INÍCIO

05 julho 2023

O AMOR

O amor é um erro

uma goiaba cheia de larvas de inseto

uma leve dor de cabeça que você descobre que é um câncer tarde demais. 

todos os tiros de um assassino 

Todas as facadas desferidas por ele depois de ter certeza que você já morreu

o amor é um funeral de alguém odiado.

O amor é um erro

o amor mata e depois vai no enterro chorar abraçado na sua mãe

Tic,tac,tic, tac

Uma bomba relógio num lugar lotado (quanto tempo durará à espera do fim?)

quando explode não mata. Sangra lentamente até a última gota da vida. 

O amor é um acidente corta (secciona) sua espinha, paraliza. 

O amor envenena sua comida 

Tira o gosto do mel. 

(Aqui correlacionar com todas as coisas que vc pode evitar mas não o faz devido à natureza do amor (que vicia)) 

O amor é um buraco no meio da estrada, a fumaça que te consome o pulmão 

É a cachaça que te destrói o fígado 

O amor 

Enquanto você lava a louça e toma banho

Enquanto voce escova os dentes e amarra os cadarços 


(Aqui comparar o amor com um predador) 

Mostrar a crueldade mas o aspecto essencial 

O amor tem garras

Voce é o inseto que caiu (numa) na teia

O cervo fugindo da onça 

O vírus que ataca silencioso

O peixe que não distingue o anzol escondido na isca

A cobra que persegue um ratinho

O louva-deus disfarçado de folha

O boi num caminhão de transporte de gado

A raposa dentro do galinheiro 

você é o inseto, a barata que precisa ser morta

O amor é lobo cravando seus dentes no pescoço da ovelhinha. 

o amor é o cigarro que você continua fumando mesmo com aqueles avisos

dizendo que essa merda vai te matar

o amor não é só o leite derramado

É a água que passou pela ponte 

A tinta misturada erroneamente 

A lenha jogada no fogo 


o amor é um erro

mas você pode trocar o amor por 

um óculos de sol

uma receita de panquecas

ou um piercing no nariz


só nunca cometa o erro de trocar o amor

por um final feliz

o amor é seu prato preferido antes da cadeira elétrica

É sentar em cima de um barril de pólvora e acender o pavio desejando chegar à lua 

é um peixe tentando acender uma vela

O amor esfaqueia teu coração 

Mas ele mesmo não morre no final 

Ele deixa um vazio que nada pode preencher 

Somente ele mesmo. 

Ele vai embora e se esconde em outro objeto

Até que seus olhos o reconheça novamente 


o amor é igual a grama

ninguém sabe pra que serve

mas deixa o jardim um pouco mais bonito

o amor é coisa da sua cabeça

a mentira que você conta e acredita

o amor é um suicídio mal feito

os pássaros gritando e as pessoas achando fofo

o amor é um erro

alguma falha na sociedade

uma bactéria que a gente perdeu o controle

o amor aponta a arma na sua cabeça e não atira

amor é covarde

o amor não quer te matar

quer só ver seus olhinhos brilhando e sua boca pedindo misericórdia 

o amor é só mais uma invenção pra vender mais cervejas

e carteiras de cigarros

o amor é o sangue escorrendo pela boca

a noticia que o presidente se suicidou mais uma vez

o amor me lembra aquele radio que eu tinha

e um dia estragou

toda vez que eu colocava um cd novo ele ficava repetindo a primeira musica

o amor se fosse um som

seria o som da tv sem sinal

o amor é o homem pisando na lua e lembrando que esqueceu de dar comida pro seu gato

é uma banda de rock sem guitarrista

é alguém dizendo que café solúvel é gostoso

o amor é todo mundo aplaudindo que o homem chegou na lua

e o gato morrendo de fome na cozinha.



(Autor: Nicolas ou desconhecido)

04 julho 2023

LUZ E TEMPO

A luz como metáfora da natureza metafísica principal do tempo passado


Augusto Bruno de Carvalho Dias Leite
19/2/2021

por Augusto de Carvalho


O tempo, tema central da metafísica, mereceu a atenção de alguns dos mais valiosos pensadores, de filósofos a físicos; o que, todavia, não impediu a permanência de sua característica mais irritante, a de ser um fenômeno improvável, inexplicável e um problema aparentemente insolúvel. Talvez seja impróprio opinar sobre questões de reconhecida relevância em uma província intelectual. Eu não poderia, portanto, atrever-me a perguntar de forma sincera “o que é o tempo?”. Ainda assim, de maneira deliberadamente imprudente, permito-me especular sobre o que podemos nomear de a possibilidade do tempo, seu reconhecimento como fenômeno existente, antes de cogitar uma explicação sobre seu funcionamento ou alguma dedução lógica que prove sua realidade. A pergunta que proponho, por conseguinte, é de ordem existencial: o que exatamente possibilita experimentarmos o tempo em seu sentido mais simples, como a passagem ou a impermanência dos estados gerais da existência?

Para responder a essa questão, apresento muito rapidamente uma metáfora, a qual parte de determinada premissa que tomo emprestado das ciências físicas, da ótica, qual seja a luz é a matéria elementar catalizadora do fenômeno da visão. Em termos filosóficos, a luz deve ser compreendida, assim, como o fundamento da experiência plena do espaço. Experimentamos ou conhecemos a profundidade espacial da existência somente e na medida que há o fenômeno físico da luz, que permite, por assim dizer, a existência do espaço. Toda visão, do ponto de vista ótico, é dependente da luz, que nos autoriza, por consequência, a experimentar ou ver o espaço. Da mesma forma que a luz é a matéria ou o meio físico que nos permite ver ou conhecer o espaço, metaforicamente, o passado seria a matéria ou o meio metafísico que nos permitiria ver ou conhecer o tempo. A luz, o princípio físico que possibilita a experiência do espaço, seria um análogo do passado, o princípio metafísico que possibilita a experiência do tempo. Nesses termos, o passado seria a matéria elementar catalizadora do fenômeno do tempo.

Com essa metáfora, evidentemente não pretendo reduzir o conceito de passado ao fenômeno eletromagnético da luz, mas apenas ampliar a compreensão metafísica do fenômeno do tempo a partir da analogia entre uma experiência concreta, a visão, e outra experiência, neste caso, abstrata, a transitoriedade ou passagem da existência. Como abstração, o fenômeno da passagem do tempo é dificilmente conceitualizado, isso porque suas referências se escondem em contradições. Uma contradição natural, o tempo é por definição um fenômeno inconsistente, expressão imediata da contingência ou do caráter provisório de toda realidade, cujo contrassenso lógico entre devir e existir configura sua condição mais primeva; pois o tempo, paradoxalmente, passa sem passar, persiste efêmero, expressa a transitividade de maneira intransitiva, conjuga temporalidade e eternidade em um átimo; motivo essencial das incontáveis aporias que provêm de toda meditação sobre sua natureza: tempo é ontologicamente uma contradição. Por isso, tal como afirma a metaforologia de Hans Blumenberg, uma metáfora, exatamente por ser imprecisa e irredutível a qualquer fator concreto e consistente da realidade, amplia os sentidos da palavra tempo, uma antinomia natural.

Tempo, uma abstração de primeira ordem derivada do fenômeno metafísico da transitoriedade ou passagem, alarga seu aspecto nessa metáfora, segundo a qual o passado comporta-se como a luz que possibilita a visão de certa imagem: imagem móvel da eternidade sempre presente; imagem dialética da contingência; imagem do agora, provisório, segundo um antes e um depois. O passado, assim, é o que nos permite ver o tempo, sua matéria fundamental, uma espécie de força existencial (ideal) e material (como vestígio), que constitui a aparição do que se apresenta presencialmente, aqui e agora. E como matéria existencial singular do tempo, o passado não se corresponde metaforicamente com o fenômeno, a visão, o que está ali, a existência sempre presente; mas, propriamente, o passado equivale à luz, ao meio físico que possibilita a visão, pois ele é a matéria metafísica do tempo. Não há visão sem luz, do ponto de vista físico, da mesma maneira que, da perspectiva metafísica, não há presença ou existência sem que haja passado, sem precedência ou, ainda tautologicamente, sem que haja experiência. Afinal, e a rigor, ensina a ontologia, ex nihilo nihil fit, nada advém do nada.

Somente através do passado nos é permitido olhar para qualquer fenômeno. Se há a existência, sua razão se ampara e se justifica em suficiente medida pela existência do passado. Há quem conteste e recuse essa ciência, e teorizações excessivas entulham conceitos em tentativas mirabolantes de explicar o que se mantém simples: se o tempo passa — pois sua passagem é fato físico e metafísico inultrapassável — é preciso haver passado, como substantivo, adjetivo e verbo principal da existência; pois como todos os tempos, presentes e futuros, irremediavelmente passam, eles já se tornaram ou se tornarão irresistivelmente passado. O passado não é nada além ou aquém que a origem e o destino do tempo. Mas como adverte Alberto Caeiro, sempre

Querem uma luz melhor que a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.


The Angel Standing in the Sun, JMW Turner (Reprodução: Tate)



Fonte 






FLASH DO PASSADO