MEMENTO MORI
Certamente voce já se sentiu imortal, com a força de mil sóis, durável como o universo, eterno e invencível? Sim eu também.
Existe uma forma de arte que pretendia e em parte ainda o faz, lembrá-lo constantemente de que sua morte é impossível de evitar e pode estar prestes a acontecer. Esse tipo e arte se chama "Memento mori" ou "Vanitas".
A Vanitas, como a pintura de Philippe de Champaigne. Vanitas, c. 1671, é um dos temas do gênero da natureza-morta que foi muito comum em toda a Europa no final do século XVI, por todo o século XVII (seu período áureo) e início do século XVIII. O termo Vanitas provém de um versículo do Eclesiastes, que pertence aos chamados livros sapienciais do Antigo Testamento, e parte da ideia de que tudo é vaidade: “Vaidade de vaidades, diz o pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade” (no latim, Vanitas Vanitatum Dixit Ecclesiastes, Vanitas Vanitatum et Omnia Vanitas) (Eclesiastes, 1:2) (Witeck e Moreira, 2012).
Além dessa advertência, ainda há outras. A bíblia em seu primeiro livro, Gênesis, podemos ler: "In sudore vultus tui vesceris pane donec revertaris in terram de qua sumptus es quia pulvis es et in pulverem reverteris". "Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar”. (Liber Genesis; Vulgata Latina).
19 in sudore vultus tui vesceris pane,
donec revertaris ad humum,
de qua sumptus es,
quia pulvis es et in pulverem reverteris”.
20 Et vocavit Adam nomen uxoris suae Eva, eo quod mater esset cunctorum viventium.
21 Fecit quoque Dominus Deus Adae et uxori eius tunicas pelliceas et induit eos.
22 Et ait Dominus Deus: “Ecce homo factus est quasi unus ex nobis, ut sciat bonum et malum; nunc ergo, ne mittat manum suam et sumat etiam de ligno vitae et comedat et vivat in aeternum!”.
23 Emisit eum Dominus Deus de paradiso Eden, ut operaretur humum, de qua sumptus est.
24 Eiecitque hominem et collocavit ad orientem paradisi Eden cherubim et flammeum gladium atque versatilem ad custodiendam viam ligni vitae.
Essa é a máxima da Vanitas: “Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris.” Lembra-te, homem, de que és pó e ao pó voltarás.
Segundo Schneider (2009, p. 79), o fato de a burguesia holandesa pré-capitalista (1630 a 1670) acumular imensas riquezas levou a Igreja a difundir a mensagem de que os bens materiais não significavam mais do que simples vaidade. Este conceito passou a fazer parte da iconografia de numerosas pinturas da época. Essas obras tratavam do tema da vaidade (em latim, Vanitas) e representavam bens de luxo, conforme os novos modelos de consumo em expansão durante o final da Idade Média. Entretanto, o desejo provocado por esses objetos era esmorecido pela figura de um crânio humano, que advertia sobre a leviandade das vaidades do homem e dava ao espectador ideias em relação à brevidade da vida (SCHNEIDER, 2009, p. 79). Assim, essas pinturas chamadas Vanitas tinham um objetivo moralizador, pois funcionavam como uma advertência para a importância dada às vaidades, que se vão junto com a breve vida terrena, ou seja, o homem devia livrar-se desses bens e desejos considerados como vaidades, porque a vida que importava não era aquela vivida na Terra, mas a vida que ele encontraria após a morte, junto a Deus. Este homem deveria voltar-se para Deus durante sua passagem pelo mundo terreno, ignorando bens e desejos mundanos, para, após a morte, alcançar a salvação (Witeck e Moreira, 2012).
Memento mori é uma expressão latina que significa algo como "lembre-se de que você é mortal", "lembre-se de que você vai morrer" ou traduzido literalmente como "lembre-se da morte". Lembra-te de que somos mortais e nada que seja material tem real importância quando não desfrutado com o outro que passa fome, diríamos hoje.
Memento é o imperativo ativo da 2ª pessoa do singular de meminī, "lembrar, ter em mente", geralmente servindo como um aviso: “lembre-se!”. A palavra está ordenando para que lembremos a cada instante da vida, que a morte nos espreita em cada segundo da existência. Mesmo as rochas, e os mundos no cosmo tem um “memento”, todo ente desaparecerá um dia. É não há escapatória.
Morī é o presente infinitivo do verbo depoente morior “morrer”. Em outras palavras, “lembre-se da morte” ou “lembre-se de que você morre”, de que vc é mortal, e nada mudará isso.
[Memento is the 2nd person singular active imperative of meminī, "to remember, to bear in mind", usually serving as a warning: "remember!"
Morī is the present infinitive of the deponent verb morior "to die". In other words, "remember death" or "remember that you die"].
Morī is the present infinitive of the deponent verb morior "to die". In other words, "remember death" or "remember that you die"].
Philippe Champaigne. Vanitas Natureza-Morta com Tulipa e Ampulheta, (c. 1671) metade do século XVII. Museu de Tessé, Le Mans - França
Nesse caso a Vanitas é reduzido a três conceitos fundamentais: Vida, Morte e Tempo, que se resumem na transitoriedade da vida, representado pela caveira no centro da cena pictórica.
A expressão “Memento mori” era a saudação utilizada pelos paulianos “Eremitas de Santo Paulo da França” (1620-1633), também conhecidos como “Irmãos da Morte”.
Todas as obras “Memento mori” são produtos da arte cristã.
A Vanitas como expressão artística, constitui um tipo específico de natureza morta: a caveira e as tíbias figuram como elemento central da composição e são seguidas de outros objetos que simbolizavam as vaidades: da beleza (espelhos de mão, joias, e outros adornos femininos); da riqueza (moedas de ouro e prata e itens valiosos em geral), jarros de prata fina, talheres de prata; da sabedoria (livros, máquinas e mecanismos e instrumentos científicos); das artes (quadros, esculturas, máscaras e instrumentos musicais); e dos prazeres mundanos (os dados e as cartas de baralho de jogo).
Completando o conjunto de simbolismos da temática temos os motivos artísticos que representavam a passagem do tempo e a efemeridade da vida, tais como: as ampulhetas, os cronômetros, as velas apagando-se, os cachimbos ardidos, as taças de vinho derramadas e as bolhas de sabão. As flores murchando e os frutos apodrecendo, eram motivos que tanto simbolizavam a brevidade da vida como a vaidade da efêmera beleza do corpo e sua necessidades cotidianas.
Assim, esqueletos em caixões, caveiras, borboletas, flores e frutas podres, o Ceifador, um baralho de cartas, ampulhetas, buquês de flores e mesas repletas de frutas podres, bolhas de sabão, vela acesa e/ou apagada. Esses são os elementos que foram usados pelos pintores e que eram incluídos nesse tipo especial de natureza morta.
Um retrato ou uma cena bíblica unido a esses elementos simbólicos tinham a função de garantir que você não pudesse escapar de pensar, de lembrar, de ter sempre presente o fato de que você é temporário e está de passagem no mundo e, que um dia sua ampulheta ficará sem areia, (Hosein, 2019); seu jardim não mais florescerá mais, sua taça não receberá vinho e você também apodrecerá e só o que restará será um esqueleto.
Este simbolismo constituíu-se em uma ferramenta poderosa para fazer as pessoas refletirem sobre sua mortalidade e, como consequência, talvez viver suas vidas de maneira um pouco mais saudável, ser uma pessoa melhor ou mais gentil, ou pelo menos ter um momento em que coloque menos ênfase em suas posses e seu status social como uma medida de seu valor no mundo.
Essas obras vieram de um sistema de crença cristão e da ideia de que, se você fosse melhor, seria salvo na vida após a morte. E pode ser por isso que muitos desses memento mori apareceram na arte relacionada a funerais. Quer dizer, que melhor momento para ruminar sobre sua própria morte do que quando você está de luto por outra pessoa?
E embora o termo "memento mori" em si não seja tão comum desde a Inglaterra vitoriana, ainda vemos uma tonelada de arte que tenta comunicar a mesma ideia. Os crânios que você vê na arte do Dia dos Mortos mexicano? Sim, esses são para lembrá-lo de que você vai bater com as botas. Muitas tradições, incluindo o budismo e a cultura zen japonesa, ainda têm obras de arte ou poemas que desempenham a mesma função (Hosein, 2019).
Segundo Hosein (2019), os artistas contemporâneos também fazem isso. Em 2007, o artista britânico Damien Hirst criou uma escultura de um crânio coberto com mais de 8.000 diamantes. Referência pouco sutil.
Os anéis memento mori foram manufaturados a partir do fim do século XVI e durante o século XVII.
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O Fédon de Platão, onde a morte de Sócrates é recontada, introduz a ideia da prática apropriada da filosofia como “sobre nada além de estar morrendo e morrer”.
Memento mori é também um conceito fundamental do estoicismo, que trata a morte como algo natural e certo que não deve ser temido, mas sim, elaborado. Os estoicos da antiguidade clássica eram particularmente notáveis por seu uso desta disciplina, e as cartas de Séneca estão repletas de injunções à meditação sobre a morte. Séneca nos diz:
"Muitos homens se apegam e agarraram-se à vida, assim como aqueles que são levados por uma correnteza se apegam e agarram-se a pedras afiadas. A maioria dos homens mínguam e fluem em miséria entre o medo da morte e as dificuldades da vida; eles não estão dispostos a viver, e ainda não sabem como morrer."
O estoico Epicteto disse a seus estudantes que quando beijassem suas crianças, irmãos, ou amigos, deviam lembrar-se da própria mortalidade, restringindo seu prazer, como fazem “aqueles que permanecem com os homens nos triunfos e os lembram de que são mortais”.
Epicteto, em grego antigo, Επίκτητος, Epíktetos.
Ἐπίκτητος, Epíktētos; c. 50 – c. 135 DC foi um filósofo estóico grego. Ele nasceu como escravo em Hierápolis, Frígia (atual Pamukkale, no oeste da Turquia) e viveu em Roma até seu banimento, quando foi para Nicópolis, no noroeste da Grécia, pelo resto de sua vida. Epicteto, filósofo estoico do século I d.C., foi escravo de Epafrodito, que era secretário imperial do imperador Nero (Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus, nascido Lucius Domitius Ahenobarbus, em 15 de dezembro de 37 d.C. – 9 de junho de 68 d.C.) e Domiciano (Titus Flavius Domitianus; 51 a 96 d.C.). Apesar de sua condição, pôde frequentar as aulas de Musônio Rufo. Mais tarde, após ser liberto, fundou uma escola em Roma, que não perdurou por muito tempo, pois Domiciano expulsou os filósofos da cidade em 89 d.C. Epicteto foi, então, para Nicópolis, em Éfira, onde fundou outra escola estoica, contando com muitos alunos, entre eles importantes figuras do Império Romano.
Tal como Sócrates, Epicteto nada escreveu. Sua filosofia chegou até nós por intermédio das anotações de seu discípulo Lúcio Flávio Arriano Xenofonte, que registrou os ensinamentos de Epicteto em oito livros, quatro dos quais foram perdidos, que compunham as Diatribes e o Manual (Encheirídion).
Na mesma ênfase que trata de coisas que devem ser tratadas com confiança ou com cautela, na Diatribe II.1, Epicteto compara a morte a uma máscara. Aqui Epicteto usa uma figura bastante conhecida por seus interlocutores: a máscara (mormolykeion). Segundo o dicionário etimológico (xx, p. 196-7), mormo é um espantalho feminino, utilizado como ameaça para assustar as crianças (cf. Aristoph. Eq. 693). Mormolykeion, por outro lado, seria uma lâmia ou outro monstro feminino que morde as crianças. Tal palavra une mormo (espantalho feminino) e lyke (loba). Pode se dizer, como muitos autores, que traduzem mormolykeion por “máscara cômica”. Bally define o mesmo termo por “máscara para amedrontar crianças”. Epicteto faz uma analogia aludindo ao costume da época em que os adultos contavam histórias e usavam a máscara de Mormo como instrumentos para amedrontar as crianças e fazê-las obedecer. Elas se assustavam, pois não sabiam que se tratava de uma ficção. Por sua inexperiência, elas ignoravam a verdade e, por isso, temiam. (Dinucci e cols. 2019).
Sêneca usa a mesma figura da máscara ao abordar o medo da morte:
O que vês acontecer a meninos também se passa conosco, meninos crescidos: as pessoas que eles amam, com as quais estão acostumados, com as quais brincam, se as veem mascaradas, assustam-se. É preciso desmascarar não só as pessoas, mas as situações, e a elas devolver sua feição verdadeira. Por que diante de mim ostentas espadas e chamas e uma turba de carrascos ruidosa à tua volta? Priva-te dessa pompa sob a qual te ocultas e com a qual aterrorizas os estúpidos: tu és a morte, que um escravo meu e uma criada, recentemente, desdenharam. Por que com tanta circunstância exibes a mim, de novo, chibatas e equipamentos de tortura? Por que diferentes máquinas a romper diferentes articulações e mil outros instrumentos de trinchar pessoas pedaço por pedaço? Põe de lado essas coisas que nos deixam estupefatos. Comanda que se calem os gemidos e os gritos e a atrocidade de falas arrancadas em meio a dilacerações: és, sem dúvida, a dor que o doente de gota desdenha, que o dispéptico desafia com suas delícias, que a parturiente prova no parto. És leve se posso suportá-la (sic). Se não posso, és breve. (Cartas morais a Lucílio, 24.13-14) (Dinucci e cols. 2019).
Memento mori, uma frase latina para “Lembre-se de que (você) morrerás” é um tropo artístico ou simbólico que atua como um lembrete da inevitabilidade da morte. O conceito tem suas raízes nos filósofos da antiguidade clássica e do cristianismo, e apareceu na arte funerária e na arquitetura a partir do período medieval.
Vanitas, nas artes, é um tipo de obra simbólica especialmente associada com o gênero de pintura Natureza-morta (Still-life), do norte da Europa e dos Países Baixos, nos séculos XVI e XVII, bem no início do capitalismo nascente, e na acumulação sem medida de riqueza. Qual o propósito dessa acumulação, busca de reconhecimento, fama, imortalidade? No contexto contemporâneo, onde a tríade neoliberalismo, neoconservadorismo e neofascismo acarreta na ampliação dos processos de fetichização do real, o medo da morte e do envelhecimento é uma constante. A arte do agora deve fornecer uma um caminho.
A Vanitas revisitada seria uma saída que ampliaria a mensagem da finitude e traria elementos que possam potencializar a reflexão crítica.
O motivo mais comum são um crânio, muitas vezes acompanhado por um ou mais ossos. Muitas vezes, isso por si só é suficiente para evocar o tropo, mas outros motivos, como um caixão, ampulheta e flores murchas, significavam a impermanência da vida humana. Muitas vezes estes funcionam dentro de uma obra cujo tema principal é outra coisa, como um retrato, mas a Vanitas é um gênero artístico onde o tema da morte é o tema principal.
A Dança Macabra e a Morte personificada com uma foice como o Ceifador são evocações ainda mais diretas do tropo (WP).
Dança da morte ou dança macabra.
Dance of Death (15th-century fresco). No matter one's station in life, the Dance of Death unites all.
Vanitas
A expressão memento mori desenvolveu-se com o crescimento do cristianismo, que enfatizava o Céu, o Inferno e a salvação da alma na vida após a morte.
O escritor cristão do século II Tertuliano afirmou que durante sua procissão triunfal, um general vitorioso teria alguém (em versões posteriores, um escravo) atrás dele, segurando uma coroa sobre a cabeça e sussurrando “Respice post te. Hominem te memento” (Cuide de você [até o momento após sua morte] e lembre-se de que você é [apenas] um homem); ou: “Respice post te. Hominem te esse memento. Memento mori.” Embora nos tempos modernos isso tenha se tornado um tropo padrão, na verdade nenhum outro autor antigo confirma isso, e pode ter sido uma moralização cristã em vez de um relato histórico preciso.
Mosaico romano representando a Roda da Fortuna que, ao girar, pode tornar os ricos pobres e os pobres ricos; com efeito, ambos os estados são muito precários, com a morte nunca longe e a vida por um fio: quando se rompe, a alma voa. E assim todos são feitos iguais. (Collezioni Pompeiane. Museo Archeologico Nazionale di Napoli).
No Judaísmo várias passagens do Antigo Testamento pedem uma lembrança da morte. No Salmo 90, Moisés ora para que Deus ensine seu povo “a contar os nossos dias para que alcancemos coração sábio” (Sl 90:12). Em Eclesiastes, o Pregador insiste que “É melhor ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há festa, pois este é o fim de toda a humanidade, e os vivos o levarão ao coração” (Ec 7:1). 2). Em Isaías, o tempo de vida dos seres humanos é comparado ao curto tempo de vida da grama: “A grama murcha, a flor murcha quando o sopro do Senhor sopra sobre ela; certamente o povo é grama” (Is 40:7).
A razão é aquilo que o ser humano tem de mais natural, distintivo e fácil de usar, enquanto que as ilusões são antinaturais e, por isso mesmo, prejudicam o pensamento e o reto julgamento. As várias reflexões e exortações sobre a morte, feitas pelos estoicos, visam dissipar as ilusões e cultivar as virtudes.
Marco Aurélio é enfático em sua obra Meditações:
“Não conduzas tua vida como se tivesses dez mil anos à frente. A vida é curta e a fatalidade está sempre próxima. Faz o melhor com teu presente. Enquanto vives e podes, seja bom.”
“Que cada ação, cada palavra, cada pensamento teu ocorram quando estiveres consciente de que teus dias podem ter fim a qualquer momento.”
“É função de nossa razão aprender com que rapidez tudo se esvai; como as formas corpóreas são consumidas e a memória parte com as marés dos anos. Assim são todas as coisas, especialmente as que nos seduzem ou apavoram. Ou, ainda, a vaidade que alardeia em nossos ouvidos.” (Carneiro s/d)
“Necessita de pouco, seja gentil e franco; evite o exagero e a conversa fútil. Não vês quantas virtudes podes mostrar, pelas quais não estás incapacitado? O que te conduz é a vontade de reclamar, de te vangloriar dos problemas, de desgraçar teu corpo com teus erros. Não, pelos deuses, deverias estar livre desses vícios há muito tempo. É tua culpa seres lento e estúpido de compreensão […] Vais morrer e, ainda assim, não alcançaste a simplicidade e a calma. Não aprendeste a ser gentil ou a lidar apenas com a sabedoria.”
Chegando-se à contemporaneidade, houve, na primeira década do século XXI, um interesse tanto internacional como nacional em se avistar de diferentes maneiras a existência de um “retorno” da Vanitas na arte contemporânea. Este interesse foi mostrado pela realização de exposições e publicações que giravam em torno desta temática, e tentavam mostrar as ligações entre as duas expressões artísticas de épocas distintas. Os responsáveis, senão pela cunhagem, ao menos pela difusão do termo Vanitas contemporânea foram as exposições “Vanitas, Meditations on Life and Death in Contemporary Art”, sediada, no Museu de Belas Artes da Virgínia nos Estados Unidos, no ano de 2000, e “C’est la Vie! Vanités de Caravagge à Damien Hirst”, ocorrida em 2010, no Museu Maillol em Paris, além da publicação Les Vanités dans l’art Contemporain (2010), dirigida por Anne-Marie Charbonneaux.
Dentre as obras de Les Vanités (...), dos catálogos destas duas mostras, e ainda da exposição Natureza-Morta-Still Life, ocorrida no Brasil em 2004-2005, encontramos as pinturas dos artistas Nigel Cooke e Luis Zerbini (Witeck e Moreira, 2012).
Nigel Cooke. Catabolic Vanitas. Óleo sobre tela, (214x153 cm)
Nigel Cooke. Detalhe de Catabolic Vanitas. Óleo sobre tela, (214x153 cm)
Luis Zerbini
E aí Brother, 1997.
Acrílica sobre tela, 163 x 198 cm.
Coleção Eduardo Miranda.
Damien Hirst's 'For the Love of God' (Damien Hirst)
Pingente de marfim, França dos séculos XVI/XVII, Monge e Morte, lembrando a mortalidade e a certeza da morte (Museu de Arte Walters).
Frans Hals, Young Man with a Skull, c. 1626–1628.
Momento mori in the form of a small coffin, 1700s, wax figure on silk in a wooden coffin (Museum Schnütgen, Cologne, Germany).
Máscara tibetana Citipati representando Mahākāla. A máscara de caveira do Citipati é um lembrete da impermanência da vida e do eterno ciclo de vida e morte. (Tcapper1).
Shantideva, no Bodhisattvacaryāvatāra “Modo de Vida do Bodhisattva” reflete longamente:
A morte não diferencia entre tarefas feitas e não feitas.
Este traidor não merece a confiança dos sãos ou dos doentes,
pois é como um grande e inesperado raio.
BCA 2,33
Meus inimigos não permanecerão, nem meus amigos permanecerão.
Eu não permanecerei. Nada permanecerá.
BC 2:35
O que quer que seja experimentado se desvanecerá (para) em uma memória.
Como uma experiência em um sonho,
tudo o que passou não será visto novamente.
BC 2:36
Dia e noite, a duração da vida diminui incessantemente,
e não há adição a ele. Não devo morrer então?
BC 2:39
Para uma pessoa capturada pelos mensageiros da Morte,
que bom é um parente e que bom é um amigo?
Naquela época, o mérito por si só era uma proteção,
e eu não me apliquei a isso.
BC 2:41
José Guadalupe Posada Aguilar (1852–1913), 1910. La calavera Catrina.
José Guadalupe Posada Aguilar (1852–1913) foi um litógrafo político mexicano que usou a impressão em relevo para produzir ilustrações populares. Seu trabalho influenciou vários artistas e cartunistas latino-americanos por causa de sua agudeza satírica e engajamento social. Ele usou crânios, calaveras e ossos para transmitir críticas políticas e culturais. Entre suas obras mais duradouras está La Calavera Catrina.
Reproduction of the restored Gran calavera eléctrica (Grand electric skull), by Posada 1900-1913
Philippe de Champaigne's Vanitas (c. 1671) is reduced to three essentials: Life, Death, and Time. (Vanitas de Philippe de Champaigne, c. 1671)
Skeleton Pleading (c. 1600s)
Skeleton Praying. Marble floor of the Cornaro Chapel.
Memento mori. Gravestone inscription (1746). Grave of James Bailie. Detail. Edinburgh. St. Cuthbert's Churchyard.
(Daniel Naczk 1)
A morte vem recolher a beleza IPSA ADEO MORTI VEL FORMOSISSIMA CEDUNT. Emblemata Saecularia, 1596.
Tudo, até a beleza, deve morrer uma vez: a morte, em forma de esqueleto, ao lado de uma senhora elegante com uma flor na mão, passeiam por um jardim com pérgula. A morte segura sua ampulheta com a mão direita para ela e a carrega para um abraço com ela.
Gravador Johann Theodor de Brynaar foto de: Crispijn de Pass Editor: Johann Theodor e Johann Israel de Bry Fabricação de Plaats: Frankfurt Data: 1596 Características físicas: carro material: papel Técnica: gravação (processo de impressão) Dimensões: borda da placa: h 103 mm × L 80 mm. Originário de: Emblemata Saecularia. Mira et iucunda varietate seculi huius mores ita Experimentia (...). 1ª edição. Frankfurt am Main: J.T. The Bry e J. I. de Bry, 1596. Assunto: Existência e Modos de Existência (representação emblemática do conceito) Esqueleto da morte representação alegórica da figura humana ou de proporções ideais, figura humana feminina de proporções ideais; Bellezza feminina (Ripa).
Death comes to collect the beauty IPSA ADEO MORTI VEL FORMOSISSIMA CEDUNT. Emblemata Saecularia, 1596.
Everything, even the beauty must die once: the death, in the form of a skeleton, standing next to an elegant lady with a flower in hand, for a garden with pergola. He holds her his hourglass and carries her into an embrace with him.
Manufacturer : printmaker Johann Theodor de Brynaar picture of: Crispijn of Pass Publisher: Johann Theodor and Johann Israel de Bry Plaats manufacture: Frankfurt Date: 1596 Physical features: car material: paper Technique: engraving (printing process) Dimensions: plate edge: h 103 mm × W 80 mm. Originating from: Emblemata Saecularia. Mira et iucunda varietate seculi huius mores ita Experimentia (...). 1st edition. Frankfurt am Main: J.T. The Bry and J. I. de Bry, 1596. Subject: Existence and Modes of Existence (+ emblematical representation of concept) Death axis skeleton allegorical representation of human figure or ideal proportions - female human figure of ideal proportions; Bellezza feminile (Ripa).
MEMENTO MORI & TATOO
Fonte
A. P. G. Witeck e A. Moreira. Vanitas na arte contemporânea: um estudo iconográfico de obras de Nigel
Cooke e Luis Zerbini. 2012. UFSM/PPGART.
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GAUDEAMUS IGITUR JUVENES DUN SUMUS
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