INÍCIO

27 outubro 2021

PEDAGOGIA DO ESCLARECIMENTO & POLÍTICA

 


“O banimento de todas as formas de fascismo, desde aquelas, colossais, que nos envolvem e nos esmagam, até as formas miúdas que fazem a amarga tirania de nossas vidas cotidianas.” (Michel Foucault)



Foucault nos ensina a viver uma vida não-fascista, mas parece que não importa o lado, para onde quer que olhemos encontramos paranoias totalitárias e totalizantes. 

Há aqui sempre um fechamento do mundo, onde nada pode escapar. Todas as peças devem se encaixar, como num quebra-cabeça. 

Estamos aqui no Polo paranoico! Quando nada poder estar fora do lugar, onde não há espaço para qualquer movimento.

Os Três Inimigos

Encontramos aqui três inimigos com os quais aqueles que procuram uma vida não fascista se confrontam:


I

Liberais, Conservadores e Militantes tristes: “Os ascetas políticos, os militantes morosos, os terroristas da teoria, aqueles que gostariam de preservar a ordem pura da política e do discurso político. Os burocratas da revolução e os funcionários da Verdade.”


II

Psicólogos, Psicanalistas, Psiquiatras e afins: “Os deploráveis técnicos do desejo, os psicanalistas e os semiólogos que registram cada signo e cada sintoma e que gostariam de reduzir a organização múltipla do desejo à lei binária da estrutura e da falta.”


III

O inimigo maior: o fascismo. “Não somente o fascismo histórico de Hitler e Mussolini, que soube tão bem mobilizar e utilizar o desejo das massas, mas também o fascismo que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar do poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora”.(1)


Vivemos uma vida fascista, é certo. E como chegamos a ela? Naturalmente, eu diria. 

Após o surgimento do capitalismo (há mais ou menos 500 anos) e depois com o capitalismo  industrial liberal (com a revolução industrial por volta de 1760 a 1840 até hoje), o poder passou a dissolver-se ou ser compartilhado em várias instituições de controle diferentes. Se antes o controle era instituído pelo rei, e pela igreja, agora ele é feito pela escola, pela indústria, pelos quartéis, pelas prisões, pelos hospitais e pelos hospícios.

Nossa vida é fascista. 
Mas isso não é o mesmo que afirmar: “sou fascista”. 
Significa antes de qualquer coisa, reconhecer que o capitalismo tardio (na sua forma totalitária, i.e., o neoliberalismo) impõe, institui coage a uma vida fascista. 
Ele impõe, comina a um modo fascista a todos os âmbitos da nossa vida, desde o nascimento até a morte. 
Para rompermos com esse ciclo “fascistizante” da vida, somente através dos dois únicos modos libertários: na escola a Pedagogia do Esclarecimento, nas ruas a Política. Como nos fiz Foulcault: “ o indivíduo é o produto da poder.”  E o poder é uma característica inerente ao ser, ao ente. Para Max Weber é a capacidade ou a faculdade de fazer algo, bem como a posse do mando e da imposição da vontade sobre os demais. Desta forma o caminho social é a política. 


Voltemos ao texto de Foulcault:

Liberem a ação política de toda forma de paranóia unitária e totalizante.

Façam crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, e não por subdivisão e hierarquização piramidal.

Livrem-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, as castrações, a falta, a lacuna) que por tanto tempo o pensamento ocidental considerou sagradas, enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. 
Prefiram o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas. Considerem que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade.

Não imaginem que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo se o que se combate é abominável. 
É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga nas formas da representação) que possui uma força revolucionária.

Não utilizem o pensamento para dar a uma prática política um valor de Verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele não passasse de pura especulação. Utilizem a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.

Não exijam da política que ela restabeleça os “direitos” do indivíduo tal como a filosofia os definiu. 
O indivíduo é produto do poder. O que é preciso é “desindividualizar” pela multiplicação e o deslocamento, o agenciamento de combinações diferentes. 
O grupo não deve ser o liame orgânico que une indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de “desindividualização”.


Seguimos estes singelos conselhos para encontrar uma forma de vida mais potente, não focada na semelhança, mas na diferença. 
Uma arte de viver que anseia por modos libertários de vida. Entendam como um convite, um convite sincero de que uma vida calcada nestes princípios possui uma vitalidade que moralismo algum pode encontrar. Foucault mostra a potência e a atualidade de um dos grandes livros de ética já escritos: O Anti-Édipo, e nos traz em seu prefácio um útil e prático manual de instruções desta máquina de guerra chamada filosofia da diferença. Uma alternativa solar para tempos sombrios…(1)



Não se apaixonar pelo poder é o conselho mais importante de Foucault em sua introdução para uma vida não fascista. Não se apaixonem pelo poder é a mesma coisa que dizer “não sejam militantes tristes”, é a mesma coisa que dizer “não procurem uma unificação”, e etc. São todas as lições anteriores condensadas em apenas uma. É a decantação do Anti-Édipo. É o conselho mais direto porque realiza uma passagem definitiva do poder para a potência. Não se apaixonar pelo poder é tomar distância de todo desejo de soberania, toda disciplina, autoridade, fama. (2)



Bibliografia 





















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