INÍCIO

08 abril 2020

A FARSA IDEOLÓGICA

A farsa do grupo ideológico


Céli Pinto

A grande mídia, em todas as suas manifestações, insiste em fazer uma distinção, quando fala no governo Bolsonaro, entre o grupo ideológico e o grupo técnico. Isto é uma farsa. Atualmente a distinção é feita para proteger alguns setores do governo mas, em tempos passados, a pecha de ideológico foi usada para atacar a esquerda e, principalmente, o PT.

Não vou perder tempo escrevendo sobre o primário uso do conceito de ideologia feito pela mídia, às vezes dá vergonha alheia quando jornalistas, que se veem como elite da profissão no país, empostam a voz para falar do grupo ideológico. Falam por puro desconhecimento, falam por interesse, ou porque sabem que têm repercussão entre parcelas de classe média muito ignorantes, apesar ostentarem títulos de nível superior. Em qualquer caso, é lamentável.

Isto posto, vamos ao que me interessa nesta pequena nota. O governo Bolsonaro divide, com todos os outros governos do mundo e todos os partidos políticos, uma posição ideológica. As pessoas em geral, o conjunto de indivíduos de uma população também, não escapam de ter posições ideológicas muito facilmente identificáveis, mesmo quando não se dão conta disto.

Dentro do espectro ideológico se acomodam posições muito variadas, desde uma extrema-esquerda até uma extrema-direita. As democracias representativas liberais geralmente se organizam ao redor de três grandes grupos: de centro-esquerda, geralmente com a liderança de um partido mais à esquerda, de centro-direita, também com a liderança de um partido mais à direita, e um centro composto de partidos que tendem para um lado ou outro, ao sabor das contingências e dos interesses conjunturais. Os eleitores também tendem a obedecer a mesma lógica. Os extremos são representados por pequenos partidos, legítimos em toda a democracia, mas que não têm força para abalar o jogo como um todo.

O que aconteceu no Brasil foi uma profunda ruptura deste quadro, quando a desorganização do pacto político que sustentava o Brasil, pelo menos desde a promulgação da Constituição de 1988, proporcionou que um obscuro, despreparado e caricato político de extrema-direita fosse alçado à presidência da república. Isto não aconteceu por acaso, nem pelas qualidades de liderança do político em questão.

Várias circunstâncias levaram Bolsonaro à Presidência da República, já por demais discutidas e analisadas, mas é mister reter aqui que isto provocou um deslocamento no espectro ideológico dos partidos e dos eleitores que migraram da centro-direita para a direita, e da centro-esquerda para o centro. Este, por sua vez, também fez seu movimento no sentido da direta. A centro esquerda minguou e a esquerda ficou isolada.

O governo Bolsonaro é a concretização, pouco provável no Brasil até 2014, de um governo de extrema-direita, representado por uma coleção de generais de 4 estrelas em altos postos e por todos os seus ministros civis. Entre eles, Paulo Guedes é representante do ultraneoliberalismo, do sistema financeiro internacional e do desprezo por qualquer tipo de política social que tome alguma atitude na direção de minimizar a histórica desigualdade social do país; Sergio Moro, um juiz de 1º instância, tornou-se um popular xerife da direita, transformando as políticas anticorrupção (na verdade, garantidas por políticas implementadas nos governos do PT) em uma deslavada perseguição ao Partido dos Trabalhadores e seus maior líder, o ex-presidente Lula. Seu projeto de segurança pública, mandado ao Congresso Nacional, segue princípios arcaicos e conservadores, fortemente criticados por parte significativa dos estudiosos da ciência jurídica. Ainda há Luis Henrique Mandetta, Ministro da Saúde, deputado do DEM de Goiás que, no primeiro ano de governo, esteve sempre na contramão do SUS e a favor dos grandes conglomerados da medicina privada no país, desassistindo completamente a população pobre.

Mas o Presidente da República se cerca de um grupo ainda mais restrito, mas não menos poderoso, com poder econômico, interesses muito bem definidos e uma compreensão imediatista dos interesses do capitalismo imperial, neoliberal em curso. Este grupo está formado preferencialmente por algumas poderosas igrejas pentecostais e pela elite da contravenção no Rio de Janeiro. Tem uma base eleitoral não desprezível, tanto nestas elites quanto em setores que haviam ascendido durante os anos de crescimento econômico e de políticas sociais dos governos petistas e que agora acusam o mesmo PT de suas atuais condições de penúria. Há também uma pequena burguesia, no sentido marxiano do termo, muito próxima a este grupo. Quem melhor representa estes interesses é Bolsonaro, seus filhos e ministros igualmente caricatos, como uma pastora que tem visões, uma atriz de extrema-direita, um playboy decadente e um diplomata terraplanista, tendo como liderança intelectual um astrólogo fracassado. Tal grupo mambembe seria cômico, se não fosse trágico.

Este não é, como quer fazer crer a grande mídia, o lado mau do governo, o lado incompetente do governo, o lado ideológico. É tão ideológico quanto todo o resto, só mais ignorante, mais ridículo, mas foi o preço que a direita palatável aos meios de comunicação e os setores “cultivados” da classe média aceitaram pagar para afastar qualquer possibilidade de governos com preocupações sociais e políticas dirigidas à diminuição da desigualdade social no Brasil.

E, para não deixar de falar do tema que ocupa todas e todos os brasileiros no momento, resta pensar como a grave crise sanitária, pela qual atravessa o mundo em geral e o Brasil particularmente, se reflete em cada um destes dois grupos no governo.

No primeiro, dos ideológicos comprometidos com o grande capital e com os interesses internacionais, a crise sanitária aparece como uma grave ameaça e deve ser combatida com as melhores técnicas, dentro dos princípios da OMS e da ciência. Não interessa um país com mortes aos milhões. Mandetta no Ministério da Saúde e suas políticas acertadas não o transformam em um líder popular, nem em um defensor da saúde pública. As consequências de suas ações no momento, sejam quais forem suas razões, interessam sim ao povo brasileiro, principalmente aos mais pobres. O discurso cínico de Guedes, sobre a preocupação com os desempregados e informais, tem razões completamente alheias à sobrevivência desta população, mas tem efeitos colaterais positivos sobre ela.

Não há espaço nem tempo para dois tipos de ingênuos neste momento: aqueles que acreditam na conversão dos ministros de Bolsonaro e aqueles que se sentem moralmente impolutos, geralmente com seus salários garantidos todos os meses, e partem para o ataque, com pânico de que Mandetta se torne um político popular e venha a tirar da esquerda a possibilidade de vitória na eleições de 2022. Pobre esquerda se este é o medo!

Para finalizar, uma palavra sobre a aversão do grupo bolsonarista íntimo contra toda e qualquer política com base na OMS, ou nas pesquisas científicas. Em primeiro lugar, ironicamante, dividem com a esquerda ingênua o medo de que Mandetta se torne um político popular, mas, para além disto, precisam preservar os interesses de seus apoiadores, isto é algumas grandes Igrejas e os detentores de negócios obscuros ligados a elite da contravenção no Rio de Janeiro. Para este grupo, um povo demente, assustado, com um remédio pseudo milagroso nas mãos, achando que o governo finalmente permitiu que trabalhasse e que a pandemia é efeito da ira divina, em um mundo de pecadores, é o melhor dos mundos.

(Céli Pinto. Professora Emérita da UFRGS; Cientista Política; Professora convidada do PPG de História da UFRGS)



Publicado originalmente em 





DATAFOLHA SEPULTOU AS ILUSÕES. 
QUAL O CAMINHO?


Ricardo Cappelli


1 – Bolsonaro não acabou e não está para cair. Não confunda realidade com panelaço de classe média com medo de morrer. A pesquisa indicou que 52% consideram que ele pode liderar o país. Ele possui cerca de 28% de ótimo e bom. Ninguém cai com esse nível de apoio. A pesquisa fez o presidente aumentar a fervura da frigideira de Mandetta.


2 – A extrema-direita veio para ficar. 80% apoiam o isolamento, mas 20% dizem que concordam em sacrificar idosos e pessoas com alguma doença pré-existente para a economia não parar. É pouco?


3 – Temos dois pólos. Numa ponta, uma turma da “direita orgulhosa” que votava no PSDB por falta de opção. Na outra estão os eleitores da esquerda. Ambos reúnem algo em torno de 25% cada, um pouco mais, um pouco menos. Não há sinal de derretimento no núcleo duro do Capitão.


4 – Quem decide eleição é o eleitor médio. Ele não sai de casa para eleger ninguém, seu objetivo é derrotar alguém. Todas as pesquisas indicam que se a eleição fosse hoje daria novamente Bolsonaro e PT no segundo turno. Que tal? Pode surgir algo novo? Sempre pode, hoje não passa de vontade.


5 – A hora é de cuidar das pessoas, de solidariedade, de superação, de compaixão. Querer afirmar partido em cima de cadáveres é um erro grosseiro. Momento recomenda paciência, a ansiedade pode arrastar o afoito para dentro da cova também.


6 – A maioria da população apoia. O mundo inteiro apoia. Qual a linha política da esquerda? #FiqueEmCasa. Quando o jogo complica fazer óbvio pode ajudar. Dialogar com a maioria parece ser um bom caminho.


7 – O principal líder da oposição ao Capitão tem nome e sobrenome: Jorge Mario Bergoglio. O Capitão teme o Papa Francisco. Para enfrentar um falso pastor, nada melhor que o próprio enviado de Deus. Jair está perdendo pontos importantes entre os católicos. Salve o Papa!


8 – Outro flanco é o eleitorado feminino. Mulheres leem sentimentos, possuem uma percepção sensorial aguçada. O discurso de que vale enterrar entes queridos para a economia não parar não tem a menor chance de colar com elas. Emoção, mulheres e católicos. Ele sentiu o golpe? Bata no fígado.


9 – Luta pelo poder no meio de uma crise humanitária é suicídio. É tudo que Bolsonaro deseja. Ele bate na tecla de que o vírus é uma invenção da oposição. Abrace as pessoas, reforce a solidariedade. A desumanidade dele vai gritar.


10 – A economia é um problema real? Muitas pessoas estão sofrendo? Sim! No mundo inteiro os governos estão garantindo a sobrevivência e até os salários das pessoas. #PagaLogoBolsonaro


11 – O manifesto da esquerda foi um acerto. A pesquisa indicou que 59% são contra a renúncia? Verdade, mas isso é chuva de verão, valeu o custo para ter Ciro e o PT assinando o mesmo documento depois de muito tempo. Sem a esquerda unida não iremos longe.


12 – O número de mortos pode mudar tudo? Sempre pode. Se acontecer, vai tragar só Bolsonaro? Vai radicalizar ainda mais o ambiente político? Na democracia, cadáveres costumam enterrar carreiras políticas, só na democracia. Depois da crise a economia vai reagir? Podemos ter um clima de retomada em 2022?


13 - Quem quer derrubar Bolsonaro? Quem tem força para enxotá-lo do Planalto?


14 - Todos os presidentes eleitos após a aprovação da reeleição se reelegeram. Não é fácil derrotar quem está com a caneta. Por mais louco que ele pareça. Quem critica a necessidade de uma Frente Ampla para enfrentá-lo está mal informado, sonhando acordado ou vendendo terreno na lua.












































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