INÍCIO

13 maio 2024

ENCHENTE EM PORTO ALEGRE

PORTO ALEGRE É HOJE UMA CIDADE DISTÓPICA

Excelente artigo, porque alcança a raiz da catástrofe climática no Rio Grande do Sul, isto é, a política do pior, cuja receita que começa pelo descaso (não investimento), abandono (não reposição de pessoal especializado), sucateamento (ausência de reparos, pouco ou nenhum investimento na conservação e manutenção) de tom neoliberal (privatização e máxima concentração do capital) que enfraqueceu o Estado de Bem-estar social, as estruturas de defesa ambientais e da sociedade a fim da liberar o lucro irresponsável do mercado no campo e nas cidades.

Não é mais possível para as cidades elegerem necropolíticos neoliberais conservadores fascistas. Isso levará a ruína e à morte da população. Devemos entender de uma vez por todas que não estamos separados da Terra, somos um sistema fechado o que fazemos com os recursos naturais determina nosso futuro; e o que acontece com um acontece com todos. Não há mais espaço para a extrema direta, são políticos vinculados a destruição e a morte do planeta.  



Artigo original do jornal 


LEIA O ARTIGO DEPOIS DAS FOTOS DA TRAGÉDIA. 




1941


























































































(Foto EFE)

Epicentro das inundações no Brasil

Porto Alegre é hoje uma cidade distópica. Na capital gaúcha foi imposta uma visão que não protege o meio ambiente, como em outras grandes metrópoles da América Latina. 
As leis do mercado imobiliário, tão predatórias quanto as que desmatam diariamente a Amazônia, venceram

Porto Alegre é cercada por águas barrentas que varrem tudo o que encontram pelo caminho. Hoje é uma cidade distópica. Uma maré imparável deixou-a submersa em seus bairros mais baixos, às margens do Guaíba. Um rio e um lago ao mesmo tempo, dependendo de como se olha a sua hidrografia. Uma explicação da tragédia pode aparecer nesses dois substantivos. 

Um rio requer certas defesas. Um lago nem tanto. Na capital gaúcha prevaleceu a visão menos protecionista, assim como em outras grandes cidades da América Latina. 
As leis do mercado imobiliário, tão predatórias quanto as que desmatam diariamente a Amazônia, venceram. Outro motivo é a corrente El Niño. 

A bacia que circunda a capital gaúcha passou de calha em pleno período de estiagem para 5,35 metros em poucos meses. Marca que superou os 4,75 da grande enchente de 1941. Passaram-se 83 anos. Não houve grandes obras e houve negligência criminosa que já custou 143 mortos, 131 desaparecidos, 81 mil evacuados e 441,3 mil pessoas ficaram desalojadas. Muitos fugiram para cidades do norte do Estado e de Santa Catarina.

As imagens dos dois grandes estádios da cidade, a Arena do Grêmio e o Beira Rio, do Inter, seu clássico rival, são o cartão-postal mais eloquente do desastre ambiental. Parecem dois anfiteatros em ruínas. 
Os seus campos de jogo desapareceram sob a água acastanhada. A prefeitura da capital gaúcha também ficou submersa. E o centro histórico, a orla do Guaíba, que equivale à nossa orla portenha, e bairros tradicionais como Cidade Baixa e Menino Deus permanecem submersos, onde as ruas começaram a escoar porque estações elevatórias que estavam inoperantes voltaram a funcionar. As chuvas que não param são a pior ameaça.

O interior do estado vizinho à Argentina está igual ou pior. Os rios Taquari, Jacuí, Caí e Sinos continuam subindo. As previsões são as piores. Apenas o primeiro subiu sete metros em quase 24 horas. A pequena cidade de Estrela, numa região colonizada por alemães, foi destruída. É um dos 444 que, segundo o jornal Zero Hora (ZH), principal jornal de Porto Alegre, sofreram graves consequências devido às chuvas e ao transbordamento de efluentes que deságuam primeiro no Guaíba, depois na Lagoa dos Patos e por último no Oceano Atlântico. Um sistema de água que não dá conta e se assemelha a um funil em direção ao sul do Estado.

As intensas chuvas nas montanhas, em cidades turísticas como Gramado e Canela, aumentam as dificuldades. Toda a água que corre em direção a Porto Alegre e sua periferia, Canoas é uma das cidades mais afetadas, fica estagnada e não tem escoamento. 

Ausência de políticas contra as alterações climáticas

Para alguns especialistas, o desastre foi causado pela ausência de políticas contra as alterações climáticas. Matheus Gomes, deputado estadual do PSOL, mestre em História e ativista ambiental, critica o governador Eduardo Leite, do PSDB: “Ele modificou 480 normas do código ambiental do Rio Grande do Sul, passando para o rebanho, em consonância com a destrutiva política do então ministro Ricardo Salles. O projeto foi aprovado em apenas 75 dias. A única razão pela qual ele não foi mais rápido foi porque uma decisão judicial o impediu de fazê-lo”, escreveu ele em uma coluna no ZH. O prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, também não ficou a salvo das acusações.

Salles foi ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro, nega mudanças climáticas e teve que renunciar ao cargo quando foi suspeito de traficar madeira da Amazônia. Hoje ele é deputado federal por São Paulo e acaba de postar no X com segurança: “O governo Lula acabou. A partir de agora será apenas o despertar de um enterro político já marcado para 2026.” 

Outro fato que provoca debate entre ambientalistas e negacionistas como Salles é a falta de proteção do bioma Pampa, o principal do Rio Grande do Sul, que regula os ciclos da água e a absorção de carbono. Possui uma área de 193.836km² (dados do IBGE, 2019), o que corresponde a 69% do território do Estado e 2,3% da superfície do Brasil. 

Segundo o deputado Gomes, “nas últimas décadas, o Pampa tem sido o bioma proporcionalmente mais degradado do país, perdendo 30% de sua superfície”.

O pessimismo dos analistas das alterações climáticas é ratificado em catástrofes como a atual. Aldo Fornazieri, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), escreveu na Carta Capital que “os desastres ambientais só vão piorar. É hora de a sociedade tratar os políticos negacionistas como criminosos.” 

O Rio Grande do Sul tem pouco mais de 11 milhões de habitantes e os afetados são 2.039.084, segundo as autoridades. Nestes dias de águas turvas fluindo entre lama, galhos e restos de lixo, a ajuda do governo federal (50,9 bilhões de reais) e a solidariedade contém as vítimas indefesas. Os centros onde são recolhidas as doações superaram todas as expectativas. Toneladas de roupas, alimentos e bens de primeira necessidade são separados e distribuídos por voluntários que trabalham em escolas, clubes e academias. 

Esta dedicação altruísta, mesmo de recém chegados de outros estados que viajaram para ajudar, contrasta com a atitude de bloggers, trolls e utilizadores das redes sociais que desinformam sobre o que está acontecendo. O bolsonarismo, tal como aconteceu durante a pandemia, voltou a agir de forma fragmentada.

Um médico negacionista de extrema-direita de Porto Alegre, Víctor Sorrentino, lançou acusações contra a Anvisa, Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Brasil, culpando-a por questões burocráticas de não distribuição de medicamentos nas áreas afetadas pela enchente, atribuição que não é dela. O ex-presidente também de extrema direita o elogiou nas mesmas redes onde esses personagens divulgam notícias falsas, i.e., mentiras. Em 2021, Sorrentino foi preso no Egito por assédio sexual a um vendedor de papiros. Ele foi libertado após pedir desculpas e foi proibido de retornar àquele país. A Anvisa negou, mas o estrago já estava feito. 

Um comportamento que mostra o que há de pior do bolsonarismo não tão residual que ironizou a pandemia, o sofrimento e as mortes e agora usa o desastre ambiental para espalhar desinformação.

Presidente Lula levou Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (PSD-MG) ao RS e deixou claro que reconstrução depende de que os gastos não entrem na conta do arcabouço fiscal. (Ao centro Presidente Luis Inácio Lula da Silva, Pimenta (cecom), a direita de Lula: Arthur Lira, Sebastião Melo (prefeito) e Eduardo Leite (governador)  - Foto: Divulgação Governo do estado.

Gustavo Veiga
gveiga@pagina12.com.ar


Fonte 


Artigo traduzido de 

















Cadê o Estado que estava aqui?

Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.
O Rio Grande do Sul vive momentos de terror e agonia e sem o Estado não há salvação.

A culpa é das águas. Para além das chuvas, a lista de responsáveis pela catástrofe climática que atinge o Rio Grande do Sul é longa. A começar por quatro anos de Bolsonaro e companhia passando a boiada. Mas a verdade é que a questão ambiental nunca foi prioridade no Brasil, tanto é que o governo federal achou alarmista e arquivou, em 2015, o relatório Brasil 2040 que previa as consequências das mudanças no clima. Agora, muitos insistem que é necessário planejamento prévio para evitar novas catástrofes, esquecendo que planejamento é tudo que o neoliberalismo não comporta, como lembra o ex-ministro Carlos Minc. Já o Congresso não tá nem aí e discute um "pacote da destruição" com 28 propostas de flexibilização das regras ambientais. O próprio governo gaúcho tem uma longa série de (ir)responsabilidades, como elencou o deputado Matheus Gomes (PSOL), que incluem mudanças no código florestal estadual e um orçamento de míseros R$ 100 mil para a Defesa Civil mesmo depois das enchentes do ano passado. E o governador Eduardo Leite (PSDB) ainda fez a proeza de privatizar o sistema de doações, divulgando um pix de uma obscura associação empresarial que depois discutirá sem participação da sociedade para onde se destinarão os recursos. Já o prefeito de Porto Alegre Sebastião Melo (MDB) não destinou, literalmente, sequer um centavo para a prevenção de enchentes, enquanto no meio da crise o Secretário Municipal de Desenvolvimento Social, Léo Voigt, em férias na Alemanha, pedia exoneração do cargo. E a situação ainda deve piorar, tanto pela permanência das chuvas, quanto pela indefinição do futuro de centenas de milhares de refugiados climáticos. Ainda assim, não faltam os aproveitadores da tragédia. O deputado federal Tenente Coronel Zucco (PL-RS) divulgou a conta de um instituto dedicado a formar lideranças de direita como destino para doações. Os deputados Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o senador Cleitinho (Republicanos-MG) aproveitaram a tragédia para divulgar fake news e devem ser investigados pela PF. E como cogumelos depois da chuva, os influencers e aventureiros políticos, montados em seus jet ski, aproveitam as redes para posar de salvadores e espalhar fake news que enaltecem empresários e omitem a presença do Estado nos socorros.

A ocasião faz o centrão. A tragédia no Rio Grande do Sul é ilustrativa das amarras que impedem Lula de governar. Em cima, o teto de gastos. Abaixo, um parlamentarismo movido a emendas. Não à toa, Lula levou Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (PSD-MG) junto ao Rio Grande do Sul e deixou claro que reconstrução dependia de que os gastos não entrassem na conta do arcabouço fiscal e que os deputados tivessem a decência de destinar as suas emendas para o estado. Lula aproveitou a carta branca do Congresso para liberar R$ 18,3 bilhões em obras do PAC voltadas à prevenção de desastres e o governo discute também o encaminhamento de alguma solução para o endividamento histórico do Rio Grande do Sul. Porém, a urgência e gravidade da situação faz tudo isso parecer pouco. Mesmo assim, as vozes do mercado se levantam para alertar que salvar vidas pode comprometer a sacrossanta meta fiscal. As amarras fiscais, inclusive, são um dos motivos para a baixa capacidade de prevenção à catástrofe climática por municípios e estados, alerta o especialista em Direito Ambiental, Alessandro Azzoni. Outros, como o Estadão, também acusam o governo e o centrão de usarem a catástrofe climática como desculpa para liberar verbas com objetivos eleitorais. De sua parte, Lula sabe que a emergência climática não pode esperar e já entendeu que terá que esgarçar os limites da austeridade para governar, ainda mais com a popularidade do governo estagnada e com o risco de que a perda da produção agrícola gaúcha agrave a inflação dos alimentos. Enquanto isso, Campos Neto também prestava um auxílio emergencial aos rentistas: o corte de apenas 0,25% nos juros significou a entrega de um valor sete vezes maior do que a ajuda ao RS para os banqueiros. Com a água no pescoço, o governo segue sem consenso sobre que rumo tomar. Enquanto uns querem ampliar o investimento público, outros ecoam o "veja bem" da austeridade do mercado, como a ministra do Planejamento, Simone Tebet, que numa hora dessas está preocupada mesmo é em planejar a redução das despesas obrigatórias do governo.




.Ponto Final




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Isso é um absurdo. Dos 445 municípios que decretaram estado de calamidade no Rio Grande do Sul, somente 69 formalizaram pedidos de recursos à Defesa Civil Nacional. O dinheiro está disponível, está pronto para alocação e uso imediato, mas 375 prefeitos ainda não formalizaram o pedido. Seja por politicagem, seja por fanatismo bolsonarista, seja por incompetência. O fato é que estão preferindo deixar os seus cidadãos sem auxílio do que pedir ajuda pro governo federal.

Leia em @historia_pensar (aqui)