DEMOCRACIA
Igor Gielow, da Folha, tem sido correia de transmissão das Psyops militares de uns anos para cá. Já mostramos várias vezes aqui como ele trabalha para 1) apagar as digitais militares do processo de construção dessa ilusão bolsonarista e; 2) faz isso sempre reiterando a ideia de que a) as FFAA atuam para "controlar" as explosões do Presidente e; b) as FFAA estão se portando como "instituição de Estado, não se Governo". Ou seja, IG reitera a ideia de que eles vão se colocar como fiadores do "processo democrático".
E por que eles precisam imprimir essa percepção? Sobretudo para apagar o registro de que eles estão, já neste momento, controlando toda a capilaridade e funcionamento do Estado. Já dei n exemplos disso, mas o mais óbvio é o controle do próprio processo eleitoral - como diz o próprio Bolsonaro, "da sala de controle à criptografia".
Para que essa manobra toda ocorra é preciso acima de tudo que a percepção social entenda que não há controle algum. Tudo se passa como se nada houvesse. Pois bem, NESTE MOMENTO essa é a "função Lula". É absolutamente imprescindível eles espalharem a versão de que 1) ao se "afastar" de Bolsonaro eles "admitem" a vitória do "polo oposto" e 2) que fazem isso porque a) são "subordinados" ao processo democrático ("civil") e; b) porque "temem" revanchismo de Lula (estes são argumentos que estão na matéria da Folha).
Nada disso faz o menor sentido se nos recusarmos a perder a memória. Eles foram, são e vão ser centrais no controle do que aconteceu de 8 anos para cá e além. Repito: controle do processo eleitoral. Quem está nessa posição só precisa enunciar esse papel de subordinação se quiser construir uma dissimulação. É é este o papel da matéria do Gielow hoje.
Vamos aos 3 pontos que ele apresenta para envernizar a história, comentados 1 a 1.
"1. O Exército determinou que todos os 67 exercícios militares programados para o ano fossem encerrados até setembro para liberar a tropa no caso de haver violência eleitoral ou, ainda pior, algum cenário ao estilo Capitólio dos EUA".
- como já dissemos outro dia, isto é 2018 redux. Vão concentrar operações até as eleições para passar a "imagem positiva" da "mão amiga". Essa é a estratégia "braço forte mão amiga" do PROFORÇA. Lembre-se também que o horizonte não é mais GLO, mas MOUT - operações em terreno urbano de forma constante, não excepcional. Modelo "Faixa de Gaza";
"2. A mesma Força lançou diretrizes no trato público da pandemia que vão contra o negacionismo preconizado por Bolsonaro, em particular criminalizando a divulgação de fake news, tão ao gosto do bolsonarismo, o que causou ruído no Planalto".
- Mentira. Isso é apagamento do "fator Pazuello". Basta lembrar que ele é da ativa, nada aconteceu e estava subordinado ao mesmo comandante. Isso só serve para produzir um efeito de rebranding, cujo propósito é justamente forçar a percepção para aqueles dualismo que mencionei acima;
"3. O diretor-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), almirante Antonio Barra Torres, divulgou uma duríssima nota chamando o presidente à responsabilidade por ter acusado o órgão de ter interesses escusos na vacinação de crianças, que Bolsonaro critica".
- Teatro. Como vimos, produziu o efeito esperado. Quase todos cardeais da esquerda caíram na conversa de que as FFAA vão segurar as pontas, se colocando assim na zona de conforto dos militares.
Numa situação em que se está com esse nível de vantagem estratégica, dá para acreditar sinceramente que eles estão nessa posição de recuo? Recuariam por que? Por causa dos "novos entendimentos" do STF? Por causa de pesquisas eleitorais? Lembre-se de 2 coisas:
1) nessa mesma época eleitoral em 2017/2018 Lula ganhava fácil. Ninguém se intimidou;
2) pesquisa por pesquisa, as FFAA ainda estão cotadas no topo da "confiabilidade", acima dos "políticos".
Pela 3a vez: eles estão no controle do processo eleitoral. Dito isso, uma consideração: é impossível Lula vencer? Claro que não. Eles controlam muito mas não controlam tudo. Lula pode subir tanto que não dê para frear. A magia da urna esbarra nos limites do convencimento da feitiçaria. Com a profusão de pesquisas todas as margens se estreitam. Aí o problema passa a ser outro, controlar o Governo, o que, do meu ponto de vista, já está dado. Aliás, não só Governo, mas também a oposição, quem quer que seja. C3I: Comando, Controle, Computação (Redes) e Informações (Intel). O plano era esse desde o início, afinal.
Finalmente, um sinal interessante. O Defesanet publicou esses dias uma matéria com função parecida com esta da Folha. Só que, como sabemos, sua balística é voltada para outro lado. Tem o propósito explícito de lançar cortinas de fumaça para confundir o público interno e coletar produzir informações, bem como alimentar alguns analistas do campo militar na imprensa, entre eles... O próprio Gielow. Vamos ver se o DNet não produz um artigo se contradizendo ao taxar o artigo de Gielow de "Coup d'Presse". Já fizeram isso antes.
Abaixo as duas matérias.
Artigo totalmente diversionista, uma cortina de fumaça para os incautos
por Wilson Ferreira
A nota do militar e dublê de Diretor Presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, contra as insinuações de que agência reguladora teria interesses escusos por trás da aprovação da vacinação infantil Covid-19, é mais um flagrante da operação psicológica da simulação de uma suposta “crise militar”. A canastrice retórica dessa bomba semiótica é tão evidente que deveria arrancar risadas e não análises sérias daqueles que conseguem encontrar verossimilhança num conflito tão fabricado. É também uma evidência de como, desde o golpe de 2016, o PIG (Partido da Imprensa Golpista – apud Paulo Henrique Amorim) saiu do modo “alarme” para entrar no modo “reprodução” para monitorar as reformas neoliberais, enquanto as Forças Armadas se assumiram como PMiG (Partido Militar Golpista), com todas as características de um verdadeiro partido político: Memória histórica e vocação institucional, Base ideológica, Pautas corporativas, Formação contínua de lideranças, Base eleitoral e militante etc.
O PIG (“Partido da Imprensa Golpista”, expressão criada pelo saudoso jornalista Paulo Henrique Amorim) teve um papel fundamental na guerra híbrida brasileira que levou ao golpe de 2016. Desde que, em 2010, a presidenta da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e executiva do Grupo Folha, Maria Judith Brito, afirmou que os meios de comunicação deveriam ocupar o papel oposicionista num país cuja oposição estaria “profundamente fragilizada”.
Não só por remexer fundo na lama psíquica nacional, dando visibilidade e importância política ao extremismo de direita (para engrossar o “verde-amarelo” nas ruas), mas principalmente por criar uma crise econômica autorrealizável, muito mais imaginária do que causada pelos fundamentos econômicos, para criar um clima de ingovernabilidade.
Pós golpe, com o PIG deixando a sua função de alarme para entrar no modo reprodução da nova ordem neoliberal com Temer na presidência pondo em ação as reformas e privatizações, o PMiG (Partido Militar Golpista) assumiu o comando da continuidade das ações para operar o golpe militar híbrido com as operações psicológicas que conduziram o obscuro deputado do baixo clero do Congresso, Jair Bolsonaro, à presidência. Como um clássico “candidato manchuriano” – sobre esses conceitos clique aqui e aqui.
Com a vitória do capitão da reserva e a conquista e aparelhamento militar dos três poderes do Estado (tutelamento do Judiciário – STF, TSE etc. -, lobby e controle da base parlamentar no Legislativo e ministérios, autarquias e máquina administrativa ocupados por mais de seis mil militares), desde o primeiro dia de governo o PM colocou em ação uma guerra semiótica criptografada: criação deliberada de cenários caóticos de informações dissonantes, não só para confundir PIG e opinião pública, mas também para:
(a) Através da operação psicológica de dissonância cognitiva, simular que Bolsonaro está isolado politicamente – Bolsonaro golpista vs. Comando Militar legalista;
(b) Apagar as impressões digitais do golpe militar híbrido;
(c) Continuamente disparar “apitos de cachorro” para a base social e eleitoral bolsonarista – p. ex. o estudado negacionismo vacinal;
(d) Estratégia diversionista: desviar a atenção da opinião pública para a crise econômica neoliberal.
Com quem Bolsonaro quer dar o golpe?
Em termos comunicacionais, toda essa operação está baseada na força retórica da “canastrice”: criação de narrativas retoricamente saturadas, overacting, cuja força persuasiva está paradoxalmente na linguagem ficcional, mas emulada de maneira hiper-real – é cópia da cópia dos clichês narrativos de filmes e telenovelas da pior qualidade. A origem de toda verdadeira canastrice.
Por exemplo, a construção da narrativa delirante do meu-malvado-favorito “Bolsonaro golpista”. Desde o seu primeiro dia de governo Bolsonaro articularia nas trevas um “golpe dentro do golpe”, afrontando o comando militar “legalista”. Bolsonaro estaria supostamente “sujando” a imagem positiva das Forças Armadas junto à população.
E com quem Bolsonaro articularia esse “golpe”? Com gente de alta periculosidade como Sarah Winter e os “300 de Brasília”, o blogueiro Allan dos Santos, o líder caminhoneiro Zé Trovão, o comediante Batoré, o cantor Sérgio Reis (os nomes em si mesmo já são canastríssimos) et caterva.
Ah! Mas ele tem ao seu lado os clubes de tiro armados até os dentes e a simpatia dos policiais militares e federais. Mas qual o plano para coordenar essa base social num bem articulado confronto e conquista do Estado? Está sendo urdido nas sombras? Debaixo do nariz do supostamente legalista Comando das Forças Armadas?
A canastrice de Barra Torres
A nota do Diretor Presidente da Anvisa, o Oficial General da Marinha do Brasil Antonio Barra Torres, (mais um que se aboletou em uma autarquia) é outro exemplo desse jogo semiótico de canastrice – jogo semiótico dos próprios generais do PMiG para fabricar uma crise militar.
Em entrevista à TV Nordeste, Bolsonaro atacou a vacinação infantil e seus defensores (os “tarados por vacinas”) além de questionar a honestidade da Anvisa ao reclamar que a agência “virou a dona da verdade” e “outro poder no Brasil”, e sugeriu que a autarquia teria algum “interesse” pela vacinação de crianças.
Barra Torres é amigo íntimo do presidente: participou de evento de apoio a Bolsonaro, sem máscara, em meio à pandemia; além de participações em lives presidenciais e ajudar o chefe do executivo na guerra fria contra o inimigo político, o governador João Dória, ao suspender de forma controversa a distribuição de 12 milhões de doses da Coronavac no ano passado.
Tendo esse pano de fundo, fica visível a canastrice retórica da nota do presidente da Anvisa em que exige a retratação de Bolsonaro pela insinuação que fez sobre supostos interesses secretos da autarquia por trás da imunização de crianças.
Primeiro, o texto de Barra Torres receberia a chancela de “controle de qualidade ideológica” de qualquer extremista de direita: clama em nome de Deus que Bolsonaro não prevarique, fala que “serviu ao País”, com “austeridade e honra”. Fala que teve “a melhor educação possível” (típica opinião milico de uma evidente superioridade militar à educação civil), escreve que é “cristão” e que “cumpriu os mandamentos”, valores morais, família, pátria…
O texto é muito overacting, típico de um dramalhão da pior telenovela – e ainda com autoindulgência exibicionista: “vou morrer sem conhecer a riqueza Senhor Presidente”.
Um texto desse quilate provoca uma “crise militar” para a grande mídia e a “esquerda Pavlov”, sempre pronta para agir reativamente ao ouvir o sino da guerra criptografada militar. Deveria causar risos e escárnio! Não dá para levar a sério.
Principalmente quando Barra Torres apresenta-se a Bolsonaro como “Contra-Almirante RM1 Médico – Marinha do Brasil” à frente de uma instituição civil. Ora, Anvisa não é um órgão militar, mas uma instituição dotada de autonomia científica.
Em última instância, a nota de Barra Torres quer dar uma “carteirada”, para lembrar ao presidente que ele é um mero capitão e que está falando com um superior hierárquico nas Forças Armadas. Totalmente inadequado para alguém que preside uma instituição civil que regulamenta produtos e insumos à luz da Ciência.
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Também foi ativado o jornalismo metonímico para criar uma bomba semiótica, milimetricamente tardia, em torno do artigo de Guido Mantega na “Folha” e o anúncio da “revogação da reforma trabalhista” pelo PT.
por Wilson Ferreira
Bastou a primeira semana do ano para aparecerem os primeiros movimentos de uma guerra semiótica que promete ser pesada nesse ano eleitoral. E a grande mídia já apresenta as primeiras armas do seu kit semiótico de manipulação: diante da ação policial de busca e apreensão contra o ex-governador Márcio França, entra em ação o empirismo grosseiro da estratégia do “não-há-nada-para-se-ver-aqui!”. Também foi ativado o jornalismo metonímico para criar uma bomba semiótica, milimetricamente tardia, em torno do artigo de Guido Mantega na “Folha” e o anúncio da “revogação da reforma trabalhista” pelo PT. E a psyOp militar de dissonância cognitiva em torno da “operação padrão” do ministro da Saúde Marcelo Queiroga, os ataques de Bolsonaro à vacinação de crianças e a suposta tensão entre o chefe do Executivo e o Comando do Exército que orientou os militares a tomar medidas contra a pandemia e não espalhar fake news.
“A ação não tem cunho político, mas tem desdobramentos políticos”. Esse comentário do apresentador Cesar Tralli no canal fechado de notícias Globo News é um sinal do que podemos esperar sobre o papel da grande mídia nesse ano eleitoral: uma guerra semiótica sem fronteiras.
Junto com Fernando Gabeira (que só continua no canal pelos seus bons serviços prestados na guerra híbrida 2013-16 – chegando a subir em palanque no Rio de Janeiro para atiçar as massas trajando verde e amarelo) comentavam a operação da Polícia Civil em São Paulo com cerca de 34 mandados de busca e apreensão cujo alvo foi o ex-governador Márcio França (PSB), pré-candidato a governador do Estado. E um dos principais articuladores da chapa que teria o ex-governador Geraldo Alckmin como vice do ex-presidente
Lula.
“Minhas fontes na Polícia Civil garantiram que a ação não era política”, afirmou ao vivo César Tralli. Provavelmente entras suas fontes estava o coelhinho da Páscoa, porque em seguida admitiu os “desdobramentos políticos” das tradicionais imagens de meganhagem que celebrizaram a Lava Jato: policiais reluzentes, fortemente armados, desembarcando nos alvos das buscas como uma espécie de invasão da Normandia.
“Um desdobramento da Operação Raio X, iniciada em 2020”, procurou isentar a ação… um desdobramento que ocorre dois anos depois, justamente na abertura do ano eleitoral…
Essa é a cínica estratégia semiótica do “não-há-nada-para-se-ver-aqui!”, lembrando aquela impagável cena do filme Corra Que a Polícia Vem Aí (The Naked Gun, 1988) com o investigador policial Leslie Nielsen mandando as pessoas dispersarem porque “não há nada para se ver” enquanto atrás dele há gritos e explosões em série.
Tralli estoicamente tenta manter em suspensão os signos contraditórios através de um empirismo grosseiro – se é apenas uma notícia, por que precisa ser comentada?
A bomba semiótica tardia
Também outra arma do arsenal semiótica entrou em ação essa semana, mostrando que a grande mídia quer sim voltar a ser o grande protagonista político, como foi nos anos de jornalismo de guerra da guerra híbrida brasileira: colocou em ação a estratégia do jornalismo metonímico.
O artigo do ex-ministro do Planejamento de Lula, Guido Mantega, no jornal Folha de São Paulo intitulado “Bolsonarismo levou o Brasil à crise, e retomada virá com o seu fim” (é impressionante o fetiche da intelectualidade petista de emplacar artigos no veículo que foi um dos principais articuladores do golpe de 2016…) ao lado do elogio do ex-presidente e Gleise Hoffmann ao elogio do governo espanhol por ter revogado as reformas trabalhistas na Espanha, serviram de munição para uma tardia bomba semiótica.
Publicado na Folha no dia 04, ato reflexo, no dia seguinte os candidatos Ciro Gomes e Sergio Moro e o deputado federal licenciado Rodrigo Maia atacaram violentamente o artigo e as intenções de revogação da reforma trabalhista (afinal, foi para isso que foi dado o golpe de 2016).
Estranhamente a grande mídia passou 48 horas em silêncio. Para na sexta-feira disparar a bomba semiótica metonímica: ao mesmo tempo em que o Governador João Dória (o demiurgo por trás da ação “não-há-nada-para-se-ver-aqui” da Polícia Civil) divulgava uma carta intitulada “O Atrasão do PT”, em reposta as intenções do PT em revogar a reforma trabalhista, a grande mídia repercutia o balanço do fechamento da semana econômica: “Ibovespa cai e dólar sobe na primeira semana do ano”, dispara o alarme tanto o canal Globo News como a CNN.
Estratégia de contaminação semiótica: os canais colocaram essas duas notícias em sequência ou, pelo menos, no mesmo bloco informativo. Para criar o efeito de contaminação semiótica e levantar, mais uma vez, os velhos maus augúrios do “risco Lula” para os mercados financeiros.
Observe-se que essa estratégia semiótica se destina unicamente aos líderes de opinião, público-alvo dos canais fechados de notícias – no mesmo dia, o JN, o telejornal de rede da Globo para o distinto público, veio com uma massiva pauta sobre Covid, imunização de crianças, desmatamento do cerrado e a morte do ator Sidney Poitier, o primeiro ato negro a ganhar o Oscar. Pauta anódina com as costumeiras pauladas no “meu malvado favorito” Bolsonaro.
Como sempre, esse é o “esquenta” de um ano eleitoral: primeiro, alarmar os líderes de opinião para, em seguida, tocar o terror na patuléia – que aliás, lentamente já começa, aqui e ali, em telejornais locais com pautas do tipo: “como proteger o seu dinheiro num ano eleitoral de instabilidades econômicas…”.
Aguardem o “risco Lula” ganhar a pauta dos telejornais de rede.
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CANALHICES ATUAIS
(03/IV/2022)




































































