GORE VIDAL
Gore Vidal, Oct. 3, 1925 – July 31, 2012
ANOTAÇÕES SOBRE GORE VIDAL
Por Ricardo Mussi
Gore Vidal foi talvez o mais versátil dentre os escritores contemporâneos. Além de trafegar com desenvoltura por diversos gêneros do romance, escreveu regularmente para o teatro, o cinema e a televisão. Destacou-se ainda como ensaísta e memorialista.
Ele nasceu em 1925, no hospital da Academia Militar de West Point. Seu avô materno era senador por Oklahoma. O pai, Gene Vidal, trocou o exército pela aviação civil. Gore Vidal passou a infância em Washington, no convívio com os rituais do poder e na condição de figura pública, uma celebridade dos cinejornais, acompanhando seu pai e o casal Lindbergh em voos pioneiros. Gene Vidal dirigia o departamento de comércio aéreo, no governo de Franklin D. Roosevelt. Gore Vidal alistou-se em 1943. Autodidata, desistiu de estudar em Harvard para tornar-se escritor.

Publicou seu primeiro romance, Williwaw, em 1946. A história se passa no local onde ele participou da guerra como piloto de um barco do exército: a ilha Umnak, parte do arquipélago das Aleutas, que se estende do Alasca à Rússia. Williwaws são ventos repentinos e inesperados provenientes do alto das montanhas das ilhas. O romance descreve a devastação produzida em um barco por uma dessas ventanias. Trata-se de uma metáfora: o temor de um ataque do exército inimigo é transposto para ameaças oriundas da natureza. A trama gira em torno de uma morte, talvez um assassinato, evocando Lord Jim, de Joseph Conrad, em um estilo assumidamente inspirado em Stephen Crane. (Musse, 2012)
Williwaw insere-se no ciclo de romances do pós-guerra, em geral, relatos das experiências de jovens combatentes dentro da máquina de guerra e nos campos de batalha, numa orientação acentuadamente naturalista. O tom convencional dessa série limitou seu impacto na ficção norte-americana, contrastando com os livros sobre a Primeira Guerra, marcados pelo experimentalismo formal.
Em 1947, Vidal mudou-se para a Guatemala. Lá concluiu A cidade e o pilar, romance que aborda o tema, então tabu, da homossexualidade. O livro foi um dos mais vendidos do ano de 1948, numa lista encabeçada por 1984, de George Orwell e na qual constava ainda Os nus e os mortos, de Norman Mailer. Mesmo assim a imprensa manteve silêncio acerca do livro. Um boicote que se estendeu ao longo da década de 1950, sobretudo após a publicação de Dark green, Bright red (1950), romance sobre a interferência militar e política dos EUA na América Latina.
“A cidade e o pilar” relata a história de dois amigos da adolescência. Quando adultos, um deles, Bob Ford, “esquece” um idílico amor juvenil que o outro, Jim Willard, procura recuperar escrevendo sobre os acontecimentos de sua infância. O “recalque” é superado num processo complexo, em que a memória é ativada por meio de sonhos e do livre exercício da imaginação.
Gore Vidal
Vidal passou os dois anos seguintes na Europa. Em Roma, conheceu Tennessee Williams. Em sua companhia viajou para Paris e Londres, convivendo no meio artístico e literário. Em 1950, instalou-se em Nova York, em uma mansão à beira do rio Hudson. À exceção de A cidade e o pilar, seus livros desse período não fizeram sucesso nem com o público nem com a crítica: In a Yellow Wood (1947); The Season of Confort (1949); À Procura do Rei (1950); The judment of Paris (1952); Messias (1954).
Para manter seu alto padrão de vida, Vidal recorreu a vários expedientes. Escreveu livros policiais sob pseudônimo, peças para a TV e para a Broadway, roteiros para o cinema (dois deles tornaram-se clássicos de Hollywood: Ben-Hur e De repente no último verão). Além de dinheiro, granjeou assim uma notoriedade pública que lhe permitiu tentar retomar a tradição familiar, candidatando-se ao Congresso norte-americano em 1960. Apesar do empenho pessoal de Eleanor Roosevelt e de suas relações com a família Kennedy (o primeiro padrasto de Vidal tornou-se em seguida padrasto de Jackie), não conseguiu se eleger, fracasso repetido em 1982.
No início dos anos 1960, Vidal retornou a Roma e ao romance. Com Juliano (1964), um relato do curto reinado do último imperador romano pagão, retorna também à lista de livros mais vendidos. Insistindo nessa vereda, escreveu uma série de romances históricos, revitalizando um gênero então desgastado. Adotou como cenário a Antiguidade greco-romana, caso de Juliano e Criação (1981), ou a sociedade norte-americana: Washington, (1957); Burr (1976); Lincoln (1984); Império (1987); Hollywood (1990); A Era Dourada (2000).
Vidal justifica seus romances históricos como uma tentativa de superar uma inversão contemporânea, na qual os melhores autores tendem a escrever sobre o simples e o banal enquanto os piores se atrevem a tratar dos mesmos assuntos que Homero, Dante e Shakespeare, isto é, a vida dos “heróis”.
Mas como reconstituir o passado sem recair em anacronismos ou na ilusão de imparcialidade? Vidal recusa a pretensão à verdade da ciência, construindo uma espécie de “objetividade” literária que prescinde do recurso à onisciência. Para tanto, vale-se de técnicas narrativas que ressaltam a importância do recalcado e de motivações não-conscientes. O relato, em geral uma “memória fictícia”, é feito a partir do ponto de vista de um personagem secundário que, à maneira do historiador moderno, especula acerca das motivações das personagens reais. Uma situação, diga-se de passagem, que Vidal vivenciou quando seu amigo Jonh Kennedy tornou-se presidente dos EUA.
Apesar dos cuidados com a veracidade e de suas minuciosas pesquisas históricas, sua obra não deixa de superestimar o papel dos “grandes homens” e da elite dominante, deixando na sombra os fatores econômicos, sociais e culturais.
Seus livros históricos procuram mostrar que os EUA jamais foram uma democracia. Nas palavras de Vidal, “somos governados há duzentos anos por um sistema oligárquico em que os homens de posses podem prosperar enquanto os outros devem se arrumar sozinhos”. Mais que isso, depois de 1900 e da Guerra contra a Espanha, tornaram-se imperialistas.
Seu repúdio à sociedade americana transparece também em seus romances experimentais ou sarcásticos. Na série iniciada com Myra Breckinridge (1983), continuada com Myron (1975) (Rocco), Kalki (1978) e Duluth (1983), Vidal examina as diversas modalidades de controle social, a sexualidade, a religião, a família, a indústria cultural etc., que transformaram os Estados Unidos em uma sociedade autoritária.
Gore Vidal escolheu relatar sua vida sob a forma de memórias, prescindindo do trabalho de confrontação das fontes que se tornou marca registrada de seus romances históricos. O gênero, composto de fragmentos, permite divagações e confluências ocasionais que revelam aspectos ignorados dos acontecimentos. Em Palimpsesto (1995), ele relata seus primeiros 39 anos de vida, até sua mudança em definitivo para a Itália. Começa pela família, com um retrato impiedoso da mãe e a admiração contida pelo pai e pelo avô. Fala pouco de si mesmo, apenas aludindo à sua compulsão à leitura na infância, e sexual na adolescência.
Seu foco são as personalidades com quem conviveu, cujos encontros e desencontros descreve minuciosamente: Anais Nin, Edmund Wilson, Lionel Trilling, Tennessee Wiliams, Norman Mailer, Paul Bowles, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs. Outro fio do livro são suas relações no mundo da política, com a viúva de Roosevelt e com a família Kennedy. Conta em detalhes sua briga com Robert Kennedy que o afastou da Casa Branca, precipitando sua mudança para Roma e seu retorno à literatura.
Vidal publicou mais de uma dezena de livros de ensaios, granjeando uma reputação que ameaça sobrepujar a de romancista. No Brasil, esses ensaios foram reunidos em duas coletâneas: De fato e de ficção (1987) e Como faço o que faço e talvez inclusive o porquê (1990). A primeira contém importantes artigos sobre escritores contemporâneos e acerca da geração anterior, um texto polêmico sobre a autoria no cinema e uma crítica da teoria do “novo romance” francês. A segunda coletânea traz artigos sobre Henry James e John dos Passos, um texto sobre a gênese e o declínio do império americano e sua resposta às críticas endereçadas ao seu romance Lincoln.
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Gore Vidal
Uma verdadeira figura renascentista da cena literária e política norte-americana do pós-guerra, Gore Vidal teve carreiras simultâneas como romancista best-seller, célebre, dramaturgo da Broadway, roteirista de primeira linha de Hollywood, político, ativista, ensaísta e historiador. Veterano da Segunda Guerra Mundial, Vidal havia perdido o amor de sua vida na Batalha de Iwo Jima e canalizou sua dor para o romance autobiográfico, The City and the Pillar, que causou escândalo no mundo editorial, mas mais tarde foi canonizado como um marco do movimento americano pelos direitos dos homossexuais. Aliado do presidente democrata John F. Kennedy, Vidal se envolveu frequentemente com o escritor conservador William F. Buckley, com quem brigou publicamente por 30 anos. Em Hollywood, Vidal produziu roteiros para filmes como "De repente, o último verão" (1959) e "Ben-Hur" (1959), enquanto sua escrita teatral e ficção inspiraram filmes como "Visit to a Small Planet" (1959). e o clássico camp "Myra Breckinridge" (1970). Afastando-se da vida pública nos últimos anos devido a uma doença, Vidal permaneceu uma figura vibrante, sobrevivendo a seus rivais políticos e literários para perdurar como o último homem das artes e letras do século XX.
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Ricardo Musse é professor no departamento de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Doutor em filosofia pela USP (1998) e mestre em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992). Atualmente, integra o Laboratório de Estudos Marxistas da USP (LEMARX-USP) e colabora para a revista: Margem esquerda: Ensaios Marxistas, publicação da Boitempo Editorial. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas.
Fonte
GORE VIDAL E OS COMUNISTAS
Gore Vidal dizia que militares não gostam de comunistas. E dizia o por quê.
Porque eles (os militares) recebem tudo do estado, e não querem dividir com ninguém.
Recebem do estado a comida. No mínimo três refeições diárias
Recebem do estado a roupa para o trabalho, a farda.
Recebem do estado uma moradia digna, confortável e segura.
Recebem educação para seus filhos em ótimas escolas, as escolas militares construídas principalmente para eles.
Tudo isso pago pelo estado.
Tudo isso com dinheiro público, dinheiro do povo, da arrecadação dos impostos, dinheiro dos trabalhadores.
Recebem tratamento quando estão doentes. Tem sua saúde garantida pelo estado em hospitais só para militares e seus familiares com todas as especialidades e tecnologias modernas. Possuem um sistema de saúde somente seu.
Não pagam a luz.
Não pagam nem a água que consomem.
Quando oficiais, moram em PNR (Próprio Nacional Residencial) pago pela União.
O Estado brasileiro provê para eles moradia de graça e lazer de graça em clubes militares, com piscinas e quadra de esportes.
Quando são transferidos, o estado paga verdadeiras fortunas para sua mudança.
Se são expulsos da corporação continuam recebendo salário até morrerem, (morte ficta) mesmo tendo sido maus servidores.
E em caso de morte o estado arca com o funeral.
Por isso os militares odeiam comunistas pois estes, os comunistas, desejam tudo isso para todo o povo, pois consideram injusto, ilegal e imoral que só uma classe seja privilegiada pelo estado, enquanto o resto passa fome.
Detalhe, Gore Vidal era filho de general.
Gore Vidal, Oct. 3, 1925–July 31, 2012
Gore Vidal foi um autor cujas obras refletiam sua opinião insatisfeita sobre a política externa americana e questões políticas, incluindo sexualidade. Além de romances que detalham figuras históricas, como Abraham Lincoln e Aaron Burr, Vidal também escreveu o roteiro do épico Ben-Hur, vencedor do Oscar de 1959. Espirituoso e argumentativo, Vidal, um democrata de longa data, também concorreu duas vezes a cargos políticos sem sucesso.
Gore Vidal was an author whose works reflected his dissatisfied take on American foreign policy and political issues including sexuality. In addition to novels detailing historical figures, such as Abraham Lincoln and Aaron Burr, Vidal also penned the screenplay to the Oscar-winning 1959 epic Ben-Hur. Witty and argumentative, Vidal, a lifelong Democrat, also unsuccessfully ran for political office twice.
Fontes








































































