INÍCIO

12 fevereiro 2026

FOTOGRAFIA DE UM VERÃO PASSADO

FOTOGRAFIA DE UM VERÃO PASSADO



I.
Imagem. Numa tarde clara e sem vento, dois amigos fugiram da cidade e foram para praia ver o mar. A areia era fresca, branca e macia, o horizonte infinito, e as gargalhadas deles ia mais longe que as ondas. Um posava de sério, fingindo que a vida adulta já tinha chegado. O outro, de joelhos na areia, sorria, tentando abarcar o mundo, a realidade efêmera, desafiando o instante. 
Não tinham planos para além das ondas, nem futuros para além do pôr do sol. 
Anos depois, a imagem da fotografia iria desbotar, mas a leveza nos seus corpos em movimento e a confiança nos seus sorrisos permaneceriam na memória, prova de que a juventude um dia fez uma pausa, breve, para respirar contra o silêncio e o inevitável avanço do tempo.


II. 

Fotografia
(Uma lâmina de tempo-luz aprisionado)


Naquela tarde, que Apolo sustentava imóvel
sobre os ombros dourados do céu, o carro de Helios
o senhor da luz, que movimenta os ventos, como um servo reverente, 
recusava-se a perturbar o rito explosivo da juventude.


Dois jovens, ainda não tocados
pela mão fria dos decretos inevitáveis de Cronos,
abandonavam a cidade, essa Tebas de pedra e esquecimento,
e caminhavam em direção ao mar,
que os aguardava como um deus antigo
reclinado em sua própria eternidade líquida.


A areia, fresca como a memória de Mnemosyne,
acolhia seus pés com a ternura das coisas que ainda não sabem partir.
O horizonte abria-se, vasto como o primeiro pensamento do mundo,
e suas alegrias e gargalhadas, puras, indomáveis,
ultrapassavam as ondas,
atravessavam o sal,
e talvez, por um instante impossível,
feriam os ouvidos ciumentos de Cronos.


Um deles, ereto como um kouros esculpido por mãos invisíveis,
Trazia nas mãos apenas desejos
como se fosse um cetro prematuro,
como se quisesse persuadir o destino
de que já pertencia ao reino dos homens maduros.


Mas Cronos, que vê todas as imposturas,
apenas sorria com seus dentes de mármore antigo.


O outro, ajoelhado, não em súplica,
mas em desafio,
sorria com a insolência sagrada dos efebos,
tentava abarcar o todo, abraçando o nada,
que é o único lugar onde tudo nasce.


Seu gesto era um oráculo sem palavras,
um decreto contra a dissolução,
um protesto contra o esquecimento
que devora impérios e ossos e montanhas com igual indiferença.


Eles não possuíam o amanhã,
porque o amanhã ainda não os possuía.


Não havia futuro além da maré, e das ondas
nem eternidade além daquele ouro líquido do entardecer,
onde Apolo lentamente sangrava sua luz
sobre o altar infinito do mar.


Naquele instante, eram invulneráveis,
como Aquiles antes do calcanhar,
como Jacinto antes da queda, e do ciúme de Zéphyro
como Narciso antes de reconhecer sua própria ausência.


E então, como sempre,
Cronos observava.
O velho ladrão de respirações,
o pastor de rugas,
o agricultor paciente da perda.

Anos desceriam sobre eles
como cinzas invisíveis.
Seus corpos, outrora firmes como colunas dóricas,
aprenderiam o idioma da gravidade.


Seus olhos, outrora incendiados,
aprenderiam o peso das despedidas.
Mas uma imagem sobreviveria.
Uma única lâmina de tempo aprisionado,
uma superfície onde a luz,
por milagre ou desobediência,
recusou-se a morrer.


A fotografia, essa pequena rebelião contra Cronos,
guardaria seus gestos como relíquias.
Ali permaneceria o sorriso,
não como foi,
mas como jamais deixaria de ser.


Ali permaneceria o gesto suspenso,
eterno em sua indecisão,
como se o tempo, por piedade ou distração,
houvesse esquecido de continuar.


As cores desbotariam,
como flores deixadas sobre o túmulo de um deus esquecido.


Mas algo mais profundo permaneceria intacto.
Pois Mnemosyne, mãe de todas as musas,
não preserva os rostos,
preserva a chama.


E mesmo quando Cronos,
em sua fome sem remorso,
devorar cada verão,
cada promessa,
cada vestígio de carne e calor,
ainda assim,
em algum lugar entre o olhar e a lembrança,
aqueles dois jovens permanecerão de pé,

inalcançáveis,

respirando para sempre
no breve intervalo
em que a eternidade
ousou parecer humana.



(10/II/2026)




Inspiração para uma écloga.
Um poema de caráter quase pastoral e bucólico, enfatizando a vida no campo, no amor e na natureza.
Esse tipo de poema frequentemente em forma de diálogo entre dois pastores foi criado pelo grego Teócrito e popularizado por Virgílio, o termo vem do grego eklogḗ, εκλογή, “seleção”.






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