Blog de Arte e História, Filosofia, Geometria, Astronomia, Ciências, Fotografia alternativa e Política! POR UMA VIDA NÃO FASCISTA.
13 março 2021
A AVENTURA DE UM FOTÓGRAFO
A aventura de um fotógrafo
Ítalo Calvino
Com a chegada da primavera, os habitantes das cidades, às centenas de milhares, saem aos domingos levando o estojo a tiracolo. E se fotografam. Voltam satisfeitos como caçadores com o embornal repleto, passam os dias esperando com doce ansiedade para ver as fotos reveladas (ansiedade a que alguns acrescentam o prazer sutil das manipulações alquímicas na câmara escura, vedada às instruções dos familiares, exalando um cheiro acre dos ácidos), e somente quando põem os olhos nas fotos parecem tomar posse tangível do dia passado, somente então aquele riacho alpino, aquele jeito do menino com o baldinho, aquele reflexo de sol nas pernas da mulher adquirem a irrevogabilidade daquilo que já ocorreu e não pode mais ser posto em dúvida. O resto pode se afogar na sombra incerta da lembrança.
Convivendo com os amigos e colegas, Antonino Paraggi, não-fotógrafo, percebia um crescente isolamento. A cada semana descobria que às conversas daqueles que glorificam a sensibilidade de um diafragma ou discorrem sobre o número de dins se unia a voz de alguém a quem até ontem ele havia confidenciado, certo de que os partilhasse, seus sarcasmos em relação a uma atividade para ele tão pouco excitante e tão desprovida de imprevistos.
Como profissão, Antonino Paraggi exercia funções administrativas nos serviços de distribuição de uma empresa produtiva, mas sua verdadeira paixão era a de comentar com amigos os acontecimentos pequenos e grandes desenredando o fio das razões gerais dentro dos emaranhados particulares; ele era em suma, por atitude mental, um filósofo, e punha toda a sua obstinação em conseguir explanar até os fatos mais afastados de sua experiência. Agora sentia que alguma coisa na essência do homem fotográfico lhe escapava, o apelo secreto que fazia com que novos adeptos continuassem a se listar sob a bandeira dos diletantes da objetiva, alguns gabando os progressos de suas habilidades técnicas e artísticas, outros ao contrário atribuindo todo o mérito à excelência do aparelho que haviam adquirido, capaz (a ouvir-se o que diziam) de produzir obras-primas mesmo se entregue as mãos ineptas (assim eram declaradas as deles, pois, quando o orgulho era forte, em exaltar as virtudes dos engenhos mecânicos, o talento subjetivo aceitava ser humilhado na mesma proporção). Antonino Paraggi entendia que nem um nem outro motivo de prazer eram decisivos: o segredo estava em outra coisa.
É preciso dizer que essa busca na fotografia das razões de uma insatisfação sua – como quem se sente excluído de alguma coisa – era em parte também um truque de Antonino consigo mesmo, para evitar levar em consideração outro, e mais visível, processo que o andava separando dos amigos. O que estava acontecendo era que os conhecidos de sua idade estavam todos se casando, constituindo família, enquanto Antonino ia ficando solteiro. Entre os dois fenômenos ocorria também um vínculo indubitável, na medida em que muitas vezes a paixão pela objetividade nasce de modo natural e quase fisiológico como efeito secundário da paternidade. Um dos primeiros instintos dos pais, depois de pôr um filho no mundo, é o de fotografá-lo; e dada a rapidez do crescimento torna-se necessário fotografá-lo com frequência, pois nada é mais transitório e irrecordável de que uma criança de seis meses, rapidamente apagada e substituída pela de oito meses e, depois, pela de um ano; e toda a perfeição que aos olhos dos pais um filho de três anos pode ter atingido não é suficiente para impedir que suceda a ela, destruindo-a, a nova perfeição dos quatro, só restando o álbum fotográfico como lugar onde todas essas perfeições fugazes se salvam e se justapõem, cada uma aspirando a um absoluto próprio incomparável. Na mania dos pais novatos de enquadrar a prole na mira para reduzi-la à imobilidade do preto-e-branco ou do diapositivo colorido, o não-fotógrafo e não-procriador Antonino via principalmente uma fase da corrida para a loucura que aquele instrumento preto abrigava. Mas suas reflexões sobre a ligação iconoteca-família-loucura eram rápidas e reticentes; senão ele compreenderia que na realidade quem corria o perigo maior era ele, o solteirão.
No círculo de amizades de Antonino se costumava passar os fins de semana fora da cidade, em bando, seguindo um hábito que para muitos deles vinha desde os anos de estudante, e que se estendera até às noivas e depois às esposas e à filharada, assim como às babás e governantes, e em alguns casos aos parentes por aliança e aos novos conhecidos de ambos os sexos. Mas, como a continuidade da convivência e dos hábitos nunca havia cessado, Antonino podia fingir que nada tinha mudado com o passar dos anos e que aquele ainda era o bando de rapazes e moças de outra época, em vez de um conglomerado de famílias em que ele permanecia o único solteiro sobrevivente.
Cada vez com mais frequência, nessas saídas para as montanhas ou para o mar, no momento da foto de grupo familiar ou interfamiliar, pedia-se a intervenção de um operador de fora, até mesmo de um passante que se prestasse a apertar o botão do aparelho já posto em foco e apontado para a direção desejada. Nesses casos Antonino não podia recusar seus préstimos: recolhia a máquina das mãos de um pai ou de uma mãe que corriam para se colocar na segunda fila enfiando o pescoço entre duas cabeças ou para se acocorar entre os menores; e concentrando todas as suas forças no dedo indicado para o uso, apertava o gatilho. Nas primeiras vezes um irrefletido enrijecimento dos braços desviava a mira, que pegava mastros de embarcações ou agulhas de campanários, ou decapitava vovôs e titios. Foi acusado de fazer de propósito, censurado por um gênero desagradável de brincadeira. Não era verdade: sua intenção era sempre emprestar o dedo como dócil instrumento da vontade coletiva, mas ao mesmo tempo de se utilizar da posição momentânea de privilégio para advertir fotógrafos e fotografados do significado de seus atos. Assim que a ponta do dedo alcançou a condição desejada de destaque em relação ao resto de sua pessoa e individualidade, enquadrando nesse meio tempo pequenas cenas de conjunto bem- sucedidas. (Alguns sucessos casuais tinham bastado para lhe dar desenvoltura e confiança com as objetivas e os fotômetros.)
– … Porque, uma vez que você começou – perorava -, não há nenhuma razão para parar. O passo entre a realidade que é fotografada na medida em que nos parece bonita e a realidade que nos parece bonita na medida em que foi fotografada é curtíssimo. Se você fotografa Pierluca enquanto ele está fazendo o castelo de areia, não há razão para não fotografá-lo enquanto está chorando porque o castelo desmoronou, e depois enquanto o ama, o consola fazendo-o encontrar no meio da areia uma casquinha de concha. É só você começar a dizer a respeito de alguma coisa: “Ah, que bonito, tinha era que tirar uma foto!”, e já está no terreno de quem pensa que tudo que não é fotografado é perdido, que é como se não tivesse existido, e que então para viver de verdade é preciso fotografar o mais que se possa, e para fotografar o mais que se possa é preciso: ou viver de um modo o mais fotografável possível, ou então considerar fotografáveis todos os momentos da própria vida. O primeiro caminho leva à estupidez, o segundo à loucura.
– Você vai ficar louco e estúpido – diziam-lhe os amigos -, e ainda por cima chato.
– Para quem quer aproveitar tudo o que passa na sua frente – explicava Antonino mesmo se ninguém o estivesse mais ouvindo -, o único modo de agir com coerência é tirar pelo menos uma foto por minuto desde quando abre os olhos de manhã até quando vai dormir. Só assim os rolos de filme constituirão um diário fiel de nossas jornadas, sem que nada fique excluído. Se eu fosse me meter a fotografar, iria até o fim nesse caminho, à custa de perder a razão com isso. Já vocês ainda pretendem estar fazendo uma escolha. Mas qual? Uma escolha no sentido idílico, apologético, de consolação, de paz com a natureza, a nação, os parentes. Não é apenas uma escolha fotográfica, a de vocês; é uma escolha de vida, que os leva a excluir os contrastes dramáticos, os cernes das contradições, as grandes tensões da vontade, da paixão, da aversão. Acham assim que estão se salvando da loucura, mas caem na mediocridade, no estupor.
Uma certa Bice, ex-cunhada de alguém, e uma certa Lydia, ex-secretária de outro, pediram-lhe se, por favor, batia um instantâneo delas enquanto jogavam bola entre as ondas. Acedeu, mas, como nesse meio tempo havia elaborado uma teoria contra os instantâneos, apressou-se em comunicá-la às duas amigas:
– O que é que leva vocês, moças, a retirar da movimentada continuidade de sua jornada essas fatias temporais da espessura de um segundo? Jogando a bola uma para a outra estão vivendo no presente, mas mal a divisão dos fotogramas se insinua entre os gestos de vocês já não é o prazer do jogo que as impulsiona e sim o de se reverem no futuro, de se encontrarem novamente daqui a vinte anos num cartãozinho amarelo (sentimentalmente amarelado, mesmo se os processos modernos de fixação o preservarem inalterado). O gosto pela foto espontânea natural colhida ao vivo mata a espontaneidade, afasta o presente. A realidade fotografada assume logo um caráter saudoso, de alegria sumida na asa do tempo, um caráter comemorativo, mesmo se é uma foto de anteontem. E a vida que você vive para fotografar já é desde o princípio comemoração de si mesma. Achar que o instantâneo é mais verdadeiro que o retrato posado é um preconceito…
Assim dizendo, Antonino saltitava no mar em volta das duas amigas para pôr em foco os movimentos do jogo e excluir do enquadramento os reflexos ofuscantes do sol na água. Numa disputa pela bola Bice, que se lançava sobre a outra já submersa, foi apanhada com o traseiro em primeiro plano voando por sobre as ondas. Antonino, para não perder esse ângulo, jogara-se na água de través mantendo a máquina erguida e por pouco não se afogara.
– Saíram todas muito boas, e essa então está sensacional – elas comentaram alguns dias depois, arrancando as provas uma das mãos da outra. Haviam marcado encontro com ele na loja do fotógrafo. – Você é ótimo, tem que fazer outras para nós.
Antonino havia chegado à conclusão de que era preciso voltar às personagens em pose, com atitudes representativas de sua situação social e de seu caráter, como no século XIX. Sua polêmica antifotográfica só podia ser levada adiante do interior da caixa preta, contrapondo fotografia a fotografia.
– Eu gostaria de ter um daquelas máquinas de sanfona – disse ele às amigas –, montada num tripé. Vocês acham que ainda se encontra alguma?
– Bom, quem sabe se em algum ferro-velho…
– Vamos procurar.
As amigas acharam divertida a caça ao objeto curioso: juntos vasculharam mercados de bugigangas, interpelaram velhos fotógrafos ambulantes, seguiram-nos até seus quartinhos escuros. Naqueles cemitérios de material fora de uso jaziam colunatas, biombos, fundos pintados com paisagens esfumadas; tudo o que evocava um velho estúdio de fotógrafo Antonino comprava. No fim conseguiu por a mão numa máquina- caixão, com disparador de pêra, parecia funcionar perfeitamente. Antonino a comprou com um sortimento de chapas. Ajudado pelas amigas, instalou, num cômodo de sua casa, o estúdio, todo de objetos antiquados, fora dois refletores modernos. Agora estava satisfeito.
– Tem que partir novamente desse ponto – explicou às amigas. – No modo como nossos avôs posavam, na convenção segundo a qual se dispunham os grupos, havia um significado social, um costume, um gosto uma cultura. Uma fotografia oficial ou matrimonial ou familiar ou escolar dava o sentido do quanto cada papel ou instituição tinha em si de sério e importante, mas também de falso e forçado, de autoritário, hierárquico. Este é o ponto: tornar explícitas as relações com o mundo que cada um de nós traz consigo, e que hoje se tende a esconder, a tornar inconscientes, achando que desse modo vão desaparecer, enquanto, ao contrário…
– Mas quem é que você vai mandar posar?
– Venham amanhã e eu vou começar a fazer fotos de vocês como estou dizendo.
– Mas me diga: aonde é que você quer chegar? – falou Lydia tomada de uma desconfiança súbita. Só agora, no estúdio instalado, via que naquilo tudo havia um ar sinistro, ameaçador. – Nem por sonhos vamos servir de modelo para você! Bice soltou risadinhas com ela, mas no dia seguinte voltou à casa de Antonino, sozinha. Estava vestida de linho branco, com bordados coloridos nas beiradas das mangas e dos bolsos. Trazia os cabelos divididos por uma risca e puxados sobre as têmporas. Ria um pouco de soslaio, inclinando a cabeça para o lado. Antonino, fazendo-a entrar, estudava, naqueles seus modos um pouco afetados, um pouco irônicos, quais eram os traços que definiam seu verdadeiro caráter.
Mandou-a sentar numa poltrona grande e meteu a cabeça debaixo do pano preto que guarnecia o aparelho. Era uma daquelas caixas com a parede posterior de vidro, onde a imagem se espelha já quase como uma chapa, espectral, um pouco leitosa, separada de qualquer contingência no espaço e no tempo. Antonino teve a impressão de estar vendo Bice pela primeira vez. Tinha uma docilidade, em seu modo um pouco pesado de baixar as pálpebras, no jeito de estender o pescoço para a frente, que prometia alguma coisa de oculto, assim como seu sorriso parecia se ocultar por trás do próprio ato de sorrir.
– Pronto, assim, não, a cabeça mais pra lá, levanta os olhos, não abaixa. – Antonino estava perseguindo dentro daquela caixa alguma coisa de Bice que subitamente lhe parecia preciosíssima, absoluta. – Agora está fazendo sombra, vem mais para a luz, não, estava melhor antes.
Havia muitas fotografias possíveis de Bice e muitas Bices impossíveis de fotografar, mas aquilo que ele buscava era a fotografia única, que contivesse tanto umas quanto as outras.
– Não estou pegando você. – Sua voz saía sufocada e lamentosa de sob a capa preta. – Não estou mais pegando você, não consigo pegar.
Liberou-se do pano e se levantou. Estava errando tudo desde o princípio. Aquela expressão, aquele acento, aquele segredo que lhe parecia estar ali a ponto de colher no rosto dela era algo que o estava arrastando para as areias movediças dos estados de ânimo, dos humores, da psicologia: ele também era um daqueles que vão atrás da vida que foge, um caçador do inalcançável como os disparadores de instantâneos.
Tinha que seguir o caminho oposto: visar um retrato todo em superfície, patente, unívoco, que não se furtasse à aparência convencional, estereotipada, à mascara. A mascara, sendo antes de mais nada um produto social, histórico, contém mais verdade do que qualquer imagem que se pretenda “verdadeira”; traz consigo uma quantidade de significados que se revelarão pouco a pouco. Não era exatamente com essa intenção que Antonino tinha construído o circo daquele estúdio?
Observou Bice. Tinha que partir dos elementos exteriores de seu aspecto. No modo de se vestir e de se arrumar de Bice, pensou, era reconhecível a intenção um pouco nostálgica, um pouco irônica, difundida no gosto daquele momento, de evocar a moda de trinta anos antes. A fotografia deveria acentuar essa intenção; como é que não tinha pensado nisso?
Antonino foi procurar uma raquete de tênis; Bice tinha que ficar em pé, de três quartos, com a raquete embaixo do braço, compondo o rosto com uma expressão de cartão sentimental. Para Antonino, de sob o manto preto, a imagem de Bice – no que tinha de ágil e adequado àquela pose e no que tinha de inadaptado e quase incongruente e que a pose acentuava – pareceu muito interessante. Fez com que mudasse varias vezes de posição, estudando a geometria das pernas e dos braços em relação a raquete e a um elemento do fundo. (No cartão-postal ideal que ele tinha em mente devia haver a rede da quadra de tênis, mas não se podia pretender demais e, Antonino se contentou com uma mesa de pingue-pongue.)
Mas ainda se sentia em terreno seguro: será que não estava procurando fotografar lembranças ou, até, vagos ecos de lembrança que afloravam futura, à maneira dos fotógrafos de domingo, não o estava levando a tentar uma operação igualmente irreal, ou seja, a dar um corpo à lembrança pra que esta substituísse o presente diante de seus olhos?
– Mexa-se, por que fica aí parada? Levante essa raquete, que diabo! Faça como se estivesse jogando tênis! – Enfureceu-se de repente. Havia compreendido que só exasperando as poses se podia atingir uma estranheza objetiva; só fingindo um movimento capturado pela metade se podia dar a impressão do parado, do não-vivo.
Bice se prestava docilmente a executar suas ordens mesmo quando se tornavam imprecisas e contraditórias, com uma passividade que era também um declarar-se fora do jogo, e, contudo, de certo modo insinuando, nesse jogo não seu, os movimentos imprevisíveis de uma sua misteriosa partida. Aquilo que Antonino agora esperava de Bice dizendo-lhe para por as pernas e os braços assim e assado, não era tanto a simples execução de um plano quanto a resposta dela à violência que ele estava lhe fazendo com seus pedidos, uma imprevisível resposta agressiva a essa violência que ele estava cada vez mais inclinado a exercer sobre ela.
Era como nos sonhos, pensou Antonino, contemplando mergulhado na escuridão aquela improvável tenista filtrada no retângulo de vidro: como nos sonhos quando uma presença vinda da profundidade da memória se adianta, dá-se a reconhecer, e logo depois se transforma em algo inesperado, em alguma coisa que mesmo antes da transformação já assusta porque não se sabe em que poderá se transformar.
Estava querendo tirar fotos de sonhos? Esta suspeita o fez calar, escondido naquele refugio de avestruz, a pêra do disparador na mão, como um idiota; e enquanto isso Bice, deixada por sua própria conta, continuava numa espécie de dança grotesca, imobilizado-se em exagerados gestos tenísticos, esquerda, drive, levantando algo a raquete ou abaixando-a até o chão como se o olhar que saía daquele olho de vidro fosse a bola que ela continua a rechaçar.
– Chega, que palhaçada é essa? Não é assim que eu estava pensando. – E Antonino cobriu a maquina com um pano, começou a passear pelo cômodo. Era daquela roupa a culpa de tudo, com suas evocações tenísticas e pré bélicas… Era preciso admitir que em roupa de passeio uma foto como ele descrevia não podia ser feita. Tinha que haver uma certa solenidade, uma certa pompa, como as fotos oficiais das rainhas. Só com um vestido de noite Bice se tornaria um tema fotográfico, com um decote que assinala uma fronteira nítida entre o branco da pele e o escuro do tecido sublinhado pelo reluzir das jóias, uma fronteira entre uma essência de mulher atemporal e quase impessoal em sua nudez e a outra abstração, esta social, do vestido, símbolo de um papel igualmente impessoal, como o drapeado de uma estatua alegórica.
Aproximou-se de Bice, começou a desabotoá-la no pescoço, no peito, a fazer o vestido escorregar por sobre o ombro. Vieram-lhe à lembrança certas fotografias de mulher do século XIX, em que do branco do cartão emerge o rosto, o pescoço, a linha dos ombros descobertos e todo o resto se esvai no branco.
Aquele era o retrato fora do tempo e do espaço que ele agora ele estava querendo: não sabia muito bem como fazer, mas estava decidido a conseguí-lo. Colocou o refletor por cima de Bice, aproximou a máquina, manobrou por baixo do pano para regular a abertura da objetiva. Olhou. Bice estava nua.
Fizera o vestido deslizar até os pés; por baixo não trazia nada; dera um passo para frente; não, um passo para trás que era como um avançar inteirinha dentro do quadro; estava reta, parada diante da máquina, tranqüila, olhando para a frente, como se estivesse sozinha.
Antonino sentiu a visão dela lhe entrar pelos olhos e ocupar todo o campo visual, tirá-lo fora do fluxo das imagens casuais e fragmentárias, concentrar tempo e especo numa forma finita. E, como se essa surpresa de visão e impressionar a chapa fossem dois reflexos ligados entre si, apertou imediatamente o disparador, recarregou a máquina, disparou, pôs outra chapa, disparou, continuou a trocar a chapa e disparar, tartamudeando, sufocado pelo pano:
– Pronto, agora sim, agora está bom, pronto, de novo, agora estou pegando você, de novo.
Não tinha mais chapas. Saiu de sob o pano. Estava contente. Bice estava diante dele, nua, como que esperando.
– Agora você pode se vestir disse ele eufórico, mas já com pressa -, vamos sair. Ela olhou para ele desnorteada.
– Agora peguei você – disse ele.
Bice desandou a chorar.
Antonino descobriu no mesmo dia que estava apaixonado por ela. Começaram a viver juntos, e ele comprou aparelhos mais modernos, teleobjetivas, acessórios aperfeiçoados, instalou um laboratório. Tinha até dispositivos para poder fotografá-la a noite enquanto dormia. Bice despertava debaixo do flash, contrariada; Antonino continuava a tirar instantâneos dela que se desenredava do sono, dela que se irritava com ele, dela que tentava inutilmente voltar a dormir afundando o rosto no travesseiro, dela que se reconciliava, dela que reconhecia como atos de amor essas violências fotográficas.
No laboratório de Antonino, coberto de películas e provas, Bice surgia de todos os fotogramas, como na reticula de uma colméia surgem milhares de abelhas que são sempre a mesma abelha; Bice em todas as atitudes, ângulos, maneiras. Bice posando ou colhida à revelia, uma identidade esmigalhada numa poeira de imagens.
– Mas que obsessão é essa por Bice? Não pode fotografar outra coisa? – era a pergunta que continuamente ouvia dos amigos, e dela também.
– Não se trata simplesmente de Bice – respondia. – É uma questão de método. Qualquer pessoa que você resolva fotografar, ou qualquer coisa, você tem que continuar a fotografá-la sempre, só ela, a todas as horas do dia e da noite. A fotografia só tem sentido se esgotar todas as imagens possíveis.
Mas não dizia o que realmente importava para ele: colher Bice no caminho quando ela não sabia que estava sendo vista por ele, tê-la sob o disparo de objetivas escondidas, fotografá-la não só sem ser visto, mas sem vê-la, surpreendê-la como era na ausência de seu olhar, de qualquer olhar. Não que quisesse descobrir qualquer coisa em particular; não era um ciumento no sentido corrente da palavra. Era uma Bice invisível que queria possuir, uma Bice absolutamente sozinha, uma Bice cuja presença pressupunha a ausência dele e de todos os outros.
Pudesse ou não ser definida como ciúme, era em suma uma paixão difícil de suportar. Bice logo o largou. Antonino caiu numa crise depressiva. Começou a fazer um diário: fotográfico, claro. Com a máquina pendurada no pescoço, afundado numa poltrona, disparava compulsivamente com o olhar no vazio. Fotografava a ausência de Bice.
Recolhia as fotos num álbum: viam-se cinzeiros cheios de tocos de cigarros, uma cama desfeita, uma mancha de umidade na parede. Veio-lhe a idéia de compor-lhe um catalogo de tudo o que no mundo existe de refratário à fotografia, de deixando sistematicamente fora do campo visual não só das máquinas mas dos homens. Em cima de cada objeto passava dias inteiros, gastando rolos completos, a intervalos de horas, de maneira a acompanhar as mudanças de luz e sombra. Um dia se fixou num canto do quarto totalmente vazio, com um tubo de calefação e mais nada: teve a tentação de continuar a fotografar aquele ponto e só aquele até o fim de seus dias.
O apartamento estava largado ao abandono, papéis e jornais velhos jaziam amarfanhados pelo chão, e ele os fotografava. As fotos nos jornais também eram fotografadas, e uma ligação indireta se estabelecia entre sua objetiva e a de longínquos repórteres fotográficos. Para produzir aquelas manchas negras, a lente de outras objetivas havia localizado batidas policiais, carros carbonizados, atletas em corrida, ministros, acusados.
Antonino agora sentia um prazer particular em retratar os objetos domésticos enquadrados por um mosaico de telefotos, violentas manchas de tinta nas folhas brancas. Do interior de sua imobilidade se pilhou a invejar a vida do repórter fotográfico que se mexe seguindo os movimentos das multidões, o sangue derramado, as lágrimas, as festas, o delito, as convenções da moda, a falsidade das cerimônias oficiais; o repórter fotográfico que documenta os extremos da sociedade, os mais ricos e os mais pobres, os momentos excepcionais que, no entanto, ocorrem a qualquer momento em qualquer lugar.
“Quer dizer que só o estado de exceção tem algum sentido?” perguntava Antonino a si mesmo. “Será o repórter fotográfico o verdadeiro antagonista do fotógrafo dominical? Seus respectivos mundos se excluem? Ou então um dá sentido ao outro?” E assim pensando se pôs a reduzir a pedaços as fotos com Bice acumuladas nos meses de sua paixão, a arrancar as tiras de provas presas nas paredes, a despedaçar o celulóide de negativos, a furar os dispositivos, e amontoava os resíduos dessa metódica destruição sobre jornais estendidos no chão.
“Talvez a verdadeira fotografia total”, pensou, “seja um monte de fragmentos de imagens privadas, sobre o fundo amarrotados dos massacres e das coroações”. Dobrou as pontas dos jornais num enorme embrulho para jogá-lo no lixo, mas primeiro quis fotografá-lo. Dispôs as pontas de modo que se vissem bem duas metades de fotos de jornais diferentes que por acaso no embrulho estavam se encaixando. Até abriu mais um pouco o pacote para destacar um pedaço de papel brilhante de uma ampliação rasgada. Acendeu um refletor; queria que em sua foto pudessem reconhecer as imagens meio emboladas e despedaçada e ao mesmo tempo se sentisse sua irrealidade se sombras casuais de tintas, e ao mesmo tempo ainda sua concretude de objetos carregados de significado, a força com que se agarravam à atenção que tentava expulsá- las.
Para conseguir colocar tudo isso numa fotografia era preciso conquistar uma habilidade técnica extraordinária, mas só então Antonino poderia parar de fotografar. Esgotadas todas as possibilidades, no momento em que o círculo se fechava sobre si mesmo. Antonino entendeu que fotografar fotografias era o único caminho que lhe restava, aliás, o único caminho que ele havia obscuramente procurado até então.
CALVINO, Ítalo. A Aventura de um Fotógrafo. In: Os Amores Difíceis. São Paulo, Companhia das Letras, 1992. p. 51-64.
Todo mundo pelo menos uma vez, ao caminhar pela rua viu algo e pensou “preciso registrar essa cena!”. Entretanto, mesmo que você fotografe somente por hobby e gosta de publicar cenas de rua em suas redes sociais, é bem importante saber que existem leis que determinam o que pode ou não ser registrado para evitar dores de cabeça no futuro.
Na prática, tudo que é objeto e está na rua pode ser fotografado. Pessoas já são um outro assunto. O que você precisa saber ao fazer fotografias na rua, no Brasil:
1) Qualquer pessoa pode tirar foto de qualquer lugar, paisagem ou obras expostas em locais públicos a qualquer momento, desde que não tenha cometido nenhuma infração ou ato ilegal para obter a tal fotografia (então capriche nas fotos de obras de arte itinerantes, em época de final de ano elas vivem espalhadas por aí!). Mas lembre-se de não fazer uso comercial de tais fotos, pois de maneira geral, a lei de direitos autorais protege as criações artísticas de uso comercial não autorizado.
2) Essa talvez seja a maior dúvida ao fotografar pessoas na rua. Você não pode fotografar somente uma pessoa sem a autorização prévia. Mas essa regra não se aplica quando é uma pessoa aleatória no meio de outras que estão passando pelo local. Neste caso você não precisa sair pedindo autorização para fotografar as pessoas, mas é educado e de bom tom fazer quando sua foto for ter fins comerciais, afinal, imagine abrir uma revista e ver uma foto sua que você nem fazia ideia que existia. Ninguém gostaria de uma surpresa como esta!
3) Tenha em mente que um lugares abertos ao público são bem diferentes de lugares que sejam público. Não é porque o lugar é aberto ao público, que ele também necessariamente precisa ser público. Um exemplo disso são museus, teatros, clubes, shoppings e alguns parques. Neste tipo de lugar cada um tem uma política de privacidade, portanto, nossa recomendação é se informar sempre.
4) Você pode divulgar sua foto seja na internet, exposições e livros, de imagens de pessoas desde que sejam em espaços públicos ou com fins culturais. A divulgação é proibida quando constitua ofensa à honra, reputação ou simples decoro da pessoa retratada. Se o foco for uma pessoa em particular não pode ser exposto, publicado ou lançado no comércio sem o seu consentimento.
5) Não menos importante, Use o senso comum. Como viu, você não precisa sair pedindo autorização para fotografar as pessoas na rua, porém seguir o bom senso é fundamental. Todos temos um senso comum do que é normal e daquilo que “invade” a nossa privacidade. Por exemplo, fotografar uma pessoa no interior de sua casa pela janela não é adequado. Quando a sua fotografia infringe a privacidade do outro você seria anti ético e passível de punição, então tenha cuidado, analise a cena antes de fotografar e tenha certeza que está dentro dos padrões.
Bons cliques!
Fonte
CONHECENDO A NÓS MESMOS
REFLEXÃO COTIDIANA
A reflexão de hoje foi passada por um irmão a quem considero muito, pelas palavras repletas de significado e direção.
Devemos voltar ao que é humano no homem. Estamos em meio a uma pandemia enquanto o próprio presidente do pais nega, faz gracejo, tripudia do mesmo povo que o colocou lá. Senão vejamos: por que aqui eles não usam máscara e ao chegarem em Israel para uma visita, todos estão usando máscaras? Será que lá o povo israelense merece mais respeito que os brasileiros? Será que lá o povo é de primeira categoria enquanto aqui no Brasil são inferiores? Eles usaram máscaras em Israel, por que a vida do povo de lá vale mais que a vida dos brasileiros?
Falta empatia, falta humanidade, falta reconhecer que nós brasileiros valemos tanto quanto todos os outros povos que eles visitam. Necessitamos mudar nossas ações, refletir sobre a vida. Só temos uma vida, essa, que é o nosso bem mais precioso. Devemos proteger o outro pois a vida do outro é tão sagrada quando a nossa própria vida. Devemos lembrar do outro sempre. É pelos outros que eu vivo. Alguém fez a roupa q eu visto, cultivou os alimentos q eu como, limpou a rua onde eu ando... Devemos pensar antes no outro, que me ensinou nas escolas, compartilhou sua visão de mundo e me ensinou a pensar e me mostrou conhecimentos que de outra forma eu não teria acesso.
Devemos ter boas palavras para todos os outros seres humanos, boas ações, e bons pensamentos. Não sair julgando sem saber nada sobre os por quês do outro e que vida ele leva. Eu espero por uma palavra amiga e de alento, uma palavra de consolo, dos governantes que colocamos em cargos importantes através do voto. Há quem diga que não mudaremos nada pelo voto, bem eu digo, eu discordo totalmente de quem pensa assim. Veja onde chegamos como sociedade. Mesmo aqui no Brasil, já havíamos retirado 38 milhões de pessoas da miséria absoluta. O próprio pais saiu do mapa da fome elaborado pela ONU. E agora com péssimas ações e péssimas palavras voltamos a entrar nesse mapa da miséria.
Necessitamos urgentemente voltarmos a ser humanos, a respeitar o outro, a proteger o outro, pois somente assim prosperaremos como sociedade.
Deixo, então como reflexão esses pensamentos a seguir para que cada um leia e pense onde podemos mudar para construirmos um mundo melhor.
1. O outro não existe para te agradar. O outro é um universo em si mesmo.
2. Ninguém é culpado pelo que você está sentindo. É você que desenvolve os sentimentos que tem neste momento.
3. A arte é viver sem expectativas mas, sim, com perspectiva é que é a chave para não se frustrar ao longo da vida .
4. Cure em você o vício da necessidade de aprovação do outro. Só assim, poderá desfrutar da ousadia e confiança natural ao seu espírito.
5. Você não tem controle de nada, por mais que acredite que tenha. Lembre-se, daqui a pouco a Terra irá reivindicar o seu corpo e deixarás esse planeta para ingressar numa nova fase de existência. Abra mão do controle, só assim terá domínio sobre si mesmo e sobre sua vida. Controle é um reflexo do medo, domínio é um reflexo do estado de ausência absoluta de tensão interna.
6. Não se deforme ou se descaracterize para tentar “caber” no espaço apertado do pensamento que o outro tem em relação a você.
Esse pensamento-desejo do outro diz mais respeito a ele do que a voce.
Conformar-se com o que os outros desejam que você seja não dará certo. Quando você se deforma para agradar alguém, sua luz se apaga e é apenas você que fica no escuro se sentindo perdido.
7. Não acredite no que os outros dizem para você, por mais romântico e poético que possa ser. O que importa são as atitudes e não as palavras. Cultive sempre o pensamento crítico acima de tudo.
8. Abandone o orgulho e o delírio de acreditar que tudo vai ser como você quer. Só podemos controlar nossos próprios pensamentos.
9. Tudo é passageiro. De perto a vida é uma tragédia, de longe é uma comédia. Daqui a pouco você vai rir de todos os dramas que criou. Pois tudo passa, assim como dizia Heráclito de Éfesus.
10. Você é responsável por tudo que está acontecendo em sua vida. Mesmo num sistema medicado pelo capital e pelo valor das mercadorias, podemos viver sem pautarmos nossa vida por esses valores. Assim, seus pensamentos e sentimentos predominantes irão formatar a sua realidade; quer você queira, quer não. Portanto, se quiser mudar a sua realidade, mude seus pensamentos e sentimentos.
11. Carência emocional não é a necessidade de receber e, sim, de se dar. Só você poderá suprir suas necessidades emocionais. Projetá-las em alguém é o mesmo que pedir para que outra pessoa se alimente para saciar a sua fome.
12. Viva com simplicidade e com mais realidade. Só assim, quem você realmente É, vai surgir de verdade. Ria mais e não leve tudo tão a sério. Afinal de contas, a essência da vida é se descobrir e desfrutar dessa maravilhosa aventura chamada evolução.
13. Abrace o inesperado, o imperfeito e o acaso. Eles também são características da vida que podem produzir grandes efeitos.
(Texto modificado de Horácio Frazão)
Bibliografia
06 março 2021
28 fevereiro 2021
FILOSOFIA E HISTÓRIA
FRAGMENTOS FILOSÓFICOS DE DIVERSOS PENSADORES
"Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões e pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens, os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam tais quais eles próprios têm."
"Os egípcios dizem que os deuses têm nariz chato e são negros, os trácios, que eles têm olhos verdes e cabelos ruivos."(Xenófanes de Colofão, Fragmentos)
A intenção desse filósofo pré-socrático com essas afirmações é:
(A) negar a existência de divindades.
(B) afirmar a existência de divindades animais.
(C) criticar uma concepção antropomórfica da divindade.
(D) estabelecer a tese de que não há conhecimento.
(E) afirmar a existência de uma única divindade.
"Dizer que aquilo que é não é, ou que aquilo que não é é, é falso, ao passo que dizer que aquilo que é é, ou que aquilo que não é não é, é verdadeiro." (Aristóteles, Metafísica).
"Tornamo-nos construtores ao construirmos e nos tornamos citaristas ao tocarmos cítara. Assim também, executando ações justas nos tornamos justos; e, executando ações moderadas, nos tornamos moderados." (Aristóteles, Ética a Nicômaco)
Assinale a afirmação que expressa corretamente a definição de virtude contida na passagem acima.
(A) A virtude é produto do hábito.
(B) A virtude é uma técnica.
(C) A virtude é conhecimento.
(D) A virtude é o meio-termo entre dois vícios.
(E) Não há diferença entre virtude e vício.
"Na tua opinião, será que pode existir alguém mais feliz do que aquele que tem um juízo reverente acerca dos deuses, que se comporta de modo continuamente destemido a respeito da morte, que bem compreende a finalidade da natureza, que discerne que o máximo bem está nas coisas simples e fáceis de obter, e que o máximo mal ou dura pouco ou nos causa sofrimentos breves?"
(Epicuro, Carta a Meneceu).
"Foi Zenão o primeiro a dizer, no seu tratado Sobre a natureza do homem, que a felicidade é viver em concordância com a natureza, o que significa viver conforme à virtude; pois a natureza nos conduz a ela."
(Diógenes Laércio, Vidas dos Filósofos VII)
Essa é uma das principais teses do estoicismo.
"É evidente que não é ofício do poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade... Por isso a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta o particular. Por "referir-se ao universal" entendo eu atribuir a um indivíduo de determinada natureza pensamentos e ações que, por liame de necessidade e verossimilhança, convêm a tal natureza." (Aristóteles, Poética)
"Dizemos que a finalidade do cético é a tranqüilidade nas matérias de opinião...Pois, tendo começado a filosofar para julgar as representações e apreender quais são verdadeiras e quais são falsas, de modo a obter a tranqüilidade, deparou com uma discordância de igual força; e, não podendo decidi-la, suspendeu seu juízo sobre ela. Estando em suspensão de juízo, ocorreu-lhe casualmente a tranqüilidade nas matérias de opinião." (Sexto Empírico, Hipotiposes Pirrônicas)
"Deixaríamos que aos dois, ao justo e ao injusto, fosse permitido fazer o que quisessem; depois iríamos atrás deles observando para onde a paixão conduziria cada um. Em flagrante apanharíamos o homem justo a buscar o mesmo alvo que o injusto, por causa da ambição de possuir sempre mais, ambição que toda natureza busca como um bem e da qual, à força, a lei a desvia para levá-la ao respeito da eqüidade." (Platão, A República)
"Por onde conheces aquela unidade segundo a qual julgas os corpos? Pois se não a visses, não poderias julgar que estes não a alcançam perfeitamente; e se a visses com olhos corporais, não dirias com razão que eles distam muito da unidade, embora contenham algum vestígio dela? Pois com olhos corporais só vês coisas corporais. Donde se segue que é com a mente que a vemos. Mas onde a vemos? Se ela se encontrasse ali onde está o nosso corpo, seria inacessível ao que, no Oriente, formula juízos idênticos sobre os corpos. Portanto ela não está restrita a nenhum lugar particular; e, visto estar presente a quem quer que julgue de acordo com ela, segue-se que não está em parte alguma do espaço, e que não há lugar algum em que ela se não se encontre com sua eficácia."
(Santo Agostinho, Da Verdadeira Religião)
"Assim, pois, como há muitos homens de gosto pervertido, que preferem o verso à própria arte da versificação, por anteporem o ouvido à inteligência: assim, muitos homens amam as coisas temporais, isto é, históricas, mas ignoram a Divina Providência que origina e dirige os tempos, e por causa de seu apego temporal, não querem que passe aquilo que amam. Sua insensatez é comparável à daquele que, ao ouvir recitar um poema famoso, desejasse ouvir sempre uma só e mesma sílaba."
(Santo Agostinho, Da Verdadeira Religião)
Benedictus Spinoza
Neste sentido, conhecimento e beatitude são indissociáveis, pois o conhecimento intuitivo é a via que leva à beatitude. Somente quando intuímos que somos parte da natureza e frutos de uma rede causal de acontecimentos transpomos a percepção limitada de unidade e nos percebemos na universalidade. Ao nos enxergarmos como parte do todo, ascendemos a níveis mais elevados do saber e nos libertamos da influência exclusiva da imaginação. É no terreno da racionalidade ou no segundo gênero de conhecimento que nos afirmamos como seres pensantes, distante de ser apenas um mero objeto do acaso. Neste capítulo demonstramos o quanto o filósofo foi um ferrenho combatente da ignorância, sempre marcada pelo viés da superstição e do misticismo exacerbado. Nesse sentido ele foi um estudioso da condição humana na sua totalidade.
Para Spinoza, somos passíveis de sofrer a ação dos objetos sobre nós.
Quando não compreendemos as causas, somos meramente passivos, pois somos
apenas causa parcial, e ao contrário, quando conhecemos aquilo que nos afeta,
somos causa adequada, logo, agimos ou conquistamos nossa autonomia. (Lima, 2009, p. 12).
Possuímos a potência de agir e de cultivar nossa autonomia, mesmo sendo modos finitos de Deus e tendo limitações; podemos ser ativos, pois possuímos o que Spinoza chamou de conatus, que vem a ser o esforço para perseverar no ser. Desejo e apetite que nos estimulam a lutar pela sobrevivência e a buscar a alegria, que é o motor que nos impulsiona ou que eleva nossa perfeição.
O conatus é a essência atual do ser. É força vibrante que tanto pode estar ligado às paixões tristes como as alegres. Ao cultivarmos a autonomia, gerindo de modo inteligente nossos afetos, fortalecemos o nosso conatus e nos aproximamos do conhecimento intuitivo que favorece a beatitude ou alegria suprema. Quando nos movimentamos exclusivamente pelo terreno inseguro da passionalidade, ficamos a mercê do conhecimento mutilado e das paixões que enfraquecem nosso conatus e nos escravizam.
Devido à impossibilidade de esgotar tão vasto e controvertido assunto, deixaremos para uma pesquisa posterior.
O Deus apresentado por Spinoza na Ética vai tornando-se mais inteligível no decorrer das partes. Na Parte I percebemos que Spinoza busca fundamentar racionalmente a existência da Substancia Única, posteriormente, passa de um ser puramente abstrato para um Deus que ama a si e, portanto, ama também todos os modos produzidos por ele como está expresso na Parte V.
É pela via gnosiológica perpassada pela ética que podemos chegar à beatitude. Este itinerário é a via de amor ao Deus-Substância absolutamente infinito que Spinoza demonstra na parte V. O homem só é capaz de atingir a suprema felicidade após superar a passionalidade primitiva e compreender-se como parte da totalidade e, portanto, inserido na universalidade que é Deus.
Spinoza, ao contrário de Descartes que acreditava que é possivel dominar os afetos pelo adestramento da mente, considera que a única forma de regular os afetos
é através do pleno conhecimento desses afetos e de suas causas; logo, é pela
inteligência e não pela vontade que os homens exercem controle sobre suas
afecções.
Spinoza refuta também da noção cartesiana, de vontade, afirmando que o
filósofo francês se equivocou ao afirmar que vontade do corpo pode ser controlada
pela vontade da mente.
Em As Paixões da Alma, art. 18, Descartes afirma que temos dois tipos de vontades: umas são
ações da alma e outras são ações do corpo, e que são as ações da alma que determinam as
ações do corpo.
O percurso para o homem alcançar a Beatitude é traçado na Ética numa
ordenação geométrica que tem como base o conhecimento de Deus, do homem e
de seus afetos até conquistar a liberdade. Contudo é importante ressaltar que
liberdade não pode ser encarada em Spinoza como vontade, mas como
autonomia, pois o sentido de liberdade para este pensador diverge completamente
do sentido de liberdade para grande parte da tradição filosófica.
Spinoza rechaça qualquer possibilidade de atos volitivos. Segundo este
autor não é possível ao homem deliberar sobre absolutamente nada, pois tudo é
sempre determinado a agir de acordo com sua própria natureza. O homem não
tem a opção de escolher, pois suas ações seguem necessariamente a ordem
natural. Portanto, não pode arbitrar sobre aquilo que quer, mas pode desenvolver
a capacidade de buscar aquilo que mais favorece sua felicidade.
Somente pelo conhecimento das causas podemos favorecer nossa
autonomia, buscando sempre aquilo que aumenta nossa potência, porém jamais
escolher uma determinada coisa como puro ato de vontade que se impõe como
ação deliberada da racionalidade humana. Em Spinoza liberdade ganha outro
contorno muito diverso, pois longe de ser uma afirmação da vontade é uma
determinação da necessidade da natureza. (Lima, 2009, p. 17).
A suprema alegria que o sábio desfruta em comparação à eterna insatisfação do ignorante é colocada pelo autor como estímulo fundamental e como algo a ser almejado por todos os homens. O caminho apontado para atingir a verdadeira beatitude é também nomeado como o caminho da salvação ou da liberdade: “[...] Torna-se, com isso, evidente o quanto vale o sábio e o quanto ele é superior ao ignorante, que se deixa levar apenas pelo apetite lúbrico [...]” .(EV P 42 D S)(Lima, 2009, p. 18)
Summa mentis virtus est Deum cognoscere [...], sive res tertio cognitionis genere intelligere [...]; quae quidem virtus eo maior est, quo mens hoc cognitionis genere magis res cognoscit [...]. Adeoque qui res hoc cognitionis genere cognoscit, is ad summam humanam perfectionem transit, et consequenter [...] summa laetitia afficitur, idque [...] concomitante idea sui suaeque virtutis [...]. (EV P 27 D).
Somos conscientes de nuestras acciones, pero ignorantes de sus causas.(...) Todos Somos como uma sola Mente y um solo Cuerpo. Nada es más útil a um ser humano que outro ser humano. Paul Wienpahl. Por um Spinoza Radical, p. 139 (Tradução nossa). Este comentador defende ainda que é à nossa cegueira para enxergarmo-nos como parte integrante de uma natureza única que Spinoza se referia, pois tendo corpo e pensamento herdados de outros seres humanos, não podemos olvidar que somos causadores e ao mesmo tempo somos também causa. Portanto, mente e corpo para Spinoza, segundo a visão de Wienpahl fundem-se numa só mente e num só corpo numa rede causal de relações que são estabelecidas no decorrer de toda existência humana13 .
Na proposição 29 da Parte III da Ética, Spinoza defende a idéia de que o homem é irremediavelmente influenciado pelo meio em que está inserido e que age de acordo com os padrões caracterizados como aceitáveis. “Nós nos esforçaremos, igualmente, por fazer tudo aquilo que imaginamos que os homens [...] vêem com alegria e, contrariamente, abominaremos fazer aquilo que imaginamos que os homens abominam” (EIII P 29)14.
Uma tentativa de responder a essas interrogações se dá na parte V da Ética, quando Spinoza salienta que a ignorância é a responsável pelos nossos equívocos e sofrimentos e que só nos sentimos coagidos a agir contra nossa natureza porque ainda desconhecemos o que engendra nossas emoções. Em outras palavras, o conflito de interesses existe porque ainda somos incapazes de agir orientados pela razão, pois são as paixões que motivam nossa forma de conduzir a vida, por isso é necessário a regra moral, a norma, a lei para conseguirmos nos relacionar uns com os outros. Essa autoridade seria desnecessária se não nos movimentássemos quase que exclusivamente no círculo das paixões. São essas paixões que impedem o homem de ascender a esferas mais altas do conhecimento. Contudo, como ainda não nos movemos no terreno seguro da razão e sofremos a influência das paixões, Spinoza adverte que ainda necessitamos eleger um sistema de leis e de normas para nos guiarmos ou para refrearmos nossos impulsos. Conforme a razão não chega, que chegue o dever normativo ou imperativo moral.
[...] Optimum igitur, quod efficere possumus, quandiu nostrorum affectuum perfectam cognitionem non habemus, est rectam vivendi rationem seu certa vitae dogmata concipere, eaque memoriae mandare, et rebus particularibus in vita frequenter obviis continuo applicare, ut sic nostra imaginatio late iisdem afficiatur, et nobis in promptu sint semper. [...] (EV P X S)
[...] Portanto, o melhor que podemos fazer, enquanto não temos um conhecimento perfeito de nossos afetos, é conceber um princípio correto de viver, ou seja, regras seguras de vida, confiá-las à memória, e aplicálas continuamente aos casos particulares que, com freqüência, se apresentam na vida, para que nossa imaginação seja, assim, profundamente afetada por elas, de maneira que estejam sempre à nossa disposição16 [...]. (EV P 10 S)
Spinoza afirma que é pelo conhecimento das causas que o homem tornase livre, reporta-se ao conhecimento da ordem inteira do universo ou da causa primeira. Quando compreendemos a verdadeira ordenação e necessidade de tudo que existe somos capazes de deduzir o efeito. A base de sustentação epistêmica que Spinoza defende se funda no conhecimento com uma inequívoca defesa da cognoscibilidade do real. Neste sentido, conhecimento do homem é conhecimento integral da natureza ou de Deus. Os três gêneros de conhecimentos que Spinoza especifica na Ética podem coexistir simultaneamente, cada um deles tem uma função específica e não são excludentes entre si. Como a epistemologia e a metafísica são vertentes de um mesmo percurso é importante observar como se desenvolve e qual o alcance do conhecimento em sua gênese e, principalmente, por que conhecer a realidade como um todo permite ao homem ultrapassar suas limitações e descobrir a gama de potencial que há em sua natureza. É nesta perspectiva que conseguimos trilhar o percurso que nos proporciona à mais profunda felicidade, ou seja, à beatitude. (Lima, 2009, p. 25)
Colocando o conhecimento como pressuposto fundamental para o desenvolvimento do potencial humano, Spinoza demonstra que só pela via da cognição ou pela exegese intelectual chegamos ao mais alto grau do conhecimento e ao pleno gozo da existência. (Lima, 2009, p. 26).
Ferreira (24) explica que conhecimento é a espinha dorsal do sistema spinozista ou ainda o único meio para a salvação. O homem, ao se livrar da ignorância – que engendra as armadilhas que o aprisionam -, consegue enxergar a totalidade e refletir sobre a necessidade da ordem da razão e de todas as coisas que existem. Com base nisso, analisaremos a seguir como se ordena esta estrutura gnosiológica em nossa mente. (Lima, 2009, p. 26).
O conhecimento das coisas externas não é um conhecimento das coisas externas, mas do modo como somos afetados por ela. O que quer dizer que o conhecimento sensível é sempre muito relativo, na medida em que a mente fica sujeita a confundir a natureza do corpo afectante com a da afecção causada por ele: não passa duma percepção de nível imaginário, por isso, sujeita ao erro26 .
25 Mens humana ipsum humanum corpus non cognoscit, nec ipsum existere scit, nisi per ideas affectionum, quibus corpus afficitur. (EII P XIX).
O primeiro gênero se dá pela via da imaginação, que é um conhecimento baseado em idéias inadequadas, logo, superficial e mutilado. Ora, como já mencionado, o corpo pode deduzir o que se passa na mente, pois esta é idéia do próprio corpo e, portanto, quando os corpos são afetados de diversas maneiras por coisas exteriores, a mente capta essas afecções também de várias formas. Em outras palavras, a mente é formada por um conglomerado de idéias que têm como base central a união substancial, enquanto uma união de partes ínfimas de idéias. Essas idéias refletem exatamente o que se passa no corpo, eis por que a natureza empírica do corpo não lhe escapa. Assim, o conhecimento sensível presente nos corpos afeta diretamente a mente; quando esta não separa o corpo afetante do próprio afeto, o conhecimento se dá apenas de forma imaginária, na esfera meramente hipotética e, logo, sujeita a equívocos. Como a mente é definida pelo ato de conhecer corpos pelas afecções que são causadas neste corpo por corpos externos, ele é sempre suscetível a enganos. “A mente não conhece o próprio corpo humano e não sabe que ele existe senão por meio das idéias das afecções pelas quais o corpo é afetado” 25. (EII P 19) (Lima, 2009, p. 26-27).
Em Spinoza, é necessário que o homem ultrapasse este conflito ou está fadado a se movimentar exclusivamente na esfera do sensível. À medida que conseguimos transpor essa esfera puramente imaginativa, e como temos a tendência a conhecer, nos afirmamos como seres que têm a potência de conhecer, não somente os efeitos, mas principalmente as causas. Esse poder que temos se sobrepõe à imaginação ao perceber o modo como um corpo é afetado. Como essa atividade indica movimento do intelecto, é designado como poder (potentia) e não mais como o padecimento (passio) do conhecimento por imagens; e nesse processo, o homem manifesta sua capacidade de atuar, de agir, e não de ser apenas passivo:
Isso é evidente. Pois quando dizemos que uma idéia se segue, na mente humana, de idéias que nela são adequadas não dizemos senão que (pelo corol. Da prop. 11) existe, no próprio intelecto divino, uma idéia da qual Deus é a causa, não enquanto é infinito, nem enquanto é afetado das idéias de muitas coisas singulares, mas enquanto constitui unicamente a essência da mente humana (27). (EII P 40 D).(Lima, 2009, p. 28).
27 Patet. Nam cum dicimus, in mente humana ideam sequi ex ideis, quae in ipsa sunt adaequatae, nihil aliud dicimus (per coroll. Prop. 11 huius) quam quod in ipso divino intellectu detur idea, cuius Deus est causa, non quatenus infinitus est, nec quatenus plurimarum rerum singularium ideis affectus est; sed quatenus tantum humanae mentis essentiam constituit. (EII P XXXVI D)
No primeiro gênero de conhecimento, o homem é levado a imaginar e a acreditar que suas idéias são fruto do entendimento, quando na verdade são resultados de sua imaginação.
No primeiro gênero de conhecimento, o homem é levado a imaginar e a acreditar que suas idéias são fruto do entendimento, quando na verdade são resultados de sua imaginação. Para Jordão, esta forma de conhecimento é necessária: apesar de não possuir os pressupostos de uma verdade constituída, é através dele que nós entramos em contato com o mundo exterior. Essa forma de conhecimento é a via que conduz o homem ao segundo gênero de conhecimento ou conhecimento do segundo grau. Na condição que ainda nos encontramos, a de atribuirmos entendimento ou idéias que são apenas fruto da imaginação, necessitamos nos esforçar muito para controlar a imaginação, para permitir que o nosso intelecto a regule e se afirme como potência cognoscitiva. Essa dificuldade se dá pelo fato de ainda imperar o domínio de forças externas sobre nosso poder mental; nesse sentido, a imaginação já se configura um vício da mente. (Lima, 2009, p. 28).
A mente só amplia sua capacidade de conhecer quando começa a dominar a complexidade do corpo. Pela compreensão de que percebemos nosso corpo pelas afecções sofridas. Essa é a forma de aperfeiçoamento da mente humana. À medida em que o corpo passa a se adaptar melhor aos corpos externos, exerce maior controle sobre as afecções que esses outros corpos provocam; nesta perspectiva, ocorre uma gradual diminuição da dependência exterior, possibilitando o aperfeiçoamento da razão, que controla a imaginação, ou ainda, um meio de progresso intelectual. Este processo que se dá no interior da mente, Spinoza o chamou de segundo gênero de conhecimento, pois já não estamos à mercê de nossas percepções pela via exclusivamente de corpos externos, mas já temos capacidade de elaborar mentalmente a maneira como somos afetados por outros corpos. A união da mente à idéia que este tipo de conhecimento proporciona é que leva também à união da mente e corpo em Deus, de forma simultânea. O processo gnosiológico da mente humana, que possibilita ao homem enxergar além das imagens exteriores é condição imprescindível para que o homem obtenha a felicidade. “O conhecimento de segundo e de terceiro gênero, e não o de primeiro, nos ensina a distinguir o verdadeiro do falso” 28. (EII P 42) É no ato de conhecerse e de conhecer os outros modos com os quais se relaciona, que o homem também chega ao conhecimento de Deus e, portanto, a beatitude. Nessa perspectiva, o conhecimento racional é o paradigma da própria felicidade, pois quando, em vista do todo, nós suplantamos a mera representação que fazemos de nós mesmos e dos outros corpos que nos afetam, conseguimos superar nossa ignorância que nos leva a conhecer apenas pelos sentidos ou imagens. Segundo Lívio Teixeira, Spinoza chama de razão (ratio) este tipo de conhecimento:
O segundo gênero de conhecimento a que também chama razão, Espinosa declara que ele diz respeito às “noções comuns e às idéias adequadas das propriedades das coisas” [E II, P XL, esc. II]. Que são essas noções comuns, essas idéias adequadas das propriedades das coisas? Qual é o plano metafísico que lhes é próprio? Qual é seu lugar no conhecimento teórico da moral propriamente? Tais são as questões que se apresentam a propósito desse assunto. É evidente que se trata de noções gerais, mas de noções gerais que diferem dos “transcendentais” e dos universais que constituem idéias próprias do primeiro gênero de conhecimento, porque estas, como se viu, são de sua natureza inadequada e confusa no mais alto grau [...]29 .
29 TEIXEIRA, Lívio. A Doutrina dos Modos de Percepção e o Conceito de Abstração na Filosofia de Espinosa, São Paulo: UNESP, 2001, p. 165. Jordão corrobora com essa tese de Teixeira e afirma que o sentido de noções comuns em Spinoza diverge da concepção escolástica dos universais: “As ‘noções comuns’ são essencialmente diferentes dos universais, dos escolásticos. Estes são simples ‘construções imaginárias’ ou ‘representações vagas’, sem verdadeira correspondência na realidade, pois não são um produto genuíno da atividade da razão, mas produto duma combinação fortuita de impressões vindas do exterior. O conhecimento pelos universais corresponde a um nível ínfimo de conhecimento – o da simples opinião”. Op. cit., 1993, p. 51. (Lima, 2009, p. 29).
“Não há nenhuma afecção do corpo da qual não possamos formar algum conceito claro e distinto” 31. (EV P 4).
31 Nulla est corporis affectio, cuius aliquem clarum et distinctum non possumus formare conceptum. (EV P IV).
Espinosa defende, no entanto, que uma mente existente em união com um corpo pode elevar-se a um estado de conhecimento adequado, perfeito ou verdadeiro. A condição imprescindível para isso é o uso correto da razão como faculdade de relacionamento, confronto e dedução. A razão é, para o homem, o único pedagogo capaz de guiar através do caminho que conduz à verdade.
Spinoza afirma que temos a potência de desenvolver o conhecimento adequado bastando que a razão seja o meio de reflexão, contato e dedução, ou ainda, a razão é segundo Spinoza, uma das instâncias capazes de guiar o homem para além do conhecimento meramente imaginativo. Sendo o homem um ser composto de corpo e mente33, parte do intelecto infinito, tem todas as condições de apreender o sentido de totalidade. (Lima, 2009, p. 31).
As noções comuns, a que Spinoza classificou de segundo gênero de conhecimento, estão acima da transitoriedade e das idéias mutiladas às quais estamos sujeitos quando pensamos confusamente e influenciados apenas por fatores externos. Pelas noções comuns aprimoramos nossa percepção do mundo e dos outros, pois ao confrontarmos e relacionarmos as singularidades presentes em outros corpos deduzimos que, em suas essências, todos fazem parte da substância única e que estão interligados uns aos outros irremediavelmente. Portanto, o que há de comum entre todas as coisas que existem é que todas possuem propriedades semelhantes e pela razão podemos formar idéias adequadas capazes de distinguir entre as noções comuns e as idéias imaginadas. O conhecimento do segundo gênero é racional, compreende a necessidade da natureza e deduz o encadeamento lógico das causas que há entre todas as coisas a partir de suas propriedades comuns. Os corpos têm muito em comum uns com os outros, e são por estas características que geramos as idéias adequadas e captamos os nexos que ligam as idéias entre si. Isso se dá pela atividade reflexiva que estimula a confrontação e a comparação, extraindo daí os pressupostos indispensáveis para a fundamentação das idéias e para conseguir distinguir uma noção comum de uma idéia imaginária.
A própria imaginação já possui o germe latente do pensamento racional, basta a atividade reflexiva para esse germe eclodir. Somente a atividade cognitiva é para Spinoza, capaz de despertar na mente as noções comuns que ali já estão presentes na forma de potência imanente ao próprio intelecto do homem. A imaginação é, portanto, a gênese do conhecimento humano, que, enquanto tal, só consegue perceber as coisas pelas imagens formadas dessas coisas. Mas como modos finitos da Substância, estamos sujeitos às leis da natureza e à necessidade absoluta. Como modos, somos um conglomerado de idéias sejam elas adequadas ou inadequadas, como confirma o próprio Spinoza:
Todas as idéias existem em Deus (pela prop. 15 da P.1) e, enquanto estão referidas a Deus, são verdadeiras (pela prep. 32) e (pelo corol. da prop. 7) adequadas. Portanto, nenhuma idéia é inadequada e confusa senão enquanto esta referida à mente singular de alguém (vejam-se as prop. 24 e 28). Logo, todas as idéias, tanto as adequadas, quanto as inadequadas, seguem-se umas das outras com a mesma necessidade (pelo corol. Da prop. 6) C.Q.D.34( EII P 36 D).
Para Spinoza, só pelas noções comuns é que o homem é capaz de apreender as verdadeiras propriedades das coisas, logo, um conhecimento racional que está para além das contingências e vicissitudes do mundo singularizado. Contudo, mesmo tratando-se de um conhecimento adequado, Spinoza não afirma que o conhecimento pelas noções comuns é chave para a beatitude, mas apenas um dos trechos desse percurso que conduz o homem à forma mais pura de conhecimento que há. Esta forma é designada como terceiro gênero de conhecimento.
Spinoza defende que há uma forma de conhecimento que possibilita de fato ao homem “fruir da eterna e contínua alegria” 35; a esse conhecimento Spinoza denominou de beatitude suprema: “[...] Assim, essa doutrina além de tornar nosso espírito inteiramente tranqüilo, também nos ensina em que consiste nossa suprema felicidade, ou seja, nossa beatitude [...]” 36. (EII P 49 S) Na proposição 25 da parte V, Spinoza afirma ainda: “O esforço supremo da mente e sua virtude suprema consistem em compreender as coisas por meio do terceiro gênero de conhecimento” 37. (EV P 25)
34 Ideae omnes in Deo sunt (per prop.15 P.1) et quatenus ad Deus referuntur, sunt verae (per prop. 32 huius) et (per coroll. prop. 7 huius) adaequatae; adeoque nullae inadaequatae nec confusae sunt, nisi quatenus ad singularem alicuius mentem referuntur (qua de re vide prop. 24 et 28 huius). Adeoque omnes tam adaequatae, quam inadaequatae eadem necessitate (per coroll. prop. 6 huius) consequuntur. Q.E.D. (EII P. XXXVI D)
35 TIE . p. 22.
36 [...] Haec ergo doctrina, praeterquam quod animum omnimode quietum reddit, hoc etim habet, quod nos docet, in quo nostra summa felicitas sive beatitudo [...]. (EII P XLIX S).
37 Summus mentis conatus summaque virtus est res intelligere tertio cognitionis genere. (EV P XXV)
Considera ainda que o ápice da potência humana está em compreender de forma intuitiva, as coisas pela sua essência. Somente a ciência intuitiva proporciona ao homem o pleno conhecimento de si e da natureza. A dinâmica que atua nesse gênero de conhecimento é completamente intuitiva, ou seja, é o processo que se dá quando a razão, já livre das percepções imaginativas, se eleva até a visão de Deus como totalidade e como causa imanente a tudo que existe na natureza. Essa visão intuitiva é, porém, desenvolvida à base de princípios racionais e denominada por Spinoza como a maior satisfação que existe. Ainda segundo Jordão:
A apreensão da necessidade como propriedade comum de todas as coisas só é possível na “ciência intuitiva”. Pela atividade da razão, a mente é conduzida apenas ao limiar do conhecimento intuitivo. A esfera de ação, própria da razão, é a da “comunidade de ser” em todas as coisas. Mas é pela atividade racional que a mente desperta para a “visão de todas as coisas na causalidade divina”.
A intérprete Ferreira salienta que Spinoza considera possível a todo homem ascender ao terceiro gênero do conhecimento, embora necessite de muito empenho e desde que empreenda grande esforço intelectual: A todo homem é dada a possibilidade de conhecer as causas objectivas, impessoais, que o fazem agir. Mas só o sábio se empenha nessa descoberta, enveredando por um ‘modus vivendi’ que o demarca do homem comum39 .
No conhecimento racional (segundo gênero) deduzimos os efeitos pelas causas e compreendemos que há um princípio comum a todas as coisas, designado por Spinoza de noções comuns; ou seja, há um fio condutor que guia o pensamento e que pode ser apreendido pelo intelecto.
Já no terceiro gênero de conhecimento é a intuição que nos remete à idéia de Deus, mostrando que esta idéia está acima do plano dos princípios racionais, pois já se percebe partícipe do plano das propriedades essenciais da Natureza Divina. Pelas noções comuns percebemos as coisas necessárias, pelas propriedades comuns que estas possuem, seguindo a ordem dedutiva. Todavia, o que existe em comum entre as coisas não constitui a sua essência singular, dado que a essência não pode ser inferida pelo mecanismo racional que é a base do segundo gênero de conhecimento. A essência singular é apreendida pela intuição, donde esta é precedida por idéias adequadas da essência de Deus. Pela intuição percebemos nossa íntima relação com Deus, daí resulta nossa salvação ou beatitude.
Spinoza define o terceiro gênero de conhecimento como o único que exprime a idéia de Deus. Francisco Vieira Jordão admite: “Sabemos que o homem é um ser que pensa, por isso, é uma idéia duma ‘coisa singular existente em acto’. Esta idéia ‘tem Deus como sua causa’[...]” 40. A mente humana é capaz de formar uma idéia adequada quando tem Deus como pressuposto, mas isso independe de sua vontade, pois a vontade para Spinoza não tem poder nenhum e tudo obedece uma ordem causal e determinada pela necessidade da natureza. Para Jordão, o conhecimento intuitivo engloba o racional, mas não é a manifestação da racionalidade humana:
O conhecimento intuitivo, sendo luz que, por si mesma, se manifesta na mente humana, não é um resultado do conhecimento racional, mas o que, em ultima análise, o possibilita e está como seu complemento. Não nasce no momento em que nos apercebemos de que estamos na sua posse: quando desabrocha em nós, logo nos apercebemos de que não pode ser senão eterno, embora só desperte na mente após um longo percurso reflexivo41 .
É através do conhecimento intuitivo que o homem percebe-se partícipe da natureza de Deus. A trajetória árdua que nos leva ao terceiro gênero do conhecimento passa necessariamente pela razão. No entanto, a intuição encontra-se em esfera mais elevada, dado que já repousa num nível de compreensão muito acima das propriedades constitutivas da razão humana. Possui no seu cerne o sentido de totalidade e da realidade sem mistérios. Realidade centrada na idéia de Deus e na radicalidade absoluta de um pensar ético. Este tipo de conhecimento não sofre nenhum tipo de coação ou pressão externa. Como a eternidade de Deus estende-se a tudo, nós, por sermos expressões da divindade, também somos infinitos. O conhecimento intuitivo é uma conquista do homem sábio e não é passível de influência de causas finitas, pois é eterno. Só pode ser despertado com grande esforço intelectivo. Todavia, o comentador salienta que esta forma de conhecimento não é uma fusão entre o finito e o infinito, entre efeito e causa, nem a elaboração do singular pela dimensão infinita42. Não há misticismo no sistema spinozista, segundo Jordão, pois não há mistério incognoscível em sua filosofia, muito longe disso, pois é exatamente o mistério que Spinoza combate.
Neste sentido, o conhecimento intuitivo não é diluição do princípio de identidade do homem em Deus, pois nossa individualidade não se perde, mas é preservada; portanto, essa forma de conhecimento consiste na mais alta expressão da intuição humana, intuição essa que leva a essência singular do homem a captar a essência incondicionada e incausada de Deus.
40 JORDÃO, op. cit., 1993, p. 40.
A relação direta entre gnosiologia e metafísica no sistema spinozista influencia diretamente o campo ético, demonstrando que investigar as causas do agir humano sempre foi uma de suas maiores preocupações. Ora, o homem ao sentir-se parte da natureza divina torna seu espírito mais tranqüilo e sereno, age melhor com seus semelhantes. É espontaneamente generoso e justo, pois enxerga muito além do horizonte limitado da imaginação e encara todos os modos existentes na natureza como parte necessária da Substância. Sem estar condicionado às injunções do acaso e da sorte, o homem pode usufruir a forma mais elevada da felicidade, a beatitude. Spinoza atesta que somente é destinado aquele homem que por profundo esforço cognitivo atingiu essa mais alta esfera de sabedoria humana que é a própria virtude. Afirmar que virtude e beatitude são a mesma coisa significa rechaçar as teses dos gregos de que a felicidade era um prêmio conquistado pelos virtuosos. Spinoza refuta essa noção e considera que a beatitude é a virtude e não um prêmio da mesma:
A beatitude não é um prêmio da virtude, mas a própria virtude; e não a desfrutamos porque refreamos os apetites lúbricos, mas, em vez disso, podemos refrear os apetites lúbricos porque a desfrutamos43. (EV P 42).
43 Beatitudo non est virtutis praemium, sed ipsa virtus; nec eadem gaudemus, quia libidines coercemus; sed contra quia eadem gaudemus, ideo libidines coercere possumus. (EV P XLII).
No escólio da Proposição 42, o filósofo afirma que a superioridade do sábio em relação ao ignorante é justamente porque o sábio já controla seus apetites e o ignorante ainda se move no terreno da imaginação e, portanto, vive agitado; ao contrário, o sábio já desfruta da felicidade por inteiro porque já intui Deus em toda sua plenitude e compreende que é parte dessa divindade. O ignorante vive à mercê dos afetos, depende ainda de forças exteriores para se movimentar, já o sábio movimenta-se na esfera da intuição e prescinde de interferências externas. Spinoza adverte da dificuldade de se chegar à sabedoria, pois esta é rara e preciosa, mas não algo impossível, exigindo daqueles que a almejam muito esforço e dedicação.
Para o comentador Paolo Cristofolini a felicidade em Spinoza ganha um contorno muito diverso do que é comumente atribuído:
[...] A palavra latina correspondente (felicitas) não tem relevante emprego na Ética de Spinoza, porque no latino dos clássicos que é o seu, tal palavra indica antes de tudo sucesso e o bom êxito de operações determinadas do que o escopo geral ao qual tendemos. Aquela que é felicidade é, em Spinoza, ora um bem (bonum), ora a alegria (laetitia), e ora a beatitude (beatitudo) [...]44 .
44 CRINTOFOLINI, Paolo. A Última Sabedoria e a Felicidade. In: Cadernos Espinosanos VI, S. Paulo, Nov. de 2000. Trad. Stella Penido. Rev. Tec. Maurício Rocha. p. 5. 45 Este projeto refere-se, segundo Cristofoloni ao modelo racional de natureza humana.
Ora, o bem para Spinoza tem sentido puramente relativo e depende exclusivamente do fato de nos aproximar da perfeição, ou seja, da realização de um projeto de vida ou ainda do modelo de natureza a que nos propomos. Todo o resto que nos afasta deste modelo é um mal. O projeto do ser humano é tudo aquilo que pertence a sua natureza. Todavia, é importante frisar que o filósofo rechaça qualquer possibilidade de uma concepção de projeto com viés finalista. Finalismo este, que é fortemente evocado pelos homens que acreditam que tudo que existe no universo é obra da onipotência e benevolência de uma divindade criadora que está à sua disposição, o que denuncia o absurdo da presunção humana. Portanto, o projeto45 de ser humano é o que dá sentido geral à sua existência e tudo aquilo que distancia o homem de chegar a essa perfeição é considerado um mal, o que aproxima é um bem. Conhecer a natureza deste projeto e seguir fielmente a seu formato é o que proporciona felicidade ao homem. O bem como felicidade está relacionado também à esfera social. Ao vincular-se em sociedade com outros pares, os homens percebem que podem ajudar-se mutuamente. Dessa troca nasce a compreensão da utilidade que há nas agregações humanas no sentido de que precisamos uns dos outros para nossa proteção, conservação e divisão de trabalho. Isto é uma prova da necessidade de interação e demonstra a rede causal que sustenta todas as relações. A soma das atividades desempenhadas em conjunto possibilita o desenvolvimento do potencial individual de cada um proporcionando o bem comum que é o primeiro sentido de felicidade para o sábio holandês.
A segunda face da felicidade é a alegria. O significado de alegria está diretamente relacionado à passagem de uma perfeição menor a uma maior perfeição. Esta alegria não coincide com a sensação agradável ou de bem-estar em que costumamos classificá-la. A alegria encarada como felicidade vincula-se à idéia de amor. Amor é uma alegria acompanhada de uma causa exterior que é sempre passagem a um grau de perfeição mais elevado. Na concepção spinozista amor é a plena compreensão da existência de algo externo a nós que reconhecidamente nos torna melhor ou mais potentes. Pode ser uma coisa ou pessoa, ou ainda, um saber, algo que nos ajuda a desenvolver toda nossa potência.
O amor é sempre alegria e o objeto desse amor é a idéia de que há algo externo a nós que eleva nossa potência. Logo, o amor é uma alegria que potencializa nossa força de existir e difere do desejo (cupiditas) 46 que é a essência mesma do homem e está associado à ordem dos impulsos e apetite (appetitus) humano. O amor, ao contrário, é efeito da alegria de enxergarmos fora de nós motivação para nossa própria existência.
O terceiro sentido de felicidade em Spinoza é a beatitude, o ponto mais alto de ascendência de um homem em direção à sabedoria. A beatitude é algo que o homem só consegue atingir pela terceira via do conhecimento, em seu mais profundo nível de intuição. Ao perceber-se irremediavelmente como parte de uma ordem necessária e perfeita em que está imerso e longe do plano meramente contingente, o homem é capaz de descobrir a sua eternidade e de compreender os elos necessários que o unem a todas as coisas existentes, libertando-se da incômoda e aterrorizante idéia de finitude. Eternidade em Spinoza refere-se à verdade eterna da lei da natureza e diverge do sentido judaico-cristão, quando defende que não há nenhuma forma de sobrevivência da alma, alertando que a individualidade não sobrevive à morte do corpo, pois precisa dele para se expressar.
46 Desejo (cupiditas) é a estrutura dinâmica que constitui o conatus, ou todo esforço de perseverar na existência e aumentar a nossa potência, quando este esforço vem acompanhado da consciência de si, no caso específico dos seres humanos, chama-se apetite (appetitus).
Em momento algum, o filósofo faz referência à imortalidade da alma, considerando ainda que: “A mente não pode imaginar nada, nem se recordar das coisas passadas, senão enquanto dura o corpo” 47. (EV P 21).
47 Mens nihil imaginari potest, neque rerum praeteritarum recordari. Nisi durante corpore. (EV P 21)
A serenidade da aceitação de que pertencemos à ordem natural e imutável das coisas eternas nos dá a sabedoria de saber lidar com a nossa própria morte e destruição, encarando-a como algo inevitável para a sobrevivência do todo; isto é parte da conquista do homem sábio. No entanto, Spinoza afirma que:
“não há nada em que o homem livre pense menos que na morte, e sua sabedoria não consiste na meditação da morte, mas da vida” 48. (EIV P 67).
48 Homo líber de nulla re minus, quam de morte cogitat, et eius sapiencia non mortis, sed vitae meditatio est. (EIV P LXVII)
Nessa concepção, a felicidade é algo que só pode ser conquistada pela via árdua do conhecimento e da sabedoria. Portanto, é no terceiro gênero de conhecimento que o homem descobre sua eternidade personalizada, atendendo à positividade existente em si mesmo. Quando adquirimos a plena consciência de nossa intima ligação com o Todo ou Deus, tanto em relação à essência como à existência descobrimos a felicidade. A exata compreensão de nossa eternidade nos ajuda a entender nossa condição no mundo e aprendemos a agir melhor sem depender do acaso ou da sorte. Essa forma de encarar a vida nos leva a enxergar a essência divina e desfrutamos a mais verdadeira e plena felicidade que Spinoza classificou como salvação (salus) ou beatitude (beatitudo).
O grau máximo de conhecimento permite ao homem descobrir-se eterno e necessariamente ligado a todas as coisas que existem. Encarando o tempo não como obstáculo, mas como uma condição para a própria felicidade, o homem transcende do plano perecível da finitude humana e descobre as leis inexoráveis da natureza e do infinito eterno de que faz parte. Para o filósofo holandês, o conceito de felicidade não difere de virtude. Ambos estão intimamente ligados, pois o homem virtuoso, por isso mesmo, é verdadeiramente feliz. A beatitude é uma experiência subjetiva capaz de levar o homem à salvação, que só pode ser encontrada na íntima compreensão de si como parte de Deus, distante de qualquer contingência, logo, como absolutamente necessário. (Lima, 2009, p. 39).
Deleuze esclarece uma diferença entre affectio e affectus: “Quando emprego a palavra afeto isso remete ao affectus de Spinoza, quando digo a palavra afecção, esta remete a affectio” - Curso 24/01/78. Cf in: Deleuze: Spinoza – Cursos de 24/01/78. Trad. de Emanuel Ângelo da Rocha Fragoso e Hélio Rebello Cardoso Jr. Esta não é uma diferença estabelecida por Deleuze, mas da própria língua latina. Com efeito, affectus significa afeto (resultado ou modo de uma afecção) e affectio significa afecção (ação de algo de afetar outro algo). O affectus indica a paixão (a passividade) de quem sofre a ação do outro; já a affectio indica a ação de afetar, ação desse outro sobre algo/alguém. 51 Spinoza emprega tanto afeto quanto paixão para designar a mesma coisa. Na tradução da parte III da Ética, por Joaquim Ferreira Gomes (Os Pensadores, 5ª Ed. Nova Cultural, São Paulo, 1991) o termo afeto é traduzido também como afecção. A intérprete Marilena Chauí também usa o termo paixão para se referir à afeto na Vida e Obra do livro mencionado acima.
Todos os afetos estão relacionados ao desejo, à alegria ou à tristeza, como mostram as definições que deles foram dadas. Ora, o desejo é a própria natureza ou essência de cada um [...]. Portanto, o desejo de um indivíduo discrepa do desejo de um outro, tanto quanto a natureza ou essência de um difere da essência do outro. Além disso, a alegria e a tristeza são paixões pelas quais a potência de cada um – ou seja, seu esforço por perseverar no ser – é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada63. (EIII P 57 D)
Omnes affectus ad cupiditatem, laetitiam vel tristitiam referuntur, ut eorum quas dedimus definitiones ostendunt. At cupiditas est ipsa uniuscuiusque [...] ergo uniuscuiusque individui cuipiditas a cupiditate alterius tantum discrepat, quantum natura seu essentia unius ab essentia alterius differt. Laetitia deinde et tristitia passiones sunt, quibus uniuscuiusque pontentia seu conatus in suo esse perseverandi augetur vel minuitur, iuvatur vel coercetur. (EIII P LVII D)
Bibliografia
http://www.filosofia.com.br/vi_prova.php?id=6
https://en.wikipedia.org/wiki/Zeno_of_Citium
https://pt.wikipedia.org/wiki/Zen%C3%A3o_de_C%C3%ADtio
https://en.wikipedia.org/wiki/Arcesilaus
https://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%B3s-verdade
https://en.wikipedia.org/wiki/Post-truth_politics
https://maputofastforward.com/a-industria-da-desinformacao-5-livros-para-reflectir-sobre-a-era-da-pos-verdade/
https://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/opiniao/2018/10/17/3444483/pos-verdade-e-neofascismo.shtml
https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/89356/busato_sl_dr_bauru.pdf?sequence=1
http://www.uece.br/cmaf/dmdocuments/Dissertacoes2009_trajetoria_beatitude_Spinoza.pdf
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