INÍCIO

09 janeiro 2021

CARACTERÍSTICAS DO FASCISMO

Características do fascismo 








Clara Josephine Zetkin, nascida Eißner, (05/VII/1857 - 20/VI/1933) foi professora, jornalista e política marxista alemã. É uma figura histórica do feminismo. Foi uma das fundadores e dirigentes do Socorro Vermelho Internacional, também conhecida pelo seu acrónimo russo MOPR, por (Междунаро́дная организа́ция по́мощи борца́м револю́ции) era uma organização internacional de serviços sociais estabelecida pela Internacional Comunista. A organização foi fundada em 1922 para funcionar como uma "Cruz Vermelha política internacional", fornecendo ajuda material e moral aos prisioneiros políticos radicais da luta de classes em todo o mundo.



Dez características do fascismo

Em 1923, ao observar a conjuntura internacional e a ascensão do fascista Benito Mussolini na Itália, Clara Zetkin elabora uma das primeiras, e mais profundas, análises sobre o fascismo:

1 – O surgimento do fascismo está intrinsecamente atado à crise do capitalismo e ao declínio de suas instituições. Esta crise é caracterizada por uma escalada de ataques à classe trabalhadora, enquanto as camadas sociais intermediárias são espremidas e rebaixadas ao proletariado:

“As raízes do fascismo estão, de fato, na dissolução da economia capitalista e do Estado burguês… A guerra destruiu a economia capitalista a partir de suas bases. Isso é evidente não apenas pelo empobrecimento assustador do proletariado, como também pela proletarização de amplas massas pequeno e médio burguesas”.

2 – A ascensão do fascismo é baseada na incapacidade do proletariado resolver a crise social capitalista pela tomada do poder para reorganização da sociedade. Esta incapacidade da liderança da classe trabalhadora gera desmoralização entre os trabalhadores e das forças sociais que vislumbravam o proletariado e o socialismo como uma solução para a crise.

Essas forças sociais, indica Zetkin, acreditavam que “o socialismo pudesse acarretar uma transformação completa. Essas expectativas foram dolorosamente destroçadas… Perderam sua fé não apenas nos líderes reformistas, como no próprio socialismo”.

3 – O fascismo possui um caráter de massas, com apelo especial às camadas pequeno-burguesas ameaçadas pelo declínio da ordem capitalista.

O declínio capitalista resulta na “proletarização de amplas massas pequeno e médio burguesas, na situação de calamidade entre os pequenos camponeses e na aflição melancólica da ‘intelligentsia’. (…) O que pesa acima de tudo sobre eles é a falta de segurança para sua subsistência básica”.

4 – Para conquistar o apoio dessas camadas, o fascismo faz uso de demagogia anticapitalista:

“As massas aos milhares se juntaram ao fascismo. Ele se transformou em um asilo para todos os desabrigados políticos, os socialmente desenraizados, os destituídos e desiludidos… A pequena-burguesia e as forças sociais intermediárias inicialmente vacilam entre os poderosos campos históricos do proletariado e da burguesia. São levadas a simpatizar com o proletariado por conta das dificuldades em suas vidas e, em parte, pelos desejos nobres e ideais elevados em seus espíritos, na medida em que este aja de forma revolucionária e apresente perspectivas de vitória. Sob a pressão das massas e de suas necessidades, e influenciados por essa situação, até mesmo os líderes fascistas são forçados a, minimamente, flertar com o proletariado revolucionário, ainda que não possuam por ele qualquer simpatia”.

5 – A ideologia fascista eleva a nação e o Estado acima de todos os interesses e contradições de classes:

“O que as massas não esperavam mais da classe proletária revolucionária e do socialismo, agora esperam que seja atingido pelos elementos mais capazes, fortes, determinados e impetuosos de todas as classes sociais. Todas essas forças deveriam unir-se em uma comunidade. E essa comunidade, para os fascistas, é a nação… O instrumento para atingir os ideais fascistas é, para eles, o Estado. Um Estado forte e autoritário que será sua própria criação e ferramenta obediente. Este Estado estará suspenso acima de todas as diferenças de classe e partido”.

6 – A ideologia do nacionalismo chauvinista é utilizada pelos líderes fascistas como cobertura para incitar o militarismo e a guerra imperialista:

“As forças armadas da Itália fascista eram apenas para defender a pátria. Esta era a promessa. Mas o aumento do exército e a aquisição de armamentos estão dirigidos a grandes aventuras imperialistas… Centenas de milhões de liras foram aprovadas para a indústria pesada construir as mais modernas maquinas e impiedosos instrumentos de morte”.

7 – Uma característica fundamental do fascismo é o uso da violência organizada levada à frente por tropas de choque contrárias à classe trabalhadora, com o fim de esmagar toda atividade proletária independente.

Na Itália, as forças de Mussolini ocuparam-se do “terror direto, sanguinário”, indica Zetkin. Partindo de áreas do interior, os fascistas “atacaram os trabalhadores rurais, de quem as organizações foram devastadas e incineradas, enquanto seus líderes eram assassinados”. Mais tarde “o terror fascista estendeu-se ao proletariado das grandes cidades”.

8 – A ideologia do racismo e o bode expiatório racista é central na mensagem do fascismo. Mesmo que esse aspecto ainda não estivesse inteiramente nítido em 1923, Zetkin lembra como na Alemanha “o programa fascista é esgotado pela frase: ‘porrada nos judeus’.”

9 – A certa altura, setores importantes da classe capitalista passaram a apoiar e financiar o movimento fascista, encarando isso como uma maneira de conter a ameaça da revolução proletária:

“A burguesia não pode mais confiar nos meios de força regulares de seu Estado para garantir sua dominação de classe. Para tal, ela precisa de um instrumento de força extralegal e paramilitar. Isto lhe foi oferecido pelo aglomerado heterogêneo que constitui a turba fascista. Os capitalistas patrocinam abertamente o terrorismo fascista, apoiando-o com dinheiro e de outras maneiras”.

10 – Uma vez no poder o fascismo tende a se burocratizar e distanciar dos apelos demagógicos de antes, levando a um ressurgimento das contradições e conflitos de classes:

“Existe uma contradição flagrante entre o que o fascismo prometeu e aquilo que entregou às massas. Toda conversa sobre como o Estado fascista colocará o interesse da nação acima de tudo, uma vez exposta aos ventos da realidade, estoura como uma bolha de sabão. A ‘nação’ revelou ser a burguesia; o ideal fascista de Estado revelou-se como o vulgar e inescrupuloso Estado burguês… As contradições de classe são mais poderosas do que todas as ideologias que negam a sua existência”.


Principais passagens em vida foram:

1891: Com sua amiga íntima Rosa Luxemburgo, assassinada em Berlin em 1919, editou entre 1891 e 1917 o jornal “Die Gleichheit” (A Igualdade), uma revista bimensal para mulheres operárias.
1907: Naquele ano, 10.500 mulheres formavam parte do SPD e criaram a primeira Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em Stuttgart, Alemanha, onde fundaram a Internacional Socialista das Mulheres, cuja Zetkin se tornou a Secretária Internacional.
1916: Durante a Primeira Guerra Mundial, foi abertamente antibelicista e presa diversas vezes por ser contrária a guerra. Essa posição a leva romper com o SPD e no mesmo ano se torna uma das fundadoras do Partido Socialdemocrata Independente Alemão (USPD).
1919: Participa da Revolução Alemã e se une ao Partido Comunista Alemão (KPD).
1920: Entrevista Lenin e publica seu famoso artigo “Lenin sobre a questão feminina”. Zetkin se torna esse ano deputada do KPD no Congresso da República de Weimar.
Entre 1921 e 1933 ocupa diferentes postos dentro da esquerda alemã, tanto nos órgãos do partido como no Comitê Internacional Socialista.
1933: Diante da chegada dos nazistas ao poder se exila na União Soviética.


As 14 características do fascismo
Por Umberto Eco


Umberto Eco. Intelectual italiano, romancista e filósofo, autor de “O pêndulo de Foucault” e “O Nome da Rosa”, nasceu em 05 janeiro de 1932 e morreu em 19 de fevereiro de 2016, aos 84 anos.

A seguir apresento fragmento de uma conferência que Umberto Eco fez em 1995 na Universidade de Columbia, em que elaborou uma rápida caracterização do que chamou "Ur-Fascismo" ou "fascismo eterno".

1. Culto da tradição, dos saberes arcaicos, da revelação recebida no alvorecer da história humana, dos hieróglifos egípcios às runas dos celtas e aos textos sagrados, ainda desconhecidos, de algumas religiões asiáticas; do tempo de 50 anos atras.

2. Rechaço do modernismo. O Iluminismo, a idade da Razão, são vistos como o princípio da depravação moderna. Neste sentido, o Ur-Fascismo pode se definir como irracionalismo.

3. Culto da ação pela ação. Pensar é uma forma de castração. Por isso a cultura é suspeita, à medida em que é identificada com atitudes críticas.

4. Rechaço do pensamento crítico. O espírito crítico opera distinções e distinguir é sinal de modernidade. Para o Ur-Fascismo, estar em desacordo é traição.

5. Medo ao diferente. O primeiro chamamento de um movimento fascista, ou prematuramente fascista, é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, pois, racista por definição.

6. Apelo às classes médias frustradas. Em nossa época, o fascismo encontrará seu público nesta nova maioria.

7. Nacionalismo e xenofobia. Obsessão pelo complô. Os seguidores têm de se sentir ameaçados.

8. Inveja e medo do “inimigo”.

9. Princípio de guerra permanente, antipacifismo.

10. Elitismo, desprezo pelos fracos.

11. Heroísmo, culto à morte.

12. Transferência da vontade de poder a questões sexuais. Machismo, ódio ao sexo não-conformista, como a homossexualidade. Transferência do sexo ao jogo das armas.

13. Populismo qualitativo, oposição aos apodrecidos governos parlamentares. Toda vez que um político lança dúvidas sobre a legitimidade do parlamento porque já não representa a voz do povo, podemos perceber o cheiro do Ur-Fascismo.

14. Novilíngua. Todos os textos escolares nazis ou fascistas se baseavam em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com a finalidade de limitar os instrumentos para o raciocínio complexo e crítico. Devemos estar preparados para identificar outras formas de novilíngua, inclusive quando adotam a forma inocente de um popular reality show.


Tudo que é fácil … 
Ôpa! Já está complicado;
Olha só: Facho = de lenha; de trigo! por sinal veio daí; de varas … em torno de um machado … Conhece esse? Tem até em fachadas raras, com a inocência dos aprovados e promovidos. 1940 … Por aí; Quando se sabia quem era mau!
Um facho de bons amarrados em volta de um machado para cortar quem não estava amarrado. (Publicado no Blog 9/I/2021)


(Artigo da revista Opera Mundi)


A Revista Samuel reproduz o texto de Umberto Eco “Ur-Fascismo”, produzido originalmente para uma conferência proferida na Universidade Columbia, em abril de 1995, numa celebração da liberação da Europa:

“O Fascismo Eterno”

Em 1942, com a idade de dez anos, ganhei o prêmio nos Ludi Juveniles (um concurso com livre participação obrigatória para jovens fascistas italianos — o que vale dizer, para todos os jovens italianos). Tinha trabalhado com virtuosismo retórico sobre o tema: “Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália?” Minha resposta foi afirmativa. Eu era um garoto esperto.

Depois, em 1943, descobri o significado da palavra “liberdade”. Contarei esta história no fim do meu discurso. Naquele momento, “liberdade” ainda não significava “liberação”.

Passei dois dos meus primeiros anos entre SS, fascistas e resistentes, que disparavam uns nos outros, e aprendi a esquivar-me das balas. Não foi mal exercício. 


Em abril de 1945, a Resistência tomou Milão. Dois dias depois os resistentes chegaram à pequena cidade em que eu vivia. Foi um momento de alegria. A praça principal estava cheia de gente que cantava e desfraldava bandeirolas, invocando Mimo, o líder a resistência na área, em alto brado. Mimo, ex-suboficial dos carabinieri, envolveu-se com os partidários do marechal Badoglio e perdeu uma perna nos primeiros confrontos. Apareceu no balcão da Prefeitura, apoiado em muletas, pálido; tentou acalmar a multidão com uma mão. Eu estava ali esperando seu discurso, já que toda a minha infância tinha sido marcada pelos grandes discursos históricos de Mussolini, cujos passos mais significativos aprendíamos de cor na escola. Silêncio. Mimo falo com voz rouca, quase não se ouvia. Disse: “Cidadãos, amigos. Depois de tantos sacrifícios dolorosos… aqui estamos. Glória aos que caíram pela liberdade…”. E foi tudo. Ele voltou para dentro. A multidão gritava, os membros da resistência levantaram as armas e atiraram para o alto, festivamente. Nós, rapazes, nos precipitamos para recolher os cartuchos, preciosos objetos de coleção, mas eu tinha aprendido então que liberdade de palavra significa também liberdade da retórica. 

Alguns dias depois vi os primeiros soldados norte-americanos. Eram afro-americanos. O primeiro ianque que encontrei era um negro, Joseph, que me apresentou às maravilhas de Dick Tracy e Ferdinando Buscapé. Seus gibis eram coloridos e tinham um cheiro bom.

Um dos oficiais (o major ou capitão Muddy) era hóspede na casa da família de dois dos meus companheiros de escola. Sentia-me em casa naquele jardim em que alguns senhores amontoavam-se em torno ao capitão Muddy, falando um francês aproximativo. O capitão Muddy tinha uma boa educação superior e conhecia um pouco de francês. Assim, minha primeira imagem dos libertadores norte-americanos, depois de tantos caras-pálidas de camisa negra, era a de um negro culto em uniforme cáqui que dizia: “Oui, merci beaucoup Madame, moi aussi j’aime le champagne…” Infelizmente, faltava o champagne, mas ganhei do capitão Muddy o meu primeiro chiclete e comecei mastigando o dia inteiro. De noite colocava o chiclete em um copo d’água para que ficasse fresco para o dia seguinte.

Em maio, ouvimos dizer que a guerra tinha acabado. A paz deu-me uma sensação curiosa. Haviam me dito que a guerra permanente era a condição normal de um jovem italiano. Nos meses seguintes descobri que a Resistência não era apenas um fenômeno local, mas Europeu. Aprendi novas e excitantes palavras como “reseau”, “maquis”, “armée secrète”, “Rote Kapelle”, “gueto de Varsóvia”. Vi as primeiras fotografias do Holocausto e assim compreendi seu significado antes mesmo de conhecer a palavra. Percebi que havíamos sido liberados.

Hoje na Itália existem algumas pessoas que se perguntam se a Resistência teve algum impacto militar real no curso da guerra. Para a minha geração a questão é irrelevante: compreendo imediatamente o significado moral e psicológico da Resistência. Era motivo de orgulho saber que nós, europeus, não tínhamos esperado passivamente pela liberação. Penso que, também para os jovens norte-americanos que derramaram seu sangue pela nossa liberdade, não era irrelevante saber que atrás das linhas havia europeus que já estavam pagando seu débito.

Hoje na Itália tem gente que diz que a Resistência é um mito comunista. É verdade que os comunistas exploraram a Resistência como uma propriedade pessoal, pois realmente tiveram um papel primordial no movimento; mas lembro-me dos resistentes com bandeiras de diversas cores.

Grudado ao rádio, passava as noites — as janelas fechadas e a escuridão geral faziam do pequeno espaço em torno ao aparelho o único halo luminoso — escutando as mensagens que a Rádio Londres transmitia para a Resistência. Eram, ao mesmo tempo, obscuras e poéticas (“Ainda brilha o sol”, “As rosas hão de florir”), mas a maior parte eram “mensagens para Franchi”. Alguém soprou no meu ouvido que Franchi era o líder de um dos grupos clandestinos mais poderosos da Itália do Norte, um homem de coragem legendária. Franchi tornou-se o meu herói. Franchi (cujo verdadeiro nome era Edgardo Sogno) era um monarquista tão anticomunista que, depois da guerra, se uniu a um grupo de extrema direita e foi até acusado de ter participado de um golpe de Estado reacionário. Mas que importa? Sogno ainda é o sonho da minha infância. A liberação foi um empreendimento comum de gente das mais diversas cores.

Hoje na Itália tem gente que diz que a guerra de liberação foi um trágico período de divisão, e que precisamos agora de uma reconciliação nacional. A recordação daqueles anos terríveis deveria ser reprimida. Mas a repressão provoca neuroses. Se a reconciliação significa compaixão e respeito por todos aqueles que lutaram sua guerra de boa-fé, perdoar não significa esquecer. Posso até admitir que Eichmann acreditava sinceramente em sua missão, mas não posso dizer: “Ok, volte e faça tudo de novo”. Estamos aqui para recordar o que aconteceu e para declarar solenemente que “eles” não podem repetir o que fizeram.

Mas quem são “eles”?

Se pensamos ainda nos governos totalitários que dominaram a Europa antes da Segunda Guerra Mundial, podemos dizer com tranquilidade que seria muito difícil que eles retornassem sob a mesma forma, em circunstâncias históricas diversas. Se o fascismo de Mussolini baseava-se na ideia de um líder carismático, no corporativismo, na utopia do “destino fatal de Roma”, em uma vontade imperialista de conquistar novas terras, em um nacionalismo exacerbado, no ideal de uma nação inteira arregimentada sob a camisa negra, na recusa da democracia parlamentar, no anti-semitismo, então não tenho dificuldade para admitir que a Aliança Nacional, nascida do MSI (Movimento Social e Italiano), é certamente um partido de direita, mas tem muito pouco a ver com o velho fascismo. Pelas mesmas razões, mesmo preocupado com os vários movimentos neonazistas ativos aqui e ali na Europa, inclusive na Rússia, não penso que o nazismo, e sua forma original, esteja ressurgindo como movimento capaz de mobilizar uma nação inteira.

Todavia, embora os regimes políticos possam ser derrubados e as ideologias criticadas e destituídas de sua legitimidade, por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis. Há, então, um outro fantasma que ronda a Europa (para não falar de outras partes do mundo)?

Ionesco disse certa vez que “somente as palavras contam, o resto é falatório”. Os hábitos linguísticos são muitas vezes sintomas importantes de sentimentos não expressos.

Portanto, permitam-me perguntar por que não somente a Resistência mas toda a Segunda Guerra Mundial foram definidas em todo o mundo com uma luta contra o fascismo. Se relerem “Por quem os sinos dobram”, de Hemingway, vão descobrir que Robert Jordan identifica seus inimigos com os fascistas, mesmo quando está pensando nos falangistas espanhóis.

Permitam-me passar a palavra a Franklin Delano Roosevelt: “A vitória do povo americano e de seus aliados será uma vitória contra o fascismo e o beco sem saída que ele representa” (23 de setembro de 1944).

Durante os anos de McCarthy, os norte-americanos que tinham participado da guerra civil espanhola eram chamados de “fascistas prematuros” — entendendo com isso que combater Hitler nos anos 1940 era um dever moral de todo bom norte-americano, mas combater Franco cedo demais, nos anos 1930, era suspeito. Por que uma expressão como “fascist pig” era usada pelos radicais norte-americanos até para indicar um policial que não aprovava os que fumavam? Por que não diziam: “Porco Caugolard”, “Porco Falangista”, “Porco Quisling”, “Porco croata”, “Porco Ante Pavelic”, “Porco nazista”?

Mein Kampf é o manifesto completo de um programa político. O nazismo tinha uma teoria do racismo e do arianismo, uma noção precisa de entartete Kunst, a “arte degenerada”, uma filosofia da vontade de potência e da Übermensch. O nazismo era decididamente anticristão e neopagão, da mesma maneira que o Diamat (versão oficial do marxismo soviético) de Stalin era claramente materialista e ateu. Se como totalitarismo entende-se um regime que subordina qualquer ato individual ao Estado e sua ideologia, então nazismo e estalinismo eram regimes totalitários.

Umberto Eco morreu na última sexta-feira (19/02), aos 84 anos, em sua casa, em Roma (Agência Efe)

O fascismo foi certamente uma ditadura, mas não era completamente totalitário, nem tanto por sua brandura quanto pela debilidade filosófica de sua ideologia. Ao contrário do que se pensa comumente, o fascismo italiano não tinha uma filosofia própria. O artigo sobre o fascismo assinado por Mussolini para a Enciclopédia Treccani foi escrito ou inspirou-se fundamentalmente em Giovanni Gentile, mas refletia uma noção hegeliana tardia do “Estado ético absoluto”, que Mussolini nunca realizou completamente. Mussolini não tinha qualquer filosofia: tinha apenas uma retórica.

Começou como ateu militante, para depois firmar a concordata com a Igreja e confraternizar com os bispos que benziam os galhardetes fascistas. Em seus primeiros anos anticlericais, segundo uma lenda plausível, pediu certa vez a Deus que o fulminasse ali mesmo para provar sua existência. Deus estava, evidentemente, distraído. Nos anos seguintes, em seus discursos, Mussolini citava sempre o nome de Deus e não desdenhava o epíteto: “homem da Providência”. Pode-se dizer que o fascismo italiano foi a primeira ditadura de direita que dominou um país europeu e que, em seguida, todos os movimentos análogos encontraram uma espécie de arquétipo comum no regime de Mussolini.

O fascismo italiano foi o primeiro a criar uma liturgia militar, um folclore e até mesmo um modo de vestir-se — conseguindo mais sucesso no exterior que Armani, Benetton ou Versace. Foi somente nos anos 1930 que surgiram movimentos fascistas na Inglaterra, com Mosley, e na Letônia, Estônia, Lituânia, Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Grécia, Iugoslávia, Espanha, Portugal, Noruega e até na América do Sul, para não falar da Alemanha. Foi o fascismo italiano que convenceu muitos líderes liberais europeus de que o novo regime estava realizando interessantes reformas sociais, capazes de fornecer uma alternativa moderadamente revolucionária à ameaça comunista.

Todavia, a prioridade histórica não me parece ser uma razão suficiente para explicar por que a palavra “fascismo” tornou-se uma sinédoque, uma denominação pars pro toto para movimentos totalitários diversos. Não adianta dizer que o fascismo continha em si todos os elementos dos totalitarismos sucessivos, por assim dizer, em “estado quintessencial”. Ao contrário, o fascismo não possuía nenhuma quintessência e sequer uma só essência. O fascismo era um totalitarismo fuzzy[1]. O fascismo não era uma ideologia monolítica, mas antes uma colagem de diversas ideais políticas e filosóficas, uma colmeia de contradições. É possível conceber um movimento totalitário que consiga juntar monarquia e revolução, exército real e milícia pessoal de Mussolini, os privilégios concedidos à Igreja e uma educação estatal que exaltava a violência e o livre mercado?

O partido fascista nasceu proclamando sua nova ordem revolucionária, mas era financiado pelos proprietários de terras mais conservadores, que esperavam uma contrarrevolução. O fascismo do começo era republicano e sobreviveu durante vinte anos proclamando sua lealdade à família real, permitindo que um “duce” puxasse as cordinhas de um “rei”, a quem ofereceu até o título de “imperador”. Mas quando, em 1943, o rei despediu Mussolini, o partido reapareceu dois meses depois, com a ajuda dos alemães, sob a bandeira de uma república “social”, reciclando sua velha partitura revolucionária, enriquecida de acentuações quase jacobinas.

Existiu apenas uma arquitetura nazista, apenas uma arte nazista. Se o arquiteto nazista era Albert Speer, não havia lugar para Mies van der Rohe. Da mesma maneira, sob Stalin, se Lamarck tinha razão, não havia lugar para Darwin. Ao contrário, existiram certamente arquitetos fascistas, mas ao lado de seus pseudocoliseus surgiram também os novos edifícios inspirados no moderno racionalismo de Gropius.

Não houve um Zdanov fascista. Na Itália existiam dois importantes prêmios artísticos: o Prêmio Cremona era controlado por um fascista inculto e fanático como Farinacci, que encorajava uma arte propagandista (recordo-me de quadros intitulados Ascoltando all radio un discorso del Duce ou Stati mentali creati dal Fascismo); e o Prêmio Bergamo, patrocinado por um fascista culto e razoavelmente tolerante como Bottai, que protegia a arte pela arte e as novas experiências da arte de vanguarda que, na Alemanha, haviam sido banidas como corruptas, criptocomunistas, contrárias ao Kitsch nibelúngico, o único aceito.

O poeta nacional era D’Annunzio, um dândi que na Alemanha ou na Rússia teria sido colocado diante de um pelotão de fuzilamento. Foi alçado à categoria de vate do regime pro seu nacionalismo e seu culto do heroísmo — com o acréscimo de grandes doses de decadentismo francês.

Tomemos o futurismo. Deveria ter sido considerado um exemplo de entartete Kunst, assim como o expressionismo, o cubismo, o surrealismo. Mas os primeiros futuristas italianos eram nacionalistas, favoreciam por motivos estéticos a participação da Itália na Primeira Guerra Mundial, celebravam a velocidade, a violência, o risco e, de certa maneira, estes aspectos pareciam próximos ao culto fascista da juventude. Quando o fascismo identificou-se com o império romano e redescobriu as tradições rurais, Marinetti (que proclamava que um automóvel era mais belo que a Vitória de Samotrácia e queria inclusive matar o luar) foi nomeado membro da Accademia d’Italia, que tratava o luar com grande respeito.

Muitos dos futuros membros da Resistência, e dos futuros intelectuais do futuro Partido Comunista, foram educados no GUF, a associação fascista dos estudantes universitários, que deveria ser o berço da nova cultura fascista. Esses clubes tornaram-se uma espécie de caldeirão intelectual em que circulavam novas ideias sem nenhum controle ideológico real, não tanto porque os homens de partido fossem tolerantes, mas porque poucos entre eles possuíam os instrumentos intelectuais para controlá-los.

No curso daqueles vinte anos, a poesia dos herméticos representou uma reação ao estilo pomposo do regime: a estes poetas era permitido elaborar seus protestos literários dentro da torre de marfim. O sentimento dos herméticos era exatamente o contrário do culto fascista do otimismo e do heroísmo. O regime tolerava esta distensão evidente, embora socialmente imperceptível, porque não prestava atenção suficiente ao um jargão tão obscuro.

O que não significa que o fascismo italiano fosse tolerante. Gramsci foi mantido na prisão até a morte, Matteotti e os irmãos Rosselli foram assassinados, a liberdade de imprensa suspensa, os sindicatos desmantelados, os dissidentes políticos confinados em ilhas remotas, o poder legislativo tornou-se pura ficção e o executivo (que controlava o judiciário, assim como a mídia) emanava diretamente as novas leis, entre as quais a da defesa da raça (apoio formal italiano ao Holocausto).

A imagem incoerente que descrevi não era devida à tolerância: era um exemplo de desconjuntamento político e ideológico. Mas era um “desconjuntamento ordenado”, uma confusão estruturada. O fascismo não tinha bases filosóficas, mas do ponto de vista emocional era firmemente articulado a alguns arquétipos.

Chegamos agora ao segundo ponto de minha tese. Existiu apenas um nazismo, e não podemos chamar de “nazismo” o falangismo hipercatólico de Franco, pois o nazismo é fundamentalmente pagão, politeísta e anticristão, ou não é nazismo. Ao contrário, pode-se jogar com o fascismo de muitas maneiras, e o nome do jogo não muda. Acontece com a noção de “fascismo” aquilo que, segundo Wittgenstein, acontece com a noção de “jogo”. Um jogo pode ser ou não competitivo, pode envolver uma ou mais pessoas, pode exigir alguma habilidade particular ou nenhuma, pode envolver dinheiro ou não. Os jogos são uma série de atividades diversas que apresentam apenas alguma “semelhança de família”:

1 – 2 – 3 – 4
abc bcd cde def

Suponhamos que exista uma série de grupos políticos. O grupo 1 é caracterizado pelos aspectos abc, o grupo 2, pelos aspectos bcd e assim por diante. 2 é semelhante a 1 na medida em que têm dois aspectos em comum. 3 é semelhante a 2 e 4 e é semelhante a 1 (têm em comum o aspecto c). O caso mais curioso é dado pelo 4, obviamente semelhante a 3 e a 2, mas sem nenhuma característica em comum com 1. Contudo, em virtude da ininterrupta série de decrescentes similaridades entre 1 e 4, permanece, por uma espécie de transitoriedade ilusória, um ar de família entre 4 e 1.

O termo “fascismo” adapta-se a tudo porque é possível eliminar de um regime fascista um ou mais aspectos, e ele continuará sempre a ser reconhecido como fascista. Tirem do fascismo o imperialismo e teremos Franco ou Salazar; tirem o colonialismo e teremos o fascismo balcânico. Acrescentem ao fascismo italiano um anticapitalismo radical (que nunca fascinou Mussolini) e teremos Ezra Pound. Acrescentem o culto da mitologia céltica e o misticismo do Graal (completamente estranho ao fascismo oficial) e teremos um dos mais respeitados gurus fascistas, Julios Evola.

A despeito dessa confusão, considero possível indicar uma lista de características típicas daquilo que eu gostaria de chamar de “Ur-Fascismo”, ou “fascismo eterno”. Tais características não podem ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista.

1. A primeira característica de um Ur-Fascismo é o culto da tradição. O tradicionalismo é mais velho que o fascismo. Não somente foi típico do pensamento contra reformista católico depois da Revolução Francesa, mas nasceu no final da idade helenística como uma reação ao racionalismo grego clássico.

Na bacia do Mediterrâneo, povos de religiões diversas (todas aceitas com indulgência pelo Panteon romano) começaram a sonhar com uma revelação recebida na aurora da história humana. Essa revelação permaneceu longo tempo escondida sob o véu de línguas então esquecidas. Havia sido confiada aos hieróglifos egípcios, às runas dos celtas, aos textos sacros, ainda desconhecidos, das religiões asiáticas.

Essa nova cultura tinha que ser sincretista. “Sincretismo” não é somente, como indicam os dicionários, a combinação de formas diversas de crenças ou práticas. Uma combinação assim deve tolerar contradições. Todas as mensagens originais contêm um germe de sabedoria e, quando parecem dizer coisas diferentes ou incompatíveis, é apenas porque todas aludem, alegoricamente, a alguma verdade primitiva.

Como consequência, não pode existir avanço do saber. A verdade já foi anunciada de uma vez por todas, e só podemos continuar a interpretar sua obscura mensagem. É suficiente observar o ideário de qualquer movimento fascista para encontrar os principais pensadores tradicionalistas. A gnose nazista nutria-se de elementos tradicionalistas, sincretistas ocultos.

A mais importante fonte teórica da nova direita italiana Julius Evola, misturava o Graal com os Protocolos dos Sábios de Sião, a alquimia com o Sacro Império Romano. O próprio fato de que, para demonstrar sua abertura mental, a direita italiana tenha recentemente ampliado seu ideário juntando De Maistre, Guenon e Gramsci é uma prova evidente de sincretismo.

Se remexerem nas prateleiras que nas livrarias americanas trazem a indicação “New Age”, irão encontrar até mesmo Santo Agostinho e, que eu saiba, ele não era fascista. Mas o próprio fato de juntar Santo Agostinho e Stonehenge, isto é um sintoma de Ur-Fascismo.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Tanto os fascistas como os nazistas adoravam a tecnologia, enquanto os tradicionalistas em geral recusam a tecnologia como negação dos valores espirituais tradicionais. Contudo, embora o nazismo tivesse orgulho de seus sucessos industriais, seu elogio da modernidade era apenas o aspecto superficial de uma ideologia baseada no “sangue” e na “terra” (Blut und Boden). A recusa do mundo moderno era camuflada como condenação do modo de vida capitalista, mas referia-se principalmente à rejeição do espírito de 1789 (ou 1776, obviamente). O iluminismo, a idade da Razão eram vistos como o início da depravação moderna. Nesse sentido, o Ur-Fascismo pode ser definido como “irracionalismo”.

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas. Da declaração atribuída a Goebbels (“Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola”) ao uso frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais.

4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. O espírito crítico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição.

5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.

6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das características dos fascismos históricos tem sido o apelo às classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários” estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório.

7. Para os que se vêem privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que seu único privilégio é o mais comum de todos: ter nascido em um mesmo país. Esta é a origem do “nacionalismo”. Além disso, os únicos que podem fornecer uma identidade às nações são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão do complô, possivelmente internacional. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir um complô é fazer apelo à xenofobia. Mas o complô tem que vir também do interior: os judeus são, em geral, o melhor objetivo porque oferecem a vantagem de estar, ao mesmo tempo, dentro e fora. Na América, o último exemplo de obsessão pelo complô foi o livro The New World Order, de Pat Robertson.

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. Quando eu era criança ensinavam-me que os ingleses eram o “povo das cinco refeições”: comiam mais frequentemente que os italianos, pobres mas sóbrios. Os judeus são ricos e ajudam-se uns aos outros graças a uma rede secreta de mútua assistência. Os adeptos devem, contudo, estar convencidos de que podem derrotar o inimigo. Assim, graças a um contínuo deslocamento de registro retórico, os inimigos são, ao mesmo tempo, fortes demais e fracos demais. Os fascismos estão condenados a perder suas guerras, pois são constitutivamente incapazes de avaliar com objetividade a força do inimigo.

9. Para o Ur-Fascismo não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente. Contudo, isso traz consigo um complexo de Armagedon: a partir do momento em que os inimigos podem e devem ser derrotados, tem que haver uma batalha final e, em seguida, o movimento assumirá o controle do mundo. Uma solução final semelhante implica uma sucessiva era de paz, uma idade de Ouro que contestaria o princípio da guerra permanente. Nenhum líder fascista conseguiu resolver essa contradição.

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. No curso da história, todos os elitismos aristocráticos e militaristas implicaram o desprezo pelos fracos. O Ur-Fascismo não pode deixar de pregar um “elitismo popular”. Todos os cidadãos pertencem ao melhor povo do mundo, os membros do partido são os melhores cidadãos, todo cidadão pode (ou deve) tornar-se membro do partido. Mas patrícios não podem existir sem plebeus. O líder, que sabem muito em que seu poder não foi obtido por delegação, mas conquistado pela força, sabe também que sua força baseia-se na debilidade das massas, tão fracas que têm necessidade e merecem um “dominador”. No momento em que o grupo é organizado hierarquicamente (segundo um modelo militar), qualquer líder subordinado despreza seus subalternos e cada um deles despreza, por sua vez, os seus subordinados. Tudo isso reforça o sentido de elitismo de massa.

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Em qualquer mitologia, o “herói” é um ser excepcional, mas na ideologia Ur-Fascista o heroísmo é a norma. Este culto do heroísmo é estreitamente ligado ao culto da morte: não é por acaso que o mote dos falangistas era: “Viva la muerte!” À gente normal diz-se que a morte é desagradável, mas é preciso enfrentá-la com dignidade; aos crentes, diz-se que é um modo doloroso de atingir a felicidade sobrenatural. O herói Ur-Fascista, ao contrário, aspira à morte, anunciada como a melhor recompensa para uma vida heroica. O herói Ur-Fascista espera impacientemente pela morte. E sua impaciência, é preciso ressaltar, consegue na maior parte das vezes levar os outros à morte.

12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem do machismo (que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos sexuais não-conformistas, da castidade à homossexualidade). Como o sexo também é um jogo difícil de jogar, o herói Ur-Fascista joga com as armas, que são seu Ersatz fálico: seus jogos de guerra são devidos a uma inveja pênis permanente.

13. O Ur-Fascismo baseia-se em um “populismo qualitativo”. Em uma democracia, os cidadãos gozam de direitos individuais, mas o conjunto de cidadãos só é dotado de impacto político do ponto de vista quantitativo (as decisões da maioria são acatadas). Para o Ur-Fascismo os indivíduos enquanto indivíduos não têm direitos e “o povo” é concebido como uma qualidade, uma entidade monolítica que exprime “a vontade comum”.

Como nenhuma quantidade de seres humanos pode ter uma vontade comum, o líder apresenta-se como seu intérprete. Tendo perdido seu poder de delegar, os cidadãos não agem, são chamados apenas pars pro toto, para assumir o papel de povo. O povo é, assim, apenas uma ficção teatral. Para ter um bom exemplo de populismo qualitativo, não precisamos mais da Piazza Venezia ou do estádio de Nuremberg.

Em nosso futuro desenha-se um populismo qualitativo TV ou internet, no qual a resposta emocional de um grupo selecionado de cidadãos pode ser apresentada e aceita como a “voz do povo”. Em virtude de seu populismo qualitativo, o Ur-Fascismo deve opor-se aos “pútridos” governos parlamentares.

Uma das primeiras frases pronunciadas por Mussolini no Parlamento italiano foi:“Eu poderia ter transformado esta assembleia surda e cinza em um acampamento para meus regimentos”. De fato, ele logo encontrou alojamento melhor para seus regimentos e pouco depois liquidou o Parlamento. Cada vez que um político põe em dúvida a legitimidade do Parlamento por não representar mais a “voz do povo”, pode-se sentir o cheiro de Ur-Fascismo.

14. O Ur-Fascismo fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de Ur-Fascismo são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular.

Depois de indicar os arquétipos possíveis do Ur-Fascismo, permitam-me concluir. Na manhã de 27 de julho de 1943 foi-me dito que, segundo informações lidas na rádio, o fascismo havia caído e Mussolini tinha sido feito prisioneiro. Minha mãe mandou-me comprar o jornal. Fui ao jornaleiro mais próximo e vi que os jornais estavam lá, mas os nomes eram diferentes.

Além disso, depois de uma breve olhada nos títulos, percebi que cada jornal dizia coisas diferentes. Comprei um, ao acaso, e li uma mensagem impressa na primeira página, assinada por cinco ou seis partidos políticos como Democracia Cristã, Partido Comunista, Partido Socialista, Partido de Ação, Partido Liberal. Até aquele momento pensei que só existisse um partido em todas as cidades e que na Itália só existisse, portanto, o Partido Nacional Fascista.

Eu estava descobrindo que, no meu país, podiam existir diversos partidos ao mesmo tempo. E não só isso: como eu era um garoto esperto, logo me dei conta de que era impossível que tantos partidos tivessem aparecido de um dia para o outro. Entendi assim que eles já existiam como organizações clandestinas.

A mensagem celebrava o fim da ditadura e o retorno à liberdade: liberdade de palavra, de imprensa, de associação política. Estas palavras, “liberdade”, “ditadura” — Deus meu —, era a primeira vez em toda a minha vida que eu as lia. Em virtude dessas novas palavras renasci como homem livre ocidental.

Devemos ficar atentos para que o sentido dessas palavras não seja esquecido de novo. O Ur-Fascismo ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis. Seria muito confortável para nós se alguém surgisse na boca de cena do mundo para dizer: “Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas-negras desfilem outra vez pelas praças italianas!”. Ai de mim, a vida não é fácil assim! O Ur-Fascismo pode voltar sob as vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o indicador para cada uma de suas novas formas — a cada dia, em cada lugar do mundo. Cito ainda as palavras de Roosevelt: “Ouso dizer que, se a democracia americana parasse de progredir como uma força viva, buscando dia e noite melhorar, por meios pacíficos, as condições de nossos cidadãos, a força do fascismo cresceria em nosso país” (4 de novembro de 1938). Liberdade, liberação são uma tarefa que não acaba nunca. Que seja este o nosso mote: “Não esqueçam”.

E permitam-me acabar com uma poesia de Franco Fortini:

Sulla spalletta del ponte
Le teste degli impiccati
Nell’acqua della fonte
La bava degli impiccati
Sul lastrico del mercato
Le unghie dei fucilati
Sull’erba secca del prato
I denti dei fucilati Mordere l’aria mordere i sassi
La nostra carne non à più d’uomini
Mordere l’aria mordere i sassi
Il nostro cuore non à più d’uomini.
Ma noi s’è letto negli occhi dei morti
E sulla terra faremo libertà
Ma l’hanno stretta i pugni dei morti
La giustizia che si farà. 

Na amurada da ponte
A cabeça dos enforcados
Na água da fonte
A baba dos enforcados
No calçamento do mercado
As unhas dos fuzilados
Sobre a grama seca do prado
Os dentes dos fuzilados
Morder o ar morder as pedras
Nossa carne não é mais de homens
Morder o ar morder as pedras
Nosso coração não é mais de homens
Mas lemos nos olhos dos mortos
E sobre a terra a liberdade havemos de fazer
Mas estreitaram-na nos punhos os mortos
A justiça que se há de fazer


[1] Usado atualmente em lógica para designar conjuntos “esfumados”, de contornos imprecisos, o termo fuzzy poderia ser traduzido como “esfumado”, “confuso”, “impreciso”, “desfocado”. 

Umberto Eco, O Fascismo Eterno, in: Cinco Escritos Morais, Tradução: Eliana Aguiar, Editora Record, Rio de Janeiro, 2002.



Fascismo tabajara é uma feliz expressão criada pelo cientista político Luiz Werneck Vianna. Fascismo eterno é um conceito do intelectual italiano Umberto Eco e foi tema de uma de suas conferências nos EUA.

Como muita gente nova tem me perguntado o que é o fascismo, resolvi trabalhar um pouco o tema, partindo das características eternas do fascismo para suas manifestações tropicais. A conferência de Umberto Eco acabou resultando num livro de 64 páginas. Ele entende como fascismo esse regime nacionalista, autoritário, que vigorou na Itália e foi derrubado no final da Segunda Guerra.

Quando garoto, Umberto Eco participava de concursos de composições com esse tema: “Devemos morrer pelo glória de Mussolini e o destino imortal da Itália?” Como um garoto esperto, respondia que sim. Eco viu os americanos ocuparem a Itália, Mussolini ser executado e refletiu tantos anos sobre o fascismo que acabou extraindo do regime as suas características que sobrevivem aos tempos.

São 14 traços essenciais e, segundo Eco, não precisam estar todos presentes para definir um regime fascista. É temerário condensá-los num curto artigo e apontar sua manifestação tabajara.

Alguns, no entanto, são tão evidentes que não demandam profundas análises comparativas.

Eco acha que para o fascismo eterno não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. “Logo, o pacifismo é conluio com o inimigo; o pacifismo é mau porque a vida é uma guerra permanente.”

Daqui salto para dois outros traços essenciais: a relação com a cultura e a relação com as armas. Para o fascista, a relação com a cultura também é uma guerra permanente. Daí a célebre expressão atribuída por Eco a Goebbels: “Toda vez que ouço falar de cultura tenho vontade de sacar minha arma.”

No campo das armas, também se desenha um traço essencial do fascismo eterno. O fascismo eterno transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Esta é a origem de seu machismo, que implica desdém pelas mulheres e uma condenação intolerante de hábitos não conformistas, como o homossexualismo.

Para Eco, o herói do fascismo eterno, para quem o sexo é um jogo difícil de jogar, prefere jogar com as armas, um símbolo fálico, e seus jogos de inveja se devem a uma permanente inveja do pênis.

Para aqueles que se veem despojados de qualquer identidade social, o fascismo diz que o único privilégio comum a todos é terem nascido no mesmo país. É a base do nacionalismo extremado. O único elemento que pode conferir identidade é o inimigo.

No fascismo há uma obsessão com a conspiração, sobretudo a internacional. Esse talvez seja um dos traços mais decisivos na nossa política externa. A própria ONU parece ser uma sede de conspiração, assim como a OMS e outros organismos internacionais. O aquecimento global é uma invenção do marxismo globalizante, o corona é um vírus comunista, destinado a enfraquecer os países do Ocidente.

Entre os 14 traços essenciais do fascismo eterno, na concepção de Eco, está também a recusa da modernidade. Escrevi sobre ele, mostrando que a proposta de Bolsonaro na verdade é uma retropia, uma volta a um passado ideal, ordenado e tranquilo, desenhado por Damares, com meninos vestidos de azul, meninas, de rosa.

O fascismo tabajara também defende um tipo de tradição religiosa, na qual a verdade foi revelada e não há espaço para o avanço do saber.

Só que aqui a verdade foi revelada nas profecias evangélicas, segundo as quais Cristo deve retornar ao Oriente Médio, quando Israel recuperar suas terras. É essa profecia que move o governo Bolsonaro a querer mudar para Jerusalém a embaixada brasileira.

O interessante, para finalizar, sem finalizar de fato porque há muito o que comparar ao longo dos traços restantes, o fascismo vê diversidade como um sinal de desacordo. Ele busca o consenso exacerbando no natural medo pela diferença. Seu primeiro apelo é contra os intrusos, logo, por definição tende ao racismo.

Umberto Eco morreu recentemente. Não viu surgir de novo o movimento antifascista. Mas, sobretudo, não pôde incluir um traço ao fascismo eterno que surge aqui como nos Estados Unidos: o fascismo chama de terrorista quem se insurge contra ele.

Artigo publicado no jornal O Globo em 08/06/2020



FASCISMO E SUAS CARACTERÍSTICAS 
(Vários outrores)


Fascismo é uma ideologia política ultranacionalista e autoritária caracterizada por poder ditatorial, repressão da oposição por via da força e forte arregimentação da sociedade e da economia. Embora os partidos e movimentos fascistas apresentem divergências significativas entre si, é possível apontar várias características em comum, entre as quais nacionalismo extremo, desprezo pela democracia eleitoral e pela liberdade política e económica, crença numa hierarquia social natural e no domínio das elites e o desejo de criar uma comunidade do povo em que os interesses individuais sejam subordinados aos interesses da nação. Oposto ao liberalismo, ao marxismo, ao socialismo e ao anarquismo, o fascismo posiciona-se na extrema-direita do espectro político tradicional.
O fascismo defende ser necessária a mobilização da sociedade sob um estado totalitário de partido único para preparar a nação para o conflito armado e responder de forma eficaz às dificuldades económicas. Acreditam que tal estado deva ser comandado por um líder forte, como um ditador ou governo militarista constituído por membros do partido fascista, capaz de forjar a unidade nacional e manter a ordem e estabilidade sociais. O fascismo rejeita a afirmação de que a violência é automaticamente negativa por natureza e acredita que a violência, guerra ou imperialismo são meios pelos quais se pode chegar ao rejuvenescimento da nação. Os fascistas defendem uma economia mista com o principal objetivo de atingir a auto-suficiência económica do país por meio de políticas económicas protecionistas e intervencionistas.
O fascismo ganhou destaque na Europa na primeira metade do século XX.[7] Os primeiros movimentos fascistas surgiram em Itália durante a I Guerra Mundial, tendo-se posteriormente expandido para outros países europeus. Os fascistas viam a I Guerra Mundial como uma revolução que tinha trazido alterações massivas na natureza da guerra, da sociedade, do estado e da tecnologia. O advento da guerra total e da mobilização total da sociedade tinham diluído a distinção entre civis e combatentes, tendo-se desenvolvido uma "cidadania militarista" em que todos os cidadãos estavam envolvidos no esforço militar. A guerra tinha tido como consequência o nascimento de um estado poderoso, capaz de mobilizar milhões de pessoas para a linha da frente e de organizar a produção económica e logística para as sustentar, e com autoridade sem precedentes para intervir nas vidas dos cidadãos. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, que poucos partidos se têm declarado abertamente fascistas. O termo é usado frequentemente de forma pejorativa para descrever opositores políticos. Os partidos contemporâneos de extrema-direita com ideologias semelhantes ou inspirados nos movimentos fascistas do século XX são denominados neofascistas.
Um dos aspectos mais consensuais entre os historiadores é o entendimento de que no fascismo um nacionalismo militante ocupa um lugar de primeiro plano.
Também é largamente aceita a noção de que o fascismo promove um Estado autoritário, tirânico ou totalitário, um dos seus aspectos mais criticados.
Uma definição comum de fascismo se concentra em três grupos de ideias:
As negações fascistas de anti-liberalismo, anti-comunismo, ultraconservadorismo.
Objetivos nacionalistas e autoritários para a criação de uma estrutura econômica regulada para transformar as relações sociais dentro de uma cultura moderna, auto-determinada.
Uma estética política usando simbolismo romântico, mobilização em massa, visão positiva da violência, promoção da masculinidade e da juventude e liderança carismática.
Roger Griffin descreve o fascismo como "um gênero de ideologia política cujo núcleo mítico em suas várias permutações é uma forma palingenética de ultranacionalismo populista".
Griffin descreve a ideologia como tendo três componentes principais: "(i) o mito do renascimento, (ii) populista ultra-nacionalismo e (iii) o mito da decadência". 
O fascismo é "uma forma verdadeiramente revolucionária, anti-liberal, multiclasse, e, em última análise, nacionalista anti-conservadora" construído sobre uma complexa gama de influências teóricas e culturais. 
Ele distingue um período entre-guerras quando se manifestou através de "partidos políticos armados" liderados por elites populistas se opondo ao socialismo e ao liberalismo e prometendo uma política radical para salvar o país da decadência.

Para Umberto Eco, o fascismo se baseia no culto a tradição, a rejeição ao modernismo, o culto à ação pela ação, na comparação forçada entre dissidência e traição, o medo da diferença, o apelo a frustração social, a obsessão pelo golpismo, na alta expectativa quanto a força do adversário, na consideração do pacifismo como envolvimento com o inimigo, o desprezo pelo fraco, a educação para o heroísmo, o patriarcalismo bélico, um populismo seletivo e o uso de novilíngua.

Para Umberto Eco, o fascismo se baseia no culto a tradição, a rejeição ao modernismo, o culto à ação pela ação, na comparação forçada entre dissidência e traição, o medo da diferença, o apelo a frustração social, a obsessão pelo golpismo, na alta expectativa quanto a força do adversário, na consideração do pacifismo como envolvimento com o inimigo, o desprezo pelo fraco, a educação para o heroísmo, o patriarcalismo bélico, um populismo seletivo e o uso de novilíngua.


Emilio Gentile descreve o fascismo com os seguintes dez elementos constitutivos:

1. um movimento de massa de adesão multiclasse em que prevalecem, entre os líderes e os militantes, os setores médios, em grande parte, novos na atividade política, organizados como uma milícia partidária, que baseiam sua identidade não em hierarquia social ou origem de classe, mas em um sentido de camaradagem, acredita-se investido de uma missão de regeneração nacional, considera-se em estado de guerra contra adversários políticos e visa conquistar o monopólio do poder político por meio do terror, política parlamentar e acordos com grupos maiores, para criar um novo regime que destrói a democracia parlamentar;

2. uma ideologia "anti-ideológica" e pragmática que se proclama antimaterialista, anti-individualista, antiliberal, antidemocrática, anti-marxista, mas populista e anticapitalista em tendência, se expressando esteticamente mais que, teoricamente, por meio de um novo estilo de política e por mitos, ritos e símbolos, como uma religião leiga projetada para aculturar, socializar e integrar a fé das massas com o objetivo de criar um "Novo Homem";

3. uma cultura fundada no pensamento místico e o no sentido trágico e ativista da vida concebida como a manifestação da vontade de poder, sobre o mito da juventude como artífice da história, e na exaltação da militarização da política como modelo de vida e atividade coletiva;

4. uma concepção totalitária do primado da política, concebida como uma experiência de integração para realizar a fusão do indivíduo e das massas na unidade orgânica e mística da nação como uma comunidade étnica e moral, a adoção de medidas de discriminação e perseguição contra aqueles considerados fora desta comunidade quer como inimigos do regime ou membros de raças consideradas inferiores ou perigosas para a integridade da nação;

5. uma ética civil, fundada em total dedicação à comunidade nacional, sobre a disciplina, a virilidade, a camaradagem e o espírito guerreiro;

6. um Estado de partido único que tem a tarefa de prover a defesa armada do regime, a seleção de seus quadros de direção e organização das massas no interior do estado, em um processo de mobilização permanente de emoção e da fé;

7. um aparato policial que impede, controla e reprime a dissidência e a oposição, mesmo usando o terror organizado;

8. um sistema político organizado pela hierarquia de funções nomeadas a partir do topo e coroado pela figura de "líder", investido com um carisma sagrado, que comanda, dirige e coordena as atividades do partido e do regime;

9. defesa armada do regime, a seleção de seus quadros de direção e organização das massas no interior do estado, em um processo de mobilização permanente de emoção e da fé;

10. organização corporativa da economia que suprime a liberdade sindical, amplia a esfera de intervenção do Estado, e visa alcançar, por princípios de tecnocracia e solidariedade, a colaboração dos "setores produtivos" sob o controle do regime, para alcançar seus objetivos de poder, ainda preservando a propriedade privada e as divisões de classe;

11. uma política externa inspirada no mito do poder nacional e grandeza, com o objetivo de expansão imperialista.


Stanley G. Payne descreve o fascismo em três setores de características:[47]
[A meu ver, Payne descreve o comportamento autoritário (fascistoide) nos EUA, não se preocupando em localizar as características universais a esse tipo de "comportamento ou sistema" (nota acresceentada por esse comentador)].

Ideologia e objetivos

1. "Adoção de uma filosofia idealista, vitalista e voluntarista, normalmente envolvendo a tentativa de realizar uma nova cultura auto-determinada, secular e moderna".

2. "Criação de um novo Estado autoritário nacionalista não baseado em princípios ou modelos tradicionais".

3. "Organização de uma nova estrutura econômica nacional integrada, altamente regulada, multiclasse; seja chamada de corporativista nacional, nacional-socialista, nacional sindicalista".

4. "Avaliação positiva e uso, ou vontade de usar a violência e a guerra".

5. "O objetivo do império, expansão ou uma mudança radical na relação do país com as outras potências".

Negações

1. "Antiliberalismo"

2. "Anticomunismo"

3. "Anticonservacionismo (embora com o entendimento de que grupos fascistas estavam dispostos a realizar alianças temporárias com outros setores, mais comumente com a direita)".

Estilo e organização

1. "Tentativa de mobilização de massas com a militarização das relações políticas e estilo e com o objetivo de uma milícia de massa de partido único".

2. "Ênfase na estrutura estética em encontros, símbolos e liturgia política, enfatizando aspectos emocionais e místicos".

3. "Estresse extremo no princípio masculino e na dominação masculina, enquanto defendendo uma visão fortemente orgânica da sociedade".

4. "Exaltação da juventude acima de outras fases da vida, enfatizando o conflito das gerações, pelo menos, para efetuar a transformação política inicial".

5. "Tendência específica em direção a um estilo autoritário, carismático e pessoal de comando, se o comando for, em certa medida, inicialmente eletivo".

Dessa forma, o fascismo clássico apresenta cinco características: é chauvinista, antiliberal, antidemocrático, antissocialista e anti-operário (antisindicato). Ainda assim, formas do neofascismo podem se apresentar como economicamente liberais.



Etimologia do termo 

O termo italiano fascismo é derivado de fascio, que significa "um feixe de varas", em última análise, vem da palavra latina fasces. Esse era o nome dado às organizações políticas na Itália conhecidas como fasci, grupos semelhantes a guildas ou sindicatos. De acordo com o próprio relato do ditador fascista italiano Benito Mussolini, as Fasces de Ação Revolucionária foram fundadas na Itália em 1915. Em 1919, Mussolini fundou o Fascismo Italiano de Combate em Milão, que se tornou o Partido Fascista Nacional dois anos depois. Os fascistas passaram a associar o termo aos antigos fasces romanos ou fascio littorio, um feixe de varas amarradas em torno de um machado, um antigo símbolo romano da autoridade do magistrado cívico transportado por seus lictores, que poderia ser usado para punição corporal e capital sob seu comando. O simbolismo dos fasces sugeria força por meio da unidade: uma única haste se quebra facilmente, enquanto o feixe é difícil de quebrar. Símbolos semelhantes foram desenvolvidos por diferentes movimentos fascistas: por exemplo, o símbolo da Falange são cinco flechas unidas por um jugo.

Ο ελληνικός όρος 'φασισμός προέρχεται από την ιταλική λέξη fascismo που ετυμολογείται από την λατινική «fasces» (φάσκες, ενικός: fascis, ιταλικά fascio :φάσο) που ονομάζονταν συγκεκριμένο αρχαίο ρωμαϊκό έμβλημα εξουσίας, που απεικόνιζε «ράβδους δεμένες γύρω από έναν πέλεκυ». Η λέξη παραπέμπει στους «littores» (λιτόρες) που ήταν είδος ομάδων σωματοφυλάκων των γερουσιαστών της αρχαίας Ρώμης οι οποίοι διακρίνονταν από μια ράβδο που κρατούσαν και η οποία ήταν το σύμβολο της εξουσίας τους. Οι fasces ήταν σύμβολο της εξουσίας των δικαστών στην αρχαία Ρώμη και συμβόλιζαν την «ισχύν εν τη ενώσει»: μια μόνο ράβδος σπάζει εύκολα, ενώ μια δέσμη πολύ δύσκολα. Οι ράβδοι ήταν δεμένες γύρω από έναν διπλό πέλεκυ που έγινε το σύμβολο του φασισμού. (1, 2).



A RESISTÊNCIA AO FASCISMO TABAJARA

"O triunfo da coalizão de forças heterogêneas na sucessão presidencial contou como uma de suas palavras chave a ideologia do neoliberalismo, por meio da qual atraiu o apoio decidido das elites econômicas, especialmente das financeiras e agrárias, presença dominante no capitalismo brasileiro atual. Com essa marca de batismo, o novo governo nasce em antagonismo com a Constituição, de concepção, em seus traços principais, socialdemocrata. Remover a Carta, considerada como entrave aos seus fins econômicos, tornou-se assim um objetivo estratégico do governo Bolsonaro em seu projeto de capitalismo de estilo vitoriano, endossado por seu ministério, tendo à frente a anacrônica presença do ministro Paulo Guedes", escreve Luiz Werneck Vianna, sociólogo, PUC-Rio.

Eis o artigo.

Soam por toda parte os sinais de perigo e os toques de reunir. Forças malévolas que nos sitiavam, espreitando nossos movimentos e confiantes na pandemia que nos obriga, em defesa da vida, a evitar as manifestações nos espaços públicos, um recurso importante do nosso repertório defensivo, calcularam ter chegado a hora do assalto às nossas posições. Não há por que tergiversar, o risco é real e seu nome é fascismo – tabajara, mas fascismo – que nos ronda desde os anos 1930, derrotado por duas vezes, em 1945 e 1985, mas nunca erradicado, entranhado como está em nossa história de modernização capitalista autoritária.

Fernando Gabeira, em iluminado artigo no Estado de São Paulo na edição de 29 do corrente mês, a rigor um manifesto, bendiz o dom de receber na derradeira fase da sua bela trajetória pessoal a missão de lutar pela democracia. Tal missão a todos, de todas as gerações, é confiada nesse momento difícil em que a sociedade se vê acuada pelo flagelo de uma epidemia letal. Hegel dizia que a escravidão somente era possível quando o bem da vida se punha acima do bem da liberdade. Nosso caso não é tão dramático, mesmo confinados contamos com espaços de liberdade e recursos para uma livre comunicação por meio da internet, conquista civilizatória ao alcance de todos.

Gabeira está consciente disso e dos limites que nos atam diante dos imensos recursos das forças que nos sitiam, mas os homens pensam e criam, e os desafios que nos confrontam exigem imaginação e inventividade. O caso da favela paulista Paraisópolis e de outras comunidades populares nos servem como paradigmas exemplares, a organização por conselhos, por sovietes, formas clássicas presentes em lutas populares, bem celebradas na obra de Hannah Arendt, ensinam caminhos a serem percorridos.

Em suas ações de defesa da vida, ameaçadas pela difusão da epidemia que a todos assola, as comunidades populares têm encontrado o apoio em círculos externos a elas, intelectuais solidários, pessoas e instituições de boa vontade, especialmente na Universidade e nos seus especialistas em saúde pública e técnicas de organização social. Surgem dessas inovações uma trama promissora, ainda em embrião, a combinar a agenda da defesa da vida com a da liberdade, pauta dos intelectuais ameaçados tanto pela pandemia como pela escalada autoritária em curso que tem como alvo o mundo da cultura e seus valores.

Tal descoberta para se impor na vida social depende da manifestação da vontade, muito particularmente da Universidade, que conta em seus quadros com especialistas capazes de levarem a termo a sua difusão mesmo nas circunstâncias adversas em que todos nos encontramos. A propósito, vale lembrar os protestos atuais contra a violência policial na sociedade americana – um caso extremo em que cidadãos se arriscam ao contágio pelo vírus diante da luta por liberdade –, exposta como a nossa à pandemia. Aqui, estamos começando a aprender a nos reunir e deliberar pela internet.

Decerto que a resistência nessa escala minimalista não tem o condão de opor uma linha forte de resistência ao avanço crescente do autoritarismo, embora em si mesma ela represente um reforço possível da sociedade civil e de suas ações. O reduto principal do sistema defensivo da nossa democracia está nas instituições que herdamos da Carta de 88, principal foco do assédio autoritário em suas tentativas cada vez mais intensas no sentido de neutralizá-las e, no limite, erradicá-las.

O poder judiciário, um poder desarmado escorado apenas em sua autoridade moral, somente poderá resistir ao assédio de que é objeto se encontrar sustentação na opinião pública, nas instituições da sociedade civil e nos movimentos sociais que animam a vida popular. Sobretudo na disposição de reiterar aqui o esforço exemplar dos cidadãos americanos nos dias que correm de defesa intransigente dos seus direitos constitucionais.

Para uma defesa eficaz contra os perigos que nos rondam, não basta inventariar os recursos de força com que contamos, morais e organizativos, entre os quais os entes federativos refratários à escalada autoritária que se prepara para um golpe final em nossa democracia. A reunião do nosso sistema de defesa requer imperativamente a capacidade de sobrepor o interesse comum, qual seja o de evitarmos o abismo que se abriria diante de nós se permitirmos a ocupação do nosso país por forças estrangeiras à sua história e às suas tradições de perseguir os fins de uma obra civilizatória. Torna-se necessário também compreender a que aspiram as forças que nos antagonizam e a lógica que organiza sua movimentação.

O triunfo da coalizão de forças heterogêneas na sucessão presidencial contou como uma de suas palavras chave a ideologia do neoliberalismo, por meio da qual atraiu o apoio decidido das elites econômicas, especialmente das financeiras e agrárias, presença dominante no capitalismo brasileiro atual. Com essa marca de batismo, o novo governo nasce em antagonismo com a Constituição, de concepção, em seus traços principais, socialdemocrata. Remover a Carta, considerada como entrave aos seus fins econômicos, tornou-se assim um objetivo estratégico do governo Bolsonaro em seu projeto de capitalismo de estilo vitoriano, endossado por seu ministério, tendo à frente a anacrônica presença do ministro Paulo Guedes.

Em razão da arquitetura da Carta, que confiara a defesa dos direitos que criara a uma rede complexa de instituições, ao estilo da Constituição americana e com elementos importados do sistema alemão, a ser sustentada, em última instância, pelo Poder Judiciário, em particular no Supremo Tribunal Federal, o regime Bolsonaro identificou de pronto o inimigo a ser confrontado. O teatro das operações ora em curso estava armado, e a palavra de ordem delenda Cartago com que os romanos preparavam sua guerra de extermínio contra a sua cidade rival pelo domínio do mar Mediterrâneo, encontra sua tradução nos desígnios do atual governo de defenestrar o Poder Judiciário do sistema político, entregue apenas à jurisdição dos conflitos privados.

A vontade do poder, encarnada no chefe da nação, não deve reconhecer obstáculos à sua manifestação, leitura privilegiada dos desígnios de Deus, da pátria e da família. Com pandemia e contra todos os riscos, o que há de melhor em nós, acima de todas as diferenças entre nós, não podemos aceitar isso.

Fonte

Che Guevara: 


Para marcar a data do assassinato de um dos mais importantes revolucionários da história da humanidade, Che Guevara, a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil no Distrito Federal (CTB-DF) exibe a primeira parte do filme Che, do norte-americano Steven Soderbergh, nesta segunda-feira (9), ás 1830, na sede da CTB-DF (SRTVS, quadra 701, Edifício Palácio da Imprensa, Sobreloja, sala 07).



A prisão do líder guerrilheiro na selva da Bolívia e seu assassinato pelo exército boliviano sob as ordens da CIA (agência de espionagem dos Estados Unidos) no dia 9 de outubro de 1967 caiu como uma bomba nas mentes de jovens do mundo inteiro, numa época em que a juventude saia para as ruas contra o patriarcado e sonhava mudar o mundo.

“Fosse de bicicleta, moto, carona, barco ou avião, um detalhe era fundamental para o revolucionário, ele nunca abriu mão de usar botas seguras e confortáveis. Para ele, os sapatos eram um componente importante de um guerrilheiro e os relatos dão conta de que quando foi capturado, estava descalço. Os assassinos de Che cortaram suas mãos para dificultar o reconhecimento do cadáver, sem saber que eram os pés a identidade da lenda”, escreve a jornalista Mariana Serafini, no Portal Vermelho.

Tanto que o mausoléu em sua homenagem, inaugurado em 1997, quando chegaram os restos mortais do guerrilheiro à Cuba, 30 anos após sua execução na Bolívia, já foi visitado por mais de 4,7 milhões de pessoas.

Argentino de nascimento, Che virou cidadão do mundo e um dos maiores heróis da história da humanidade. Morreu com apenas 39 anos, estaria prestes a completar 90 anos. Se transformou num dos mais importantes líderes da Revolução Cubana em 1959, foi ministro do país que adotou de coração, mas não se conteve. Queira espalhar a revolução.

“Ernesto Che Guevara recebeu e enriqueceu essa herança espiritual, e decidiu formar seu caráter para assumir, com os fatos e com a consagração de sua vida, o compromisso que reputou irrenunciável: o de defender com seu enorme talento, valor e virtudes o direito dos pobres de América e a aspiração bolivariana e martiniana de integração moral das pátrias latino-americanas”, diz Armando Hart, importante guerrilheiro cubano.

Nestes tempos bicudos, a lembrança de Che Guevara é essencial para revitalizar a vontade de transformar o mundo em um lugar onde todas as pessoas possam viver e sonhar sem medo de repressão e violências. Como o herói mundial disse: “Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”.





“Vivemos uma época de fascismos derivativos” 
Entrevista especial com Oscar Guardiola-Rivera


Quando nos vemos diante de elementos tais como plágio de discursos de Joseph Goebbels e rompantes totalitários, racistas, machistas, xenofóbicos e homofóbicos, parece não haver dúvida: estamos bem próximos do que conhecemos por fascismo. Mas não o do passado, uma espécie de neofascismo, ou um fascismo do século XXI. Mas, especificamente, do que se trata? Para o filósofo e jurista colombiano Óscar Eduardo Guardiola-Rivera, trata-se de “uma época de fascismos derivativos”. “Emprego o termo ‘derivativo’ aqui em seu sentido capitalista financeiro”, explica. “Um derivativo é algo que pode ser precificado com base no valor de algo mais que permanece subjacente e, como tal, pode ser negociado como uma aposta contra alguém em relação a um preço futuro especulativo”, completa. E, logo, compreende que “as nossas políticas não mais se sustentam com base em contratos sociais e naturais, mas também, ou antes ainda, com base em contratos derivativos”.

Ao longo da entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Guardiola-Rivera se detém a observar como o fascismo, o nazismo e o totalitarismo do passado usaram das imagens para sustentar suas narrativas e como essas práticas vêm se ressignificando no neofascismo. “Versões anteriores do fascismo, o tipo hitleriano e mussoliniano da década de 1930, ou mesmo o tipo das décadas de 1960 e 1970 que conhecemos tão bem no Brasil e noutros lugares das Américas, não são o que conhecemos hoje”, reitera. No entanto, percebe que funcionam não como um cadáver, mas uma espécie de “morto-vivo” que ainda impõe força à sua presença. “Funcionam como aquilo que subjaz, subordinado, que morreu impregnado com o renovado contrato de morte entre o nosso capitalismo atual em crise quase terminal e os teatros da política repletos de espetáculo com uma ‘esfera pública’ moribunda”.

Estudioso da realidade latino-americana, Guardiola-Rivera também analisa os movimentos ao sul do continente em 2019 em perspectiva a esse avanço do “fascismo derivativo” pelo mundo. Aliás, movimentos que podem inspirar saídas ou mesmo revelar resignações. “O Chile e a Colômbia mostram o caminho para os filhos e filhas, especialmente as filhas, despertando dos sonhos dos nossos pais. A Bolívia foi um golpe. Agora está sob uma forte panelinha viciosa, racista, religiosamente fanática. Enquanto isso, os intelectuais falam da pureza das definições”, avalia. Já o caso da Venezuela, para ele, é de um golpe abortado, ainda agravado pelo “risco de uma catástrofe humanitária, como as sanções desumanizantes impostas pelos EUA aprofundam as condições que já podem estar havendo”. “As Américas estão em chamas neste momento. Uma tentativa de traçar uma nova linha global. É um tempo de conflitos”, resume.

Oscar Guardiola-Rivera (Foto: Renegadeinc)

Óscar Eduardo Guardiola-Rivera é filósofo, jurista e escritor colombiano crítico da globalização e do colonialismo. Seu livro “Si Latinoamérica gobernase el mundo” (RBA Libros, 2012) ganhou o Prêmio Frantz Fanon em 2010, quando da publicação das primeiras edições.

Atualmente é professor de filosofia política, estudos latino-americanos, política e direito internacional na Birkbeck College, Universidade de Londres.

Estudou direito na Pontificia Universidad Javeriana e, ainda quando universitário, participou da mobilização estudantil denominada "Sétima cédula" que influenciou especialmente a abertura política, social e institucional a um novo processo constituinte na Colômbia em 1991. É doutor em Filosofia pela Universidade de Aberdeen, na Escócia, onde defendeu uma tese sobre Marx, a consciência e problemas de ética. É colaborador de diversos jornais, entre ele The Guardian e El Espectador.

A entrevista foi publicada originalmente pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, no dia 31-01-2020.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a relação entre o fascismo e as imagens desde a modernidade?

Óscar Eduardo Guardiola-Rivera – Sabemos que os fascistas das décadas de 1930 e 1970 não poderiam ter angariado o apoio que tiveram sem suas imagens e gestos teatrais amplificados por meio das ondas de rádio e televisão. O fascismo é coterminal com a degradação do ser para dentro do ter e, então, para o parecer, motivo pelo qual, longe de ser anticapitalista, ele pareceu se enervar contra o dinheiro e o desejo, ao mesmo tempo que se aproveitou da miséria do desejo provocada entre a classe média, em particular pela percepção dela de que ter mais dinheiro permite desejar as oportunidades de contornar todas as proibições morais impostas à maioria dos que não o têm pela maioria dos que têm quando estes assumiram o poder.

Hoje, as imagens tornaram-se imagens de si mesmas, e os neofascistas são cópias dos fascistas do passado, investindo em formas derivativas do fascismo. Para evitar analogias impróprias entre estes e aqueles, devemos enquadrar as transformações em rádio, imprensa e, especialmente, os dados demográficos da televisão. Em particular, a fragmentação ou “dividuação” (em oposição à individualização, mas mais próximo do fatiamento dos indivíduos por classificação de crédito e outros esquemas de seguro) da massa-público do entretenimento de massa tecnicamente reproduzido ao longo de linhas de classe e estratificação educacional. De modo crucial, isto ficou marcado pela ascensão da programação a cabo e, mais tarde, da mediação social digital, em dança balética com a tribalização política fomentada pelos proprietários oligopolistas de meios de comunicação como Fox News, O Globo ou Facebook.


Hoje, as imagens tornaram-se imagens de si mesmas, e os neofascistas são cópias dos fascistas do passado - Oscar Eduardo Guardiola-Rivera.



As pessoas esquecem que é daí que alguém como Donald J. Trump vem. A sua primeira aparição foi no “Today Show”, com Tom Brokaw, em 1980, trazendo uma versão amansada de si mesmo. Isto já era passado quando ele recebeu o segmento “Mondays with Trump” na Fox & Friends, tornando-se o principal apresentador de O Aprendiz, que ficou 14 anos no ar. Este último antecipou o modus operandi do atual regime [do programa televisivo da MSNBC] “1600 Pennsylvania Avenue”. Paulo Ghiraldelli traçou uma ascensão semelhante no caso de Jair Bolsonaro. Mas a lição é não os classificar como meros idiotas. Eles não são. Os seus gestuais e a imagem da imagem gestual devem ser levados muito a sério.

IHU On-Line – De que forma o fascismo se apropria dos discursos imagéticos para propagar e consolidar seus valores e perspectivas?

Óscar Eduardo Guardiola-Rivera – Do mesmo modo, a imagética é a máscara que permite que os públicos esqueçam as batalhas pelo dinheiro após os beijos e após “ocultar – como se fosse suja – a necessidade de amor e prazer”, conforme observou Pierre Yoyotte. O fenomenólogo latino-americano foi um dos melhores comentadores e críticos do fascismo. O argumento que ele traz é o de que as emoções sobrevivem a partir de máscaras, não de realidades. Sabendo que são incapazes ou não estão dispostos a dar muito em termos de satisfações materiais aos eleitorados potenciais e reais, recorrem ao emocional ou ao tipo falsamente religioso. Este último têm a vantagem de uma “pré-história”. Escondida atrás da letra da lei, uma tal pré-história (de soberanos reais, heróis de guerra e líderes fálicos a gritar com toda a força) domina o presente de forma ainda mais implacável.


A imagética é a máscara que permite que os públicos esqueçam as batalhas pelo dinheiro após os beijos e após “ocultar – como se fosse suja – a necessidade de amor e prazer” 
Oscar Eduardo Guardiola-Rivera.



Walter Benjamin, talvez o crítico e analista mais afiado da imagem entre os séculos, notou isto quando falou a propósito dos escritos de Kafka sobre violência preservadora do direito. Que os fascistas e neofascistas pouco podem dar em termos de bem-estar material é, no entanto, exatamente o ponto central. A igualdade capitalista não é, na realidade, inimiga, de forma alguma, da exaltação histérica das pessoas que temem que, ao escapar do feitiço do ocularcentrismo (cartesiano, colonial) das nossas sociedades de finanças e espetáculos, irão perder tudo. O fato é: este último desconhece a felicidade do pensamento quando este se liberta da dependência de uma ontologia de apego a algo.

Na verdade, trata-se de uma ontologia da anexação por adesão, que também significa que o nosso fascínio pela abominação com a imagem pode remontar até às gravuras e aos mapas feitos sob as convenções da perspectiva linear da Renascença, como os mapas e as crônicas de Américo Vespúcio ou como a gravura que Theodor de Bry fez para o livro “Warhaftige Historia”, de Hans Staden. Para que não nos esqueçamos, este último foi o “livro iluminado” mais popular de sua época na Europa. Kant e outros podem ter baseado os seus escritos geográficos e pedagógicos no poder destas imagens, as quais condenavam os apetites supostamente excessivos e culinários dos homens e mulheres ameríndios, quem, aos olhos dos europeus, eram considerados menos do que humanos ou, em todo caso, infantis. A obra foi também a base para a justificação da guerra e da pilhagem nas Américas, sob observação (quer dizer, visual) puramente “pragmática” e “empírica”. De certo modo, o segundo escolasticismo nos brinda com antecedentes obscuros para as justificações contemporâneas das guerras “híbridas” e dos golpes políticos “suaves”.

IHU On-Line – Quais os desafios para desvelar os discursos fascistas orquestrados através de imagens?

Óscar Eduardo Guardiola-Rivera – Por um lado, para relegar estes recursos retóricos como tolice. Por outro, para acreditar que basta parar de assistir à TV Trump para acordar do sono no sofá. Nada disso funciona. Na verdade, estas coisas não se opõem. Levar a sério tais recursos retóricos não nos torna conformistas ou conservadores. Assim como manter uma distância segura ou irônica da TV Trump e do espetáculo não nos torna progressistas, muito menos um revolucionário.

É por isso que os pseudoargumentos de críticos falsos como Mario Vargas Llosa contra aquilo que ele chama de “sociedades do espetáculo” erram totalmente o alvo (parece que ele não leu os situacionistas, muito embora empregue a terminologia deles; e se leu, pior ainda). Como diz o meu amigo e colega da Birkbeck College Slavoj Žižek, a marca própria da ideologia, hoje, é exatamente a coincidência destes supostos contrários. Eles não são contrários, de forma alguma, mas aspectos da mesma ideologia: a ideologia da não ideologia.



A interseção de tais opostos é o fato de que aqueles que nos abordam com as suas afirmações e notas supostamente não ideológicas não precisam acreditar em seus “valores” e restrições morais. Este não só é o caso de que estes são para os outros, as pessoas que eles consideram ignorantes o suficiente para precisar de espetáculo e salvação do espetáculo. Mas também, ou antes, eles podem sempre suspender ou contornar a confiança destas pessoas em tais valores e costumes. O dinheiro oferece tantas oportunidades de desejo como a abundância de oportunidades que frequentemente se sobrepõe às restrições morais. Para dizer nos termos de um famoso pregador, ou pastor, episcopaliano: “Não acredito; tenho fé”. Apenas que o objeto real da fé não é o Filho – Jesus, o judeu que ficou ao lado dos pobres contra o império –, mas o Pai vingativo e zangado ou, mais precisamente, o dinheiro (Mamom, para os antigos).
Deus dinheiro

É evidente que Deus não está morto. Ele simplesmente se transformou em dinheiro, que é um “equivalente universal”. Isto é, a imagem de uma imagem capaz de transformar tudo e todos em uma imagem deles mesmos. De novo, aqui reside a raiz daquilo que a imprensa e o pseudojudiciário (falso exatamente porque também não é independente) chamam, moralizando-o, de “corrupção”. Prefiro evitar a moralização da política, tanto quanto evito a sua estetização. Não é o caso de que as pessoas e os políticos, de direita e esquerda, são corruptos porque carecem de um código básico de ética. Este tipo de visão abstrata da ação corresponde meramente à abstração e ao encerramento da imaginação em nossas sociedades de finanças e do espetáculo. Pelo contrário, é o motor das nossas sociedades atuais – adquirir cada vez mais dinheiro para contornar as proibições morais que nos impusemos sobre nós mesmos e sobre as pessoas – que explica a “corrupção”.


É evidente que Deus não está morto. Ele simplesmente se transformou em dinheiro, que é um “equivalente universal” 
Oscar Eduardo Guardiola-Rivera



É o mesmo negócio de sempre, com o perdão do trocadilho. Isto também explica por que as medidas gradualistas de melhorias da pobreza não bastam. Pois, tão logo colocamos dinheiro no bolso das pessoas, trazendo-as para além de algum (imaginariamente criado) limiar da pobreza, elas agirão conforme o movimento impulsionado daquele mesmo motor. Ou seja, irão querer mais e ser mais como os bilionários que, por causa da riqueza, podem passar por cima das restrições morais. Não estou dizendo que a pobreza não é real. Ela é muito real, e o sofrimento que ela provoca é bastante real. O que digo é, em primeiro lugar, que a pobreza não é só um problema socioeconômico determinado pela privação de dinheiro, mas também um tormento sociopsicológico que tem relação com – mas que deve ser diferenciado do – problema anterior em sua essência e em seus procedimentos.
Cultura do consumo de imagem

Movimentos e partidos progressistas devem se perguntar como lidar com esses dois casos; as soluções para eles não são as mesmas. Na verdade, remediar somente o primeiro pode agravar o segundo. O Partido dos Trabalhadores, no Brasil, está aprendendo esta lição à maneira difícil. Mas não são os únicos. Em segundo lugar, digo que temos testemunhado em nossos dias a transposição dos próprios direitos humanos do reino da mobilização política para o da cultura popular em massa. Esta cultura, que é uma cultura do consumo de imagem, supõe e espera que a proliferação das imagens de agonia e sofrimento levarão as pessoas da apatia à empatia.

Mas esta mesma cultura também diz aos públicos de consumidores de imagens que eles realmente não devem ser culpados por causa da relação que têm com os perpetradores e beneficiários das injustiças do passado ou pelo locus que ocupam em relação aos eventos históricos de pilhagem e genocídio (incluo o tipo cultural, muito embora o direito internacional atual tende a reduzir o significante “genocídio” ao tipo físico). Ela processa a responsabilidade das pessoas em termos de não estarem sendo empáticas ou atenciosas para com os fatos. Aprisiona a responsabilidade ético-política e a possibilidade de corrigir erros históricos nas imagens do noticiário, das classificações e distinções entre as coisas “superflua, ephemera e utilitas” (que são, na verdade, originalmente teológicas, remontáveis à obra de Agostinho).


Temos testemunhado em nossos dias a transposição dos próprios direitos humanos do reino da mobilização política para o da cultura popular em massa - Oscar Eduardo Guardiola-Rivera



Isto nos coloca em rota de colisão com a história. Encerra o futuro assim como encerra a nossa capacidade de memorializar e imaginar modos mais ricos, utópicos ou “eucrônicos”, se me permitem usar este meu neologismo (de eucronia). O incêndio no Museu Nacional de Antropologia, do Rio de Janeiro, os incêndios na Amazônia este ano, o fato de que proprietários de terras no Mato Grosso Sul estão realizando leilões enquanto falamos para comprar armamentos visando armar milícias (ou “paramilitares”, como dizemos na Colômbia) a fim de sair e “caçar” indígenas, o fato de que o mesmo há pouco aconteceu na vizinha Bolívia e tudo o que intelectuais e jornalistas (esquerda, direita, decoloniais, nem tão decoloniais, etc. ad nauseam) puderam fazer foi debater se foi ou não golpe e quem era mais puro no próprio raciocínio do que os outros, são reveladores a respeito do estado em que se encontram os mais pobres em relação à indigência do nosso desejo e da nossa imaginação.

IHU On-Line – Atualmente, vivemos uma ameaça de reedição do fascismo? Por quê? E no que consiste esta ideia de neofascismo?

Óscar Eduardo Guardiola-Rivera – Como dito acima, em vez da reedição do fascismo, vivemos uma época de fascismos derivativos. Emprego o termo “derivativo” aqui em seu sentido capitalista financeiro. Um derivativo é algo que pode ser precificado com base no valor de algo mais que permanece subjacente e, como tal, pode ser negociado como uma aposta contra alguém em relação a um preço futuro especulativo. Um derivativo é um contrato. As nossas políticas não mais se sustentam com base em contratos sociais e naturais, mas também, ou antes ainda, com base em contratos derivativos.

O neofascismo é o mais recente a erguer a sua cara feia. Nesse sentido, não precisamos de fato acreditar em nada do que sua boca de merda fascista jorra aqui ou ali. Podemos acreditar ou não. Podemos acreditar, se formos Luis Alfredo Camacho ou Jeanine Añez – a “presidente” autodeclarada da Bolívia –, ou podemos não acreditar. Uns dizem que Trump, na realidade, não acredita. Outros, como Cornel West, afirmam que Trump é um supremacista branco e não tenho motivos para duvidar do brilhante Doctor West (quem, aliás, apareceu num filme; a saber, The Matrix). Em todo caso, versões anteriores do fascismo, o tipo hitleriano e mussoliniano da década de 1930, ou mesmo o tipo das décadas de 1960 e 1970 que conhecemos tão bem no Brasil e noutros lugares das Américas, não são o que conhecemos hoje. Funcionam como aquilo que subjaz, subordinado, que morreu impregnado com o renovado contrato de morte entre o nosso capitalismo atual em crise quase terminal e os teatros da política repletos de espetáculo com uma “esfera pública” moribunda.


O neofascismo é o mais recente a erguer a sua cara feia. Nesse sentido, não precisamos de fato acreditar em nada do que sua boca de merda fascista jorra aqui ou ali - Oscar Eduardo Guardiola-Rivera

Os situacionistas previram isso, os surrealistas negros, antes deles e Jürgen Habermas depois, entre outros. Nas Américas, eles se apresentam vestidos de terno e gravata (não mais em uniformes verdes e de tons escuros), destacando o não rosto dos âncoras dos noticiários televisivos padronizados e carregando a cruz e a bandeira nacional em lugar da suástica. Estas pessoas não precisam mais apagar a cruz de Jesus nem bombardear estações de rádio, como Pinochet e seus capangas em 1973. Pelo contrário, simplesmente guardam os seus bastões policiais dentro da cruz, segurando nas mãos os Evangelhos enquanto ordenam que a polícia use suas armas e cassetetes para massacrar indígenas e outros “indesejáveis”, e assim o fazem diante da imprensa. Eles sabem que mesmo se o público ou parte dele considerar esta postura “politicamente incorreta” ou mesmo racista e nojenta, muito rapidamente a imprensa e estas pessoas irão esquecer e seguir em frente para a próxima fotografia a mostrar a agonia de outro alguém (normalmente, em algum outro lugar no sul global).
O conforto da distância, os deslocados, os mortos e os desaparecidos

O que significa que nós, como parte do tipo público, podemos permanecer no conforto seguro da nossa distância irônica, olhando para todas estas coisas em nossos aparelhos de TV. Pelo menos até que, por coincidência ou não, acabemos no outro lado. Então, é claro, será tarde demais. Nós colombianos deveríamos saber. Aqui estamos nós. Sete milhões de deslocados. Duzentos mil mortos. Oitenta mil desaparecidos, se não mais, mais do que todas as ditaduras do cone sul juntas. E somente agora alguns de nós começam a despertar do sonho dos nossos pais. De novo, nunca é tarde para começar. Contra Horkheimer, que ensinava que o passado estava acabado, que o sofrimento estava acabado, a nossa relação com a memória e a história é uma relação de incompletude. Os projetos interrompidos do passado podem ser intensificados e reativados precisamente porque a história não acabou, não ainda.


De novo, nunca é tarde para começar. Os projetos interrompidos do passado podem ser intensificados e reativados precisamente porque a história não acabou, não ainda - Oscar Eduardo Guardiola-Rivera



Recorro não à esperança, mas a um princípio-esperança. No sentido forte do termo “princípio”: não só um novo, mas também diferente começo, e um começo capaz de conduzir este princípio à sua futura realização, dando-lhe consistência. Eis uma concepção bastante diferente da imagem, da memória e da história. Devemos ela aos nossos ancestrais ameríndios e aos nossos ancestrais afro-latino-americanos em interlocução com antropólogos como Manuela Carneiro da Cunha ou sociólogos como Orlando Fals Borda e filósofos como Enrique Dussel. Alguns destes estão realizando “viradas estéticas” por si próprios. No sentido das práticas artísticas de pessoas como Oscar Murillo, Carlos Motta, Gabriela Cunha, Marcia Wayna Kambeba e DJ Nkisi. Os sons e as representações performativas deste último nos devolvem a visibilidade que o ocularcentrismo tirou e saqueou.

IHU On-Line – Como analisa o avanço da ultradireita no mundo?

Óscar Eduardo Guardiola-Rivera – Como o momento da maior fraqueza do capitalismo de hoje, que também é o momento do nascimento e renascimento dos sujeitos larvais. O segundo caso, em sua fraqueza aparente (tornada aparente pela imprensa convencional a desaparecer) não apenas sobreviveu aos ataques mais violentos, mas pode transcender a formas econômicas e políticas sem a necessidade de destruição. Recentemente invoquei um dos meus orientadores, o ex-reitor da Birkbeck College e historiador latino-americanista Eric Hobsbawm, quem está entre os pouquíssimos que interpretaram esta figuração fundamental do interesse perene de Karl Marx nas chamadas “formações arcaicas”. Algo do tipo pode surpreender muitos dos “autonomistas” e “decolonialistas” da esquerda desencantada, também não poucos marxistas típicos e, evidentemente, os próprios neofascistas. Todos eles gostam de usar as cartas antimarxistas e antiesquerdistas, exatamente no momento em que o “socialismo” – ou mesmo o “comunismo” – se torna assunto entre as conversas mais uma vez ou pela primeira vez em muitos anos em lugares como os EUA e a Inglaterra.

Não importa o que aconteça nas eleições destes países, esta paisagem diferente que surge não irá embora. Essa é a maneira como o capitalismo aumenta os esforços nas suas apostas remanescentes. Eis como vejo a “ascensão” da ultradireita no mundo. Isso quer dizer que não podemos ignorá-los e não podemos esperar que vão embora porque as nossas estruturas democráticas farão o que devem fazer (impeachment, deliberação, imprensa responsável etc.). As nossas estruturas estão também muito fracas. Cabe a nós intensificar o valor e a importância delas, e o valor e a importância de tudo o que existe. Especialmente aquilo que é, mas não ainda. São os desejos do passado, que servem como significado, contexto e orientação das nossas ações no presente de forma a produzir o futuro diferente.



A resposta ao problema do avanço da alt-right e da ultradireita é nossa, é uma inventio. É preciso criar instituições diferentes e reinventar aquelas que existem em estado de incompletude ou mesmo de fracasso. Nesse caso, então poderemos optar pela “pureza” (ideológica ou não ideológica), como no puro horizontalismo, ou na pura ecologia profunda, ou ainda no puro não extrativismo, ou teremos condição de pedir por uma pureza moral no estilo da esquerda e centro-esquerda “mais santa do que vós”, característico das nossas culturas de destaque, dos direitos humanos e da impunidade. Atitudes assim acabam, quase sempre, levando água aos bastardos. Não existe autoafirmação alguma antes de deliberar com eles. Se formos empregar o termo “negociações” aqui, seria no sentido derridiano: tomar posição. No caso de o leitor não ter percebido, já estamos em guerra. Mas não podemos lutá-la de acordo com as regras deles. Fazer isso seria concordar com a derrota mesmo antes de entrar no campo de batalha.


Já estamos em guerra. Mas não podemos lutá-la de acordo com as regras deles. Fazer isso seria concordar com a derrota mesmo antes de entrar no campo de batalha - Oscar Eduardo Guardiola-Rivera



IHU On-Line – Se as imagens foram importantes para a propagação de ideais fascistas, podemos considerar que as redes sociais e a internet têm papel central nas estratégias da ultradireita?

Óscar Eduardo Guardiola-Rivera – Os casos da Cambridge Analytica (cujas práticas já se normalizaram) e as atuais encarnações da aliança de vigilância conhecida como Five Eyes [1] , bem como aquilo que muitos chamam Condor II nas Américas, lançaram luz suficiente sobre o papel das redes sociais e da internet. Esta última, nas mãos de oligarcas e oligopólios, serve como câmara de eco e para os propósitos de direcionamentos capilares de grandes públicos em nível mundial. A solução, uma vez mais, não é desligar a TV Trump, o Facebook e o Instagram. Mas produzir câmaras de eco por nós próprios, novas ressonâncias sonoras juntamente com cerimoniais e cosmologias diferentes acompanhadas por estados intensificados ou alterados, ou mesmo psicodélicos, de consciência no combate à inconsciência capitalista/colonial.

Por que não? Pesquisas recentes mostram que saturar estruturas cerebrais em altos níveis com neurotransmissores reduz a capacidade delas de regular a atividade de baixo nível. O resultado é uma maior conectividade entre partes diferentes do cérebro. O farmacólogo Robert Carhart-Harris traçou um paralelo entre o controle excessivo de cima para baixo dos processos cognitivos que os agentes psicodélicos interrompem e a influência destrutiva do capitalismo impulsionado pela imagem industrial sobre os ecossistemas cognitivos e planetários. Também, em um congresso realizado recentemente na Europa, Gal Bradbrook, um dos fundadores da Extinction Rebellion, propôs uma ingestão massiva de remédios psicodélicos como um ato de desobediência civil contra o sistema baseado na “escassez, separação e impotência”.


A solução, uma vez mais, não é desligar a TV Trump, o Facebook e o Instagram. Mas produzir câmaras de eco por nós próprios
Oscar Eduardo Guardiola-Rivera


É claro que as crises são questões políticas, econômicas, jurídicas e sistêmico-culturais, e que as soluções devem igualmente ser políticas, econômicas, jurídicas e culturais. Mas a forma como concebemos as soluções e os princípios que podem orientar estas soluções exigem que vejamos que, neste sistema de coordenadas, as coisas não mais recaem em seus supostos lugares próprios. Além disso, que um tal sistema está dentro de nós, em nossa autovitimização constante, acompanhada da autoafirmação do tipo Jordan Peterson.
Mudança de perspectivas e consciência

Se sim, os remédios psicodélicos, as experiências sônicas, os novos cerimoniais, as práticas artísticas são oportunidades para nos ajudar na mudança de nossas perspectivas e consciência. Que tal um ato massivo de obediência como aquele, guiado por nossos mamos [2], nossos palabreros [3] e nossos homens e mulheres médicos aqui nas Américas? Que tal realizarmos eventos como o festival “Nature Loves Courage” [4], transformados através dos nossos rituais, não mais como mera distração ou zona autônoma temporária? O objetivo? Descolonizar a imagem como disse Silvia Rivera.

IHU On-Line – Qual a sua análise do avanço da direita conservadora na América Latina? Existe uma relação mais próxima com a ascensão da ultradireita na Europa ou nos EUA?

Óscar Eduardo Guardiola-Rivera – Na realidade, a ultradireita latino-americana do sul pode ter se inspirado nas ultradireitas do norte global. A filósofa Linda Martin Alcoff publicou certa vez que, apesar de todo este ódio declarado pela comunidade latina, Donald J. Trump foi influenciado e inspirou-se nos “homens fortes” do sul do Rio Bravo. Pessoas como o notório Álvaro Uribe Vélez, da Colômbia. Em troca, Trump e Bannon, com a imensidão dos recursos que têm ao dispor, ajudam, mais certamente, no avanço dos ultraconservadores em nosso meio, de uma maneira que nem sequer ainda conhecemos.

Neste momento, essa ajuda tem sido decisiva nas Américas. Vejamos a Venezuela, a Bolívia e o Brasil. Mas também em uma direção inteiramente diferente no Chile e na Colômbia, mais recentemente. O caso de Álvaro Velez mostra que estas pessoas não são eternas, apenas contingentes, do tipo estátuas de Ramsés à luz do espetáculo, mas com os pés de barro... Estão desmoronando. Vejamos a “Colectiva Feminista en Construcción”, em Porto Rico, no começo deste ano e a “Colectiva Lastesis”, nas ruas do Chile também este ano. O dedo a apontar para o líder fálico, a gritar com toda a força de seus pulmões, revela-lhe aquilo que todos são: imperadores sem roupas.

IHU On-Line – O avanço da direita sobre a América Latina é estratégico no controle geopolítico? Por quê?

Óscar Eduardo Guardiola-Rivera – Porque, durante a última década de meia, a América Latina mostrou que existe uma outra forma de liderar o mundo em direção a um mundo diferente, governar no sentido próprio de “guiar” e “mediar”, ou facilitar, como afirmo em meu livro What if Latin America Ruled the World [E se a América Latina governasse o mundo]. Este livro recebeu todo o tipo de elogio, prêmios e aclamação da crítica na Europa; foi traduzido no todo ou em parte e é uma vergonha que não tenha alcançado o público brasileiro com uma tradução apropriada. Eu adoraria a oportunidade de atualizar as suas teses em termos dos desdobramentos mais recentes aqui, no Brasil e em outros lugares. Pois há, evidentemente, uma lógica estratégica para fazer avançar a ala ultradireitista na América Latina com a finalidade de recuperar o controle sobre o hemisfério ocidental, e domar/conter as iniciativas de integração regional da fronteira sul dos EUA.

Esta lógica é bastante simples: cada um por si, divididos e isolados, os países e povos das Américas perdem-se e se submetem por outros cem anos de alienação exploradora, como Gabriel Garcia Márquez tão bem explorou em sua literatura. Nenhum outro escritor nas Américas alcançou alturas literárias e político-históricas como este. Talvez com a exceção de Chico Buarque, que está dando o seu melhor e que é bem-conhecido por isso. Mas certamente não os escritores do tipo Vargas Llosa, cuja obra empalidece se comparada, não importando os elogios ou títulos reais espanhóis, especificamente quando se trata de suas pretensões político-filosóficas – que são apenas isso, pretensões.

Felizmente, existem pensadores e teóricos atuais muito melhores entre nós. Todos nos ajudam a entender que isto é o controle, mas não no sentido do marionetista e de suas marionetes. Claramente não em sentido antiamericano, ou da teoria da conspiração. Isso é o escopo de uma ficção ruim. Em vez disso, os porquês e para-quês da geopolítica do hemisfério ocidental têm tanto a ver com a política dos “nossos dedos para todos os lados, as nossas digitais em lugar algum” de Washington desde, pelo menos, o auge com Henry Kissinger, quanto com as inclinações das nossas próprias elites que parecem incapazes de coexistir com as regras democráticas ou mesmo existir em seus próprios lugares.
Incapacidade para existir

Inferno, eles parecem incapazes de existir! Existir aqui, quero dizer, em suas próprias rotas históricas cultural e existencialmente criolizadas. Eles parecem querer ser espanhóis, portugueses, ingleses ou americanos, loiros clareados ou brancos mascarados. Nunca ameríndios nem negros, nunca crioulos. Motivo pelo qual o nacionalismo deles é imitação barata, uma outra máscara, simbolizando a “armadilha” da qual Frantz Fanon nos advertia. Querem transar com a esposa do senhor. Pedem pela intervenção do senhor. Clareiam os cabelos, usam máscaras e vão às ruas protestar com a babá negra a reboque, esta carregando o carrinho de bebê, todos do tipo “Poder Femenino”, “Liga Crucenista”, “fascismo nos trópicos”, “Tradição, Família e Propriedade”, “professores antiesquerdistas”, “machões com armas em punho de pinto pequeno”, temendo a castração pelas verdadeiras feministas e devorando os próprios filhos e filhas como uma antropogafia de Saturno. Aquela sobre a qual Gabriel Garcia Márquez escreveu nos anos 1950, quando disse das “posibilidades de la Antropofagia”.


Parecem querer ser espanhóis, portugueses, ingleses ou americanos, loiros clareados ou brancos mascarados. Nunca ameríndios nem negros, nunca crioulos - Oscar Eduardo Guardiola-Rivera



Este tipo de controle não é o da vulgata marxista. É mais a do tipo que Fichte denunciava na Alemanha, quando alertou que as guerras expansionistas tendem ao combate por duas razões: primeiro, para tornar as classes média e outras cúmplices nas vitórias infantis do tipo marciais contra os desejos primários, que dotam o líder fálico e suas hordas ou satisfações místicas com a aparência de um paraíso. Segundo, para distraí-los da carência de satisfações materiais em casa pelo gesto enganador de criar um bode expiatório a um “inimigo da nação” imaginário, interno ou externo. Como o dos “professores comunistas” ou “Leo Di Caprio”. Suely Rolnik está certa: eis o controle no nível da inconsciência capitalista/colonial. O que é, evidentemente, o anverso perverso da pilhagem bem consciente a fim de manter vivas as economias enfermas do norte no norte e no sul, ao mesmo tempo pacificando o sul no norte e o sul no sul. Não sou eu quem diz isso. Mas o próprio Trump.

IHU On-Line – Como analisa o caso brasileiro neste contexto?

Óscar Eduardo Guardiola-Rivera – Esta resposta precisaria de um livro especialmente dedicado a ela, o que eu ficaria feliz de fazer se tivesse a oportunidade. Por enquanto, digamos apenas que o Brasil se tornou a quinta ou sexta maior economia do mundo durante a última década e meia; que Lula, independentemente do que as pessoas pensem de sua “pureza”, foi e ainda é, de acordo com muitos, o político mais popular do mundo, o que é um grande feito numa época de políticos profundamente impopulares; que, se estivéssemos em uma praia em algum lugar do mundo, se olhássemos para baixo veríamos chinelos Havaianas, e se olhássemos para cima, veríamos um avião da Embraer; que os alunos brasileiros de doutorado brilhavam nas universidades inglesas e francesas (eles ainda brilham, com grande sacrifício pessoal); que o BRICS estava prestes a ficar de pé por suas próprias forças, que é aquilo que toda sociedade madura faria; que fui convidado pela Intelligence Squared [empresa de mídia que organiza debates e eventos culturais em todo o mundo] para falar sobre se o próximo capítulo na história do mundo seria escrito pelo Brasil ou pela China (sinto muito, fui um defensor terrível, não acredito em história linear).

Também, que não haveria nenhum Podemos na Espanha e nenhum Corbyn na Inglaterra, nenhum Syriza na Grécia sem as visitas de Costas Douzinas ao Brasil e sem a “inspiração latino-americana”; que há tanto no Brasil que pode ser (a) privatizado, (b) vendido para a oferta mais alta de apostas, (c) saqueado; que o Brasil não é exatamente um país quanto o é um subcontinente; que o Bolsa Família poderia ter sido transformado em um grande experimento em nível nacional na questão dos serviços básicos universais e da Renda Básica Universal, caso o PT tivesse mantido o foco; que este programa tirou milhões de pessoas da linha da pobreza – o que é um evento a entrar para a história –, mas depois não pensou o dia seguinte; que, mais uma vez, confundimos a miséria econômica com a miséria do desejo, e assim fazendo acabamos cometendo (o PT, em particular) um erro fundamental.

Ainda, que a esquerda brasileira, como um todo, caiu na armadilha da esquerda “mais santa do que vós” e no horizontalismo e desencantamento no primeiro sinal de fracasso ou carência; que, por causa de tudo isso acima e apesar da minha hipérbole, o Brasil não é um caso singular, mas em sua especificidade faz parte do quadro mais amplo descrito acima. Que, por causa disso tudo, os brasileiros têm tudo para evitar cair no buraco negro ético e político em que nós colombianos caímos. Que os brasileiros podem agir assim. Que não é tarde demais. Nunca é tarde. Pois ninguém conhece o final da história antes de ele acontecer.


A esquerda brasileira, como um todo, caiu na armadilha da esquerda “mais santa do que vós” e no horizontalismo e desencantamento no primeiro sinal de fracasso ou carência - Oscar Eduardo Guardiola-Rivera



IHU On-Line – O ano de 2019 foi extremamente intenso na América Latina. Como analisa os cenários do Chile, da Venezuela, do Equador, da Colômbia e da Bolívia?

Óscar Eduardo Guardiola-Rivera – O Chile e a Colômbia mostram o caminho para os filhos e filhas, especialmente as filhas, despertando dos sonhos dos nossos pais. A Bolívia foi um golpe. Agora está sob uma forte panelinha viciosa, racista, religiosamente fanática. Enquanto isso, os intelectuais falam da pureza das definições. A Venezuela passou por um golpe (abortado), mas o risco de uma catástrofe humanitária, como as sanções desumanizantes impostas pelos EUA aprofundam as condições que já podem estar havendo, permanece tão real quanto a dignidade dos que permaneceram e dos que saíram. As Américas estão em chamas neste momento. Uma tentativa de traçar uma nova linha global. É um tempo de conflitos.

As Américas estão em chamas neste momento. Uma tentativa de traçar uma nova linha global. É um tempo de conflitos 
Oscar Eduardo Guardiola-Rivera


IHU On-Line – Como a história da globalização se atualiza hoje na América Latina? E de que forma as novas tecnologias impactam neste novo capítulo na história da globalização?

Óscar Eduardo Guardiola-Rivera – Pode ser uma boa ideia fazer uso do projeto de Enrique Dussel para a destruição da moral formalista e da história da ética, e defender uma “virada estética” no projeto e na mudança decolonial como um todo. Este é o tema de um livro que estou preparando, que é bastante adequado para conectarmos as histórias da globalização atualizadas nas Américas e a questão das chamadas novas tecnologias. Podemos reinterpretar o critério material de Dussel de uma ética da libertação, o corpo vivo, sensível e inteligente, de acordo com esta ideia benjaminiana. Isto é, em termos da conexão do corpo com o tipo de imagética cosmológica evocada na esteira de sua palestra na Universidade de Murcia.

Como um reconhecimento de que, fundado em uma variedade de contrastes (como eu-você, acima-abaixo, leste-oeste, norte-sul), o corpo humano, suas partes e funções, irá aparecer ou vir a estar presente como signos icônicos, não meros símbolos ou imagens de imagens, mas semelhanças prováveis ou imagens verdadeiras (cf. o coração como o lugar do desejo e da iluminação do sol, segundo a analogia “assim na terra como no céu”), que são indicadores de verdade e vetores da memória-habilidade para atos históricos ou eventos.

Isto é extremamente importante para o propósito da nossa investigação sobre as condições da redenção dos erros históricos fora dos contextos dados da cultura popular e do espetáculo em massa. Pois assumir o corpo vivo como paradigmático, um modelo de imagens que fazem justiça histórica às injustiças do passado, é compreender que a memória nunca é uma relação com um passado acabado ou uma história que já findou. Contra Horkheimer, mas também contra a cultura atual dos direitos humanos e da justiça transicional (para os quais “a injustiça passada ocorreu e está acabada”), a história de Dussel, inspirada em Benjamin, não é simplesmente uma narrativa linear, feita e polvilhada, calculável e previsível ou gerenciável de acordo com as convenções da perspectiva linear. É também uma história, forma teatral da memória (Eingedenken); uma rememoração que “pode transformar o inacabado (a felicidade) em algo acabado, e o acabado (o sofrimento) em algo inacabado”, como Benjamin diria (Benjamin, Arcades, n. 8, 1, 471).
Ação para correção de erros históricos

Mas, diferentemente de Benjamin (pelo menos, em sua primeira fase), não necessitamos de teologia para fundamentar uma perspectiva sobre a história como redenção. Podemos pensar a respeito e agir para corrigir os erros históricos do passado como uma opção que pode se redimir no sentido material próprio das nossas práticas financeiras: extraindo um preço do governo e beneficiários atuais das injustiças passadas como um prêmio com o qual apoiar a realização dos desejos passados hoje. As reivindicações históricas inacabadas ou não realizadas do passado funcionam como o elemento subjacente de uma opção que pode ser negociada na atualidade.

Em outras palavras, aos que dizem “as injustiças do passado ocorreram, uma e outra vez; a história está acabada, viremos a página”, podemos responder: “Dizem que a história se repete. Mas a história é uma his-story [história de alguém], e vocês não ouviram a minha ainda”, como Sun Ra diz no vídeo de arte coletiva “Race for Space”, de Soda_Jerk. A reativação de possibilidades e desejos específicos do passado, encarnados nos corpos reais a protestar nas ruas, põe um risco aos mercados de capitais tal que estes logo se prontificariam a pagar para resolver as injustiças históricas, o que pode financiar uma maior justiça aqui e agora, em troca daqueles corpos ou partes deles que não provocam julgamento final ou revolução, pelo menos não por enquanto.

A descrição que faço da justiça histórica, como uma opção, e da política democrática, como negociações, reúne elementos daquilo que Dussel chamaria de teologia da libertação em combate com as chamadas teologias da austeridade e prosperidade, mas não em termos da palavra reveladora de Deus. Antes, ela rearticula esta dimensão reveladora em termos do testemunho e da denúncia da carência em nossas sociedades e instituições atuais (que é o que os defensores dos direitos humanos e as comunidades lutam para ter), combinadas com a visualização de como seria a plenitude nestas sociedades, o que é o que os artistas e líderes comunitários “proféticos” fazem – contadores orais de histórias, palabreros, xamãs etc. –, mas também historiadores imaginativos e cientistas sociais ou teóricos investidos quando escrevem utopias ou retratam outros mundos e uma eucronia alternativa via imagens chocantes.

Nesse sentido, refiro-me a imagens do “mundo de cabeça para baixo” ou performances que deslocam a normalidade espaçotemporal dos espectadores abordando-os como participantes, um outro público diferente daquele que é espectador do espetáculo do consumo, e produzindo um futuro diferente. Estas imagens são mais eficazes quando invocam o modelo do corpo vivo: os desaparecidos, os mortos resistentes, os combatentes da liberdade e os corpos que se unem nas ruas para protestar. Não como simples vítimas com as quais simpatizar, mas como agentes de um curso diferente da história que começa a aparecer nos seus atos sem nenhuma garantia de sucesso ou acabamento. Tais corpos são, como diria Dussel, um modelo.
Corpo como fonte de analogia

Isso não equivale a dizer que o corpo pode ser lido como uma simples metáfora poética ou simplesmente em analogia com o criado em relação com a palavra criativa de Deus. Em nossos tempos, este tipo de poesia tende a ser confuso ou mesmo “demoníaco” se – e quando – enfatiza uma condição generalizada da vitimização. Uma condição como esta traz consigo, com bastante frequência, um olhar eterno ad pessimum – uma perspectiva negativa, um pessimismo existencial. Em vez disso, equivale a dizer que o corpo é a fonte das analogias e um modelo particularmente apto para uma semiótica cósmica ou história universal.

Uma tal semiótica da história pode começar com certos binários analógicos (acima/abaixo, norte/sul, 1%/99%), mas logo parte e encarna em corpos presentes e ausentes que buscam negociações específicas ou determinadas em sociedade (limitações e lacunas ou faltas concretas) que podem se comparar com uma plenitude visualizada ou uma imagem dialética atrativa a fim de unir-se em combate com eles. Esta seria uma imagem capaz de deslocar coordenadas espaçotemporais e de normalidade. Uma imagem dialética retém a distinção entre “verdade” como indelével ou irredutível ao mero capricho humano ou intenção transitória e imagens e discursos “falsos” ou mesmo “demoníacos”. Uma tal distinção pode ser teológica em suas origens ou mesmo cosmológica. No entanto, em termos da virada estética que queremos traçar aqui, o segundo termo designa mais exatamente o tipo de valor ou exibição expositivo (especificamente, a exibição de obras de arte) que funciona como um trabalho corretivo na socialização: venha e brinque com a gente, converse, assista, agite, envolva-se em disputas implacáveis.

Se o cerimonial para um ajuntamento e participação parecer ameaçado em outras esferas (públicas), compensar privilegiando práticas participativas e a coletividade na arte seria um substituto pálido – falso, até mesmo demoníaco. Uma imagem verdadeira em nossas sociedades do espetáculo seria uma imagem capaz de questionar ou, pelo menos, de nos ajudar a fazer um melhor sentido da combinação específica entre os meios de comunicação da reprodutibilidade tecnológica tais como a TV a cabo ou as mídias sociais digitais, e as mudanças na demografia (por exemplo, na fragmentação e na estratificação por classe/formação do entretenimento em massa) e o papel de tais meios (incluindo o formato dos programas de reality show) na promoção de uma visão de mundo implacavelmente hobbesiana e politicamente pessimista. Enquanto isso, esta imagem condensa a sua consciência sobre a atual crise da maneira como juízos, vereditos e pronunciamentos (justos) são alcançados com o preconceito frequentemente inconsciente do nosso imaginário em favor da harmonia contra o conflito, a fim de despertarmos dele.

O preconceito inconsciente do nosso imaginário, buscando anatematizar o conflito, ressoa, mais ou menos de forma secreta, com o sonho (atual, neoliberal) de proibir qualquer outro regime de governo ou ideologia que não aquele atualmente em vigor. O que é reprimido ou negado, hoje, é o conhecimento de que não é tarefa fácil persuadir pessoas concretas de que a escravidão é justa ou que a exploração é agradável. Em vez disso, é melhor acreditarmos que as coisas são simplesmente assim, inevitavelmente, e que é a única maneira que elas podem ser.

Aqui, como em outras ocasiões, a familiaridade de Dussel com a obra de Benjamin e com o escolasticismo tardio é útil. No segundo caso, estão os mestres modernos originais do jogo de cartas da inevitabilidade e do gradualismo, como creio que pode ser visto em suas argumentações relativas à “justiça” da escravidão (africana) e da guerra expansionista que, com razão, servem como os precursores obscuros das nossas justificações atuais das formas “zero-hora” de exploração e golpes políticos “soft”, bem como para a nossa supercompensação da “estética relacional” no mundo da arte e da religião em massa voltadas às exibições assim como o entretenimento.
Imagem dialética

O que uma imagem dialética pode fazer a este respeito? Além de ajudar a melhor compreendermos estas conexões – históricas, econômicas, sociológicas etc. –, uma imagem como esta pode ser um indicativo da verdade. Pelo menos na medida em que pode neutralizar o sentido atual de desorientação e mal-estar sociopolítico. Como? Em primeiro lugar, como dito acima, ajudando-nos a melhor entender o fato de que o nosso sentimento de desorientação é um efeito da percepção gradual de que inexiste um ponto de referência último, nem redenção no final da história, tampouco predestinação.

A experiência que se segue à percepção é vertiginosa – uma experiência de inexistência do fundamento, de nadidade ou “choque do aberto”, como diria Theodor Adorno. Como tal, esta experiência e o sentimento que traz consigo podem estar mascarados ou equivocados. Podem ser cobertos, reembalados, tomados como mais uma commodity na era das commodities-imagens. E são revendidos para nós como um outro ponto de referência final.

Mas transformar a nadidade ou a falta de fundamento em um outro fundamento ulterior é nos sujeitar a um feitiço. O feitiço do imutável. Ele diz: não importa o que fizer, somente será uma gota de água no oceano. Aquilo que é, é inevitável. Não nos preocupemos em tentar. Nada muda. Façamos nada. Desejemos nada. Não é este exatamente o feitiço que os neofascistas e populistas de direita empregam hoje para nos manter acorrentados a um sistema cujos elementos não se encaixam mais? O nome deste feitiço é niilismo. Um desejo assim pela nadidade toma conta de nós. Ele age sempre que sabe que não gostamos da maneira como as coisas são; apenas somos levados a acreditar que esse é o único arranjo viável e porque este é supostamente o único sistema possível de ordem no mundo, devemos querê-lo, escolhendo-o sempre de novo. Caso contrário, seríamos os culpados pelas consequências e merecedores de punição.
Classes média e sua culpa moral

Observemos como, neste caso, uma equivalência de culpa e penitência transfere-se para a sequência de pensamentos e sentimentos, tornando-nos maduros para uma contrarrevolução das emoções e ideais reforçados contra o desejo e ridicularizados pelo dinheiro. Este é especialmente o caso, o estado da situação, para as classes médias sobrecarregadas pela culpa moral e pelo desejo de adquirir mais dinheiro e poder de compra de forma a serem capazes de contornar as proibições morais. Assim como os muito ricos podem fazer. Aí jaz a raiz da nossa corrupção, se é que podemos empregar uma linguagem moralizante. Esta situação é o que precisa ser visto.
A resposta da arte

A função da arte nestas circunstâncias é, precisamente, ver através da situação. Mas essa seria uma arte bastante diferente, uma arte enraizada na classe, uma arte radical, em combate com o chamado quadro de referência que emerge da geometria analítica de Descartes e do sistema de coordenadas dos cosmógrafos imperiais em que todos e tudo teriam o seu lugar próprio; contra o ocularcentrismo cartesiano. Nesse caso, o que uma arte diferente deve fazer através de suas imagens impressionantes é experimentar com as demais formas de desejo e explorar um leque muito mais rico de possibilidades. Mais rico do que aquele que os filósofos (Kant, Hegel e assim por diante) pensavam como possíveis.

Este último tende a reter o ponto de discórdia, o ponto-zero da perspectiva, no sujeito absolutamente ancorado no lado de fora do quadro teórico, e a reter o imutável (objetividade) deste quadro. Através deste enquadramento, dentro dele, tudo é capturado e fica contido. Daí a importância da ideia de imanência, mas também a importância de se questionar uma ênfase exagerada na imanência. Walter Benjamin, para mencionar uma das fontes de inspiração de Dussel, não foi somente um pensador da imanência pura. Foi, como Adorno, um pensador da verdade e transcendência. Para eles e para Dussel, a verdade é para ser encontrada somente no ato que se lança para longe sem um cinto de segurança, sem uma cobertura de suas apostas, à fonds perdu. Assim concebida, a vertigem trazida à existência pelo pensamento e pelo ato (estético e político) que não consegue acabar e fundamentar-se completamente, ou não consegue se reafirmar, é o indicador da verdade.

Um tal ato e a verdade de um tal ato não podem garantir, antecipadamente, as coordenadas da sua presentificação ou realização. É mais como aquilo que, sem cessar, forma a si mesmo. Autopoiético, no sentido dado ao termo pelos biólogos latino-americanos. É também a salvação do empirismo, ou melhor, um empirismo da salvação/resgate. Salvar não é uma questão de pensar sobre o concreto e os detalhes concretos da história. Os atos de salvação performam e filosofam a partir deles, reunindo conceitos em torno, como dizem os críticos.

A famosa asserção de Hegel de que o particular é o universal adquire o seu sentido mais poderoso aqui, na crítica do clichê segundo o qual “a verdade é concreta”, o que muitas vezes está associado a imagens em nossas sociedades do espetáculo. Estas sociedades preferem imagens que apenas comunicam a mensagem da realidade predominante.

Nesse caso então a arte não deve atender à mensagem carregada pelo seu conteúdo. E os artistas não devem desempenhar o papel de preencher as fendas dos vínculos sociais. Isso só duplicaria as apostas dos ricos na sociedade do espetáculo em se tornar uma sociedade dos extras ou, na melhor das hipóteses, dos participantes de um reality show em que cada um repete as tramas pesadamente roteirizadas da interatividade ilusória (ou democracia interativa) em canais ainda mais truncados de comunicação.


A arte não deve atender à mensagem carregada pelo seu conteúdo. E os artistas não devem desempenhar o papel de preencher as fendas dos vínculos sociais - Óscar Eduardo Guardiola-Rivera


O papel e ação da horda

É claro que não há nada interativo em tais tipos de comunicação, que em geral são mais interpassivos. Neles, as pessoas desempenham o papel da horda. E a horda considera como bruxaria tudo o que difere da realidade predominante, como diz Adorno, preferindo, sob o feitiço, a vantagem de todas as coisas familiares, o lar e a segurança. No entanto, o lar e a segurança são precisamente as imagens daquele falso mundo. “As pessoas temem que, ao escapar do feitiço, perderão tudo porque desconhecem a felicidade, nem mesmo a felicidade do pensamento, além da capacidade de se apegar a algo”, observa Adorno. Esta “falta de liberdade em perpetuidade” é o que os neofascistas aproveitam e reinventam (Adorno, [2003] 2008, p. 146).

O que antes o sistema desejava obter para eles, um senso de que tudo recai em seu devido lugar, um pouco de ontologia em meio à crítica deles contra ela, pode ser encontrado somente como o outro qualitativamente na arte (política, de origem de classe) que estamos propondo aqui. Ou seja, dentro de fatos concretos e das ruínas do sistema histórico a desmoronar, indo de uma catástrofe para a próxima. Tudo está ruindo, mas não há nada em sentido do qual ruir. Nesta situação, o risco é crer que tudo é estático, que o fim chegou. Aproveitar-nos deste risco não exige um choque, uma sacudida, como aquela da consciência psicodélica ou do investimento radical dos místicos, profetas e xamãs.

A atual geração de artistas tem menos medo destes estados de consciência e investimento radical, que são incompatíveis com o fechamento atual da imaginação. É evidente que eles e nós seremos acusados de “bruxaria” e de envolvimento em pensamento mágico como o das mulheres romanas e ameríndias. É o líder fálico a gritar a toda força e a sua “base”, a horda, quem nos acusa. A propensão dele pela simplificação é a inverdade; a mesma coisa que fingir ser estúpido. Este esquema tem mercado em nível mundial hoje.
Artista em oposição

Os artistas que se posicionam contra o mercado, contra o império do mercado no mundo da arte, e contra “fingir ser estúpido” combatem o feitiço. Certas práticas artísticas e estratégias estéticas podem forjar uma conceitualização diferente de justiça. Uma conceitualização liberta da determinação histórica sufocante bem como do feitiço do ocularcentrismo (pós-)colonial, ou da ontologia da aparência eterna ad pessimum. Eles não temem escapar do feitiço porque, como os seus irmãos e irmãs que protestam nas ruas, foram roubados de tudo e nada mais têm a perder. Esperam, ao modo de Bertholt Brecht, chocar-nos contra uma visão e uma postura exterior a partir das quais a arbitrariedade e a contingência de qualquer sistema se revelam. Esperam sistematizar a tradição da revolta, exatamente no sentido do qualitativamente outro: uma alteridade social. Como pode estar já aparente para os leitores desta entrevista, acredito que as práticas e os processos artísticos de pessoas como Oscar Murillo e Carlos Motta mais que alcançam esta qualidade: a veracidade.

Esta veracidade – utopia, festa na natureza que ama a coragem, a eucronia – é sempre possível ou alcançável, mesmo não sendo compossível nas atuais condições, mesmo induzindo a uma forma de vertigem existencial. Contra a aparência eterna ad pessimum que é a moeda hoje, essa visão vertiginosa (a visão do outro) focaliza-se nas fendas concretas do sistema em ruínas, não preenchidas. Este olhar é metódico, do tipo detetive. Assim, propusemos também extrair um método para uma ciência do sentido de libertação, a partir da perspectiva analógico-dialética, de contraste, de Dussel, sobre o corpo como organismo vivo, faminto, sedento, forçosamente deslocado, rompido e rompedor, tanto um sistema de sinais quanto aquilo que os sistemas de sinais significam.

IHU On-Line – Qual o papel do Direito, hoje, na consolidação das democracias latino-americanas? Por que é importante que os operadores do Direito saibam identificar estas mensagens e ideais totalitários, fascistas e neofascistas? Como isto pode contribuir para a garantia do Estado democrático de direito?

Óscar Eduardo Guardiola-Rivera – O nosso foco principal no Direito e nas tecnologias jurídicas de negociação estão nas leis escritas e na persuasão retórica, especialmente no caso das chamadas democracias de “consolidação” nas Américas. Mas a “consolidação” e as “culturas dos direitos humanos” agora deram lugar ao lawfare e, talvez por algum tempo já, também ao “imperialismo legalista”. Importa aos operadores jurídicos e alunos de direito, como também os demais participantes do sistema jurídico, que aprendam a identificar e distinguir bem como a ler criticamente as mensagens da alt-right e de grupos neofascistas, porque o que está em jogo é a própria ideia de Estado de direito.

Não nos enganemos: apesar de todas as mensagens em contrário, os neofascistas não fazem justiça, em vez disso eles destroem as instituições. Somos nós que desejamos fazer justiça e que respeitamos o Estado de direito. Proponho que, para alcançar esta mudança de ponto de vista, devemos nós nos educar e educar os nossos operadores da lei bem como os estudantes na arte de ler criticamente as imagens e os emblemas jurídicos uma vez mais. Como? O nosso foco específico deve estar em formar, daqui em diante, a ideia de que o ver vem antes das palavras, que podemos aprender a olhar e reconhecer antes de falar, mas também – e isso é importante – que o ver estabelece o nosso lugar no mundo circundante precisamente através da exploração da recorrência dos ritmos nos padrões e sistemas de um mundo no qual os nossos corpos e tudo mais ressoam uns com os outros. Nesse sentido pelo menos, ver é também ouvir, escutar ondas, e ver é sentir bem como recursivamente refletir. Daí a importância da ideia da inteligência sensorial, lo sentipensante, em nossas explorações.

Apesar de todas as mensagens em contrário, os neofascistas não fazem justiça, em vez disso eles destroem as instituições
Óscar Eduardo Guardiola-Rivera


Afinal, seja audível, seja visual, toda a comunicação é rítmica, como uma dança, em que recebemos e emitimos partículas em forma de ondas, movimentos. Isto são atos, transmitindo e recebendo informação através de formas com e sem voz. Se estes atos não se reduzem a atos de fala (pois podem ser sem voz ou apofáticos), então a força deles não pode ser compreendida unicamente em termos de performance linguística ou força repetitiva das convenções estabelecidas, ou outros pontos de referência pragmático-transcendentais ulteriores.

Em lugar de uma questão de fundamento, de persuasão, a força destes atos reside não simplesmente na capacidade que têm de resolver o nosso comportamento em relação aos padrões das convenções, mas na capacidade deles de nos perturbar. E não somente na capacidade de nos impelir à ação, mas também na capacidade de nos impelir a funcionar como vetores de transição, um vetor intervalar ou um campo vetorial que assinala a direção para cada ponto no espaço, abrindo assim o espaço-tempo entre, digamos, este ponto e um outro, entre o som e o silêncio, ou entre a ausência e a plenitude. Falamos, pois, de um retorno a se fazer presente. Um ato nos produz. E o futuro.
Justiça histórica

Acredito que este insight importa para a questão da justiça em geral, e em particular para a justiça histórica. Isso porque podemos explicar a justiça em geral em termos da distância entre o que está em falta na ordem presente e uma ordenação mais completa por vir, bem como a ressonância no presente entre tal ordenação por vir e ordens normativas existentes. A justiça histórica em particular lida com os erros históricos do passado que continuam no presente e como corrigir tais erros. Conforme mostraram teóricos como Robert Meister, isto requer uma opcionalidade. A justiça histórica é, em si, uma opção que tem valor hoje, muito embora não seja uma opção que se possa exercitar, pelo menos não ainda. Em vez disso, o seu valor ou preço vem a se fazer presente na ressonância entre a possibilidade de se exercitá-lo no futuro e na escolha de não o realizar agora, ou na distância, que age como uma câmara de eco ou amplificador.

A justiça histórica em particular lida com os erros históricos do passado que continuam no presente e como corrigir tais erros - Óscar Eduardo Guardiola-Rivera


Esta distância importa, o intervalo histórico em que uma realidade antecipada, vista ou ouvida, real ou não ainda, vem a estar presente. Em uma sociedade tal como a nossa (uma sociedade do valor expositório, da disposição e da especulação), fazer justiça em ambientes democráticos pode ser melhor compreendido como um projeto de intensificação e realização do valor presente da justiça histórica como uma opção em cenários não revolucionários. Movimentos de protesto e progressistas fazem isto introduzindo um choque no sistema, o risco político de o Estado não restaurar a liquidez para os mercados financeiros, que podem ser precificados e, portanto, segundo Meister, tornam-se o prêmio político disponível para financiar uma maior justiça que se pode extrair para permitir ganhos cumulativos das injustiças passadas visando permanecer, ou postergar, a redistribuição em larga escala por enquanto (Meister, 2011; 2016; 2018).
Diferença

Chamamos esta distância de diferença. A abertura entre a experiência de repressão, falta e exclusão, e a visualização da plenitude por vir, que pode dar às vítimas motivos para exigir a perturbação da ordem estabelecida. A questão crucial para uma política de justiça na área dos direitos humanos, da recolonização e da financialização é o que acontece neste intervalo. Ou, em outras palavras, como domar a diferença protegendo-se, desse modo, contra o risco de que as vítimas ajam radicalmente com base na memória de suas experiências de repressão ou nos sentimentos de falta e anseio por justiça histórica.

Lembremos, no entanto, que sob as atuais configurações dos direitos humanos e da justiça transicional é fundamental que as vítimas sejam vistas como dóceis, carentes, exigentes, sem voz e invisíveis, ou como um sujeito interpassivo. Isso é um indicativo da transposição dos direitos humanos em si a partir do registro da mobilização política (revolucionária) em massa para aquele do espetáculo (interpassivo) na cultura popular mundial. Nessa cultura, a apatia que acabamos sentindo para com a fotografia da agonia e da denúncia sentimental que domina o noticiário e o marketing das ONGs/direitos humanos deveria ser substituída pela empatia, a virtude moralmente induzida para sentir a dor dos outros como a nossa própria dor.

O argumento segue dizendo que se mudassem da apatia para a empatia, os consumidores de tais imagens iriam se responsabilizar pela permissão da ocorrência da vitimização e pelo fato de existirem vítimas. A cultura também lhes assegura que eles mesmos podem não ser diretamente os responsáveis, pois não foram os perpetradores nem eram as vítimas, mas meros espectadores, os quais simplesmente não demonstraram compaixão alguma ou não estiveram atentos aos fatos. Em suma, os consumidores nos mercados (das imagens) dos direitos humanos recebem uma satisfação emocional em oposição a conceder satisfação material aos desejos das vítimas históricas. As vitórias dos direitos humanos são emocionais e neste respeito, pelo menos, são vitórias infantis sobre desejos primários, mas também vitórias que dotam estas emoções e vitórias (como na guerra) com a aparência de paraíso (Meister, 2011:213; Yoyotte, 2009, p. 43).
Vítimas

É assim que, através de um tal deslocamento, as atuais configurações da política e dos direitos humanos conseguiram conter todas as antecipações e desejos afetivos de gerações sucessivas de vítimas. Nesse caso, a questão que os atos estéticos do distanciamento que nossos críticos e artistas põem em prática e conversam a respeito é a de mostrar-lhes sob uma nova luz. Não mais como meras vítimas, mas como a própria encarnação da possibilidade histórica de chocar o sistema. E, como tal, do valor.

Como? Intensificando os seus efeitos anexados às ocorrências e projetos interrompidos do passado, cursos alternativos da história, ainda latentes mas ainda não realizados. O tempo se faz presente como incompleto, um intervalo diferencial. No intervalo, aqueles que sofreram injustiça no passado passam a se ver como uma possibilidade não realizada (a possibilidade de trazer plenitude ao invés de uma falta ou de preenchimento da lacuna). Mesmo se aos olhos dos atuais beneficiários das injustiças passadas eles só podem aparecer com um risco. Fundamentalmente, em nossas sociedades um tal risco pode ser precificado. E as antigas vítimas podem negociar as suas reivindicações históricas como se fossem opções com o Estado e os beneficiários a fim de extrair os prêmios que podem financiar uma maior justiça em troca de se postergar a revolução por enquanto.


As antigas vítimas podem negociar as suas reivindicações históricas como se fossem opções com o Estado e os beneficiários a fim de extrair os prêmios em troca de se postergar a revolução - Óscar Eduardo Guardiola-Rivera


Em outras palavras, o passado como futuro ressoa com o presente e o futuro no passado pode ser ouvido ou visto. Ele ou ela que age (o espectador-agente, não mais um mero observador, digamos um manifestante nas ruas da Colômbia em fins de 2019, um participante em um dos “atos” de Carlos Motta, ou um poeta) não é contemporâneo porque está familiarizado com o passado, pode restaurá-lo ou rejeitá-lo. Em vez disso, é contemporâneo porque existe como o resultado de uma série de ressonâncias nas câmaras de eco da história, movendo-se entre o passado como futuro e o futuro no passado. Este espectador-agente existe como um “resultado dialético” daqueles conjuntos da existência passada, para pôr na linguagem hegeliana do teórico do jazz e filósofo surrealista negro René Ménil. Desse modo, explica ele, ao mesmo tempo o ator ou poeta “é uma negação viva e uma preservação viva de todas as velhas formas culturais. O seu aspecto contemporâneo será de um valor mais amplo e maior por causa do fato de ser uma totalidade do passado”, em ressonância com o futuro.

Pode-se entender isto no sentido de que as tradições culturais refletidas pelo poeta, pelos artistas ou manifestantes não podem servir como um modelo, dado que inexiste um modelo daquilo que ainda não se tornou realidade em existência plena. Ele existirá, entretanto, numa espécie de estado ressonante, vibratório ou ao modo de onda do estado do passado, situando o poeta, o artista ou o manifestante, inflexivelmente, em seu tempo; transforma esta pessoa em um agente moderno numa época moderna, ou perigoso em uma época perigosa. Esta ressonância desbanca as ordens normativas estabelecidas, reorientando elas e a nós. Um choque para o sistema. É muito para a liberdade e para a defesa das liberdades na arte e na política: “diante de nós o futuro, ainda sem forma” (Ménil, 2009, p. 85).
Tradição de revolta

Precisamos fazer mais para sistematizar esta tradição poética de ressonância e deslocamento que é uma tradição de revolta, a qual também acontece de ser uma tradição ética extremamente relevante para as nossas conjunturas atuais dos direitos humanos, espetáculo de imagens e financialização. Precisamos trabalhar mais para descompactar aquilo que se entende por poder de tropos e imagens, vibrações e ressonâncias do tipo relâmpago. Especialmente na sequência que vai dos deslocamentos brechtianos de Benjamin, do choque de sistematização da tradição poética da revolta por negros surrealistas como Ménil ou Simone e Pierre Yoyotte no século XX, até os deslocamentos acumulados no espaço-tempo da pintura, fotografia, do cinema, das paisagens sonoras e performances de artistas como Carlos Motta, Melika Ngombe Kolongo e Oscar Murillo nas Américas de hoje e alhures.

Esta tradição foi passada através dos séculos “pelos poucos rebeldes que contrariaram a invasão monstruosa” da especulação nos altares do dinheiro, como diz Yoyotte. Ela nos insta a olhar para a música, o cinema e as artes visuais fora da indústria do entretenimento não só como uma forma remedial material como também uma terapia de choque com base no conceito de classe para o sistema capaz de se expandir rapidamente às fronteiras entre espaços de exibição e espaços de posição e disposição, para fins de negociação em que os riscos podem ser altíssimos, se não absolutos.
Tradição poética, ética e política

Por meio deste trabalho experimental, descobrimos que esta tradição poética igualmente acontece de ser uma tradição ética e política. Se estes novos casos parecem “limitados” do ponto de vista histórico calculista diante de perversões e violações mais numerosas da dignidade humana, de forma alguma eles são excepcionais. O próprio sucesso do surrealismo, e a obra de pessoas como Yoyotte, Rivera e Dussel, ou Motta e Murillo, tendem a demonstrá-lo. Não devemos esquecer – e isto é importante – do retorno dos rebeldes às ruas das Américas e em outros lugares no fim de 2019.

Começando com uma repressão emocional, “parte ainda pungente da realidade de hoje”, os negros surrealistas, seus sucessores, e os artistas e críticos que vieram depois dirigiram-se imediatamente para a “defesa do desejo”, para a inspiração individual em lugar da aspiração, a soluções e, mais do que isso, a princípios diametralmente opostos ao mussolinismo da época deles e dos fascismos derivativos dos nossos tempos. Em combate com a militarização racista de nossos dias, por valor e justiça como uma opção.

Neste empreendimento, o conceito de destruição dos ideais morais, que pego emprestado de Yoyotte e de Dussel para reinventá-lo na era do espetáculo e das finanças, deveria ser entendido com sensibilidade e inteligência. Como observa Yoyotte, é profundamente contraditório haver uma sociedade sem nenhuma exaltação coletiva ou viver e conformar-se com um senso degradado da importância e do valor de tudo o que existe, a começar pela dignidade humana. Como revolucionário, como alguém que não se apressa a dar voltas para garantir a nossa falsa harmonia, mas sim que olha para o movimento do cosmos na busca de inspiração, eu prefiro a ideia de não apenas uma consciência e uma sociedade toleráveis, mas historicamente saltitantes e ampliadas.

“A ética do futuro não consistirá na supressão das emoções irracionais”, escreve Yoyotte. Concordamos com ele. Em vez disso, devemos aproveitá-las para uma política do desejo no interesse de uma maior justiça, para caminhar de peito erguido e dançar para frente (ao som das fortes vibrações do échos-monde, de Nkisi) em direção a uma história cheia de anseios. A fim de aprender a escutar o que os nossos olhos nos falam sobre os padrões e sistemas de um mundo no qual tudo está em ressonância rítmica, o som pode nos dar de volta a visualidade e a visibilidade que o ocularcentrismo reprimiu, como diz Nkisi.



Notas

[1] Ou “Cinco Olhos”, acordo entre Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos que visou a cooperação entre os centros de inteligência destes países. (Nota do tradutor)

[2] Líderes espirituais altamente treinados do povo indígena da Sierra Nevada de Santa Marta, cadeia montanhosa da Colômbia. (Nota do tradutor)

[3] Figuras centrais na administração da justiça, mediando e negociando conflitos entre diferentes clãs, pessoas ou organizações do povo Wayuu. (Nota do tradutor)

[4] Evento de dois dias que acontece no sul de Creta, um dos pontos europeus mais próximos do continente africano. (Nota do tradutor)

Fonte 




Fontes











https://youtu.be/MnkMC3Cp0PU (Curso antifascista)





(Publicado no Blog 9/I/2021)






Para pensar: “A família do fascismo…”

Considerando o nosso quadro atual no mundo, mas, sobretudo, no Brasil, se a pandemia do século XXI, associada aos pandemônios, exibiu os rostos do ódio e da intolerância e seus usos como dispositivos de controle, não podemos deixar de registrar que o poço de horrores sem fundo exala seus miasmas de há muito em nossa história. 
Somos perpassados, cotidianamente, por enunciados de captura, de aniquilamento e de morte que asfixiam a nossa vivência e as vidas todas, não só as vidas humanas. Não temos mais o privilégio dos lugares de sossego. 

Em uma recente publicação da n-1 edições, na Coleção Pandemia Crítica, Samuel Lima nos diz: 

A fome existe porque o racismo existe. Siamês e da pele escura é esse bebê, gerado no acasalamento incestuoso de outros dos irmãos siameses, o consumo e a escassez. [...]. 

Crianças siamesas, fome e racismo são irmãos gêmeos com um perpetuado proceso de crescimento que se mantém no desnutrido, no raquítico, no mundo onde todas as crianças já 

nascem sentido suas presenças inseparáveis. 

[...] O COVID 19 expôs para quem não quis e ainda não quer ver esse corpo gêmeo nascido da guerra biológica secular. Mais uma vez na história, a humanidade está em extinção, onde o antropocentrismo nega a biodiversidade em favor de toda esa antiga guerra, elaborada na escolha de quem irá ser o corpo do holocausto civil, feita por quem se compromete, de tempos em tempos, com o aumento da lista de abatidos da raça, étnicos, de gênero, classe, de quem não pode ser, ou deve, ser faminto. (LIMA, 2020, n.p) 

O corpo eleito para o holocausto civil é o corpo negro brasileiro. É o corpo que continua sendo torturado: nas prisões, cuja população negra é maioria; nas dependências domésticas; pela negação cultural. O corpo eleito para o holocausto civil é o corpo "índio", teimoso, rejeita "civilizar-se" e por teimar deve ser exterminado. O corpo do holocausto civil é o corpo feminino: alquém pode duvidar do ódio ao feminino quando uma criança de 10 anos é chamada de assassina por optar pelo aborto legal, cuja gestação resultou do estupro?11 Poderíamos encher tantas páginas só com exemplos, tantos são os corpos e desejos abatidos e esquecidos.

SACULUM - Revista de História. v. 25 (n. 43). João Pessoa, p. 09-20, jul./dez. 2020, ISSNe 2317-6725.


Fonte