INÍCIO

16 novembro 2025

CINDERELA A GATA BORRALHEIRA DA FILATELIA

I. HISTÓRIA DOS “SELOS CINDERELA” NA FILATELIA E NAS ARTES GRÁFICAS

A.Paim MSc, BSc, MM.

O termo “selo Cinderela” (do inglês “Cinderella stamp”) designa quaisquer selos, vinhetas ou etiquetas que se assemelham a selos postais, mas não têm valor postal oficial e não foram emitidos por administrações governamentais dos correios. 

Um "Selo Cinderela" é uma etiqueta impressa que se parece com um selo postal, mas não é emitida por uma autoridade governamental para fins de envio de correspondência. Essas etiquetas são frequentemente usadas para fins promocionais, de arrecadação de fundos ou de propaganda, como as usadas durante a Segunda Guerra Mundial para apoiar o esforço de guerra aliado. (Café História).

Características e usos
Sem valor postal oficial: Não podem ser usados em cartas para postagem oficial.
Finalidade: Podem ser usados para arrecadar fundos para eventos, como os Jogos Olímpicos, ou para fins de propaganda de empresas, grupos políticos, igrejas e eventos.
Exemplos: Selos de propaganda aliados, selos locais de companhias privadas, vinhetas de organizações de caridade e até selos de eventos culturais são exemplos de Cinderelas, conforme descrito na literatura consultada. 
Colecionismo: São colecionados por filatelistas, que os consideram um ramo especializado da filatelia.
Valor: O valor de um Selo Cinderela pode variar dependendo da sua raridade, demanda e se ele possui um cancelamento datado

O nome deriva da figura literária de Cinderela, a personagem que “parecia uma princesa, mas não era”, (esse material ou “efêmera” tem valor para colecionadores); metáfora adequada para objetos gráficos que imitam selos verdadeiros, mas se situam à margem da filatelia institucional. A categoria abrange uma ampla gama de impressos: selos de propaganda, vinhetas beneficentes, selos de fantasia, etiquetas fiscais, selos de exposições, selos com valor oficial porém aposto a documentos, missões de governos não reconhecidos, entre outros. A amplitude do termo exige, portanto, um exame histórico atento.

1. Origens no Século XIX. Propaganda, Exposições e Beneficência

A história dos selos Cinderela acompanha o desenvolvimento das artes gráficas industriais e das tecnologias de impressão no século XIX. Após a criação do “Penny Black” (1840), o “selo postal oficial” tornou-se um ícone gráfico altamente reconhecível. Gravadores, tipógrafos e litógrafos passaram a utilizar esse formato para produzir vinhetas que imitavam o selo postal, mas com finalidades diversas, sobretudo publicitárias e/ou caritativas.
Já na década de 1860 surgiram selos para exposições internacionais, como a Exposição de Paris (1867), e vinhetas utilizadas em campanhas sociais, como os selos de caridade para hospitais. Na Escandinávia, a partir de 1904, surgiram os famosos “Christmas Seals” (Selos de Natal), inicialmente destinados ao combate à tuberculose, hoje uma das vertentes mais estudadas pela filatelia social.





(Imagens acima: seal.society.org)

Acervo digital com imagens
Christmas Seal & Charity Stamp Society: 

Biblioteca Digital Mundial: 

2. Selos de propaganda e a era das guerras mundiais

Durante a Primeira Guerra Mundial e, sobretudo, a Segunda Guerra Mundial, governos, partidos políticos, ONGs e movimentos sociais produziram grande quantidade de selos-paródia e vinhetas para propaganda, mobilização popular, campanhas patrióticas ou difamatórias. São célebres, por exemplo, os selos anti-nazistas britânicos, as vinhetas de guerra americanas e os selos de propaganda produzidos pela resistência europeia.

Artisticamente, muitos desses selos foram elaborados por cartazistas, litógrafos e por designers envolvidos com propaganda de massa. A circulação dessas pequenas peças gráficas foi intensa, revelando uma interface entre propaganda política, design gráfico e cultura visual.

Acervos recomendados com imagens de época
Imperial War Museums (propaganda labels): 

The British Library Digital Collections: 

3. Selos de fantasia, micronações e emissões “não reconhecidas”

Outra vertente fundamental dos selos Cinderela são as chamadas emissões de fantasia: selos de países inexistentes, micronações ou entidades sem soberania reconhecida. A prática alcançou seu auge no século XX, com artistas gráficos criando selos de lugares fictícios como Sealand, Ruthenia, Biafra, Nagorno-Karabakh, entre muitos outros. Alguns destes tinham função política (movimentos separatistas), outros eram iniciativas artísticas próximas ao mail art e à arte postal, movimentos que floresceram a partir da década de 1960.

Na perspectiva da história das artes gráficas, esses selos constituem objetos híbridos: combinam tipografia, design editorial, iconografia política e um forte componente de imaginação geopolítica.

Fontes visuais confiáveis
StampWorld (imagens de selos de países não reconhecidos): https://www.stampworld.com

Colnect (catálogos com fotos de selos de fantasia): 

Toy stamp; Selo da Barbie (1)

4. Selos Fiscais e Parapostais

Os selos fiscais, utilizados para taxas de documentos, controle comercial, impostos e serviços cartoriais, formam outro grupo frequentemente classificado como Cinderela, embora possuam valor legal. No campo das artes gráficas, destacam-se pela sofisticação técnica, selos executados com as técnicas de: intaglio, calcografia, tipografia de segurança e ornamentações semelhantes às usadas em moeda impressa. Sua função era (e é) impedir falsificação, razão pela qual exigiam gravadores de alto nível técnico.
Selos parapostais emitidos por organizações privadas, companhias de transporte, correios locais, serviços de entrega expressa, também se enquadram na categoria. Muitos deles são importantes para o estudo das redes de circulação de impressos e mercadorias entre os séculos XIX e XX.

5. Selos Cinderela como objeto de estudo: Filatelia, Arte e Cultura Material

No estudo contemporâneo das artes gráficas, os selos Cinderela são apreciados não apenas como curiosidades, mas como documentos culturais, que revelam:

Formas alternativas de circulação de imagens,
Estratégias de propaganda e comunicação visual,
Práticas de colecionismo,
A popularização do design gráfico no século XX,
A democratização dos meios de impressão.

Alguns artistas, como membros do movimento Fluxus e da Mail Art, Arte Postal, chegaram a empregar selos de fantasia de modo crítico e experimental, utilizando-os como micro-obras de arte. Assim, o selo Cinderela ocupa hoje posição singular entre a filatelia, a história da arte, a tipografia e a cultura gráfica impressa.




Alguns exemplos de Selos Cinderela.(WP)

Como os selos "Cinderela" são definidos pelo que não são, existem muitos tipos diferentes e o termo geralmente é interpretado de forma bastante ampla. Os itens normalmente considerados como pertencentes a essa área são selos de cartaz, rótulos de propaganda, adesivos comemorativos, selos emitidos por países ou governos não reconhecidos, rótulos de caridade como selos de Natal e selos de Páscoa, a maioria dos selos telegráficos, alguns selos ferroviários, alguns selos locais e itens puramente decorativos criados para publicidade ou diversão.
Os selos fiscais podem ser considerados cinderelas, mas como normalmente são emitidos por uma agência governamental oficial, tendem a ser classificados separadamente. Alguns selos telegráficos, ferroviários e outros também podem ser emitidos por agências governamentais, mas ainda assim se enquadram na categoria de cinderelas, uma vez que não se destinam a fins postais.

Fontes e Bibliografia (acesso fácil na internet)
Artigos e Ensaios Online

The Cinderella Stamp Club (Reino Unido), estudos, artigos e imagens:

The Cinderella Stamp Handbook, edição digital (excertos disponíveis):

APS – American Philatelic Society: seção sobre selos Cinderela

Colnect – Catálogo ilustrado de selos Cinderela

Livros digitalizados ou com vistas parciais

HORNUNG, Clarence. Handbook of Early Advertising Art (reúne estudos sobre vinhetas e artes gráficas).
Disponível em: 

JAMES, David. Cinderella Stamps. Londres: Stanley Gibbons. (Trechos localizáveis via Google Books.)

Acervos com fotos históricas

The British Library – coleções de selos e vinhetas: 

Wikimedia Commons – coleção aberta de selos Cinderela com domínio público:


Smithsonian National Postal Museum:


II. AS CINDERELAS NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Semelhantes aos selos postais, as cinderelas foram etiquetas usadas em correspondências como propaganda dos países beligerantes na Segunda Guerra Mundial.

ARTIGO ORIGINAL AQUI

10 de junho de 2024

Cinderela de origem canadense fixada sobre o verso de envelope patriótico enviado ao Brasil, em 1942, em que aparece o Ministro Churchill seu gesto icônico. Coleção do autor (Neto, 2024).

Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os serviços de correios foram um importante meio de veiculação de propaganda dos países beligerantes, por meio de marcas, selos e demais tipos de “papelaria postal”, como, por exemplo, aerogramas, bilhetes e cartões postais.

No Brasil, assim como em outros países da época, esse tipo de material circulante foi submetido à prática da censura postal e, principalmente, após a declaração de guerra contra a Alemanha e a Itália, em 31 de agosto de 1942, serviu de meio de divulgação de propaganda de guerra pró-aliada. O engajamento do público brasileiro no esforço de guerra foi motivado de diversas formas, com destaque para um tipo de estampilha publicitária conhecida entre os filatelistas (nome dado aos colecionadores e estudiosos dos selos postais) como “cinderela”.
A “gata-borralheira” da filatelia

Assim como os selos postais, as cinderelas surgiram do desenvolvimento das artes gráficas, a partir da segunda metade do século XIX, no hemisfério norte. Igual aos selos, elas são pequenas estampas impressas com objetivos publicitários e são fixadas nas correspondências que transitam pelos correios diariamente. Porém, o que as diferenciam dos selos postais são sua origem privada e não possuir validade para franquia (pagamento) de correspondências e encomendas transportadas pelos correios. Ou seja, as cinderelas não têm validade postal.

Devido à sua natureza particular, as cinderelas são, geralmente, desprezadas pelos filatelistas, cujas coleções, especialmente quando reunidas para exposições filatélicas oficiais, são formadas essencialmente por itens emitidos oficialmente pelas autoridades postais nacionais ou sob sua autorização. Nos últimos anos, no entanto, o status das cinderelas está mudando. Por meio da Filatelia Aberta (ou Open Class), que permite que as coleções possuam até 50% de material não postal, as cinderelas passaram a ser valorizadas pelos colecionadores.
O front interno e as cinderelas

A mobilização da sociedade civil foi um dos desdobramentos do ingresso do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Era necessário envolver a população com o esforço de guerra, conquistando os seus corações e suas mentes para a causa aliada. Não foi por acaso que, a partir de 1942, cessou no país a veiculação de notícias e propaganda de guerra do Eixo, em particular, de materiais jornalísticos e fotojornalísticos distribuídos à imprensa pelas sucursais brasileiras das agências alemãs RDV e Transoceânica, localizadas na cidade do Rio de Janeiro, na época, Distrito Federal.

O espaço deixado foi ocupado pelos órgãos de comunicação e propaganda aliados, como, por exemplo, o British News Service, do Reino Unidos, e o Serviço de Informações do Hemisfério (SIH), este último, ligado ao comitê brasileiro do Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos, do governo dos Estados Unidos. Até o final do conflito, em 1945, o público brasileiro foi abastecido com caricaturas, cinejornais, filmes, fotografias, jornais e revistas voltados à divulgação da guerra sob a óptica aliada e dos Estados Unidos como modelo a ser seguido pelo Brasil.

Os selos postais e as cinderelas assimilaram e divulgaram no país os símbolos e os valores difundidos pela propaganda de guerra, principalmente, dos Estados Unidos. Contudo, as primeiras cinderelas foram colocadas em circulação entre o público brasileiro em 1939, quando ocorreu da invasão da Polônia por alemães e soviéticos. Na ocasião, o Comitê Brasileiro de Socorro às Vítimas de Guerra na Polônia arrecadou donativos com a venda de cinderelas em três valores: 500, 1.000 e 2.000 Réis.

Com a entrada do Brasil na guerra, diversas cinderelas foram ilustradas com temas acerca da compra de bônus de guerra, da unidade panamericana, da Força Expedicionária Brasileira (FEB) e da vitória, representada pela letra “V” ou pelo inconfundível gesto com a mão direita, com os dedos indicador e médio esticados, representando o vê de vitória, popularizado pelo então Chanceler Winston Churchill (1874-1965).

Na imagem a seguir, é possível ver uma dessas cinderelas. Com destaque para “Defenda o Brasil”, ela convoca o público para comprar bônus de guerra. A imagem do Cristo Redentor reforça a identidade católica do país e o soldado em posição de vigilância é um recurso recorrente na propaganda de guerra brasileira, que sugere que o país está de prontidão contra os seus inimigos. Como em outras cinderelas, a responsável pela sua emissão foi uma empresa privada, o Banco Nacional de Descontos, na época, situado na Rua da Alfândega, número 50. O Brasil esteve em guerra entre 1942 e 1945, período em que foram comuns manifestações de patriotismo por entidades da sociedade civil e empresas privadas, como, por exemplo, a subsidiária brasileira da Shell Oil Company.


Cinderela publicitária emitida pelo Banco Nacional de Descontos, Rio de Janeiro-RJ. Pelo carimbo aplicado em uma agência postal do então Distrito Federal, ela foi colocada em circulação entre 1942 e 1943. Coleção do autor.

A vilania e a desqualificação dos inimigos também foram temas presentes nas cinderelas. As blitzen dos submarinos alemães contra os navios da marinha mercante brasileira foram representadas como atos de pirataria, responsáveis pela “alta dos preços”, conforme é possível constatar na imagem a seguir, em que aparece um envelope circulado entre as cidades do Rio de Janeiro-DF e Joinville, de 28 a 30 de abril de 1943, sobre o qual foi fixada uma cinderela ilustrada com uma embarcação civil de bandeira brasileira queimando e afundando após o ataque de um submarino, cuja silhueta em branco pode ser vista ao fundo da ilustração. Há náufragos em um barco salva-vidas e os seguintes dizeres: “A alta dos preços é uma consequência da pirataria nazista!”.

Envelope circulado entre as cidades do Rio de Janeiro e Joinville sobre o qual foi fixada uma cinderela de propaganda antialemã. Coleção do autor. Detalhe na cinderela: com setas apontando para a silhueta do submarino alemão e o barco salva-vidas.

Outro exemplo de “Cinderela”; a inclusão do nome Ernesto Rafael Guevara (para Che Guevara) em um selo com a designação "Nederland 2024-3" indica que se trata de um item filatélico privado ou “selo Cinderela”, e não de um selo postal oficial emitido pelo Serviço Nacional de Correios dos Países Baixos, o PostNL. 
Os motivos para a existência deste selo são:
Item para Colecionadores: Esses selos são produzidos para o mercado de colecionadores (filatelistas) interessados em temas específicos, como a figura de Che Guevara, e não para uso postal regular.
Emissão Privada/Comercial: Vendedores ou organizações privadas criam e vendem esses selos como artigos colecionáveis, muitas vezes com designs elaborados e temáticas que dificilmente seriam aprovadas por serviços postais oficiais de certos países por razões políticas ou ideológicas.
Fins Lucrativos: A venda desses itens em plataformas como o eBay sugere um propósito comercial, visando colecionadores dispostos a pagar por peças raras ou temáticas, independentemente de sua validade postal. 
Portanto, o selo provavelmente não tem valor para franquear correspondências nos Países Baixos, mas é um item destinado ao colecionismo. Países como a Irlanda já emitiram selos oficiais de Che Guevara no passado, o que gerou alguma controvérsia na época, mas o item em questão ("Nederland 2024-3") parece ser uma produção não oficial. (Artigo acima).


Outras representações sobre os alemães/nazistas que apareceram nas cinderelas são a ameaça da “quinta-coluna” e a tirania.

Devido ao seu caráter particular, é difícil estimar o total de cinderelas produzidas e colocadas em circulação no Brasil, durante a Segunda Guerra Mundial, bem como os seus respectivos temas. A falta de interesse como item colecionável e, em consequência, comercializável fizeram com que não existam trabalhos sistemáticos de coleção e catalogação desse tipo de fonte visual.

Porém, como um dos produtos da era da reprodutibilidade técnica da imagem (brincando com o título do célebre ensaio do filósofo alemão Walter Benjamin), as cinderelas são uma fonte histórica potente sobre as formas com as quais o público brasileiro foi envolvido com a Segunda Guerra Mundial e engajado com seus símbolos e esforços, especialmente, após a entrada do Brasil no conflito, no final de agosto de 1942, quando a guerra chegou às pessoas pelos correios.


Referências

CAMPIANI, Cesar. 120 objetos que contam a história do Brasil na Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Livros de Guerra, 2019.

CYTRYNOWICZ, Roney. Guerra sem guerra: a mobilização e o cotidiano em São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Geração Editorial, 2000.

SILVA, Sergio Marques da. Selos postais no mundo. Filatelia: sua história, hobby, cultura e investimento. São Paulo: João Scortecci Editora, 1995.
Como citar este artigo

NETO, Wilson de Oliveira. As “cinderelas” na Segunda Guerra Mundial. In: Café História. Publicado em 10 jun. de 2024. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/as-cinderelas-na-segunda-guerra-mundial/
ISSN: 2674-5917.


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