INÍCIO

22 janeiro 2026

DAVOS 2026 E A ORDEM MUNDIAL

DAVOS 2026: MARK CARNEY E A ORDEM MUNDIAL 
Esta transcrição foi produzida com IA e posteriormente editada para estilo e clareza. As edições não alteram a substância das declarações do orador (weforum).

Muito obrigado, Larry. Vou começar em francês, e depois voltarei para o inglês.
[O seguinte foi traduzido do francês]
Obrigado, Larry. É um prazer e um dever estar com vocês esta noite neste momento crucial que o Canadá e o mundo estão atravessando.

Hoje falarei sobre uma ruptura na ordem mundial, o fim de uma ficção agradável e o início de uma dura realidade, onde a geopolítica, onde as grandes potências principais, a geopolítica, não se submete a limites, a restrições.

Por outro lado, gostaria de dizer a vocês que os outros países, especialmente as potências intermediárias como o Canadá, não estão impotentes. Eles têm a capacidade de construir uma nova ordem que abranja nossos valores, como o respeito aos direitos humanos, o desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos diversos estados.

O poder dos menos poderosos começa com a honestidade.
[Carney retoma a fala em inglês]

Parece que todos os dias somos lembrados de que vivemos numa era de rivalidade entre grandes potências, que a ordem baseada em regras está desaparecendo, que os fortes podem fazer o que podem e os fracos devem sofrer o que têm de sofrer.

E este aforismo de Tucídides é apresentado como inevitável, como a lógica natural das relações internacionais reafirmando-se.

E diante desta lógica, há uma forte tendência para que os países "entrem na onda" para se darem bem, para se acomodarem, para evitarem problemas, para esperarem que a conformidade compre segurança.

Pois bem, não comprará.
Então, quais são as nossas opções?

Em 1978, o dissidente tcheco Václav Havel, mais tarde presidente, escreveu um ensaio chamado O Poder dos Sem-Poder, e nele, ele fez uma pergunta simples: como o sistema comunista se sustentava?

E a sua resposta começou com um verdureiro.

Todas as manhãs, este comerciante colocava uma placa na sua vitrine: "Trabalhadores do mundo, uni-vos". Ele não acredita nisso, ninguém acredita, mas ele coloca a placa assim mesmo para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para se dar bem. E porque todos os comerciantes de todas as ruas fazem o mesmo, o sistema persiste – não apenas pela violência, mas pela participação de pessoas comuns em rituais que sabem, em privado, serem falsos.

Havel chamou a isso "viver dentro de uma mentira".

O poder do sistema vem não da sua verdade, mas da disposição de todos de atuarem como se fosse verdade, e a sua fragilidade vem da mesma fonte. Quando até uma única pessoa para de atuar, quando o verdureiro retira a sua placa, a ilusão começa a rachar.

Amigos, é hora de empresas e países tirarem suas placas da vitrine.

Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob o que chamávamos de ordem internacional baseada em regras. Aderimos às suas instituições, elogiamos seus princípios, beneficiamo-nos da sua previsibilidade. E por causa disso, pudemos perseguir políticas externas baseadas em valores sob sua proteção.

Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa, que os mais fortes se isentariam quando conveniente, que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E sabíamos que o direito internacional era aplicado com rigor variável dependendo da identidade do acusado ou da vítima.

Esta ficção era útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos, rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a estruturas para resolução de disputas.

Então, colocamos a placa na vitrine. Participamos dos rituais e, em grande parte, evitamos apontar as lacunas entre a retórica e a realidade.

Este acordo não funciona mais. Deixe-me ser direto. Estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição.

Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas áreas financeira, de saúde, energética e geopolítica expuseram os riscos da integração global extrema. Mas, mais recentemente, as grandes potências começaram a usar a integração econômica como arma, tarifas como alavanca, infraestrutura financeira como coerção, cadeias de suprimentos como vulnerabilidades a serem exploradas.

Não se pode viver dentro da mentira do benefício mútuo através da integração, quando a integração se torna a fonte da sua subordinação.

As instituições multilaterais nas quais as potências médias confiaram – a OMC, a ONU, a COP – a arquitetura, a própria arquitetura de resolução coletiva de problemas está sob ameaça. E, como resultado, muitos países estão chegando à mesma conclusão: devem desenvolver maior autonomia estratégica, em energia, alimentos, minerais críticos, em finanças e cadeias de suprimentos.
E esse impulso é compreensível. Um país que não pode alimentar-se, abastecer-se ou defender-se tem poucas opções. Quando as regras não o protegem mais, você deve se proteger.

Mas sejamos claros sobre onde isso leva.
Um mundo de fortalezas será mais pobre, mais frágil e menos sustentável. E há outra verdade. Se as grandes potências abandonarem até mesmo a pretensão de regras e valores pela busca sem entraves de seu poder e interesses, os ganhos do transacionalismo se tornarão mais difíceis de replicar.

Os hegemonas não podem monetizar continuamente seus relacionamentos.

Os aliados se diversificarão para se protegerem contra a incerteza.

Comprarão seguros, aumentarão opções para reconstruir soberania – soberania que antes estava fundamentada em regras, mas que estará cada vez mais ancorada na capacidade de resistir à pressão.

Esta sala sabe que isso é gestão de riscos clássica. A gestão de riscos tem um preço, mas esse custo da autonomia estratégica, da soberania também pode ser compartilhado. Investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que todos construírem suas próprias fortalezas. Padrões compartilhados reduzem a fragmentação. Complementaridades são de soma positiva. E a questão para potências médias como o Canadá não é se devemos nos adaptar à nova realidade – devemos. A questão é se nos adaptamos simplesmente construindo muros mais altos, ou se podemos fazer algo mais ambicioso.

Ora, o Canadá esteve entre os primeiros a ouvir o despertador, o que nos levou a mudar fundamentalmente nossa postura estratégica.

Os canadenses sabem que nossas antigas e confortáveis suposições – de que nossa geografia e nossas filiações a alianças automaticamente conferiam prosperidade e segurança – essa suposição não é mais válida. E nossa nova abordagem se baseia no que Alexander Stubb, o Presidente da Finlândia, chamou de "realismo baseado em valores".

Ou, dito de outra forma, buscamos ser tanto principistas quanto pragmáticos – principistas em nosso compromisso com valores fundamentais: soberania, integridade territorial, a proibição do uso da força, exceto quando consistente com a Carta da ONU, e respeito aos direitos humanos; e pragmáticos ao reconhecer que o progresso é frequentemente incremental, que os interesses divergem, que nem todos os parceiros compartilharão todos os nossos valores.

Portanto, estamos nos engajando de forma ampla, estratégica, de olhos abertos. Enfrentamos ativamente o mundo como ele é, não ficamos esperando por um mundo que gostaríamos que fosse.

Estamos calibrando nossos relacionamentos, para que sua profundidade reflita nossos valores, e estamos priorizando um engajamento amplo para maximizar nossa influência, dada, e dada a fluidez do mundo no momento, os riscos que isso acarreta e o que está em jogo no que vem a seguir.

E não estamos mais apenas contando com a força dos nossos valores, mas também com o valor da nossa força.
Estamos construindo essa força em casa.

Desde que meu governo assumiu, reduzimos impostos sobre renda, ganhos de capital e investimentos empresariais. Removemos todas as barreiras federais ao comércio interprovincial. Estamos acelerando um trilhão de dólares em investimentos em energia, IA, minerais críticos, novos corredores comerciais e além. Estamos dobrando nossos gastos com defesa até o final desta década, e estamos fazendo isso de maneiras que constroem nossas indústrias domésticas.

E estamos nos diversificando rapidamente no exterior. Concordamos com uma parceria estratégica abrangente com a UE, incluindo a adesão ao SAFE, os acordos europeus de aquisição de defesa. Assinamos outros 12 acordos comerciais e de segurança em quatro continentes em seis meses. Nos últimos dias, concluímos novas parcerias estratégicas com a China e o Catar. Estamos negociando pactos de livre comércio com Índia, ASEAN, Tailândia, Filipinas e Mercosul.

Estamos fazendo algo mais. Para ajudar a resolver problemas globais, estamos perseguindo uma "geometria variável", ou seja, diferentes coalizões para diferentes questões com base em valores e interesses comuns. Assim, na Ucrânia, somos um membro central da Coalizão dos Dispostos e um dos maiores contribuintes per capita para sua defesa e segurança.

Na soberania ártica, estamos firmemente ao lado da Groenlândia e da Dinamarca, e apoiamos plenamente seu direito único de determinar o futuro da Groenlândia.
Nosso compromisso com o Artigo 5 da OTAN é inabalável, por isso trabalhamos com nossos aliados da OTAN, incluindo o Nordic Baltic Gate, para garantir ainda mais os flancos norte e oeste da aliança, inclusive através dos investimentos sem precedentes do Canadá em radar de longo alcance, submarinos, aeronaves e tropas no terreno, tropas no gelo.

O Canadá se opõe firmemente a tarifas sobre a Groenlândia e pede conversas focadas para alcançar nossos objetivos compartilhados de segurança e prosperidade no Ártico.

No comércio plurilateral, estamos defendendo esforços para construir uma ponte entre a Parceria Transpacífica e a União Europeia, o que criaria um novo bloco comercial de 1,5 bilhão de pessoas. Em minerais críticos, estamos formando clubes de compradores ancorados no G7 para que o mundo possa se diversificar para além da oferta concentrada. E na IA, estamos cooperando com democracias afins para garantir que não sejamos forçados a escolher, no fim das contas, entre hegemonas e hiperescaladores.

Isso não é um multilateralismo ingênuo, nem confiar nessas instituições. É construir coalizões que funcionam – questão por questão, com parceiros que compartilham terreno comum suficiente para agir juntos.

Em alguns casos, esta será a grande maioria das nações.

O que está fazendo é criar uma densa rede de conexões através do comércio, investimento, cultura, sobre as quais podemos nos apoiar para desafios e oportunidades futuros.

Afirmo, as potências médias devem agir juntas, porque se não estivermos à mesa, estaremos no cardápio.

Mas também diria que as grandes potências podem, por ora, dar-se ao luxo de agir sozinhas. Elas têm o tamanho do mercado, a capacidade militar e a alavancagem para ditar os termos. As potências médias não.

Mas quando negociamos apenas bilateralmente com um hegemona, negociamos a partir da fraqueza. Aceitamos o que é oferecido. Competimos uns com os outros para ser o mais acomodatício.

Isso não é soberania. É a encenação da soberania enquanto se aceita a subordinação. Num mundo de rivalidade entre grandes potências, os países intermediários têm uma escolha – competir entre si por favores, ou se combinar para criar um terceiro caminho com impacto.

Não devemos permitir que a ascensão do poder bruto nos cegue para o fato de que o poder da legitimidade, da integridade e das regras permanecerá forte, se escolhermos exercê-los juntos – o que me traz de volta a Havel.

O que significa, para as potências médias, viver a verdade?

Primeiro, significa nomear a realidade. Parem de invocar a ordem internacional baseada em regras como se ela ainda funcionasse conforme anunciado. Chamem as coisas pelo nome – um sistema de rivalidade intensificada entre grandes potências, onde as mais poderosas perseguem seus interesses, usando a integração econômica como coerção.

Significa agir com consistência, aplicando os mesmos padrões a aliados e rivais. Quando potências médias criticam a intimidação econômica vinda de uma direção, mas ficam em silêncio quando vem de outra, estamos mantendo a placa na vitrine.

Significa construir aquilo em que afirmamos acreditar, em vez de esperar que a velha ordem seja restaurada. Significa criar instituições e acordos que funcionem como descrito. E significa reduzir a alavancagem que permite a coerção – isso é construir uma economia doméstica forte. Deve ser a prioridade imediata de todos os governos.

E a diversificação internacional não é apenas prudência econômica, é uma base material para uma política externa honesta, porque os países conquistam o direito a posições principistas reduzindo sua vulnerabilidade a retaliações.

Então, Canadá. O Canadá tem o que o mundo quer. Somos uma superpotência energética. Detemos vastas reservas de minerais críticos. Temos a população mais educada do mundo. Nossos fundos de pensão estão entre os maiores e mais sofisticados investidores do mundo. Em outras palavras, temos capital, talento... também temos um governo com imensa capacidade fiscal para agir de forma decisiva. E temos os valores aos quais muitos outros aspiram.

O Canadá é uma sociedade pluralista que funciona. Nossa praça pública é barulhenta, diversa e livre. Os canadenses permanecem comprometidos com a sustentabilidade. Somos um parceiro estável e confiável em um mundo que é tudo menos isso... Um parceiro que constrói e valoriza relacionamentos de longo prazo.

E temos algo mais. Temos o reconhecimento do que está acontecendo e a determinação de agir de acordo. Entendemos que esta ruptura exige mais do que adaptação. Exige honestidade sobre o mundo como ele é.

Estamos tirando a placa da vitrine. Sabemos que a velha ordem não vai voltar. Não devemos chorar por ela. Nostalgia não é uma estratégia, mas acreditamos que a partir da fratura, podemos construir algo maior, melhor, mais forte, mais justo. Esta é a tarefa das potências médias, os países que têm mais a perder com um mundo de fortalezas e mais a ganhar com uma cooperação genuína.

Os poderosos têm o seu poder.

Mas nós também temos algo – a capacidade de parar de fingir, de nomear a realidade, de construir nossa força em casa e de agir juntos.

Este é o caminho do Canadá. Escolhemos abertamente e com confiança, e é um caminho amplamente aberto a qualquer país disposto a percorrê-lo conosco. Muito obrigado.



TEXTO ORIGINAL WEFORUM


This transcript was produced using AI and subsequently edited for style and clarity. The edits do not alter the substance of the speaker’s remarks.

Thank you very much, Larry. I'm going to start in French, and then I'll switch back to English.

[The following is translated from French]

Thank you, Larry. It is both a pleasure, and a duty, to be with you tonight in this pivotal moment that Canada and the world going through.

Today I will talk about a rupture in the world order, the end of a pleasant fiction and the beginning of a harsh reality, where geopolitics, where the large, main power, geopolitics, is submitted to no limits, no constraints.

On the other hand, I would like to tell you that the other countries, especially intermediate powers like Canada, are not powerless. They have the capacity to build a new order that encompasses our values, such as respect for human rights, sustainable development, solidarity, sovereignty and territorial integrity of the various states.

The power of the less power starts with honesty.

[Carney returns to speaking in English]

It seems that every day we're reminded that we live in an era of great power rivalry, that the rules based order is fading, that the strong can do what they can, and the weak must suffer what they must.

And this aphorism of Thucydides is presented as inevitable, as the natural logic of international relations reasserting itself.

And faced with this logic, there is a strong tendency for countries to go along to get along, to accommodate, to avoid trouble, to hope that compliance will buy safety.

Well, it won't.

So, what are our options?

In 1978, the Czech dissident Václav Havel, later president, wrote an essay called The Power of the Powerless, and in it, he asked a simple question: how did the communist system sustain itself?

And his answer began with a greengrocer.

Every morning, this shopkeeper places a sign in his window: ‘Workers of the world unite’. He doesn't believe it, no-one does, but he places a sign anyway to avoid trouble, to signal compliance, to get along. And because every shopkeeper on every street does the same, the system persist – not through violence alone, but through the participation of ordinary people in rituals they privately know to be false.

Havel called this “living within a lie”.

The system's power comes not from its truth, but from everyone's willingness to perform as if it were true, and its fragility comes from the same source. When even one person stops performing, when the greengrocer removes his sign, the illusion begins to crack. Friends, it is time for companies and countries to take their signs down. For decades, countries like Canada prospered under what we called the rules-based international order. We joined its institutions, we praised its principles, we benefited from its predictability. And because of that, we could pursue values-based foreign policies under its protection.

We knew the story of the international rules-based order was partially false that the strongest would exempt themselves when convenient, that trade rules were enforced asymmetrically. And we knew that international law applied with varying rigour depending on the identity of the accused or the victim.

This fiction was useful, and American hegemony, in particular, helped provide public goods, open sea lanes, a stable financial system, collective security and support for frameworks for resolving disputes.

So, we placed the sign in the window. We participated in the rituals, and we largely avoided calling out the gaps between rhetoric and reality.

This bargain no longer works. Let me be direct. We are in the midst of a rupture, not a transition.

Over the past two decades, a series of crises in finance, health, energy and geopolitics have laid bare the risks of extreme global integration. But more recently, great powers have begun using economic integration as weapons, tariffs as leverage, financial infrastructure as coercion, supply chains as vulnerabilities to be exploited.

You cannot live within the lie of mutual benefit through integration, when integration becomes the source of your subordination.

The multilateral institutions on which the middle powers have relied – the WTO, the UN, the COP – the architecture, the very architecture of collective problem solving are under threat. And as a result, many countries are drawing the same conclusions that they must develop greater strategic autonomy, in energy, food, critical minerals, in finance and supply chains.

And this impulse is understandable. A country that can't feed itself, fuel itself or defend itself, has few options. When the rules no longer protect you, you must protect yourself.

But let's be clear eyed about where this leads.

A world of fortresses will be poorer, more fragile and less sustainable. And there is another truth. If great powers abandon even the pretense of rules and values for the unhindered pursuit of their power and interests, the gains from transactionalism will become harder to replicate.

Hegemons cannot continually monetize their relationships.

Allies will diversify to hedge against uncertainty.

They'll buy insurance, increase options in order to rebuild sovereignty – sovereignty that was once grounded in rules, but will increasingly be anchored in the ability to withstand pressure.

This room knows this is classic risk management. Risk management comes at a price, but that cost of strategic autonomy, of sovereignty can also be shared. Collective investments in resilience are cheaper than everyone building their own fortresses. Shared standards reduce fragmentations. Complementarities are positive sum. And the question for middle powers like Canada is not whether to adapt to the new reality – we must. The question is whether we adapt by simply building higher walls, or whether we can do something more ambitious.

Now Canada was amongst the first to hear the wake-up call, leading us to fundamentally shift our strategic posture.

Canadians know that our old comfortable assumptions that our geography and alliance memberships automatically conferred prosperity and security – that assumption is no longer valid. And our new approach rests on what Alexander Stubb, the President of Finland, has termed “value-based realism”.

Or, to put another way, we aim to be both principled and pragmatic – principled in our commitment to fundamental values, sovereignty, territorial integrity, the prohibition of the use of force, except when consistent with the UN Charter, and respect for human rights, and pragmatic and recognizing that progress is often incremental, that interests diverge, that not every partner will share all of our values.

So, we're engaging broadly, strategically with open eyes. We actively take on the world as it is, not wait around for a world we wish to be.

We are calibrating our relationships, so their depth reflects our values, and we're prioritizing broad engagement to maximize our influence, given and given the fluidity of the world at the moment, the risks that this poses and the stakes for what comes next.

And we are no longer just relying on the strength of our values, but also the value of our strength.

We are building that strength at home.

Since my government took office, we have cut taxes on incomes, on capital gains and business investment. We have removed all federal barriers to interprovincial trade. We are fast tracking a trillion dollars of investments in energy, AI, critical minerals, new trade corridors and beyond. We're doubling our defence spending by the end of this decade, and we're doing so in ways that build our domestic industries.

And we are rapidly diversifying abroad. We have agreed a comprehensive strategic partnership with the EU, including joining SAFE, the European defence procurement arrangements. We have signed 12 other trade and security deals on four continents in six months. The past few days, we've concluded new strategic partnerships with China and Qatar. We're negotiating free trade pacts with India, ASEAN, Thailand, Philippines and Mercosur.

We're doing something else. To help solve global problems, we're pursuing variable geometry, in other words, different coalitions for different issues based on common values and interests. So, on Ukraine, we're a core member of the Coalition of the Willing and one of the largest per capita contributors to its defence and security.

On Arctic sovereignty, we stand firmly with Greenland and Denmark, and fully support their unique right to determine Greenland's future.

Our commitment to NATO's Article 5 is unwavering, so we're working with our NATO allies, including the Nordic Baltic Gate, to further secure the alliance's northern and western flanks, including through Canada's unprecedented investments in over-the-horizon radar, in submarines, in aircraft and boots on the ground, boots on the ice.

Canada strongly opposes tariffs over Greenland and calls for focused talks to achieve our shared objectives of security and prosperity in the Arctic.

On plurilateral trade, we're championing efforts to build a bridge between the Trans Pacific Partnership and the European Union, which would create a new trading bloc of 1.5 billion people. On critical minerals, we're forming buyers’ clubs anchored in the G7 so the world can diversify away from concentrated supply. And on AI, we're cooperating with like-minded democracies to ensure that we won't ultimately be forced to choose between hegemons and hyper-scalers.

This is not naive multilateralism, nor is it relying on their institutions. It's building coalitions that work – issues by issue, with partners who share enough common ground to act together.

In some cases, this will be the vast majority of nations.

What it's doing is creating a dense web of connections across trade, investment, culture, on which we can draw for future challenges and opportunities.

Argue, the middle powers must act together, because if we're not at the table, we're on the menu.

But I'd also say that great powers, great powers can afford for now to go it alone. They have the market size, the military capacity and the leverage to dictate terms. Middle powers do not.

But when we only negotiate bilaterally with a hegemon, we negotiate from weakness. We accept what's offered. We compete with each other to be the most accommodating.

This is not sovereignty. It's the performance of sovereignty while accepting subordination. In a world of great power rivalry, the countries in between have a choice – compete with each other for favour, or to combine to create a third path with impact.

We shouldn't allow the rise of hard power to blind us to the fact that the power of legitimacy, integrity and rules will remain strong, if we choose to wield them together – which brings me back to Havel.

What does it mean for middle powers to live the truth?

First, it means naming reality. Stop invoking rules-based international order as though it still functions as advertised. Call it what it is – a system of intensifying great power rivalry, where the most powerful pursue their interests, using economic integration as coercion.

It means acting consistently, applying the same standards to allies and rivals. When middle powers criticize economic intimidation from one direction, but stay silent when it comes from another, we are keeping the sign in the window.

It means building what we claim to believe in, rather than waiting for the old order to be restored. It means creating institutions and agreements that function as described. And it means reducing the leverage that enables coercion – that's building a strong domestic economy. It should be every government's immediate priority.

And diversification internationally is not just economic prudence, it's a material foundation for honest foreign policy, because countries earn the right to principled stands by reducing their vulnerability to retaliation. So Canada. Canada has what the world wants. We are an energy superpower. We hold vast reserves of critical minerals. We have the most educated population in the world. Our pension funds are amongst the world's largest and most sophisticated investors. In other words, we have capital, talent… we also have a government with immense fiscal capacity to act decisively. And we have the values to which many others aspire.

Canada is a pluralistic society that works. Our public square is loud, diverse and free. Canadians remain committed to sustainability. We are a stable and reliable partner in a world that is anything but.. A partner that builds and values relationships for the long term.

And we have something else. We have a recognition of what's happening and a determination to act accordingly. We understand that this rupture calls for more than adaptation. It calls for honesty about the world as it is.

We are taking the sign out of the window. We know the old order is not coming back. We shouldn't mourn it. Nostalgia is not a strategy, but we believe that from the fracture, we can build something bigger, better, stronger, more just. This is the task of the middle powers, the countries that have the most to lose from a world of fortresses and most to gain from genuine cooperation.

The powerful have their power.

But we have something too – the capacity to stop pretending, to name reality, to build our strength at home and to act together.

That is Canada's path. We choose it openly and confidently, and it is a path wide open to any country willing to take it with us. Thank you very much.”






Fonte
























21 janeiro 2026

EMULSÃO PARA SERIGRAFIA

DIY 
EMULSÃO SERIGRÁFICA PROFISSIONAL



FAÇA VOCÊ MESMO SUA EMULSÃO PROFISSIONAL 
PARA SERIGRAFIA 


Material

1) ÁLCOOL POLIVINÍLICO (=ACETATO DE POLIVINILO)
O álcool polivinílico (PVOH ou PVA) é um polímero sintético, incolor e solúvel em água, versátil, usado como espessante, emulsificante e formador de filme, com propriedades adesivas e resistência a óleos.

2) ÁLCOOL INDUSTRIAL 
Álcool industrial é o etanol (álcool etílico) destinado a usos não-consumíveis, atuando como solvente, matéria-prima e agente de limpeza em diversas indústrias (química, cosmética, farmacêutica, tintas, etc.), com alta pureza e controle de qualidade rigoroso para garantir segurança em aplicações técnicas. Dissolve outras substâncias, sendo fundamental na produção de tintas, vernizes, resinas, adesivos e removedores.

3) BRANCO DE ZINCO 
O branco de zinco é o nome comum do composto químico óxido de zinco, ZnO, um pó inorgânico branco amplamente utilizado por suas propriedades opacificantes, antissépticas e de proteção solar; é um pigmento usado para produzir tinta branca.

4) FORMOL 
Dissolve outras substâncias, sendo fundamental na produção de tintas, vernizes, resinas, adesivos e removedores; Fórmula: CH2O. Tóxico, carcinogênico.

5) ACRONAL 
Acronal é uma marca da BASF para uma linha de dispersões poliméricas aquosas, principalmente copolímeros acrílicos e estireno-acrílicos, usados como aglutinantes (ligantes) e aditivos em tintas, vernizes, adesivos, tecidos não-tecidos e construção civil para melhorar resistência à água, durabilidade e desempenho. É um tipo de plastificante.

6) VIOLETA DE GENCIANA 
A violeta de genciana (também conhecida como cloreto de metilrosanilínio) é um antisséptico tópico e corante com propriedades antifúngicas e antibacterianas. É um derivado da anilina usado em laboratórios para coloração de Gram (microbiologia; para corar a parede celular de bactérias) e na indústria para tingir tecidos. Composição: É uma mistura de corantes triarilmetanos.

7) PIGMENTO PARA TINTA TÊXTIL 
Usado para dar visibilidade à aplicação na tela.

8) CMC, CarboxiMetilCelulose
O CMC (Carboximetilcelulose de Sódio), frequentemente chamado apenas de carboximetilcelulose, é um polímero derivado da celulose (um componente vegetal) que atua como aditivo espessante, estabilizante e emulsificante.


A seguir é apresentada uma análise técnica criteriosa da fórmula mostradas e proposto um ajuste coerente e funcional, respeitando os materiais listados na fórmula desenvolvida pelo professor Justino Salas, Mestre em Serigrafia. 
Nesse artigo, é usada una linguagem de química aplicada à serigrafia, deixando claro o papel de cada componente, suas proporções, temperaturas de uso, ordem de preparo e limitações reais dessa emulsão.

Aviso técnico importante
A presença de formol (formaldeído) exige uso profissional, ventilação adequada e EPIs. Trata-se de um reticulante tóxico, hoje substituído industrialmente, mas historicamente usado em emulsões artesanais.


1. Análise funcional dos componentes listados


Observação crítica
Essa fórmula não é fotossensível por si só. Trata-se de uma emulsão base endurecível, indicada para:

• estêncil químico
• processos artesanais
• uso com máscaras ou desenho direto (não substitui emulsão diazo ou fotopolímero moderna.)

2. FÓRMULA AJUSTADA – Emulsão base funcional (1 litro)

Fase A – Polímero base

Água destilada → 700 ml
Álcool polivinílico (PVA 87–89%) → 60 g
CMC → 4 g

Fase B – Modificadores

Acronal → 80 ml
Álcool industrial → 40 ml

Fase C – Cargas e aditivos

Branco de zinco → 15 g
Pigmento têxtil (opcional) → 3–5 g
Violeta de genciana (solução 1%) → 2 ml

Fase D – Reticulação (opcional e perigosa)

Formol (37%) → 3 ml
(máx. absoluto: 5 ml por litro)


3. Modo de preparo – passo a passo técnico

ETAPA 1 – Dissolução do PVA

1. Aquecer 700 ml de água a 85–90 °C
2. Adicionar lentamente os 60 g de PVA, sob agitação constante
3. Manter temperatura até obter solução translúcida e homogênea
4. Reservar

Tempo médio: 30–40 minutos

ETAPA 2 – Preparação do espessante (CMC)

1. Em recipiente separado, dissolver 4 g de CMC em 50 ml de água fria
2. Deixar hidratar por 30 minutos
3. Misturar até gel homogêneo

ETAPA 3 – Incorporação dos polímeros

1. Com a solução de PVA a 40–45 °C, adicionar:
Gel de CMC
80 ml de Acronal

2. Misturar lentamente para evitar bolhas

ETAPA 4 – Dispersão das cargas

1. Em copo separado, dispersar:
15 g de branco de zinco
pigmento têxtil em 40 ml de álcool industrial

2. Triturar até pasta lisa

3. Incorporar lentamente à emulsão principal


ETAPA 5 – Aditivos finais

1. Adicionar:
2 ml de violeta de genciana
2. Misturar suavemente


ETAPA 6 – Reticulação (opcional)

Ambiente ventilado
1. Adicionar 3 ml de formol
2. Misturar por no máximo 2 minutos
3. Usar a emulsão em até 24–48 horas
4. Propriedades finais da emulsão


5. Limitações técnicas importantes

❌ Não é emulsão fotossensível
❌ Não indicada para retículas finas
❌ Formol reduz vida útil, além de ser tóxico. 
Boa para estudo, stencil manual e processos históricos

6. Consideração profissional final
Essa fórmula faz sentido histórico e artesanal, especialmente como:
• emulsão base endurecível
• sistema híbrido PVA + acrílico
• experimento didático de química serigráfica

Ela não substitui emulsões modernas, mas pode funcionar corretamente se preparada com rigor químico.




II. MÉTODO SEGURO SEM FORMOL

Do ponto de vista químico, técnico e de segurança, substituir o formol é hoje uma necessidade, não apenas uma opção. Abaixo são apresentadas substitutos seguros, funcionais e historicamente coerentes para emulsões serigráficas à base de PVA/Acronal, explicando por que funcionam, como usar e em quais contextos cada um é mais adequado.

Por que o formol era usado (e por que evitá-lo)

O formol (formaldeído) atua como reticulante químico, criando pontes entre cadeias de: PVA e celulósicos (CMC).

Isso aumenta:

• resistência à água
• dureza do filme
• durabilidade do estêncil

Problema, o formaldeído é:

• carcinogênico (IARC Grupo 1)
• volátil
• irritante severo respiratório e ocular, sendo por isso banido de formulações modernas.


SUBSTITUTOS SEGUROS E EFICAZES

1. SUBSTITUTO Nº 1 – BORATO DE SÓDIO (Bórax)

🟢 RECOMENDADO para uso artesanal e didático
Por que funciona
O bórax cria reticulação iônica reversível com o PVA, formando uma rede polimérica estável, semelhante ao “slime” industrial, porém controlada.

Vantagens
✔ Atóxico em baixas concentrações
✔ Fácil de obter
✔ Não volátil
✔ Compatível com PVA e Acronal

Dosagem recomendada (1 litro de emulsão)
Bórax (Na₂B₄O₇·10H₂O) → 2 a 4 g
Água quente (60 °C) → 50 ml

Modo de uso
1. Dissolver o bórax em água quente
2. Adicionar lentamente à emulsão já pronta
3. Misturar suavemente
4. A viscosidade aumentará progressivamente

Resultado
• filme mais resistente à água
• menor toxicidade
• vida útil maior (7–14 dias)


2. SUBSTITUTO Nº 2 – ÁCIDO CÍTRICO + CALOR 
(reticulação térmica)

🟢 100% seguro e alimentar
Por que funciona
O ácido cítrico promove esterificação leve entre grupos hidroxila do PVA e da celulose quando aquecido, criando ligações estáveis.

Vantagens
✔ Não tóxico
✔ Barato
✔ Controlável
✔ Muito usado em biopolímeros

Dosagem (1 litro)
Ácido cítrico → 2 g
Dissolver em 30 ml de água
Cura térmica após aplicação

Cura
Secagem da tela a 90–110 °C por 10–15 minutos
(Estufa ou soprador térmico)

Resultado
• estêncil resistente à água
• sem liberação de vapores tóxicos


3. SUBSTITUTO Nº 3 – GLICOXAL (industrial, sem formaldeído)

🟡 Profissional / químico
Por que funciona
O glicoxal é um dialdeído, semelhante ao formol, mas:
• não volátil
• muito menos tóxico
• usado em têxteis, papel e cosméticos

Dosagem
Glicoxal 40% → 3–5 ml por litro

Resultado
• resistência próxima ao formol
• maior segurança ocupacional
• Ainda exige EPI, mas é muito mais seguro.


4. SUBSTITUTO Nº 4 – POLIURETANO AQUOSO (PUD)

🟡 Alta performance – alternativa moderna
Função
Substitui completamente a função do endurecedor químico ao:
• criar filme cruzado
• aumentar resistência química

Dosagem
5–10% sobre o volume total da emulsão

Ideal para quem deseja:
• durabilidade
• resistência a tintas solventes
• sem riscos toxicológicos


5. COMPARATIVO FINAL


6. Recomendação profissional final

Para substituir definitivamente o formol, é recomendado:

🥇 Melhor equilíbrio geral
➡ Bórax (3 g/L)

🥈 Opção mais segura absoluta
➡ Ácido cítrico + cura térmica

🥉 Uso profissional avançado
➡ Glicoxal ou PU aquoso



EMULSÃO REFORMULADA SEM NEMHUM ALDEÍDO 

A seguir apresento uma reformulação completa da emulsão serigráfica SEM QUALQUER ALDEÍDO, tecnicamente coerente, segura, funcional, e adaptada especificamente para malhas 90 e 120, usando matérias-primas disponíveis no Brasil, com endurecimento físico-químico não tóxico.
O modelo adotado é uma emulsão híbrida PVA + acrílico, com reticulação por bórax e/ou ácido cítrico, que substitui integralmente o papel do formol.


1. CONCEITO DA EMULSÃO (SEM ALDEÍDOS)

Esta emulsão baseia-se em:

PVA → formador de filme
Acronal (resina acrílica aquosa) → resistência mecânica
CMC → controle reológico
Bórax ou ácido cítrico → reticulação segura
Carga mineral (ZnO) → opacidade e estabilidade
Corantes traço → visibilidade

✔ Compatível com tintas à base d’água
✔ Boa definição de detalhe
✔ Revelação fácil
✔ Cura térmica opcional
✔ Não tóxica


2. FÓRMULA BASE — EMULSÃO SEM ALDEÍDOS (1 LITRO)

FASE A — SOLUÇÃO DE PVA

Água deionizada → 600 ml
Álcool polivinílico (PVA 88–98% hidrolisado) → 80 g

Preparo
1. Aquecer a água a 85–90 °C
2. Adicionar o PVA lentamente
3. Agitar até dissolução total
4. Resfriar até 40 °C

FASE B — MODIFICADORES

Acronal (resina acrílica) → 120 ml
CMC (carboximetilcelulose) → 2,0 g
Branco de zinco (ZnO) → 8 g

Preparo
1. Dispersar o CMC em 50 ml de água fria
2. Hidratar por 30 min
3. Adicionar ZnO sob agitação
4. Incorporar ao PVA resfriado
5. Misturar o Acronal lentamente

FASE C — RETICULAÇÃO SEGURA (escolha UMA)

OPÇÃO 1 – BÓRAX (mais simples)
Bórax → 3 g
Água quente (60 °C) → 50 ml
Dissolver e adicionar lentamente à emulsão.

OPÇÃO 2 – ÁCIDO CÍTRICO (100% alimentar)
Ácido cítrico → 2 g
Água → 30 ml

Adicionar e ativar com calor após secagem da tela.

FASE D — AJUSTES FINAIS

Violeta de genciana → 0,1 g
Pigmento têxtil (opcional) → até 0,5 g
Misturar suavemente. Filtrar se possível.


3. AJUSTES POR TIPO DE MALHA

🔵 MALHA 90 (fio mais grosso, mais carga)
Objetivo: maior resistência e espessura

Ajustes
Acronal → 140 ml
ZnO → 10 g
Bórax → 4 g

Resultado:
camada mais espessa
excelente resistência
ideal para áreas chapadas


🟢 MALHA 120 (detalhe fino)
Objetivo: maior fluidez e definição

Ajustes
Acronal → 100 ml
ZnO → 6 g
CMC → 1,5 g
Bórax → 2,5 g

Resultado
camada mais fina
ótimo detalhamento
revelação rápida


4. APLICAÇÃO E CURA

Aplicação
1 demão lado externo
1 demão lado interno
Secagem ao ar, no escuro

Cura (opcional, recomendada)
90–100 °C por 10 minutos
(estufa, soprador térmico ou secador industrial)
➡ aumenta resistência à água sem toxicidade


5. VANTAGENS SOBRE FÓRMULAS ANTIGAS

✔ Zero formaldeído
✔ Sem vapores tóxicos
✔ Uso doméstico seguro
✔ Estável por 7–14 dias refrigerada
✔ Compatível com normas modernas de segurança







Fonte inspiração para esse artigo

10 janeiro 2026

TORSO DO BELVEDERE

TORSO DO BELVEDERE 


O Torso do Belvedere (conhecido em italiano como Torso del Belvedere ou Toso Belvedere, forma arcaizante ainda encontrada em alguns textos) é uma das esculturas mais célebres da Antiguidade clássica preservadas até a atualidade. 



Torso do belvedere (Google imagens).

Essa obra possui este nome: Torso do Belvedere, porque, quando foi descoberto no final do século XV, foi levado para o Cortile del Belvedere (Pátio do Belvedere), uma área do complexo do Vaticano. A palavra “Belvedere” vem do italiano e significa literalmente (bel, bello+vedere) “bela vista” ou mirante. É um termo arquitetónico comum para designar uma construção ou local (terraço, torre ou pavilhão) que oferece um panorama agradável, belo da paisagem. Portanto, o nome da escultura refere-se à sua localização inicial no Vaticano, e não a uma descrição da obra em si, que é um fragmento de uma estátua maior. A escultura, que se acredita representar o herói grego Ajax meditando sobre o suicídio, ou possivelmente Hércules sentado depois de ter realizado seus doze trabalhos, tem sido muito admirada e estudada por artistas, como Michelangelo e Rafael, desde sua descoberta. Atualmente, ela continua exposta nos Museus do Vaticano.

Torso do Belvedere (WP)

Torso do Belvedere (WP)

O Torso Belvedere é uma escultura de mármore mutilada, assinada pelo escultor ateniense Apolônio de Atena, do século I a.C., e conservada no Salão das Musas do complexo do Museu Pio-Clementino, nos Museus Vaticanos. Obra autografada em estilo neo-ático, tem notável importância na recepção cultural da arte grega na era moderna, devido à influência que exerceu (juntamente com o Grupo de Laocoonte e o Apolo Belvedere) no desenvolvimento da história da arte no período posterior à sua descoberta, graças à fortuna e fama que desfrutou entre escultores e pintores de várias épocas, a partir da arte renascentista.

O Barco de Dante, de Eugène Delacroix (1822), retrata Flégias de costas com um remo na mão (WP).

Trata-se de um fragmento escultórico em mármore, representando o tronco masculino sem cabeça, membros ou extremidades, hoje conservado nos Museus Vaticanos, onde exerce, desde o Renascimento, um papel central na história da recepção da arte antiga no Ocidente.

Do ponto de vista estilístico e cronológico, o Torso do Belvedere é geralmente atribuído ao período helenístico tardio, datado entre o final do século II e o início do século I a.C. A obra é assinada na base por Apollônios de Atenas, filho de Nestor (Απολλώνιος Αθηναίος, Νέστορου, Apollōnios Athēnaios, Nestórou), o que constitui um dado excepcional, pois poucas esculturas antigas preservam a identificação de seu autor. A assinatura sugere a atuação de um escultor grego ativo em Roma, em um contexto de intensa circulação de obras e artistas helênicos no mundo romano.

Formalmente, o Torso do Belvedere exemplifica de maneira paradigmática a estética helenística: a figura apresenta uma complexa torção do tronco, com forte dinamismo muscular, tensão interna e uma concepção escultórica que privilegia o movimento potencial e a expressividade corpórea. O corpo não está em repouso clássico, mas em um estado de energia contida, sugerindo uma ação interrompida. A musculatura é vigorosa, quase excessiva, tratada com profundo conhecimento anatômico e com acentuado chiaroscuro, o que reforça a sensação de volume e vitalidade orgânica.

Quanto à identificação iconográfica, não há consenso definitivo. Diversas hipóteses foram propostas ao longo da história, entre elas a de que o torso representaria Héracles (Hércules) em repouso após um de seus trabalhos, Ajax em um momento de desespero ou ainda uma figura heroica genérica. A ausência de atributos e membros impede uma leitura conclusiva, mas essa ambiguidade contribuiu para a potência simbólica da obra, que passou a ser admirada não como representação narrativa, mas como essência formal do corpo heroico.

A importância histórica do Torso do Belvedere ultrapassa em muito sua condição fragmentária. Redescoberto em Roma no século XV, provavelmente no Campo de Marte, ele se tornou objeto de veneração entre artistas e intelectuais do Renascimento. Michelangelo Buonarroti, em particular, demonstrou profunda admiração pela escultura, recusando-se a restaurá-la por considerá-la perfeita em sua condição incompleta. A influência do Torso é visível em diversas obras michelangelescas, como os nus da Capela Sistina e as figuras inacabadas dos Prigioni (prisioneiros ou escravos), nas quais a tensão muscular e a luta da forma para emergir da matéria ecoam diretamente o modelo antigo.

Michelangelo Buonarroti, 1542; Prisioneiros (escravos).




Michelangelo Buonarroti, 1542; Prisioneiros (escravos), (Google imagens).

Do ponto de vista historiográfico, o Torso do Belvedere desempenhou um papel decisivo na formulação moderna da ideia de fragmento como valor estético. Ele contribuiu para deslocar o ideal de beleza da completude formal para a expressividade estrutural, influenciando não apenas o Renascimento, mas também o Neoclassicismo, o Romantismo e reflexões modernas sobre a ruína, o corpo e o tempo histórico. Johann Joachim Winckelmann, fundador da história da arte como disciplina, via no Torso uma manifestação suprema da “nobre simplicidade e grandeza serena” da arte grega, mesmo em sua dramaticidade helenística.

Assim, o Torso do Belvedere ocupa uma posição singular na história da arte: simultaneamente obra-prima da escultura antiga, testemunho do virtuosismo helenístico, matriz formativa da arte moderna e símbolo duradouro da continuidade, e da ruptura, entre a Antiguidade clássica e as tradições artísticas do Ocidente.


Os Prisiobeiros (escravos) de Michelangelo na 
Galleria Dell’Accademia em Florença. 

Na Galeria da Academia em Florença, adjacente ao corredor que leva ao renomado David de Michelangelo, estão quatro esculturas majestosas também criadas por Michelangelo, conhecidas como “Prisioneiros” ou “Escravos”. Estas são quatro figuras masculinas parcialmente concluídas emergindo de blocos de mármore. 
Essas esculturas são comumente conhecidas como Escravos, Prisioneiros ou Cativos. Conforme retratado nas fotos mencionadas acima, essas estátuas são representações inacabadas de figuras masculinas iniciadas por Michelangelo. Originalmente encomendadas para o túmulo do Papa Júlio II della Rovere, o projeto foi infelizmente abandonado devido à falta de apoio financeiro.(accademia)
(…)
O tema iconográfico dos Prisioneiros evoca muitas imagens e sugestões: eles lembram os prisioneiros representados nos monumentos triunfais da Roma antiga, uma exibição do butim de guerra do imperador e uma celebração de sua grandeza, mas também simbolizam a reflexão platônica sobre a alma humana, sobrecarregada pela gravidade do corpo e escravizada pela força das paixões. Os de Michelangelo são corpos poderosos, no entanto atormentados e sofredores, na impressão de uma luta extenuante exaltada ainda mais pela incompletude das obras.(accademia)

Os Prisioneiros da Galeria da Academia de Michelangelo, em seu estado inacabado, permitem-nos compreender a técnica escultórica de Buonarroti, completamente diferente daquela de todos os outros artistas: o procedimento habitual previa estabelecer as medidas e poses da figura e desbastar progressivamente a pedra até chegar a um esboço, ou a uma figura ainda cercada por um excedente de material.

Esse excedente tinha que ser removido com cautela, verificando constantemente a conformidade com o design ou modelo inicial. Por outro lado, Michelangelo trabalhou para atingir um estado quase finalizado para algumas partes, enquanto outras ainda estavam encerradas no bloco de pedra, como havia sido extraído.

A capacidade sobre-humana de imaginar a estátua dentro da pedra e de mudar as figuras mesmo durante a construção com base nas partes já esculpidas também foi acompanhada pelo uso completamente original das ferramentas: Michelangelo usou o cinzel e o arreio até a pele das esculturas, enquanto a prudência aconselhou todos a confiar em ferramentas finas para não correr o risco – com um golpe errado – de arruinar irreparavelmente a obra.(accademia)

De todos os Prisioneiros de Michelangelo, o Atlas representa emblematicamente a técnica de Michelangelo: enquanto o lado esquerdo do corpo e o braço estão quase terminados, a cabeça e o lado direito ainda estão incorporados na pedra, que pesa com sua forma paralelepipédica, lembrando o mito do deus grego. Na reflexão platônica sobre a alma humana e a busca pela verdade absoluta da arte, o inacabado de Buonarroti torna-se evidência de uma batalha feroz com a matéria, implacavelmente cavada para libertar a ideia aprisionada nela.(accademia)

Essa tensão, e duelo físico, é testemunhada pelas palavras com que Michelangelo falou de seu trabalho como escultor em Rima 152, onde comparou seu procedimento à elevação espiritual da alma em relação à carne.(accademia)

Junto com os Prisioneiros, na Galeria da Academia, você pode admirar a escultura de San Matteo, encomendada a Michelangelo em 1503, quando o Mestre trabalhava no David, como o primeiro de uma série de doze apóstolos destinados às Capelas da Tribuna da Catedral de Florença: o projeto permaneceu inacabado, assim como a estátua, esculpida apenas na parte frontal. Os Prisioneiros e São Mateus constituem – na disposição da Galeria da Academia no século XIX – uma espécie de guarda de honra e prelúdio à estátua de Davi, colocada no fundo da Galeria, no centro de uma êxedra de luz.

Rima 152

Rima 152 de Michelangelo Buonarroti é um célebre soneto que começa com os versos "Sì come per levar, donna, si pone" (Assim como, tirando, senhora, se põe). O poema explora a sua filosofia da arte, comparando a criação da escultura com a remoção do excesso de mármore para revelar a forma que já existe dentro da pedra. 

Texto Original (em Italiano)

Sì come per levar, donna, si pone
tempo e fatica in una viva e intera
effige, che, se ben circunda e serra,
qualche sua parte, non men che d'altre, buone;

o come, per sminuir, si fa, che sole
di pietra viva, ov'è 'l miglior, si scerra
una figura, e 'n quella parte serra
qualche sua parte, non men che d'altre, buone.

Non c'entra 'l vivo, ch'ogni alter pregio
di novo acquisto, amor, toglie, e ritira
l'animo, che per sé nel ciel vola.

Per che 'l mio foco, amor, non ha vigore,
se non quel che la mia virtù ne tira
dal tuo bel volto, e che nel cor m'avola. 


Tradução (em Português)

Assim como, tirando, senhora, se põe
tempo e fadiga numa viva e inteira
efígie, que, se bem circunda e serra,
alguma sua parte, não menos que outras, boas;

ou como, por diminuir, se faz, que só
de pedra viva, onde está o melhor, se escolhe
uma figura, e nessa parte serra
alguma sua parte, não menos que outras, boas.

Não entra o vivo, que todo outro preço
de novo adquirido, amor, tira e retira
a alma, que por si ao céu voa.

Pelo que o meu fogo, amor, não tem vigor,
senão aquele que a minha virtude dele tira
do teu belo rosto, e que no coração me eleva.


Este soneto reflete a ideia central da estética de Michelangelo, onde a forma ideal já está contida na matéria (mármore) e o artista a liberta através do processo de subtração, uma metáfora para o amor e a alma humana.


Com relação ao Torso de Belvedere, não existe uma reconstrução digital oficial ou universalmente aceite do Torso do Belvedere na sua forma original e completa, uma vez que a identidade exata da figura (Hércules ou Ajax, por exemplo) e sua pose original são objeto de debate. A escultura, datada do século I a.C. e admirada precisamente pelo seu estado fragmentário, nunca foi restaurada intencionalmente, nem mesmo por Michelangelo, que a considerava perfeita como estava. 

No entanto, é possível encontrar modelos digitais em 3D do torso na sua condição atual para estudo e visualização: Modelos 3D para visualização: Várias plataformas de modelos 3D, como o Sketchfab e MyMiniFactory, disponibilizam digitalizações do torso que permitem a interação e a observação de detalhes de todos os ângulos.

A escultura é frequentemente utilizada em estudos académicos sobre a arte antiga e a sua influência, havendo publicações e teses que exploram a reconstrução digital no contexto da preservação do património cultural, embora sem focar numa “reconstrução” da peça em si. Portanto, a “reconstrução digital” mais comum refere-se à criação de modelos 3D do fragmento existente, e não a uma reintegração especulativa de braços, pernas e cabeça.





Fonte