INÍCIO

13 fevereiro 2026

INTELECTUAIS EM DECLÍNIO

INTELECTUAIS EM DECLÍNIO


O artigo que leremos a seguir “Intelectuais em declínio” articula um diagnóstico denso sobre a erosão contemporânea da formação humanística, situando-a na confluência entre transformações institucionais (acopladas ao neliberalismo e neofascismo, i.e., a necropolitica), reconfigurações geopolíticas (esboroamento do império hegemônico) e mutações tecnológicas. 
Seu argumento central não é apenas que as humanidades estão sendo cortadas e diminuídas de centros acadêmicos de excelência, mas que o intelectual enquanto figura social, formado nessas instituições, está perdendo função, retorno simbólico e legitimidade estratégica.

No plano institucional, o autor descreve um movimento convergente entre Estados Unidos e China, tradicionalmente apresentados como modelos opostos de organização do conhecimento. Apesar de diferenças ideológicas evidentes, ambos passam a priorizar formações técnicas, “STEM” e inovação aplicada, em detrimento das humanidades. 
(No contexto apresentado, STEM é um acrônimo em inglês para Science, Technology, Engineering e Mathematics, em português: Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Refere-se a uma abordagem educacional e de formação profissional focada em áreas exatas e tecnológicas, visando preparar indivíduos para o mercado de trabalho através de competências práticas, inovação e resolução de problemas, muitas vezes em detrimento de áreas de humanidades (ciências sociais, artes, filosofia).

Esse fenômeno reforça a tese de que a universidade crítica é percebida como menos governável do que a universidade técnica. Tal leitura ecoa análises clássicas sobre o papel subversivo do pensamento crítico: como lembra Edward Said, o intelectual tende a ser “aquele que incomoda, que perturba consensos fáceis” (SAID, 1994).

A referência à “sinificação” (sino: China) da universidade americana não sugere mera imitação cultural, mas a adoção de um paradigma instrumental do conhecimento, no qual educação deixa de ser um fim em si e passa a operar como meio direto para objetivos econômicos e geopolíticos. 
Nesse sentido, o texto dialoga com críticas mais amplas à racionalidade neoliberal (e por isso neofascistas), que, segundo Wendy Brown (2015), redefine todas as esferas da vida social em termos de produtividade, desempenho e retorno mensurável. O que significa que o ser humana só tem valor na medida de seu retorno ou produtividade. 

Entretanto, o autor vai além da crítica estrutural e introduz um elemento decisivo: o papel das plataformas digitais e da economia da atenção. 

A noção de “morte social da expertise”, cunhada por Tom Nichols (2017), é mobilizada para explicar como a autoridade intelectual se dissolve em ambientes que premiam velocidade, visibilidade e opinião instantânea. Nesse ecossistema, o tempo longo da leitura, da pesquisa e da reflexão, fundamental às humanidades, torna-se um passivo, não um ativo. Assim, na ótica da máxima acumulação do capital em que vivemos, esse tempo é um gasto, um prejuízo, pois o que se busca é a produção máxima em um período de tempo mínimo, o que justifica o uso de IAs e redes a-criticas.

É nesse ponto que a inteligência artificial aparece como fator de inflexão histórica. Diferentemente de outras tecnologias, a IA não apenas executa tarefas, mas simula práticas tradicionalmente associadas ao pensamento humanístico: síntese conceitual, argumentação moral, explicação de sentidos. Claro que isso analisado sem ética, uma vez que a IA só atua sobre o que já existe, sobre o que já foi desenvolvido pela inteligência orgânica humana, e faz isso sem dar o crédito. 
Ao fazê-lo, ela altera o cálculo racional do investimento educacional individual. A escolha por uma formação intelectual deixa de ser “ideológica” e passa a ser pragmática, o que confere força adicional ao argumento do texto.

A conclusão é particularmente contundente: quando pensar deixa de gerar retorno social, o pensamento não desaparece —ele se desloca para máquinas e sistemas—, mas o intelectual enquanto classe social intermediária, historicamente improdutiva e crítica, perde sua razão de ser. Essa leitura dialoga com interpretações históricas do Iluminismo, no qual o Ocidente apostou na precedência das ideias sobre a execução (KANT, 1784), aposta que pode estar se esgotando diante de sistemas capazes de alinhar esforço coletivo sem tolerar a “ineficiência” da reflexão idiossincrática.

Assim, o texto não lamenta apenas o declínio das humanidades, mas sugere que estamos diante de uma mudança civilizatória: a possível transição de uma ordem baseada na crítica, na ambiguidade e no dissenso para outra orientada por objetivos explícitos, coordenação técnica e menor espaço para a indeterminação reflexiva. Trata-se menos do fim do pensamento e mais do fim de um certo modo social de pensar.


Referências citadas

BROWN, Wendy. Undoing the Demos: Neoliberalism’s Stealth Revolution. New York: Zone Books, 2015.

NICHOLS, Tom. The Death of Expertise. Oxford: Oxford University Press, 2017.

SAID, Edward. Representations of the Intellectual. New York: Vintage, 1994.

KANT, Immanuel. “Resposta à pergunta: O que é o Esclarecimento?” (1784).

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INTELECTUAIS EM DECLÍNIO 

Artigo de 
ÁLVARO MACHADO DIAS
Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind.
para Folha de São Paulo (1)


Harvard cortou 60% das vagas de doutorado em ciências humanas. Chicago pausou admissões em história da arte, estudos de cinema, literatura comparada e mais de uma dúzia de outros programas. Brown suspendeu-as em seis departamentos de humanidades. Em Plymouth, a administração planeja fundir artes, literatura e áreas afins numa coisa só. A lista cresce a cada semana. A universidade americana está se sinificando rapidamente.
A referência é o 15º Plano Quinquenal, que faz da inovação científica e tecnológica o "elemento central" no projeto de tornar a China a principal economia do mundo até 2035 e posiciona a educação como meio a serviço desse fim. Mais de 20% dos programas acadêmicos foram reestruturados nos últimos dois anos, priorizando IA, semicondutores e ciências, gerando uma relação de 4-1 entre Stem e formação humanística, considerada ruim para o país por pesquisadores do banco central local.

Trump, invocando Calígula, foi além. Cancelou 1.400 bolsas, demitiu 65% dos funcionários públicos federais ligados às humanas e redirecionou o dinheiro para um jardim de estátuas de heróis americanos. As duas grandes potências chegaram a mais um consenso: a universidade técnica é bem mais fácil de domesticar do que a universidade crítica.

Esses fatores institucionais, porém, não esgotam o diagnóstico. O intelectual não está apenas sob ataque, muitas vezes, na forma de fogo amigo. Está perdendo retorno. Plataformas digitais recompensam presença contínua e opinião rápida, não reflexão acumulada, e em ambientes governados pela atenção, profundidade vira desvantagem.

Tom Nichols chamou isso de morte social da expertise. Não é coincidência que 55% dos jovens obtenham notícias de TikTok e Instagram, não de fontes tradicionais, nem que livros de não-ficção tenham registrado em 2024 a pior venda da série histórica no Reino Unido.

É nesse cenário que a IA atua como fator de transição. Sistemas conversacionais aprendem, sintetizam e argumentam. Para um jovem de 18 anos, apostar que quatro anos de formação intelectual produzirão vantagem analítica sobre algoritmos erigidos a prioridades nacionais, cujo QI cresce mais rápido do que o de uma criança, tornou-se objetivamente arriscado.

O cálculo é individual, não ideológico, e é reforçado tacitamente pelo fato de que a máquina responde a uma demanda clássica do pensamento humanístico: a curiosidade difusa sobre o mundo, a moral e o sentido das coisas.

Mais do que um psicólogo de bolso, o que se vê é a IA se desdobrar em verbetes ad hoc e filosofia simples sob demanda. Isso é poderoso em uma época em que não faltam livros, mas tempo social para as ideias que exigem duração.

Desde o século 18, o ocidente ancora seu diferencial na formação de intelectuais, isto é, de uma classe média improdutiva que reclama de tudo e vez ou outra tem uma ideia genial. Sua vitalidade sempre esteve atrelada ao apetite para investir em ideias antes da execução e é possível que a IA seja a última grande invenção dessa Era, ao deslocar a disputa pela hegemonia planetária para um terreno mais propício a sistemas capazes de alinhar esforço coletivo em torno de objetivos explícitos, com menor tolerância às idiossincrasias reflexivas.

Quando pensar deixa de gerar retorno, não é o pensamento que desaparece. É o intelectual.



Fonte 


Folha, 26.jan.2026
(28/I/2026)

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