INÍCIO

01 maio 2023

TRABALHO


Ofício das Leituras

 Dulce fit nobis memoráre parvum

Dulce fit nobis memoráre parvum
Názarae tectum tenuémque cultum;
éxpedit Iesu tácitam reférre
cármine vitam.


Arte qua Ioseph húmili excoléndus,
ábdito Iesus iuvenéscit aevo,
seque fabrílis sócium labóris
ádicit ultro.


Assidet nato pia mater almo,
ássidet sponso bona nupta, felix
si potest curas releváre lassis
múnere amíco.


O neque expértes óperae et labóris,
nec mali ignári, míseros iuváte;
quotquot implórant cólumen, benígno
cérnite vultu.


Sit tibi, Iesu, decus atque virtus,
sancta qui vitae documénta praebes,
quique cum summo Genitóre et almo
Flámine regnas. Amen [2].


Assim como o hino das Vésperas, o hino do Ofício das Leituras (antigamente chamado de “Matinas”), composto por Leão XIII em 1893, está no Breviarium Romanum desde 1920, quando o Papa Bento XV (†1922) estendeu a Festa da Sagrada Família para toda a Igreja de Rito Romano (pílulasliturgicas).

Originalmente, porém, este hino possuía nada menos que dez estrofes, sendo intitulado Sacra jam splendent [4]. Dessas, a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II conservou cinco: a 3ª, a 5ª, a 7ª, a 8ª e a 10ª.



a) 1ª estrofe:

O hino da versão atual da Liturgia das Horas começa não com uma epiclese, isto é, com uma “invocação” do Senhor, mas sim com uma anamnese: uma “recordação” ou “memorial” da história da salvação.(pílulasliturgicas)

Dulce fit nobis memoráre parvum Názarae tectum tenuémque cultum; éxpedit Iesu tácitam reférre cármine vitam” 
“Seja doce para nós recordar a pequena casa de Nazaré e seu simples modo de viver, e cantar um hino à vida oculta de Jesus”.

A tradução brasileira, por sua vez, altera ligeiramente a ordem das frases, a fim de adequá-las à nossa língua (inclusive com rimas alternadas entre os versos pares), conservando o sentido da estrofe: “A vida oculta de Jesus edificante é relembrar, dizer em verso a vida pobre de Nazaré, humilde lar”.(pílulasliturgicas)

O hino, com efeito, está inteiramente dedicado à “vida oculta de Jesus”, envolta na simplicidade da vida familiar e do trabalho, como sintetiza São Paulo VI ‘em seu célebre discurso em Nazaré, lido justamente no Ofício das Leituras da Festa da Sagrada Família.(pílulasliturgicas)

“Toda a vida de Cristo é mistério”, como indica o Catecismo da Igreja Católica(nn. 514-521). Assim, também a sua “vida oculta” é mistério de salvação (ibid., nn. 531-534) e deve ser devidamente celebrada, como indicam os dois últimos versos da estrofe.(pílulasliturgicas)


b) 2ª estrofe:

A 2ª estrofe prossegue louvando a dimensão do trabalho, que Jesus aprende com José:

Arte qua Ioseph húmili excoléndus, ábdito Iesus iuvenéscit aevo, seque fabrílis sócium labóris ádicit ultro
“Na arte que José humildemente exercia, o jovem Jesus vai crescendo, aderindo voluntariamente ao trabalho do operário”.

A Vulgata, tradução da Bíblia para o latim feita por São Jerônimo, utiliza o termo “faber” para referir-se a José, o qual traduz o original grego τέκτων (tékton), relacionado à palavra τέχνη (tékhne, arte ou ofício manual, donde vem a palavra  “técnica”). A tradição refere-se a José como carpinteiro, embora os termos usados na Escritura indiquem qualquer pessoa que trabalha com as mãos.(pílulasliturgicas)


Jesus e José trabalhando como carpinteiros e Maria costurando
(Mosaico no Santuário de Torreciudad, Espanha)


O hino de Leão XIII destaca uma dupla dimensão do trabalho: “arte” (no sentido de habilidade, de técnica) e “labor” (no sentido de empenho físico, de cansaço), destacando que Jesus acolheu livremente o trabalho, como bem sintetiza a monição introdutória da Bênção de locais de trabalho:

“Cristo Jesus revelou a grande dignidade do trabalho quando Ele, a Palavra do Pai encarnada, se dignou ser chamado filho do operário, e quis humildemente exercer com as próprias mãos as tarefas do operário, fazendo assim desaparecer a maldição do pecado e transformando o trabalho numa fonte de bênçãos” [6].

Com efeito, enquanto o primeiro Adão via o trabalho como castigo (cf. Gn 3,17-19), o novo Adão, Cristo, o santifica e transforma em fonte de bênçãos.(pílulasliturgicas)


c) 3ª estrofe:

Após celebrar o trabalho, nosso hino exalta na estrofe seguinte outra das “lições de Nazaré”: a vida familiar.(pílulasliturgicas)

Assidet nato pia mater almo” - “A Mãe amorosa se senta com o Filho santo”. O adjetivo “pia” indica aqui o afeto maternal de Maria em relação a Jesus, ao qual o hino aplica o adjetivo “almus”. Esse é um termo recorrente nos hinos, como vimos em postagens anteriores, significando “benigno”, “santo”, “aquele que dá a vida”.

A Virgem-Mãe com seu Filho ao colo, com efeito, imagem amplamente utilizada na arte cristã, é intuída já no Evangelho, particularmente no relato da visita dos magos ao Menino (Mt 2,11).(pílulasliturgicas)

Assidet sponso bona nupta” - “Sentada junto ao esposo está a boa esposa (ou a fiel esposa)”. Este segundo verso da estrofe refere-se à Virgem Maria como esposa de José; mas também pode nos remeter, em sentido simbólico, a Maria como modelo da Igreja, fiel Esposa de Cristo.(pílulasliturgicas)


A Virgem Maria com o Menino ao colo, tendo junto a si o esposo, São José
O livro simboliza a obediência de ambos à Palavra de Deus
(Francesco Albani - séc. XVI-XVII)


Por fim, os dois últimos versos da estrofe retomam o tema do cansaço do trabalho, indicando que a Esposa “é feliz por poder aliviar o cansaço [do esposo e do Filho] com o serviço do seu amor” (felix si potest curas releváre lassis múnere amíco).

O amor familiar é expresso aqui, com efeito, com um “múnus”, um serviço ou ministério, um dom: múnere amíco. Amizade, por sua vez, remete ao termo grego φιλία (philia), empregado tanto para o amor familiar quanto para o amor entre os amigos.(pílulasliturgicas)

Como indica o Papa Bento XVI em sua Encíclica Deus Caritas Est (n. 3), o amor philia “é retomado com um significado mais profundo no Evangelho de João para exprimir a relação entre Jesus e os seus discípulos”: “Já não vos chamo servos, mas amigos” (Jo 15,5). Esta amizade será levada por Cristo ao extremo (Jo 13,1), transformando-se em amor αγάπη (ágape), quando Ele oferece a própria vida pela salvação dos amigos (Jo 15,12-14).(pílulasliturgicas)


d) 4ª estrofe:

Após a “anamnese” ou recordação nas primeiras três estrofes, a 4ª estrofe traz uma “epiclese”, isto é, uma invocação ou súplica.(pílulasliturgicas)

O primeiro verso do original é “O neque expértes óperae et labóris”, isto é, “Ó [vós] que não fostes privados do trabalho e da fadiga”. A expressão poderia ser dirigida aos três membros da Sagrada Família, uma vez que Jesus e José se dedicaram ao trabalho braçal, como vimos na 2ª estrofe, e Maria ao trabalho doméstico.

Porém, na tradução brasileira se especifica o destinatário da súplica: “Vós, ó Senhor, que conheceis bem o trabalho e o suor”.(pílulasliturgicas)

Segue-se, a partir do segundo verso da estrofe, a súplica propriamente dita, com dois pedidos:

Nec mali ignári, míseros iuváte” - “[Vós] que não ignorais o mal, socorrei os míseros”;
Quotquot implórant cólumen, benigno cérnite vultu” - “Olhai com rosto benigno a quantos imploram sustento”.


Escultura da Sagrada Família em Turckheim, França
(Note-se o Menino com os braços abertos, em um gesto de bênção)


A tradução brasileira, por sua vez, inclui explicitamente na súplica os trabalhadores: “dai vossa ajuda aos que trabalham, ouvi dos fracos o clamor”.

Com efeito, Félix Arocena em sua obra Los himnos de la Liturgia de las Horasdestaca como esta estrofe se aproxima da preocupação do Papa Leão XIII pela condição dos operários, delineada sobretudo em sua Encíclica Rerum Novarum (1891), um marco da Doutrina Social da Igreja [6].


e) 5ª estrofe:

Assim como no hino das Vésperas, a última estrofe compõe uma doxologia (breve fórmula de louvor), dirigida primeiramente a Cristo e em seguida estendida às outras duas Pessoas da Santíssima Trindade.(pílulasliturgicas)

Como sabemos, com efeito, Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, é o ponto de intersecção entre a família humana e a Trindade, perfeito Mediador entre nós e o Pai (1Tm 2,5).(pílulasliturgicas)

Sit tibi, Iesu, decus atque virtus, sancta qui vitae documénta praebes” - “Jesus, a ti seja a honra e a virtude (poder), a ti que nos dás um santo testemunho de vida”.

Como afirmamos anteriormente, toda a vida de Cristo é mistério de salvação: Ele nos ensina não apenas por suas palavras, mas também pelo seu exemplo de vida, como fica claro na tradução brasileira do nosso hino: “A vós, Jesus, que pelo exemplo a vida santa nos mostrais”.(pílulasliturgicas)

O hino conclui envolvendo toda a Trindade no louvor: 
quique cum summo Genitóre et almo Flámine regnas. Amen”; 
“Tu que reinas com o Pai Altíssimo e o Espírito que dá vida. Amém”.

Como vimos acima, o adjetivo “almus”, aplicado a Cristo na 3ª estrofe, é agora usado para qualificar o Espírito como “benigno”, “santo”, “aquele que dá a vida”.



II


Adoremos o Filho do Deus vivo, que se dignou tornar-se filho de uma família humana” [1].

Como vimos, essa Festa possui três hinos próprios para a Liturgia das Horas, oração oficial da Igreja para a santificação das horas do dia:

I e II Vésperas: O lux beáta caelitum (Ó luz bendita dos céus);

Ofício das Leituras: Dulce fit nobis memoráre parvum  (A vida oculta de Jesus);

Laudes: Christe, splendor Patris (Ó Cristo, luz do Pai).

Começamos pelo hino das Vésperas (oração da tarde), O lux beáta caelitum (Ó luz bendita dos céus):

I e II Vésperas: O lux beáta caelitum

O lux beáta caelitum
et summa spes mortálium,
Iesu, cui doméstica
arrísit orto cáritas;

María, dives grátia,
o sola quae casto potes
fovére Iesum péctore,
cum lacte donans óscula;

Tuque ex vetústis pátribus
delécte custos Vírginis,
dulci patris quem nómine
divína Proles ínvocat:

De stirpe Iesse nóbili
nati in salútem géntium,
audíte nos, qui súpplices
ex corde vota fúndimus.

Qua vestra sedes flóruit
virtútis omnis grátia,
hanc detur in domésticis
reférre posse móribus.

Iesu, tuis oboediens
qui factus es paréntibus,
cum Patre summo ac Spíritu
semper tibi sit glória. Amen [2].

Sagrada Família (Giuseppe Riva - séc. XIX-XX)

I e II Vésperas: Ó luz bendita dos céus

Ó luz bendita dos céus,
dos homens suma esperança.
Jesus, o amor da família
sorriu a vós em criança.

Maria, cheia de graça,
só vós podeis apertar
Jesus ao peito e, com beijos,
materno leite lhe dar.

E vós, ó guarda da Virgem,
feliz eleito dos céus,
o doce nome de Pai
vos deu o Filho de Deus.

Da nobre raiz de Jessé,
para salvar-nos nascidos,
ouvi as preces humildes
dos corações redimidos.

A flor da graça e virtude
em vossa casa nascida,
se reproduza nas nossas,
para enfeitar nossa vida.

Jesus, quisestes ser filho
obediente a seus pais.
A vós, ao Pai e ao Espírito
louvor e glória eternais [3].

Comentários

Sendo celebrada em um domingo, a Festa da Sagrada Família começa com a oração das I Vésperas, na tarde do dia anterior [4]. Tanto nas I quanto nas II Vésperas nos é proposto o hino O lux beáta caelitum, que, como vimos, teria sido composto pelo Papa Leão XIII em 1893.

Este hino já estava presente, portanto, no Breviarium Romanum anterior à reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, após o Papa Bento XV (†1922) estender a Festa da Sagrada Família para toda a Igreja de Rito Romano em 1920.(pílulasliturgicas)

O hino originalmente possuía sete estrofes, sendo que a 5ª estrofe fazia referência ao pôr-do-sol: Dum sol redux ad vesperum... [5]. Esta foi suprimida pela reforma litúrgica, permanecendo portanto seis estrofes, como veremos a seguir.(pílulasliturgicas)

Papa Leão XIII, autor do hino

1ª estrofe:

As primeiras três estrofes são uma invocação a cada um dos três membros da Sagrada Família: Jesus, Maria e José.(pílulasliturgicas)

Jesus é invocado primeiramente com duas expressões poéticas: “lux beáta caelitum” (luz bem-aventurada dos céus) e “summa spes mortálium” (suma esperança dos mortais). A antítese céu-terra, expressa nessas duas imagens, é recorrente não apenas nos hinos cristãos, mas de várias tradições religiosas.(pílulasliturgicas)

Destacamos a imagem de Cristo como “Luz”, presente, por exemplo, na literatura joanina (cf. Jo 1,1-10; 8,12; 12,46; 1Jo 1,5-7; Ap 21,23). Quanto ao termo “beáta”, este pode ser traduzido tanto como “bendita”, isto é, “portadora de bênção”, quanto como “bem-aventurada”.

A Sagrada Família, com efeito, é modelo daquele caminho das bem-aventuranças delineado no Evangelho (cf. Mt 5,3-12). Nas palavras do Papa Francisco, as bem-aventuranças “delineiam a face do próprio Jesus, o seu estilo de vida” (Catequese do dia 29 de janeiro de 2020; cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 1716-1717).(pílulasliturgicas)

Os dois últimos versos da estrofe, por fim, recordam o mistério da Encarnação, através do qual o Senhor foi acolhido no amor da família: “Iesu, cui doméstica arrísit orto cáritas” - “Jesus, em cujo nascimento o amor familiar sorriu”.(pílulasliturgicas)

A tradução espanhola exprime a mesma ideia com palavras ligeiramente distintas: “no quisiste nacer desposeído del calor humano de un hogar” - “não quiseste nascer sem o calor humano de um lar” [6].(pílulasliturgicas)

A Sagrada Família sorrindo
(Gerard van Honthorst - séc. XVII)

2ª estrofe:

Após a estrofe dirigida a Cristo, seguem-se os versos à sua Mãe. Esta é saudada primeiramente com um eco às palavras do anjo: “Alegra-te, cheia de graça...” (Lc 1,26). No hino de Leão XIII, com efeito, a Virgem Maria é invocada como “dives grátia”, rica de graça.

Os outros três versos da estrofe dedicam-se a louvar o seu afeto maternal em relação a Jesus: “O sola quae casto potes fovére Iesum péctore, cum lacte donans óscula” - “Ó única que podes acalentar Jesus em casto peito, dando-lhe beijos junto com o leite”.(pílulasliturgicas)

A devoção à “Virgo Lactans”, isto é, a Maria amamentando o Menino Jesus, está relacionada sobretudo à “Gruta do leite” em Belém. No final da Idade Média, com efeito, a “Madonna del Latte” era um tema recorrente na arte sacra.(pílulasliturgicas)


3ª estrofe:

Por fim, concluindo a tríade de membros da Sagrada Família, a próxima estrofe invoca São José.(pílulasliturgicas)

Este é primeiramente invocado como o último e maior dos Patriarcas, pois foi “escolhido como guardião da Virgem” (delécte custos Vírginis) “entre os antigos pais” (ex vetústis pátribus).

O nosso santo, com efeito, é invocado como “Casto guardião da Virgem” (Custos pudice Virginis) na Ladainha de São José aprovada pelo Papa São Pio X em 1909. Em 2021, o Papa Francisco acrescentou sete inovações, dentre as quais “Guardião do Redentor” (Custos Redemptoris), expressão que remete a São João Paulo II.(pílulasliturgicas)

A Virgem Maria amamenta o Menino, tendo junto a si São José, guardião de ambos
(Francisco de Zurbarán - séc. XVII)

É a relação de José com Jesus, pois, que é celebrada nos dois versos seguintes do nosso hino: “dulci patris quem nomine divína Proles ínvocat” - “a quem o Filho Divino chama com o doce nome de pai”.(pílulasliturgicas)

A expressão remete-nos ao Hino das Laudes da Solenidade de São José, Esposo de Maria (19 de março), Caelitum, Ioseph, decus. A 2ª estrofe desse hino indica que o Criador “quis que o Verbo chamasse José de pai” (voluítque Verbi te patrem dici).

Embora não fosse seu pai no sentido biológico, José amou Jesus com um coração de pai, como atesta São João Paulo II em sua Exortação Apostólica Redeptoris Custos, afirmando a dimensão afetiva da paternidade de José (n. 08). 
A mesma expressão abre a Carta Apostólica “Patris Corde”, promulgada pelo Papa Francisco em 2020:  “Com coração de pai: assim José amou Jesus”.(pílulasliturgicas)


4ª estrofe:

Uma vez invocados Jesus, Maria e José nas primeiras estrofes, a 4ª e a 5ª compõem uma súplica aos três, “nascidos da nobre estirpe de Jessé para a salvação das nações” (De stirpe Iesse nóbili nati in salútem géntium).(pílulasliturgicas)

Jessé era o pai do rei Davi, de cuja descendência viria o Messias (cf. Is 11,1). Embora o Evangelho atribua explicitamente a descendência de Davi apenas a José (Mt 1,1-17; Lc 1,27; 3,23-38), é razoável supor que Maria fosse da mesma tribo, uma vez que era costume que a mulher casasse com um homem da mesma tribo do seu pai (cfNm 36).(pílulasliturgicas)

Jesus, portanto, recebe a “descendência davídica” através de Maria por geração segundo a carne, e através de José por adoção segundo a Lei.

Cumpre notar que o nascimento dos três membros da Sagrada Família é indicado como tendo acontecido “para nossa salvação”. A Jesus isso se aplica em sentido próprio (cf. Mt  1,21; At 4,12; Credo Niceno-Constantinopolitano: “E por nós homens e para nossa salvação desceu dos céus...”), enquanto a Maria e a José em sentido relativo, como “servos” ou “ministros da salvação”.(pílulasliturgicas)

Nos dois versos seguintes da 4ª estrofe se formula a súplica propriamente dita: “audíte nos, qui súpplices ex corde vota fúndimus”, que poderia ser traduzida como: “Ouvi-nos, a nós que, suplicantes, de coração vos dirigimos nossas preces”.(pílulasliturgicas)

A Sagrada Família rodeada por uma coroa de flores,
remetendo-nos às virtudes que "floresceram" em seu lar
(Frans Francken II - séc. XVI-XVII)

5ª estrofe:

A 5ª estrofe prossegue e conclui a súplica invocando as virtudes da Sagrada Família, modelo para as famílias cristãs, “tema” central nas orações da Missa da Festa como já indicado no Breve Neminem Fugit de Leão XIII:

Qua vestra sedes flóruit virtútis omnis grátia, hanc detur in domésticis reférre posse móribus” - “Que a vossa casa, que pela graça floresceu com todas as virtudes, seja modelo dos costumes (comportamentos) das nossas famílias”.(pílulasliturgicas)

6ª estrofe:

Por fim, como de costume nos hinos da Liturgia das Horas, a última estrofe é uma doxologia, isto é, uma breve fórmula de louvor, dirigida à Santíssima Trindade.(pílulasliturgicas)

Os três membros da Sagrada Família, com efeito, unem-se aqui às Três Pessoas Divinas, tendo em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, seu ponto de intersecção (axis mundi, o “centro do mundo”).(pílulasliturgicas)

É a Ele, pois, que o louvor se dirige em primeiro lugar: “Iesu, tuis oboediens qui factus es paréntibus” - “Jesus, que te fizeste obediente a teus pais”. A expressão remete aqui a Lc 2,51: “erat subditus illis”.(pílulasliturgicas)

Nos dois últimos versos, por sua vez, o Filho recebe a mesma adoração e a mesma glória devidas ao Pai e ao Espírito Santo: “cum Patre summo ac Spíritu semper tibi sit glória. Amen” - “Com o Altíssimo Pai e o Espírito, seja sempre dada glória. Amém”.(pílulasliturgicas)





Notas 

[1] “Nihil magis salutare aut efficax familiis christianis cogitari potest exemplo Sacrae Familiae”: Acta Sanctae Sedis, vol. XXV, 1892-1893, p. 14.


[2] CATTOLICI ROMANI: Thesaurus Liturgiae: Inni della «Liturgia Horarum» - 2. Proprium de Sanctis & Communia.


[3] OFÍCIO DIVINO. Liturgia das Horas segundo o Rito Romano. Tradução para o Brasil da segunda edição típica. São Paulo: Paulus, 1999, v. I, p. 380.


[4] CATHOLIC CORNUCOPIA: The Hymns of the Breviary and Missal: Sacra jam splendent.


[5] RITUAL DE BÊNÇÃOS. Tradução portuguesa da edição típica para o Brasil. São Paulo: Paulus, 1990, p. 220.


[6] AROCENA, Félix. Los himnos de la Liturgia de las Horas. Madrid: Ediciones Palabra, 1992, p. 122.



Fonte 



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