INÍCIO

08 maio 2020

BLOG NO PINTEREST - COMO COLOCAR O BOTÃO DO PINTEREST NO BLOGGER



BOTÃO DO PINTEREST NO BLOGGER
COMO COLOCAR O ?




ESSA DICA DA ALINE ARRUDA  DEU MUITO CERTO PARA COLOCAR O BOTÃO PINTEREST NO BLOG

VÁ ATÉ O BLOG: ALINE ARRUDA: MODA E BELEZA


DEEM UMA PASSADA LA!






COMO COLOCAR O BOTÃO DO PINTEREST NO BLOGGER?

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SALVE E SAIA 
PRONTO!

ABRA O BLOG EM OUTRA JANELA COMO SE FOSSE UM VISITANTE 
E PASSE O MOUSE EM CIMA DAS FOTOS E TODAS ESTARÃO COM O BOTÃO 
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GLÓRIAS AOS ESQUECIDOS PELO ESTADO


Cancelaram Aldir Blanc 

O “ame-o ou deixe-o”, deixou de ser uma ordem arbitrária para tornar-se uma prática autoritária cotidiana.
John Kennedy Ferreira, sobre a morte do letrista Aldir Blanc (foto destacada) acrescenta: Glória aos que não tem glória

Aldir Blanc

Tornou se comum, especialmente entre os jovens, quando não gostam de uma objeção, ideia ou opinião que vá em direção contrária ao seu ponto de vista, “cancela lá”. 
Isso mesmo, é como se aquilo não existisse, a pessoa a opinião, a ideia… fecha-se assim qualquer possibilidade de debate, qualquer possibilidade de diálogo, estabelece-se na prática a força como argumento.

Isso é válido para grupos de direita, feministas, centro, LGBGTQ+, esquerda e etc.

Encerra se o diálogo. O “ame-o ou deixe-o”, deixou de ser uma ordem arbitrária de uma ditadura para tornar-se uma prática autoritária cotidiana que anda em todos os poros da sociedade.

Faz alguns anos um jovem cantor sertanejo (filho de um famoso cantor sertanejo) capotou o carro em Mina Gerais, estava em alta velocidade, seu estado era grave transferido a um hospital de ponta em São Paulo contou com a aparelhagem mais moderna do planeta, uma equipe de 20 médicos, outros tantos enfermeiros e técnicos altamente capacitados ao custo 100 mil dólares a diária para manter a sua vida. Em frente ao hospital centenas de fãs choravam e oravam; a imprensa fazia plantão e dava boletins diários nos telejornais. Perguntado ao pai sobre o estado de seu filho “está na mão de Deus!”

Conheci Plínio Marcos quando era jovem, sempre ia na Fundação Escola de Sociologia e Política, na Vila Buarque, vender livros. Toda vez q estava sem dinheiro ia na Sociologia, vendia um ou dois livros e ia embora, algumas vezes bebia uma cerveja com os jovens estudantes discutia samba, política, literatura, a vida.

O tropicalista Waly Salomão, um dos maiores poetas do Brasil, vivia no roda viva e outros programas importantes falando de poesia, arte, literatura e cultura, publicou diversos artigos, livros viveu sempre na pindaíba e só teve 1 emprego na vida como assessor do Ministro Gilberto Gil em 2002. Em 2003, um pouco depois de apresentar o projeto de que o livro deveria constar na cesta básica de todo brasileiro, faleceu!

A bailarina e atriz Mariana Porto, que fã e amiga de Aldir Blanc foi umas primeiras a saber de sua doença, ligou pra Deus e o Mundo pedindo dinheiro, indicação e ajuda por um hospital. Sua mobilização, não foi a única, mas somou e gerou um esforço legal: diversas pessoas das artes ou não, se dispuseram a ajudar.

As pessoas e suas artes são maltratadas numa terra em que se ganha dinheiro como aventureiros e proxenetas…o poeta Aldir Blanc foi somente mais um.

Cartola, nosso Mozart, gravou o primeiro disco com 73 anos, antes disso passou por diversos apuros: foi preso, vendedor, mascate, lavador de carro nas ruas do centro do Rio. Tempos depois Marcus Pereira, o produtor que bancou o disco dele (e de outros), se suicidou, não tinha como pagar as contas e o esforço que fez para distribuir os discos de Cartola, Carlos Cachaça, e outros imortais.

Em 2019 artistas e músicos sertanejos foram ao presidente Bolsonaro pedir que fosse tirado de seus shows o direito a meia-entrada para estudantes, pessoas com deficiência e jovens de baixa renda, o presidente agradeceu literalmente emocionado e disse que sempre aprendeu muito com os músicos e as músicas sertanejas e que se esforçaria para ajudar na reivindicação.

Em meio a inundação nos bairros periféricos do Rio, Zeca Pagodinho entregou cestas básicas, em meio a pandemia artistas do hip hop paulista e do samba carioca se juntaram para arrecadar alimentos aos necessitados; noutro extremo, Wesley Safadão descobriu em sua quarentena, no meio de seu hotel fazenda, uma cachoeira. O lendário artista do povo, amigo de Plínio Marcos e Geraldo Filme, mestre da Vai Vai, Pato N’Água achou o esquadrão da morte voltando para seu quartinho de cortiço no Bixiga.

As passistas e baianas da Mangueira ajudam a educar as pessoas sobre o isolamento social em casas onde moram 5 ou 8 pessoas em 2 ou 3 cômodos, Maitê Proença faz live ensinando suas amigas a lavar copos e talheres. Outras artistas tiveram que trocar fraldas de seus bebês pela primeira vez na vida

Walter Benjamim, em sua leitura d’ O Capital observa que há uma expropriação da cultura e do saber popular, o artista e a arte convertidos em valor de uso, a arte e o artista passam e devem produzir em série para um mercado que consome uma música um quadro com a mesma voracidade e paladar que comem um sanduíche num Shopping Center tornando-se assim Valor de troca. A Arte e o artista estão ameaçados no seu existir. São cancelados pela indústria monopolista financeira que visam lucros e mais lucros, a arte tem que ser produzida para uma emoção fugidia que amanhã exigirá outra da mesma “qualidade” tal qual a um rolo de papel higiênico.

Os cantores gospel e sertanejos que tocam no máximo o básico em seus violões e guitarras, não sabem, mas até os meados dos anos de 1950 o instrumento “de massa” aqui e no mundo era a sanfona e o acordeom. Violão e cordas era coisa de bandido, de malandro tal qual ao futebol, a capoeira, o boi e o samba. Coube a João Gilberto universalizar o violão transformando-o em um instrumento comum a todos.

O ano passado João Gilberto morreu e claro, sem ele os Beatles, Jimi Hendrix ou John McLaughlin talvez “demorassem” um pouco mais a surgir. A Secretaria de Cultura do governo federal fez silêncio, Walter Franco e novo silêncio, depois com o vírus…Flávio Migliaccio (o eterno Shazan) , Mores Moreira, Aldir Blanc …e mais silêncio. . Não foi a toa que Shazan disse que a humanidade não deu certo e que seu amigo Lima Duarte comentou que o silêncio “estava lavando as mãos numa bacia de sangue”

O silêncio não é do governo, mas sim daquilo que ele expressa: a indústria monopolista financeira e sua face cultural. Não há interesse que esses nomes sejam lembrados, não interessa que essa cultura ganhe as ruas, os lares ou os bares. Há um bloqueio nas gravadoras, rádios, TVs e noutras mídias. Há um bloqueio e a tentativa de cancelar sua existência.

O sociólogo Marcelo Ridentti lembra em seus estudos sobre a cultura que o que predominou ao longo do século XX foi uma cultura crítica à esquerda, que possibilitou no teatro, literatura, música ou artes plásticas um questionamento do Brasil oficial pelo Brasil real.

Clementina de Jesus, doente de alcoolismo foi internada no Pinel, por sorte sua enfermeira e seu psiquiatra foram Dona Ivone Lara e o craque prezado amigo Afonsinho. O pioneiro do rock brasileiro ex namorado de Janes Joplin, Serguei, viveu seus últimos anos de vida com um salário mínimo cotizados por amigos e pela prefeitura de Saquarema, Tony Tornado salvou-se das cordas da Rua Lavrate (uma cracolândia dos anos 50 e 60) por ter todos os dentes da boca, por Sérgio Mendes. Pixinguinha foi resgatado da miséria por Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Clementina saiu do Pinel e gravou seu disco com Marcus Pereira. Por sua vez Eduardo Costa, entre outros, tem uma coleção de carros super máquinas avaliado em milhões de reais.

O espaço da cultura é também espaço da luta de classe, de um lado os artistas e sua arte, de outro os interesses agrupados em torno do lucro. O capital sabe o que está fazendo, cabe a Arte tomar consciência de seu papel na história

Se Noel Rosa tivesse além da ajuda de Aracy de Almeida, Deus, equipamentos e a equipe médica que cuidou do cantor sertanejo, talvez tivesse escapado da morte. João do Vale precisou do auxílio de seu amigo Chico Buarque para ter dignidade no seu final; Aldir Blanc, contou com João Bosco entre tantos outros para morrer com o mínimo de dor. Todos esses são partes de uma gloriosa luta inglória, “que tem como monumento as pedras pisadas do cais”.





João Bosco e Aldir Blanc


Bibliografia




(Adendo de um leitor: eu pelo menos nunca vi ou presenciei grupos de esquerda ou LGBTQ+, ou feministas tomar essa posição. Sempre vi receptividade e uma tentativa de dialogar. Todavia, não como argumentar quando um lado quer a sua extinção ou aniquilamento total e instantâneo. Nesse caso, não há outra alternativa de cancelar todo e qualquer diálogo com esse grupo).


07 maio 2020

DESIDERIUM

Desejos

Acaso nossos desejos e sonhos não seriam legítimos?

Acaso desejar uma casa com jardim é impossível?
Trabalhamos por mais de 30 anos, de segunda-feira a sexta-feira,
das 07h30 min da manhã as 16h30min da tarde.
E para que?
Para sobreviver apenas.
Quando muito se consegue fazer uma viagem para Europa. E então morremos.
Há alguém que se contente com isso?
Gostaria de ter uma casa com um jardim e uma linda entrada.
Não precisaria term mais do que uma casa com dois quartos, dois banheiros, uma sala, uma cozinha e um estúdio para meus livros e um atelier para fazer minhas obras de gravura e pintura.

Há tanta riqueza no mundo.
Há tantos produtores de riquezas morrendo de fome.
Toda riqueza concentrada na mão de poucos
Eu estudei tanto e ensinei a tantos e em mais de vinte anos, nada mudou.
Não sai de onde comecei.
Sempre soube que jamais ficaria rico dando minha vida pelo bem-estar de outros.
Mas não esperava que o trabalhador ficasse sem aposentadoria.
Sem direitos outrora conquistados com sangue e lagrimas...

Agora já é tarde para mudar não alcançarei esse mundo sonhado por mim.
E agora já é muito tarde para mudar de sonhos...
Vejo em noticiários pessoas cuja bancada da cozinha custou cem mil dólares!
É algo inconcebível que alguém gaste isso por parte de uma cozinha.
Esse valor daria para construir toda uma casa.

Alguns podem pensar que isso é muito. Eu digo não é.
Mas no Brasil de hoje onde vamos encontrar esse sonho de moradia?
Em nenhum lugar.
Nas cidades onde há alguma segurança o preço de uma casa é impraticável.
E nas cidades maiores é impossível.
Levaria umas oito gerações para eu conseguir algum progresso.
É um mundo, muito excludente.

Poderiam dizer que meu sonho é de pequeno burguês, eu penso, o trabalhador não pode sonhar?
Não podemos trabalhar para realizar nosso sonho?
Lá no fundo da minha alma eu ainda consigo imaginar um mundo onde todos tenham o necessário para serem felizes.
Onde todos ganham o suficiente para abrigar sua família dignamente.
Viajar, e realizar seus pequenos e singelos sonhos.

Agora veio a pandemia e os trabalhadores estão morrendo como moscas.
Enquanto os patrões, fechados em seus carros e em suas mansões,
obrigam o trabalhador a entregar
seu maior e único bem, sua vida e seu corpo
para que eles transformem, de maneira vil e mesquinha, esse sangue em ouro. Não, não para ser dividido com o trabalhador que produz toda a riqueza.
Para que essa riqueza vá para seus cofres.
E para que sua família não precise mais trabalhar pelas gerações vindouras...

Não espero e nem almejo o céu.
Esse mundo de espera de um reino de harmonia não é para mim...
Talvez fosse bom quando todos viviam na igualdade de condições...
Não hoje quando eu sei que a pobreza existe e é mantida pelo sistema
Que privilegia uma minoria, exploradora, egoísta, e excludente
enquanto torna todos escravos do capital.
sobrevivendo apenas.
E agora nem isso...

morrendo pelo coronavírus...

pela fome...
pela falta de leitos nos hospitais...
pela falta de respiradores nas UTIs...
pelo abandono do estado.

Eu desejava uma vida melhor
para todos os trabalhadores,
que todos reunidos pudéssemos comemorar o Estado
Um estado acima de todas as mesquinharias e guerras
Gestores comprometidos com o estado de todos
não apenas com aqueles que detém o capital

Eu desejo todos os dias uma casa com jardim.
E borboletas voando entre as flores...


(07/IV/2020)










































CLADOGRAMA DAS RELAÇÕES HUMANAS

SISTEMÁTICA E TAXONOMIA DO AFETO 

CLADOGRAMA DAS RELAÇÕES HUMANAS
Cladograma mostrando as características compartilhadas entre os 
diferentes táxons de sentimentos. 






QUE BOM QUE ERA ENCONTRAR VOCE


Em ti

Que bom que era me encontram com você
Estás longe no tempo
Estarás sob o sol?
Estarás deambulando 
Mas mesmo não sabendo nem imaginando 
que ainda existas entre nós 
ainda assim queria te encontrar


Queria me encontrar com você,
olhar nos teus olhos,
misturar-me ao teu corpo 
e me perder completamente em ti...
me perdendo entre caminhos desconhecidos 
raios dourados de Hélios e a suave luz de Selene
perdidos juntos, nos encontramos na pura proximidade,
i.e., a distância


misturados e distantes
me perder e te encontrar
te perder e ser encontrado 
me encontrar comigo
me achando em ti 
abraçado a ti
um contigo.
que bom que era...
me perder em ti.

(07/IV/2020)

04 maio 2020

A MEDICINA COMO RELIGIÃO: ARTIGO DE GIORGIO AGAMBEN

A MEDICINA COMO RELIGIÃO
Logotipo da WHO (World Health Organization, a Organização Mundial de Saúde.

O bastão com uma única serpente enlaçada, o verdadeiro símbolo da medicina, tem origem grega: é um dos atributos de Asclépio, deus da Medicina, o Esculápio dos romanos. Antes de Asclépio, o bastão com a serpente era um dos atributos de seu pai o deus Apolo, na sua função de provocador e de curador de doenças (Ilíada 1.43-52;455-6).


ARTIGO DE GIORGIO AGAMBEN
Artigo publicado em Intituto Humanitas Unisinos.


"Krisis é originalmente um conceito médico, que designava no corpus hipocrático o momento em que o médico decidia se o paciente sobreviveria à doença. Os teólogos adotaram o termo para indicar o julgamento final que ocorre no último dia. Se se observa o estado de exceção em que estamos vivendo, dir-se-ia que a religião médica conjuga a crise perpétua do capitalismo com a ideia cristã de um tempo final, de um eschaton em que a decisão extrema está sempre em curso e chega ao mesmo tempo precipitada e atrasada, numa tentativa incessante de poder governá-la, sem contudo resolvê-la de uma vez por todas", escreve Giorgio Agamben, filósofo italiano, em artigo publicado por Quodlibet, em 02-05-2020. 
A tradução é de Davi De Conti.
Segundo o filósofo italiano, "é possível que a epidemia que estamos enfrentando seja a realização da guerra civil mundial que, de acordo com os cientistas políticos mais atentos, tomou o lugar das guerras mundiais tradicionais. Todas as nações e povos estão agora em guerra duradoura consigo mesmos, porque o inimigo invisível e elusivo com o qual estão lutando está dentro de nós". Eis o artigo.

A MEDICINA COMO RELIGIÃO

Que a ciência tenha se tornado a religião de nosso tempo, aquilo em que os homens acreditam crer, é há muito tempo evidente. No Ocidente moderno conviveram e em certa medida ainda convivem três grandes sistemas de crença: o cristianismo, o capitalismo e a ciência. Na história da modernidade, essas três “religiões” se cruzaram necessariamente em diversas ocasiões, entrando por vezes em conflito e em seguida se reconciliando de diversos modos, até alcançarem progressivamente uma espécie de pacífica, articulada convivência, quando não uma verdadeira e peculiar colaboração em nome do interesse comum.

O fato novo é que entre a ciência e as outras duas religiões se reacendeu, sem que o notássemos, um conflito subterrâneo e implacável, cujos resultados vitoriosos para a ciência estão hoje diante de nossos olhos e determinam de maneira inaudita todos os aspectos de nossa existência. Esse conflito não diz respeito, como no passado, à teoria e aos princípios gerais, mas, por assim dizer, à práxis cultual. Também a ciência, de fato, como qualquer religião, conhece formas e níveis diversos por meio dos quais organiza e ordena a própria estrutura: à elaboração de uma dogmática sutil e rigorosa corresponde na prática uma esfera cultual extremamente ampla e capilar que coincide com o que chamamos tecnologia.

Não surpreende que o protagonista dessa nova guerra de religião seja aquela parte da ciência em que a dogmática é menos rigorosa e mais forte o aspecto prático: a medicina, cujo objeto imediato é o corpo vivente dos seres humanos.

Tentemos estabelecer os traços essenciais dessa fé vitoriosa com a qual cada vez mais teremos de acertar as contas.

1) O primeiro atributo é que a medicina, como o capitalismo, não necessita de uma dogmática especial, mas se limita a tomar emprestado da biologia os seus conceitos fundamentais. Diferentemente da biologia, contudo, articula esses conceitos em um sentido gnóstico-maniqueísta, quer dizer, conforme uma exasperada oposição dualista.
Existe um deus ou um princípio maligno, a doença, sem dúvida, cujos agentes específicos são as bactérias e os vírus, e um deus ou um princípio benéfico, que não é a saúde, mas a cura, cujos agentes cultuais são os médicos e a terapia.
Como em toda fé gnóstica, os dois princípios são claramente separados, mas na prática podem contaminar-se, e o princípio benéfico e o médico que o representa podem enganar-se e sem se dar conta colaborar com o inimigo, sem que isso invalide de algum modo a realidade do dualismo e a necessidade do culto por meio do qual o princípio benéfico combate a sua batalha.
E é significativo que os teólogos que devem estabelecer a estratégia sejam os representantes de uma ciência, a virologia, que não possui um lugar próprio, mas se situa na fronteira entre a biologia e a medicina.

2) Se essa prática cultual foi até agora, como qualquer liturgia, episódica e limitada no tempo, o fenômeno inesperado a que estamos testemunhando é que ela se tornou permanente e onipresente. Não se trata mais de tomar remédios ou de se submeter quando necessário a uma consulta médica ou a uma intervenção cirúrgica: toda a vida do ser humano deve tornar-se a todo instante o lugar de uma ininterrupta celebração cultual. O inimigo, o vírus, está sempre presente e deve ser combatido incessantemente e sem trégua.
Também a religião cristã conhecia tendências totalitárias similares, mas elas diziam respeito apenas a alguns indivíduos - em particular os monges - que escolheram colocar sua inteira existência sob a bandeira "orai incessantemente". A medicina como religião acolhe esse preceito paulino* e ao mesmo tempo o subverte: onde os monges se reuniam no convento para orarem juntos, a adoração deveria agora ser praticada com a mesma assiduidade, mas mantendo-se separados e a distância.

3) A prática cultual não é mais livre e voluntária, exposta apenas a sanções de ordem espiritual, mas deve tornar-se normativamente obrigatória. O conluio entre religião e poder profano certamente não é um fato novo; totalmente novo é, porém, que não mais se refira, como era o caso para as heresias, à profissão de dogmas, mas exclusivamente à celebração do culto. O poder profano deve estar atento para que a liturgia da religião médica, que coincide agora com toda a vida, seja pontualmente observada nos fatos. Que se trate aqui de uma prática cultual e não de uma exigência científica racional é imediatamente evidente. As doenças cardiovasculares são de longe a causa mais frequente de mortalidade em nosso país e se sabe que elas podem diminuir se um estilo de vida mais saudável for adotado e se uma dieta específica for seguida. Mas nenhum médico jamais pensou que essa forma de vida e nutrição, que eles aconselhavam aos pacientes, passaria a ser objeto de uma normativa jurídica, que decretaria ex lege o que se deve comer e como se deve viver, transformando toda a existência em uma obrigação sanitária.
Exatamente isso foi feito e, ao menos por ora, as pessoas, como se fosse óbvio, aceitaram renunciar à própria liberdade de movimento, ao trabalho, às amizades, aos amores, às relações sociais, às próprias convicções religiosas e políticas.

Avalia-se aqui como as duas outras religiões do Ocidente, a religião de Cristo e a religião do dinheiro, cederam o primado, aparentemente sem combaterem, à medicina e à ciência.
A Igreja renegou seus princípios pura e simplesmente, esquecendo que o santo cujo nome o atual pontífice adotou abraçava os leprosos, que uma das obras de misericórdia era visitar os enfermos, que o sacramento só se pode administrar presencialmente.
O capitalismo por sua vez, embora com alguns protestos, aceitou uma perda de produtividade que nunca ousara considerar, esperando provavelmente alcançar mais tarde um acordo com a nova religião, que neste ponto parece disposta a transigir.

4) A religião médica tomou sem reservas do cristianismo a instância escatológica que este deixara cair. Já o capitalismo, secularizando o paradigma teológico da salvação, havia eliminado a ideia de um fim dos tempos, substituindo-a por um estado de crise permanente, sem redenção ou fim.
Krisis é originalmente um conceito médico, que designava no corpus hipocrático o momento em que o médico decidia se o paciente sobreviveria à doença. Os teólogos adotaram o termo para indicar o julgamento final que ocorre no último dia. Se se observa o estado de exceção em que estamos vivendo, dir-se-ia que a religião médica conjuga a crise perpétua do capitalismo com a ideia cristã de um tempo final, de um eschaton em que a decisão extrema está sempre em curso e chega ao mesmo tempo precipitada e atrasada, numa tentativa incessante de poder governá-la, sem contudo resolvê-la de uma vez por todas. É a religião de um mundo que se sente derradeiro e ainda não é capaz, como o médico hipocrático, de decidir se sobreviverá ou morrerá.

5) Como o capitalismo e diferentemente do cristianismo a religião médica não oferece perspectivas de salvação e redenção.
Pelo contrário, a cura que busca só pode ser temporária, uma vez que o Deus maligno, o vírus, não pode ser eliminado de uma vez por todas, em verdade muda constantemente e assume sempre novas formas, presumivelmente mais perigosas. A epidemia, como sugere a etimologia do termo (demos é em grego o povo como corpo político e polemos epidêmios é em Homero o nome da guerra civil) é acima de tudo um conceito político, que se prepara para tornar-se o novo terreno da política – ou da não política – mundial.
É mesmo possível que a epidemia que estamos enfrentando seja a realização da guerra civil mundial que, de acordo com os cientistas políticos mais atentos, tomou o lugar das guerras mundiais tradicionais. Todas as nações e povos estão agora em guerra duradoura consigo mesmos, porque o inimigo invisível e elusivo com o qual estão lutando está dentro de nós.

Notas de um leitor

*Preceito Paulino: Segundo Paulo de Tarso, a vida cristã é participação na vida de Cristo, como se pode perceber no sintagma paulino “em Cristo”, com suas variantes. Ele indica a nova realidade ontológica daquele que aceita o Cristo em sua existência, e praticamente fornece a chave interpretativa do pensamento do Apóstolo. Os princípios específicos da unidade “em Cristo” derivam do batismo, da Eucaristia e da caridade. Por isso, a inserção “em Cristo” só é real na inserção no corpo da Igreja. Por isso, o sintagma não contém nenhum sentido individualista de união com Cristo... Antes, está intimamente ligado à ideia paulina do “corpo de Cristo”. Comer e beber sacramentalmente o corpo e o sangue de Cristo leva a pessoa a inserir-se “em Cristo”, através do corpo terreno do Ressuscitado e Glorificado que é a Igreja. Finalmente, estar “em Cristo” significa também estar “no Espírito”. Pois, quem está “em Cristo” não está “na carne”, mas “no Espírito”.

Polemos epidêmios: communal war (guerra civil)

("Communal war": Polemos epidêmios and "evil war": polemos kakos)


Ex Lege: por força da lei; trata-se de algo que está sendo realizado dentro da lei, usando as normas da legislação atual como base. Dentro da lei, legalmente, de acordo com a doutrina e a jurisprudência (pertinente aquele assunto). (Ubi societas, ubi jus, no Direito Onde (está) a sociedade aí (está) o direito. De modo geral, as causas correm no foro da comarca onde a sociedade foi estabelecida.)

Maniqueismo: dualismo religioso sincretista que se originou na Pérsia e foi amplamente difundido no Império Romano (séc. III d.C. e IV d.C.), cuja doutrina consistia basicamente em afirmar a existência de um conflito cósmico entre o reino da luz (o Bem) e o das sombras (o Mal), em localizar a matéria e a carne no reino das sombras, e em afirmar que ao homem se impunha o dever de ajudar à vitória do Bem por meio de práticas ascéticas, especialmente evitando a procriação e os alimentos de origem animal.
Por extenção: qualquer visão do mundo que o divide em poderes opostos e incompatíveis. Admitir que os bons sejam sempre bons e os maus sempre maus é uma demonstração de maniqueismo.
Reconhecimento de que a matéria é intrinsecamente má.

Nota II

A experiência de Paulo na primitiva comunidade cristã é de caráter único. Partindo de uma rígida ortodoxia farisaica, o Apóstolo dos gentios experimenta, na visão às portas de Damasco, a dimensão intrínseca do ser eclesial, a sua identificação com o Cristo a quem ele perseguia (Atos 9, 3-5). Esse fato vai marcar profunda e duradouramente a sua teologia. Nunca mais será capaz de olhar para uma comunidade cristã como para um simples agrupamento de pessoas. Lá há algo mais; uma unidade indestrutível, fundamentada na unidade do próprio Cristo. Paulo não vai se cansar de repetir essa lição. Por isso resultam tão dolorosas, para ele, as divisões entre os cristãos; divisões de todos os tipos que ele teve de enfrentar. Primeiramente, na controvérsia entre judaizantes e “modernizantes”; depois na rivalidade entre os diversos pregadores (Apolo, Cefas, o próprio Paulo…); mais tarde, entre carismáticos e não-carismáticos; finalmente, entre escravos e livres.

O princípio fundamental da teologia da unidade no pensamento paulino encontra-se formulado na Epístola aos Gálatas: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gi 3,28). Aqui parecem emergir os problemas concretos das comunidades paulinas: o elitismo judeu contra o espírito de dominação helenístico; a sociedade desigual e escravocrata contra as revoltas libertárias; o machismo alicerçado pela legislação romana contra a conduta extremamente livre das mulheres do patriciado. Diante dessas diferenças aparentes, Paulo indica o único e verdadeiro centro de unidade: Cristo Jesus. Nele, todos são uma coisa só. Quase parece escutar-se aqui o pedido do próprio Jesus: “Que todos sejam uma coisa só!”

(...)

A reconciliação que Paulo propõe não é uma ignorância dos conflitos. As duras palavras com que ele condena, por exemplo, as divisões em Corinto não se referem unicamente à própria divisão, mas também a suas raízes: a soberba de ter sido ensinado por um pregador mais famoso, de ter maior quantidade de bens e permitir-se assim uma refeição mais abundante, de possuir carismas superiores aos dos outros etc.

No nosso tempo, na América Latina, desenvolveu-se, cada vez mais claramente, a consciência de que a raiz da maioria das divisões se encontra na injustiça social, alicerçada no egoísmo humano. A opressão, a marginalização, a exploração impedem a unidade entre opressores e oprimidos, entre marginalizantes e marginalizados, entre exploradores e explorados. Por isso, se queremos verdadeiramente promover a reconciliação entre todos os homens, teremos de empenhar-nos ativamente na libertação de toda injustiça e de toda opressão.

Já Paulo, na Epístola aos Gálatas, enumera, entre as “obras da carne”, “ódio, rixas, ciúmes, ira, discussões, discórdia, divisões, invejas…” (Galatas 5,20). Numa visão semelhante, as Conclusões da 3ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Documento de Puebla) afirmam:

“A uma atitude pessoal de pecado, à ruptura com Deus que degrada o homem, corresponde sempre, no plano das relações interpessoais, a atitude de egoísmo, de orgulho, de ambição e inveja que geram injustiças, dominação e violência em todos os níveis; corresponde à luta entre individuos, grupos, classes sociais e povos, bem como a corrupção, o hedonismo, a exacerbação sexual e a superficialidade nas relações mútuas. Conseqüentemente, estabelecem-se situações de pecado que, em nível mundial, escravizam a tantos homens e condicionam adversamente a liberdade de todos. Temos de nos libertar deste pecado: do pecado que destrói a dignidade humana. Libertarmo-nos participando da vida nova que Jesus Cristo nos traz” (nn. 328-329).

“Surgem dois elementos complementares e inseparáveis: a libertação de todas as servidões do pecado pessoal e social, de tudo o que transvia o homem e a sociedade e tem sua fonte no egoísmo, no mistério da iniqüidade, e a libertação para o crescimento progressivo no ser; pela comunhão com Deus e com os homens, que culmina na perfeita comunhão do céu, onde Deus é tudo em todos e não haverá mais lágrimas” (n. 482).

Crítica Roberto Romano

Desculpem os que admiram tal pensador. Leio seus estudos há tempos. Nunca sai da leitura sem fortes dúvidas sobre seu modo de abordar questões gravíssimas. O tratamento que ele da aos conceitos de Carl Schmitt é no mínimo problemático. Mas no artigo acima ele chegou ao ápice da leveza .
No século XX alguns afirmavam ser o socialismo e o pensamento de Marx, religiões. O símile é tentador mas frágil e fácil em demasia. Agora segundo o articulista a medicina é religião ... maniqueísta.
Olavo de Carvalho e seu séquito aplaudiriam tal maravilha heurística. Nós que lutamos contra o ódio ao saber, pouco temos a comentar. Ademais o autor sempre repete o conceito de estado de exceção e o aplica , como diriam os nossos bons franceses , a tort e a travers. Parafraseando Benveniste ele o usa como embreagem para fazer o discurso ir adiante, subir ladeiras de árduo acesso. Sei bem que na universidade o autor é um ídolo. Mas vivemos em perene crepúsculo dos ídolos... há todo um saber médico , desde os manuscritos hipocrático, bem mais complexo e matizado do que a caricatura feita pelo autor.

O pós-modernismo tem uma forte aderência à ideia do novo e à necropolitica do real... por isso a imensa criatividade na produção de conceitos e na sentença de morte das coisas por meio exclusivo das palavras (morte da esquerda, da ideologia, das classes e muito mais) (Segundo RQM).



Bibliografia























01 maio 2020

ANÁLISE FILOSÓFICA DO NOME DA ROSA

A IMAGEM DO BRASIL






O poder corresponde à habilidade humana de não apenas agir, mas de agir em uníssono, em comum acordo. O poder jamais é propriedade de um indivíduo; pertence apenas a um grupo e existe apenas enquanto o grupo se mantiver unido. Quando dizemos que alguém está no poder, estamos nos referindo na verdade ao fato dessa pessoa encontrar-se investida de poder, por um certo número de pessoas, para atuar em seu nome. (p. 80).

À violência sempre é dado destruir o poder; do cano da arma desponta o domínio mais eficaz, que resulta na perfeita e imediata obediência. O que jamais poderá florescer da violência é o poder. (...). O domínio, através da violência pura vem à baila quando o poder está em vias de ser perdido(...). Resumindo: politicamente falando, é insuficiente dizer não serem o poder e a violência a mesma coisa. O poder e a violência se opõe, onde um domina de forma absoluta, o outro está ausente. (ARENDT apud SOUZA 2013, p. 81).

Os antropólogos se acostumaram a considerar, como característica que lhe é inerente, seu poder de criar um corpo consistente de símbolos, práticas e ritos, valores, crenças e regras de conduta – em outras palavras, um sistema cultural – capaz de responder as situações limites, como o sofrimento e a morte, a ameaça de colapso dos valores morais ou a perda de inteligibilidade da experiência do mundo, em vista das quais se torna necessário ao homem recorrer a um outro mundo para ainda atribuir sentido ao que ocorre nesta vida. (p. 71/2)

O território religioso nacional já enfrentava uma fragmentação, visto que Diversas vertentes religiosas do protestantismo já vinham coexistindo com o catolicismo no Brasil, entretanto, sem danos a centralidade religiosa da igreja católica. Beneficiando-se da lacuna do aspecto individual em conferir respostas e conforto, através da religiosidade, o pentecostalismo o fez. Além disto, alocou na periferia suas bases estruturais – visto que a delimitação espacial destinada às classes populares, como projeto de Estado, apresenta também a precariedade da vida cotidiana e as frustrações e tormentos em decorrência disso. Sobretudo, é necessário mencionar ainda, que a história revela um caminho longo e complexo, onde as periferias brasileiras foram a base estrutural da consolidação religiosa de um evento supranacional. Neste âmbito, é importante ressaltar: 

É somente após a Segunda Guerra Mundial que esse quadro começa a sofrer uma mudança radical, com a erupção de um novo tipo de protestantismo que passa a crescer de uma maneira assombrosa com base nos grupos pentecostais. Sobretudo, graças a ação missionária financiada por igrejas norte-americanas, em especial a International Church of the Foursquare Gospel, no início dos anos 50, um grande empreendimento proselitista teria lugar no Brasil, por meio da Cruzada Nacional de Evangelização. Daí surgiram as igrejas conhecidas como de “cura divina”, como a do Evangelho Quadrangular, o Brasil para Cristo, Deus é amor, Casa da benção e outras que vieram a somar a congregação cristão do Brasil e a Assembléia de Deus, estas fazendo parte do que se conheceria como “pentecostalismo clássico”. Essas novas igrejas pentecostais- que viriam a construir o chamado “pentecostalismo neoclássico” - rapidamente se implantam e passam a ganhar centenas e milhares de adeptos em velocidade crescente, sobretudo, entre as camadas mais modestas da população. (MONTES, 1998, p. 82)




Bibliografia

SOUZA, Marcelle da Silva. O SAGRADO DO PROFANO: PACTOS TERRITORIAIS ENTRE GRUPOS RELIGIOSOS E REDES DE MILÍCIAS, EM MANGUARIBA, RIO DE JANEIRO. Revista Eletrônica História, Natureza e Espaço – ISSN 2317-8361 v. 7, n. 1 (2018) DOI: 10.12957/hne.2018.35711 










E DAÍ SEU JAIR??

O BRASIL DE HOJE 

A IMAGEM DE UM NOVO MUNDO


Dia do trabalho de 2020

SÍMBOLOS

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DICIONÁRIO DE SÍMBOLOS


https://www.dicionariodesimbolos.com.br/

https://www.dicionariodesimbolos.com.br/baphomet/

A IMAGEM DO AMOR


O louco amor

Será que o louco sabe o q é amor? 
Se sabe, não é louco. 
Se não é louco não pode amar (como os loucos amam). 
Como será o amor dos loucos?
Será velado e indizível?
Será visível e explosivo?

O amor em si é indestrutível.
E também pode ser a realidade mais explosiva e arrasadora. 
O amor esta no inicio,
O amor esta no verbo,
Ele esta na palavra.
Está na ideia. 
Assim como a ciência não tem inimigos exceto a ignorância, 
o amor não tem amigos exceto os amantes. 

O inimigo do amor não é o ódio
mas sim outro amor maior
um amor mais destrutivo
e mais inexpugnável 

E mesmo assim, o amor consegue, através do perdão, 
transformar o odiado em alguém amado; e que amanhã pode amar. 
Por isso o amor está no início de tudo
Pois o amor é amanhecer na alma 
e despertar do coração.

(01/V/2020)









A IMAGEM DE NAIR BENEDICTO


A sociedade esta nua 

Nair Benedicto, Fotógrafa
Publicado na Revista ZUM Quarentena em: 30 de abril de 2020

Cemitério de castanheiras, de Nair Benedicto


E de repente… Não! Não foi de repente! Tivemos AVISOS: dos ventos, dos mares, das florestas, dos rios, dos animais e também da espécie humana, via cientistas, psicanalistas, ambientalistas, feministas, músicos, poetas. Tivemos GRITOS: dos indígenas, dos negros, das mulheres, GRITOS da desigualdade que se alargava e aumentava a violência, dia após dia.

No início do ano, vimos os pobres perdendo os raros benefícios conseguidos com muitas lutas e sacrifícios, como aposentadoria e carteira de trabalho, e, simultaneamente, vemos os generosos aumentos concedidos – com a maior cara de pau – às classes privilegiadas de sempre: militares, juízes, políticos. Só os blogs alternativos levantaram questões, entrevistaram economistas, sociólogos, indigenistas e ambientalistas fora do status quo.

Com problemas básicos, como ter dinheiro para ir e voltar do trabalho e comer pelo menos uma vez por dia vivendo em cidades caras, onde a mobilidade não está contemplada, a população foi ficando cada vez mais apática quanto às questões mais distantes dela. Sobreviver se tornou a prioridade!

Dos indígenas, que estão nesta luta há mais de 500 anos, tivemos duas pérolas de literatura: A queda do céu, do Yanomami Davi Kopenawa e Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak. O olhar deles modifica os nossos. É uma benção!

Filmes nacionais e estrangeiros de procedência variada mostram que as pessoas estão se transformando em verdadeiros zumbis: Que horas ela volta? [de Anna Muylaert], Estou me guardando para quando o Carnaval chegar [de Marcelo Gomes], Eu, Daniel Blake e Você não estava aqui [de Ken Loach], Parasita [de Bong Joon-ho], Bacurau [de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles], Nós [de Jordan Peele], e muitos outros.

Serra Pelada , de Nair Benedicto, Amazônia, anos 1980.



Que sociedade era essa? Que família? Que tipo de regime?

Hoje vejo o mundo novo. As grandes cidades vazias. As pessoas sem máscara. Contêineres frigoríficos nas portas dos hospitais. Abertura de covas múltiplas nos cemitérios. A falta de condições primárias que ocasionará mortes de pessoas em casa, no maior sofrimento e sem assistência.

Dia 17 de abril de 2016, há 4 anos, a votação do impeachment da presidenta Dilma foi o museu dos horrores da nossa vida política. Foi patético demais! Aquelas figuras grotescas davam o GOLPE enquanto se autoproclamavam maravilhosos cidadãos, maridos, pais de família. E o detalhe principal: a dedicatória do voto do então deputado federal Jair Bolsonaro a um dos torturadores mais escabrosos do período da ditadura: cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra! O jovem deputado federal Jean Wyllys não se conteve e cuspiu na cara de Jair.

E nada mais aconteceu! NADA!!! A gentalha comemorando é um quadro de horrores que não será esquecido pela História! Mas, naquele momento, naquele dia, com nosso silêncio, o Brasil deixava de ser o Brasil. Nós todos compactuamos com o fim da incipiente democracia!

E agora, José? Nada podia parar e TUDO PAROU! Trancada em casa, fazendo parte do grupo dos velhos com mais de 60 anos, escuto o novo ministro da Saúde explicitar sua linha de conduta: recursos mínimos; haverá necessidade de escolhas: entre um velho e um jovem, não tem muito o que pensar. Pois eu digo: há muito que se pensar! E não só o sr. Ministro.

Garimpeiros, de Nair Benedicto, Amazônia, 1985.



Por que o Brasil não dá certo?

Um país que quer ser uma Nação não poderia admitir torturadores e muito menos elogios a eles. Em 2016 poderíamos ter decidido um 2020 diferente. Não podemos perder esta nova oportunidade que o vírus nos dá. Temos uma pausa para reflexão. Sabemos o que foi o AI-5? Queremos ele de volta, como o não presidente e seus filhos continuam a ameaçar? Queremos que o Congresso seja fechado? Queremos agraciar torturadores? Queremos mais e mais agrotóxicos? Genocídios? Feminicídios? Mais e mais violência? Continuar humilhados por essa desigualdade diante de nossos olhos?

Garimpo e desmatamento, de Nair Benedicto, Aldeia Gorotire.



Por que o Brasil não dá certo?

Amanhã quero acordar pensando no futuro que o Domenico De Masi afirma que o Brasil ainda tem, mas para isso precisa de decisões urgentes!! A Sociedade está nua! Estamos nus! Que todos nós aproveitemos para nos enxergar no espelho. Que percebamos a importância de cada um de nós – trabalhadores e a força estranha que vem da periferia, se auto-organizando e achando soluções para suas questões vitais mais rápido que o governo. Precisamos OUVIR os Índios, os Negros, as Mulheres.

Que tenhamos aprendido que o planeta é FINITO! E quase o destruímos com condutas inadequadas no nosso cotidiano. Precisamos mudar! Agora!

A VIDA é um direito humano que todos têm. Em tempos de necropolítica, com certeza o governo não pensa assim! Estamos numa briga pesada por ELA! Chega de hipocrisia! De blá blá blá de 1% insatisfeito.

A vida exige Resistência! Luta! Dignidade! JÁ!
Olhos bem abertos!
E sem perder a ternura jamais! 


Nair Benedicto (1940) é fotógrafa formada em Rádio e Televisão pela ECA/USP. Foi fundadora da Agência F4 (1979), com Juca Martins, Delfim Martins e Ricardo Malta e do Núcleo dos Amigos da Fotografia – Nafoto (1991), com Stefania Bril, Rosely Nakagawa, Juvenal Pereira, Isabel Amado, Rubens Fernandes Junior e Fausto Chermont. Entre suas premiações, destaca-se o 11º Prêmio Abril de Fotojornalismo, em 1985. É autora dos livros A Greve do ABC (1980), A Questão do Menor (1980), em parceria com Juca Martins, e As melhores fotos de Nair Benedicto (1988), entre outros.

MAIS FOTOS DE NAIR BENEDICTO


Nair Benedicto. Workers on strike at the Caterpillar factory gate. São Paulo, June, 1978. F4 Agency.

Nair Benedicto. Frontline of the rally in the centre of São Paulo, following the worker Santo Dias da Silva’s funeral procession. São Paulo, 31/10/1979. 
F4 Agency.


Nair Benedicto. Strikers gathered in permanent assembly at the Main Church. São Bernardo do Campo, 26/04/1980. F4 Agency.





















Nair Benedicto (foto de Mel Coelho)



Nair Benedicto se dedica a documentação de temas sociais, com destaque para a situação da mulher, por mais de quatro décadas. Preocupada com a representação do que realmente está vendo em seus personagens e o contexto onde está inserida cada história, Nair faz mais do que uma fotografia, cria cumplicidade entre autor e fotografados. A confiança logo se transforma em diálogo e as imagens dos índios, das mulheres, dos trabalhadores, das manifestações populares e das crianças, viram vozes. Sua fotografia é humana. Nair é generosa e compartilha o que viu e viveu, e não foi pouco..

Nasceu em São Paulo, em 1940, onde ainda hoje vive e trabalha. Como fotógrafa documentou o País e a América Latina desde a década de 70. Aos 27 anos, mãe de três filhos e cursando faculdade, Nair foi presa pelo regime militar. Detida por nove meses, viveu o horror da tortura. Em 1979, fundou a F4, agência de documentação e jornalismo, ao lado de Juca Martins, Delfim Martins e Ricardo Malta. A F4 foi uma das primeiras agências independentes do país e teve papel importante na discussão dos problemas da categoria, como direito autoral e o crédito obrigatório. Seus trabalhos foram publicados em diversas revistas nacionais e internacionais. Suas fotografias integram os acervos do MoMA/NY, do MAM/RJ e da Coleção Masp-Pirelli/SP. Realizou exposições em São Paulo, Rio de Janeiro e em outros países como França, Espanha, Cuba, Itália, Estados Unidos, Suíca, Equador e México. Em 1991 fundou a N Imagens, onde atua até hoje.

”A diferença nos enriquece como seres humanos. Aprender a ser gente! Ir além do Homem. É em nome desse valor que devemos nosso respeito à terra, à água, aos animais, às arvores, às flores e a todos os viventes deste planeta onde vivemos. Já perdemos tempo demais. Mãos à obra!”, essa é a Nair Benedicto.

Nair foi mulher pioneira na cobertura de manifestações e greves, na década de 70, e Tuane Fernandes se destaca na rua com sua corajem e determinação. Nunca encontrei nenhuma das duas sem a câmera, estão sempre prontas para novas histórias!



Nair Benedicto







Fonte
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