INÍCIO

29 janeiro 2023

A SOCIEDADE PRECISA DEBATER A DEFESA NACIONAL

A SOCIEDADE PRECISA DEBATER A DEFESA NACIONAL

Lula terá problemas para comandar as Forças Armadas, 
mas é preciso estabelecer diretrizes

Manuel Domingos Neto
Publicado em Brasil de Fato
25.01.2023


Comandar corporações pressupõe estabelecer-lhes diretrizes e escolher os responsáveis por sua implementação. A autonomia corporativa deve ser concedida no limite do cumprimento das missões recebidas.

Repiso o ensinamento universal e atemporal: chefias de Estado, ou enquadram aparelhos de força ou serão por eles enquadrados. Chefes de Estado não atendem as fileiras; as fileiras devem atendê-los.

Lula precisa assumir o comando das Forças. Neste ambiente de redefinição da hegemonia internacional, crescem os anúncios de guerra. O Brasil será afetado e Defesa Nacional não se improvisa.

Ademais, não há outra forma de conter o aberrante ativismo político das fileiras senão atribuindo-lhes missões desafiadoras. Atarefados com seus afazeres profissionais, os generais terão menos tempo para a militância política. Não se empenharão em doideiras, como a de usar um inqualificável para ascender ao mando e implementar suas proposições.

A coletânea que organizei recentemente, “Comentários a um delírio militarista”, mostra a perversidade que os políticos fardados programaram para o Brasil. Uma derrota eleitoral apertada atrapalhou a implementação de seus planos.

No susto, Lula deu seus primeiros passos rumo ao Comando. No vilipêndio de 8 de janeiro, o Presidente não contou com as Forças para o restabelecimento da ordem. Reconheceu que não exerce o comando. Foi o primeiro passo para superar uma inconstitucionalidade gritante.

No segundo passo, Lula firmou uma preliminar irrecorrível, declarando que Forças Armadas não constituem poder moderador.

O terceiro passo foi a demissão do comandante do Exército. O momento mais adequado para essa decisão teria sido no domingo infame. Os brasileiros e o mundo todo abominaram o vandalismo da extrema-direita. Lula detinha, então, o máximo de legitimidade para agir. As cúpulas militares não o afrontariam.

O general Arruda e seus comandados ou foram cúmplices ou fracassaram na defesa dos símbolos nacionais que juraram defender. Portassem sentimento de honra militar, teriam pedido demissão na noite do domingo.

Desconheço os motivos de Lula para nomear o general Tomás como novo comandante. Nunca estive com esse general. Ocorreu-me que a escolha de um oficial mais moderno sinalizaria melhor a autoridade presidencial. Mas achei sensatas as ponderações favoráveis ao escolhido.

No mais, a escolha do novo comandante tem importância limitada: não há diferenças substanciais entre os integrantes da alta hierarquia. Por ação ou omissão, todos participaram do jogo que resultou no governo mais sinistro da história republicana. Todos os passaram pelo mesmo crivo político-ideológico para ascender hierarquicamente. Todos foram embebidos de ultraconservadorismo. Todos assimilaram a história escrita sob a ótica do quartel. Todos repelem mudanças sociais que afetem as estruturas orgânicas e funcionais de suas corporações. Todos querem uma sociedade à seu gosto.

Democratas aplaudiram o discurso do general Tomás diante de sua tropa. Nem sabiam que esse militar reproduzia disciplinadamente a posição do comandante Arruda. Para mim, o general Tomás devia ter se calado. Não cabe naturalizar discursos políticos de funcionários armados.

No mais, a fala do hoje comandante do Exército foi incoerente: referiu-se a “terremoto político” como se nada tivesse a ver com isso. É difícil classificar como “legalista” quem abonou contestações ao processo eleitoral e agasalhou golpistas nos perímetros de segurança dos quartéis sob seu comando.

Os próximos passos de Lula rumo ao comando das Forças Armadas serão difíceis. É extensa a lista de integrantes da “família militar” envolvidos nos atentados à democracia. Como reagirá o comandante do Exército vendo os seus prestando contas à polícia?

Porém, o passo definitivo para que Lula assuma o comando será o estabelecimento de diretrizes para a Defesa Nacional. Nesta matéria, as corporações pontificaram desde sempre e fracassaram. Em que pese o grande volume de recursos públicos empregados ao longo de séculos, não detemos capacidade de proteger nosso espaço territorial, marítimo, aéreo e cibernético do estrangeiro cobiçoso.

Lula quer “cuidar do povo brasileiro”. Os cuidados compreendem a Defesa Nacional. Trata-se de política pública que, por sua abrangência e sua complexidade, não pode ser entregue aos que se preparam para o combate. É matéria eminentemente política. Envolve todos os domínios do Estado e da sociedade. Merece a convocação de uma conferência nacional.

A quebra do monopólio castrense na definição das iniciativas demandadas para Defesa alongaria a lista de ineditismos de Lula. Nenhum outro presidente eleito democraticamente conseguiu comandar as Forças Armadas. Nessa matéria, todos obedeceram aos comandos militares.

Convocar lideranças políticas, parlamentares, cientistas, empresários, diplomatas, jornalistas, procuradores, delegados, policiais militares, representantes dos povos originários e líderes comunitários para conferir Defesa Nacional e oferecer sugestões será o passo decisivo de Lula para assumir o comando das Forças Armadas.

Os generais agradecerão, já que sempre reclamaram da falta de envolvimento da sociedade nos assuntos de Defesa.



Manuel Domingos Neto
Doutor em História pela Universidade de Paris. Ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED). Foi vice-presidente do CNPq.

Publicado em Brasil de Fato, 25/jan/2023.





A DEMOCRACIA EM RISCO

Frei Betto
24/jan/2023
Instituto Humanitas Unisinos
(ihu)

 
Não nos iludamos de novo: nossa frágil democracia continua em risco. Recordo do governo João Goulart e suas propostas de reformas de base, ao início da década de 1960. As Ligas Camponeses levantavam os nordestinos. Os sindicatos defendiam com ardor os direitos adquiridos no período Vargas. A UNE era temida por seu poder de mobilização da juventude. 

Era óbvia a inquietação da elite brasileira. Passou a conspirar articulada no IBAD, no IPES e outras organizações, até eclodir nas Marchas da Família com Deus pela Liberdade. Contudo, o Partido Comunista Brasileiro tranquilizava os que sentiam cheiro de quartelada, acreditava-se que Jango se apoiava num esquema militar nacionalista. 

E, no entanto, em março de 1964 veio o golpe militar. Jango foi derrubado, a Constituição, rasgada; as instituições democráticas, silenciadas; e Castelo Branco empossado sem que os golpistas disparassem um único tiro. Onde andavam “as massas” comprometidas com a defesa da democracia?

Conheço bem o estamento militar. Sou de família castrense pelo lado paterno. Bisavô almirante, avô coronel, dois tios generais e pai juiz do tribunal militar (felizmente se aposentou à raiz do golpe). 
Essa gente vive em um mundo à parte. Sai de casa, mas não da caserna. Frequenta os mesmos clubes (militares), os mesmos restaurantes, as mesmas igrejas. Muitos se julgam superiores aos civis, embora nada produzam. Têm por paradigma as Forças Armadas nos EUA e, por ideologia, um ferrenho anticomunismo. Por isso, não respeitam o limite da Constituição, que lhes atribui a responsabilidade de defender a pátria de inimigos externos. Preocupam-se mais com o s “inimigos internos”, os comunistas. 

Embora a União Soviética tenha se desintegrado; o Muro de Berlim, desabado; a China, capitalizada; tudo que soa como pensamento crítico é suspeito de comunismo. Isso porque nas fileiras militares reina a mais despótica disciplina, não se admite senso crítico, e a autoridade encarna a verdade. 

O Brasil cometeu o erro de não apurar os crimes da ditadura militar e punir com rigor os culpados de torturas, sequestros, desaparecimentos, assassinatos e atentados terroristas, ao contrário do que fizeram nossos vizinhos Uruguai, Argentina e Chile. Assistam ao filme “Argentina,1985”, estrelado por Ricardo Darín e dirigido por Santiago Mitre. Ali está o que deveríamos ter feito. O resultado dessa grave omissão, carimbada de “anistia recíproca”, é essa impunidade e imunidade que desaguou no deletério governo Bolsonaro.

Não concordo com a opinião de que só nos últimos anos a direita brasileira “saiu do armário”. Sem regredir ao período colonial, com mais de três séculos de escravatura e a dizimação de indígenas e da população paraguaia numa guerra injusta, há que recordar a ditadura de Vargas, o Estado Novo, o Integralismo, a TFP e o golpe de 1964. 

O altissonante silêncio dos militares perante os atos terroristas perpetrados por golpistas a 8 de janeiro deve nos fazer refletir. Cumplicidade não se consuma apenas pela ação; também por omissão. Mas não faltaram ações, como os acampamentos acobertados pelos comandos militares em torno dos quartéis e a atitude do coronel da guarda presidencial que abriu as portas do Planalto aos vândalos e ainda recriminou os policiais militares que pretendiam contê-los. 

“O preço da liberdade é a eterna vigilância”, reza o aforismo que escuto desde a infância. Nós, defensores da democracia, não podemos baixar a guarda. O bolsonarismo disseminou uma cultura necrófila inflada de ódio que não dará trégua à democracia e ao governo Lula. 

Nossa reação não deve ser responder com as mesmas moedas ou resguardar-nos no medo. Cabe-nos a tarefa de fortalecer a democracia, em especial os movimentos populares e sindicais, as pautas identitárias, a defesa da Constituição e das instituições, impedindo que as viúvas da ditadura tentem ressuscitá-la.

O passado ainda não passou. A memória jamais haverá de sepultá-lo. Só quem pode fazê-lo é a Justiça.



Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros. 
Livraria virtual: freibetto.org

Artigo publicado em IHU 





ESQUEÇAM O MANÉ DO RELÓGIO 


Por Moisés Mendes 

25/Jan/2023


O Telegram desafia a decisão de Alexandre de Moraes e não tira do ar a conta do deputado Nikolas Ferreira, por considerar que o ministro não usou argumentos convincentes. 


O canal do influenciador Monark no Rumble, uma plataforma de vídeos da extrema direita, ignorou ordem de Moraes para que o sujeito também seja tirado do ar e alegou o mesmo motivo.


Um tio famoso e milionário já atacou o Supremo e citou Moraes, num grupo de golpistas, por achar que ele age em conluio com Lula. Esse tio ataca quem quiser e se mantém impune até hoje.


O Telegram e o Rumble fazem o que querem, e o tio está livre e solto, enquanto o Brasil é hipnotizado por visões periféricas que se transformam em imagens relevantes.

O Brasil vê todos os dias a cena do homem que destruiu o relógio de João VI, enquanto o Telegram e o Rumble desafiam e atacam Moraes.

O tio dá gargalhadas e o Facebook bloqueia milhares de pessoas que publicaram fotos de crianças yanomamis. E o Brasil em êxtase vendo a cena do cara do relógio.


Crianças indígenas nuas são imorais. Mas a fotomontagem da Folha com Lula atingido no peito é apenas amoral e aparece numa boa no Facebook.

E o Facebook e todas as redes, que vivem da audiência do fascismo, nada fazem porque a foto já está consagrada e legitimada pela poderosa Folha como a verdade relativa que deve ser protegida.

O homem do relógio é um bandido comum envolvido com furtos e drogas cooptado pelos manezões. Mas boa parte do Brasil vê naquele sujeito o que ele não representa. 


Aquele cara que o IBGE classificava como pardo, e que hoje pode se autodefinir como negro, com as calças caindo, é o que a própria extrema direita classifica como mané chinelão.

Mas Nikolas Ferreira não é um chinelão. Nem Monark, muito menos o tio do zap. Todos os brancos protegidos por um esquema que vive da audiência do fascismo nunca vão cair na chinelagem.

Nesse cenário, o sujeito do relógio passa a ser, como clichê, a imagem da agressão aos três poderes, porque atacou a relíquia. É pobre e negro.


O sujeito com o extintor é apenas a face mais exposta de uma agressão. Porque os grandes agressores não se expuseram, não ali naquele domingo.

A democracia é ameaçada há muito tempo por um golpista famoso que foi a um restaurante de beira de estrada, onde manés faziam pausa para voltar à luta, e disse que era possível acreditar, ainda havia tempo para o golpe, que existia uma chance.

Depois da eleição, o sujeito incentivava a guerra suja contra a posse de Lula e recomendava: resistam ou fujam para outro país.


E o Brasil está impressionado com o homem pardo ou negro que quebra o relógio. Um auxiliar de mecânico que não faz parte do contingente do que seria o bolsonarista padrão.

O sujeito oculto no ataque às instituições é branco, de classe média ou rico, ressentido e temeroso com a ascensão de pobres com as mesmas feições do homem que quebrou o relógio.

E o líder na base, lá nas comunidades e nos Estados, desse homem de classe média de mais de 50 anos é o manezão milionário.


Ele age desde a eleição de 2018 e ataca o Supremo, Moraes, Lula e as instituições. Atua presencialmente e como miliciano digital.

O homem do relógio é um desvio, um pobre perdido entre brancos com vida estável. Muitos pobres, todos muito parecidos com ele, foram presos.

Gente que não sabia nem o que é cada prédio da Praça dos Três Poderes. Que invadiu o Congresso achando que era o Supremo.


E os homens invisíveis do fascismo, mas nem tão invisíveis assim, não eram vistos em Brasília naquela 8 de janeiro.

Já é cansativo o debate em torno da dúvida que não existe, se Bolsonaro incitou ou não o golpe. É uma conversa diversionista tão falsa quanto a foto de Lula na Folha.

O que estamos pedindo é pouco. Ver a cara dos que não aparecem nas imagens da invasão daquele domingo. E não é a cara de Bolsonaro.


Não há como achar normal que um sujeito pode discursar pelo golpe, sem se preocupar com nada, e que isso possa ser interpretado como outra coisa, como o incentivo a torcedores de um time de futebol da terceira divisão.

É explícito, é óbvio, é ululantemente acintoso. É do golpe que se trata, estúpido.

Foi esse cara, junto com outros manezões, que incitou a tomada de Brasília, depois de estimular os acampamentos e os bloqueios de estradas.


Mas o que temos para o momento é o manezinho do relógio, que nem sabia direito o que fazia. Um criminoso comum, um bandidinho, que atuou ao lado de terroristas profissionais. Mas ele era um mané do terceiro time.

Falta o bandidão que desde muito antes da eleição de 2018 ataca a democracia, acusa Moraes, conspira contra a Constituição e incita o golpe.

Esse sujeito só aparentemente oculto continua ativo, mesmo que sob o disfarce grotesco de que agora é democrata.


Promotores, procuradores, juízes de primeira instância, desembargadores, ministros das altas cortes, todos eles sabem que a cabeça do sujeito oculto foi programada para o modo golpe permanente.

Esse sujeito impune vai se rearticular com os expurgados do poder, de todos os escalões.

E vai continuar conspirando, atacando o Supremo e rindo de todos nós, como faz desde muito antes de 2018.


Fonte 

https://www.blogdomoisesmendes.com.br/48336-2/








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