INÍCIO

06 maio 2023

A SOLIDARIEDADE DA FAMÍLIA MARX

A SOLIDARIEDADE DA FAMÍLIA MARX

Wesley Carvalho, de Niterói (RJ)
Publicado em: 03/05/2023

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Não é possível pensar a militância de Marx em separado à das mulheres de sua família, que funcionava como uma permanente célula revolucionária. E um aspecto central não só dessa militância, mas da vida mesmo dessa casa, foi a incessante prática da solidariedade. Necessidade do movimento de trabalhadores, a solidariedade foi escolha de vida de Karl e Jenny no momento em que abraçaram a causa do proletariado, rejeitando o caminho natural de serviços ao Estado prussiano (que tentou ativamente cooptá-los pelo menos três vezes e onde Jenny tinha um irmão ministro). Em Paris, Bruxelas, Colônia e Londres, a camaradagem foi qualidade constante da família que sonhou e confiou no futuro erguido pela classe cujo presente eles viam marcado por cansaço, violência, doença e exílio. 

Casal Marx.

Depois de poucos dias da chegada a Londres em 1849 para viver os anos mais horríveis de miséria, a primeira iniciativa da casa foi organizar um comitê de apoio aos refugiados alemães expulsos após a derrota da revolução, alguns dormindo nas ruas. Marx percorria a cidade levantando fundos, além de buscá-los em outros países. Organizaram refeitório e alojamento comunitários, além de oficina para emigrados praticarem seus ofícios. Quinhentas famílias foram ajudadas! Por uma questão de orgulho, os Marx não eram beneficiários com os pagamentos, dependendo da mobilização de outros camaradas. Cerca de 20 anos mais tarde, a família continuava um centro assistencial. Eleanor dizia que sua casa funcionava como um hotel recebendo os exilados depois do massacre contra a Comuna de Paris, alguns com não muito mais que a roupa do próprio corpo. O trabalho dos Marx era lhes fornecer teto e refeição em sua casa, encaminhá-los a abrigos, conseguir-lhes escolas, empregos e passaportes. 

A preocupação não era só com os que batiam à porta. No início dos anos 50, comunistas foram presos em Colônia pelas atividades durante o período revolucionário. Da Inglaterra, Marx passou meses trabalhando sem descanso e de forma febril (literalmente), organizando a defesa jurídica dos seus companheiros e buscando influenciar positivamente a opinião pública de diversas partes. A casa dos Marx era onde se reunia o grupo que produzia contra-argumentos à acusação e ia atrás de evidências para provar a inocência dos companheiros fazendo análises de caligrafia, colhendo depoimentos de donos de bares na Alemanha, etc.. A fumaça de tantos charutos certamente fazia mal às crianças, mas a camaradagem e o trabalho coletivo que assistiam formou-lhes a personalidade. O grupo também levantou fundos para ajudar a família dos presos. No final, os acusados de Colônia foram condenados, mas todos continuaram ativos politicamente depois de saírem da prisão, um deles, ironicamente, se tornaria prefeito da mesma cidade que o prendera.




Em 1869, Jennychen, a filha mais velha, assumia a tarefa de defender prisioneiros políticos irlandeses que estavam sendo torturados na Inglaterra. Ela acabou virando a mesa na história. Tendo acesso a uma carta contrabandeada para fora da prisão, ela pode quebrar as mentiras do governo britânico sobre o tratamento dos irlandeses revelando que eles eram obrigados a comer de joelhos, sofriam espancamentos, eram amarrados com coleiras a carroças, faziam trabalhos forçados, entre outros horrores. Vinte haviam morrido em decorrência. O trabalho de Jennynchen foi importante para que mesmo meios progressistas parassem de ignorar o que acontecia. Um de seus artigos foi republicado em vários espaços mainstream da Europa e dos EUA. Mais que isso, esse texto de Jennychen provocou declaração pública do governo britânico e pautou o parlamento, que demandou ao primeiro-ministro Gladstone uma investigação sobre o que ocorria nas prisões. Sobre toda essa repercussão, Engels escreveu a Marx: “Jenny[chen] pode berrar: vitória em todas as frentes!”

Nesse 5 de maio de 2023, parabéns, Karl, pelo aniversário, e não esqueça de mandar meu abraço pra Jenny, Lenchen, Jennychen, Laura, Tussy e o general. Viva a solidariedade comunista, uma prefiguração do mundo que iremos construir.

Friedrich Engels e Karl Marx, com Jenny, Eleanor e Laura Marx, 1864 

Friedrich Engels e Karl Marx, com Jenny, Eleanor e Laura Marx, 1864 
(foto colorida a mão)





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MARX, O GRANDE LUTADOR PELA LIBERDADE 

Karl Marx nasceu em 5 de maio de 1818. 202 anos depois, sem pensamento continua vivo e ilumina a luta anticapitalista e pela libertação da humanidade


No dia 5 de maio de 1818 nasceu, em Tréveris, na Prússia (Alemanha), o terceiro dos nove filhos do casal Henriette Pressburg e Heinrich Marx, uma família recém convertida ao luteranismo para escapar das restrições que existiam contra aqueles de ascendência judaica. 

O menino recebeu o nome de Karl Heinrich Marx, que viria a ser, depois de adulto, o militante, dirigente e pensador que mudaria e faria avançar os rumos da luta social do proletariado, da luta política e revolucionária pelo avanço da humanidade, tudo isso orientado pelo pensamento materialista e dialético fundado por ele.

Seus interesses como pensador podem ser resumidos no verso do poeta latino Terêncio (Publius Terentius Afer c. 195/185 – c. 159? a.C), que citou em resposta a um questionamento apresentado por uma de suas filhas adolescentes: “Nada do que é humano me é estranho”. “Homo sum, humani nihil a me alienum puto”, ou "Eu sou humano, e nada que é humano é estranho para mim.” citação que apareceu em sua peça “Heauton Timorumenos”.

Definiu dessa maneira o amplo leque de temas que seriam estudados por ele ao longo da vida, filosofia, política economia, sociedade, história, artes, literatura, poesia, a extensa lista dos assuntos humanos. 

Tudo isso enfeixado na preocupação central de compreender a vida humana, a ação prática e suas consequências, práxis definida em essência como o trabalho, na luta contra todas as formas de opressão, para libertar os homens e as mulheres de toda opressão, na evolução para a libertação da humanidade, como apresentou sobretudo em sua obra principal, “O Capital”.

Luta na qual, sob o capitalismo, o proletariado tem papel central por representar, como a classe oprimida pela burguesia, nas relações de trabalho e na sociedade, a força capaz de romper com a situação atual de opressão e liberar toda a humanidade, tornando possível a todos os seres humanos alcançarem a plenitude de suas potencialidades. 

No pensamento de Marx, o esforço coletivo, social, levará ao fim do império da necessidade, abrindo à humanidade o reino da liberdade.

Nessas condições, Karl Marx, que teria completado 205 anos em 5 de maio de 2023, se tornou o grande e genial teórico da revolução proletária e socialista que marca a história da humanidade desde meados do século XIX, o grande pensador da revolução, desde os levantes populares na Europa em 1848 (ano da publicação de uma de suas grandes obras políticas, o “Manifesto do Partido Comunista”), a Comuna de Paris (1871), até as históricas revoluções do século XX (iniciando com a Revolução Russa de 1917). 

Seu pensamento continua vivo e atuante, orientando a resistência anticapitalista, revolucionária e socialista nestas décadas iniciais do século XXI. 

Seu grande amigo e colaborador, cofundador do materialismo moderno, Friedrich Engels, definiu-o, no discurso que pronunciou ante sua tumba, em 17 de março de 1883, dizendo que Marx foi, “antes de tudo, um revolucionário. Sua verdadeira missão na vida era contribuir, de um modo ou de outro, para a derrubada da sociedade capitalista e das instituições estatais por esta suscitadas, contribuir para a libertação do proletariado moderno, que ele foi o primeiro a tornar consciente de sua posição e de suas necessidades, consciente das condições de sua emancipação. A luta era seu elemento.” 

Engels acertou nessa definição, Marx nunca deixou de ser um lutador pela libertação do proletariado e da humanidade das amarras da opressão.

Filhas de Karl Marx: Jenny Caroline Marx, Laura Marx, Jenny Eleanor Marx. E sua esposa, Johanna Bertha Julie von Westphalen, cercando-o.


CLÁSSICO 

Karl Marx, Max Weber Emile Durkheim, o tripé da sociologia. 

Antecedentes históricos

Desde o século XIV, a Europa presenciava uma ascensão cada vez maior de uma nova classe social: a burguesia. A Reforma Protestante, ocorrida no século XV, e uma nova visão de mundo, menos dominada pela lógica católica medieval, permitiram o crescimento ainda maior dessa nova classe social. Os séculos XVI e XVII presenciaram diversas mudanças sociais, como as revoluções científicas e a Revolução Inglesa.

No século XVIII, a independência das Treze Colônias, que resultou na fixação do antigo território inglês como os Estados Unidos da América, um país republicano democrático, e a Revolução Francesa deram os indícios práticos da falência do Antigo Regime (o absolutismo). O iluminismo francês — movimento filosófico e político representado por Montesquieu e Voltaire, por exemplo — também deu sinais de que o povo europeu não aceitava mais o absolutismo como um regime político legítimo."

Na passagem do século XVIII para o XIX, a Europa viu-se diante de uma crise política e social: a França estava sob instabilidade e caos político deixados pela revolução, além do que a Revolução Industrial causou uma intensa mudança na configuração espacial da Europa, em especial da Inglaterra, que saiu à frente na industrialização. Houve um intenso e repentino êxodo rural em cidades agora industrializadas, o que causou caos social por conta da onda de miséria, do alastramento de doenças e da consequente violência crescente nos centros urbanos.

August Comte (a esquerda) ao lado do tripé da sociologia 
(Durkheim, Marx e Weber)

Diante dessa situação, o filósofo francês Auguste Comte colocou-se a falar sobre a necessidade de mudar-se radicalmente os rumos que a sociedade estava tomando. Para o filósofo, era necessário reestabelecer a ordem para que a França retomasse seu crescimento. Essa ordem somente poderia ser atingida por uma rígida organização da sociedade (tão rígida quanto requerem os padrões militares) e pela valorização do cientificismo.


Auguste Comte é considerado o “pai” da sociologia

A ciência, para Comte, é a principal chave de crescimento intelectual e moral da sociedade. Para intervir de forma eficaz nesta, seria necessário entender como ela se estrutura, o que seria possível por meio de uma ciência que se colocasse a analisá-la. Primeiramente, o nome dessa ciência, na teoria de Comte, seria física social. Era necessário que ela tomasse um rigor metodológico para si assim como as ciências da natureza. Mais tarde, Comte nomeou a sua ciência de sociologia. Todo esse conjunto teórico do filósofo tornou-se uma espécie de movimento político e social que ficou conhecido como positivismo.


Sucessores de Auguste Comte

Apesar de ter enunciado pela primeira vez a necessidade de construir-se uma ciência que estudasse a sociedade, Comte não desenvolveu um método para que ela funcionasse, tampouco conseguiu galgar as abstrações filosóficas as quais ele dizia ter de superar em seus trabalhos. 

Quem identificou isso foi o sociólogo francês Émile Durkheim, considerado o primeiro especialista dessa área (o primeiro sociólogo) por ter sido o primeiro a desenvolver um método e ir a campo para compreender as estruturas sociais. Durkheim também introduziu a sociologia nos currículos acadêmicos de cursos superiores.

Antes dele, Karl Marx já despontava com seu método materialista histórico dialético de análise social. Apesar da validade do método para a compreensão das estruturas sociais e econômicas como um todo, ele não desenvolveu um trabalho de campo que permitisse uma profunda compreensão de todos os aspectos da sociedade de maneira rigorosa e complexa, o que fez com que Durkheim tomasse o posto de primeiro sociólogo.

Por último na formação dessa tríade da sociologia clássica, temos o sociólogo, jurista e político alemão Max Weber. 

Max Weber propôs um método e um olhar sociológico bastante diferentes do que foi proposto por Durkheim e por Marx. A sua importância histórica dá-se, justamente, pela visão inovadora que ele trouxe à sociologia.

Para resumir o posicionamento dos autores clássicos, podemos dizer que Durkheim e Weber são conservadores, defensores do capitalismo, enquanto Marx é favorável a uma revolução para derrubar de vez esse sistema. 


Como os autores clássicos da sociologia definem as divisões sociais

Cada autor clássico da sociologia entendia a sociedade com base em uma visão diferente e peculiar. Auguste Comte via-a como uma complexidade que deveria ser abordada pelo positivismo, tendo em mente sempre o progresso e o cientificismo. As classes sociais resultantes do capitalismo seriam menos desiguais com o progresso e o ordenamento geral da sociedade.

Para Karl Marx, a sociedade tinha herdado do capitalismo a divisão em classes sociais, o que resultou numa profunda desigualdade social. Para ele existem duas classes sociais: burguesia e proletariado. A burguesia seria a classe detentora dos meios de produção (fábricas), enquanto o proletariado seria detentor apenas de sua força de trabalho, usurpada pela burguesia via trabalho assalariado.

Para Émile Durkheim, a sociedade é um todo organizado com base em suas funções. O método proposto por ele, o funcionalismo, visa entender as funções de cada indivíduo na sociedade a fim de compreendê-la como um todo.

Émile Durkheim é considerado o primeiro sociólogo.
Max Weber, por sua vez, visou compreender a sociedade como um todo complexo de várias ações sociais diferentes. Cada indivíduo agiria de uma forma diferente, e, para saber como essas ações ordenam-se, seria necessário estabelecer-se um parâmetro. Os parâmetros seriam os tipos ideais.


Principais sociólogos clássicos e suas teorias

Segue-se um resumo das teorias dos principais teóricos clássicos da sociologia:


Karl Marx
O materialismo histórico dialético de Marx compreende que a história da humanidade está baseada numa relação dialética entre classes sociais. No caso do capitalismo, a divisão dá-se entre burguesia e proletariado. A produção material, resultado do trabalho, é o principal elemento constitutivo da sociedade.

Para Marx, a relação entre as duas classes é injusta, e é necessário, em sua visão, que haja uma revolução da classe proletária para dominar os meios de produção por meio do estabelecimento de uma ditadura do proletariado. Essa ditadura, de cunho socialista, tenderia a eliminar de vez a diferenciação de classes sociais, resultando no comunismo.

Émile Durkheim
A sociedade é um todo complexo ordenado por fatos e regido por funções que são os motes para entendê-la. Segundo Durkheim, além da compreensão das funções, deveria haver, por parte do sociólogo, uma compreensão dos fatos que regem as diferentes sociedades, pois eles são fixos. Em suas palavras, tais fatos são externos ao indivíduo, coercitivos e generalizantes, o que faz com que sejam a única opção de entendimento concreto e científico da sociedade.

Max Weber
O sociólogo alemão Max Weber discordou de maneira veemente da teoria sociológica de Durkheim. Para aquele, não existem fatos sociais, mas ações sociais que são individuais. O papel do sociólogo é compreender o funcionamento da sociedade pelo entendimento das ações sociais individuais via método compreensivo. Para que não houvesse uma falta de rigor científico na análise, seria necessário compreender uma espécie de padrão esperado de comportamento social. A esses padrões, Weber chamou de tipos ideais, que são o padrão de entendimento social.


Os pensadores clássicos da sociologia são considerados clássicos por criarem as primeiras bases dessa ciência são eles o filósofo e economista alemão Karl Marx, o sociólogo francês Émile Durkheim e o sociólogo, teórico político alemão Max Weber.



Algumas frases de Marx 

É certo que as armas da crítica não podem substituir a crítica das armas, que o poder material tem de ser derrubado pelo poder material, mas a teoria converte-se em força material quando

penetra nas massas. A teoria é capaz de se apossar das massas ao demonstrar-se ad hominem e demonstra-se ad hominem logo que se torna radical. Ser radical é agarrar as coisas pela raiz. Mas, para o homem, a raiz é o próprio homem. 
(Karl Marx, 1843-1844)

Nunca a ignorância ajudou a quem quer que fosse!
(Karl Marx, 1846)

Se não encontrássemos veladas na sociedade, tal como ela é, as condições materiais de produção e as correspondentes relações de intercâmbio para uma sociedade sem classes, todas as tentativas para explodi-la seriam quixotescas. 
(Karl Marx, 1857)

As relações de produção burguesas são a última forma antagônica do processo de produção social, antagônica não no sentido de um antagonismo individual, mas de um antagonismo que nasce das condições de existência sociais dos indivíduos; as forças produtivas que se desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais para resolver esse antagonismo. Com essa formação social termina, pois, a pré-história da sociedade humana. 
(Karl Marx, 1859).



Referências


“Amor & Capital”, de Mary Gabriel

“Karl Marx: a nineteenth-century life”, de Jonathan Sperber







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