A FALÁCIA DO APELO À AUTORIDADE
Artigo Modif. de
José Gonzalo Armijos Palácios (1)
O peso da autoridade é um peso tremendo, o que pode ver-se claramente em todas as épocas. As chamadas “autoridades”, numa determinada área, querendo ou não, podem exercer uma influência nefasta. Uma vez que fica difícil, se não impossível, para pesquisadores desconhecidos publicar trabalhos ou os resultados de pesquisas que, de uma ou de outra maneira, entrem em atrito com o que as autoridades afirmam.
Francis Bacon (2)
Durante muito tempo, Aristóteles exerceu esse papel de grande autoridade. De autoridade inquestionada e inquestionável. Chegava-se ao ponto de se usar uma afirmação sua para pôr fim a qualquer disputa. Era o último critério para se decidir alguma diferença teórica. Sua autoridade era tal que, simplesmente, era chamado de “O Filósofo”.
Num sentido, era considerado o depositário de verdades definitivas e, certamente, sem ele mesmo ser responsável por isso, foi a causa de que muita pesquisa ficasse sem ser feita e a ciência, como a conhecemos, não surgisse antes.
Sem dúvida, a aura de autoridade logra deter ou impedir o nascimento de uma ideia, um campo ou ramo científico, i.e., impede o progresso da ciência.
Entretanto há épocas em que o desejo, a necessidade e a busca pelo conhecimento aparecem com mais força do que em outras. Francis Bacon (1561-1626) vive uma etapa de transição em todos os sentidos.
Tratemos de imaginar o que deve ter significado para os intelectuais da época a descoberta de um novo mundo e a certeza de que vivíamos numa grande esfera. O mundo antigo, sem dúvida, desmoronava em todos os sentidos. Bacon vive num período em que a própria Renascença estava chegando ao fim e começava a modernidade. É o período em que nasce a ciência como hoje a conhecemos. Tudo isso, então, permite que entendamos, mesmo que não justifiquemos, as palavra que Bacon, em seus escritos, dirigiu aos gregos.
Bacon ataca a filosofia medieval por se misturar com a teologia. Mas esse erro, pensa, os gregos também cometeram: “Mas a corrupção da filosofia, advinda da superstição e da mescla com a teologia, vai muito além e causa danos tanto aos sistemas inteiros da filosofia quanto às suas partes (…).” E repete a crítica num aforismo posterior:
“Na Grécia, encontram-se exemplos típicos de tais filosofias, sendo o caso, antes dos demais, de Pitágoras, onde aparecem aliadas a uma superstição tosca e grosseira. Mais perigoso e sutil é o exemplo de Platão e sua escola.”
Bacon não deixa de reconhecer o que devemos aos gregos antigos, mas faz ressalvas:
As ciências que possuímos provieram em sua maior parte dos gregos. (…) Contudo, a sabedoria dos gregos era professoral e pródiga em disputas — que é um gênero dos mais adversos à investigação da verdade. (Afor. LXXI, grifo no original.)
Tais disputas chegaram ao seu auge na filosofia escolástica com as famosas quaestiones disputata, mas em nada contribuíram para o avanço do conhecimento ou da ciência. Significaram, pelo contrário, um obstáculo. Mas os gregos também tiveram esse vício da disputatio estéril. O trecho anterior, Bacon continua assim:
Desse modo, o nome de sofistas, que foi aplicado depreciativamente aos que se pretendiam filósofos e que acabou por designar os antigos retores, Górgias, Protágoras, Hípias e Polo, compete igualmente a Platão, Aristóteles, Zenão, Epicuro (…) e aos seus sucessores… (…) Mas ambos os gêneros (…) eram professorais e favoreciam as disputas, e dessa forma facilitavam e defendiam seitas e heresias filosóficas, e suas doutrinas eram (como bem disse, não sem argúcia, Dionísio de Platão) palavras de velhos ociosos e jovens ignorantes.(!)
Palavras inusitadamente duras, sem dúvida, e em muitos sentidos injustas. No entanto, estamos frente a uma luta sem trégua de um pensador contra os excessos da tradição, luta que levara o próprio Bacon a cometer excessos.
Nessas passagens presenciamos o fim de uma era e o nascimento de uma outra. É uma atitude hostil contra o passado, mas de esperança sobre o futuro. Isso explica que Bacon lembre uma opinião sobre os gregos:
E, a propósito, não se deve omitir aquela sentença, ou melhor, vaticínio, do sacerdote egípcio a respeito dos gregos: ‘Sempre serão crianças, não possuirão nem a antiguidade da ciência, nem a ciência da Antiguidade’. (Ibid.) E Bacon continua o trecho com uma sentença lapidar: “Os gregos, com efeito, possuem o que é próprio das crianças: estão sempre prontos para tagarelar, mas são incapazes de gerar, pois, a sua sabedoria é farta em palavras, mas estéril de obras.” (Ibidem.) Essas palavras podem surpreender pela sua dureza. No entanto, não são uma exceção quando os filósofos debatem entre si ou quando defendem suas teses e teorias. No caso de Bacon, não era uma mera defesa doutrinal, era a reivindicação do direito a pensar por si, mesmo tendo que destruir a glorificada tradição.
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