INÍCIO

04 agosto 2023

O FASCISMO DA COR

FASCISMO DA COR - UMA RADIOGRAFIA DO DO RACISMO NACIONAL 










A racialização pós-abolicionista era uma estratégia endocolonial de construção de fronteiras sociais internas, ideologicamente respaldada por saberes pseudocientíficos sobre a inferioridade antropológica do negro, assim como por interesses econômicos, no sentido de atribuir menor valor salarial à sua força de trabalho como homem livre. Pode-se vislumbrar correspondências entre esses propósitos e os do fascismo emergente na Europa. O racismo passa a funcionar como estratégia de hierarquização social dentro de uma cadeia de continuidade que se pauta por novas regras.


(…)


“Como se pode ver, a estrutura escravista – entendida como a organização interna de uma realidade ou então como um a priori incondicionado – comportava brechas ou fissuras, a despeito do fechamento institucional. No balanço posterior, porém, isso foi de fato “uma aurora que não deu dia”, como se verificou em seguida à Abolição, quando a estrutura deu lugar a um esquema existencial derivado de relações espaçotemporais com o afro-brasileiro – isto é, deu lugar à forma social escravista –, que implica, no limite, uma máscara ou uma maquiagem da discriminação racial. Esta, mais do que “estrutural” na acepção rigorosa do termo, é de fato concreta e vital, o que implica uma historicidade singular.”


“A história de vida de Nilo Peçanha (1867-1924), o sétimo presidente da República, caracteriza parcialmente o funcionamento dessa forma social. Um dos políticos mais destacados do século XX, ele nasceu em Campos dos Goytacazes, filho de um modesto padeiro (conhecido como “Sebastião da Padaria”) e de uma filha de agricultores, gente pobre que às vezes o alimentava, segundo suas próprias palavras, “a pão dormido e paçoca”. Tinha pele escura, o que permite classificá-lo fenotipicamente como negro, preto, mulato ou pardo. Desta gradação não tinha dúvidas a imprensa da época, que costumava publicar charges e anedotas sobre a sua cor, nem os círculos aristocráticos de Campos, que a ele se referiam como “o mulato do Morro do Coco”, em alusão ao bairro pobre de onde provinha.


Como relacionar essa história à forma social escravista? Para começar, as “dúvidas” identitárias partiam do próprio Nilo que, embora abolicionista, recusava-se a ser identificado como não branco. Costumava esconder por maquiagem a cor da pele. E tudo isso pôde ser visto por Gilberto Freyre como uma espécie de drible futebolístico – por malícia e negaça – nas restrições racistas de toda ordem. Nilo casou-se com mulher branca (neta do Visconde de Santa Rita e bisneta do Barão de Muriaé), um feito escandaloso na época. Teve uma carreira política fulgurante no parlamento e no estado até a vice-presidência da república quando, por morte de Afonso Pena, tornou-se presidente (1909-1910).”


Trecho de O fascismo da cor. Muniz Sodré






Fontes







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