bom tempo, ele tinha 20 anos e eu 25. Era calmo, carinhoso, amigo antes de tudo. 

Aqueles foram os mais luminosos anos da minha vida. Andávamos de bike juntos, acampávamos, viajávamos para a praia... Dormíamos juntos, ríamos juntos. Por anos e anos houve flores do campo e rosas, e caminhos nas montanhas.  

Mas ele começou a fumar e a usar outras drogas, com seus amigos do quartel. Hábitos que eu não tinha e não queria nem mesmo experimentar, não tinha vontade mesmo. 

Por fim, depois de uns seis ou sete anos nos separamos. Sofri muito, chorei como nunca antes em toda minha vida... Nunca mais o vi desde então. 

Ainda sonho com ele, desejo vê-lo outra vez, mas é impossível. Conheci alguns outros mas nunca foi sério o suficiente.

Desde então, eu me apaixonei pela ideia que eu tinha do outro... até que nunca mais sai para encontrar ninguém. Há dez anos vivo sozinho. Nunca mais beijei ninguém, nunca mais toquei em ninguém. 

Sou como aquela mosca da fábula de Esôpo que diz que tendo já comido, já bebido e já tomado banho que importava então a morte.

Agora a minha única grande espera é o dia final.
Parece estranho que minha vida termine apenas nesse lugar escuro e silencioso, frio e distante, nesse lugar horrível, mas por muitos anos houve sorriso e felicidade, houve abraços e desejo e eu não tive que prestar contas a ninguém nem procurar ninguém que me completasse, pois ali, do meu lado, estava alguém com quem eu desejara passar o resto da vida.

Desde então eu venho elaborando a ideia de que morrer é mais agradável do que essa dor da perda, essa dor da solidão, essa dor que não passa.

Na morte meus compostos orgânicos se misturarão com outros e talvez nesse outro lugar encontrem a felicidade que busquei.

A verdade é que o amor para mim se foi. Passou como passam as flores-das-almas em novembro, passou como passam as nuvem num céu num dia de vento. Passou deixando consternados todos os meus pensamentos.

Ele se foi na ponta dos pés como veio, numa tarde de sol no verão. Sentou e a margem do lago me convidou para vermos juntos o por do sol. Anoiteceu.
Ele se foi e me deixou sozinho.

E eu não sei o que fazer. Ele levou consigo o meu amor, levou junto a alegria de viver que uma vez eu conheci. Sinto-me vazio da vida que conheci, da vida que experimentei.

Terá nossa história individual algum significado?
Seguirá algum caminho, há nisso tudo um padrão?
É triste se constatar que sofreremos no fim; que no fim estaremos tão sozinhos como nunca antes estivemos.

Não tenho como fazer você acreditar em minhas palavras, uma vez que tudo pode ter se passado em minha mente doentia.
Me sinto desolado demais. Entretanto, a vida, eu aprendi, é assim mesmo.

Estar perto do fim, permite-me senti-lo aproximando-se como feito fosse de matéria escura ou um buraco negro... não se pode percebê-los a menos que já se esteja orbitando esse "dies irae", esse ponto ômega; o principium et finis, ou initium et finis, ou primus et novissimus (o último momento, o primeiro e único).

Todavia, não diminui a solidão nem o desejo de sentir novamente aquele toque que legitima a existência.

Quero, então, quando chegar o fim, reter esses momentos felizes que vivi, e que no último segundo da minha vida, eles invadam minha memória, então, fecharei meus olhos, meu coração baterá uma última vez e dormirei nessas lembranças feliz para sempre.

(...) 
Ele me contou tudo isso numa tarde de sábado, sentado ao lado da fogueira debaixo das estrelas do final do verão. A calma invadia até os átomos e tudo parecia ter se petrificado no ar. somente faíscas-pirilampos, atravessavam o espaço lentos e sumiam na escuridão absoluta para ressurgir em outro ponto e iluminas a vegetação por onde passavam...

Anotei no meu diário, a lápis, rapidamente, enquanto ele falava, e suas longas pausas pareciam trazer as imagens para perto na escuridão da floresta. 

(AP 6/IX/2015)



CUT-PAPER MAESTRO RODRIGUEZ AT KAI LIN ART

By Felícia Feaster 
Aug, 25, 2015

Bottom line: An Atlanta artist devoted to cut-paper constructions indulges in a more formal experiment, absent of a bit of her usual free-form fun.

Pink has certain connotations: with unabashed girliness, Barbie, Disney princesses and all things sweet and feminine.

Article from internet (@kailinart)

Artist Lucha Rodriguez tends to give that sugary hue a more rock ‘n’ roll edge in her unique cut-paper collages “Opposites” on view at the Westside gallery Kai Lin Art.

Rodriguez has carved out her own niche in the Atlanta art scene by working consistently with pink (fun fact: the artist also dresses in pink every day and rides a pink bicycle) and by creating her complex artworks, suggesting some hybrid of drawing and sculpture, out of cut paper assembled into captivating, intricate designs.

The Venezuelan-born Rodriguez has described how informative her childhood growing up as the daughter of a surgeon was on her artwork. Rodriguez’s elaborate cut-paper constructions often recall the inner workings of the body: intestines, organs, lung tissue or loop-de-loops of veins and arteries, forms inspired by the books of medical illustrations that fascinated her as a child.

For this nicely concise show with a more reined-in, serious tone than her previous free-form and whimsical work, Rodriguez works in a neon shade of pink with the comparable intensity of a fluorescent orange traffic cone. Her color palette is purposefully pared back, consisting of just that flaming ’80s-fashion shade of her signature pink, an asphalt black and pure white.

Out of those three shades Rodriguez creates her own visual language with very different effects. The artist’s ambition, she says in an accompanying statement, is to show how dramatically perception can change when those color combinations are manipulated.

In “Opposites,” Rodriguez works a common motif, altering foreground and background color. In the foreground are one of Rodriguez’s intricate cut-paper forms, a kind of lacy spaghetti of intersecting strips of paper formed into a loose ball. Those cut-paper creations can suggest a massed clump of energy, which Rodriguez places against her contrasting paper backgrounds: pink against white, white against pink, black against pink, pink against black and so on.

Sometimes she divides her background into two yin and yang spheres of hot pink and white, with a cut-paper clot of those same two colors floating on the surface. At other times, her cluster of cut paper weaves tendrils of black and white cut paper against a backdrop of pink, black and white wallpaper-style stripes.

Those endless manipulations of foreground and background color, and pattern are part of the formal experiment that defines “Opposites.” True to Rodriguez’s objective, to alter our perception by changing up pattern and color, different effects are created through different combinations. Placing one of those clumps of white paper tendrils against a white background creates a soothing, quiet mood. By contrast, a black cut-paper mass placed against a white background jumps from the paper’s surface, alive and slightly malevolent, the cut paper edges suddenly reminiscent of barbed wire.

“Opposites” is the kind of formal exercise eggheady artists love: take a concept that feels limited in its scope, three colors, multiple ways, and show its perception-expanding potential. While Rodriguez doesn’t necessarily blow our minds with her fugue on pink, black, white and cut paper, she certainly offers an entertaining tour of how artists can alter how we see the world.


Fonte
























30 agosto 2015

A IMAGEM DO FEMININO

A IMAGEM DO FEMININO 

(Um vídeo circula na internet há algum tempo e desde que vi a primeira vez há alguns anos atrás uma ideia cruzou pela minha cabeça: e se essas imagem femininas são imagens do desejo masculino? Então decidi escrever uma breve e pequena refletindo sobre essa perspectiva).

O vídeo apesar de belo em todos os aspectos (animação, direção, escolha dos retratos música etc) mostra mais como a mulher tem sido vista por artistas homens (pintores) desde o renascimento até a arte moderna. Vejo rostos clássicos idealizados pela libido masculina, mulheres com olhar distante, ora libidinosos ora santo envolta em uma aura de graça e pureza imaculada. Usando flores nos cabelos, que são lindos, ora cacheados, ora lisos, com taras e coroas ou lenços ou véus que remetem ao céu e a distâncias empíreas celestiais. Vestidas de graça e leveza, deusas distantes da humana matéria. No entanto repousam bem no fundo de nossa imaginação ocidental greco-romana-judaico-cristã. Entronizaras em um pedestal ou sagradas como uma pedra de Ara que não se pode tocar. 
São lindas? Sim, muito lindas! Sua beleza só pode ser comparada à sua distância da realidade. 
A mulher é reduzida apenas a um aspecto de seu ser: a sua beleza (a falta dela evita ser retratada). 
E sua personalidade? Seus anseios? Sua realidade?  Sua humanidade? 
São mais de 600 anos de representação feminina pelo sujeito masculino. Depois de Leonardo nada de novo apareceu, mesmo os impressionistas que derrubaram a arte renascentista, acabaram usando os cânones antigos para representar a beleza feminina. 
Poderíamos pensar que o cubismo em suas multifacetadas, multi-angulares perspectivas, bidimensionalmente representada da humanidade, fugiria dessa tradição. Mas tudo que se vê é a mudança de posição do olho. Ou melhor é a onipresença equiângular instantânea do ponto de vista masculino de um sujeito objetificado. A visão então permanece em sua tentação solipsista que elegeu uma forma elevando-a a cânone único de representação da figura feminina. 
Nem mesmo com a invenção da fotografia, (que é a captura das aparências de uma "coisa" por uma máquina) com seu viés de registro, de índice, de impressão,  foi capaz de sustentar uma visão honesta do feminino ser. Logo voltamos para aquela via artificial e convencional que através de softwares editores de imagens nos dão a visão idealista do feminino. Uma visão agora digital e isenta de todo referencial físico. Todavia, a mecanização, o registro, a impressão, são fatores de verdade apenas em virtude da crença moderna que deseja que a verdade cresça à medida que diminua a cota do homem na imagem (Rouillé, 2005). 
A imagem tornou-se um código (binário) de representação, não evocando mais um corpo é agora pura energia a percorrer o espaço tempo de nossa existência. Existência que se torna mais e mais precária pelo afastamento do referencial, do referente, do corpo real, do humano. 


Bibliografia 
ROUILLÉ, A. A fotografia entre documento e arte contemporânea. São Paulo, SENAC, 2005. 






20 agosto 2015

IMAGENS DA VIDA

A VIDA

Cada acontecimento em minha vida me trás um aprendizado. 
Trato a vida como trato a arte.

Faço cada atividade dando o meu melhor, pois acredito que essa seja a minha função. Como ser humano, como observador, como fruídos da beleza inerente ao mundo.
Sei que não viverei muito, doenças atacam, acasos acontecem, acidentes me espreitam todos os dias. A vida é uma mera probabilidade.

Mas há uma linda lição nessa simples constatação, a de que posso sempre melhorar a cada momento. 
Hoje acredito que talvez nunca tenha tido amigos verdadeiros acredito que tive apenas bons conhecidos e ótimos colegas. 

Talvez existisse dezenas de pessoas querendo ser meus amigos e eu simplesmente não percebi. Não cheguei a tempo, perdi o momento. 
Não que eu tenha sido totalmente antissocial, talvez um pouco, eu diria, mas o que fazer se é só você a se aproximar e as pessoas já vão dando informações irrelevantes e delimitando espaços, salientando e reforçando pontos que ferem inclusive a nossa humanidade. 

Talvez tenha entendido tudo errado 
(existe também essa possibilidade) mas eu interpretei seus gestos de forma que aprendi. Mesmo me colocando no lugar do outro, me pergunto porque eu soltaria uma determinada informação a menos que eu queira manter certa distância? 
Ou o que é pior, manter afastado determinado "tipo" de pessoa (incluindo aí um pré-julgamento). 

Assim, o que sobra do dia eu passo sozinho. Distante da maioria das pessoas, sobretudo para não magoá-las, para não afastá-las, ainda mais, para não afetá-las de algum modo. 

Mas como humano eu sinto falta de afeto. Psicológico e físico. 
É lindo ver os outros crescerem, amarem e serem por sua vez amados. 
Serem amados em troca do carinho que dispensam... 
Fico feliz em ver meus conhecidos, alunos e colegas, transformarem-se em pessoas desenvolvidas que caminham em direção uma das outras e juntas na direção da realização de seus sonhos. 

Elas vivem assim efetivamente na dimensões dos sonhos que são sonhados juntos. 

Uma hora eventualmente eu percebi que o tempo passou e com ele foram todos os sonhos. Com estrelas em um céu distante e moribundo foram se apagando como se apagam na madrugada alta as estrelas antes do Sol nascer. 
Esse sol é o sol da realidade que veio para calcinar meus ossos e com seu calor me levar de volta para casa. 




ENSAIOS


Suíte Sunset  I




















































ENSAIO II















ENSAIO III DA RUA 















ENSAIO IV
GZ
















ENSAIO V POA












































































































































































































ENSAIO APROPRIAÇÕES DA REDE







































20/VIII/2015 14:59