INÍCIO

21 janeiro 2022

AMIZADE

 Tecer a Amizade 


I

Diálogo Lysis de Platão

Aristóteles; a philia nos livros VIII e IX da Ética a Nicômaco. Definir a natureza da philia e suas principais formas, quanto para pôr em destaque a “amizade virtuosa” como a mais perfeita de suas formas, na qual o amigo desdobra-se em “um outro si mesmo”. (Rocha, 2006)


II

Têm nas relações de amizade o seu fio condutor: os mestres, os alunos, os colegas de pesquisa, os companheiros políticos, os interlocutores. É pelos olhos dos amigos, cujos retratos se sucedem em diversos ensaios, que a figura de Vernant se constrói, perfeitamente de acordo com o modo grego de ser "sob os olhos dos outros". 

Como nos ensina ele, "para o grego o indivíduo não é separado do que realizou, efetuou, nem do que o prolonga: suas obras, as façanhas que executou, sua família, seus parentes, seus amigos. O homem está no que faz e no que o liga aos outros" (Peixoto, 2002)



III

questão do amor coloca-se hoje de forma diferente da que se colocava para os gregos. Platão nos diz que o que amamos no outro é a nós mesmos, o que olhamos no outro é a nossa própria imagem. Acrescento que existem duas formas de se ver: uma em sua limitação, em seu ego e em seu egotismo; outra, para Platão e principalmente para Plotino, consiste emir ao limite extremo do que se é, ou seja, finalmente, até o divino, e essa extrema alteridade é o elemento essencial. É por ela que encontramos a nós mesmos, mas esse "si mesmo" não é mais um ego, é o cosmos, o universo, o todo, Deus, que é a perfeição. A construção de si passa pela abertura para o outro. Não sou, contudo, uma pessoa religiosa, para mim a busca da identidade não é a busca do absoluto. O "si mesmo" não está orientado para o absoluto nem fechado sobre o ego. Isso é o mundo, a vida, a finitude. Somos homens e cada um molda sua própria identidade com os outros e com o outro, mas não com qualquer outro. É nesse ponto que aparece a amizade. É preciso ter afinidades com esse outro com o qual vamos nos defrontar e que vai nos fazer refletir sobre nós. Perguntar-se por que temos afinidades com alguém, por que sentimos prazer em estar com ele, tudo isso implica um conhecimento afetivo, uma simpatia para com ele e, assim, uma volta sobre nós mesmos e uma mudança dentro de nós, uma fabricação de nós que é ao mesmo tempo uma fabricação do outro. Pois O outro também, nós 0 construímos: como poderíamos conhecê-lo, senão fabricando-o, moldando uma imagem dele, encontrando caminhos até ele? (Vernant, 2001).


Górgona, Ártemis e Dioniso

Pois, como dizia Stalin a De Gaulle: "A morte sempre vence". (Vernant, 2001)
Por serem anômicas, atípicas, as figuras da Górgona, de Artemis e de Dioniso são particularmente interessantes. 
Os deuses gregos são geralmente representados de forma antropomórfica, enquanto a Górgona e muitas vezes Dioniso são figurados unicamente por uma cabeça. A primeira possui uma cabeça monstruosa e ao mesmo tempo humana, bestial, masculina, feminina, horrível e engraçada, enquanto, no caso de Dioniso, trata-se de um rosto que nos observa fixamente, hipnotizando-nos. 
Dioniso é um deus que nos olha diretamente nos olhos e que nos possui; é o olho que nos fixa, como Gorgó, aí está toda a questão! Como ela, (Dioniso) é representado de frente, com seus dois olhos imensos, e nos cativa. 
Dioniso é um deus completamente extravagante, é o único deus mágico: é o deus do teatro, da mascarada, do disfarce, da embriaguez, e ao mesmo tempo é o deus do transe e da possessão: as mulheres largam seus filhos, seus teares e fogem para as montanhas; possuídas por Dioniso, transformam-se em Mênades. 
Assim, perguntei-me por que essas três divindades eram figuradas de uma forma que, do ponto de vista grego, não era a regra, procurando entender o que traduzem de "particular" suas relações privilegiadas com a máscara. 
Na minha opinião, trata-se de um esforço para expressar a experiência da "alteridade", de algo que está justamente fora da norma, pois Górgona traduzia essa preocupação, esse horror que a dimensão sobrenatural representa para os homens; ela é o Terror em estado puro. É a Morte, ou seja, o fato de que o que é móvel, flexível, quente, luminoso, vai se transformar de repente em um ser vestido de noite, imóvel, congelado, uma estátua de pedra (Vernant, 2001). 
(…)
Foi esse frenesi do mundo dos mortos, Gorgó, que Perseu enfrentou antes de conseguir cortar sua cabeça. O que é fundamental nessa história é a forma como o grego entendeu a troca de olhares. Na verdade, trata-se de toda a teoria do amor tal como Platão a explica. 
O amor é o fluxo que parte de quem ama e que se reflete no olho daquele que é amado, de forma que vemos a nós mesmos no olho do outro; mas, para Platão, o outro que me ama vê em mim A Beleza, com letras maiúsculas, aquela que está muito além de mim. É a mesma coisa para Gorgó. Quando olho para ela, estou vendo a mim mesmo, ou, melhor, aquilo que, em mim, já é o Outro. O que em mim está além de mim, não para o alto mas para baixo. Vejo que em todo ser humano já existe a promessa de um caos irremediável. É isso que não é fácil de contemplar no olho de Gorgó, a morte de frente! (Vernant, 2001)



IV

Se não tivesse visto o sol. A sombra eu suportaria. Mas essa luz fez do meu deserto, Um deserto que não existia.
(Emily Dickinson)

Chegamos, assim, à Graça central, representada pelo Amor. Em Ficino, como podemos perceber, todo elemento que ocupa posição intermediária adquire importância primordial: é o que ocorre com a alma, tanto quanto com a luz e, agora, com o amor. A história de Eros como filho de Penia e de Poros já o coloca nessa condição. Seguindo o caminho trilhado por Platão e por Plotino, temos na imagem amorosa a representação de um anseio, de um indigente “estar a caminho”, rumo à plenitude. Há um amante – a criatura – que busca o amado – o Criador. Nessa perspectiva, trataremos de duas teorias presentes em tal dialética: a do apetite natural e a dos furores, que mantêm afinidades relevantes com a metafísica ficiniana da luz. (Da Silva, 2021)


Nesse sentido, a contrapelo dos antigos gregos, a idéia de natureza, para os medievais, está ligada às Escrituras, à criação divina e, como bem assinala Curtius (1996), inclusive quando fala de beleza, “a escolástica tem em mente um atributo de Deus.” Assim, por meio dessa concepção, contraposta sobretudo à noção do belo da Antigüidade socrática — o amor à sabedoria, que conduz à contemplação intelectiva da beleza suprema, isto é, a idéia do Bem —, para a escolástica, repetimos, a beleza é entendida como um atributo exclusivo de Deus, o criador supremo.

Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?
um ser metafísico?
[...]
Para que serve o homem?
[...]
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?
[...]
Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?
(Carlos Drummond de Andrade)




De fato, na época atual, por causa da desordem que afeta não apenas nossa cidade, mas toda a Itália, e talvez por causa de uma calamidade quase iminente [...] é próprio do homem sábio querer estudar filosofia, do homem perspicaz compreendê-la, do homem feliz poder a ela se dedicar.  (Da Silva, 2021)

Iam uero in praesenti, non solum ciuitatis nostrae, sed totius quoque Italiae perturbatione, fortè etiam calamitate quadam [...] propemodum imminente: philosophari uelle quidem prudentis est scire autem sapientis, posse uero felicis”. (Marsilio Ficini)



Que a nossa alma seja invadida por uma sagrada ambição de não nos contentarmos com as coisas medíocres, mas de anelarmos às mais altas, de nos esforçarmos por atingi-las, com todas as nossas energias, desde o momento em que, querendo-o, isso é possível. (Da Silva, 2021)

Invadat animum sacra quaedam ambitio ut mediocribus non contenti anhelemus ad summa, adque illa (quando possumus si volumus) consequenda totis viribus enitamur”. (Marsilio Ficino)


Aos deuses imortais, antes de tudo, honra-os, presta o devido culto, E conserva a tua fé. Venera com a memória todos os heróis benfeitores, e os semideuses. (Pitágoras. Versos áureos)







Bibliografia 

Vernant. Jean-Pierre. Entre Mitos & Política. São Paulo, EDUSP, 2001. 






Filosofia





Nenhum comentário: