(…)
Aqui, eu diria que estamos em presença da concepção marxiana do ser genérico.
Recorrendo a este termo, que ele adapta de Feuerbach, Marx, em seus Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844, encaminha o problema de teorizar a particularidade da espécie humana. Como Marx observa, "o homem não é apenas um ser natural; ele é um ser natural humano. Ou seja, ele é um ser para ele mesmo. Portanto, ele é uma espécie sendo (..)" (1844 [1964: 182).
Além disso, Marx elabora: "O homem é um ser genérico, não só porque na prática e na teoria ele adota o gênero como seu objeto (o seu próprio e o dos outros seres), mas (..) também porque ele trata a si mesmo como uma espécie atual e vivente; porque ele trata a si mesmo como um ser universal e, portanto, um ser livre" (1844)
[1964: 112). Apesar de nossas múltiplas diferenças, portanto, e em quaisquer termos que possamos adotar para fazê-lo, nós colocamos universalmente nossa própria generalidade - colocamos nossas próprias especificidades sempre como englobadas pela inclusividade universal da espécie humana. Nós podemos apreciar mais claramente o sentido que Marx atribui ao ser genérico quando ele diz: "Todo o caráter de uma espécie - seu caráter genérico - está contido no caráter de sua atividade vital; e a atividade livre, consciente é o caráter específico do homem".
O que constituiu exatamente a particular atividade vital da espécie humana? "O trabalho, a atividade vital, a vida produtiva em si mesma (...) é a vida da espécie. É vida que engendra vida" (113).
Assim, é a capacidade criadora e o poder produtivo que distinguem um tipo de vocação existencial da nossa espécie. Em sua generalidade e abertura, esse potencial não é redutível a nenhuma particularidade. Ou, como diz Agamben, tal predisposição existencial é precisamente uma "potencialidade pura que nenhuma identidade ou vocação pode, possivelmente, exaurir". Marx continua: "é só porque o homem é um ser genérico que ele é um ser consciente, isto é, que sua própria vida é um objeto para ele" (113). A atividade vital livre (não obrigatória e não predeterminada), consciente (intencional), pela qual os seres humanos materialmente e praticamente (re)produzem a vida da espécie como tal, é, então, para lembrar a frase de Agamben, um contínuo colocar em jogo a própria vida em si mesma; é, também, um colocar em jogo da "felicidade" ou da satisfação como objetivos conscientes e objetivos dessa vida.
Fonte
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