INÍCIO

21 setembro 2015

A ARTE DE COOPERAR

ARTE DE COOPERAR 

Antonio Paim MSc BSc 
(21/IX/2015)

Hoje não há mais cooperação entre quase ninguém... 
muito menos entre os artistas... 
O que existe são indivíduos isolados e um deserto entre artistas ilhas. 
Há algum tempo atrás (até digamos a década de 1980) existia um grande e continuo diálogo entre os artistas. Existia até cooperação na execução das obras. Ninguém sentia-se invadido ou melindrado ou desautorizado por um amigo fazer uma sugestão ou auxiliar na execução de uma obra. 
Neste diálogo entre duas mentes criativas tudo era permito discutir e investigar. 
Discutia-se sobre tudo do mundo, principalmente sobre a arte, seu papel e especialmente sobre o trabalho de cada um. 
Esta época foi muito importante para a produção de uma arte com sintomas universais e universalizante. 
Essas discussões desembocaram na época dos curadores, onde são eles que contam histórias a partir de acervos que eles investigam, discutem e mostram, no capitalismo extremo (neoliberalismo) o curador tem um papel tão ou mais importante do que o próprio artista. 
O papel do artista ficou relegado ao de mero produtor de algo, de um objeto, um bem. 
Hoje vemos a cooptação da arte pelas grandes empresas e empresários milionários. 
Nós os artistas cedemos nossa liberdade de pensar o mudo coletivamente a outros, fazendo arte disfarçada com um arremedo de estética universal. A arte assim, perde seu papel de desestabilizar e abrir uma porta para a discussão. 
Pensar é difícil, e muitas vezes revela o sofrimento que vivemos. Muitas vezes ou quase sempre o ato de pensar criticamente o mundo é bastante complexo e difícil, requerendo muitas mentes para abarcar essa construção do real. E hoje me pergunto: onde estão os artistas que cooperam na investigação do real? Onde estão as obras que são sementes a germinar em nossa memória? 
Não sei. Não estão…
Nada justifica essa perda de momentos de aprendizado e aprofundamento em torno do objeto e da produção artística por parte dos artistas. 
É como se tivéssemos assinado uma carta, não de alforria mas de escravidão, tendo como testemunho e fim último o mercado. E não mais todas as mentes vibrantes dos expectadores e fruidores da obra de arte. A arte tornou-se um bem para poucos, para aqueles endinheirados. 
O que devemos fazer para retomar o campo das discussões em torno do fazer artístico? 
O que se espera de animais racionais, políticos, falantes é a discussão com os pares. 
Organizar pequenos grupos afins que queiram voltar a discutir a arte e que desenvolvem-se como indivíduos. 
Discussões esteticamente guiadas e criticamente embasadas. 
Fomentar grupos de artistas pensantes que queiram aprender a ler os clássicos e a elucidar os conceitos, investigar a realidade social na qual estamos inseridos e produzir obras que a fustigue. 
Essa atitude humilde de que não somos donos da verdade, de que o outro pode contribuir para o enriquecimento da ideia inicial de uma obra, e modificar a proposta estética do trabalho. 
Cooperar junto num mesmo atelier enriqueceria o significado das obras de arte e seria uma luz no firmamento a apontar a direção de um novo tempo onde a arte vale a pena pelo quanto de conhecimento que ela contem. Mas temos q ter em mente que a arte é sempre desestabilizadora, contestatória, revolucionária…



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