INÍCIO

16 junho 2026

SERIGRAFIA

PROCESSOS SERIGRÁFICOS 


Apresento a seguir uma conceituação e descrição dos principais métodos manuais e fotoquímicos para a criação de matrizes serigráficas, para quem está iniciando e para artistas que já conhecem e usam a técnica no cotidiano. Esta análise está estruturada para fornecer subsídios técnicos e pedagógicos sobre as possibilidades expressivas da serigrafia na estamparia.

Na serigrafia, o princípio fundamental é a criação de um estêncil, uma barreira seletiva sobre a tela que impede a passagem da tinta em determinadas áreas, permitindo sua passagem em outras, formando assim a imagem. Os métodos para criar este estêncil se dividem em duas grandes categorias, processos diretos e processos indiretos.

Processos Diretos
Técnicas onde o desenho (ou arte) é aplicado diretamente sobre a tela com materiais que bloqueiam fisicamente a malha.

Processos Indiretos
Técnicas onde a matriz (o desenho, ou arte) é preparada em um suporte externo (como papel ou filme) e posteriormente transferida ou fixada à tela, sendo o método fotoquímico o mais representativo deste grupo.

Puxando o rodo.

Esquema resumido mostrando a serigrafia fotoquímica. 


Descrição dos Processos

Processos Diretos (Métodos manuais)

Nestes processos, o artista pinta ou desenha diretamente sobre a malha da tela utilizando um material “bloqueador” (lipídico, gorduroso ou de preenchimento). A área coberta por este material se tornará impermeável à tinta durante a impressão.

1. Estêncil de giz pastel oleoso (Crayon) e giz de cera

Técnica que explora a afinidade química entre materiais gordurosos (a cera) e a resistência à água. Ao desenhar com o crayon ou giz diretamente na tela, a cera deposita-se na superfície dos fios, obstruindo as tramas da malha.

Passo a passo

1. Preparação da Tela: Estique a tela (poliéster ou náilon) sob alta tensão.
2. Desenho: Desenhe a imagem diretamente sobre a tela utilizando o crayon oleoso ou giz de cera. A pressão deve ser suficiente para forçar a cera a penetrar levemente na malha.
3. Fixação (Opcional): Para maior durabilidade em tiragens longas, pode-se aplicar levemente um fixador spray.
4. Impressão: Posicione a tela sobre o substrato (papel ou tecido), aplique a tinta (à base de água ou solvente) e utilize o rodo para estampar. A tinta será repelida ou bloqueada nas áreas com cera e passará pelas áreas livres.


2. Estêncil com tuche litográfico

O túche litográfico é um material gorduroso e saponáceo, tradicionalmente usado na litografia. Aplicado sobre a tela, ele atua como um bloqueador forte devido à sua alta viscosidade e composição química, permitindo grande liberdade de traço pictórico.

Passo a passo

1. Aplicação: Com pincel ou pena, aplique o túche diretamente sobre a tela limpa. O túche deve ser usado puro ou diluído com terebintina para obter transparências e texturas.
2. Secagem: Aguarde a secagem completa (pode levar horas, dependendo da espessura).
3. Preparação para Impressão: O túche já é o bloqueador final. Não há necessidade de revelação química.
4. Impressão: Utilize tintas de base gordurosa (solvente) para uma melhor aderência e contraste. Evite tintas à base de água, pois podem reagir com o túche.


3. Estêncil com bloqueador (Screen Filler)

Método híbrido entre o direto e o indireto. Utiliza-se um material fluido (geralmente à base de vinil ou acrílica) para preencher a malha negativamente. Primeiro, desenha-se com um material solúvel em água (Drawing Fluid); depois, aplica-se o bloqueador por toda a tela; finalmente, lava-se o desenho inicial, abrindo as áreas por onde a tinta passará.

Passo a passo

1. Desenho Positivo: Com o Drawing Fluid (Tinta de Desenho), pinte a imagem desejada na tela. O que for pintado com este fluido será a área aberta (por onde a tinta sairá).
2. Secagem: Seque completamente o desenho (use secador frio para acelerar).
3. Bloqueio: Aplique o Screen Filler (Prefechedor de Ecrã) sobre toda a tela, cobrindo o desenho e os espaços vazios. Espalhe com o rodo de forma uniforme.
4. Revelação: Lave a tela com água fria em abundância. O Drawing Fluid dissolve e escorre, levando consigo o Screen Filler que estava em cima dele, abrindo a malha exatamente onde o desenho foi feito.
5. Secagem Final: Seque a tela e faça os retoques necessários com o próprio Screen Filler e um pincel fino.


4. Estêncil com Pó de Giz

Variação menos comum, de grande efeito textural. Utiliza-se um aglutinante líquido (verniz ou base acrílica) para fixar partículas de giz na malha, criando um bloqueio granular e poroso, ideal para efeitos de "aquarela seca" ou meio-tom rústico.

Passo a passo

1. Desenho: Desenhe com um pincel fino utilizando verniz acrílico ou um meio de estampa (pode ser o próprio Screen Filler diluído).
2. Aplicação do Pó: Imediatamente após desenhar, polvilhe pó de giz (ou talco) sobre as áreas úmidas. Agite o excesso.
3. Fixação: Aguarde a secagem completa. O aglutinante secará formando uma crosta de giz solidificada.
4. Impressão: A tinta passará pelas áreas sem bloqueio, mas ao passar pelas áreas de giz, encontrará uma superfície irregular, criando manchas e texturas características. Ótimo para papéis artesanais.


Processos Indiretos (Método Fotoquímico)

5. Estêncil com Emulsão Fotoquímica (processo indireto padrão)

Processo industrial e artístico de alta precisão. Utiliza-se uma emulsão sensível à luz (fotossensível) que endurece quando exposta à radiação ultravioleta (UV). Um fotolito (matriz positiva em filme transparente) bloqueia a luz nas áreas do desenho, permitindo que a emulsão nessas áreas permaneça solúvel e seja lavada, criando o estêncil.

Passo a passo

1. Preparação do Fotolito: Imprima o desenho em filme vegetal ou acetato com alta opacidade (preto total). Imagens com tons de cinza contínuo exigem tramas de meio-tom (halftone).
2. Aplicação da Emulsão: Em câmara escura (com luz âmbar), aplique a emulsão fotossensível sobre a tela com uma "calha". Aplique 1 a 2 demãos de cada lado da tela.
3. Secagem: Seque a tela emulsionada na horizontal e no escuro (estufa de serigrafia ou ambiente com desumidificador).
4. Exposição: Posicione o fotolito sobre a tela seca e coloque na mesa de exposição UV (ou sob luz UV). O tempo de exposição varia conforme a emulsão e a fonte de luz (teste de passo é recomendado).
5. Revelação: Lave a tela com água fria sob pressão moderada. A emulsão que estava protegida pelo preto do fotolito (não endurecida) se dissolve, abrindo os poros da tela.
6. Secagem e Retoque: Seque a tela ao ar (na horizontal). Inspecione contra a luz e retoque pequenos furos (pinholes) com emulsionante de retoque ou fita adesiva.

Estes processos oferecem um espectro que vai da gestualidade plástica do desenho direto à precisão industrial do fotoestêncil. A escolha do método deve respeitar o conceito da obra e a tiragem desejada, ou podem ser combinados para adicionar camadas de significado e alterar a estética da obra final.




Fonte

Para aprofundamento prático e consulta em sala de aula, recomendo as seguintes referências:

DEMORATTI, Dolly; KOMURKI, John Z.; BENDANDI, Luca. Mestres da Serigrafia: Técnicas e segredos dos melhores artistas internacionais da impressão serigráfica. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2018.

SAUNDERS. G. Screenprint: A History. London, Thames and Hudson Ltd. 2025.
História e métodos usados por diversos artistas contemporâneos.

PRINT CLUB LONDON (Author). Screnprinting: The ultimate studio guide. From the sketchbook to squeegee. UK. London.2017. 
Apresenta muitos artistas e seu métodos, bem como seu passo a passo.

Totenart. Como fazer serigrafia, passo a passo. Totenart Blog. 
Descrição detalhada do processo de estêncil com bloqueador e Drawing Fluid.

Dauxin. O que é serigrafia? O guia definitivo (2026). Dauxin Blog. 
Fundamentos técnicos e industriais do processo com emulsão fotoquímica.



Essas referências são ótimas para aprofundamento do método e da linguagem da serigrafia. Todas as referências possuem em alguma medida ensinamentos práticos para consulta cotidiana ou curso. Fortemente recomendo sua leitura. 


14 junho 2026

DEUS E SUA ESPOSA

YAHWEH TINHA UMA ESPOSA?


O nome Aserá (ou Asherah/Asherim) aparece cerca de 40 vezes no Antigo Testamento da Bíblia Hebraica, geralmente associado a objetos de culto, mas em contextos que indicam sua adoração como uma deusa cananeia da fertilidade. Embora a Bíblia não a nomeie explicitamente como “esposa de Deus” (Yahweh) de forma direta e positiva, ela é frequentemente retratada como uma rival que foi adorada ao lado dele, especialmente antes das reformas monoteístas. [1, 2, 3, 4, 5]
O termo aparece tanto como referência à divindade (asera/aserá) quanto a objetos físicos, traduzidos muitas vezes como “postes sagrados” ou “bosques”. [1, 2]

Ashera

Introdução 

A ideia de que o Deus de Israel, YAHWEH, teria uma esposa chamada Asherah é uma das questões mais fascinantes e debatidas na arqueologia bíblica e na história das religiões semíticas. Longe de ser uma afirmação teológica do judaísmo ou do cristianismo atuais, essa hipótese se baseia em evidências materiais e epigráficas da religião popular praticada no antigo Reino de Israel e Judá durante a Idade do Ferro (aproximadamente 1200–586 a.C.). 
O que os especialistas encontraram não é uma “esposa de Deus” oficial, mas indícios robustos de que uma parcela significativa da população comum considerava Asherah, a grande deusa-mãe cananeia, como a consorte divina de Yahweh.

Yahweh (YHWH) e sua esposa.


1. O contexto ugarítico e a natureza de Asherah

Antes de analisar Israel, é crucial entender que Asherah já era uma figura bem conhecida no panteão cananeu. Em textos do segundo milênio a.C. descobertos na antiga cidade de Ugarit (na atual Síria), Asherah é descrita como “a progenitora dos deuses”, a grande deusa-mãe e esposa de El, a principal divindade do panteão. Os israelitas antigos emergiram do contexto cultural cananeu, e essa herança religiosa compartilhada é o pano de fundo para as tensões descritas na Bíblia.


2. As evidências arqueológicas: Kuntillet Ajrud

O principal achado que alimenta o debate vem de um local remoto no deserto do Sinai chamado Kuntillet Ajrud, datado do século VIII a.C. . Escavações lideradas por Ze'ev Meshel na década de 1970 encontraram grandes potes de armazenamento (pithoi) com inscrições e desenhos. Em uma dessas inscrições, lê-se claramente uma bênção: “Eu vos abençoo por Yahweh de Samaria e por sua Asherah”.


3. A inscrição de Khirbet el-Qom

A evidência não é isolada. Em uma tumba em Khirbet el-Qom, perto de Hebron, outra inscrição hebraica antiga do mesmo período menciona Yahweh e sua “Asherah”. O texto diz: “Abençoado seja Uriyahu por Yahweh... e por sua Asherah ele o salvou”. Estas duas descobertas são a base epigráfica mais sólida para a tese de que Asherah era cultuada ao lado de Yahweh.


4. O debate central: “sua Asherah” é uma Deusa ou um objeto?

A controvérsia se concentra na palavra hebraica ’srth (“asherah”). Ela pode ser um nome próprio (a deusa) ou um substantivo comum para um “poste de madeira” ou “árvore sagrada” usado no culto. O estudioso William Dever, autor de Did God Have a Wife? (Deus Tinha uma Esposa?), argumenta que o uso do pronome possessivo (“sua”) ao lado do nome pessoal de Yahweh indica uma relação pessoal, sugerindo que se tratava de uma parceira divina.


5. O lado oposto: “Santário” ou “Poste Sagrado”

Outros especialistas, como Émile Puech, rebatem que a mesma raiz linguística em fenício e aramaico pode significar “santuário”. Para eles, a frase significaria "Yahweh e seu santuário" . Além disso, a Bíblia Hebraica usa o termo “asherim” (plural) para descrever postes de madeira que os reis reformistas cortaram, mostrando que a palavra tinha um sentido material e cultual, não apenas pessoal.


6. O testemunho das figuras de barro (pílulas de fertilidade)

Independentemente da tradução da palavra, a arqueologia revelou centenas de estatuetas de barro de uma deusa com seios fartos e ventre proeminente em lares israelitas dos séculos X a VI a.C.. Essas figuras, associadas à fertilidade, são amplamente identificadas como representações de Asherah. Para o arqueólogo William Dever, isso prova que o culto a uma divindade feminina era uma prática comum na religião doméstica e popular, ao lado de Yahweh.


7. A religião oficial vs. a religião popular

A chave para entender o fenômeno é a distinção entre a religião “oficial” dos sacerdotes de Jerusalém (refletida em partes do Deuteronômio) e a religião “popular” do povo nas aldeias. A Bíblia está repleta de condenações aos cultos a "Asherah" (os postes) e a “Baal”. O fato de a Bíblia ter que condenar constantemente a adoração a Asherah é, ironicamente, a melhor evidência de que ela era, de fato, amplamente adorada.


8. A reforma de Josias e a censura

No final do século VII a.C., o rei Josias (2 Reis 23) liderou uma reforma religiosa centralizadora. O texto descreve que ele removeu do Templo de Jerusalém “o objeto feito para Aserá” (tradução comum) e destruiu os santuários . Os estudiosos acreditam que foi nesse período que os escribas “deuteronomistas” editaram os textos sagrados, transformando a deusa Asherah em um mero objeto de madeira para apagar seu status divino e estabelecer o monoteísmo radical exclusivo.


9. A “Rainha dos Céus” em Jeremias

Outro eco bíblico fascinante é a menção à “Rainha dos Céus” no livro de Jeremias (capítulo 7 e 44). O profeta briga com refugiados judeus que insistem em continuar queimando incenso para a “Rainha dos Céus”, dizendo que quando fizeram isso prosperaram.
Teólogas como Francesca Stavrakopoulou (Universidade de Exeter) defendem que esta “Rainha dos Céus” é uma sobrevivência do culto a Asherah, tentando ser erradicada pelos monoteístas.

10. O que os estudiosos concluem hoje?

Não há consenso de que Yahweh “tinha” uma esposa no sentido teológico, mas é majoritário o consenso de que muitos israelitas antigos acreditavam que ele tinha. Citando o estudioso Mark S. Smith, a evolução do Israel antigo foi de um “panteão” (com El, Yahweh e Asherah) para um “monoteísmo”. Hoje, estudiosos como Judith M. Hadley (The Cult of Asherah) e Saul M. Olyan (Asherah and the Cult of Yahweh) aceitam que as inscrições de Kuntillet Ajrud fornecem fortes evidências de que Asherah era vista como a parceira de Yahweh na religião popular do século VIII a.C. 



Bibliografia 

1) Dever, William G. Did God Have a Wife?: Archaeology and Folk Religion in Ancient Israel. Eerdmans, 2005. 

2) Hadley, Judith M. The Cult of Asherah in Ancient Israel and Judah. Cambridge University Press, 2000. 

3) Ehrman, Bart D. (Cursos). “Asherah in the Bible: Pole, Goddess, or Yahweh’s Wife?”

Biblical Archaeology Society. “Puzzling Finds from Kuntillet ‘Ajrud” e The BAS Library. 

Universidade de Exeter (Francesca Stavrakopoulou). Reportagem BBC/Documentário. 



Onde o nome aparece na Bíblia (Referências)

Juízes 3:7: Diz que os filhos de Israel serviram aos Baalins e às Aserás (mostrando que eram divindades).

1 Reis 18:19: Menciona os “quatrocentos profetas de Aserá” que comiam à mesa de Jezabel.

2 Reis 23:4-7: Relata que o rei Josias removeu os objetos feitos para Baal e para a Aserá do Templo em Jerusalém.

2 Reis 23:6: Menciona que uma Aserá (estátua/poste) foi queimada e transformada em pó.

Deuteronômio 16:21: Proíbe plantar qualquer árvore como Aserá junto ao altar do Senhor.

1 Reis 15:13 (e 2 Crônicas 15:16): Conta que o rei Asa depôs Maaca, sua mãe, por ela ter feito uma “abominável imagem” de Aserá. [1, 2, 3, 4, 5]


Aserá como “Esposa”
(Contexto histórico e arqueológico)

A ideia de Aserá ser esposa de Yahweh vem da interpretação arqueológica de inscrições encontradas fora da Bíblia, especificamente em Kuntillet 'Ajrud e Khirbet el-Qom (c. 800 a.C.), que contêm frases como “Eu te abençoo em nome de Yahweh e sua Aserá”. [1, 2]

Os arqueólogos acreditam que:

Ela era a consorte do deus supremo El na religião cananeia.
Quando Yahweh foi associado a El, a figura de Aserá foi, por algum tempo, associada a ele pelos adoradores.
Com o tempo, o monoteísmo estrito suprimiu essa associação, condenando o culto a Aserá. [1, 2, 3, 4]


Nota
Muitas versões antigas da Bíblia (como a King James) traduziram Asherah simplesmente como “bosque” ou “árvores”, ocultando o nome próprio da deusa em muitos versículos, o que foi corrigido em traduções mais modernas.